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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Resenha do Almanaque: Introdução ao estudo da “science fiction”, André Carneiro

Introdução ao estudo da “science fiction”, André Carneiro. 142 páginas. Imprensa Oficial do Estado, São Paulo, 1967.

A publicação de ensaios tem sido um dos mais frequentados nichos editorais nos últimos anos no que se refere aos gêneros fantásticos no Brasil. Mas não foi sempre assim. Apesar de títulos importantes terem sido publicados ao longo do tempo, sua presença nas livrarias foi breve e espaçada.
A carência por literatura foi suprida, ao longo dos anos 1980 e 1990, principalmente pela atividade crítica dos muitos fanzines que surgiram nesse período. Essa atividade, porém, era pouco confiável, pois os textos não eram submetidos a um estudo apurado, não eram revisados e seu objetivo era apenas entreter os próprios fãs, nem sempre tão interessados no rigor do estudo. Entretanto, manteve-se nos trabalhos dos críticos-fãs o caráter diletante da atividade, pois era sabido por todos que se os fãs não fizessem sua própria crítica, ninguém a faria em seu lugar.
Com o cancelamento da maior parte dos fanzines no início do século, a prática da crítica migrou para os livros, agora com aspecto mais apurado, geralmente conseguido a partir de trabalhos de graduação universitários. Aos poucos, o aspecto acadêmico reaproximou a crítica dos atuais estudiosos de ficção científica no Brasil, daquela que era praticada nos anos 1960 e 1970, como pode ser percebido na leitura de um dos mais importantes ensaios da história da crítica de FC no Brasil: Introdução ao estudo da “science fiction”, de André Carneiro, publicado pela Imprensa Oficial do Estado em 1967, volume 53 da Coleção Ensaio.
O volume está dividido em cinco capítulos. Na “Introdução“, Carneiro experimenta definir o gênero, não sem alguma dificuldade, como todos que já o tentaram. Compara a FC à poesia (outro formato literário no qual Carneiro é fluente) e ressalta a interdependência da ficção literária no gênero e da ciência, e que a ficção tem que ser um pouco científica, enquanto a ciência tem que ser um pouco ficcional. Também fala sobre os preconceitos ao gênero como um todo, normalmente dirigidos a um certo tipo de ficção científica que de fato existe (e muitos afirmam ser dominante): a ficção científica de má qualidade, a qual Carneiro ousou nomear de space opera. Na opinião de Carneiro, a space opera é a fc de objetivo comercial, feita apenas para responder à necessidade de consumo, sem qualidade literária, quer de estilo, quer de conteúdo. Hoje, esse termo serve para designar um tipo específico de fantasia tecnológica, não necessariamente vazia de conteúdo, embora ainda seja o ramo preferido dos autores que não querem se comprometer para além dos resultados mercadológicos.
Ficção científica de má qualidade encontra-se aos montes em todos os subgêneros, não há nenhum deles que esteja blindado a falta de talento. Já se tentou criar outros termos para designar a ficção científica ruim e, por algum tempo, optou-se por usar o termo anglófono sci-fi, mas este também soa preconceituoso, uma vez que se refere a ficção científica praticada fora da literatura (cinema, tv, quadrinhos, teatro, etc), que tem seus próprios padrões de qualidade. Então, sem meias palavras, o melhor termo para se referir à ficção científica ruim é o puro e simples “lixo“.
No segundo capítulo, “Das raízes à s.f. atual”, o autor faz uma levantamento histórico do gênero, com exemplos de proto-fc, os fundadores do romance fantástico (principalmente a literatura gótica) e os primeiros autores que deram formato ao gênero. Carneiro não se furta a criticar a qualidade dos textos de Júlio Verne, em contraposição aos de H. G. Wells, que considera muito superior, finalizando com a evolução do pulp nos EUA e o desenvolvimento das revistas de ficção científica e fantasia, responsáveis pelo crescimento e popularização do gênero.
O terceiro capítulo, “A ciência na vida contemporânea”, avalia o impacto dos avanços da ciência no cotidiano e o reflexo desse fenômeno na ficção fantástica moderna. Carneiro divide o capítulo seguinte, “A moderna ficção científica”, em nove sub-categorias, comentadas e exemplificadas individualmente com a citação de diversos exemplos em resenhas curtas. O autor mostra aqui ser um leitor voraz e heterogêneo, citando leituras tanto de livros de outros autores brasileiros como de estrangeiros, traduzidos ou não do inglês, francês e outras línguas, um verdadeiro guia de leitura que aponta muitos dos mais expressivos títulos do gênero. Percebemos que Carneiro valoriza o trabalho da Editora GRD pois, entre suas citações, constam praticamente todos os livros publicados pela editora até aquela data.
 No capítulo final, “Valor e expansão da ficção científica”, Carneiro dá um passeio pela ficção científica não-literária, mais uma vez com riqueza de exemplos, destacando a presença do gênero no cinema – que considera o melhor veículo para ele depois da literatura. Relaciona uma lista de títulos, entre unanimidades e raridades pouco lembradas. Também dedica uma parte desse capítulo exclusivamente a ficção científica no Brasil, na qual se detém especialmente na análise feroz de O presidente negro, de Monteiro Lobato. Mas também registra livros de Orígenes Lessa, Jerônimo Monteiro, Menotti Del Picchia, Afonso Schmidt, Dinah Silveira de Queiróz, Fausto Cunha, Rubens Teixeira Scavone, Guido Wilmar Sassy, Levy Menezes, entre outros, além de uma grande relação de críticos que dedicaram atenção ao gênero, uma lista que merece ser pesquisada pois guarda ensaios desconhecidos pelos leitores de hoje.
Carneiro é, sem sombra de dúvida, o mais importante nome da ficção científica no Brasil, tendo assinado alguns dos trabalhos mais expressivos da bibliografia nacional, como os contos “A escuridão” (Diário da vave perdida, Edart, 1963) e “A espingarda” (O homem que adivinhava, Edart, 1966), além do excelente romance Piscina Livre (Editora Moderna, 1980).
Além de escritor talentoso, André Carneiro, foi um verdadeiro visionário. Introdução ao estudo da “science fiction” foi o primeiro estudo sério em língua portuguesa sobre a ficção científica, abrangendo o gênero de forma ampla, no seu aspecto nacional e internacional.
O que se observa na leitura de Introdução ao estudo da “Science Fiction” é como as opiniões de Carneiro são perfeitamente atuais, mesmo se considerando que sua publicação está mais de cinquenta anos no passado. São opiniões corajosas e contundentes, sem deixar de ser elegantes e apoiadas em posturas muito claras e objetivas. Leitura obrigatória a todos os interessados em ficção científica.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Nos quânticos da incerteza: o centenário

André Carneiro (1922-2014), poeta, cineasta, artista plástico e fotógrafo, é o mais importante escritor brasileiro de ficção científica, autor de obras maíusculas traduzidas em diversas línguas, sendo o escritor brasileiro desse gênero mais publicado fora do país.
O pesquisador acadêmico Ramiro Gilroldo, que desenvolve há tempos um trabalho de registro e resgate da obra desse multiartista atibaiense, inaugura o selo Yhade, da editora Mojuganide Studio, com André Carneiro nos Quânticos da Incerteza: O Centenário, um ensaio de cinquenta páginas sobre a obra do autor. Com prefácio de Marcello Simão Branco, o título homenageia a coletânea poética de Carneiro Quânticos da incerteza, publicada em 2007 pela Redijo Gráfica.
Diz o texto de divulgação: "André Carneiro nos Quânticos da Incerteza: O Centenário é publicado logo após a celebração do centenário de nas­cimento de André Carneiro. Nele, Ramiro Giroldo lança um olhar abrangente sobre a ampla produção desse escritor que explorou por quase seis décadas o potencial do gênero em obras desafiadoras e provocativas. Com foco na produção literá­ria, a abordagem também cobre toda a produção artística do autor, incluindo sua atividade na poesia e nas artes visuais. É a avaliação definitiva de uma das mais longevas e prestigiosas carreiras da ficção científica do Brasil." 
O volume tem publicação digital disponível aqui

terça-feira, 31 de março de 2015

Somnium 111

O fanzine Somnium, publicação oficial do Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC editada por Ricardo Guilherme dos Santos, chega ao número 111 com uma de suas mais belas edições. Trata-se de uma publicação inteiramente dedicada a memória do mais importante escritor brasileiro do gênero, André Carneiro, o paulista de Atibaia falecido em 2014. A edição tem 140 páginas e aborda algumas das muitas faces deste relevante artista que, como poucos, representa a ficção científica feita no Brasil. Muitos são os colaboradores presentes que, entre artigos e resenhas, apresentam uma valiosa lista de publicações, uma extensa entrevista e diversos textos do autor, incluindo uma noveleta inédita.
Esta publicação histórica e obrigatória, está disponível aqui para download gratuito.

sábado, 27 de dezembro de 2014

André Carneiro (1922-2014)

É sempre difícil dizer adeus a um amigo e, mais ainda, quando esse amigo é mestre justamente no tipo de arte que escolhemos para estudar e amar.
André Carneiro é, sem dúvida nenhuma, o mais importante nome brasileiro no que se refere à ficção científica. Autor de textos sofisticados e perturbadores, de abordagens raras e estilo sempre inovador, Carneiro não evitava temas polêmicos, pelo contrário, os perseguia com afinco. Tanto em prosa, na qual é o autor mais lembrado pelos leitores dentro e fora do País – especialmente pela novela "A escuridão" –, mas também em verso, sendo um dos poucos poetas brasileiros que não teve receio de versejar ficção científica. Carneiro também se destacou na elaboração de estudos sobre o gênero, com seu obrigatório ensaio Introdução ao estudo da 'science fiction', publicado em 1967 que, ainda hoje, é importante fonte de referência acadêmica.
André Granja Carneiro nasceu 9 de maio de 1922 em Atibaia, cidade do interior paulista. Formou-se em jornalismo e foi fundador do importante jornal literário Tentativa, publicado entre 1949 e 1951, um dos mais completos registros do grupo de poetas que ficou conhecido como Geração 45, do qual o próprio Carneiro faz parte.
Seu primeiro livro foi a antologia poética Ângulo & face, publicada em 1949. O envolvimento com a literatura especulativa iniciou-se na Antologia brasileira de ficção científica, organizada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea em 1961, com o conto "O começo do fim". No mesmo ano teve publicado, pelo mesmo editor, o conto "A organização do Dr. Labuzze", na antologia Histórias do acontecerá. Seu primeiro livro solo no gênero viria a ser Diário da nave perdida, coletânea publicada em 1963 pela editora Edart, na qual aparece pela primeira vez o famoso conto "A escuridão". Também a sua segunda coletânea, O homem que adivinhava, foi publicada pela Edart, em 1966.
Carneiro participou ativamente do lendário Simpósio de Ficção Científica, realizado no Rio de Janeiro em 1969, no qual cumpriu a função de chair-man a convite de José Sanz, organizador geral do evento.
Por iniciativa do tradutor e agente literário Leo Barrow que "A escuridão" foi publicado no mercado norte-americano, assim como mais de duas dezenas de outros textos. A primeira publicação em inglês de "The darkness" foi na antologia Best SF 1972, organizada por Harry Harrison e Brian Aldiss. Mais tarde, este o outros textos de Carneiro seriam publicados em diversas outras línguas, tornando-se a obra da fc brasileira mais conhecida no exterior.
Carneiro tinha muitos interesses além da literatura. Foi artista plástico, fotógrafo, cineasta e dedicou muita atenção a arte do hipnotismo, assunto sobre o qual também escreveu diversos livros. Sendo um intelectual em plena atividade, foi perseguido pelas forças militares do golpe de 1964. Carneiro gostava de contar sobre a sala secreta que tinha em sua chácara, de sua participação em grupos de guerrilha e da operação que roubou o famoso "cofre do Adhemar". Apesar da militância, nunca foi preso, mas as experiências que viveu serviram de combustível poderoso para sua ficção.
Uma das temas mais recorrentes da obra de André Carneiro é o feminismo e a revolução sexual. Muitos de seus trabalhos curtos tratam desse tema em maior ou menor grau, mas foi na ficção longa que Carneiro ousou mais, em seus romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991).
Por causa de problemas de saúde, Carneiro transferiu-se para Curitiba em 1999, para ficar próximo a seus filhos, Maurício e Henrique. Mesmo assim, continuou ativo, realizando diversas oficinas literárias e contribuindo para a formação de um núcleo de autores de fc&f na capital paranaense. Um problema progressivo nos olhos dificultou ainda mais a vida de André Carneiro mas, mesmo com menos de dez por cento da visão, continuou a escrever contos e poemas. São dessa fase a coletânea de contos Confissões do inexplicável e a coletânea poética Quânticos da incerteza, ambas de 2007. Seu último livro publicado foi André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas (2009), mas o autor deixou prontas pelo menos uma coletânea de contos inéditos e uma coletânea de crônicas que, talvez, ainda sejam, editadas.
André Carneiro nos deixou no dia 4 de novembro de 2014, aos 92 anos, vitimado por problemas cardiorrespiratórios. Seu corpo foi cremado e as cinzas depositadas ao pé de uma árvore.

Os livros do mestre
Ângulo & face. São Paulo: Edart, 1949. Poesia.
Diário da nave perdida. São Paulo: Edart, 1963. Contos.
Espaçopleno. São Paulo: Clube de Poesia, 1963. Poesia.
O homem que adivinhava. São Paulo: Edart, 1966. Contos.
O mundo misterioso do hipnotismo. São Paulo: Edart, 1963. Não-ficção.
Introdução ao estudo da 'science fiction'. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1967. Não-ficção.
Manual de hipnose. São Paulo: Editora Resenha Universitária, 1978. Não-ficção.
Piscina livre. São Paulo: Editora Moderna, 1980. Romance.
Pássaros florescem. São Paulo: Editora Scipione, 1988. Poesia.
Amorquia. São Paulo: Editora Aleph, 1991. Romance.
A máquina de Hyerônimus e outras histórias. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1997. Contos.
Sem memória. São Bernardo do Campo: Edições Hiperespaço, 2005.
Confissões do inexplicável. São Paulo: Editora Devir, 2007. Contos.
Quânticos da incerteza. Atibaia: Redijo, 2007. Poesia.
André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas. São Paulo: Pantemporâneo, 2009.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Megalon 54 e muito mais

Já pode ser baixada gratuitamente aqui a versão virtual o nº 54 do Megalon, fanzine de ficção científica e horror publicado originalmente em setembro de 1999 por Marcello Simão Branco.
A edição tem 36 páginas e traz ficções de Jorge Moreira Nunes e Ricardo Madeira, uma oportuna entrevista com o saudoso fantasista goiano José J. Veiga, artigo sobre Frankenstein, uma homenagem ao então recentemente falecido DeForest Kelley (o Dr. McCoy de Star trek) e tabulações de uma pesquisa realizada pela revista Locus para determinar os autores favoritos de fc e fantasia entre seus leitores, que o editor aproveitou para comparar com um levantamento similar que o próprio Megalon realizou alguns meses antes. Também traz as seções fixas "Diário do fandom", "Terras alternativas" e "Arte fantástica brasileira" e, na capa, uma imagem impressionante do ilustrador americano Allan Clark.
O editor também disponibilizou, num arquivo bônus que pode se baixado aqui, alguns documentos históricos interessantes, como a divulgação do romance Amazon, de Ataíde Tartari, publicado nos EUA, e um conto de fc publicado pela revista Veja em 1969 que, infelizmente, não traz o nome do autor, e ainda a reprodução da capa da revista Meia-Noite, de novembro de 1951, aqui.
E, para homenagear o escritor André Carneiro, Branco redisponibilizou a edição nº 8 do Megalon, já comentada aqui, edição esta que traz uma entrevista com o decano autor da fc brasileira, falecido há poucos dias. A edição que até agora estava indisponível, pode finalmente ser baixada aqui.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Resenha: Piscina Livre

Piscina Livre, André Carneiro. 
Ed. Moderna, São Paulo, 1980, 136 páginas.
André Carneiro, o mais importante autor da ficção científica brasileira, festejado por seus contos publicados em várias línguas e muitas vezes premiados, tem também neste romance utópico um ótimo momento.
Publicado em 1980, pouco antes da organização do movimento que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira, Piscina Livre apresenta características marcantes da proposta literária da primeira onda, a geração GRD, na qual Carneiro se insere. A começar pela apresentação formal do texto que, numa ousadia modernista, não observa os convencionais recuos dos parágrafos. Não se trata de um erro editorial, uma vez que tanto o autor quanto a editora tinham muita experiência na publicação de livros. A apresentação é proposital, mas surpreende os leitores acostumados aos textos da Segunda Onda, que tiveram uma postura conservadora em relação à forma e ao estilo, com pouca ou nenhuma experimentação nesse aspecto.
Também na prosa, Piscina Livre tem um toque de elegância e ousadia técnica pouco comuns da ficção científica brasileira, características que fizeram valer os elogios que o autor recebeu e ainda recebe de editores, leitores e teóricos. E, como se não bastasse, ainda carrega um punhado de boas ideias.
O mundo de Piscina Livre é habitado por pessoas felizes e frívolas, que vivem em cidades confortáveis, ilhas de urbanidade cercadas por natureza selvagem. A Piscina Livre é uma casa de prostituição, onde as mulheres encontram exemplares masculinos geneticamente desenvolvidos para esse fim. São os andrs, homens artificiais que não têm direitos de cidadão. O termo "piscina livre" advém do fato que sua vitrine é um enorme aquário no qual andrs nus exibem-se para a clientela num erótico balé subaquático. Em nenhum momento o romance sugere que existam andrs fêmeas e, com efeito, o discurso feminista de Carneiro, também visto em muitas outras de suas obras, aqui condena explicitamente a prostituição feminina.
A sociedade não vê a Piscina Livre como uma atividade moralmente condenável, ao contrário. Trata-se de um lugar elegante e bem frequentado, no qual as mais destacadas mulheres da sociedade encontram complementos para sua completa satisfação sexual, inclusive um gorila muito requisitado. De fato, essa comunidade futura trocou as religiões pelo sexo, que é praticado livremente por homens e mulheres de todas as idades, até crianças. O  prazer erótico é a linha guia da sociedade, ensinado nas escolas por especialistas, com uma infinidade de práticas variantes. Não há ciúme ou vergonha e todos desfrutam de liberdade sexual absoluta.
Os andrs, contudo, não são felizes. Anseiam pela liberdade e buscam por ela fugindo para a selva, principalmente quando, depois de algum acidente, apresentam "defeitos" ou aleijumes. Estes acabam servindo como caça desportiva para homens que se divertem matando-os com rifles elétricos.
Nesse cenário, encontramos um casal jovem que, no princípio da narrativa, chamam-se Blanche e Kratz. Esses nomes não duram muito além das páginas iniciais, pois os cidadãos usam braceletes identificadores que lhes mudam o nome todos os dias. O que poderia tornar-se uma confusão é tratado de forma segura pelo autor e, em nenhum momento, o leitor perde a identidade dos personagens.
Apesar de ter uma vida confortável, Blanche não está plenamente feliz, embora não saiba disso. Em uma visita à Piscina Livre, ela desfruta do andrs Several (ao contrário dos cidadãos livres, os andrs nunca mudam de nome). Na Piscina Livre, a seleção dos andrs é aleatória, mas Blanche –­ que a essa altura já não se chama mais assim – desenvolve uma fixação por ele. Kratz não se importa que Blanche tenha relações com outros homens, sejam eles andrs ou cidadãos, mas fica abalado quando desconfia que ela entabula diálogos lógicos com Several, uma vez que considera os andrs mentalmente inferiores.
Conforme Blanche estreita seu relacionamento com Several, Kratz fica cada vez mais abalado emocionalmente, e isso vai levá-lo a adotar medidas drásticas na tentativa de recuperar o seu amor. Sendo conselheiro da cidade, Kratz dispõe de algum poder, e o que se segue é nada menos que um holocausto.
Interessante notar o final anticlimático da trama, depois do torvelinho de situações de crime e tragédia.
O moralismo que caracteriza o genoma da ficção científica internacional mais bem sucedida não encontra eco em Piscina Livre que, na mais pura tradição tupiniquim, termina literalmente em pizza, sem culpa ou punição. Desse modo, o autor deixa a conclusão aberta ao leitor: trata-se de uma alegoria à impunidade que assola o país; de uma parábola para o perdão cristão; de uma proposta para redenção espiritual através do sexo ou outras infinitas abordagens que se tenha possa perceber.
Nota-se uma forte influência do romance Admirável mundo novo, com o sexo livre tomando o lugar do soma – a droga de controle social do romance de Aldus Huxley. Em alguns momentos, a narrativa assume um tom escandalosamente erótico, que a diferencia absolutamente da corrente principal da ficção científica.
Também se pode observar a conjunção temática entre Piscina Livre e os contos "Diário da nave perdida" (Diário da nave perdida, Edart, 1963), "Um casamento perfeito" (O homem que adivinhava, Edart, 1966), "Nave circular" (Isaac Asimov Magazine nº 18, Record, 1991) e "Meu nome é Go" (A máquina de Hyerônimus, UFSCar, 1997), proximidade tão estreita que arrisco dizer fazerem parte de um mesmo universo ficcional, embora a sexualidade e o feminismo sejam assinaturas estilísticas da ficção de André Carneiro.
Piscina Livre define um modelo pouco explorado de ficção científica, que exige do autor uma ampla capacidade abstrativa e estilística, além de uma maturidade moral e filosófica capaz de lidar com o tema do sexo sem cair no escracho, no machismo ou na grosseria. Autores com essa capacidade geralmente preferem não escrever ficção científica, enquanto que os autores de ficção científica de alguma qualidade não ousam tocar nesses assuntos, por uma questão de protocolo do gênero.  Ainda bem que tivemos a ventura de ter André Carneiro na ficção científica brasileira.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Bras x Carneiro

Choque de titãs no Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná. Em sua edição nº16, de novembro de 2012, Cândido apresenta o mais importante autor brasileiro de ficção científica, André Carneiro – autor de Diário da nave perdida e Piscina livre, entre outros livros importantes –, numa entrevista de quatro páginas conduzida pelo escritor Luiz Brás, a mais promissora revelação do gênero nos últimos dez anos.
André Carneiro fala de suas diversas atividades artísticas desde os tempos da ditadura Vargas, quando editou o jornal Tentativa, bem como seu trabalho como contista, poeta, hipnotizador, cineasta e artista plástico.
A entrevista pode ser lida online aqui, bem como na edição integral aqui. No saite podem ainda ser baixadas as edições anteriores do jornal.