Mostrando postagens com marcador Orson Scott Card. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Orson Scott Card. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir republicou em 2006 O jogo do exterminador, seguido de O orador dos mortos em 2007 e, finalmente em 2010, a terceira parte da saga, até então inédita em língua portuguesa, Xenocídio.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu O jogo do exterminador sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O orador dos mortos conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica já publicados no Brasil. O fato de não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, abrindo a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais seis romances, uma coletânea e diversos romances e novelas spinoffs nas séries Shadow saga, Formic wars e Fleet school –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, bem como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Na tela: O jogo do exterminador

No último dia 11, estive entre os convidados de uma cabine especial do movimentado longa metragem O jogo do exterminador (Ender's game), realizada na sala de exibição da Paris Filmes, no Pacaembu, em São Paulo, com o apoio da Devir Livraria, editora que atualmente publica a tradução do romance que deu origem ao filme.
O jogo do exterminador, que estreia no Brasil no dia 20 de dezembro com direção de Gavin Hood, conta a história de um grupo de adolescentes liderado por Andrew "Ender" Wiggin – interpretado por Asa Butterfield –, que é treinado pela forças armadas da Terra para enfrentar uma raça de alienígenas que, 40 anos antes, tentou invadir o planeta e foi repelida depois de uma batalha que quase custou a extinção da humanidade. Preocupada com uma eventual nova onda de ataque, a Terra construiu uma pequena frota de astronaves armadas, já a caminho do planeta natal dos alienígenas – os formics – para retaliar e impedir que, no futuro, a Terra seja novamente vitimada. Mas falta à frota um estrategista, alguém que tenha a habilidade de entender o modo de ser dos alienígenas, antecipar suas reações e garantir a vitória da frota terrestre. Ender tem um casal de irmãos mais velhos que também passaram pelos treinamento, mas foram rejeitados. Contudo, o desempenho de Ender agrada ao coronel Graff – interpretado por Harrison Ford – que, pressionado pelo tempo, decide acelerar o seu treinamento, submetendo-o a pressões cada vez maiores, de forma a tê-lo pronto no momento crucial. Ender é um garoto sensível que aprendeu a ser cruel quando necessário, e a relação conflituosa que tem com os irmãos influencia determinantemente sua forma de agir para com colegas, adversários e, principalmente, alienígenas.
A história foi originalmente imaginada pelo escritor norte-americano Orson Scott Card, para um conto, depois expandido em romance. Ambos ganharam os mais importantes prêmios da fc internacional, sendo uma das maiores unanimidades do gênero entre leitores e crítica. No Brasil, o conto original foi publicado na revista Isaac Asimov Magazine em 1991, ano em que também foi publicado o romance pela Editora Aleph.
A maior parte do filme, como também do romance, é dedicada a construir a psicologia amargurada de Ender e seu treinamento martirizante, embora tudo soe menos dramático no filme.
Uma das coisa que fazem falta à versão filmada é o aprofundamento da relação entre Ender e seus irmãos, que praticamente não é explorada. As ricas nuances da psicologia de Ender ficam assim esmaecidas e algumas de suas atitudes parecem um tanto injustificadas. O filme também exagera na presença em tela do coronel Graff, para capitalizar a figura de Hans Sol..., quero dizer, Harrison Ford.
Do ponto de vista técnico, o filme parece feito para ser visto em 3D, que não esteve disponível na seção, pois as cenas grandiloquentes e movimentos amplos e angulosos dos personagens sugerem expansão para além da tela. Sem o efeito mágico do 3D, o design e os efeitos especiais, ainda que adequados, parecem previsíveis e já vistos, assim como os cenários, veículos e figurino, geralmente pontos altos nos filmes de ficção científica, que não surpreendem em nenhum momento. Portanto, se possível, dê preferência para ver este filme em 3D.
Um detalhe fundamental no livro, o ansível – comunicador instantâneo para o espaço profundo, que transcende a velocidade da luz –, ideia que Card emprestou dos romances de Ursula K. Le Guin, mal é citado e não repete, no filme, o efeito de maravilhamento científico que permeia o romance e dá sentido a importantes aspectos da trama. Dessa forma, desperdiçam-se os melhores detalhes da história original, em favor da digestividade que os produtores de Hollywood acreditam ser fundamental para o expectador moderno. Para eles, até uma história escrita para adolescentes parece ser difícil de entender.
O grande mérito do filme, portanto, é recriar interesse sobre o romance, atualmente disponível nas livrarias sob o selo Pulsar da Devir Livraria. O jogo do exterminador ganhou até uma nova edição, com imagens do filme em sua capa. Também podem ser encontrados, pela mesma editora, as sequências O orador dos mortos (Speaker for the dead), Xenocídio (Xenocide) e Os filhos da mente (Children of the mind), que têm o interessante detalhe de se passarem numa colônia no planeta Lusitânia, formada por cientistas brasileiros! Isso porque Card conhece muito bem o Brasil, tendo vivido aqui como missionário nos anos 1970. Ele fala português perfeitamente e tem uma grande afeição pelo País, o que, por si só, já torna irresistível a leitura desses livros.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pulsando

A Devir Livraria anunciou recentemente o lançamento de dois novos títulos em sua Coleção Pulsar, dedicada à literatura de ficção científica. O primeiro deles é Os filhos da mente (Children of the mind), quarto e último volume da saga de Ender Wiggin, multipremiada space opera de Orson Scott Card, escritor norte americano que tem uma antiga relação com os brasileiros.
Os dois primeiros volumes da série, O jogo do exterminador e Orador dos mortos, foram traduzidos no Brasil nos anos 1980, pela Editora Aleph, e republicados recentemente pela Devir, que deu-lhes sequência em 2011 com Xenocídio. A série conta a história de Ender, um menino superdotado que foi levado pelo governo do mundo a exterminar toda uma civilização alienígena. Apesar de ter sido enganado, ele se sente responsável e passou boa parte de sua vida vagando pelo universo, como o orador daquele povo assassinado. Finalmente, ele chega ao planeta Lusitânia, colonizado por um grupo de brasileiros que tenta se entender com os habitantes locais, seres de fisiologia intrigante que passam a juventude como animais e a maturidade como vegetais. Isso acontece por causa de um vírus, o Descolada, que faz parte da ecologia lusitânia mas é mortal pera os seres humanos. Para impedir que o vírus escape, o governo galáctico envia ao planeta uma esquadra de extermínio, e os habitantes de Lusitânia lutam contra o tempo para descobrir uma forma de neutralizar o vírus e evitar um novo xenocídio que agora ameaça nada menos que três espécies inteligentes.
Os filhos da mente tem 352 páginas, tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e capa de Vagner Vargas.
O segundo lançamento anunciado é o romance Glória sombria, de Roberto de Sousa Causo, primeira aventura do personagem Jonas Peregrino, visto em histórias curtas publicadas em diversas antologias desde 2009. Jonas é um ex-militar que tornou-se herói depois de lutar numa feroz guerra espacial. Sua reputação e seus conhecimentos tornam-se interesse de várias organizações governamentais e privadas, que o recrutam para que realize missões especialmente difíceis. A ilustração da capa também é assinada por Vagner Vargas. A editora não revelou qual seria o enredo desta nova história do personagem, mas já anunciou que será o primeiro de uma série. O segundo volume, chamado Mestre das marés, está programado para 2014.
Mais informações sobre este e outros lançamentos da Devir podem ser obtidas no saite da editora.