sábado, 8 de novembro de 2025

Somnium 128

Está disponível o número 128 do Somnium, fanzine digital do Clube dos Leitores de Ficção Científica, editado por Rubens Angelo, Eduardo Torres, Gerson Lodi-Ribeiro, Sidemar Vicente de Castro e Luiz Felipe Vasques. 
O volume tem 59 páginas e traz contos de Fábio San Juan, Lynn Venable e Lailton Garcia, artigos de Gian Danton e C. R. Rohling, e um portfólio do ilustrador Carlos Hollanda, autor da capa da edição. 
O Somnium é gratuito e pode ser baixado gratuitamente aqui, em versão pdf. Outras edições também estão disponíveis.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Finalistas do Argos 2025

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, provido anuamente pelo Clube dos Leitores de Ficção Científica-CLFC, reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior. 
Em 2025, o clube realizou uma consulta prévia entre os seus membros e definiu os finalistas para cada uma de suas três categorias. São eles:
Melhor romance:
- Garras, Lis Villas-Boas, Rocco;
- Kerigma, Ricardo Labuto Gondim, Avec;
- Novas do Purgatório, Gérson Lodi-Ribeiro, de autor;
- O Torneio de Sombras, Fábio Fernandes, Avec;
- Sentinela, Julianne Vicente, Malê.
Melhor antologia ou coletânea:
- 2057, Carlos Hollanda & Rafael Senra, orgs., Verter;
- Além do Véu da Verdade, João Beraldo, org., de autor;
- Cristalina como as lágrimas, Carlos Relva, de autor;
- No limiar, Lu Evans, org., Nebula;
- Literatura Fantástica Vol. 20, Jean Gabriel Álamo, org., Álamo.
Melhor conto:
- "Alexandra, a Grande"; Carlos Relva, Cristalina como as lágrimas;
- "Mensagem instantânea", Fábio Fernandes, Além do Véu da Verdade;
- "Pista Norte", Ursulla Mackenzie, Cidades Inversas;
- "Pulsão de morte", Alexey Dodsworth, Além do Véu da Verdade;
- "Um vínculo inquebrável", Renan Bernardo, Além do Véu da Verdade.
Os nomes serão submetidos a um segundo turno com votação direta do público, através da internet. Os vencedores serão divulgados dentro de algumas semanas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Resenha: Tupinilândia, Samir Machado de Machado

Tupinilândia, Samir Machado de Machado. 454 páginas. São Paulo: Todavia, 2018. 

Nada é mais estimulante do que ler uma história em que o sentido de maravilhamento se faz presente. Isso é cada vez mais difícil para um leitor veterano, já tão distante daquela tenra idade em que tudo soa maravilhoso. O leitor da fantasia se esforça, busca por isso, mas raramente reencontra o mesmo senso do maravilhoso de suas primeiras leituras. No meu caso, eram os romances de Julio Verne, as aventuras do Tarzan de Edgar Rice Burrougs e os contos de Ray Bradbury. E ainda mais difícil é encontar esse tipo de sensação na literatura brasileira, tão sofrida quanto o povo daqui. São muitas tristezas, muitas tragédias, muita violência, que acampanham os habitantes de Pindorama desde o dia em que os navegantes portugueses desembarcaram em 1500. 
Por isso é preciso falar de Tupinilândia (Todavia, 2018). Nada poderia ser mais antropofágico, no sentido estrito de Mario de Andrade, do que este romance do escritor portoalegrense Samir Machado de Machado, autor com muita experiência no fantástico, tendo sido organizador e editor da revista Ficção de Polpa, publicada entre 2009 e 2013 pela Não Editora, um dos melhores periódicos literários do gênero no país. Machado também publicou antes alguns títulos bem recebidos pela crítica, como O professor de botânica (2008, Não) Quatro soldados (2013, Rocco) e Homens elegantes (2016, Rocco). 
Mas é em Tupinilândia que o fenômeno acontece. Trata-se de uma fabulação divertida e empolgante, cheia de ação e aventura, sem se afastar daquilo que nos une como nação. 
A história conta a aventura de um grande empreiteiro brasileiro que, depois de ter encontrado Walt Disney em sua visita ao Brasil em 1941, quando ainda criança, e apaixononado por cinema, nunca mais se afastou de ambos. Leitor ávido dos quadrinhos de Carl Barks, foi construindo ao longo da vida o projeto de um parque temático que repetisse no Brasil os mesmos conceitos de cultura e identidade para os brasileiros que a Disneylândia tem para os americanos. Ao herdar a fortuna da família, passa a investir parte de seu patrimônio na aventura de construir próximo às margens do Rio Xingu, em pela floresta amazônica paraense, a sua Tupinilândia. Enquanto a triste história do Brasil acontece lá fora, o projeto é tocado em segredo com o patrocínio grandes empresas nacionais.
Em 1984, em plena campanha eleitoral para escolher o primeiro presidente não militar depois dos vinte e um anos de ditadura, o parque está quase pronto, e para lá vai um seleto grupo de pessoas, entre empresários, apoiadores e familiares, convidados para conhecer o lugar em primeira mão. É claro, desde o princípio, que aquilo está fadado ao fracasso, mas algo tão grandioso não pode simplesmente acabar sem deixar consequências. E elas virão.
O romance está dividido em duas partes, mais um prólogo e um epilogo. A primeira parte, chamada "Versão Brasileira", conta sobre os dias finais de conclusão do ousado projeto e os dias da visita-piloto ao parque. Tupinilândia – o parque – é, obviamente, apenas uma criação de Machado, mas bem que poderia não ser. Na verdade, seria maravilhoso se fosse real. Deveria ser. 
Gosto especialmente do momento em que o autor, na figura de um jornalista contratado para escrever um livro sobre o parque, descreve as histórias em quadrinhos do personagem Arthur Arara, a versão tropical do Mickey Mouse. Como seria bom ler aquelas revistas! Sinceramente, espero que, algum dia, inspirado pela leitura de Tupinilândia – o romance –, algum quadrinhista decida dar corpo a elas, como aconteceu com as histórias de "O Escapista", citadas por Michael Chabon em seu aclamado romance As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (2000). Mas o maravilhamento não para por aí. Na verdade, a coisa só melhora a cada capítulo.
Essa primeira parte está dividida em três apisódios, que levam nomes de grandes romances da ficção científica: "1984", "Admirável mundo novo" e "Não verás país nenhum".
A segunda parte tem o título de "Mundo perdido", que dá a dica do que aconteceu ao parque trinta anos depois, e também está dividida em três episódios, que homenageiam filmes de cinema do gênero: "Uma nova esperança", "A terra em que o dia parou" e "De volta para o futuro". 
O livro é uma colcha de retalhos de citações e homenagens, muitas das quais só os entendidos em cultura pop vão "pescar". Mas não é preciso tanto. Há muitas outras que são deliciosamente explícitas e constituem a maravilhosa recriação cenográfica do Brasil dos anos 1980, além de muitos outros detalhes que remetem a uma brasilidade sessentista e setentista que mesmo quem não a viveu vai reconhecer. E mais não digo, para não estragar as supresas. 
O que ainda posso dizer é que Tupinilândia é uma ficção política muito bem engendrada. Ótima narrativa, divertida, historicamente correta, cheia de referências que dão consistência à trama, com um clima meio delirante, meio onírico, mas profundamente brasileiro e politicamente oportuno.
O livro ainda traz, a moda dos romances de fantasia, um mapa de Tupinilândia com arte de Fernando Heynen e Kako, sendo que este último é também responsável pela ilustração espetacular da capa, numa representação da Tupinilândia em 2015 que sugere uma bandeira do Brasil com o Mickey Mouse ao centro. 
Coloque Tupinilândia agora em sua lista de leitura. Garanto que não vai se arrepender.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Lançamentos: Três vezes Ursula

Depois de um recomeço algo tímido, a Editora Morro Branco, agora um selo do grupo editorial Alta Books, engrenou a quinta marcha e lançou uma mancheia de títulos muito interessantes, de fantasia, ficção científica e horror, dentre os quais se destacam três títulos da grande mestra da fcf mundial, Ursula K. Le Guin, escritora americana consagrada com diversos prêmios Hugo e Nebula, cuja obra tem sido resgatada para a língua portuguesa pela Morro Branco. 
Lavínia (Lavinia), originalmente publicado em 2008, é o mais significativo da safra, pois trata-se de um título inédito, vencedor do Prêmio Locus de melhor romance de fantasia. 
Diz o texto de apresentação: "Na Eneida, o herói de Virgílio luta para conquistar Lavínia, a filha do rei, com quem está destinado a fundar um grande império. Mas, nessa história, Lavínia nunca diz uma palavra. Agora, Ursula K. Le Guin dá voz a Lavínia em um romance que nos transporta para o mundo primitivo da antiga Itália, quando Roma não passava de uma aldeia lamacenta aos pés de sete colinas. Lavínia cresce em meio a paz e a liberdade, até que pretendentes aparecem. Sua mãe deseja que ela se case com o belo e ambicioso Turno, mas presságios e profecias das fontes sagradas afirmam que seu destino é outro: ela deve se casar com um estrangeiro. E mais: ela será a causa de uma guerra amarga, e que seu marido não viverá muito tempo. Quando uma frota de navios troianos chega pelo Tibre, Lavínia decide tomar as rédeas de seu próprio destino. E assim, ela nos conta o que Virgílio não contou: a história de sua vida e do grande amor que viveu."
O volume tem 288 páginas e tradução de Helena Coutinho.
Ou outros dois títulos são novelas de ficção científica não-inéditas no Brasil: saíram primeiro pela Editora Tecnoprint nos anos 1970. O planeta do exílio (Planet of exile, 1966, 160 páginas) narra os conflitos entre uma colônia terrestre e os habitantes nativos do gelado planeta Werel durante seu longo inverno de quinze anos. A tradução é de Marcia Men.
O mundo de Rocannon (Rocannon's world, 1966, 192 páginas), primeiro livro escrito por Le Guin,  conta a história do único humano sobrevivente de uma missão de reconhecimento a um planeta sem nome, que precisa liderar os povos nativos contra uma invasão alienígena. A tradução é de Heci Regina Candiani.
Os três títulos, que sem dúvida elevam o padrão de qualidade média da fcf traduzida no Brasil, podem ser encontrados no saite da Morro Branco, aqui, junto a muitos outros títulos disponíveis de seu invejável catálogo.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Lançamento: A vida das nebulosas, Olaf Stapledon

Chegou aos assinantes a edição de outubro da Coleção Andarilhos, clube de assinaturas da Editora Andarilho dedicado à publicação mensal de livros de bolso de ficção fantástica clássica e inédita, de autores pouco conhecidos. 
A edição apresenta a novela de ficção científica A vida das nebulosas (Nebula maker) do escritor e filósofo britânico Olaf Stapledon (1886-1950), escrita por volta de 1933, mas só publicada em 1976 com o título de Star maker. Stapledon é considerado um dos grandes da ficção científica mundial que, em 2014, foi incluido no Science Fiction and Fantasy Hall of Fame. Stapledon também apareceu pela editora em um box com dois volumes: Sirius (Sirius: A fantasy of love and discord, 1944) e O estranho John (Odd John: A story between Jest and Earnest, 1935), 
Diz texto de apresentação de A vida das nebulosas: "Antes do homem, antes dos planetas, existiu um tempo em que o próprio universo pensava. A vida das nebulosas conta sobre o despertar da consciências cósmica: inteligências que moldam o cosmos e enfrentam dilemas tão humanos quanto os nossos".
O volume tem 168 páginas, tradução de Gustavo Terranova Aversa e, junto a ele, os assinantes recebem um marcador de páginas personalizado e uma sacolinha plástica da editora.
Com este volume, a Editora Andarilho anunciou o encerramento da Coleção Andarilhos. Mas ainda é possível adquirir os volumes já publicados no saite da Andarilho, aqui. Vale o investimento pois esta é, certamente, uma das melhores coleções de literatura fantástica já publicadas no Brasil, com títulos inéditos e raros que possivelmente não voltarão a ter reedições em um futuro próximo. Deixará saudades.

sábado, 1 de novembro de 2025

Resenha: A ilha do Dr. Shultz, Ataide Tartari

A ilha do Dr. Shultz
(Tropical shade), Ataide Tartari. 193 páginas. Santos: Do autor, 2013.

Em meados dos anos 1980, um achado movimentou a imprensa internacional. Foram encontrados, no Brasil, os restos mortais de Josef Menguele, o anjo da morte de Aushwitz que, desde o final da Segunda Grande Guerra, em 1945, vinha sendo procurado por todo mundo pelos caçadores de nazistas. É em torno desse fato histórico que o escritor paulistano Ataíde Tartari constrói o enredo de A ilha do Dr. Shultz que, há anos, estava na minha lista de leitura. 
A história acompanha as trajetórias de dois homens negros no Brasil recém redemocratizado. O primeiro, judeu africano, é uma espécie de agente secreto a soldo de uma instituição norte-americana que, a partir da descoberta do restos de Meguele, busca por pistas de outros nazistas escondidos no Brasil. O outro é um norte-americano afrodescendente que, farto da vida miserável que levava em seu país, vem ao Brasil em busca de um tratamento especial que prometia tornar branca a sua pele. Os caminhos desses dois homens, ambos em busca de redenção, vão se cruzar numa ilhota no litoral do Rio de Janeiro, conhecida como Ilha dos Negros Aço, onde vive um cientista que parece deter técnicas efetivas de branqueamento da pele negra. 
A história não é exatamente fantástica apesar da premissa de ficção científica; é quase realista para dizer a verdade. Não tem viradas dramáticas a cada capítulo, apenas segue em frente, sem barrigas. É um texto preciso e enxuto, que envolve e faz o leitor se importar com os personagens. 
A ilha do Dr. Shultz é surpreendente mesmo para os altos padrões do autor. É incrível sua capacidade em arredondar personagens usando poucos parágrafos, construir ambientes e manipular as tensões. O domínio sobre o enredo é preciso, com uma reconstrução histórica competente da São Paulo dos anos 1980. Possivelmente, este seja tecnicamente o melhor texto do autor. 
Tartari é um autor formado na Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, com diversos contos excelentes publicados nos fanzines. Seu primeiro livro foi o romance de fc  EEUU 2076, (1987, Edicon), publicado sob o pseudônimo de A. A. Smith. Também publicou a novela Sideral no buraco sem fundo de Parnarama (2012, Nova Espiral) e as coletâneas O triângulo de Einstein (2012, Nova Espiral), 17 histórias alternativas, cômicas e futuristas (2013, Virtual) e Veja seu futuro (2017), além dos romances originalmente escritos em inglês Amazon ( 2001, iUniverse) e Tropical shade (2003, iUniverse), sendo este último o original de A ilha do Dr. Shultz, traduzido pelo próprio Tartari.
Vale a pena buscar pelos textos do autor, muitos dos quais seguem disponíveis, como A ilha do Dr. Shultz, aqui.