A vida das nebulosas (Nebula maker), Olaf Stapledon, 168 páginas. Tradução de Gustavo Terranova Aversa. São Paulo: Andarilho, 2025.
O mais interessante em se vasculhar peças artísticas anteriores à estruturação de um modelo comercial para um gênero é encontar propostas inovadoras que não tiveram continuidade. Ideias ousadas, não raro arriscadas, que navegam águas desconhecidas e perigosas e podiam em poucas palavras deixar de ser um coisa para se tornar outra. Nem todos os leitores gostam disso, pois essa instabilidade temática traz uma certa insegurança quanto aos parâmetros desejáveis num produto de consumo. No caso da ficção científica, falamos de qualquer coisa anterior ao final da década de 1930, a partir de quando se estabeleceu a chamada Era de Ouro da FC, que estabeleceu a maior parte dos protocolos do gênero pelos editores das revistas pulp.
O escritor inglês Olaf Stapledon (1886-1950) é um desses pioneiros do gênero. Pacifista e Doutor em Filosofia ela Universidade de Liverpool, quando trabalhou temas ligados à Ética, mas foi na fc que encontrou terreno fértil para desenvolver suas teses. Não foi um autor de muitos livros, tendo escrito pouco mais de uma dúzia de obras de ficção. A novela A vida das nebulosas (Nebula maker), escrita por volta de 1933 mas só publicada em 1976, foi uma espécie de rascunho para outro de seus romances, o bem mais conhecido Criador de estrelas (Star maker), de 1937.*
A vida das nebulosas ganhou edição no Brasil em 2025, pela Editora Andarilho, com tradução de Gustavo Terranova Aversa. Está dividida em quinze capítulos, separados em quatro momentos: "O surgimento do universo e das nebulosas" (5 capítulos); "A natureza física, mental e social das nebulosas" (3 capítulos); "As guerras cósmicas e as lideranças dissidentes" (5 capítulos) e "O fim da era das nebulosas" (2 capítulos).
A narração é incomum: não há diálogos, tudo é contado através da intermediação de um narrador onisciente. Sua mente viaja através das eras até os primeiros momentos do contínuo espaço-tempo e o surgimento dos objetos cósmicos primitivos.
O testemunho é dado em tom de sofrimento, pois o narrador não consegue abster-se de sua visão, que é insuportavelmente lenta para os padrões da percepção humana. Ele é obrigado a acompanhar cada momento através de bilhões de anos de evolução, até o aparecimento das nebulosas primitivas. Testemunha o surgimento da inteligência nesses belos e curiosos objetos cósmicos, que apresentam diversos modos de ser e existir. Algumas nebulosas são autocontidas, separadas do resto do universo por distâncias impossíveis, enquanto outras vivem em pequenos agrupamentos e desenvolvem uma relação social entre si. A sociedade das nebulosas floresce, desenvolve linguagem, cultura e tecnologias. Mas, dentre estas, há um tipo em especial, que são as nebulosas predadoras, que movem uma campanha de subjugação sobre as demais e, logo, toda a sociedade das nebulosas enfrenta guerras e morte, com seus heróis e mártires, até o inevitável fim.
Trata-se, portanto, de uma peça sui-generis dentro da ficção científica, que se espraia entre o ensaio filosófico e a fábula, e diz muito mais sobre o ser humano do que sobre as nebulosas. Um texto a ser lido, sem dúvida, principalmente para que gosta de experimentar os diversos caminhos abandonados pelo desenvolvimento da ficção científica comercial.
Stapledon é considerado um dos grandes da ficção científica mundial e, em 2014, foi incluido no Science Fiction and Fantasy Hall of Fame.
* Criador de estrelas, publicado em 2021 pela Editora Skull.






