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sábado, 11 de novembro de 2023

Resenha do Almanaque: Hyperfan - Cinco anos de fanfic

Hyperfan: Cinco anos de fanfic
, Lucio Luiz, organizador e editor. Ilustrações de J. J. Marreiro, 130 páginas. 2006.

Antologia comemorativa aos cinco anos de publicação do saite Hyperfan, que se alinha à prática da fc&f brasileira de publicar antologias temáticas. Um tema um tanto aberto, contudo, pois trata-se de universo compartilhado ainda sem estrutura, que o organizador planejou montar a partir do simples elencamento dos contos selecionados. 
O Novo Universo Hyperfan, assim chamado, é de inspiração assumidamente vinculada ao cânone dos super-heróis. O organizador/editor confessa, na apresentação do livro, que isso foi feito tão somente porque seria temerário utilizar um universo que tivesse os direitos reservados. Ou seja, apesar de original, o Novo Universo Hyperfan é um pastiche, o que nestes tempos de rede mundial é chamado de fanfic.
Fanfic é a contração do termo fanatic fiction ou, traduzindo para o português, ficção de fã, o tipo de texto realizado por fanáticos em algum personagem ou série de aventuras. Há bibliotecas gigantes disponíveis na internet com fanfics dos apreciadores de Star trek ou Harry Potter, por exemplo.
Dentre todos os temas possíveis, o das histórias em quadrinhos de super-heróis é o que oferece o material de base mais maleável: a falta de parâmetros realistas permite que os autores-fãs façam qualquer coisa sem parecer demasiado absurdo. Mas a maioria dos fanfics de super-heróis não arrisca ir além, pois os autores querem justamente repetir os moldes tradicionais de seus personagens favoritos, não subvertê-los. Portanto, a decisão do editor de Hyperfan, ainda que não por esse motivo, foi muito acertada. A obrigação de criar novos personagens deu liberdade aos autores para construírem histórias que nunca seriam contadas com heróis de contornos anglo-americanos, ainda que alguns deles não tenham aproveitado essa chance em sua totalidade.
A antologia pode ter se inspirada na série Wild Cards, editada por George R. R. Martin, que também apresenta o modelo de histórias independentes que progridem a partir de um conto-chave. Trata-se de uma série antologia de contos de super-heróis bastante popular, publicadas de 1987 até hoje, que também tem adaptações em quadrinhos e até uma série de tv, de 2003. 
Hyperfan é formada por treze contos irradiados a partir de um conto-base, o ponto de partida para a criatividade de cada autor. São, portanto, histórias de "origem", o tipo menos interessante de histórias de super-heróis. Os contos são curtos e não progridem muito além da simples apresentação dos personagens. Ainda assim, alguns trabalhos logram bom resultado e podem render romances curiosos, se continuados.
O conto que propõe ser a espoleta dos eventos narrados nos demais contos é "Energia do vácuo", assinado por Carlos Orsi. O autor é conhecido no meio da fc&f brasileira, presente em várias antologias e com várias coletâneas individuais publicadas. Praticamente uma vinheta, conta apenas como uma energia estranha se esparramou pela Terra depois que um objeto cósmico atingiu o planeta, produzindo um poço estreito e profundo numa ilha perdida. A ilha remete-se a que serve de cenário ao seriado de tv Lost, e o objeto lembra a esfera luminosa do longa de animação Heavy metal: Universo em fantasia. Sua função deveria ser costurar os episódios numa sensação de unidade. Mas a presença do conto na antologia não chega a se justificar, uma vez que nenhum dos contos selecionados importou-se em articular-se a ele. Ficou cada um por si.
"Fã", de Danilo Anastácio, abre a série. Thimothy é um universitário nerd que desconfia das atividades de um de seus professores. Obcecado por super-heróis, veste-se como um e decide abordar o docente de forma direta, mas acaba sendo um tanto indiscreto: como ganhou super-poderes reais, acaba fazendo um grande estrago. Uma divertida brincadeira com a autoimagem dos fãs, sem maiores pretensões.
A seguir, "Sombra", de Marcelo Augusto Galvão. Um suicida fracassado desenvolve uma segunda personalidade que mata e devora partes de seu sócio e de sua namorada quando descobre que eles o traíram. História moralista e sem muita originalidade.
"Romaria e Prece", de J. B. Uchôa, é um dos melhores contos da antologia. Uma prostituta descobre, em pleno expediente, que tem o poder de curar aqueles a quem toca. Seu então cliente, um político importante, ao ver-se curado de uma doença grave, revela o fato à imprensa. Agora todos acreditam que a prostituta é uma santa e ela tem que fugir para reencontrar alguma paz. Bem ambientado na cidade de Salvador, é um dos contos que merece maior atenção.
Rodrigo Nunes assina "Emoções". Depois de uma tentativa de assalto, uma jovem médica descobre que pode sentir as emoções das pessoas que estão à sua volta. Suas atitudes estranhas fazem com que seus pais acreditem que ela enlouqueceu. A ideia é boa mas a realização, ruim, pois o autor abusa de frases curtas, num texto telegrafado e enfadonho.
Em "O detetive do sobrenatural", de Rafael Monteiro, um detetive trapaceiro descobre que pode falar com os mortos, e faz um acordo com um fantasma para ajudá-lo no serviço. Conto muito fraco, que transcreve as primeiras cenas do filme Espíritos, de Robert Tinnell.
"Supertia", de Lucio Luiz, mostra personalidade e bom ritmo. Uma estudante secundarista tem a oportunidade de dar aula numa pré-escola. Depois de um início tumultuado com uma turma muito difícil, descobre que pode controlar as crianças dando-lhes ordens diretas. Apesar de ter uma classe obediente, as crianças passam a depender cada vez mais de suas ordens, até que acontece uma tragédia. A narrativa em primeira pessoa é divertida, porque a jovem professora é uma completa cretina. Apesar disso, fica uma sensação de que algo está errado em seu conceito, já que o autor sugere que toda a arrogância da garota decorre do fato dela acreditar nos estudos.
"Prólogo", de Conrad Pichler, é uma espécie de Cidade de Deus de terror. Conta como um homem muito mau, morto numa briga de gangues, volta do inferno para vingar-se. Mas ele não esperava que os seus desafetos ainda vivos tivessem super-poderes para enfrentá-lo. Derrotado o espírito do mal, os sobreviventes decidem continuar a luta contra as trevas. Um conto confuso, difícil de compreender e com um grau de violência que não se justifica.
O conto seguinte é "Prata da casa", de Rony Gabriel. Assassino profissional se vale da capacidade de ser esquecido para despistar seus algozes. Entre eles, uma policial que é imune ao seu poder. Mas ela acaba sendo auxiliada por ele, depois de sofrer um atentado praticado por seu próprio parceiro. O conto não disfarça a inspiração no personagem Questão, sem mais a acrescentar.
"Freaklândia", de Robson Costa, é de longe o melhor conto da antologia. Muito bem construído, conta a história de uma médica em crise profissional que aceita trabalhar numa operação sigilosa do governo, em uma cidade no interior de Mato Grosso do Sul onde várias pessoas subitamente desenvolveram estranhas mutações. Depois de algumas semanas de trabalho, ela acaba envolvida pela irmandade desses mutantes e torna-se ela mesma um deles depois do contato com uma bolha de luz que os mutantes guardam como um tesouro. A narrativa distancia-se da mitologia dos super-heróis por conta da utilização de uma narração típica da fantasia latina e da presença intimidante da repressão políticomilitar patrocinada por forças internacionais, o que fala muito ao imaginário brasileiro.
"The world is blue", de Eduardo Sales Filho, mostra como um empresário ambicioso enriquece utilizando sua capacidade de influenciar a mente das pessoas. Frívolo e arrogante, repentinamente vê-se ajudando uma mulher que estava sendo vítima de um sequestro-relâmpago. Apesar de desprezar as pessoas comuns, ele aprecia a sensação de poder sobre elas. Talvez uma sequência à história pudesse corrigir a inversão de valores que este conto sugere, mas a introdução, infelizmente, não anima muito.
"Vítima", de Cesar Rocha Leal, fala sobre um investigador de polícia dotado de poderes extra-sensoriais. Por usá-los em suas investigações, é ridicularizado pelos colegas. Mas ele não apenas resolve todos os mistérios do crime proposto no conto como também identifica o criminoso, tudo sem precisar sair da sala. O conto parece homenagear mais os seriados televisivos de histórias policiais e os romances de Sherlock Holmes do que os quadrinhos de super-heróis e, por isso, destaca-se dos demais. Mas a falta de virtuosismo literário compromete, resultando num trabalho de pouco brilho.
"Incógnitos", de Rafael Borges, conta a história de uma banda de rock famosa – os Incógnitos do título – cujos integrantes têm superpoderes. No meio de um show em Tóquio, são atacados por um dragão e têm de improvisar para derrotá-lo. O público delira ao ver o combate e o show continua depois dele. O conto faz rir, que é o que o autor queria, mas pelos motivos errados, pois expõe o ridículo das histórias de super-heróis num livro que pretende ser uma homenagem a eles.
"Salão de espelhos", de Alexandre Mandarino, encerra a antologia. Trata de um jovem que ganha todos os poderes imagináveis e, usando-os, molda o mundo a sua imagem. Então, cheio de tédio, desfaz tudo e abandona o mundo, indo para as estrelas. Mandarino demonstra domínio da língua e apresenta um conto bem trabalhado mas, apesar das virtudes, a antologia teria ficado melhor se o seu conto não fosse o último do volume. Isso porque ele passa uma forte impressão de escárnio sobre gênero dos super-heróis e sobre própria antologia em si, sintoma que se reforça por dar-lhe os contornos finais. É como se o editor, ao deixá-lo por último, quisesse levar o leitor a sentir-se tolo por ter investido o seu tempo na leitura do volume. Pelo menos foi essa a impressão que causou em mim.
Além dos contos, é importante citar o trabalho de J. J. Marreiro, que demonstra domínio sobre o gênero ao realizar as ilustrações que emolduram cada um dos contos e o índice, aproximando o livro dos leitores habituados apenas com quadrinhos e dando-lhe uma jovialidade bem-vinda.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Resenha do Almanaque: A face oculta da galáxia, Miguel Carqueija

A face oculta da galáxia
, Miguel Carqueija. Prefácio de Jorge Luiz Calife, 88 páginas. Taubaté: Casa da Cultura, 2006.

Vésper é uma agente secreta aposentada. Depois de uma missão especialmente traumática, na qual seu marido morreu, decidiu que era hora de parar. Muitos anos depois, com os filhos já crescidos, Vésper é procurada pela Cosmopol, a polícia interplanetária, que a quer num caso muito delicado: Teplê K Vichits, o terrorista interestelar, capturou um artefato alienígena que tem que ser devolvido ao seu lugar de origem, caso contrário o universo pode ser destruído. Como passa por dificuldades financeiras, Vésper aceita o encargo e, assim, é apresentada a seus companheiros de missão: Rotterdam, Tenessee e a assassina profissional Valentina, recrutada especialmente para matar Vichtis.
Os quatro agentes, liderados por Beng, o delegado da Cosmopol encarregado de comandar a operação, embarcam disfarçados numa espaçonave de cruzeiro em direção ao distante planeta Sombrio, onde Vichtis escondeu o artefato. Logo de saída, Vésper se vê assediada por Valentina, que deixa claro que tem um interesse especial por ela. Mas Vésper a rejeita e isso tensiona a relação entre ambas.
A tranquilidade da viagem, bem como as identidades falsas da equipe, não resistem por muito tempo. Poucas horas após a decolagem, os agentes da Cosmopol são atacados por espiões inimigos. Eles abandonam a nave em botes salvavidas e são resgatados por uma outra nave, que os acompanhava em segredo a pedido da Cosmopol. O comandante dessa nave é Gaspar, cientista desafeto de Beng, que viaja para Sombrio sob disfarce, levando uma equipe de pesquisas e sua neta Licia, uma garota esperta e atrevida que se identifica com Vésper na mesma medida que antipatiza com Valentina.
Quando a nave chega à embaixada terrestre em Sombrio, os agentes assumem novos disfarces e dirigem-se ao local onde o artefato está escondido, mas não contavam que Licia os acompanhasse clandestinamente. A presença da garota causa muitas dificuldades ao grupo, novamente atacado por organizações inimigas e que ainda tem que se defender das forças regulares de Sombrio.
Esta novela de Miguel Carqueija apresenta as principais características que o autor adota em seus trabalhos: personagens femininas fortes e decididas, ainda que emocionalmente fragilizadas, enfrentando perigos inomináveis. O mesmo perfil pode ser percebido em muitos dos trabalhos do autor, como A âncora dos argonautas (1999), A rainha secreta (2001), A Esfinge Negra (2003) e As luzes de Alice (2004), Tempo das caçadoras (2009), As aventuras de Honney Bel (2017) e Os mistérios do Mundo Negro (2021), títulos publicados por editoras independentes como a Scarium e o próprio Hiperespaço. Mais recentemente, teve romances publicados por editoras estabelecidas no mercado, como Farei o meu destino (Giz, 2008) e O estigma do Feiticeiro Negro, em parceria com Melanie Evarino (Ornitorrinco, 2012).
Miguel Carqueija é um autor experiente, talvez o mais prolífero e constante colaborador das publicações daquela que ficou conhecida como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Esteve presente em praticamente todas as publicações brasileiras de FC&F, desde o primeiro fanzine, o Boletim Antares – editado pelo Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre inaugurador dessa fase em 1982 –, participando de todos os demais fanzines, revistas, concursos e antologias propostos ao longo dos anos. 
Com toda essa experiência, Carqueija ganhou muita habilidade nos protocolos da literatura fantástica, que domina muito bem. Entretanto, não os respeita o tempo todo e até compromete o ritmo da leitura e  a suspensão da incredulidade do leitor ao fazer contínuas referências e citações à cultura pop, e alterar a forma narrativa em meio ao texto, como, por exemplo, adotando o estilo de um roteiro, com os nomes das protagonistas antecipando as falas. 
Excetuando-se esses "pecados", que muitos experimentalistas consideram uma ousadia literária enriquecedora, a prosa de Carqueija é fluente e agradável, com uma estética identificada com os trabalhos da Golden Age norte-americana: aventuresca, otimista, quase sempre implausível, mas muito divertida. As  também interferem na concentração do leitor, mas não chegam a comprometer a narrativa e acrescentam-lhe um sabor autoral característico.
A face oculta da galáxia está atualmente disponível aqui pela editora Agbooks, em versões real e digital.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Dieselpunk – Arquivos secretos de uma bela época

Dieselpunk: Arquivos secretos de uma bela época, Gerson Lodi-Ribeiro, org. 384 páginas. São Paulo: Draco, 2011.

O hábito de montar seletas de contos e novelas parece mesmo ser um dos grandes prazeres do fãs de fc&f no Brasil. E, curiosamente, temos um critério próprio que permite que essas coletâneas sejam possíveis num mercado que praticamente não publica ficção curta de outra maneira.
De modo geral, antologias são montadas com textos já experimentados em outros veículos, principalmente revistas periódicas. É comum nos Estados Unidos, por exemplo, seletas do tipo “O melhor da nova fc” ou “O melhor do novo horror”, reunindo os textos de autores que estrearam nos últimos meses. 
Isso até poderia ser possível hoje diante da estreia, nos últimos três anos, de alguns periódicos literários reais e virtuais apoiados na publicação de ficção de gênero, mas ainda são poucos e de periodicidade muito espaçada, o que resulta em uma quantidade pequena de material publicado para favorecer uma seleta. 
Dessa forma, a dinâmica adotada pelas editoras brasileiras, grandes e pequenas, tem sido abrir editais para que os escritores submetam seus textos, inéditos ou não, ao crivo de um ou mais organizadores que vão escolher quais serão os textos adequados ao projeto, e foi essa dinâmica que favoreceu o florescimento de uma indústria de antologias nacionais nos últimos anos que, tal como os cogumelos, surgem da noite para o dia. Essas seletas têm sido a base do exercício da ficção fantástica nacional, mas não permitem que antologias reunindo “os melhores do ano”, por exemplo, sejam realizadas, uma vez que os textos ficam retidos por contrato com as editoras. Exceções são as antologias montadas a partir de material mais antigo, especialmente em domínio público.
Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e ppublicada pela Editora Draco em 2011, adotou o método do edital para histórias inéditas. Seguindo o molde de uma antologia anterior, Vaporpunk: Relatos steampunk publicados por ordem de Suas Majestades, lançada em 2010 pela mesma editora, Dieselpunk também se propõe ser uma seleção de textos de história alternativa. Se em Vaporpunk a tecnologia dominante deveria ser o motor a vapor, em Dieselpunk supõe-se que seja o motor a óleo diesel que vai mover as histórias. Como a tecnologia do diesel ainda está por aí, podemos imaginar que qualquer coisa moderna pode estar enquadrada na premissa. Pelo menos, sempre vejo nos postos de combustível, ao lado das bombas de gasolina, álcool e gás, uma de óleo diesel. Mas a ideia talvez não fosse bem essa, já que a maior parte dos autores selecionados trabalharam temas restritos às primeiras décadas do século XX.*
O texto que abre a seleção é “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, uma aventura de vingador mascarado ambientada nos anos 1930 de um Brasil no qual os princípios da União Socialista Soviética tornaram-se a política predominante. É claro que o Escorpião Azul vai enfrentar os comunistas.
“O grande G” é uma fábula tecnológica escrita por Tibor Moricz, que contrapõe duas metrópoles — uma movida a carvão e outra a diesel — que lutam pelo predomínio econômico. No lado do diesel, um feroz empresário faz uso de todos os instrumentos de que dispõe não só para manter sua cidade na liderança, mas também para satisfazer suas taras e manter o poder em suas próprias mãos. O texto é algo libertino na abordagem, mas de fundo extremamente moralista: “não façam isso em casa, crianças, ou vocês vão se dar mal.”
“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o choço excomungado”, de Octávio Aragão, explora o confronto entre o bando de Lampião e a Coluna Prestes, que historicamente nunca aconteceu. Mas há mais na noveleta além do encontro destes dois mitos da história brasileira, entre os quais se incluem armas de tecnologias muito avançadas, pós-humanismo, viagens no tempo e um pouco de ufologia, Ou não. Trata-se de um bom trabalho, com muita ação e um final feliz.
“Impávido Colosso”, de Hugo Vera, é um épico ingênuo inspirado nos animes de robôs gigantes para contar como um Brasil monarquista, comandado pelo sucessor de D. Pedro II, enfrenta um infame ataque da Argentina à região sul do país. Enquanto o agressor usa um exército de autômatos mecânicos cedidos pelo Império Britânico, o Brasil defende-se com o experimental Impávido Colosso, um robô gigante projetado pelo engenheiro Rudolf Diesel e tripulado por uma bombshell paraguaia que é uma declarada homenagem à Larissa Riquelme, musa da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, uma entre muitas citações que acabam chamando mais a atenção do leitor do que a história em si.
O único conto não inédito da antologia é “Pais da aviação”, de autoria do próprio organizador, que já havia sido visto na antologia Vinte voltas ao redor do Sol, publicada pelo CLFC em 2005. Numa França em que Jules Verne é o presidente da República, Santos Dumont e os Irmãos Wright disputam a primazia de serem os primeiros homens a alçar voo num aparelho mais pesado que o ar.
O jornalista Antonio Luiz M. C. Costa participa com “Ao perdedor, as baratas”, um suspense político sobre um atentado a vida de um importante candidato a presidência num Brasil subdividido em repúblicas menores, inimigas entre si. A barata do título faz uma pontinha no final da história.
“Auto de extermínio”, do jovem fluminense Cirilo Lemos, é de longe o melhor texto da antologia e, arrisco dizer, um dos melhores contos da fc brasileira em todos os tempos. Bem escrito, com diálogos precisos, cenas empolgantes e personagens muito bem estruturados, a noveleta apresenta recursos mais que suficientes para ser expandida num romance. Até as citações são de uma engenhosidade inspirada e não perturbam a credibilidade da história, que gira em torno de Jerônimo Trovão, assassino de aluguel que se mete numa confusão maior do que pode administrar. A trama de várias frentes revela aos poucos a estrutura do rico universo alternativo que Lemos criou.
Outra noveleta ótima é “Cobra de Fogo”, do experiente roteirista Sid Castro, um dos raros exemplos de ficção desportiva na fc brasileira. É o texto que melhor responde às propostas da antologia, com uma corrida mundial de super locomotivas, sendo M’Boitata, a tal Cobra de Fogo, a representante do Brasil nessa disputa que tem um ligeiro fundo político. Ecos de Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, filme de 1965 dirigido por Ken Annakin, reverberam em cada página da noveleta, que tem um sabor Golden Age bem ao gosto do leitor brasileiro.
O texto que fecha o volume é “Só a morte te resgata”, do português Jorge Candeias, único autor estrangeiro da antologia. A primeira metade da história é militar, com uma batalha aérea entre caças e dirigíveis, que depois é completada por um thriller de espionagem, no qual um sobrevivente da batalha narrada anteriormente tenta retornar para casa. Trata-se de uma história dramática, e uma breve notinha final acrescenta-lhe uma profundidade pessoal emocionante.
Graças à experiência e representatividade dos autores selecionados, Dieselpunk resultou numa antologia de qualidade média superior às seletas nacionais publicadas recentemente. Um caminho adequado caso se pretenda construir outras seleções de boa qualidade dentro das limitações do mercado brasileiro.
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* Assim como a antologia anterior, esta reúne histórias de ficção científica recursiva, voltada para o passado.