quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Resenha do Almanaque: Fazenda Modelo

Fazenda Modelo: Novela pecuária, Chico Buarque. 140 páginas. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1974.

Os anos 1970 foram uma espécie de interregno entre as duas principais gerações de escritores brasileiros que se dedicaram aos gêneros fantásticos e, mais especificamente, à ficção científica. Até 1969, tivemos uma boa quantidade de livros escritos pelos autores da chamada Primeira Onda da ficção científica brasileira, carinhosamente conhecida como Geração GRD, ainda que nem todos tenham realmente surgido sob a égide da legendária editora GRD: André Carneiro, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jeronymo Monteiro, Rachel de Queiroz, Nilson Martello, Guido Wilmar Sassi, Antonio Olinto, Levy Menezes e muitos outros. Muitos destes não construíram suas obras exclusivamente na fc&c, e no mainstream conquistaram reconhecimento de público e crítica, emprestando prestígio ao fantástico brasileiro.
A Segunda Onda de autores ensaiou seus primeiros passos a partir de 1982 no Boletim Antares, publicado pelo Clube de Ficção Científica Antares de Porto Alegre: Simone Saueressig, Gerson Lodi-Ribeiro, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo foram os nomes dessa turma que se firmaram nas páginas de fanzines e boletins de clubes de fãs, unindo-se a outros tantos, tais como José dos Santos Fernandes, Ivan Carlos Regina, Carlos Orsi Martinho, José Carlos Neves, Braulio Tavares, Finisia Fideli, Fabio Fernandes, Roberto Schima e muitos outros.
Entretanto, nesses dez ou doze anos de intervalo, a fc&f brasileira não foi abandonada totalmente. Apesar dos especialistas terem reduzido sua presença editorial durante os piores anos da ditadura militar, outros escritores não necessariamente identificados com o gênero perceberam na literatura de fantasia uma ótima maneira de contornar as redes da censura e dizer o que pensavam a respeito daquele período tenebroso, uma vez que os órgãos de comunicação de massa eram bem mais vigiados do que os livros.
Chico Buarque de Holanda já era, então, um compositor de sucesso, respeitado e prestigiado tanto pela elite intelectual quanto pelo povão, no Brasil e no exterior. Sua poesia de sentidos múltiplos agradava pela qualidade da composição e pela identificação imediata com o jeito brasileiro, somada a musicalidade criativa, belos arranjos e harmonias. Chico Buarque fazia então o que alguns classificavam como "música de protesto", embora sua responsabilidade artística não permitisse que o panfletarismo simplório dominasse o conteúdo criativo, como acontecia com outros compositores menos brilhantes.
Em 1974, no auge da repressão política, a editora carioca Civilização Brasileira, que já publicava o fantasista goiano José J. Veiga, levou às livrarias a primeira novela de Chico Buarque, Fazenda Modelo: Novela pecuária.
Trata-se de um texto obviamente alegórico, tal como também são suas poesias, que conta a ascensão e a queda de um projeto econômico e social dirigido por tecnocratas e financiado pelo capital estrangeiro.
A Fazenda Modelo era, a princípio, uma propriedade rural que, embora de grandes dimensões, não diferia em nada de qualquer outra propriedade agropecuária, com a boiada solta no pasto descuidado, sem nenhuma tecnologia ou acompanhamento técnico. A vida dos bois e vacas não era fácil, mas era tranquila e sem percalços. As rezes nasciam naturalmente, alguns meses depois de coitos igualmente naturais, a comida vinha diretamente do chão inculto, os carrapatos e as doenças eram um grande incômodo mas, enfim, não é assim em toda parte?
Então Juvenal, o bom boi, elegante e educado filho da pátria, é elevado a posição de conselheiro-mor da Fazenda Modelo e aos poucos implanta nela o milagre econômico que vai tirar a boiada do atoleiro e arremessá-la para o futuro glorioso. Assessorado por técnicos especialistas importados (todos curiosamente tendo o nome iniciados pela letra "K") Juvenal elege Abá como o semental-mor da Fazenda Modelo: boi forte e viril, apaixonado pela vaca Aurora, que viria ser a matriz criadora mais importante do projeto. Abá é isolado da vacada em um galpão absolutamente limpo e somente durante os períodos propícios de cobertura são trazidas as vacas para que ele as emprenhe. Alucinado de desejo por Aurora, que é a primeira vaca a entrar no touril, Abá vai trepando em cada uma das vacas que vem depois e garante dessa forma o sucesso da primeira geração de bezerros cientificamente selecionados da Fazenda.
Com o bom desempenho da vacada nas exposições, o sêmen de Abá torna-se o ouro branco de exportação da Fazenda Modelo, que passa a usar um processo eletrônico, sem contato físico, para colher o líquido de Abá, sendo as vacas  fertilizadas artificialmente.
Enquanto a Fazenda Modelo cresce e se desenvolve, com a instalação de fábricas de todos os tipos, estádios de primeiro mundo, monumentos a Juvenal, praças e fontes grandiosas, a vacada vai ficando cada vez mais triste. A poluição começa a envenenar a boiada mais simples, as reprodutoras entram em depressão pelo desaparecimento inexplicável de seus filhos, parando de aleitar e de emprenhar, e até Abá, viciado no aparelho de coleta de sêmen, envelhece precocemente. Lubino, seu sucessor, é apressadamente escolhido entre os touros da primeira geração. Mas Lubino não estava ainda preparado e a tragédia vai se abater sobre a Fazenda Modelo e seu grande projeto de desenvolvimento.
É interessante deixar-se levar pela fantasia de Chico Buarque, que modula a humanização/bovinização dos personagens conforme as circunstâncias dramáticas exigem.
Está claro que esta novela é uma alegoria da situação política brasileira em 1974, não muito disfarçada pelo cenário da Fazenda Modelo. Frases e atos de Juvenal têm paralelos óbvios na realidade histórica, e muitos leitores experientes na fc anglo-americana podem achar a leitura um tanto ingênua e previsível.
Mas Fazenda Modelo exemplifica uma das mais imediatas missões da arte e da literatura, qual seja, levar o leitor a refletir sobre a sua realidade objetiva. Nesse aspecto, é amplamente bem sucedida, pois a mensagem é clara e a leitura é facilitada por um texto que fala muito bem ao leitor comum que, em tese, é o seu público alvo. Contudo, Fazenda Modelo preserva os ideais do Modernismo e utiliza uma redação elaborada repleta de estruturas literárias criativas e coloquialismos intraduzíveis, que agradam também ao leitor sofisticado.
Ainda mais significativo é o fato de Fazenda Modelo ter aparecido em pleno cenário dos fatos que motivaram a sua composição. Não há dúvida que Chico Buarque e a editora Civilização Brasileira correram riscos sérios ao ousar sua publicação. Pode ser que Buarque tenha se escudado em sua fama maiúscula ou no auto-exílio que cumpriu no exterior. Mesmo assim, é espantoso que assim tenha sido.
Geralmente, espera-se que um autor literário demonstre alguma coragem para atacar os seus alvos e que, eventualmente, ponha a cabeça para fora da trincheira e dispare um tiro na direção deles. Isso já é suficiente para dar significado à obra para além do entretenimento frívolo e descartável ou do formalismo acadêmico, principalmente no caso da fc, tida como um gênero alheio à realidade. Ainda que possamos pinçar uns tantos bons exemplos, entre eles o próprio Fazenda Modelo, no que se refere a fc&f brasileira percebe-se que o preconceito justifica-se, infelizmente.
Apesar da tendência natural e quase inevitável da fc&f para o simbolismo, a caricatura e a alegoria, os autores brasileiros sempre demonstraram interesse especial pelo entretenimento do gênero, evitando a discussão de problemas contemporâneos em seus trabalhos. Investem na elaboração de utopias e conceitos tecnológicos fantásticos, lançando suas histórias em tempos distantes no passado ou no futuro, com protagonistas mitológicos, mecânicos ou alienígenas, de forma a fugir o mais possível do problemas do presente e dos mistérios da alma humana, alienando-se já no ato da composição da obra que, desse modo, distancia-se do leitor que não se identifica com ela quando publicada.
Um e outro ainda demonstram, eventualmente, coragem suficiente para dar aquela olhadela acima da trincheira, mas a grande maioria satisfaz-se em sentar num canto retirado, jogar baralho e apostar cigarros. Para eles a batalha, a realidade, sequer existe.
Exatamente por isso, Fazenda Modelo é leitura importante num gênero que ainda carece de uma profunda discussão existencial no País.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

QI 180

O fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, é inteiramente dedicado ao estudo das histórias em quadrinhos, destacando a produção independente e os fanzines brasileiros. 
O número 180, referente ao período março/abril de 2023, tem 40 páginas e traz artigos de Alex Sampaio, E. Figueiredo, Pedro José Rosa de Oliveira, Lio Guerra Bocorny e do editor, além de quadrinhos de Henrique Magalhães, Manoel Dama, Julio Shimamoto, Luiz Claudio Lopes Faria e Guimarães. Completam a edição as colunas "Fórum" com cartas dos leitores, "Edições independentes" divulgando lançamentos de fanzines do bimestre anterior e "Mantendo contato", de Worney Almeida de Souza. A capa traz uma composição de ilustrações de Mario Labate, outro grande editor de fanzines no passado, com detalhes coloridos à mão.
Junto a esta edição do QI, os assinantes receberam o primeiro fascículo da série Editoras Brasileiras de Quadrinhos, que traz em 20 páginas um levantamento bastante completo, feito por Daniel do Canto Oliveira Saks, sobre a carreira da editora Vidente.
Exemplares impressos do QI e seus encartes podem ser adquiridos mediante assinatura. Mais informações, diretamente com o editor pelo email edgard.faria.guimaraes@gmail.com. Contudo, versões digitais de todas as edições, desde o primeiro número, bem como de seus encartes, estão disponibilizadas no saite da editora Marca de Fantasia, aqui.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Resenha do Almanaque: Futuro proibido

Futuro proibido [Semiotext(e)], Rudy Rucker, Robert Anton Wilson & Peter Lamborn Wilson, orgs. 224 páginas. Tradução de Sergio Kukpas, Ludmila Hashimoto Barros e Alexandre Matias. São Paulo: Conrad, 2003.

A editora brasileira comenta, na apresentação assinada por Marietta Baderna, que o livro seria publicado no Brasil em duas partes, anunciando para o segundo volume os textos de Philip José Farmer e Robert Sheckley entre outros. No entanto, publicou só o primeiro volume, deixando os leitores brasileiros com apenas parte desse curioso projeto, na qual se destacam-se os nomes de Bruce Sterling, Colin Wilson, Willian Gibson, Rudy Rucker e J. G. Ballard.
A ideia dos organizadores de Futuro proibido era reunir textos ousados e perturbadores que eventualmente tivessem sido censurados em suas edições originais, mas a maior parte dos contos não foi realmente censurada. Publicados em fanzines, são textos algo libertinos para o estado da arte vigente a época em que foram escritos, mas lidos hoje soam bastante comportados. De fato, há trabalhos mais ousados entre os modernos escritores brasileiros de fc&f, mas é possível que muitos deles tenham sido influenciados pela leitura deste mesmo volume.
No aspecto erótico, os contos mais expressivos são "Êxtase no espaço", de Rudy Rucker – que não termina lá muito bem – e "O pênis Frankenstein", de Ernest Hogan – o mais entusiasmante do conjunto.
"Vemos as coisas de modo diferente", de Bruce Sterling e "Relatório sobre uma estação espacial não identificada", de Ballard, são textos bastante profissionais. O de Sterling lida com um tema sensível para os americanos, que é a presença em destaque de personagens árabes, mas ambos são trabalhos conservadores no estilo, ainda que avançados nas ideias.
A maior parte dos dezesseis contos publicados na edição brasileira se destaca mais pela ousadia formal, pós-moderna, do que pelos conteúdos. O trabalho de Colin Wilson sequer chega a ser um conto, está mais para um artigo. Dentre esses textos alternativos, impressiona "Visite Port Watson!", de autor anônimo, que se desenvolve na forma de um guia de viagem a uma ilha no meio do Pacífico que vai soar familiar a quem acompanhou o seriado Lost.
Completam a edição alguns portfólios de artistas plásticos que perderam muito de seu possível apelo por serem publicados em uma apresentação pobre, sem cores e com definição ruim.
É difícil dar uma avaliação final realmente isenta, mas a impressão geral é que a ideia é melhor que o resultado. Poucos dos trabalhos publicados realmente cumprem a promessa do futuro proibido prometido pelo título nacional, mas vale a pena conhecer o que estes autores pensavam ser uma fc imaginativa aos olhos do século XXI. Pelo menos esta metade do livro é bastante inspiradora, o que é muito mais do que eu geralmente se pode esperar das antologias em geral.
Por ser um livro pela metade, a sensação de incompletude é frustrante. Imaginar o que Farmer e Sheckley fizeram e que não sabemos é de deixar maluco. Mas nunca é tarde para que a editora cumpra a promessa feita no início do século e nos agracie com a segunda metade desta antologia. Outras obras da Conrad que também ficaram incompletas, como as séries de quadrinhos Nausicaa Delivery Service of Corpse, bem poderiam ser finalizadas. Nausicaa, pelo menos, parece que será enfim publicada integralmente pela editora JBC, mas isso é ainda uma promessa.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O rei de amarelo, Robert W. Chambers

O rei de amarelo (The king in yellow), Robert W. Chambers. Tradução de Edmundo Barreiros, comentários de Carlos Orsi. 256 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

A história da ficção fantástica começou com a literatura gótica, passou pelo decadentismo e pelo romantismo, e só se tornou o que é hoje depois da crise econômica de 1929, que favoreceu o desenvolvimento explosivo das publicações pulp nos EUA, publicações estas que já existiam de forma incipiente desde o final do século 19. Devido ao seu caráter algo alienante (que permitia aos que sofriam com as agruras da vida algumas horas de distanciamento) e aos processos de repodução mais acessíveis, as revistas pulp tornaram-se o principal espaço de entretenimento aos que não tinham dinheiro para obter acesso à cultura, frequentar cinemas elegantes ou comprar um rádio. Os editores desses periódicos criaram e promoveram diversas estratégias para otimizar as vendas; uma delas foi criar protocolos de produção para cada gênero, de modo a criar nichos de mercado e fidelizar os consumidores. Temas, abordagens, conteúdos, tudo era cuidadosamente manipulado para que as vendas fossem as melhores possíveis. Assim, surgiram aquilo que hoje chamamos de gêneros fantásticos: a fantasia, a ficção cinetífica e o terror, que se somaram ao faroeste, que já era bastante popular. Mais tarde viriam ainda as aventuras de guerra e de espionagem, mas isso é uma outra história.
O caso é que, devido a essa operação comercial muito bem elaborada, um certo tipo de literatura acabou por desaparecer do mercado, embora continuasse a ser praticada em ambientes não "civilizados" pela literatura pulpesca. Essa literatura "selvagem", que não respeita protocolos e mistura os gêneros ao ponto de não ser possível determinar a qual deles o texto pertence. 
De certa forma, foi assim que tudo começou. Escritores identificados com uma das primeiras publicações do gênero, a Weird Tales – lançada em 1923 nos EUA –, foram os construtores das bases da fc&f, como H. P. Lovecraft, Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, entre outros. Mas eles não inventaram a roda. Antes deles, autores como Edgard Alan Poe, Ambrose Bierce, M. R. James, Lord Dunsany, Jan Potocki, Evgeni Zamiátin, entre outros, já enveredavam por esses caminhos obscuros. A maior parte é bastante conhecida e respeitada, mas há muitos que ainda não tiveram suas contribuições devidamente valorizadas. É o caso de Robert W. Chambers (1865-1933), escritor americano que escreveu dezenas de novelas populares, sendo O rei de amarelo uma de suas primeiras obras, publicada originalmente em 1895. O livro reúne vários contos mais ou menos amarrados por citações e referências interligadas à ideia de uma peça, chamada justamente "O rei de amarelo", cuja leitura leva à loucura. 
A edição da Intrínseca traz nove contos mais um conjunto de dez poemas em prosa, e a excelente introdução de Carlos Orsi que acrescenta comentários e referências ao longo de todos os textos, apontando vínculos nem sempre tão evidentes como, por exemplo, a recorrência de nomes de personagens e cenários – que o comentador indica como sintoma de uma realidade paralela na própria mitologia da obra. 
Alguns dos contos têm o raro talento de nos fazer ter pesadelos, como "O reparador de reputações", "O emblema amarelo", "A máscara", No pátio do dragão" e "A demoyselle d'Ys". Outros são terror em estado primitivo, como "A rua da primeira bomba" um pungente drama de guerra que, a certa altura, torna-se um pesadelo. E ainda, textos de caráter realista, como "A rua dos quatro ventos", "A rua de Nossa Senhora dos Campos" e "Rua Barrée", cuja relação com o conceito de "O Rei de Amarelo" é bastante transversal.
O que causa tanto interesse na obra é o conceito de universo compartilhado em torno de um livro amaldiçoado que, no caso, é uma peça de teatro. Em 1970, o escritor americano James Blish publicou uma versão pessoal para a peça maldita, ainda não traduzida para o português: apesar de Chambers estar em domínio público, Blish não está. 
Lovecraft, que cita Chambers em seu famoso ensaio O horror sobrenatural na literatura, emprestou do autor, com o "Necronomicon", a ideia de um livro cuja leitura enlouquece, bem como a de uma mitologia antiga que ecoa no presente. Outro mestre do horror que confessou ser influenciado por Chambers foi Stephen King, e encontramos em A torre negra referências evidentes como, por exemplo,  o Rei Rubro. 
O New Weird, movimento criado em 1990 por escritores como China Miéville, Paul Di Filippo e Jeff VanderMeer, entre outros, recuperaram o estilo Weird com algums sucesso, mas são rejeitados por muitos dos leitores formados pela leitura pulpesca, uma vez que suas histórias vêm carregadas de questões políticas incômodas. 
Apesar de não estarem vinculados ao New Weird (encerrado nos primeiros anos do século 21), outros autores conseguem trabalhar de forma bastante similar ao estilo de Chambers, como a escritora russa Liudmila Petruchevskaia e o novaiorquino David Foster Wallace, entre outros. No Brasil, os casos mais bem sucedidos são os contos de Murilo Rubião é o do romance Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.  
A Editora Avec anunciou há poucos meses a publicação de uma outra antologia, Carcosa: Contos do Rei de Amarelo, republicando alguns dos textos de Chambers vistos nesta edição de O Rei de Amarelo, ao lado de contos de Poe, Bierce e Lovecraft.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Conexão Literatura 91

O periódico eletrônico Conexão Literatura, editado por Ademir Pascale, encerrou 2022 com a publicação de doze edições mensais regulares, sempre com mais de cem páginas dedicadas à publicação de entrevistas, ficção, poemas, crônicas, resenhas e artigos sobre assuntos variados ligados a arte da escrita. E inaugurou 2023 com a edição 91 que traz, em 129 páginas, contos de Bert Jr, Roberto Schima, Idicampos, Iraci Marin e Ney Alencar, além do conteúdo tradicional.
É bastante provável que a regularidade da publicação se deva à decisão de desatrelar a linha editorial dos gêneros fantásticos, como acontecia nos seus primeiros anos — a revista tem sido continuamente editada desde 2015. A quantidade de autores mainstream em busca de divulgação é muito maior que apenas os de fc&f e é essa necessidade que tem mantido um interesse crescente sobre a publicação que, cada vez mais, assume o papel como plataforma de divulgação profissional paga. 
A revista, contudo, tem distribuição gratuita e esta edição pode ser baixada aqui. Números anteriores também estão disponíveis.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Múltiplos

O fanzine de quadrinhos editado por André Carim manteve a periodicidade mensal em 2022 e já avança em 2023 com a primeira edição no ano. 
Múltiplo tem se tornado influente no campo dos fanzines de quadrinhos devido ao robusto trabalho editorial, com edições que vão de 44 (número 70) a 123 páginas (número 73), a maior parte delas em cores. 
A linha dos quadrinhos publicados pelo fanzine é fundamentalmente de super-heróis, que têm um grande público no Brasil, especialmente no ambiente dos artistas amadores. Alguns deles já são "marcas registradas" do zine, como Luiz Iório e Hugo Máximo. Experimentados, os artistas se espalham por outros fanzines e já começa a se estabelecer uma base de trabalho bem interessante nesse gênero. 
Mas também aparecem supresinhas como a série de ficção científica "Lobo", de Luga, um especialista no gênero, publicada entre as edições 65 a 69. Participações de veteranos como Júlio Shimamoto, Tony Fernandes, Silvio Ribeiro, Omar Viñole, entre outros, enriquecem as edições com material autoral.  
Vale registrar ainda a presença cada vez mais expressiva de textos de análise, como a coluna "Vi, li e gostei...", assinada por Adalberto Bernardino, e "Múltiplos projetos hqs br", do próprio Carim.
Todas estas edições do Múltiplo podem ser baixadas gratuitamente aqui; as edições anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Psiu ressurge

Vindo diretamente dos anos 1980, o fanzine PSIU Quadrinhos, editado por Edgard Guimarães, ressurge no século 21 através dos préstimos de Henrique Magalhães, da Editora Marca de Fantasia, que tem recuperado em edições digitais disponibilizadas no seu saite, toda a produção fanzineira de Guimarães. Além do premiadíssimo Quadrinhos Independentes-QI, cujos lançamentos sempre comento neste blogue, relançou também, ao longo de 2022, as edições do lendário Psiu, uma publicação histórica de resistência da arte em seu tempo. 
Depois de disponibilizar as edições de 1 (originalmente publicada em 1982), 2 (1985) e 3 (1990), além do especial Mudo (1988), passou a publicar novas edições do fanzine, ainda sob a editoria de Guimarães, com quadrinhos de autores novos e veteranos, além de farto material histórico, reproduções de quadrinhos brasileiros de diversos suplementos quase esquecidos e tiras obscuras que merecem ser lembradas. 
A edição 4, publicada em julho de 2022, tem 54 páginas com quadrinhos de Rynaldo Papoy, Dennis Oliveira, Rod Gonzales & Danilo Moreira, Luiz Iório, e duas hqs de 1928 e 1931 criadas pelo fantástico cartunista J. Carlos para o suplemento O Tico-Tico
A edição 5 saiu em novembro de 2022 e traz, em 60 páginas, quadrinhos de Luiz Iório, Lincoln Nery, Rodinério da Rosa, Rynaldo Papoy, J. Carlos (também retirado de O Tico-Tico) e de Guimarães, além de uma hq de 1944, de autoria desconhecida, reproduzida do suplemento Mirim, mais uma ilustração do mestre português Eduardo Teixeira Coelho.
A edição 6 saiu em janeiro de 2023, tem 56 páginas com quadrinhos de Rodinério Rosa, Luiz Iório, Dennis Oliveira, Franklin Horylka (tiras geniais de 1974 publicadas originalmente no jornal Folha de S. Paulo), Eduardo Marcondes Guimarães, J. Carlos (também retirada de edições de O Tico-Tico) e do grande mestre Julio Shimamoto.  
Diferente das edições do século passado, estas focalizam principalmente os quadrinhos, sem muitos textos de pesquisa, embora haja algum conteúdo do tipo aqui e ali. As capas são geniais, com grafismos coloridos interessantíssimos.
As edições não foram publicadas em versão impressa e estão disponíveis unicamente em formato digital com download gratuito, aqui. Aproveite!