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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Bruce Sterling em Sampa

Roberto de Sousa Causo informou, em sua coluna semanal no Terra Magazine, que o escritor norteamericano Bruce Sterling, um dos fundadores do movimento cyberpunk, estará em São Paulo entre os dias 2 e 7 de dezembro de 2010, em promoção das editoras Devir e Terracota, e da Universidade Cruzeiro do Sul.
Sterling ministrará oficinas durante o I Encontro Extensão para o Futuro e, no dia 6, entre as 18h30 e 21h30, autografará livros na FNAC (Av. Paulista, 901, São Paulo). O autor cumprirá ainda uma extensa turnê que inclui outras cidades do país.
Não é a primeira vez que Sterling vem ao Brasil. Em 1997, ele participou da V InteriorCon, um simpósio de fãs, escritores e autores de FC&F realizado em Sumaré, cidade do interior de São Paulo. Na época, seu principal romance, Pirata de dados, havia sido recentemente publicado pela editora Aleph. Hoje o título se encontra fora de catálogo e apenas o romance Tempo fechado, publicado em 2008 pela Devir, está nas livrarias. Estes são os únicos títulos do autor publicados no Brasil.
Nos últimos anos, Sterling tem se dedicado a promover a literatura especulativa realizada no terceiro mundo, tema pelo qual ele se interessa bastante. (Foto: divulgação)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Steampunk


Um dos livros que adquiri durante a III FantastiCon foi este lançamento da Editora Tarja, Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, antologia organizada por Gianpaolo Celli, com nove histórias de ficção científica escritas por autores brasileiros, seguindo um modelo algo popular nos dias de hoje, conhecido como steampunk.
O modelo não é novo, de fato ele já estava presente nos primeiros trabalhos de FC do final do século XIX, quando a revolução industrial ainda não estava totalmente consolidada e o sonho da tecnologia estava nas máquinas movidas a vapor. Jules Verne e H. G. Wells sempre são citados como referência quando se trata do steampunk, mas eles não o eram de fato. Verne e Wells escreviam ficção científica, ponto. O steampunk é um tipo de revival daquela fantasia tecnológica de final de século, porém transposto para os nossos dias, como se a tecnologioa do vapor tivesse de fato ido além das locomotivas e chegado aos computadores e ao espaço, tudo na base do vapor. Absurdo? Pode ser, mas muito romântico. Autores como Bruce Sterling e William Gibson, os papas do cyberpunk, modernizaram os contornos criativos desse modelo quando publicaram The difference engine, um romance que fala sobre o surgimento da tecnologia digital ainda nos tempos vitorianos e o impacto que isso causaria na civilização.
Outros autores vieram unir-se a essa proposta e o cinema em especial, com filmes como As loucas aventuras de James West e A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, auxiliou na popularização do modelo entre o público leigo antes mesmo que ele se tornasse maduro no gênero.
Dispostos a não serem deixados para trás, nove autores brasileiros dedicaram-se a compor a primeira antologia brasileira específica no estilo. São eles: Fábio Fernandes, Antonio Luis M. C. Costa, Alexandre Lancaster, Roberto de Sousa Causo, Claudio Villa, Jacques Barcia, Romeu Martins e Flávio Medeiros, além do organizador Gianpaollo Celli que arriscou ele mesmo um conto.
O conceito é instigante e o time de autores anima a leitura imediata. Mas não vou fazer uma análise crítica agora, que deve sair no Anuário 2009. Por enquanto, fica aqui apenas a divulgação.
O livro pode ser encomendado diretamente no site da Editora Tarja.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Futuro Proibido


Enfim, preenchendo um enorme lapso nas minhas leituras, conclui a antologia de ficção científica Futuro Proibido [Semiotext(e)] organizada por Rudy Rucker, Robert Anton Wilson e Peter Lamborn Wilson, publicada no Brasil em 2003 pela editora Conrad. A ideia dos organizadores era reunir textos ousados e perturbadores que eventualmente tivessem sido censurados em suas edições originais.
A editora brasileira comenta, na apresentação assinada por Marietta Baderna (!) que o livro seria publicado no Brasil em duas partes, anunciando para o segundo volume os trabalhos de Philip José Farmer e Robert Sheckley entre outros, no entanto publicou só o primeiro volume. Devido a essa "oportuna" decisão, ficamos com apenas parte desse curioso projeto.
Nesta edição, destacam-se os nomes de Bruce Sterling, Colin Wilson, Willian Gibson, Rudy Rucker e J. G. Ballard. A maior parte dos contos não foi realmente censurada. Publicados em fanzines, são textos algo libertinos para o estado da arte vigente a época em que foram escritos, mas lidos hoje soam praticamente normais. De fato, há trabalhos mais ousados entre os modernos escritores brasileiros de FC&F, mas é possível que muitos deles tenham sido influenciados pela leitura deste mesmo volume.
No aspecto erótico, os contos mais expressivos são "Êxtase no espaço", de Rudy Rucker - que não termina lá muito bem — e "O pênis Frankenstein", de Ernest Hogan — o mais entusiasmante do conjunto.
"Vemos as coisas de modo diferente", de Bruce Sterling e "Relatório sobre uma estação espacial não identificada", de Ballard, são textos bastante profissionais. O de Sterling lida com um tema algo sensível para os americanos, que é a presença em destaque de personagens árabes, mas ambos são trabalhos conservadores no estilo, ainda que avançados nas ideias.
A maior parte dos 16 contos publicados se destaca mais pela ousadia formal, pós-moderna, do que por seus conteúdos. O trabalho de Colin Wilson sequer chega a ser um conto, está mais para um artigo. Dentre esses textos alternativos, impressiona "Visite Port Watson!", de autor anônimo, que desenvolve-se em forma de um guia de viagem à uma ilha no meio do Pacífico que vai soar muito familiar a quem acompanha o seriado Lost.
Completa a edição alguns portfólios de artistas plásticos que perderam muito de seu possível apelo por serem publicados em uma apresentação pobre, sem cores e com definição ruim. Lamento, rapazes, não me entusiasmaram nem um pouquinho.
Por ser um livro pela metade, a sensação de incompletude é muito frustrante. Imaginar o que Farmer e Sheckley fizeram e que nunca saberemos é de deixar maluco. É difícil dar uma avaliação final realmente isenta, mas a sensação é que a ideia era melhor que o resultado. Poucos dos trabalhos publicados realmente cumprem a promessa do futuro proibido prometido pelo título nacional, mas vale a pena conhecer o que estes autores pensam ser uma FC imaginativa aos olhos do século XXI. Pelo menos a metade do livro é bastante inspiradora, o que é muito mais do que eu geralmente espero das antologias em geral.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Tempo fechado, Bruce Sterling


Acabei de ler a distopia ecológica Tempo fechado (Heavy Weather, 1994), do escritor texano Bruce Sterling, traduzida para o português por Carlos Angelo e publicada em 2008 pela Devir Editorial. Bruce Sterling teve publicado anteriormente no Brasil o romance Piratas de dados (Islands in the net, 1988) pela editora Aleph, além de alguns contos. Foi um dos baluartes de um movimento estético e conceitual da FC americana que ficou conhecido como cyberpunk. O estilo de Sterling é arejado, muito agradável de ler, sem afetações e bastante interessante no que se refere aos temas propostos.
Tempo fechado conta a história dos irmão Alejandro (Alex) e Juanita (Jane), herdeiros de uma enorme fortuna mas que tiveram o azar de ter um pai controlador e nascer num mundo em processo de demolição por conta de incontornáveis prejuizos ambientais causados pela ação humana desregrada. As fronteiras internacionais praticamente não existem para eles, que vivem de uma forma selvagem, deslocando-se ilegalmente, escondendo-se do pai e um do outro. No início da história, Alex - que sofre de bronquite crônica aguda - está em tratamento de saúde numa clínica ilegal no México, gastando os tubos com medicamentos experimentais. Ele passa a maior parte do tempo drogado, mas Jane tem outros planos para o irmão. Com um equipamento de espionagem sofisticado, ela invade a clínica, resgata Alex e o carrega, num veículo todo-terreno que mais parece um robô, até uma região no meio-oeste americano onde há grande incidência de tornados - que têm sido cada vez mais violentos depois que as alterações climáticas interferiram no equilíbrio ambiental do mundo inteiro. Jane faz parte da Trupe Intempestiva, uma equipe de especialistas em tornados, cujo líder, Jerry, previu através de ensaios matemáticos a formação de um super-tornado que pode devastar toda a região e alterar definitivamente o clima global. Ninguém acredita que esse tornado possa acontecer, mas toda a Trupe espera que sim e se prepara caçando e estudando tornados menores. As previsões de Jerry indicam que o fenômeno deve acontecer dentro de alguma semanas e por isso todos estão muito ansiosos. Aos poucos entendemos que Jane arriscou-se a tirando o irmão da clínica mafiosa porque, no final das contas, estava completamente falida e esperava que o irmão pudesse suprir as necessidades financeiras da Trupe com a sua parte da herança familiar. Mas Alex vai além. Apesar da saúde comprometida, prova ser suficientemente rústico para se dar bem na Trupe. Ele realmente espera morrer no super-tornado e assim dar algum sentido em sua vida. Mas sua aventura pode ser um pouco mais complicada. Sempre é.
Conheci Sterling pessoalmente durante a V InteriorCon, em Sumaré/SP. Um cara muito simples e acessível, apreciador de churrasco e caipirinha, e acho que Alex é uma espécie de alter-ego dele. Sterling, como seus personagens, vive em deslocamento, cada hora num país diferente – quando esteve no Brasil, por exemplo, estava vindo de um temporada na Rússia. Apaixonado por culturas exóticas, aproveita para colocar essa rica experiência em sua literatura, o que acabou por caracterizar também o movimento cyberpunk como um todo. Ler Sterling acrescenta camadas de entendimento sobre o que vem a ser o cyberpunk, que vai muito além de jargão techno, brutalismo e óculos espelhados.
Sterling conta histórias que se passam no futuro, mas ele é tão próximo que nem chega a ser fantástico. Fala de coisas que estão no nosso dia-a-dia, que vemos ao nosso redor. Há seres humanos de verdade nas suas histórias, em situações que poderiam estar acontecendo com a gente. Bolas, algumas das coisas que ele conta realmente aconteceram comigo, tal e qual!
Tempo fechado é uma história no seu tempo certo, colocando em debate a nossa responsabilidade coletiva, ou a falta dela, no cuidado com a natureza, o meio mabiente e o próprio homem. Afinal de contas, o tal supertornado pode até não acontecer, mas sabemos que a realidade sempre supera a ficção.
O que você pode fazer a respeito agora?