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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Interferências

Interferências (Crosstalk), Connie Willis, tradução de Viviane Diniz Lopes. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2018.

Conheci o texto de Connie Willis no periódico Isaac Asimov Magazine (carinhosamente chamada de IAM), publicação tradicional nos EUA que teve 25 edições no Brasil nos anos 1990, pela editora Record. Ao lado de monstros da ficção científica recente, como Charles Sheffield, Kim Stanley Robinson, James Tiptree Jr., Geoffrey Landis, Bruce Sterling, Judit Moffet, George R. R. Martin e Lucius Sheppard, entre outros, Connie Willis era autora frequente e seus textos sempre interessantes e contundentes, como a novela “O último dos Winnenbagos” – publicado na edição número 11 de abril de 1991 e ganhador dos prêmios Hugo e Nebula –, sobre um casal idoso em viagem nas estranhas estradas do uma América futurista. Willis é uma das autoras mais premiadas de sua geração, com nada menos que sete Nebulas e onze Hugos no currículo (e contando).
Connie Willis é, então, uma paixão do passado. Se alguém diz que há uma nova história dela no mercado, meu coração já começa a bater mais forte. Ler Willis hoje é como voltar no tempo e reviver a emoção de ler uma IAM inédita. Velhos tempos.
Interferências, romance de 2016 traduzido no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras no selo Suma, é o segundo romance de Connie Willis no Brasil. O anterior foi O livro do juízo final, publicado pela mesma editora em 2017 e resenhado aqui. Fiquei um pouco receoso de que Connie não tivesse acertado a mão em Interferências, pois ouvi opiniões que davam conta de que esta não seria uma história de ficção científica, a especialidade da autora. Mesmo assim, confiava que o talento literário de Willis não me decepcionaria. Eu estava certo e as opiniões, erradas, é claro.
A história acompanha a confusão que se torna a vida de Briddey Flanningan, jovem executiva de uma indústria de celulares que aceita o pedido de Trent, seu noivo e chefe na empresa, para realizarem com um importante cirurgião da moda o implante de um tipo de chip cerebral que permitirá ao casal compartilhar as emoções um do outro e, dessa forma, ter uma relação mais intensa e transparente. Muitos casais felizes atestam as vantagens do procedimento, que é um tipo de prova de amor nesse futuro próximo, sendo uma operação simples e corriqueira, sem riscos à saúde. Mas essa não é a opinião de um dos colegas de Briddey, o engenheiro de desenvolvimento C.B., mais conhecido nos corredores da empresa como “Corcunda de Notre Dame” devido ao seu aspecto desengonçado e anti-social, sempre isolado em sua oficina no subsolo. C.B. usa todos os seus piores argumentos para demover Briddey de sua decisão pelo implante, apela até para um discurso de terror explícito dando exemplos de cirurgias aparentemente simples que levaram os pacientes a óbito, mas a jovem está convencida do amor de Trent e briga com C.B., pois acredita ele está com ciúmes e tentando sabotar seu sonho de conto de fadas.
Depois de uma verdadeira operação de guerra para evitar as fofocas no trabalho e as invasivas mulheres de sua família irlandesa, Briddey e Trent internam-se secretamente no hospital para receber o implante. Tudo vai bem até que a anestesia passa e Briddey descobre que alguma coisa deu muito errado com a cirurgia: em vez de sentir as ondas de amor emanadas por Trent, começa a ouvir em sua mente a voz de C.B., com quem agora têm um vínculo telepático. E isso é muito mais que um inconveniente, pois o que Trent vai pensar quando souber que sua amada tem com o “Corcunda de Notre Dame” uma ligação mais íntima que com ele próprio? Mas isso é só o início dos problemas de Briddey, pois o seu dom telepático pode colocar em perigo não só a si, mas a toda sua família, que é disfuncional mas a qual ela ama sinceramente.
A história tem, em boa parte, o tom de uma comédia romântica, e em alguns momentos iniciais realmente lembra o enredo do longa-metragem Do que as mulheres gostam (What women want, 2000). Mas é só superficialmente, porque Interferências tem um panorama efetivamente de ficção científica, com muitas teorias voando por todos os lados, com direito a conspirações e cientistas malucos que tornam a narrativa uma verdadeira montanha-russa. O tom humorístico é delicioso e raro tanto no trabalho de Willis – que geralmente é dramático – quanto no gênero da ficção científica de modo geral. Uma peça literária valiosa portanto.
E as epígrafes que abrem cada capítulo são um charme à parte, transcrevendo frases inspiradoras de filmes, seriados de tv e livros como Graça infinita, Artemis Fowl, Alice no País das Maravilhas, O jardim secreto e outros, que fazem o delírio dos fãs de citações.
Por tudo isso, Interferências é um livro que pode ser lido com prazer tanto pelo leitor veterano, fã de ficção científica, como também pelo leitor não especializado no gênero, incluindo aquele que acredita não gostar dele. Porque, no fim das contas, Connie conseguiu com louvor fazer aquilo que muitos perseguem sem sucesso: escreveu uma ficção científica para quem não gosta de ficção científica. E isso é um feito e tanto.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Tempos fantásticos.com

Depois de dois anos e 24 edições publicadas, o jornal satírico Tempos Fantásticos suspendeu suas operações em meados de 2018. Ao contrário de outros órgãos de imprensa não noticiam com clareza os motivos da própria descontinuidade, Tempos Fantásticos revelou que foi tudo descorrente de uma intensa perseguição de seus inimigos, embora não cite os nomes dos mesmos. Mas parece que a publicação pode voltar em breve, e o primeiro sinal dessa recuperação é o lançamento do novo saite do jornal, que disponibiliza, para download gratuito, as versões eletrônicas de todas as suas 24 edições.
Editado por Angelo Dias, Jana P. Bianchi, João P. Lima, Ludmila Honorato e Raphael Andrade, Tempos Fantásticos é uma ideia interessante mas não inédita. Nos anos 1990, duas publicações de igual natureza circularam entre os fãs brasileiros de ficção fantástica: o Zominum – autocaricatura do fanzine Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica –  e o Hiperespaço TNG, ambas publicadas no Rio de Janeiro e que também tiveram existência curta. A diferença é que enquanto estes eram fanzines da era pré-internet, Tempos Fantásticos traz a sofisticação gráfica dos tempos digitais, emulando a diagramação dos jornais modernos.
Enquanto o lobo não vem, aproveite para passear no bosque, isto é, para baixar e ler as edições antigas de Tempos Fantásticos. Afinal, sendo um jornal atemporal, ele tem a vantagem de nunca ficar desatualizado.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O ditador honesto

O que viria a ser um ditador honesto? Isso existe? Por incrível que pareça, houve época que esse personagem era louvado pelos intelectuais mas, naqueles tempos, recebia o nome de "déspota esclarecido". Não são poucos os pensadores iluministas do século 18 que viam nessa figura contraditória a luz de um futuro redentor para a humanidade, e sabemos para onde isso nos trouxe. Contudo, O ditador honesto também pode ser muito divertido, pois trata-se do romance satírico de ficção política - e arrisco dizer científica - do escritor baiano Matheus Peleteiro, autor do romance Mundo cão (2016) e da coletânea Pro inferno com isso (2017). O ditador honesto é narrado por um secretário escandalizado com as práticas do chefe de estado de numa distopia não muito diferente dos nossa...
A preocupação com o crescimento do fascismo no Brasil é o principal motivador de uma série de livros que têm ganhado a luz nos últimos meses, como os já resenhados Ninguém nasce herói, de Eric Novello, e Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.
O livro tem 172 páginas e é uma publicação independente. Para obter um exemplar, entre em contato com o autor pelo email matheus_peleteiro@hotmail.com, ou pelo nas redes sociais, aqui.

sábado, 12 de maio de 2018

Risografia: Figurinhas Carimbadas

No tempo em que os dinossauros andavam sobre a Terra, uma das atividades mais praticadas entre esses gigantes era a produção de fanzines, publicações clandestinas feitas em copiadoras de fundo de quintal, enviadas pelos correios para os leitoressauros, muitas vezes em troca de outros fanzines. Foi a mais ativa rede social daquela era até o impacto do asteroide em Yucatán.
Um artistassauro daquele tempo remoto foi Angelo Júnior que, além de publicar seus próprios fanzines, colaborou com ilustrações e histórias em quadrinhos para diversos outros, sendo um traço bastante conhecido do fandom cretáceo.
Resgatado por paleontólogos modernos, Angelo está de volta no livro Risografia: Figurinhas carimbadas, com "25 mini-biografias e caricaturas de peças raras que circulam por aí. Um universo de tipos desajeitados, tresloucados, paspalhos, bobocas, imbecis e outros bichos", nas palavras do próprio autor.
A publicação tem 53 páginas em preto e branco, capa em cores, e pode ser adquirida em formato impresso aqui, ou com o próprio autor pelo email angelomsjunior@yahoo.com.br.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Honey Bel na mão

Miguel Carqueija avisa:
"As aventuras de Honey Bel será lançada no próximo sábado, dia 11 de novembro, a partir das 15 horas, na Papelaria Áurea, situada na Rua Barata Ribeiro, 645, em Copacabana, Rio de Janeiro. Todos estão convidados."
A novela, uma ficção científica humorística anunciada aqui há poucos dias, é a primeira publicação sob a chancela do selo Electron, de propriedade do autor, com apoio das Edições Hiperespaço.

domingo, 5 de novembro de 2017

Honey Bel na Electron

O escritor carioca Miguel Carqueija há algum tempo tem se dedicado à tarefa de editar ele mesmo os seus escritos. A maior parte dessa produção tem sido disponibilizada pelo autor em forma digital em diversos saites de autoedição, mas Carqueija decidiu dar um novo e ousado passo em sua carreira criando um selo próprio, através do qual pretende publicar livros impressos, ainda que confeccionados artesanalmente.
O selo foi batizado de Edições Electron e a primeira publicação sob essa chancela é a novela de ficção científica humorística As aventuras de Honey Bel, que teve edição virtual anterior, mas faz agora sua estreia em formato real. Com prefácio de Francisco Martinelli, conta a história de Honey Bel, garota romântica, desastrada e biruta que, num futuro distante, tenta a sorte como vendedora na Terra II, mas seu sonho é encontrar um Príncipe Encantado. O acaso a joga num roubo audacioso e agentes da Cosmopol – a Interpol do futuro – e Honey decide se tornar uma agente secreta.
A edição é impressa digitalmente, tem 64 páginas, formato 10,5 x 21cm e capa em cores. Carqueija já teve publicações anteriores em formato similar, pelos selos editoriais Scarium e Hiperespaço, sendo que este lhe prestou assessoria nesta nova fase; não é um salto no vazio, portanto. O autor tem experiência com venda direta e podemos esperar mais títulos no futuro.
Mais informações sobre como e onde adquirir o livro com o autor, pelo email mcarqueija@gmail.com.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

MLD

MLD é um fanzine diferenciado. No aspecto editorial, apresenta anúncios publicitários nas capas e nas páginas centrais. No conteúdo, também é bastante incomum, apresenta a história de humor sobre futebol "Chico, o mico", de Bruno Borovac e Guilherme Carbonari, com um desenho caricato bem interessante.
Produzido e publicado pelo selo Píbola Comix, o fanzine tem 20 páginas em formato magazine, com o miolo em preto e branco, capas em cores, e é vendido por apenas R$0,50!
Mais informações sobre a revista podem ser obtidas no saite da editora, aqui.

quarta-feira, 18 de março de 2015

As aventuras de Honey Bel

Está disponível para download gratuito a novela de ficção científica cômica As aventuras de Honey
Bel, de Miguel Carqueija, com a história de uma agente secreta que tem tudo para não dar certo. Diz o texto de divulgação: "Honey Bel é uma simpática, porém meio biruta, garota que vive na Terra II (um cometa terramorfizado) onde exerce a (para ela) difícil profissão de vendedora. Mas Honey quer ardentemente uma outra vida: aventuras e viver um amor intenso com o Príncipe Encantado. E ela quebrará lanças para conseguir o seu ideal."
A edição, em forma de arquivo de texto, chega através da página do autor no saite Recanto das Letras. O prefácio e o posfácio são respectivamente assinados por Francisco Martellini e Ricardo Guilherme dos Santos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A Gibiteca faz aniversário e quem ganha o presente...

A Gibiteca Municipal Eugênio Colonnese, de São Bernardo do Campo, está completando 15 anos com uma interessante programação de palestras que certamente vai interessar a quem gosta dos quadrinhos nacionais.
No dia 22/08, sexta-feira, às 19h, o artista e editor independente Francisco Marcatti fala sobre o quadrinho undergroud no Brasil, segmento do qual ele mesmo é um de seus mais expressivos expoentes.
E no dia 23, sábado, às 15 horas, será a vez dos conhecidos cartunistas Caco Galhardo (Pescoçudos) e Fernando Gonçales (Níquel Náusea) conversarem com o público.
A Gibiteca Eugênio Colonnese localiza-se dentro do parque temático Cidade da Criança, que fica na Rua Tasman, 301, Jardim do Mar, em São Bernardo do Campo. A entrada é gratuita.
Mais informações na fanpage da Gibiteca, aqui.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Renato Canini (1935-2013)

Um dos mais queridos cartunistas brasileiros, Renato Vinícius Canini nasceu em 22 de fevereiro de 1935, na cidade de Paraí, no Rio Grande do Sul. Desde jovem, interessou-se pela arte do traço e, aos 21 anos, já trabalhava como ilustrador na revista infantil Cacique, publicada pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Ainda nos anos 1960, participou ativamente da lendária CETPA - Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre, iniciativa que tinha como meta a nacionalização do quadrinho brasileiro e contou com o apoio do então Governador Leonel Brizola. Com roteiros de José Geraldo Barreto, Canini desenhava Zé Candango, um cangaceiro que lutava contras os super-heróis estrangeiros.
Canini mudou-se para São Paulo em 1967, para trabalhar na revista infantil Bem-Te-Vi, publicada pela Igreja Metodista. Dois anos depois foi contratado pelo estúdio de quadrinhos da Editora Abril, para ilustrar a revista Recreio. Logo passou a trabalhar com Zé Carioca, personagem popular criado em 1942 por Walt Disney. Aproveitando-se do controle frouxo que a Disney então mantinha sobre os quadrinhos de sua franquia feitos no País, Canini incorporou diversos aspectos da Cidade Maravilhosa às histórias, bem como trejeitos brasileiros ao personagem. Foram cerca de 135 histórias, produzidas entre 1971 e 1977, amplamente apreciadas pelos leitores brasileiros. Mas esse grande sucesso acabou atraindo a atenção da matriz americana que desaprovou o trabalho, considerando-o demasiado distante do seu padrão original. Por muito tempo, o trabalho de Canini em Zé Carioca ficou proibido de ser republicado, situação que só mudou em 2005, quando a própria Editora Abril homenageou o artista com um volume da coleção Mestres Disney, equiparando-o assim aos ilustradores Don Rosa, Cavazzano, Gottfredson e Romano Scarpa, vistos nos outros volumes da mesma coleção.
Em 1974, Canini criou para a revista Crás a sátira de faroeste "Koka Kid", rebatizada depois pelo editor como Kactus Kid. Inspirado na fisionomia de Kirk Douglas, Kactus Kid era um agente funerário que, quando necessário, transforma-se num pistoleiro elegante e boa-pinta, não sem alguma dificuldade, uma vez que tinha que passar pela picada dolorosa de uma agulha para fazer o indefectível furinho no queixo.
Outra criação importante de Canini é o psicólogo Dr. Fraud que, nos anos 1970, chegou a aparecer em várias edições da revista Patota, da Editora Artenova, e publicado em álbum em 1991 pela editora Sagra-DC Luzatto, sempre envolvido com problemas psicológicos dos mais famosos personagens dos quadrinhos.
Em 1978, criou o indiozinho Tibica para participar de projeto de tiras da Editora Abril, que não foi adiante. O personagem seria enfim publicado em 2010 no álbum Tibica: O defensor da ecologia, pela Editora Formato.
Canini também teve trabalhos publicados nos jornais Correio do Povo, Diário de Notícias, O Pasquim e nas revistas Mad e Pancada, entre outras publicações.
Também são seus os livros infantis Cadê a graça que tava aqui? (1983, Mercado Aberto), Um redondo pode ser quadrado? (2007, Formato) e O cigarro e o formigo (2010, Formato). Em 2012, publicou seu último trabalho, o álbum Pago pra ver (IEL/CORAG), reunindo 250 ilustrações sobre o Rio Grande do Sul e os pampas, realizadas ao longo dos últimos trinta anos.
Casado com a também desenhista Maria de Lourdes, Canini sofreu um mal súbito decorrente de um problema cardíaco e veio a falecer no último dia 30 de outubro, aos 77 anos, sendo sepultado no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas, onde morava.
Entre as muitas homenagens que recebeu ainda em vida, Canini foi agraciado em 2003 com o título de "Grande Mestre" pelo Prêmio HQMix.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A portadora da estrela e Honey Bell

O simpático escritor carioca Miguel Carqueija não para. Em ação desde o início dos anos 1980, ele é certamente o mais prolífico autor brasileiro de ficção fantástica, com uma produção intensa e variada que passa pela fantasia, ficção científica e horror, indo do infantil ao adulto e do dramático ao humorístico com a mesma desenvoltura, sempre com personagens femininas fortes e destemidas.
A maior parte de sua produção apareceu em fanzines e publicações coletivas, mas já logrou publicar títulos profissionais, tais como Farei meu destino (2008, Giz) e O estigma do Feiticeiro Negro (2012, Ornitorrinco). Ainda assim, o autor não abandona os canais alternativos e acaba de publicar pelo portal Recando das Letras o ebook A portadora da estrela, descrito pelo próprio como "uma fanfic cruzada que homenageia diversos universos ficcionais". Conta a história de uma jovem, membro de um clã de guerreiras místicas, guarda de um segredo extraordinário que pode comprometer a sua missão. O volume tem prefácio da escritora Regina Madeira e pode ser baixado gratuitamente aqui.
Carqueija também está em busca de uma editora que lhe publique um novo livro, já finalizado. Trata-se de As aventuras de Honney Bell, novela cômica de ficção científica que se passa num mundo colonial em um futuro distante. Diz o texto de divulgação do autor "O que você diria de uma agente secreta que nada sabe sobre o assunto, que é desastrada e assumidamente biruta? Que se tornou agente secreta por acaso? Poderia dar certo de alguma forma? Bem. Talvez, se o nome dela for Honey Bell e se possuir um truque secreto do qual só ela tem conhecimento e somente ela sabe utilizar." O texto já tem até prefácio e posfácio, assinados por Francisco Martellini e Ricardo Guilherme dos Santos, respectivamente. Ativo como é, acredito que Carqueija logo encontrará uma casa para Bell.

sábado, 18 de maio de 2013

Luluzinha: Primeiras histórias

Luluzinha foi uma série de revistas de histórias em quadrinhos que fez um sucesso estrondoso no Brasil ao longo dos anos 1960, ao ponto de ter ganhado até uma canção famosa pelo popular Trio Ternura, grupo vocal que gravou diversas músicas sobre personagens dos gibis.
É espantoso que essa personagem, criada em 1935 pela cartunista estadunidense Marjorie Handerson Buell, a Marge, tenha caído no esquecimento por toda uma geração de leitores. A chegada às bancas, há alguns anos, de uma versão alterada que em nada lembra o excepcional trabalho anterior, favoreceu, contudo, a volta das histórias originais, agora em um luxuoso álbum publicado pela Pixel, o selo de quadrinhos da Ediouro.
Luluzinha: Primeiras histórias, como diz o nome, reúne algumas das aventuras iniciais da personagem, publicadas entre 1945 e 1950. O álbum seleciona as primeiras aparições de personagens como Bolinha, Plínio, Alvinho, Glorinha e a Bruxa Alcéia, em histórias realizadas por John Stanley e Inving Tripp para a Dell Comics, com toda a carga cultural daqueles tempo politicamente incorretos, entre as quais está "O bicho-papão", que chegou a ser censurada nos EUA. A proposta da editora brasileira foi manter as características da época, inclusive com as páginas levemente amareladas emulando o papel em que as revistas em quadrinhos eram publicadas.
A edição ainda traz um valioso artigo historiográfico assinado pelo especialista Octacílio D'Assunção, que também organizou a edição brasileira, e acompanha um interessante quebra-cabeças temático.
Luluzinha: Primeiras histórias tem 128 páginas em papel brilhante, capa cartonada e custa R$16,90.

sábado, 9 de março de 2013

Café com caricatura

No calor da tarde do último dia 3 de março, cartunistas e caricaturistas reuniram-se em Santo André para festejarem o quadrinho nacional, na décima primeira edição do Encontro de Cartunistas do ABC e São Paulo, iniciativa da Editora Virgo, empresa do cartunista sulsancaetanense Mario Mastrotti.
Durante o encontro, além de homenagearem o patrono do quadrinho brasileiro, Ângelo Agostini, com uma exposição de caricaturas do mestre feitas na hora, os cartunistas presentes também festejaram o Dia da Mulher, com outra exposição-relâmpago sobre o tema. Além disso, realizaram uma história em quadrinhos coletiva e diversas outras dinâmicas, todas elas envolvendo o ato de desenhar.
O evento ainda recebeu a visita de uma equipe da revista O ABC da Comunicação, que realizou gravações de entrevistas com os presentes, e contou, pela primeira vez, com palestras rápidas sobre assuntos de interesse para os cartunistas. Toda essa programação foi fruto da parceria da Virgo com uma equipe de estudantes do curso de Relações Públicas da Umesp, que caprichou na organização de cada detalhe. E, como sempre, o evento também contou com o apoio do Fran's Café da Avenida Portugal, que abrigou o encontro em seu luxuoso e agradável salão de festas.
Nas fotos a seguir desfilam alguns dos artistas que participaram do evento:
Mais fotos do evento podem ser vistas nos perfis de Cerito e Thina Curtis (é preciso estra logado no Facebook).

terça-feira, 5 de março de 2013

Humor nos quadrinhos de ficção científica

Nos quadrinhos, o humor poucas vezes caminhou ao lado da fc. O exemplo mais clássico dessa rara união está na tira Brucutu (Alley Oop) de Vincente T. Hamlim, criada em 1932. Brucutu é um troglodita que vive entre os dinossauros e viaja pelo tempo através de uma máquina inventada por um cientista maluco do futuro, o professor Papanatas.
Em 1947, o cartunista Carl Barks criou para a Disney, inspirado no Pato Donald e seus sobrinhos, uma série de histórias com Patópolis, uma cidade habitada por patos e outros bichos.
Sua principal criação foi o Tio Patinhas (Scrooge McDuck), empresário multimilionário que sempre se mete em encrencas por causa de sua ganância desmedida. Muitas dessas aventuras tiveram cenários de ficção científica, com os patos indo à Lua, ao fundo do mar e a cidades imaginárias, em histórias inteligentes e divertidas.
Em 1967 surgiu a série francobelga Valérian, agente espaço-temporal (Valérian), da dupla Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, que usa de bom humor em doses equilibradas mesclado com muita ação para contar as aventuras de um agente do futuro encarregado de impedir que disfunções espaço-temporais, naturais ou não, prejudiquem o contínuo espaço-tempo. As histórias de Valérian e sua acompanhante Laureline são muito criativas e de alta qualidade artística, uma característica do quadrinho europeu.
Nas franjas do gênero, está um dos maiores sucessos dos quadrinhos em tiras modernos: Calvin e Haroldo (Calvin and Hobbes). A série, publicada entre 1985 e 1995, tem legiões de fãs em todo o mundo, inclusive no Brasil. Seu autor, Bill Watterson, muitas vezes coloca o garotinho traquinas e seu tigre de pelúcia em situações típicas da fc, como viagens no tempo, por exemplo. São invariavelmente tiradas excelentes e de um humor finíssimo.
Também com contatos eventuais com a fc, merece ser registrada uma série dos irmãos Gilbert e Jaime Hernandez, com uma turma de garotas muito divertidas que se envolvem em todo tipo de aventuras. Mais conhecida como Love & Rockets ou Locas, a série criada em 1982 não se preocupava muito com a verossimilhança, apenas situava as garotas em algum ambiente exótico, as vezes futurista, outras em meio aos dinossauros e, desse modo, discutia temas ligados ao universo e ao imaginário feminino.
Pouco mais há que se lembrar. O que determina que fazer humor na fc não é apenas um caminho difícil, como sempre é fazer humor de qualidade, mas uma boa oportunidade de desenvolver um modo novo e diferenciado de tratar o gênero. Quem sabe não esteja justamente aí um caminho favorável para uma bem sucedida ficção científica brasileira, que escape dos lugares comuns e modismos importados tão replicados pelos fãs.

Humor nas séries de tv de ficção científica

Na televisão, nem sempre o humor chegou a tanto refinamento quanto no cinema. Tal não é muito próprio da mídia mais popular de todas e, por isso, o que mais se vê nos shows de tv é o humor grosseiro e apelativo. Parafraseando uma máxima empresarial: o humor refinado ri das ideias; o humor comum ri das coisas, e o humor grosseiro ri das pessoas. Com esta régua, o leitor pode montar sua própria escala de qualidade naquilo que vê por aí.
Mas vale destacar alguns seriados que conseguiram apresentar algo mais em matéria de humor na fc.
O exemplo mais conhecido, e que dispensa maiores comentários, é o seriado Perdidos no espaço (Lost in space), que teve três temporadas entre 1965 e 1968, sempre com a presença hilária do desprezível Dr. Smith e sua escada preferida, o Robô "Lata-de-Sardinha", como ele carinhosamente o chamava.
Entre os desenhos animados, o melhor exemplo desde sempre é Os Jetsons (The Jetsons), produzido entre 1962 e 1963 pelos estúdios Hanna-Barbera. Conta as trapalhadas de uma típica família do futuro e os problemas que ela enfrenta diante dos avanços da tecnologia, que nunca são acompanhados por uma proporcional evolução do ser humano, de forma que concluímos que, quanto mais as coisas mudam, mais ficam iguais. Similaridades com a nossa própria vida não são meras coincidências.
Outro seriado clássico é Meu marciano favorito (My favorite martian), comédia de costumes exibida nas tvs americanas entre 1963 e 1965, que usa a presença de um alienígena humanoide entre a sociedade classe média americana para fazer graça com o comportamento dela.
Outro seriado com o mesmo perfil é Alf, o ETeimoso (Alf), produzido entre 1986 e 1990. Neste caso, o alienígena não é humano, mas sim um estranho bicho peludo, último sobrevivente de um planeta que foi destruído pela estupidez de seus próprios habitantes. O seriado teve também uma excelente versão em desenho animado, contando como Alf vivia em seu planeta natal.
Mais um seriado que navegou as mesmas águas foi 3rd rock from the Sun, produzido entre 1996 e 2001, com a presença ilustre e premiada de John Lithgow. Nele, um grupo de alienígenas assume a forma de uma família humana para estudar o comportamento da espécie local. Porém, nem todas as transformações foram bem sucedidas... na verdade, nenhuma delas.
Inédito na tv brasileira, mas possivelmente disponível em canais a cabo e por satélite, o seriado britânico Red Dwarf, produzido entre 1988 e 1993, conta a história do último sobrevivente da Terra viajando pelo que restou da galáxia numa enorme espaçonave, acompanhado de mutantes e alienígenas muito suspeitos. Seu humor advém principalmente da sátira e do pastiche de outros seriados e filmes de fc.
Também da Inglaterra vem a nova série do clássico seriado Doctor Who, cuja primeira temporada foi produzida em 1963. Esta nova série, que estreou em 2005 e ainda está em produção, conta a história do último dos Senhores do Tempo que, por algum motivo misterioso, sente uma atração irresistível pela Terra. A bordo da Tardis, uma poderosa máquina do tempo em forma de cabine telefônica azul ultramar, este Doutor sem nome combate invasões alienígenas e distorções temporais sempre na companhia de uma beldade terrestre que muda de tempos em tempos. Algumas vezes, as aventuras são bastante dramáticas, mas sempre contadas com muito bom humor e repletas de piadas inteligentes que exigem a atenção do expectador.
Outro exemplo recente do humor na fc televisiva é a multipremiada The big bang theory, sitcom focada em um disfuncional grupo de pesquisadores acadêmicos de uma universidade americana e as dificuldades que eles têm em se relacionar entre si e com as pessoas a sua volta. A fc aparece principalmente em citações, uma vez que o gênero é considerado um dos pratos favoritos dos nerds em geral. O seriado estreou em 2007 e é um grande sucesso no mundo todo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Humor no cinema de ficção científica

O humor de ficção científica que chegou às mídias audiovisuais nem sempre foi de igual qualidade ao da literatura, mas algumas obras valem a pena ser lembradas.
No cinema, Apertem os cintos, o piloto sumiu 2 (Airplane II: The sequel, 1982), de David Zucker, aborda o gênero satirizando os filmes-catástrofe em versão espacial. A história conta as situações absurdas de um ônibus espacial de turismo que se acidenta durante uma viagem à Lua. Entre o grande elenco estão atores veteranos como Lloyd Bridges, Peter Graves, Chuck Connors e a participação muito especial de William Shatner, o icônico Capitão Kirk de Star Trek.
S.O.S.: Tem um louco no espaço (Spaceballs, 1987), de Mel Brooks, tira um sarro das modernas sagas de fc, mais exatamente a franquia Star Wars, com muitas citações que fazem a alegria dos fãs, além de ótimas situações de metalinguagem que são a especialidade desse diretor norte-americano.
Outro longa muito interessante é Galaxy quest (1999), que satiriza as séries de tv e o universo dos fãs de fc. Entre os atores, Sigourney Weaver, a eterna Tenente Rippley da franquia Alien, ao lado de um elenco de comediantes de primeira linha em uma produção caprichadíssima, sobre o elenco de atores de uma série de tv que, durante a participação em uma convenção de fãs, é abduzido por alienígenas pacíficos que, depois de assistirem o seriado, acreditam que eles são heróis de verdade e podem salvá-los do ataque de um perigosíssimo vilão intergaláctico.
Também temos a sutileza mordaz de Brazil (1985), de Terry Gillian, que nos apresenta a visão de um futuro absurdo no qual a burocracia tornou a vida uma impossibilidade prática. O título faz referência a canção Aquarela do Brasil que, naquele ambiente opressivo, leva um burocrata inseguro e insatisfeito, a sonhar com um lugar melhor para viver.
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964), de Stanley Kubrick, com a excelente multi-interpretação de Peter Sellers, jogou a primeira pá-de-cal sobre a Guerra Fria. Neste clássico, um problema de comunicação entre um bombardeio americano e a sua base de operações provoca o risco do lançamento de uma bomba nuclear sobre o solo soviético. Em um crescendo de confusão, as duas nações se vêm às voltas com a ameaça cada vez mais concreta de uma guerra nuclear total, enquanto um cientista maluco tece as mais absurdas teorias sobre o fim da humanidade, e em diversos outros pontos do país, a violência explode alimentada pela ridícula paranoia de uma invasão comunista na América.
Uma fc por excelência, que usa o humor limpo e sem apelações, é a série De volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert Zemmekis. Foram ao todo três filmes, sendo que o primeiro é um primor de roteiro, direção, cenografia e interpretação, narrando a história de um adolescente envolvido num experimento revolucionário que o joga trinta anos no passado. Preso num paradoxo temporal – um dos mais interessantes temas da fc –, ele vai aos poucos desaparecendo, pois sua presença no passado desencadeia fatos que não deveriam acontecer, alterando o futuro. Um dos melhores filmes de fc de todos os tempos.
Outro filme no mesmo tema, que vale a pena ser lembrado, é O feitiço do tempo (Groundhog Day, 1993), de Harold Ramis, fantasia urbana que, por envolver uma curiosa teoria sobre o tempo, pode ser classificado como fc. Nele, um insuportável apresentador de televisão, interpretado por Bill Murray, ao fazer a cobertura anual do Dia da Marmota, fica preso nele indefinidamente. Por mais que se esforce, sempre acaba acordando no mesmo dia e passando pelas mesmas coisas novamente. Apenas ele sabe que tudo se repete e, desse modo, vai sendo confrontado pouco a pouco com a sua própria incapacidade como ser humano.
Mais ou menos no mesmo estilo temos O show de Truman (The Truman show, 1998), de Peter Weir, estrelando o famoso comediante Jim Carrey. A história mostra a vida de um homem que, sem saber, vive numa cidade cenográfica, sendo continuamente filmado, desde antes de seu nascimento, para um reality show de grande sucesso. O filme se destaca na filmografia de Carey por ser sutil e delicado, muito diferente do estilo geralmente apelativo e debochado do ator.

sábado, 2 de março de 2013

Humor na literatura de ficção científica

A ficção científica não é muito famosa por seu bom humor. Ao contrário, é um gênero mais alinhado com a futurologia pessimista, o que normalmente não dá muita margem ao riso. Também se costuma enxergar a classe científica como extremamente estóica, e a ficção que adota esse ambiente acaba contaminada também por esse conceito.
De fato, a maioria da fc nem se esforça por ser bem humorada. Ou se dedica a fazer enfadonhos discursos paracientíficos, alertar histericamente para um destino trágico da humanidade, ou ser piegas ao elevar jovens imberbes à situação de salvadores do universo. É claro que, como todos os demais gêneros, essas não são situações únicas. Alguns autores conseguem romper essa previsibilidade e desenvolver trabalhos surpreendentes, que se destacam da mediocridade geral e colocam-se num patamar mais elevado. Obras de teor filosófico, psicológico, épico, perturbadoras, emocionantes, maravilhosas e, porque não, engraçadas.
Na literatura, a fc humorística é rara, mas seus poucos exemplos são trabalhos de qualidade. O autor que mais explorou o filão foi britânico Douglas Adams (1952-2001) em uma série de seis livros iniciada com O Guia do mochileiro das galáxias (The hitchhiker's guide to the galaxy, 1979). Adams criou um universo absolutamente caótico, onde tudo pode acontecer e usa isso em favor do humor. Algumas de suas sacadas nesses livros tornaram-se parte da cultura pop, como o Dia da Toalha (25/05), comemorado no mundo todo por seus leitores.
Mas a verve cômica não é fruto recente na fc. O escritor britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930), mais conhecido por ter criado o detetive Sherlock Holmes, é provavelmente o exemplo pioneiro. No livro O mundo perdido (The lost world), publicado em 1912, Doyle insere um humor requintado na relação entre os personagens ao longo de sua perigosa jornada pela Amazônia em busca de um platô lendário onde ainda viveriam dinossauros. Toda a carga cômica é apoiada no personagem principal, o excêntrico Professor Challenger, que tem modos muito característicos de se relacionar com seus parceiros de viagem. Assim, Doyle aproveita para rir dos ridículos da sociedade científica.
O norte-americano Fredric Brown (1906-1972) já ridicularizava a paranóia americana por invasões em plena Golden Age da fc (anos 1940 e 1950), em seu romance Os marcianos divertem-se (Martians, go home..., 1955), contando a confusa invasão da Terra por alienígenas cínicos e absolutamente insuportáveis. Sendo uma invasão virtual – os marcianos surgiam como imagens holográficas –, os humanos não tinham como reagir ao falatório ininterrupto e a descarga de ofensas que eles adoravam proferir e, muitas vezes, a aparição incômoda acontecia em lugares e momentos nada próprios, colocando todos os humanos em estado de completo desespero.
Outro trabalho festejado entre os leitores e, na minha opinião, o melhor momento do humor na fc, é o romance de Harry Harrison (1925-2012) Bill, o herói galáctico (Bill, the galactic hero, 1965). Harrison monta um ambiente típico de space-opera para depois demolir todos os seus elementos, um por um. Bill é um jovem sem nenhum futuro, numa colônia periférica do império galáctico, que é enganado pelo discurso de um militar cuja função é recrutar novos soldados. É claro que tudo o que o fulano diz é mentira mas, depois de alistado, não tem jeito: Bill é embarcado numa nave e, a partir daí, nada mais dá certo para o infeliz. Logo de saída, Bill perde o braço esquerdo num ataque à sua nave e tem implantado no lugar dele o braço direito de um de seus falecidos colegas, um negro rebelde e falador. Além de ficar com dois braços direitos, tem de enfrentar a rebeldia do braço implantado, que nem sempre concorda com as ordens que recebe. Isso é só um aperitivo da confusão que se torna a vida de Bill, sempre envolvido em situações de perigo por conta da burocracia imperial, da idiotice de seus companheiros ou de sua própria estupidez.
Mais sutil é o humor do excelente Damon Knight (1922-2002) em O outro pé (The other foot, 1966). Knight foi um autor da geração New Wave da fc (anos 1960 e 1970). Essa história, um dos poucos trabalhos do autor publicados em português, conta da situação inusitada de um homem que, por um capricho da natureza, tem sua consciência trocada com a de um alienígena. Preso num corpo estranho, o homem vai tentar reverter a situação, mas terá de enfrentar os instintos de seu novo corpo, que vão dominando-o pouco a pouco, enquanto o mesmo ocorre com seu antigo corpo, que agora tem a mente do alienígena.
A sutileza máxima do humor as vezes negro, outras apenas ácido, pode ser encontrada permeando toda a obra de Kurt Vonnegut Jr. (1922-2007), um autor de fc que rejeitava o rótulo. Vonnegut foi um dos poucos autores de fc bem aceitos no ambiente mainstream (a literatura não-fc), justamente porque sua ficção é muito diferente do usual. Seu romance mais conhecido é Matadouro 5 (Slaughterhouse-five, 1969), uma história meio autobiográfica que conta o horror do bombardeio a bucólica cidade de Dresden pelos aliados durante a II Guerra Mundial, misturado aos delírios do personagem que acredita ter sido abduzido e viver uma existência paralela num zoológico alienígena, acompanhado por uma famosa atriz de cinema.
Outro autor que gostava de uma boa piada em seus textos era Isaac Asimov (1920-1992). Russo radicado nos EUA, Asimov é um dos pioneiros do gênero e escreveu centenas de livros de ficção e divulgação científica. Mestre em apresentar conceitos científicos de forma agradável e facilmente inteligível por leigos, Asimov é o autor de fc preferido dos brasileiros. Seus romances não eram especificamente cômicos, mas o autor reconhecia a enormidade do próprio ego e constantemente fazia piadas com isso, colocando em muitos de seus textos um alter-ego para ser ridicularizado pelos outros personagens. Esse humor sutil, inteligente e bem comportado está presente em todos os seus textos, não é preciso destacar nenhum em especial, pois Asimov foi um escritor tão regular que qualquer deles apresenta essa característica.
Mais um autor de destaque no gênero é o norte-americano Jack Vance, nascido em 1916 e o único desta relação que ainda está vivo. Vance escreveu uma comédia cujo título já ri de si mesma: Ópera interplanetária (Space opera, 1965). Tudo faz crer que se trata de uma space-opera, subgênero da fc que costumeiramente utiliza ambientes espaciais para contar aventuras de guerra e heroísmo, como o filme Guerra nas Estrelas, por exemplo, mas não é nada disso. Vance conta mesmo a história de um corpo de ópera, com coral e orquestra completos, que viaja pelo universo para levar a refinada arte terrestre aos seres incultos de outros mundos. Mas acontece que os alienígenas não pensam como nós e as apresentações da tal ópera nunca têm o resultado esperado.
No Brasil, sendo a fc um gênero pouco publicado, há ainda menos exemplos de humor. Contudo, o pouco que há, é excelente. O fruto maduro da civilização (1993) é uma coletânea de contos e o único livro de fc de Ivan Carlos Regina, autor paulista de uma ironia refinada que se pode conferir na leitura de "A derradeira publicidade do hebefrênico Alfredo", "O tempo é um carrasco impiedoso" e outros textos que, além de engraçadíssimos, são parte do que de melhor já se escreveu no gênero por estas paragens.