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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Resenha do Almanaque: O diálogo dos mundos, Rubens Teixeira Scavone

O diálogo dos mundos, Rubens Teixeira Scavone. 152 páginas. Capa: Fotomotagem de Rubens Teixeira Scavone. Coleção Ficção Científica GRD nº10, Editora GRD, Rio de Janeiro, 1961.

É sempre uma grande responsabilidade resenhar um clássico. Isso porque ele carrega valores emocionais e históricos difíceis de não se levar em conta na hora de elaborar uma análise. A dificuldade aumenta quando se trata de um autor cujo nome é praticamente sinônimo da ficção científica brasileira. Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) é um dos autores que vêm a mente em primeiro lugar quando nos referimos a fc brasileira, e todos os seus textos foram muito bem aceitos por várias gerações de leitores. Scavone foi um escritor erudito, de grande qualidade técnica, conhecedor do gênero e muito bem instalado no mainstream, uma vez que foi um dos raros escritores do fandom a receber o Prêmo Jabuti de Melhor Romance (por Clube de campo, 1973).
O diálogo dos mundos é uma coletânea de contos, número 10 da lendária coleção Ficção Científica GRD, com seis textos de Scavone apresentados por um longo prefácio assinado por José Geraldo Vieira, por si só uma peça de interesse, repleta de informações curiosas sobre a proto-ficção científica.
O texto que dá nome à antologia é uma noveleta que toma quase a metade do volume. Conta a história de uma equipe de pesquisa chefiada por um cientista ambicioso que está prestes a divulgar à comunidade internacional, durante um grande evento, o sucesso conquistado num custoso programa que nunca havia recebido muito crédito. A humanidade finalmente contactara uma cultura alienígena, feito obtido depois de anos de escuta em um radiotelescópio, e é justamente em suas dependências que o grande evento acontece.
Enquanto o cientista chefe sonha com os louros que vai conquistar, uma grande nevasca parece querer impedir o sucesso do evento. A tensão aumenta quando o público presente é reunido para, depois de escutar as transmissões captadas, discutir qual seria a melhor forma de respondê-las. Surge um turbulento debate entre os intelectuais presentes, que chega a beira a insanidade, mas o pior ainda estava por vir.
Esta novela é um clássico da fc brasileira. A peça literária é sustentada pela tensão entre um estilo estóico e uma ironia permanente que, durante toda a leitura, permite antever a tragédia que se avizinha. Mais que o final, que é na verdade um tanto anticlimático, o valor desse cabo de guerra está justamente na disputa dessas forças narrativas que Scavone soube manobrar muito bem.
“O fim da aventura” é uma narrativa menos ambiciosa e, fora de seu contexto histórico, pode ser considerada ingênua e inverossímil, mas há cinquenta anos tinha um valor diferente. Conta a malfadada aventura de uma equipe de cosmonautas que, durante uma viagem exploratória secreta, é obrigada a fazer um pouso de emergência num ambiente hostil e acaba dizimada por nativos ferozes. O resgate dos restos dessa tragédia revela os limites da pretensão da ciência humana. Mais uma vez, o valor do texto está na qualidade narrativa e na estrutura que Scavone teceu para conduzir o leitor para longe das pistas que revelariam, antes da hora, o final da história. Apesar da boa técnica, a repetição seguida da estrutura com final surpresa não ajudou o conjunto. Finais surpresa são difíceis de manobrar e, se não forem sustentados por uma história poderosa, tornam-se armadilhas para o autor. Scavone escapou por pouco, salvo pela qualidade técnica de seu texto.
“Número transcendental” é o melhor conto do volume. Narra a história de um homem rico que, internado contra a sua vontade pela família num hospício, desenvolve um plano de fuga para recuperar o controle de sua vida e de sua fortuna. Mas, durante a ação, tem um inesperado e deslumbrante contato imediato com um grupo de seres alienígenas. Esquecido da fuga, o homem rico acaba por ser recapturado pelos seguranças do manicômio. Diagnosticado com um quadro de piora, perde assim a única oportunidade de fuga que jamais voltaria a ter.
“O menino e o robô” é um dos textos curtos mais conhecidos de Scavone, republicado diversas vezes. Conta o dramá de um técnico que vive em constantes viagens espaciais e que adquire um robô para fazer companhia a seu filho, que vive com a mãe na Terra. A máquina é programada com rotinas de empatia e fica muito ligada ao menino. Contudo o garoto adoece e morre, e o sofrimento dos pais revela-se não ser maior que o do próprio robô. Uma história tocante ao estilo de Ray Bradbury, e que discute alguns dos grandes temas do relacionamento humano.
“Passagem para Júpiter” é outro conto muito conhecido de Scavone, que emprestou o nome a outra de suas coletâneas. Trata de um cientista do ano de 2222, muito bem-sucedido em suas realizações na Lua e em Marte, mas que nunca deixou a Terra. Sua atenção agora se volta a Júpiter, então a fronteira da humanidade, pois somente lá, entre o desconhecido e o imponderável, poderia encontrar desafios que justificassem sair do planeta. Ele dedica seus esforços ao projeto, mas não percebe que o que o atrai de fato não é Júpiter em si. A história é surpreendente, mesmo depois de tantos anos, enxuta, correta e moderna.
“Flores para uma terrestre” é outro trabalho de laivos emotivos influenciados pela ficção bradburiana. Um astronauta está prestes a encerrar seu turno em uma estação mineradora em Titã, quando, durante uma de suas rondas, se depara com uma rara forma de vida que se assemelha a uma flor. Admirado com a descoberta, que poderia lhe trazer fama e fortuna, decide levá-la à Terra como definitiva prova de amor à sua noiva, que não vê há três anos. Em segredo, prepara tudo para que o espécime, que só pode sobreviver na atmosfera venenosa da lua saturniana, chegue a salvo ao destino e, contra todos os prognósticos, o plano dele dá certo. Ou quase.
O diálogo dos mundos é um volume de leitura obrigatória para todo aquele que pretende conhecer profundamente a ficção cientifica brasileira. A edição de GRD foi a primeira, mas o livro também tem outra edição, de 1965, pelo Clube do Livro, que é bem mais fácil de encontrar nos sebos, pois teve grande tiragem. Mesmo aquele que não pretende se especializar em fc, interessado apenas em desfrutar algumas horas de bom entretenimento, O dialógo dos mundos é leitura recomendável, repleta de sentimento, emoção, humor e maravilhamento frente a imensidão e os mistérios cósmicos.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Resenha do Almanaque: Cristoferus, Henrique Flory

Cristoferus, Henrique Flory. 100 páginas. Capa de Carlos Alonso Corvalon Soto. Edições GRD, São Paulo, 1992.

A Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira teve um caráter muito mais amador do que profissional. E isso não é juízo de valor, mas apenas uma constatação acadêmica. A maior parte da produção dessa geração de autores estava restrita a publicações amadoras, periódicos editados e lidos apenas por fanáticos pelo gênero – os chamados fanzines – que prosperaram naqueles tempos pré-internet. Mesmo porque o processo de publicação de um livro era uma ciência hermética, domínio exclusivo das editoras estabelecidas; a maior parte dos autores sequer sabia por onde começar. Havia quem tentasse, mas eram casos raros e, quase sempre, não passavam das primeiras tentativas devido a dificuldades em recuperar o capital investido.
O então jovem escritor Henrique Vilibor Flory não queria esperar por uma chance que talvez nunca viesse, tampouco estava satisfeito em ver seus escritos apenas nas páginas mal impressas dos fanzines. Sua estratégia foi brilhante.
Em primeiro lugar, procurou pelo mais respeitado e acessível editor de ficção científica do país, Gumercindo Rocha Dorea, proprietário da Edições GRD que, na época, havia se aproximado do fandom paulista e ensaiava a volta de sua histórica coleção. A ele Flory propôs uma parceria irrecusável, financiando a produção de seu livro e tomando a tiragem para vender ele mesmo em palestras que passou a ministrar nos cursinhos pré-vestibulares e faculdades. E foi desse modo que, contrariando todos os paradigmas, Flory esgotou a tiragem de seu primeiro livro, a boa coletânea Só sei que não vou por aí (1989) pois, além de tudo, escrevia muito bem. O sucesso foi tanto que, em 1991, a mesma GRD republicaria o livro, agora com o título de A pedra que canta e outras histórias. Entre os dois, Flory ainda publicaria em 1990, por sua própria empresa, a HVF Representações, o romance de ficção científica Projeto Evolução.
Antecipando o interesse pela passagem dos quinhentos anos do descobrimento da América, Flory redigiu Cristoferus, uma alegoria à vida e obra do navegador genovês Cristóvão Colombo, que também veio a público pela Edições GRD, em 1992.
Trata-se de uma novela de ficção científica bastante adequada, pois a aventura espacial guarda grandes similaridades com as navegações do século XVI. O conceito não era inédito, muitos autores estrangeiros já o haviam utilizado de forma similar e é provável que Flory, como bom conhecedor do gênero, tenha se inspirado em alguns deles.
Em Cristoferus, Colombo é Cristóvão Colón, nascido na estação orbital Genoa. Romântico e determinado, quer ser navegador e acaba embarcando numa espaçonave na qual passa muitos anos em velocidades relativísticas. Seu irmão Bartolomeu vai para Lisgan, no planeta Lusitan, onde se estabelece como um bem sucedido cartógrafo. Os navegantes lusos estavam tentando chegar até as Índias, sem sucesso, por um longo caminho que passava pelo insuperável Cabo das Tormentas, uma vez que a rota original estava barrada pelo domínio mouro nas regiões intermediárias do espaço. Bartolomeu acredita que talvez fosse mais fácil ir diretamente pelo centro da galáxia, mas havia um poderoso buraco negro no caminho e esse era um problema que o cartógrafo não sabia como resolver. O fato é que quem descobrisse uma rota segura para as Índias certamente ficaria rico.
Os irmãos veem-se novamente juntos quando a nave de Cristóvão é abatida por um ataque mouro próximo a Lusitan. Cristóvão recupera-se de seus ferimentos graças a uma valiosíssima clonagem que Bartolomeu adquire para ele, e ambos passam a trabalhar em uma teoria ousada para superar o perigoso do buraco negro. Motivado pela dívida que sente para com o irmão, Cristóvão empreende uma verdadeira peregrinação em busca de financiamento para uma expedição que comprove sua técnica temerária. Tudo parece que vai se resolver quando chega a notícia que o navegante Bartolomeu Dias conseguira, enfim superar as dificuldades no temido Cabo das Tormentas e chegara à Índia, o que reduziu a praticamente nada as chances de Cristóvão realizar seu sonho e devolver ao seu irmão a imortalidade perdida. O final desta história não é preciso que eu conte, pois estamos aqui para testemunhá-la.
Cristoferus tem todos os elementos para um romance sofisticado e empolgante, mas foi resolvido de uma forma demasiado ligeira. O drama e o desespero de Cristóvão Colón não chegam a atingir o leitor com toda a força, pois a narrativa não o envolve. Há um grande distanciamento causado pela combinação mal cozida de referências históricas explícitas com a ambientação de ficção científica, gênero que exige uma certa cumplicidade do leitor para superar a descrença. Mesmo assim, o livro foi reconhecido pelos leitores brasileiros que o agraciaram com o Prêmio Nova de Melhor Livro Nacional de FC de 1992, com o que Flory praticamente encerrou sua carreira como autor do gênero.
Parafraseando as palavras finais do próprio romance: para o bem ou para o mal, Cristoferus conquistou a imortalidade. E é por isso que ele está aqui.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A volta de um clássico do horror

Um dos primeiros textos da literatura fantástica mundial, O manuscrito de Saragoça volta a estar disponível, agora pela Devir Livraria.
De autoria do escritor polonês Jan Potocki (1761-1815), o romance é formado por uma série de textos curtos levemente interligados, que trafegam pelo sobrenatural e pelo gótico, enfiando uma história na outra, numa perturbadora aura de suspense e pesadelo.
Originalmente publicado no Brasil pela lendária editora GRD nos anos 1960, esta nova edição mantém a tradução de José Sanz , bem como o selo da editora que primeiro o publicou no país.
O lançamento acontece em São Paulo, no dia 29 de junho, quarta-feira, das 18h30 às 21h30 na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O povo da névoa

O povo da névoa, romance originalmente publicado em 1894, de autoria de H. Rider Haggard, autor mais conhecido pelos clássicos As minas do Rei Salomão e Ella, marcou o retorno à FC&F do lendário editor Gumercindo Rocha Dórea, conhecido por ter criado toda uma geração de autores brasileiros de ficção científica, a conhecida Primeira Onda da FCB, que tem nomes como André Carneiro, Fausto Cunha, Gerônymo Monteiro e Dinah Silveira de Queiróz, entre outros.
Publicar O povo da névoa era um sonho antigo do editor, tanto que ele o decidiu realizar numa tiragem muito pequena, pela sua própria editora, a GRD, e dessa forma poucos tiveram a oportunidade de ver e adquirir.
Agora o título chega numa tiragem bem maior e com boa distribuição, numa parceria da GRD com a Devir Editorial. O volume tem 352 páginas e já está disponível na loja virtual da Devir, por R$34,50.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Antonio Olinto (1919-2009)

Um a um, vamos perdendo nossos mais expressivos representantes literários que, um dia, estiveram envolvidos francamente com a ficção fantástica. Em 2006, perdemos Zora Seljam e no último sábado, Antonio Olinto acompanhou sua querida esposa.
Antonio Olinto faleceu no último sábado, dia 12 de setembro, no Rio de Janeiro, de falência múltipla dos órgãos. Foi velado no prédio da ABL e sepultado no mausoléu da Academia, no Cemitério João Batista. O presidente da ABL, Cícero Sandroni, determinou luto oficial de três dias, conforme noticiou o Diário de Canoas on line.

Muita gente da FC&F só teve contato com esse autor unicamente na antiga Coleção GRD, do visionário editor Gumercindo Rocha Dórea, que organizou várias antologias e coletâneas de contos com autores escolhidos a dedo entre os mais expressivos de seu tempo.
Antonio Olinto, mineiro de Ubá, foi professor e jornalista, dono da cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro livro foi a antologia poética Presença publicada em 1949. Desenvolveu um amplo trabalho como ensaísta, crítico literário e divulgador da cultura brasileira. Em 1994 recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. A biblioteca da Faculdade de Letras Ozanan Coelho, de Ubá, recebeu seu nome.

Na FC seu currículo é pequeno, mas significativo. Foram dois contos, ambos publicados pela GRD: "O menino e a máquina", na Antologia Brasileira de Ficção Científica e "O desafio", em Histórias do acontecerá. Olinto foi ainda o primeiro crítico a publicar ensaios sobre ficção científica em um livro, o Cadernos de crítica.
Para mais dados sobre sua carreira e vida, há um relato detalhado no site da ABL, aqui.
Ainda que o acadêmico tenha se afastado do gênero, ao ponto de nem relacionar os trabalhos de FC em sua bibliografia oficial, mesmo assim merece a nossa lembrança e homenagem, pelo que fez em favor da FC&F no Brasil num tempo em que quase ninguém se importava com isso.