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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Lançamento: Os clãs da lua Alfa, Philip K. Dick

O selo Suma, da editora Companhia das Letras, tem buscado na ficção do escritor americano Philip K. Dick (1928-1982) uma maneira de qualificar o selo com o aspecto "cult" que caracteriza a obra deste autor, muito conhecido por ter criado peças literárias que inspiraram uma razoável quantidade de filmes de cinema e séries de tv, a começar por Blade Runner, filme de 1982 dirigido por Ridley Scott. Depois de Espere agora pelo ano passado (2018), O tempo desconjuntado (2018) e O labirinto da morte (2023), vem se juntar a sua coleção Os clãs da lua Alfa (Clans of the alfane moon, originalmente publicado em 1964) . Contudo, PKD é conhecido do leitor brasileiro há muito tempo. O próprio Os clãs da lua Alfa teve uma edição em 1987, como número 41 da Coleção Mundos da FC da editora Francisco Alves.
Diz o texto de apresentação: "Durante anos, uma lua isolada no sistema Alfa serviu como hospital psiquiátrico da Terra. Após uma guerra entre terrestres e alfanos, os pacientes ali internados são abandonados à própria sorte. Com o tempo, organizam-se em clãs, cada qual orientado por um transtorno mental específico, criando uma sociedade regida por regras próprias, em equilíbrio sempre precário. Duas décadas depois, a Terra decide retomar o controle da lua. Depressivos, esquizofrênicos, paranoicos e maníacos, que convivem em relações delicadas e frequentemente conflituosas, unem-se para resistir ao que percebem como uma tentativa inaceitável de submissão. Paralelamente, na Terra, acompanhamos a trajetória de Chuck Rittersdorf, funcionário da CIA cuja vida pessoal entra em colapso após a separação de Mary, psicóloga especialista em aconselhamento conjugal. Quando Mary se torna peça central da expedição à lua Alfa, Chuck vê uma oportunidade de se vingar."
O volume tem 264 páginas, tradução de Braulio Tavares e pode ser adquirido no saite da editora, aqui.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Resenha: Fluam minhas lágrimas, disse o policial, Philip K. Dick

Fluam minhas lágrimas, disse o policial
(Flow my tears, the policeman said), Philip K. Dick. Tradução Ludimila Hashimoto. 256 páginas, São Paulo: Alpeh, 2013. Originalmente publicado em 1974.

Philip Kindred Dick (1928-1982), ou PKD, é uma dessas sumidades lembradas de imediato quando se fala em ficção científica. Não tanto pela ampla produção literária, que é realmente monumental, mas principalmente pelas adaptações de seus textos para o cinema e para a tv. Filmes como Blade Runner, O vingador do futuro, Screamers, Minority report, Agentes do destino, O pagamento e O homem duplo, e as série de televisão O homem do castelo alto e Sonhos elétricos, para ficar só nos mais conhecidos, são grandes sucessos e é qimprovável que alguém nunca tenha ouvido falar deles. Mas o trabalho original de PKD é conhecido apenas de uma restrita comunidade de leitores especializados em ficção científica.
Dick vem sendo publicado no Brasil desde os anos 1970, por editoras como a Bruguera, a José Olympio, Cedibra, Tecnoprint, etc. Mas o grosso do autor em língua portuguesa saiu mesmo na Coleção Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil, cujos exemplares eram facilmente encontrados no Brasil e, assim, formou-se desde então uma legião de fãs. Chegou até mesmo a editoras do porte da Companhia das Letras, pois os sucessos audiovisusais nele inspirados são um motivador bastante convincente. Mas a casa editorial que mais publicou PKD nos últimos vinte anos no Brasil foi a Editora Aleph, que tem mantido em catálogo praticamente todos os títulos que publicou do autor. Entre eles está Fluam minhas lágrimas, disse o policial, romance de 1974, ganhador do Prêmio John W. Campbell, que teve edição anterior, em 1986, pela Brasiliense sob o título de Identidade perdida
Dick é conhecido por tratar de temas filosóficos complexos como a natureza da realidade, simulacros, identidades múltiplas, distopias políticas e outras questões metafísicas com proposições instigantes sempre regadas a muita especulação tecnológica, especialmente sobre drogas e outros indutores de estados alterados de consciência, todos de alguma forma presentes neste romance. Por isso, PKD é um dos escritores de ficção científica mais influentes do nosso tempo.
Fluam minhas lágrimas, disse o policial acompanha a odisseia de Jason Taverner, cantor popular de meia idade, apresentador de tv de grande sucesso, mulherengo, milionário, bonitão e "seis", ou seja, um dos poucos seres humanos dotados, por manipulação genética, de capacidades intelectuais superiores. Após um de seus shows semanais, sempre com mais de trinta milhões de espectadores, Taverner acorda na manhã seguinte em um hotel fuleiro, ainda vestindo o caríssimo terno de seda que usou no último show. Ele não está com amnésia, pois sabe muito bem quem é, mas não faz ideia de como foi parar ali. Sua primeira reação é telefonar para sua amante, uma seis chamada Heather Hart, mas ela o esnoba e diz não o conhecer. Liga então para seu advogado, que também não se lembra dele. Sem documentos – embora com algum dinheiro no bolso –, Taverner sabe que precisa de documentos válidos para sair a rua, pois a realidade política dos EUA em que vive é de um estado totalitário policial militarizado em guerra contra os estudantes universitários que se escondem nos subterrâneos das antigas universidades em ruínas. Qualquer um pego na rua sem documentos, se não for morto no ato, é preso e enviado para campos de trabalhos forçados para o resto da vida. 
O recepcionista do pardieiro, muito bem pago por Taverner, dá-lhe carona até a casa de Kathy, uma excelente falsificadora de documentos mas que, ele logo percebe, tem algum tipo de distúrbio intelectual. Por causa de suas capacidade seis e de sua aparência exuberante, Taverner sempre exerce  fascínio nas mulheres e se aproveita disso com Kathy. Mas ela também é informante da polícia, e quando o Inspetor McNulty, para quem ela trabalha, aparece de surpresa, acaba pegando Taverner. Como não consegue provar quem é, McNulty abre uma investigação sobre Taverner e descobre que não existe nenhum registro em qualquer lugar do planeta sobre ele. O mistério chama a atenção do maioral do departamento de polícia, o General Buckman, que acredita que esse desconhecido deve ser ligações importantes com poderes insupeitos, e os problemas de Taverner entram numa crescente escala de dificuldades. 
A narrativa lembra uma novela rocambolesca, em que um novo problema se acrescenta ao anterior e vai se complicando cada vez mais, principalmente porque Taverner não sabe, em momento algum, realmente o que está acontecendo. A resposta virá, mas não vou contar aqui. Só vou dizer que Taverner não é, como parece, o personagem principal nessa história. 
Outra característica das histórias dickianas é a recorrência ao gênero policial. Tal como os personagens que não sabem direito em que realidade vivem, também não sabemos bem, os leitores, se o que estamos lendo é uma história de crime ou de ficção científica, e esse é um dos charmes do estilo alucinado de PKD. Mas é bom que se diga que, assim como nas grandes histórias de crime, haverá uma solução racional no final, nem sempre fácil de entender, mas certamente de grande perspicácia. 
Tão importante quanto a história em si, são os personagens de PKD, de uma riqueza construtiva absurda, cada um deles um universo em si. E mais importante que tudo é a sensação de irrealidade que escapa do romance e invade a nossa própria realidade. Ao fecharmos a última página de uma história de PKD, precisamos olhar bem ao redor e conferir se tudo ainda está ali. Porque, eventualmente, pode ser que não esteja mesmo.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: O pagamento, Philip K. Dick

O pagamento (Paycheck: Classics stories by Philip K. Dick), Philip K. Dick. 384 páginas. Tradução de Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife & E. Barreiros. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Desde que o cineasta Ridley Scott dirigiu Blade Runner: O caçador de andróides, baseado em um romance de Philip K. Dick, o autor tornou-se referência de fc no cinema, com diversas de suas histórias transpostas para as telonas. O próprio romance O caçador de andróides (Do androids dream of eletric sheep?) só chegou ao Brasil em 1983, pela Francisco Alves, após o lançamento do filme nas salas exibidoras. E não foi por outro motivo que a editora Record tomou a iniciativa de publicar o volume que é tema desta resenha: o lançamento do longa-metragem O pagamento, dirigido por John Woo.
Talvez seja por isso que a referida editora não demonstrou capricho na realização do volume, que teve produção gráfica digna de uma edição popular das mais simplórias, com a tradução – assinada por Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife e E. Barreiros – comprometida por uma revisão trágica; não se preocupou em inserir um desejável texto de apresentação para situar os contos da coletânea na obra do autor e nem mesmo fez constar seus títulos originais. Somado ao altíssimo preço de capa, só mesmo sendo fã de PKD para aguentar tanto descaso. Foi tanta a falta de confiança da Record nos atrativos da ficção de Dick que a editora fez questão de citar destacadamente na capa do volume não apenas o nome do diretor da versão cinematográfica do conto que batiza a coletânea, mas três dos seus atores também, como se isso fizesse alguma diferença num texto que PKD escreveu em 1953. E não só: citou, também na capa, a coletânea anterior, Minority report: A nova lei, cuja publicação, à sua época, também foi uma jogada de oportunismo da editora.
Apesar da forma claramente depreciativa com que a editora tratou o livro, a coletânea tem méritos. O primeiro deles é que onze dos doze contos de O pagamento estavam ainda inéditos em português, exceto por um deles, "O pai-coisa" que, de acordo com o Acervo bibliográfico em língua portuguesa de fc, de Ruby F. Medeiros, havia sido anteriormente visto apenas na edição número 49 da obscura revista Suspense.
O segundo mérito é que, dentre os contos desta coletânea, há vários que podem ter perfeitamente sido os ensaios para os romances mais destacados de PKD. Pelos comentários a seguir, o leitor perspicaz certamente vai identificá-los. Entre os parêntesis está grafado o ano em que o conto foi publicado pela primeira vez.
"O pagamento" (1953)
Num futuro próximo, a sociedade civil mundial tornou-se um estado policial e apenas as corporações particulares ainda detêm uma certa independência. A Empreiteira Rethrick contrata, por tempo determinado, profissionais especializados para seus projetos internos e, completado o contrato, os trabalhadores são bem recompensados em dinheiro, mas suas memórias são apagadas para preservar o que eles viram e fizeram dentro da empresa do assédio da Polícia Secreta do governo. Jennings é um especialista em eletromecânica que acabou de cumprir seu contrato e ter a memória apagada mas, como pagamento recebe, ao invés da boa grana que esperava, apenas sete objetos ordinários e sem nenhum sentido, juntamente com uma carta de próprio punho em que ele mesmo pediu que esses objetos substituíssem o seu gordo cachê. Confuso e acreditando ter sido passado para trás pela empresa, Jennings mal tem tempo de se indignar porque, ao sair do escritório da empresa, é imediatamente detido pela PS para interrogatório e levado para a delegacia — e todos sabem que ninguém que uma vez entra na delegacia da PS é visto novamente. Poucos minutos depois, Jennings se vê usando cada um daqueles objetos para preservar sua integridade física. Sorte? Coincidência? O que haveria por trás dos dois anos em que Jennings passou na Rethrick?
"Babá" (1955)
A família Fields tem uma babá para cuidar de seus dois filhos pequenos. Ela é uma das maravilhas da tecnologia moderna, um robô compacto similar a um besouro, absolutamente confiável e eficiente, sempre pronto a atender qualquer necessidade das crianças. A babá dos Fields é um modelo discreto e depois de três anos de uso está no limite da obsolescência, mas é mantida no posto porque as crianças a adoram. Porém, as babás dedicam-se também a uma atividade obscura que vai levar a família Fields a entrar numa escalada consumista que, em tese, ela nunca desejou.
"O mundo de Jon" (1954)
A Terra está devastada pela guerra, uma guerra total que deixou o mundo em cinzas. Os sobreviventes, que se refugiaram na Lua, voltam as poucos e tentam reconstruir o planeta, mas o trabalho é difícil e progride lentamente. Por isso, os cientistas desenvolveram uma máquina do tempo, que irá ao passado resgatar os estudos do maior cientista da história humana e permitirá recuperar a perdida tecnologia dos robôs com cérebros artificiais que foram, a princípio, a ruína da Terra, mas que podem ser agora a sua redenção. O encarregado da missão é Caleb Ryan e ele tem um filho, Jon, um garoto que está enfrentando um momento difícil. Visões de um mundo pastoral o arrebatam cada vez com mais intensidade. Seu pai acredita que ele está tendo crises psicóticas e decide lobotomizá-lo antes de embarcar em sua viagem cronal. Caleb consegue resgatar os documentos que queria mas, no processo, altera dramaticamente o passado, colocando em risco a viagem de volta ao mundo em que o lobotomizado Jon o espera.
"Café da manhã no crepúsculo" (1954)
A família MacLean, pai, mãe e três filhos, desperta para mais um dia comum. Do lado de fora uma neblina muito forte impede a visão. Quando um dos filhos tenta sair para ir à escola, é impedido por um comando militar que invade a casa e subjuga toda a família. Os soldados estão atônitos e desconfiados: diante deles está uma família americana típica tomando prosaicamente o café da manhã numa residência igualmente típica que foi a única coisa a resistir ao bombardeio de saturação da noite anterior, numa guerra que já dura oito anos da qual a família MacLean nunca tinha ouvido falar.
"A cidadezinha" (1954)
Verne Haskel é um homem de meia idade que tem uma vida infeliz. Casado com uma esposa que não o ama, com um emprego do qual não gosta e um chefe que odeia, o único prazer de sua vida é um trenzinho elétrico que ele mantém montado no porão de sua casa, para o qual, ao longo dos anos, Verne construiu uma reprodução em escala da sua própria cidade, com todos os detalhes. Num acesso de frustração, ele arranca a miniatura do prédio da firma em que trabalha e a destrói, substituindo por outra miniatura sem correspondente real, e então percebe que poderia refazer toda a cidade de acordo com sua própria definição. Demite-se do emprego no dia seguinte e surpreende a esposa em adultério, mas não se abala: tranca-se no porão e dedica-se tão somente à reconstrução de sua cidadezinha, o que pode ter desdobramentos inesperados.
"O pai-coisa" (1954)
Charles Walton tem oito anos e está apavorado. Viu seu pai na garagem conversando com alguma coisa que parecia igualzinha a ele mesmo e agora sabe que o que está diante dele, na mesa do jantar, embora pareça seu pai, não é. Ele sai da mesa sem jantar e sem pedir licença, e seu pai-coisa promete-lhe castigo pela falta de modos. Charles foge pela janela do quarto e vai à garagem procurar pelo seu verdadeiro pai. O que ele encontra é apenas o início do terror.
"A Cerca de Cromo" (1954)
Don Walsh está com problemas. A sociedade em que vive está em conflito aberto por conta da pressão de um projeto de lei que pretende exigir compulsoriamente que todos os cidadãos não tenham mais odor corporal, mau-hálito e cabelos feios. E isso está causando conflitos sérios em varias partes do país, no qual Puristas (defensores da tal lei) e Naturalistas (defensores da natureza como ela é) lutam até à morte. Walsh tenta "ficar em cima do muro" o máximo de tempo possível, de forma a se afastar da violência, mas ela já se manifesta entre os membros de sua própria família. Mais cedo ou mais tarde ele terá de tomar uma atitude.
"Autofab" (1955)
Um grupo de humanos sobreviventes de uma guerra nuclear total quer paralisar a rede de fábricas automáticas de bens de consumo e suprimentos que a humanidade instalou durante a guerra para suprir os abrigos. Isso porque as fábricas estão esgotando os recursos do planeta e impedindo que os humanos voltem a cuidar de si próprios. Como não há argumentos que convençam as fábricas que, além de inexpugnáveis, são administradas e operadas por robôs auto-replicastes, eles elaboram um plano ousado para fazer com que as fábricas entrem em conflito umas com as outras.
"Os dias de Pat Prafrente" (1963)
Depois da guerra que destruiu o planeta, a humanidade sobrevivente reúne-se em pequenas comunidades isoladas, com pouco contato entre si. Sem contato físico, alienígenas marcianos arremessam ao solo, a partir de máquinas voadoras, os mantimentos que sustentam os últimos humanos sobre a Terra. Os suprimentos são fornecidos em quantidade além da necessária e a maioria é simplesmente abandonada onde caiu, servindo de alimento apenas aos estranhos animais mutantes que habitam as ruínas da civilização.
Os homens aproveitam uma ou outra coisa, sempre tendo em vista sua aplicação no tabuleiro de um jogo de representação que todos os adultos praticam, no qual Pat Prafrente, uma boneca no estilo Barbie, é a personagem principal. Todas as relações da comunidade giram em torno desse jogo e as coisas ficam confusas quando chegam notícias de um novo jogo que é praticado em uma comunidade mais distante, algo similar a Pat Prafrente, mas com outra boneca. Um casal aceita apostar seu bem mais valioso — a sua própria boneca Pat Preferente — para jogar contra os campeões desse novo jogo.
"Plantão" (1963)
A presidência dos Estados Unidos está ocupada, há uns bons anos, por um supercomputador infalível que detém o controle absoluto de todos os mecanismos sociais, econômicos, políticos e militares do país. Só por garantia, um cidadão indicado por um sindicato de classe ocupa o lugar de plantonista da presidência, para assumir o cargo no remotíssimo caso do computador falhar, o que nunca aconteceu. Para amenizar o impacto da perturbadora notícia de que uma frota de espaçonaves alienígenas foi identificada nas proximidades do Sistema Solar, o mais popular âncora jornalístico da televisão ("palhaço", de acordo com a tradução) decide pautar uma entrevista cômica com o novo indicado para essa desnecessária função burocrática. E é exatamente no momento em que a entrevista se inicia que, devido a intervenção dos alienígenas, o supercomputador presidencial falha. É hora do mais inútil dos americanos assumir o poder.
"Uma coisinha para nós, temponautas" (1974)
Os russos saíram novamente na frente dos americanos, enviando dois temponautas ao futuro e trazendo-os de volta. Para não ficar em desvantagem, o programa temporal americano envia três temponautas duas vezes mais longe, mas algo não sai bem e ocorre um acidente fatal na viagem de volta. Um dispositivo especial, chamado Atividade de Tempo de Emergência (cuja sigla o tradutor não se decidiu entre ATE ou ETA), permitiu que os temponautas voltassem ao continuum por tempo limitado, num momento posterior ao evento fatal, de forma a participarem de seus próprios féretros e contribuírem para uma propaganda mais favorável ao programa americano. Addison Doug, um dos temponautas, sofre de insistente sensação de déjà vu, como se estivessem todos presos num loop, repetindo indefinidamente os mesmos fatos. Ele acredita que a morte no acidente é única forma de interrompê-lo. Entretanto, um dos cientistas do programa sugere que é justamente o acidente fatal que está gerando o loop. Mas Addison decide garantir, talvez mais uma vez em seu loop eterno, que o acidente aconteça.
"As pré-pessoas" (1974)
Em algum momento num futuro próximo, as leis americanas pró-aborto extrapolaram: o aborto pode ser feito enquanto a alma não entrar no corpo da criança, e os burocratas decidiram que isso só acontece quando se domina álgebra, matéria que é ensinada quando as crianças têm aproximadamente dez anos de idade. Basta que os pais façam uma solicitação e uma viatura oficial — o caminhão do aborto — retira a criança indesejada de sua casa e a leva para um campo de concentração. Caso ninguém se interesse em adotá-la, será sacrificada (ou “abortada“). O oficial do caminhão de abortos detém, na estrada, um jovem que não tem os documentos obrigatórios que provariam que não é uma criança indesejada. Nesse momento, surge o pai do garoto, um homem de 35 anos que insiste que, por também não dominar a álgebra, não tem alma e deve ser igualmente abortado. Confuso, o oficial resolve levar ambos para a instalação municipal, e não imagina o problema que isso vai causar.
A coletânea é equilibrada e isso acontece não só porque PKD é um escritor acima da média, mas principalmente porque o organizador da antologia — que pode ter sido o próprio Dick, uma vez que não há nenhuma informação a respeito no livro — optou por apresentar os contos em ordem cronológica. Isso permite que o leitor acompanhe a evolução do estado da arte do autor, atingindo o clímax no conto final, de longe o melhor do conjunto. Também oferece trabalhos de vários matizes, tanto para agradar o leitor que prefere o modelo pulpish de fc — que lida com temas recorrentes que eram encomendados pelos editores das revistas que os publicavam — como aquele que aprecia obras autorais sofisticadas.
Uma das leituras que se pode fazer desta coletânea é que PKD teria um interesse especial nas viagens no tempo, com o que construiu uma espécie de história do futuro, porém isso não ocorre na mesma proporção no total da obra do autor. Nos romances, PKD investiu no tema apenas em Now wait for last year e de modo um tanto oblíquo em Counter clockworld (Regresso ao passado, Editorial Panorama). É possível que tal acúmulo de narrativas sobre viagens no tempo neste coletânea tenha sido proposital, talvez para reunir todas elas.
Mas há mais uma interpretação importante que se pode ter da leitura deste conjunto de contos e, desta vez, o restante da obra de PKD não a desmente. Ainda que a ideia de futuro de PKD seja pessimista em relação à humanidade como um todo, o autor demonstra insistência especial em desvalorizar a figura feminina, numa mal disfarçada misoginia. Em algumas histórias, as personagens femininas simplesmente inexistem e, na maioria, assumem papel apenas coadjuvante ou de pouco significado. Mas o autor as trata de maneira declaradamente animosa em "A cidadezinha" e "As pré-pessoas". Nesta, em especial, há um discurso mais de uma página acusando as mulheres de "fêmeas castradoras" e de serem as principais interessadas na legalização do aborto. Dick casou-se nada menos que cinco vezes ao longo de sua vida e isso deve ter algo a ver com esse pensamento que é recorrente em sua obra.
Apesar de tudo, O pagamento é um livro altamente recomendável ao leitor que aprecia uma leitura inteligente, embora possa gerar perturbação psicológica e desvios na percepção da realidade. Mas essa é marca registrada de todos os trabalhos de PKD.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Espere agora pelo ano passado

Espere agora pelo ano passado (Now wait for last year), Philip K. Dick. Tradução de Braulio Tavares, 296 páginas. Rio de Janeiro: Suma, 2018.

Comentei no post anterior, sobre a novela O tempo desconjuntado, que falaria dos últimos livros do Philip K. Dick publicados no Brasil. Esta resenha é, portanto, sobre outro título do autor, Espere agora pelo ano passado (Now wait for last year), romance publicado originalmente em 1966 que estava inédito em língua portuguesa e chegou ao Brasil em 2018 pelo selo Suma da Editora Companhia das Letras, com tradução de Braulio Tavares.
Diferentemente do título anteriormente comentado, este é, sem dúvida, um exemplo perfeito e acabado do estilo dickiano potencializado no formato de romance, em que há mais de um núcleo narrativo.
A história está centrada no casal Sweetscent. Eric é um médico importante e Katherine, sua esposa, é executiva de uma grande corporação. O casal está passando por uma crise e a separação parece iminente. Nesse momento, Eric é convocado para tratar de um paciente muito especial em uma cidade distante, alguém que ele não pode se dar ao luxo de recusar: trata-se de ninguém menos que o presidente do planeta Terra, cujo corpo está entrando em falência geral depois de ter abusado de diversos tratamentos para prolongar sua vida por séculos. E o homem não pode morrer justamente quando precisa participar de uma importante negociação com a delegação de um planeta alienígena com o qual a Terra mantém uma guerra prolongada.
Com a ausência do futuro ex-marido, Katherine decide fazer aquilo que mais gosta, e investe numa droga nova que promete uma profunda experiência mística. A droga é de fato tudo o que prometia e mais um pouco: ela também permite viajar no tempo! O problema é que se trata de uma substância altamente viciante e tóxica: se ela não tomar outra dose em 24 horas, morrerá, e se continuar tomando, morrerá em uma semana da mesma forma. Desesperada, Katherine pede socorro a Eric que, para ajudá-la, compromete sua missão e torna-se procurado pelo assassinato do presidente da Terra. Para salvar a ambos, a Terra e talvez o seu casamento – o que parece impossível –, Eric terá que desvendar o que está por trás da estranha droga e se envolver no mortal jogo de espionagem interplanetária.
PKD coloca na mesa todas as suas cartas: paranoia, intrigas políticas, um crime a ser desvendado, drogas, a fragilidade da mente, a natureza da realidade e do tempo, e uma corrida alucinada em que cada segundo conta. As linhas de ação nem sempre se interligam, o que cria abismos narrativos que o leitor precisará cruzar para entender o que está acontecendo e, para isso, terá de construir as pontes, que podem mudar a interpretação da história de um leitor para outro, ou de um mesmo leitor em momentos diversos.
Muitos podem achar que isso seja fruto de um problema de tradução ou de edição, mas é improvável. Braulio Tavares é um grande tradutor e especialista no gênero, e a edição da Suma é caprichosa, com encadernação em capa dura e o requinte da pungente ilustração de Fabrizio Lenci. Não há espaço aqui para falhas. Resta, portanto, a alternativa de que a obra foi feita assim propositalmente pelo autor, e decerto que é isso mesmo. PKD tem diversos livros com características similares, alguns um pouco mais que outros, e este é um dos "mais". Para aqueles que conseguirem superar esta corrida de obstáculos, o resultado é gratificante, um exemplo perfeito do tipo de ficção que influenciou uma infinidade de autores que vieram depois, especialmente o movimento cyberpunk, com o qual PKD é muitas vezes identificado como precursor. Mesmo que fosse só por isso – há muitos outros motivos além desse – penso que vale a pena o esforço.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O tempo desconjuntado

O tempo desconjuntado (Time out of joint), Philip K. Dick. Tradução de Braulio Tavares, 268 páginas. Rio de Janeiro: Suma, 2018.

Enquanto aguardamos o lançamento de O tempo em Marte, romance de ficção científica do escritor americano Philip K. Dick (1928-1982), anunciado para 2020 pela Editora Aleph, vamos falar um pouco sobre os últimos livros desse autor publicados no Brasil.
PKD é um autor singular. Mais conhecido pelo livro Sonham androides com ovelhas elétricas, que deu origem ao filme Blade Runner: O caçador de andróides, de Ridley Scott, lançado no ano da morte do autor e um fracasso de bilheteria que aos poucos ganhou status de cult, Dick foi um autor prolífico no período da New Wave da fc americana. Seus romances e contos inspiraram uma leva de filmes e série de tv (como O vingador do futuro, Paycheck, Minority report, O homem do castelo alto e Electric dreams, entre outros), e pode dar a impressão que se trata de um escritor popular. Não é.
PKD tem  o desagradável hábito de escrever histórias difíceis. Seu estilo é desconfortável, muitas vezes beirando o insuportável, e seus temas são complexificados a um ponto hiperbólico. São raras as histórias do autor que permitem uma interpretação sequer objetiva, muito menos fácil. Além do mais, tem momentos de profunda incorreção moral, intolerância e até algum chauvinismo. Mesmo assim, consegue flutuar acima de seus pecados graças a criatividade galopante que não faz concessões aos leitores. Ler e, principalmente, publicar PKD pode até não ser muito lucrativo, mas garante uma boa reputação, semelhante como ao que acontece com Willian Gibson, um dos pais do cyberpunk.
A primeira vez que tive um PKD nas mãos foi uma experiência frustrante. Estava com 14 anos e em minha primeira fase de interesse na fc, quando encontrei um livro do autor no acervo da biblioteca pública, Espaço eletrônico (The unteleported man), na edição da Bruguera de 1971. Li o livro inteiro mas não entendi absolutamente nada. Não era um problema com o livro, mas com o leitor: eu não estava pronto para ele. E há muitos livros de PKD que são assim, então é difícil recomendar o autor para leitores iniciantes no gênero.
Contudo, entre tantas histórias indecifráveis, sempre há alguma que pode ser lida com menor esforço. Uma dessas é O tempo desconjuntado (Time out of joint), novela de 1959 publicada no Brasil em 2018 pelo selo Suma da Editora Companhia das Letras. O romance teve uma edição portuguesa em 1985, sob o título de O homem mais importante do mundo, mas até então estava inédito aqui.
Conta a história de Ragle Gumm, homem fracassado, de meia idade, que vive na casa da irmã e passa os dias resolvendo quebra-cabeças de um concurso do jornal local. Gumm está quebrando os recordes de acertos do concurso, o que pode lhe render uma bolada em prêmios que talvez resolva sua vida, além de alguma fama, mas também o mantém socialmente isolado.
Gumm está inquieto com a repetição de fenômenos visuais estranhos e recordações incongruentes, que até podem ser frutos de estresse por sua concentração nos enigmas diários cada vez mais complexos. Depois de testemunhar o desaparecimento de uma barraca de refrigerantes no parque – que deixou em seu lugar apenas um pedaço de papel com as palavras "barraca de refrigerantes" –, ele tem absoluta certeza que está enlouquecendo. Tudo fica ainda pior quando ele encontra, num terreno baldio, uma lista telefônica com números que não deveriam existir. Acossado pela paranoia, Gumm está disposto a comprometer sua fama e fortuna para descobrir o que há por trás dessa realidade que fica cada vez mais estranha.
A edição da Suma é caprichada, impressa em papel pólen e encadernada em capa dura. A tradução é de Braulio Tavares, um especialista no gênero, e a maravilhosa capa é de Deco Farkas.
Se eu tivesse que indicar um livro de PKD para alguém que nunca leu o autor, por certo que indicaria O tempo desconjuntado. Não que seja um texto fácil, mas em se tratando de PKD, não dá para fazer por menos que isso.

sábado, 24 de abril de 2010

PKD nunca é demais


O interessante blogue Capacitor Fantástico publicou a tradução de um dos mais curiosos e perturbadores artigos de Philip K. Dick (1928-1982), importante escritor norteamericano que dedicou praticamente toda a sua carreira ao gênero da ficção científica, com diversos romances, novelas e contos numa bibliografia que têm inspirado a indústria do cinema nas últimas décadas, e resultou em filmes como Blade Runner, O vingador do futuro e Minority report, entre outros.
Trata-se do ensaio "Como construir um universo que não desmorone dois dias depois", que vai muito mais fundo que apenas elaborar orientações práticas à artistas e escritores.
É um depoimento muito pessoal, no qual Dick conta os mais importantes conceitos que regeram seu trabalho, sua angustiante busca pela definição de "realidade", a famosa epifania religiosa que marcou sua vida e o que ele concluiu disso tudo.
É uma leitura reveladora sobre o alcance das discussões que a ficção científica de alto nível elabora, bem distante dos faroestes espaciais com raios laser como o gênero é geralmente encarado.
O artigo foi postado em cinco partes, todas já disponíveis. O site também está publicando, em capítulos, o mais conhecido romance do autor, O caçador de andróides, outra leitura que pode causar sérios efeitos colaterais.
Nas livrarias, vale a pena procurar pelos romances do autor, traduzidos pela Editora Aleph, como Ubik (2009) e Valis (2007).
Você acha que Matrix e Lost são viajandonas? Leia esse ensaio e começe a entender até onde vai a toca do coelho, na versão psicodélica de Dick.