Mostrando postagens com marcador Editora Corifeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Corifeu. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de novembro de 2023

Resenha do Almanaque: A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, Edgar Indalecio Smaniotto

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira
, Edgar Indalecio Smaniotto. 196 páginas. Rio de Janeiro:  Corifeu, 2007.

Um dos filões editoriais que tem sido atacado com entusiasmo pelos fãs brasileiros de ficção científica e fantasia é o dos estudos acadêmicos. Há até pouco tempo, contavam-se nos dedos de uma única mão os livros de não-ficção disponíveis em língua portuguesa sobre o gênero.
Os títulos históricos, publicados ao longo do século 20, geralmente tratavam da produção estrangeira, sendo que o mais importante texto sobre a ficção científica produzida no Brasil foi, por muito tempo, o prefácio escrito por Fausto Cunha para a edição brasileira de No mundo da ficção científica (Science fiction reader's guide), de L. David Allen (Summus Editorial, SD).
Em 2007, os leitores interessados nesse tipo de literatura puderam compartilhar das conclusões de A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, publicado pela Editora Corifeu, dissertação de mestrado de Edgar Indalecio Smaniotto sobre a vida e a obra do escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar que, em 1875, teve publicado em dois volumes o romance O Doutor Benignus, obra considerada como um dos primeiros exemplos da ficção científica brasileira. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unesp de Marília, orientada pela Professora Doutora Christina de Rezende Rubim, que também assina o prefácio do volume.
Smaniotto atua no ensino fundamental da cidade de Marília, onde nasceu e reside. Também é colaborador frequente das publicações do fandom brasileiro, geralmente com textos de análise literária, e mantém um produtivo canal com vídeos dedicados à literatura fantástica, chamado Filosofia da Astronáutica e da Ficção Científica.
O trabalho está dividido em seis partes. As duas primeiras são “Augusto Emílio Zaluar: Esboço de uma trajetória” e “Entre o relato de viagem e a moderna antropologia”, e dizem mais respeito ao homem Zaluar, sua biografia e sua participação da vida político-cultural na capital do Império Brasileiro. Neles, sabemos que Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudos em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Porém, como não havia possibilidade de se sustentar exclusivamente da escrita em seu país natal, em 1850 Zaluar migrou para o Brasil e aqui se estabeleceu como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro e o seu lugar no mundo. Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois Zaluar faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania que está cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia. O conhecimento de Zaluar a respeito do trabalho de campo dos antropólogos está retratado no romance na figura de William River, personagem sequestrado por uma tribo de índios caiapós na Ilha do Bananal, destino final da expedição de Benignus.
Na terceira parte, “A origem do homem: monogenismo e poligenismo”, descobrimos que Zaluar compartilhava da teoria de que o homem teria se originado na América – especialmente no Brasil – e que tinha confiança que mais cedo ou mais tarde essa teoria seria confirmada. Por isso seu personagem em O Doutor Benignus vai encontrar um crânio humano fossilizado, preservado numa providencial caverna no planalto central.
Até aqui, a leitura da dissertação de Smaniotto é conquistada a duras penas. O texto é truncado e repleto de citações e notas de rodapé, algumas bastante longas. Embora o tema não seja enfadonho, não parece ao leitor que se trata de um trabalho sobre ficção fantástica pois o que se falou esteve principalmente associado à pessoa de Zaluar. Entretanto, na segunda metade, o texto ganha contornos pungentes na medida em que Smaniotto aborda os temas que levaram os estudiosos a classificarem o romance de Zaluar com ficção científica de fato.
A teoria da habitabilidade dos mundos é o tema  da quarta parte do estudo, “Seres imaginários do espaço”. Aqui aparece a fascinação de Zaluar pelas teorias do cientista francês Camille Flammarion sobre a habitabilidade dos outros planetas dos Sistema Solar e até mesmo do Sol e das estrelas, misturando ciência com doutrinas espiritualistas numa real antecipação do que viria a ser a popular ideia dos discos voadores, muitas décadas depois. Mas o trecho em que Benignus trava contato com um habitante do Sol – um ser feito de luz e energia radiante – acontece durante um sonho do sábio, depois de adormecer sobre os restos calcinados de um meteorito recém-precipitado. É curioso notar que a expedição de Benignus foi proposta principalmente para comprovar que o Sol seria habitado, e Zaluar argumenta que seu personagem teria essa certeza apenas por observar as manchas solares através de seu telescópio. Sendo essas manchas, na interpretação do autor, fenômenos similares ao olho de um furacão, na sua lógica, a superfície do Sol seria fria e, portanto, habitada. Simples assim. Comprovada a habitabilidade do Sol, fica também comprovada a habitabilidade de qualquer outro astro.
A ficção de Zaluar frente a seus contemporâneos Júlio Verne e H. G. Wells é tema em “Estabelecendo comparações: o Doutor Benignus diante do romance científico europeu”. Nesta parte encontra-se o melhor do estudo para o leitor interessado em ficção científica. Smaniotto faz um relato rápido sobre a influência explícita de Júlio Verne na prosa de Zaluar, especialmente quando este insere um balão na sua história, a moda de Cinco semanas em balão, de Verne. Smaniotto observa ali a antecipação da dirigibilidade dos balões, tecnologia que só seria conquistada no início do século 20 por Alberto Santos Dumont. Apesar de ser uma interpretação romântica e uma forma de dar a Zaluar um arremedo da autoridade verniana, é um exagero. Zaluar definitivamente não deu dirigibilidade alguma ao seu balão em O Doutor Benignus, que só chegou aonde chegou – e no momento mais que oportuno diga-se de passagem – por conta de uma tempestade que o carregou na direção certa. Pelo menos neste caso, Zaluar não antecipou nada.
Mas as melhores sacadas de Smaniotto estão nas comparações com Wells, especialmente na análise das diferenças culturais na representação do alienígena. Para Wells, o alienígena é um agressor, uma força de ocupação que humilha a arrogância britânica, enquanto que para Zaluar o alienígena é um ser espiritualmente evoluído que traz uma mensagem pacífica e edificante, e reconhece a promessa de um futuro glorioso para o país.
Smaniotto prepara o fechamento de seu trabalho na sexta e última parte, intitulada “A formação de um mito cultural: o alienígena na literatura brasileira”. Aqui, o autor cita principalmente Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da brasilianista Elisabeth Ginway (Devir, 2005) e Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, de Roberto de Sousa Causo (UFMG, 2003), como referências para concluir que o mito do alienígena é uma característica da ficção científica brasileira na medida em que valida todos os demais componentes da mítica nacional, colocando O Doutor Benignus numa posição de importância nas Letras e, especialmente, para os estudiosos da ficção científica no Brasil.

domingo, 16 de julho de 2023

Resenha do Almanaque: FCdoB: Ficção Científica Brasileira - Panorama 2006/2007

FCdoB: Ficção científica brasileira - Panorama 2006/2007, Fernando Murillo Bettencourt & Maria S. Cavalcante, orgs. 228 páginas. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008.

Antologia montada a partir de um concurso de contos promovido pela BHB – Eventos Culturais. Realizado pela internet entre 2006 e 2007, o concurso recebeu quase duzentos trabalhos que foram julgados por uma comissão formada pela doutora em direitos humanos Cristina Amich Elias, pela pedagoga Sônia Regina Malardé e pelos escritores Alexis Bernardo de Lemos e Ivan Carlos Regina. Foram escolhidos vinte e sete contos, cujo prêmio era justamente fazer parte deste volume, que propõe ser um recorte da ficção científica praticada no Brasil naquele período. O livro tem prefácio da brasilianista Elisabeth Ginway e apresentação das orelhas assinada por Marcello Simão Branco.
FCdoB repete a estratégia das antologias do saudoso Clube de Ficção Científica Antares que, na década de 1980, revelou alguns dos melhores autores da fc&f brasileira. O livro apresenta uma leva de autores novos, todos com textos bastante curtos, entre 750 e 6000 palavras. A seguir, resumo e comentários sobre os contos que formam o volume.
“Nos pântanos de Hansu”, Aguinaldo Inácio Peres. Piratas aproveitam a ingenuidade dos autóctones de um planeta alienígena para roubar deles uma matéria-prima valiosa.
“Solidão”, Alexandre Sant’Ana. Num tempo em que a clonagem humana é prosaica, mulher abandonada executa um plano mirabolante para recuperar a confiança de seu homem. Ideia razoável com desfecho eficiente.
“Sete dias”, Alexandre Santos Lobão. Universitário registra suas memórias recentes na tentativa de entender o que está acontecendo com seus colegas que começaram a manifestar habilidades que levarão ao fim do mundo.
“Sociedade Kabuki”, Alexandre Veloso de Abreu. Numa sociedade em que todos vivem nus e usam máscaras, uma prostituta tem um dia ruim.
“Planetas obliterados”, Alex de Sousa. Em tom de crônica histórica, conta como uma máquina automática tripulada por golfinhos causa um desastre ecológico num planeta florestal.
“Julieta do quarto livro”, Carlos Abreu. Excêntrico escritor de ficção científica é abordado por uma jornalista interessada em debater o quarto romance de sua série que, entretanto, nunca foi escrito. Texto muito divertido, com um leve toque metalinguístico.
“Alberto 2.0”, Cristiano Tavares. Um chefe de família decide submeter-se a uma cirurgia de implantes que lhe devolverão a empregabilidade perdida, mas que também vão destruir seu casamento. Boa ideia que guarda bem-vindos vínculos com a realidade.
“Assassinando o tempo”, Cristina Lasaitis. Cientista brasileira confirma a teoria da sua vida num acelerador de partículas construído em pleno sertão nordestino. A melhor virtude do conto é o contraste proposto entre o agreste e o ambiente futurista do acelerador.
“O visitante”, Daniel Brasil. Pesquisadores universitários inventam a máquina do tempo e, por acidente, trazem Ludwig van Beethoven para o presente.
“Connectville”, Davi Menossi Gonzáles. Morador de uma pacata cidade interiorana narra a instalação de uma estranha estrutura nos arredores de sua casa e como ela foi destruída pelo ataque de um disco voador. Um relato intrigante na tradição ufológica que caracteriza a ficção científica brasileira.
“Crepúsculo escarlate”, Denis Winston Brum. Explorador solitário em Marte tem contato imediato com alienígenas diáfanos, evoluídos e benevolentes.
“Os ovos”, Dóris Fleury. Cientista cinquentona entra em crise existencial depois de passar anos chocando ovos alienígenas. No saite A Escrevinhadora podem ser lidos outros de seus contos. Uma das melhores revelações dos últimos anos, embora não tenha seguido adiante no gênero.
“Super homem”, Edmundo Pacheco. Viajante espacial movido pela expectativa de ser o primeiro a pisar num mundo de outra galáxia, chega ao seu objetivo apenas para descobrir que, enquanto viajava, a humanidade desenvolveu-se ao ponto de lá chegar antes dele.
“O ato de Bangladesh”, Felipe Tazzo. Um coletor de lixo apresenta seus problemas, seus companheiros de trabalho e sua família, construindo um intrigante recorte de uma sociedade futurista. A história é simples porém extremamente bem redigida. Os personagens vívidos e interessantes têm potencial e merecem ser retomados numa obra de mais fôlego. O melhor trabalho da antologia.
“Mar negro”, Gabriel Boz. Depois que uma praga desconhecida e implacável devastou a vida no planeta, o último homem sobre a Terra cumpre o derradeiro desejo de sua recém-falecida esposa levando o cadáver para a beira do mar. Ao longo do caminho, um mundo devastado e, na praia, um encontro inesperado. Gabriel Boz, um dos editores do extinto fanzine Scarium, mostra um texto correto e feliz na escolha do tema, que sempre rende boas histórias.
“Mente S/A”, Augusto Guimarães. Jovem que passou por um tratamento de correção de personalidade tem problemas para se adaptar à nova estrutura mental. A ideia dialoga com o clássico da ficção científica A laranja mecânica, de Antony Burgess.
“Crimideia”, Gustavo Benitez Ribeiro. Pessoas recém-falecidas têm suas personalidades gravadas numa máquina, de forma que continuem a conversar com os vivos. A opinião pública é manipulada pelos políticos para aprovar o uso da máquina nos processos jurídicos, visto que as vítimas de assassinato podem apontar os criminosos.
“A biblioteca de Titã”, Joana Belarmino. Mulher passa algumas semanas na lua de Saturno, pesquisando uma biblioteca que tem todos os livros do universo. Sem qualquer conflito, o conto é apenas uma justa homenagem a Jorge Luiz Borges.
“Como se fosse essa noite a última vez”, João Paulo Vaz. Um homem tenta uma última noite de prazer com sua fogosa amante, sabendo que, no dia seguinte, perderá o seu implante peniano de alta tecnologia. Uma boa discussão sobre o sexismo exacerbado de nossos tempos.
“O bloco”, Jurandir Araguaia. Moradores de uma pequena cidade interiorana surpreendem-se com um bloco de pedra que surgiu repentinamente na praça principal. Um leve toque no objeto torna as pessoas felizes e isso transforma a cidade. Trabalho claro e despretensioso, forte em simbolismos.
“Caieiro e Alberta”, Leandro Malósi. Casal que joga sexo virtual pela internet decide se encontrar pessoalmente para dar números finais ao placar.
“A idade do lobo”, Leandro Carrion. Num futuro em que as mulheres foram quase extintas por uma doença incurável, um jovem jornalista, que sonha ser selecionado para reprodutor, envolve-se com um grupo terrorista que lhe dá um harém.
“O casal mais discreto de Malibu”, Leonardo Siviotti. O conto tem dois tempos distintos: a princípio, um casal conversa amenidades durante o café da manhã; depois, o narrador explica o resto da história.
“Memórias roubadas”, Maria Helena Bandeira. Preso num manicômio, jovem hacker que roubou as memórias de um figurão passa por uma egotrip durante uma entrevista terapêutica. Narrativa sincopada, com trechos da entrevista misturadas às memórias roubadas.
“Depois do homem”, Maria Teresa. Uma civilização de mutantes sucede o homem no domínio da Terra, mas sua sociedade sofre dos mesmos erros e vícios de seus antecessores. Em meio a intrigas, os pesquisadores descobrem nas ruínas da civilização humana as pistas da sua própria existência.
“Mãos grandes”, Paulo Virgílio D'Auria. Num futuro escravocrata no qual os trabalhadores especializados são projetados geneticamente, uma enfermeira apaixonada desafia a sociedade para viver uma história de amor.
“Lembranças”, Valentim S. Pereira. Um homem submete-se a experiência de mapeamento de memória e, por uma falha no procedimento, perde-se entre muitas identidades armazenadas em seu cérebro.
O resultado geral de FCdoB é irregular, natural nesse tipo de dinâmica editorial. A maior parte dos trabalhos não ousa ir além do já visto, o que confirma o pouco tráfego destes novos autores na ficção científica. A exceção da experiente Maria Helena Bandeira (falecida em 2013), a ausência dos nomes mais destacados da fc&f nacional refletia o desinteresse destes pelas promoções do fandom*. Uma seleção mais rigorosa, com menos contos, teria resultado numa antologia mais significativa no panorama fc&f brasileira, mas vale o registro dos movimento inicias do que é hoje chamado de Terceira Onda da ficção científica brasileira.

*A época da publicação, Cristina Lasaitis, hoje uma autora reconhecida, era recém-chegada ao ambiente da literatura fantástica.