quarta-feira, 22 de julho de 2026

Lançamento: Paraíso sísmico, Paisagem Personas

Paisagens Personas é mais um dos infinitos heterônimos do escritor paulista Nelson de Oliveira, que desenvolve inúmeras ações voltadas a arte da criação literária. Uma de suas muitas teses é o conceito de literatura-arte e literatura-artesanato, e é sobre isso que trata seu novo livro de não-ficção Paraíso sísmico: As subversões criativas da escrita literária. Como o próprio autor diz, "um convite a todos que desejam assimilar os mecanismos da expressão literária e do pensamento crítico".
Diz o texto de apresentação: "As pessoas estão cada vez mais interessadas em aprender e dominar os mecanismos da expressão literária, se possível num espaço estimulante e pleno de liberdade. Esse interesse está diretamente relacionado à busca da compreensão mais ampla da vida e da sociedade. Um bem-vindo efeito colateral do exercício constante da escrita literária é o aprofundamento da subjetividade estética."
Paraíso sísmico tem 292 páginas e é uma publicação da Alta Books pelo selo Faria e Silva.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Somnium 129

Está disponível o número 129 do Somnium, fanzine digital do Clube de Leitores de Ficção Científica, editado por Rubens Angelo, Eduardo Torres, Gerson Lodi-Ribeiro, Sidemar Vicente de Castro e Luiz Felipe Vasques. 
O volume tem 81 páginas e traz contos de Cesar Alcázar, João Gomes, Dario Andrade e Sid Castro, artigos de Cesar Silva sobre os editores do Somnium, e de Eduardo Torres sobre o Hélio-3; resenha de Rubens Angelo a antologia Científica Ficção 1 (2023, Tramatura); e um relato sobre ufologia, não creditado. Rubens Angelo assina a ilustração da capa. 
O Somnium pode ser baixado gratuitamente aqui, unicamente em versão pdf. Outras edições também estão disponíveis.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Juvenatrix 285

Está disponível a edição de agosto do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti. 
Em dezessete páginas, traz contos de Krzysztof Dabrowski (Polônia), história em quadrinhos de Beralto, e resenhas aos filmes de cinema Terror no cemitério (1965), O monstro atômico (1957), A volta do Homem Colossal (1958), O gorila matador (1940), O beijo da tarântula (1975) e Ameaça espacial (1956), todas assinadas por Rosatti
A edição é completada com notícias e divulgação de livros, publicações alternativas e de bandas de metal extremo. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Cópias em formato pdf podem ser obtidas pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

sábado, 18 de julho de 2026

Em campanha: Vulcânicos, Raul Tabajara

"Na cidade futurista do Boqueirão, onde os bares servem caipirinha e os jovens andam em Kombis tunadas, também vivem os descendentes dos antigos super-heróis. Seus poderes são muito fracos. Alguns levitam pequenos objetos, outros acendem cigarros com os dedos, mas os descendentes de vulcânicos, esses são um problema! Não ter controle e transformar partes do próprio corpo em lava causam traumas e problemas mentais. Uma crise de nervos pode levá-los à auto-explosão, ferindo todos à sua volta. Daniel, o Agente da Força de Contenção de Supers, tem o dever de monitorar vulcânicos. Mas qual é o limite entre segurança pública e eugenia?"
Este é o texto de apresentação de Vulcânicos, romance do escritor Raul Tabajara, que está em campanha de financiamento direto para viabilizar sua publicação. O livro terá cerca de 300 páginas e é uma publicação da editota Noctívaga.
A campanha recebe apoios aqui até o dia 31 de julho de 2026.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Resenha: Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, Ana Cristina Rodrigues.

Atlas ageográfico de lugares imaginados
; Ana Cristina Rodrigues. 256 páginas. Manaus: Lendari, 2019.

Desertos intermináveis são fortes no imaginário leitor, assim como grandes geleiras, montanhas altíssimas, rios muito longos ou muito largos, florestas fechadas, mares desconhecidos, etc. São imagens de fundo sublime, que atraem e assustam. São, em seu fulcro, uma espécie de representação do divino, tão poderoso diante do ser humano que este se sente absolutamente incapaz de enfrentá-lo. Desertos aparecem com frequência na literatura fantástica. Duna, de Frank Herbert, é o exemplo mais destacado, mas está longe de ser único. A famosa série A torre negra, de Stephen King, inicia o primeiro volume, O pistoleiro, justamente assim: "O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás". O quanto basta para capturar a atenção do leitor e mantê-lo atento pelos sete volumes da série. Mais recentemente, as escritoras Nnedi Okorafor (Quem teme a morte) e N. K. Jemisin (Lua de sangue) também usaram desertos sem fim para desenvolver suas histórias. 
Logo, não é de surpreender que a escritora carioca Ana Cristina Rodrigues tenha notado esse valor e instalado os personagens de seu romance Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados em uma jornada por um deserto mítico impossível em busca de redenção e de memórias perdidas. O livro foi publicado em 2019, pela manauara Editora Lendari.
A história acompanha três dias de caminhada de um grupo formado por uma jovem bibliotecária, um homem-morcego, o Rei-Máquina e um cavalo, que estão no tal deserto sem ter ideia de como foram parar lá. Sem água, sem alimento e sem abrigo, eles terão de colaborar uns com os outros para sobreviver e chegar a algum lugar que faça sentido em suas existências miseráveis. Cada um deles traz em si um sentimento de culpa que, conforme a caminhada avança, se revela em seus detalhes mais sórdidos; exceto pelo cavalo que, aparentemente, não está ali pelos mesmos motivos. A cada dia, o grupo é confrontado por uma entidade misteriosa que os desafia e conduz em direção a determinados pontos do deserto nos quais serão testados em seus limites físicos e emocionais.
O conceito do Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados é muito interessante pois trata de um livro mítico que registra a exitência de lugares de existência fugidia, criados e descriados conforme a vontade e conveniência dos deuses. A autora intercala os capítulos do romance com verbetes do Atlas, que trata de lugares em que os personagens visitaram ou visitarão em algum momento de suas vidas: o Deserto da Negação, a Cidade Sem Nome, o Oásis do Possível, a Cidade de Lata, o Desfiladeiro sobre o Vazio, os Penhascos do Ontem, e muitos outros. 
É evidente que o romance é uma expansão do conto "O longo caminho de volta" que apareceu na coletânea da autora Anacrônicas (Aquário, 2014) – e também na antologia Cidades indizíveis (Liyr, 2011) –, inserido integralmente no corpo do romance, acrescido de prequela e sequela. Não parece que as histórias dos demais personagens tenham sido também contos independentes, mas funcionam mais ou menos da mesma forma, de modo que o romance tem a textura de uma colcha de pequenos retalhos que vão se interligando até um desfecho comum. 
Trata-se de um bem realizado exercício criativo de Rodrigues, com poucos paralelos na ficção fantástica brasileira. Não seria demasiado dizer que é a sua obra-prima, ainda que se possa identificar algumas soluções incômodas ao estilo deus-ex-machina, mas que são aceitáveis diante da complexa estrutura da narrativa.
Para os que curtirem as ideias do Atlas ageográfico de lugares imaginados, a autora ainda oferece o conto Elegia etérea para o enterro da última quimera, publicado em 2015 unicamente em formato virtual.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Lançamento: Oriki, Henrique André & Rafael Calça

"No ano de 2978, Anayo vive com sua avó Ayodele na aldeia de Akintoye. A menina estranha o apego da avó, a maior cientista da aldeia, às histórias do passado, enquanto as novas gerações parecem cada vez mais distantes de suas origens. Diante disso, Ayodele é convocada pelo conselho da aldeia a criar algo capaz de restabelecer esse vínculo. Surge então o Oriki, uma tecnologia que conecta quem a utiliza às memórias de seus antepassados. Ao experimentar essa invenção, Anayo descobre que imaginar o futuro não significa deixar o passado para trás, mas reconhecer nas histórias herdadas os caminhos que ainda estão por vir."
Este é o texto de apresentação do livro infantil Oriki, ficção científica afrofuturista que inaugura o gênero na editora. Trata-se de um livro ilustrado, de 32 páginas, com texto do escritor paulista Henrique André, que já teve outras obras afrofuturistas editadas, inclusive pela Kitembo – editora especialista no gênero –, e as belas ilustrações do também paulista Rafael Calça, que tem no currículo os prêmios Jabuti e HQMix, e deu à narrativa contornos de uma história em quadrinhos.
Uma ótima porta de entrada para formação de jovens leitores no gênero.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Resenha: Quimeras do agora, Ana Rüsche

Quimeras do agora: Literatura, ecologia e imaginação política no Antropoceno
, Ana Rüsche. 152 páginas. São Paulo: Bandeirola, 2025.

Só pelo título já dá para concluir: Quimeras do agora é um livro acadêmico. E é mesmo. Trata-se de um ensaio elaborado pela pesquisadora Ana Rüsche durante o pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), publicado em 2025 pela Editora Bandeirola. Os temas do trabalho, como se pode imaginar, são as mudanças climáticas e a ficção científica. Um tema complexo, sem dúvida, uma vez que a crise climática não é consenso entre os  intelectuais. Muitos deles ainda afirmam que o aquecimento global é um fenômeno natural que nada tem a ver com a ação humana sobre o planeta e que é a leitura marxista do mundo que leva a essa interpretação radical. 
Rüsche não entra no mérito; seu objetivo é identificar exemplos do tratamento do tema na produção literária de ficção científica e nisso é um trabalho provavelmente pioneiro no ambiente acadêmico brasileiro. A pesquisadora tem se dedicado às questões ambientais na ficção científica, que ganharam fôlego com o surgimento de um tipo de ficção especificamente voltado às questões ambientais, que tem sido chamado de Solapunk, sobre o qual também ainda não há consenso. Tudo é muito novo e um tanto assustador, mas tem conquistado autores e muitas parte do mundo, como é possível conferir na antologia Como aprendi a amar o futuro, organizada por Francesco Verso e Fabio Fernandes, e publicada em 2023 pela Editora Plutão (com uma resenha disponível aqui). Mas a pesquisa de Rüsche tem objetivos mais profundos e tão interessantes quanto. 
O ensaio tem introdução do biólogo Marcos Rodrigues (Unicamp) e um apêndice de referência sobre obras citadas. O corpo principal do texto está dividido em oito capítulos. 
Os dois primieros, "Um demônio com muitos nomes" e "Antropoceno: um nome para o consenso científico?" – que abrangem praticamente metade do ensaio –, são dedicados a elaborar uma levantamento genealógico do termo "Antropoceno" que, na definição do senso comum, poderia significar uma era geológica marcada pela ação humana sobre o meio ambiente. Mas Rüsche não se limita a essa leitura superficial e se aprofunda em inúmeras definições outras, que passam pelo "Capitaloceno" de Andreas Malm, o "Plantationceno" de Anna Tsing, o "Chthuluceno" de Donna Haraway, entre outros. Trata-se da parte mais interessante e rica do ensaio, com muitos aspectos próprios para citações em pesquisas futuras.
Em "Monstros mostram: a fantasia de Frankenstein", Rüsche inicia a aproximação das questões ambientais com a fc propriamente dita, buscando detalhes da obra fundadora do gênero que possam ser vinculadas a conceitos antropocênicos, no qual teve de ser bastante criativa. 
"Um problema de cognição? A apatia e o capitalismo de vigilância" vai buscar vículos entre o Antropoceno e o capitalismo (reforçando a ideia de uma leitura marxista), cuja base mais evidente é a afirmação "é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo". Verdade. Isso leva a outra conclusão importante do ensaio, que identifica a absoluta inadequação da literatura realista em lidar com as questões climáticas. Logo, apenas a literatura especulativa – a ficção científica –, teria essa condição. E também é verdade. 
Em "Utopias e o paradoxo da quimera", "Ecocídio, devastação e resistência em Floresta é o nome do mundo" e "Distopias e colonialismo: a pedagogia da catástrofe" a pesquisadora finalmente mergulha na análise de obras de ficção científica (alguns diriam que nem tanto): Utopia, de Thomas More, Floresta é o nome do mundo, de Ursula K. Le Guin, e Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão – única obra de escritor brasileiro analisada.  
O trabalho é completado em "A petição pelo impossível", que conclui: "A literatura é um valioso campo de prova de nossas ideias mais delirantes, e precisamos justamente desse arroubos e delírios para nos devolver a capacidade de sonhar coletivamente." O que também é uma verdade.