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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Lançamento: A ilha além do véu, Roberta Spindler

Depois de uma espera de dez anos, finalmente chega ao público o romance de ficção científica A ilha além do véu, da escritora paraense Roberta Spindler, sequência de A torre acima do véu, originalmente publicado em 2014 pela editora Giz. 
Esta nova história dá sequência às aventuras de Beca e sua família no mundo futuro dominado por uma névoa tóxica e monstros, muitos dos quais que andam em duas pernas.
Diz o texto de divulgação: "Do resgate do irmão a perda de um amor que poderia ter florescido, a descida ao véu deixou marcas em Beca que ela jamais poderia imaginar. Com o passar dos meses, sobreviver tem sido cada vez mais difícil. Ataques sombrios constantes deixam centenas de feridos e segredos importantes não revelados impedem uma reação efetiva. Para defender sua família, Beca está disposta a tudo, inclusive aceitar tarefas cada vez mais arriscadas. É assim que, no meio de insurgências civis e de crises violentas de seu irmão, ela se vê de volta à névoa. Numa missão ainda mais perigosa que a anterior, a busca pela liberdade de existir sem medo das sombras se torna o norte dessas pessoas que estão a um passo do abismo. Mas talvez seja a queda que os aguarda na ilha além do véu."
O volume tem 368 páginas, é uma publicação da editora HarperCollins Brasil e está em pré-venda aqui, com entrega prevista para 19 de agosto de 2024. A capa traz uma ilustração de Joana Fraga.

sábado, 9 de setembro de 2023

Resenha: A torre acima do véu, Roberta Spindler

A torre acima do véu
, Roberta Spindler. 272 páginas. São Paulo: Giz, 2014.

Aconteceu muito rápido e ninguém nunca soube de onde veio o miasma que cobriu todo o planeta em algum momento de um futuro não muito distante. Quem respirava a névoa morria em dolorosa agonia, pelos menos esse foi o destino daqueles que tiveram sorte. 
Os arranha-céus das cidades futuristas, com centenas de andares, proporcionaram a uns poucos a possibilidade de sobreviver nos níveis mais altos, acima da névoa venenosa. Ali, esses miseráveis fundaram uma nova sociedade dominada por leis draconianas, devido a escassez extrema recursos, especialmente de energia, comida e água. Abaixo da linha da névoa, a vida também mudou. Humanos e animais transformados em selvagens antropófagos chamados de sombras, eventualmente sobem as escadas para caçar os últimos seres humanos encurralados no topo dos edifícios. 
Nesse ambiente insalubre vivem Beca e Edu, filhos de Lion, cidadãos da comunidade de Nova Superfície, sobreviventes que habitam um conjunto de prédios cuja sede está localizada nos últimos andares da Torre, o mais alto edifício da antiga megalópole de Rio-Aires. Beca é uma mergulhadora, exploradora especializada que, fazendo uso de cabos e outros equipamentos de escalada, desce aos andares próximos à linha da névoa em busca de qualquer dispositivo remanescente da antiga tecnologia que possa ser reaproveitado. Enquanto Beca cumpre a parte braçal do processo, Edu, seu irmão mais novo, e Lion, seu pai, um mergulhador aposentado, ficam numa central de computadores monitoranto os movimentos de Beca e mantendo cosntante contato de rádio de forma a mantê-la viva durante a missão. A história inicia durante uma dessas incursões, na qual Beca procura por um tipo de bateria de energia infinita cuja localização lhe foi passada por Rato, um informante não muito confiável. A operação acaba comprometida por um conflito com outra equipe de mergulhadores, e Beca acredita que foi traída por Rato. 
Esse desentendimento inicial progride a um conflito mais sério quando Edu, ao participar de um mergulho, acaba despencando para dentro da névoa, onde desparece completamente. Tudo leva a crer que Edu morreu, mas Rato pensa que ele ainda vive em algum lugar na superfície. Desesperados para resgatar Edu, Beca e Lion convencem os governantes de Nova Superfície a organizar uma missão de resgate na região dominada pela névoa venenosa e pelos sanguinários mutantes. E a aventura vai revelar muito mais sobre o que está por trás da névoa, de onde ela veio e por quê, e o papel de cada um nesse drama mortal.
A torre acima do véu é um romance originalmente publicado em 2014, pela Giz Editorial, e é essa a edição tratada nesta resenha. A autora, Roberta Spindler, é paraense de Belém e publicou anteriormente o romance Contos de Meigan: A fúria dos cártagos, em parceria com a também paraense Oriana Comesanha, publicado em 2012 pela Editora Dracaena. Também teve publicado o romance Heróis de Novigrat (Suma, 2018), já resenhado aqui
Spindler tem um texto maduro e bem modelado, sem experimentalismos formais, seguindo a risca todos os protocolos da ficção de gênero numa mescla de fantasia, terror e ficção científica acessível aos leitores mais jovens para quem sua ficção é dirigida. Os personagens são estruturados com motivações bem calçadas, o que dá verossimilhança ao drama ainda que seja todo crivado de situações hiperbólicas incríveis. É justamente o bom desenvolvimento dos personagens que fleva o leitor a avançar, preocupado com o destino deles. 
A produção da Giz é caprichosa, com ótima revisão de Sandra Garcia Cortez e a expressiva ilustração de Rafael Victor que já bastou para capturar a minha atenção, numa das mais instigantes capas da ficção fantástica brasileira recente. 
Enquanto aguardamos a já anunciada continuação para A torre acima do véu, o romance acaba de ganhar nova edição pela Editora HarperCollins Brasil. Vale a leitura deste e dos demais trabalhos de Roberta Spindler, que tem progredido rapidamente no espaço editorial brasileiro. 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Relançamento: A torre acima do véu

Depois de causar boa impressão com a publicação em 2014 pela Editora Giz, o romance de ficção científica A torre acima do véu, estreia da escritora paraense Roberta Spindler, será relançado pela Editora HarperCollins Brasil. 
Diz o texto da contra-capa: "Quando uma névoa perigosa toma conta das cidades e seres sombrios ameaçam a vida de todos os habitantes da Terra, o que resta da humanidade se refugia no alto de megaedifícios e estabelece uma nova comunidade. Sob a proteção de uma instituição autointitulada Torre, recebem segurança e cuidados em troca de obediência e ordem. Beca e sua família têm uma relação próxima com a Torre e ganham a vida resgatando objetos da antiga civilização que possam ter algum valor na chamada 'Nova Superfície'. Admiradora dos esforços de seus líderes, a jovem anseia saber mais sobre o que a humanidade já foi um dia e nem imagina que esse desejo está próximo de se realizar."
O livro tem 384 páginas e está em pré-venda aqui; a editora promete a entrega para julho.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Heróis de Novigrath

Heróis de Novigrath, Roberta Spindler. 296 páginas. São Paulo: Companhia das Letras, selo Suma, 2018.

Jogos que se confundem com a realidade formam um grupo tão grande na ficção fantástica recente que bem poderiam constituir um novo subgênero. Há histórias de jogadores que entram fisicamente no jogo, jogos que invadem a realidade, jogos reais ao estilo reality show quase sempre mortais, jogos que interagem com a realidade de formas mais ou menos sutis, e até jogos que parecem ser só jogos, mas na verdade são interfaces de realidade, mas só saberemos isso no momento propício.
Na ficção estrangeira, algumas dessas histórias tornaram-se grandes sucessos, como O jogo do exterminador de Orson Scott Card, Jogos vorazes de Suzanne Collins, Simulacron-3 de Daniel F. Galouye, Jumanji de Chris Van Allsburg, Jogador nº1 de Ernest Cline, e também no cinema, com Tron: Uma odisseia eletrônica, Zathura: Uma aventura espacial, Rollerball: Os gladiadores do futuroCorrida da morte: Ano 2000 e O último guerreiro das estrelas, entre outros. No Brasil o tema também já rendeu, como as séries 3% (Netflix)  e Supermax (Globo), e o excelente romance O jogo no tabuleiro, de Simone Saueressig, comentado aqui.
Então, da mesma forma que em outros subgêneros muito explorados, como a alta fantasia, a ucronia e a space opera, por exemplo, a  originalidade não é um aspecto tão importante também nessa área. Há muito que os fundamentos e protocolos desses modelos recorrentes na fcf já estão em domínio público, e ninguém vai reclamar se a ideia é mais ou menos parecida com essa ou aquela. Portanto, no meu modo de ver, não há nenhum problema quanto a isso em Heróis de Novigrath, segundo romance da escritora paraense Roberta Spindler, que estreou em 2014 com o romance de ficção científica A torre acima do véu (Editora Giz).
No livro, Heróis de Novigrath é um mundialmente popular jogo MMORPG – Massively Multiplayer Online Role-Playing Game –, encarado como esporte profissional com campeonatos disputadíssimos (tal como acontece na realidade com as franquias League of Legends e World of Warcraft).
Produzido pela megacorporação Noise Games, Heróis de Novigrath apresenta um cenário de guerra medieval na qual digladiam personagens mágicos de duas castas opostas: os Defensores de Lumnia e os Filhos de Asgorth. Como fica logo evidente, os primeiros representam o bem, e os outros, o mal. Devido a extrema devoção de seus usuários, o universo do jogo adquiriu existência numa realidade paralela, mas os Filhos de Asgorth não estão satisfeitos com essa condição e cobiçam a materialidade do mundo dos homens. Para atingir seu intento, absorvem a energia dos jogadores online e, com esse aporte de poder, predominam em seu universo sobre os Defensores de Lumnia. Estes, por sua vez, para frustrar os planos malignos de seus adversários, enviam à Terra um de seus campeões, o guerreiro Yeng Xiao, com a missão de selecionar uma equipe de cinco jogadores humanos com talentos especiais que possam impedir os Filhos de Asgorth de vencer o campeonato mundial do jogo pois, caso uma das equipes de Asgorth vença, a energia acumulada de bilhões de torcedores dessa casta do mal abrirá uma passagem através da qual as hordas invadirão a Terra, trazendo ao nosso mundo todos os horrores do jogo.
A história é contada a partir da visão de Pedro (codinome Epic), ex-jogador de Heróis de Novigrath, caído em desgraça depois de um escândalo num antigo campeonato sul-americano. Apesar de decadente, Pedro é escolhido por Xiao para ser o técnico da equipe de Lumnia, a Vira-Latas. Orientado pelo guerreiro virtual, Pedro convoca seus jogadores: o jovem fenômeno Cristiano (codinome Fúria, décimo no ranking brasileiro), a vestibulanda Samara (Titânia, igualmente bem ranqueada), a universitária Aline (NomNom) e os irmãos gêmeos Pietro e Adriano (Roxi e LordMetal, respectivamente).
O romance se divide em três partes principais. Na primeira, acompanhamos a montagem da equipe: os jovens se estranham e têm conflitos pessoais e coletivos que levam o técnico Pedro aos limites de sua curta paciência. A segunda parte mostra a campanha da Vira-Latas no Campeonato Brasileiro, quando os jogadores são testados em combate e têm de se entender ou morrer. A cada nível superado, os protagonistas amalgamam mais profundamente seus avatares no jogo, ao ponto de não só experimentarem uma interface totalmente imersiva durante as partidas, mas também manifestarem seus poderes fora do jogo, no mundo real, para se defenderem de entidades de Asgorth que os atacam. Na parte final, acompanhamos a Vira-Latas no campeonato mundial, na Coreia do Sul, quando terá de enfrentar sua nêmesis, a poderosa equipe dos Espartanos, dirigida por Yuri, o maior jogador de Novigrath que existe.
A autora é competente em retratar a evolução técnica e psicológica dos personagens que, de uma equipe desorganizada e insegura, torna-se uma máquina de combate bem azeitada. Há bons dramas humanos para temperar a narrativa e alguma ousadia, como a presença de um personagem homossexual entre os protagonistas, o que tem sido recorrente nos livros de fcf nacionais publicados pela Suma. Também foi uma boa sacada o uso de uma pletora de termos técnicos que deu autenticidade ao ambiente ficcional. Desconheço se o jargão é efetivamente usado pelos gamers na vida real; se não for, o trabalho de construí-lo é algo realmente admirável. A edição da Companhia das Letras/Suma é bem cuidada e praticamente não tem erros.
Não se deve esperar surpresas e viradas dramáticas, pois a história é simples, claramente maniqueista, linear e fechadinha, muito bem estabelecida como literatura de entretenimento infanto-juvenil, que se desenrola diante do leitor como um filme da sessão da tarde. Longe de ser um problema, este é justamente o maior mérito de Heróis de Novigrath, pois a contínua formação de leitores para o gênero é fundamental. Roberta Spindler vem assim se juntar a outros valentes autores de literatura fantástica infanto-juvenil, como Rosana Rios, Miguel Carqueija,  Helena Gomes, a já citada Simone Saueressig, entre outros. Esta literatura precisa ter lugar de destaque nas estantes das livrarias porque, sem os jovens leitores hoje, não haverá leitores adultos amanhã.
Mas nada impede que leitores maduros também se divirtam com Heróis de Novigrath. Eu gostei e recomendo.