Meu velho amigo, o escritor e roteirista Sid Castro, chamou minha atenção para o interessantíssimo romance Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção, de Fernando Fontana, escritor do interior de São Paulo, mais exatamente na região de Catanduva. Lançado em agosto de 2018, é o primeiro livro do autor, um drama policial e político num panorama de ficção científica ao estilo noir. Conta a história de um detetive de um Brasil alternativo no qual existem pessoas com superpoderes, mas não necessariamente super-heróis.
Diz a sinopse de divulgação: "Após um evento traumático, o detetive Lucca Carrara deixa o Departamento de Crimes Supranormais (DCS), e se transforma em um homem amargurado, com um passado questionável, vivendo em um país onde os assuntos do momento são o futebol, a corrupção e os super-heróis. Seus maiores amigos são o cigarro, a cerveja e o falecido escritor Charles Bukowski, com quem ocasionalmente conversa em seus delírios. Com a conta sempre no vermelho, e sem alternativa, ele aceita investigar um possível caso de adultério, envolvendo o Patriota, o maior e mais famoso super-herói do país, árduo defensor da moral e dos bons costumes, amado por muitos e protegido por um governo atolado em um mar de lama. Enquanto isso, no céu do país, as incrivelmente poderosas super-heroínas Justiça Escarlate e Miss Liberdade, mortais inimigas, lutam uma contra a outra em uma batalha que não parece ter fim, devastando quarteirões inteiros, e ignorando completamente os crimes que são cometidos ao seu redor. Um agente do Departamento de Crimes Supranormais procura por um vilão, que pode ser o principal responsável por uma terrível epidemia de estupidez que se alastra pela nação. Uma mulher invisível é ignorada. Um profeta lidera uma Cidade sem Nome. O mago mais poderoso do mundo transa com ele mesmo. É um mundo insano onde as leis da física foram abolidas. Em sua investigação, Carrara se envolverá em uma trama cada vez mais complexa e perigosa, colidindo com os interesses de homens poderosos, vilões que não vestem roupas coloridas e espalhafatosas, uma legião do mal com terno e gravata importados, capazes de qualquer coisa para manter a posição que conquistaram. Para enfrentá-los, contará com a ajuda de uma prostituta com super poderes, um indigente voador, um ex-super-herói com corpo blindado e do homem mais sortudo do mundo. Ainda assim, as chances estarão contra ele."
Os próximos projetos de Fontana são uma novela gráfica no mesmo universo do romance (com roteiro de Sid Castro e desenhos de Ivan Lima) e um novo romance que terá o instigante título Procura-se Elvis vivo ou morto, que conta como Elvis foi encontrado numa pequena cidade do interior paulista, cuja prefeita é a Morte.
Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção tem 266 páginas e é uma publicação da editora Viseu.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
A revolução dos bichos
A revolução dos bichos (Animal farm), George Orwell, adaptado e ilustrado por Odyr a partir da tradução de Heitor Aquino Ferreira. 178 páginas. São Paulo: Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia., 2018.
Há alguns anos, a adaptação de obras literárias para os quadrinhos tornou-se uma verdadeira febre no mercado editorial brasileiro. Todos os anos, dezenas de títulos dessa linha chegam às livrarias, de olho na lucrativa possibilidade de entrar para o listão do MEC, ou seja, convencer o governo federal que era importante colocar o título a disposição dos estudantes nas bibliotecas escolares do país.
O governo foi o maior comprador desse tipo de publicação até que a crise econômica, política e moral que assola o país desde meados de 2015 atingiu o mercado editorial como uma bomba atômica: a bolha furou e impérios começaram a desmoronar, tanto das editoras como das livrarias. Toda a produção editorial foi impactada pela recessão econômica e com a forte redução das compras do governo, as adaptações – bem como todos os demais modelos narrativos – rapidamente perderam o espaço do qual gozavam.
Hoje, são raras as iniciativas de adaptações, por isso é de se admirar que a editora Companhia das Letras tenha investido nesta adaptação da famosa novela de George Orwell, A revolução dos bichos, um dos maiores clássicos da literatura universal, um libelo contra o autoritarismo que tanto a direita quanto a esquerda reivindicam para o seu próprio arcabouço.
Orwell, batizado como Eric Arthur Blair (1903-1950), era cidadão britânico nascido na Índia e cedo se encantou com as lutas revolucionárias. Passou sua juventude no submundo europeu entre dificuldades e privações, engajou-se na militância comunista e chegou a lutar na revolução espanhola contra o ditador Francisco Franco. Sua desilusão com os rumos do comunismo na Rússia o tornou um feroz crítico da capacidade humana de degradar tudo o que toca, do qual A revolução dos bichos, publicado em 1945, é o exemplo mais agudo, ao lado de outro de seus clássicos, o denso e aterrorizante 1984, publicado três anos depois.
A história, dividida em dez capítulos, conta como os animais de uma fazenda britânica, insuflados pelas ideias libertárias de um velho porco, empreendem uma revolução contra o proprietário alcoólatra e assumem o controle do lugar. Esses animais, é claro, têm certas faculdades intelectuais e realmente conseguem assumir o trabalho, mas terão de enfrentar duras batalhas contra o proprietário expulso, que tenta retomar a propriedade com a ajuda de homens do vilarejo. De vitória em vitória, sempre com muita dificuldade, os animais se impõem, mas as coisas complicam quando surgem as primeiras divergências internas: os porcos, líderes da revolta, entram em conflito entre si e daí advém o que sempre acontece quando o poder torna-se um fim em si mesmo.
É interessante ver sendo esboçados nesta história os conceitos de duplipensar – que iriam atingir grau máximo em 1984 –, como na máxima: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros", que talvez seja uma das frases mais famosas da literatura mundial, ao lado das citações shakespearianas "Ser ou não ser, eis a questão" e "Há algo de podre no reino da Dinamarca". A revolução dos bichos, assim como 1984, foi um dos livros mais levados pelos cidadãos brasileiros às urnas na última eleição presidencial, e os motivos são bastante óbvios.
Além do valor indiscutível desta obra, que é leitura obrigatória para estudantes em muitos países do mundo, a edição ganha o reforço luxuoso da narrativa em quadrinhos de Odyr, experiente ilustrador gaúcho de Pelotas que, num belíssimo estilo expressionista em cores brilhantes torna a já poderosa experiência literária ainda mais intensa. O cenário rupestre e a aparente beatitude dos animais da fazenda, dos quais conhecemos bem a mansidão, ganham contornos dramáticos que beiram o insuportável. Talvez se víssemos homens matando-se uns aos outros não percebêssemos o mesmo nível de crueldade. Para quem não leu ainda o livro de Orwell, esta adaptação de Odyr é uma bela introdução, que realmente motiva o leitor a buscar pelo texto original, um efeito raro em outras adaptações.
Se há uma adaptação literária que deveria obrigatoriamente figurar nas bibliotecas escolares, com certeza é esta. Se vai chegar a isso, é um destino que, neste momento, é muito difícil prever. Afinal, discursos contra o autoritarismo não costumam ser muito populares em regimes autoritários. Tomara que eu esteja enganado...
Há alguns anos, a adaptação de obras literárias para os quadrinhos tornou-se uma verdadeira febre no mercado editorial brasileiro. Todos os anos, dezenas de títulos dessa linha chegam às livrarias, de olho na lucrativa possibilidade de entrar para o listão do MEC, ou seja, convencer o governo federal que era importante colocar o título a disposição dos estudantes nas bibliotecas escolares do país.
O governo foi o maior comprador desse tipo de publicação até que a crise econômica, política e moral que assola o país desde meados de 2015 atingiu o mercado editorial como uma bomba atômica: a bolha furou e impérios começaram a desmoronar, tanto das editoras como das livrarias. Toda a produção editorial foi impactada pela recessão econômica e com a forte redução das compras do governo, as adaptações – bem como todos os demais modelos narrativos – rapidamente perderam o espaço do qual gozavam.
Hoje, são raras as iniciativas de adaptações, por isso é de se admirar que a editora Companhia das Letras tenha investido nesta adaptação da famosa novela de George Orwell, A revolução dos bichos, um dos maiores clássicos da literatura universal, um libelo contra o autoritarismo que tanto a direita quanto a esquerda reivindicam para o seu próprio arcabouço.
Orwell, batizado como Eric Arthur Blair (1903-1950), era cidadão britânico nascido na Índia e cedo se encantou com as lutas revolucionárias. Passou sua juventude no submundo europeu entre dificuldades e privações, engajou-se na militância comunista e chegou a lutar na revolução espanhola contra o ditador Francisco Franco. Sua desilusão com os rumos do comunismo na Rússia o tornou um feroz crítico da capacidade humana de degradar tudo o que toca, do qual A revolução dos bichos, publicado em 1945, é o exemplo mais agudo, ao lado de outro de seus clássicos, o denso e aterrorizante 1984, publicado três anos depois.
A história, dividida em dez capítulos, conta como os animais de uma fazenda britânica, insuflados pelas ideias libertárias de um velho porco, empreendem uma revolução contra o proprietário alcoólatra e assumem o controle do lugar. Esses animais, é claro, têm certas faculdades intelectuais e realmente conseguem assumir o trabalho, mas terão de enfrentar duras batalhas contra o proprietário expulso, que tenta retomar a propriedade com a ajuda de homens do vilarejo. De vitória em vitória, sempre com muita dificuldade, os animais se impõem, mas as coisas complicam quando surgem as primeiras divergências internas: os porcos, líderes da revolta, entram em conflito entre si e daí advém o que sempre acontece quando o poder torna-se um fim em si mesmo.
É interessante ver sendo esboçados nesta história os conceitos de duplipensar – que iriam atingir grau máximo em 1984 –, como na máxima: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros", que talvez seja uma das frases mais famosas da literatura mundial, ao lado das citações shakespearianas "Ser ou não ser, eis a questão" e "Há algo de podre no reino da Dinamarca". A revolução dos bichos, assim como 1984, foi um dos livros mais levados pelos cidadãos brasileiros às urnas na última eleição presidencial, e os motivos são bastante óbvios.
Além do valor indiscutível desta obra, que é leitura obrigatória para estudantes em muitos países do mundo, a edição ganha o reforço luxuoso da narrativa em quadrinhos de Odyr, experiente ilustrador gaúcho de Pelotas que, num belíssimo estilo expressionista em cores brilhantes torna a já poderosa experiência literária ainda mais intensa. O cenário rupestre e a aparente beatitude dos animais da fazenda, dos quais conhecemos bem a mansidão, ganham contornos dramáticos que beiram o insuportável. Talvez se víssemos homens matando-se uns aos outros não percebêssemos o mesmo nível de crueldade. Para quem não leu ainda o livro de Orwell, esta adaptação de Odyr é uma bela introdução, que realmente motiva o leitor a buscar pelo texto original, um efeito raro em outras adaptações.
Se há uma adaptação literária que deveria obrigatoriamente figurar nas bibliotecas escolares, com certeza é esta. Se vai chegar a isso, é um destino que, neste momento, é muito difícil prever. Afinal, discursos contra o autoritarismo não costumam ser muito populares em regimes autoritários. Tomara que eu esteja enganado...
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sábado, 16 de dezembro de 2017
A era das revoluções
A era das revoluções: 1789 - 1848 (The age of revolution: Europe 1789 - 1848), Eric Hobsbawm. Tradução não creditada. Edição avaliada para ebook Kindle, Edição Le Livros, sem data.
O historiador britânico Eric John Ernest Hobsbawm (1917-2012) nasceu no Egito sob dominação britânica. Filho de judeus, formou-se em História em Cambridge, lutou na Segunda Guerra Mundial, foi militante político de esquerda e membro do Partido Comunista britânico.
Hobsbawm produziu uma extensa e vultosa obra, dentro da qual se destaca um ensaio sobre o desenvolvimento do sistema internacional ao longo dos séculos XIX e XX, estudo este publicado nos volumes A era das revoluções (1962), A era do capital (1975) e A era dos impérios (1987), nos quais o autor expõe detalhes do processo de formação do sistema internacional moderno a partir do desenvolvimento do capitalismo, começando na Revolução Industrial britânica e na Revolução Francesa de 1789 – que ele chama de Dupla Revolução – até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. A esses títulos pode-se somar Era dos extremos: O breve século XX (1994), em que o autor avança até a queda do regime soviético em 1991. Este texto resenha o primeiro volume da série, A era das revoluções: 1798-1848.
O livro está dividido em dezesseis capítulos separados em dois tomos principais nomeados "Evolução" e "Os resultados", que desdobram cada aspecto da história e dos efeitos da dupla revolução não apenas na Europa, mas também nos demais continentes influenciados pelos impérios emergentes do século XIX.
O primeiro capítulo, "O mundo da década de 1780", monta o panorama do ambiente sociopolítico europeu em que as forças pré-revolucionárias estavam em ebulição, especialmente a Grã-Bretanha e a França, dominado pelas relações de produção medieval e governado por monarquias com grandes senhores de terra e uma população servil. Manifestavam-se, em 1789, as primeiras ações da revolução industrial, com pequenos industriais assalariando camponeses em cidades ainda tão pequenas que mal se destacavam da paisagem rural que as cercava, mas onde já surgia um forte senso de identidade cosmopolita. A máquina a vapor, inventada por James Watt, e outros avanços tecnológicos nos mais diversos campos, como o da olaria, da química e da impressão, aliados à forte influência da maçonaria iluminista, foram os alicerces das grandes mudanças que revolucionariam o mundo nos 50 anos seguintes.
O capítulo 2, "A revolução industrial", detalha a agitação que tomou de assalto a Inglaterra, quando a classe dos proprietários industriais se associou à liderança política e começou a mudar as relações sociais e de produção a seu favor, com as lei dos cercamentos que expulsava os camponeses das terras onde viviam há gerações não só para ali instalarem espaços para criação de ovelhas, mas, principalmente, para dispor de um contingente inesgotável de mão de obra barata para suas fábricas mecanizadas – incluindo as mulheres e as crianças – e leis de trabalho compulsório. Tais medidas aumentaram significativamente a produtividade e os lucros, bem como a dimensão das cidades, com um acentuado declínio da atividade agrícola que levou a busca por mercados internacionais, seja para obter matéria prima, especialmente carvão, ferro e algodão para a indústria têxtil em crescimento, mas também para vender o excedente da produção. Houve resistência, como o movimento ludita, que atacava as fábricas para destruir máquinas, mas foi impossível parar a marcha do progresso.
O capítulo 3 é dedicado à Revolução Francesa. Talvez por conta do tema momentoso, é a leitura mais intensa de todo o livro. Hobsbawm classifica o período em que a Revolução Francesa ocorreu como "Era da revolução democrática", por se identificar com outras revoluções contemporâneas que aconteceram na Bélgica, Irlanda, Holanda, Inglaterra e outros países. Suas causas foram o excesso de pressão social, os problemas financeiros da monarquia francesa, a tentativa dos aristocratas em tomar o poder, e dos burgueses, associados aos trabalhadores e camponeses pobres, para destituir a monarquia e implementar um governo revolucionário republicano. Em 1789 foi promulgada a "Declaração dos direitos do homem e do cidadão", seguida pela Revolução Jacobina de 1890. Todas essas revoluções foram acompanhadas de muita violência e acabaram por deflagar uma guerra revolucionária em toda a Europa, na qual veio a se destacar o General Napoleão Bonaparte.
O capítulo 4, chamado "A guerra", trata justamente do período de intensos conflitos militares promovidos pelo Exército Revolucionário Jacobino sob comando de Bonaparte, força pouco treinada e de recursos escassos, mas muito motivada e idealista, que acabou por conquistar todo o continente levando a mensagem da revolução burguesa. O grande inimigo da França era a Inglaterra mas, devido a dificuldade de levar a ela seus exércitos, Bonaparte optou por uma estratégia de sufocamento comercial. Contudo, os jacobinos seriam derrotados na Rússia com grande perda de efetivos ("De 610 mil homens... 100 mil retornaram"), que se seguiu a derrota total da França Napoleônica frente aos britânicos.
"A paz" é título do capítulo 5, que analisa os anos que se seguiram à queda de Napoleão, com o surgimento de novas potências na Europa, como a Rússia, Grã-Bretanha, França, Áustria e Prússia, o desenvolvimento do mundo árabe sob comando de Mohammed Ali, a expansão dos EUA para o oeste e, sem qualquer resistência, a expansão econômica britânica para o mundo todo a partir de um forte investimento em sua frota naval.
No capítulo seguinte, "As revoluções", Hobsbawm move seu olhar para outras regiões do mundo, observando os movimentos de independência na América Latina (Grande Colômbia, Peru, México e Brasil), algumas delas de inspiração revolucionária. Observa também a organização dos primeiros sindicatos classistas na Europa e o surgimento de uma classe operária como força política autoconsciente e independente.
O capítulo 7, chamado "O nacionalismo", fecha o primeiro tomo, tratando dos movimentos nacionalistas que se espalharam pela Europa, fruto do descontentamento dos pequenos proprietários, intelectuais e de uma recém-formada classe média, impulsionados pelo surgimento de jornais e livros publicados em suas próprias línguas, bem como e o reenraizamento de populações que antes haviam emigrado de suas terras nativas.
Em seguida, o autor passa a analisar os efeitos que dupla revolução causou nas instituições econômicas e culturais da sociedade europeia.
O capítulo 8 trata da primeira dessas instituições , "A terra", que o autor introduz da seguinte maneira: "O impacto da revolução dupla sobre a propriedade e o aluguel da terra e sobre a agricultura foi o mais catastrófico fenômeno do período". Foram três as necessidades que se impuseram à revolução industrial quando se seus estágios iniciais: 1) Transformar a aterra em uma mercadoria; 2) Dar sua propriedade a homens empreendedores; e 3) Transformar os camponeses em mão de obra assalariada. Para isso, calém da já citada lei dos cercamentos, foram tomadas diversas providências, como leis que obrigavam os desterrados a vender sua mão de obra nas cidades, a venda das terras de propriedade da Igreja e a criação forçada de uma classe rural de empresários. Tais providências foram tomadas não apenas na Inglaterra, que sofreu seus efeitos em primeiro lugar, mas também nas colônias britânicas, como a Índia, que foi intencionalmente destituída da indústria artesanal que já possuía, em favor do modelo mecanizado britânico, que trouxe muito sofrimento e miséria ao povo indiano.
Em "Rumo a um mundo industrial" o autor mostra que "de todas as consequências econômicas da época da revolução dupla, a divisão entre os países 'adiantados' e os 'subdesenvolvidos' provou ser a mais profunda e duradoura". Por volta de 1840, só a Inglaterra era industrializada, com os EUA e a Alemanha no limiar. Os aspectos mais notáveis do crescimento industrial, também chamado de "progresso", foram o crescimento populacional e dos fluxos migratórios, o incremento da comunicação, com o surgimento de novas tecnologias, como o telégrafo, e do transporte, como ferrovias e estradas, assim como o explosivo crescimento do comércio, com mudanças sociais e econômicas rápidas e radicais, crescimento das cidades, dos parques industriais e do mercado financeiro.
O capítulo 10, "A carreira aberta ao talento", trata de um fenômeno derivado da dupla revolução, que foi permitir alguma mobilidade social a partir do domínio de habilidades específicas. "O principal resultado da Revolução na França foi o de pôr fim à sociedade aristocrática. Mas não significou o fim da influência aristocrática", diz o autor. Pois a burguesia assenhorou-se dos valores culturais da aristocracia, que se tornaram ainda mais dominantes com o avanço da revolução industrial através da ação dos jornais e da publicidade. Eram quatro os caminhos possíveis para o exercício do talento: os negócios, a educação (que inclui a ciência, a burocracia e o profissionalismo liberal), a política e a guerra. Ou seja, uma pessoa de origem desfavorecida poderia ascender socialmente caso dominasse uma das habilidades valorizadas pela sociedade capitalista revolucionária. A criação na França dos exames seletivos, usados até os dias de hoje, tinha o objetivo claro de selecionar uma elite intelectual. A famigerada família Rothschild é um exemplo de sucesso no setor de negócios, pois eram de origem judaica, um povo recorrentemente mantido à margem da sociedade. A propósito, os judeus foram os que melhor aproveitaram essa oportunidade, destacando-se também nas artes, na ciência e na política. A máxima de Hobsbawm é uma verdade válida até os nosso dias: "O homem que não tivesse demonstrado a habilidade de chegar a proprietário não era um homem completo e, portanto, dificilmente poderia ser um cidadão completo".
O capítulo 11 analisa "Os trabalhadores pobres". Ao indivíduo que não possuísse uma das virtudes valorizadas, restavam três alternativas: lutar para se tornar um burguês (o que era virtualmente impossível), aceitar ser explorado (que levava à depressão, doenças e alcoolismo em massa) e a rebelião (visto que o emprego não era muito melhor que a escravidão). A revolução trabalhista era, pois, uma alternativa quase que compulsória. Logo se formaram uma consciência de classe e uma ambição de classe.
Em "A ideologia religiosa", Hobsbawm observa a influência da revolução dupla sobre as religiões. Por muitos séculos, o cristianismo foi de tal forma dominante na Europa que o termo "cristão" era usado como sinônimo de "homem". A dupla revolução mudou o panorama social, descolando-o de seus aspectos religiosos, secularizando as massas, descristianizando os instruídos e estabelecendo uma moralidade anticristã, com o desenvolvimento de muitas seitas de caráter racionalista. Contudo foi o protestantismo, praticado desde o século XVI, o mais beneficiado devido à convergência de valores fundamentais com o capitalismo burguês. Também foram evidenciadas seitas de caráter integralista, que apresentavam aspectos extremistas como intransigência e histeria religiosas. Da mesma forma, houve um considerável avanço do islamismo no oriente. Em todas as regiões também se observou uma reaproximação entre Estado e Igreja, com a religião se tornando defensora do Estado que, por sua vez, instrumentaliza a religião como mais uma de suas ferramentas de dominação.
No capítulo 13, o autor faz o contraponto abordando "A ideologia secular", apoiada essencialmente nos significantes de "progresso", palavra tão poderosa que praticamente ninguém pode contradizer sem desmoralizar a si próprio. O progresso passa a ser visto como um aspecto na natureza humana, sem a qual a vida é impossível. Essa ideologia, filha do Iluminismo e do Racionalismo, abriu caminho para o Utilitarismo de Bentham e Mill, para o Liberalismo de Smith e Ricardo, e para o Socialismo de Marx e Engels. Pois o que diferencia o Liberalismo do Socialismo não são seus objetivos, que são os mesmos, mas os métodos para atingi-los; pois o primeiro vê a sociedade como um aglomerado de indivíduos autônomos, e o socialismo acredita que o homem é basicamente um ser comunitário. A Alemanha foi grande tributária do pensamento político desse período, onde surgiram os conceitos de Materialismo, Empirismo Filosófico e Filosofia Natural.
O capítulo seguinte debruça-se sobre "As artes", que floresceram como nunca sob influência da revolução dupla potencializada pelo nacionalismo. Os artistas se envolveram com as questões públicas, evidenciado o caráter político em suas obras. A música, a pintura e a literatura cresceram em importância, enquanto a arquitetura perdeu espaço para a engenharia, mais afeita aos valores da revolução industrial. A filosofia naturalista, que propunha a religação do homem a sua natureza, estabeleceu o paradigma do Romantismo, reação ao Classicismo que se desdobrou em praticamente todas as artes desse período. Os românticos viam o homem do campo como um exemplo de virtudes incontaminadas, a "alma do povo". Desenvolveram-se, pois, as grandes epopeias nacionais, os cancioneiros folclóricos, as coletâneas de histórias populares e o cordelismo, embora entre a burguesia o padrão de cultura fosse o do nobre inglês, fruto da supremacia da Grã-Bretanha naquele mundo sob influência da dupla revolução. É aparentemente aqui que se estabelece a profunda distinção entre a arte oficial e a arte popular, que até hoje ecoa o abismo criado pelo capitalismo entre os países centrais desenvolvidos e os periféricos subdesenvolvidos.
"A ciência" é o último aspecto analisado por Hobsbawm neste volume, apontando que o período foi berço de "novos pontos de partida radicais", principalmente no campo da matemática, da química, da física eletromagnética e da astronomia, que resultou no forte crescimento no número de cientistas e eruditos na Europa. Também foi nesse período que se desenvolveram os estudos da vida a partir de ciências inorgânicas, com o desenvolvimento de novas ciências, tais como Geologia, Sociologia, Psicologia, Ciências Biológicas, Filologia, Antropologia, Etnografia, Pré-História e a Paleontologia, entre outras, assim como nas descobertas da química orgânica, do evolucionismo histórico e da evolução das espécies.
O capítulo 16 encerra este estudo com "Conclusão: Rumo a 1948". O autor define o período 1789-1848 como "o meio século mais revolucionário da história" e "uma época de superlativos", com o aumento do desenvolvimento técnico, industrial e científico, aumento populacional, da pobreza, concentração de renda com pouco desenvolvimento da estrutura política e social, e o surgimento da "classe média". A grande depressão da década de 1840, com quebra de safras, fome, miséria e grandes migrações em massa, somada ao aumento contínuo da tensão social levaria o mundo da dupla revolução à grande revolução em 1848.
Ler A era das revoluções: 1789 - 1848 não é tarefa fácil. Trata-se de um texto longo repleto de detalhes que precisam ser lidos com muita atenção, e revela ainda mais detalhes nas segunda e terceira leituras devido ao diálogo entre suas partes. Recomendo a leitura de uma edição oficial, preferencialmente impressa, pois a edição da Le Livros é a pior possível, com muitas gralhas, sem créditos e sem as notas de rodapé que também são muito importantes para a perfeita compreensão de todos os significados do texto. Louva-se o esforço do editor em acrescentar à edição a seção de mapas, contudo ela se torna pouco útil sem a presença dos demais conteúdos. Além do que a visualização dos mapas na pequena tela do Kindle não é favorável, como seria de se desejar.
Ainda assim, a leitura de A era das revoluções: 1789 - 1848 é uma experiência comparável apenas a de grandes clássicos da literatura. Ou seja, se não é obrigatório, deveria ser. Mesmo com todos os problemas desta edição, o resultado é uma série de revelações importantes sobre a natureza da sociedade moderna e do homem, que motiva fortemente o leitor para os demais volumes da série.
O historiador britânico Eric John Ernest Hobsbawm (1917-2012) nasceu no Egito sob dominação britânica. Filho de judeus, formou-se em História em Cambridge, lutou na Segunda Guerra Mundial, foi militante político de esquerda e membro do Partido Comunista britânico.Hobsbawm produziu uma extensa e vultosa obra, dentro da qual se destaca um ensaio sobre o desenvolvimento do sistema internacional ao longo dos séculos XIX e XX, estudo este publicado nos volumes A era das revoluções (1962), A era do capital (1975) e A era dos impérios (1987), nos quais o autor expõe detalhes do processo de formação do sistema internacional moderno a partir do desenvolvimento do capitalismo, começando na Revolução Industrial britânica e na Revolução Francesa de 1789 – que ele chama de Dupla Revolução – até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. A esses títulos pode-se somar Era dos extremos: O breve século XX (1994), em que o autor avança até a queda do regime soviético em 1991. Este texto resenha o primeiro volume da série, A era das revoluções: 1798-1848.
O livro está dividido em dezesseis capítulos separados em dois tomos principais nomeados "Evolução" e "Os resultados", que desdobram cada aspecto da história e dos efeitos da dupla revolução não apenas na Europa, mas também nos demais continentes influenciados pelos impérios emergentes do século XIX.
O primeiro capítulo, "O mundo da década de 1780", monta o panorama do ambiente sociopolítico europeu em que as forças pré-revolucionárias estavam em ebulição, especialmente a Grã-Bretanha e a França, dominado pelas relações de produção medieval e governado por monarquias com grandes senhores de terra e uma população servil. Manifestavam-se, em 1789, as primeiras ações da revolução industrial, com pequenos industriais assalariando camponeses em cidades ainda tão pequenas que mal se destacavam da paisagem rural que as cercava, mas onde já surgia um forte senso de identidade cosmopolita. A máquina a vapor, inventada por James Watt, e outros avanços tecnológicos nos mais diversos campos, como o da olaria, da química e da impressão, aliados à forte influência da maçonaria iluminista, foram os alicerces das grandes mudanças que revolucionariam o mundo nos 50 anos seguintes.
O capítulo 2, "A revolução industrial", detalha a agitação que tomou de assalto a Inglaterra, quando a classe dos proprietários industriais se associou à liderança política e começou a mudar as relações sociais e de produção a seu favor, com as lei dos cercamentos que expulsava os camponeses das terras onde viviam há gerações não só para ali instalarem espaços para criação de ovelhas, mas, principalmente, para dispor de um contingente inesgotável de mão de obra barata para suas fábricas mecanizadas – incluindo as mulheres e as crianças – e leis de trabalho compulsório. Tais medidas aumentaram significativamente a produtividade e os lucros, bem como a dimensão das cidades, com um acentuado declínio da atividade agrícola que levou a busca por mercados internacionais, seja para obter matéria prima, especialmente carvão, ferro e algodão para a indústria têxtil em crescimento, mas também para vender o excedente da produção. Houve resistência, como o movimento ludita, que atacava as fábricas para destruir máquinas, mas foi impossível parar a marcha do progresso.
O capítulo 3 é dedicado à Revolução Francesa. Talvez por conta do tema momentoso, é a leitura mais intensa de todo o livro. Hobsbawm classifica o período em que a Revolução Francesa ocorreu como "Era da revolução democrática", por se identificar com outras revoluções contemporâneas que aconteceram na Bélgica, Irlanda, Holanda, Inglaterra e outros países. Suas causas foram o excesso de pressão social, os problemas financeiros da monarquia francesa, a tentativa dos aristocratas em tomar o poder, e dos burgueses, associados aos trabalhadores e camponeses pobres, para destituir a monarquia e implementar um governo revolucionário republicano. Em 1789 foi promulgada a "Declaração dos direitos do homem e do cidadão", seguida pela Revolução Jacobina de 1890. Todas essas revoluções foram acompanhadas de muita violência e acabaram por deflagar uma guerra revolucionária em toda a Europa, na qual veio a se destacar o General Napoleão Bonaparte.
O capítulo 4, chamado "A guerra", trata justamente do período de intensos conflitos militares promovidos pelo Exército Revolucionário Jacobino sob comando de Bonaparte, força pouco treinada e de recursos escassos, mas muito motivada e idealista, que acabou por conquistar todo o continente levando a mensagem da revolução burguesa. O grande inimigo da França era a Inglaterra mas, devido a dificuldade de levar a ela seus exércitos, Bonaparte optou por uma estratégia de sufocamento comercial. Contudo, os jacobinos seriam derrotados na Rússia com grande perda de efetivos ("De 610 mil homens... 100 mil retornaram"), que se seguiu a derrota total da França Napoleônica frente aos britânicos.
"A paz" é título do capítulo 5, que analisa os anos que se seguiram à queda de Napoleão, com o surgimento de novas potências na Europa, como a Rússia, Grã-Bretanha, França, Áustria e Prússia, o desenvolvimento do mundo árabe sob comando de Mohammed Ali, a expansão dos EUA para o oeste e, sem qualquer resistência, a expansão econômica britânica para o mundo todo a partir de um forte investimento em sua frota naval.
No capítulo seguinte, "As revoluções", Hobsbawm move seu olhar para outras regiões do mundo, observando os movimentos de independência na América Latina (Grande Colômbia, Peru, México e Brasil), algumas delas de inspiração revolucionária. Observa também a organização dos primeiros sindicatos classistas na Europa e o surgimento de uma classe operária como força política autoconsciente e independente.
O capítulo 7, chamado "O nacionalismo", fecha o primeiro tomo, tratando dos movimentos nacionalistas que se espalharam pela Europa, fruto do descontentamento dos pequenos proprietários, intelectuais e de uma recém-formada classe média, impulsionados pelo surgimento de jornais e livros publicados em suas próprias línguas, bem como e o reenraizamento de populações que antes haviam emigrado de suas terras nativas.
Em seguida, o autor passa a analisar os efeitos que dupla revolução causou nas instituições econômicas e culturais da sociedade europeia.
O capítulo 8 trata da primeira dessas instituições , "A terra", que o autor introduz da seguinte maneira: "O impacto da revolução dupla sobre a propriedade e o aluguel da terra e sobre a agricultura foi o mais catastrófico fenômeno do período". Foram três as necessidades que se impuseram à revolução industrial quando se seus estágios iniciais: 1) Transformar a aterra em uma mercadoria; 2) Dar sua propriedade a homens empreendedores; e 3) Transformar os camponeses em mão de obra assalariada. Para isso, calém da já citada lei dos cercamentos, foram tomadas diversas providências, como leis que obrigavam os desterrados a vender sua mão de obra nas cidades, a venda das terras de propriedade da Igreja e a criação forçada de uma classe rural de empresários. Tais providências foram tomadas não apenas na Inglaterra, que sofreu seus efeitos em primeiro lugar, mas também nas colônias britânicas, como a Índia, que foi intencionalmente destituída da indústria artesanal que já possuía, em favor do modelo mecanizado britânico, que trouxe muito sofrimento e miséria ao povo indiano.
Em "Rumo a um mundo industrial" o autor mostra que "de todas as consequências econômicas da época da revolução dupla, a divisão entre os países 'adiantados' e os 'subdesenvolvidos' provou ser a mais profunda e duradoura". Por volta de 1840, só a Inglaterra era industrializada, com os EUA e a Alemanha no limiar. Os aspectos mais notáveis do crescimento industrial, também chamado de "progresso", foram o crescimento populacional e dos fluxos migratórios, o incremento da comunicação, com o surgimento de novas tecnologias, como o telégrafo, e do transporte, como ferrovias e estradas, assim como o explosivo crescimento do comércio, com mudanças sociais e econômicas rápidas e radicais, crescimento das cidades, dos parques industriais e do mercado financeiro.
O capítulo 10, "A carreira aberta ao talento", trata de um fenômeno derivado da dupla revolução, que foi permitir alguma mobilidade social a partir do domínio de habilidades específicas. "O principal resultado da Revolução na França foi o de pôr fim à sociedade aristocrática. Mas não significou o fim da influência aristocrática", diz o autor. Pois a burguesia assenhorou-se dos valores culturais da aristocracia, que se tornaram ainda mais dominantes com o avanço da revolução industrial através da ação dos jornais e da publicidade. Eram quatro os caminhos possíveis para o exercício do talento: os negócios, a educação (que inclui a ciência, a burocracia e o profissionalismo liberal), a política e a guerra. Ou seja, uma pessoa de origem desfavorecida poderia ascender socialmente caso dominasse uma das habilidades valorizadas pela sociedade capitalista revolucionária. A criação na França dos exames seletivos, usados até os dias de hoje, tinha o objetivo claro de selecionar uma elite intelectual. A famigerada família Rothschild é um exemplo de sucesso no setor de negócios, pois eram de origem judaica, um povo recorrentemente mantido à margem da sociedade. A propósito, os judeus foram os que melhor aproveitaram essa oportunidade, destacando-se também nas artes, na ciência e na política. A máxima de Hobsbawm é uma verdade válida até os nosso dias: "O homem que não tivesse demonstrado a habilidade de chegar a proprietário não era um homem completo e, portanto, dificilmente poderia ser um cidadão completo".
O capítulo 11 analisa "Os trabalhadores pobres". Ao indivíduo que não possuísse uma das virtudes valorizadas, restavam três alternativas: lutar para se tornar um burguês (o que era virtualmente impossível), aceitar ser explorado (que levava à depressão, doenças e alcoolismo em massa) e a rebelião (visto que o emprego não era muito melhor que a escravidão). A revolução trabalhista era, pois, uma alternativa quase que compulsória. Logo se formaram uma consciência de classe e uma ambição de classe.
Em "A ideologia religiosa", Hobsbawm observa a influência da revolução dupla sobre as religiões. Por muitos séculos, o cristianismo foi de tal forma dominante na Europa que o termo "cristão" era usado como sinônimo de "homem". A dupla revolução mudou o panorama social, descolando-o de seus aspectos religiosos, secularizando as massas, descristianizando os instruídos e estabelecendo uma moralidade anticristã, com o desenvolvimento de muitas seitas de caráter racionalista. Contudo foi o protestantismo, praticado desde o século XVI, o mais beneficiado devido à convergência de valores fundamentais com o capitalismo burguês. Também foram evidenciadas seitas de caráter integralista, que apresentavam aspectos extremistas como intransigência e histeria religiosas. Da mesma forma, houve um considerável avanço do islamismo no oriente. Em todas as regiões também se observou uma reaproximação entre Estado e Igreja, com a religião se tornando defensora do Estado que, por sua vez, instrumentaliza a religião como mais uma de suas ferramentas de dominação.
No capítulo 13, o autor faz o contraponto abordando "A ideologia secular", apoiada essencialmente nos significantes de "progresso", palavra tão poderosa que praticamente ninguém pode contradizer sem desmoralizar a si próprio. O progresso passa a ser visto como um aspecto na natureza humana, sem a qual a vida é impossível. Essa ideologia, filha do Iluminismo e do Racionalismo, abriu caminho para o Utilitarismo de Bentham e Mill, para o Liberalismo de Smith e Ricardo, e para o Socialismo de Marx e Engels. Pois o que diferencia o Liberalismo do Socialismo não são seus objetivos, que são os mesmos, mas os métodos para atingi-los; pois o primeiro vê a sociedade como um aglomerado de indivíduos autônomos, e o socialismo acredita que o homem é basicamente um ser comunitário. A Alemanha foi grande tributária do pensamento político desse período, onde surgiram os conceitos de Materialismo, Empirismo Filosófico e Filosofia Natural.
O capítulo seguinte debruça-se sobre "As artes", que floresceram como nunca sob influência da revolução dupla potencializada pelo nacionalismo. Os artistas se envolveram com as questões públicas, evidenciado o caráter político em suas obras. A música, a pintura e a literatura cresceram em importância, enquanto a arquitetura perdeu espaço para a engenharia, mais afeita aos valores da revolução industrial. A filosofia naturalista, que propunha a religação do homem a sua natureza, estabeleceu o paradigma do Romantismo, reação ao Classicismo que se desdobrou em praticamente todas as artes desse período. Os românticos viam o homem do campo como um exemplo de virtudes incontaminadas, a "alma do povo". Desenvolveram-se, pois, as grandes epopeias nacionais, os cancioneiros folclóricos, as coletâneas de histórias populares e o cordelismo, embora entre a burguesia o padrão de cultura fosse o do nobre inglês, fruto da supremacia da Grã-Bretanha naquele mundo sob influência da dupla revolução. É aparentemente aqui que se estabelece a profunda distinção entre a arte oficial e a arte popular, que até hoje ecoa o abismo criado pelo capitalismo entre os países centrais desenvolvidos e os periféricos subdesenvolvidos.
"A ciência" é o último aspecto analisado por Hobsbawm neste volume, apontando que o período foi berço de "novos pontos de partida radicais", principalmente no campo da matemática, da química, da física eletromagnética e da astronomia, que resultou no forte crescimento no número de cientistas e eruditos na Europa. Também foi nesse período que se desenvolveram os estudos da vida a partir de ciências inorgânicas, com o desenvolvimento de novas ciências, tais como Geologia, Sociologia, Psicologia, Ciências Biológicas, Filologia, Antropologia, Etnografia, Pré-História e a Paleontologia, entre outras, assim como nas descobertas da química orgânica, do evolucionismo histórico e da evolução das espécies.
O capítulo 16 encerra este estudo com "Conclusão: Rumo a 1948". O autor define o período 1789-1848 como "o meio século mais revolucionário da história" e "uma época de superlativos", com o aumento do desenvolvimento técnico, industrial e científico, aumento populacional, da pobreza, concentração de renda com pouco desenvolvimento da estrutura política e social, e o surgimento da "classe média". A grande depressão da década de 1840, com quebra de safras, fome, miséria e grandes migrações em massa, somada ao aumento contínuo da tensão social levaria o mundo da dupla revolução à grande revolução em 1848.
Ler A era das revoluções: 1789 - 1848 não é tarefa fácil. Trata-se de um texto longo repleto de detalhes que precisam ser lidos com muita atenção, e revela ainda mais detalhes nas segunda e terceira leituras devido ao diálogo entre suas partes. Recomendo a leitura de uma edição oficial, preferencialmente impressa, pois a edição da Le Livros é a pior possível, com muitas gralhas, sem créditos e sem as notas de rodapé que também são muito importantes para a perfeita compreensão de todos os significados do texto. Louva-se o esforço do editor em acrescentar à edição a seção de mapas, contudo ela se torna pouco útil sem a presença dos demais conteúdos. Além do que a visualização dos mapas na pequena tela do Kindle não é favorável, como seria de se desejar.
Ainda assim, a leitura de A era das revoluções: 1789 - 1848 é uma experiência comparável apenas a de grandes clássicos da literatura. Ou seja, se não é obrigatório, deveria ser. Mesmo com todos os problemas desta edição, o resultado é uma série de revelações importantes sobre a natureza da sociedade moderna e do homem, que motiva fortemente o leitor para os demais volumes da série.
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domingo, 24 de maio de 2015
Outra América
A ficção especulativa, por motivos econômicos, especializou-se em uma miríade de gêneros e subgêneros devidamente esquematizados. Autores especializados em cada um desses subgêneros exploram cada uma de suas dobras em busca de seus limites sem perder os apelos comerciais que os editores exigem. Essa prática nos trouxe uma série de bons trabalhos criativos e perturbadores mas, por mais que se tente, sempre há uma fronteira que tem que ser respeitada, um protocolo que ali está para estabelecer a identidade da obra e seu público alvo. Eventualmente contudo, ocorre de um autor importante, mas não especializado, acidentalmente ou não, adentrar os domínios de um gênero como um touro enfurecido e, sem respeitar nenhum desses protocolos, ali instalar uma obra de tal forma autoral que a crítica tem dificuldade de classificá-lo. Há diversos exemplos dessa ordem, que causam intermináveis polêmicas entre os fãs, uns denunciam a invasão não autorizada, outros festejam que alguém importante finalmente tenha enxergado valor naquilo que tanto gostam, tudo isso enquanto o crítica mainstream destila seus preconceitos.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América (The plot against America) de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América (The plot against America) de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
— Cesar Silva
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Ligados
A revolução digital chega lentamente ao mercado editorial brasileiro. A viscosidade é tão densa que mesmo nestes tempos de tablets e smartphones, ainda são publicadas revistas eletrônicas no formato pdf que, há dez anos, julgava-se que seria o formato definitivo das publicações digitais. Apesar de estar obsoleto pelos formatos mais espertos, como o epub, que funciona melhor nos dispositivos móveis modernos, o pdf ainda tem seus apreciadores.Diz o texto de apresentação: "Somos ambiciosos, queremos criticar a literatura e mostrar literatura. Falar de cinema, e fazer cinema. Discutir política, sem fins partidários, e elaborar revoluções na mente de nosso leitor e sociedade. Então, nessas poucas muitas páginas espere por uma overdose de cultura, literatura, cinema, teatro, música, fotografia, desenho, história e crítica".
A revista pretende ser mensal, com lançamento fixado no dia 20 de cada mês. Mais informações no saite, que disponibiliza a edição para leitura gratuita.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Um cartum
Não costumo publicar muitos dos meus trabalhos neste blogue, sempre prefiro priorizar à divulgação de livros e revistas. Mas não dava para deixar passar este.
Depois das notícias da queda de mais um ministro do governo federal, decidi publicar este cartum, feito por encomenda para uma revista e que acabou não sendo publicado. Isso já faz uns dois meses, mas o cartum ainda não perdeu a atualidade. E, pelo jeito, não perderá por um bom tempo.
Depois das notícias da queda de mais um ministro do governo federal, decidi publicar este cartum, feito por encomenda para uma revista e que acabou não sendo publicado. Isso já faz uns dois meses, mas o cartum ainda não perdeu a atualidade. E, pelo jeito, não perderá por um bom tempo.
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