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sexta-feira, 23 de junho de 2023

Resenha do Almanaque: Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky

Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky. 144 páginas. Porto Alegre: Não Editora, 2008.

Não é comum que um autor brasileiro se arrisque a escrever faroeste, e é ainda mais raro que o misture com horror pois a chance de sair algo muito errado é grande. Ainda mais arriscado por ser o primeiro romance de Antônio Xerxenesky, escritor portoalegrense que estreou  com a coletânea de contos Entre (Editora Movimento, 2006). Mas o potencial para a ficção fantástica era promissora: o autor já havia participado da antologia Ficção de polpa volume 1 (Editora Fósforo, 2007) com o bom conto “O desvio”, no qual um casal viaja num automóvel em alta velocidade assustando-se mutuamente.
Areia nos dentes conta a história de duas famílias rivais – os Ramírez e os Marlowes – que se enfrentam cotidianamente no pequeno vilarejo de Mavrak, (corruptela de Maverick) perdido no deserto norte-americano. Os motivos da rixa perderam-se no tempo, mas os sobreviventes continuam a se odiar com todas as forças. O jovem Martín, por ordem de Miguel Ramírez, seu pai, invade sorrateiramente a residência dos Marlowes na intenção de descobrir o que seus desafetos estão fazendo em segredo no porão, mas um tiro perdido o assusta e ele foge sem descobrir nada. No dia seguinte, Martín é encontrado morto e ninguém sabe quem foi o assassino, embora as suspeitas do velho Miguel recaiam, obviamente, nos odiados Marlowes. Ele então incumbe Juan, seu filho mais novo, a vingar o irmão assassinado mas, antes que isso aconteça, um delegado chega a Mavrak para apurar os fatos, aplicar a lei e impedir um banho de sangue naquele lugar esquecido.
Juan Ramírez estudou na cidade grande e não é exatamente um pistoleiro, e a pressão de seu pai parece não ser suficiente para convencê-lo a agir. O que vai motivá-lo é a desconfiança em relação a preferência que sua namorada secreta, a linda Vienna Marlowe, parece demonstrar por Samuel, um de seus próprios primos. Sem coragem para enfrentar Samuel de arma em punho, ele busca pela ajuda de um velho xamã que usa um poderoso feitiço herdado dos antigos astecas para levantar os mortos dos túmulos. No clímax da história, finalmente veremos o duelo entre os jovens Ramírez e Marlowe e o destino sanguinolento de Mavrak.
Xerxenesky, entretanto, não conta apenas essa história; intercala a narrativa épica – que, em alguns momentos, parece ter sido inspirada nos mais escandalosos westerns spaguetti já filmados – com o esforço do solitário Juan Ramírez que, na cidade do México dos dias de hoje, tenta registrar um memorial de sua família, especialmente do antepassado de quem herdou o nome. A princípio datilografando numa velha máquina de escrever, depois num computador que não quer funcionar direito, o Juan Ramírez moderno constrói uma história que é muito mais invenção do que realidade.
Articulando o trabalho de memorialista improvisado com a sua narrativa fantástica, o romance ganha aspectos metalinguísticos interessantes, com o que colaboram alguns experimentos concretistas que ilustram a diagramação do volume. A narrativa é ágil e divertida, ainda que nada confiável: o faroeste de Xerxenesky/Ramírez soa tão falso quanto as fachadas cenográficas dos filmes que o inspiram.
Como ficção, o trabalho de Xerxenesky não tem muita profundidade. A história é pueril, de um clima falso e afetado. Apesar da recheada de ação, não emociona e não transmite nem o maravilhamento que se espera de um épico nem o estranhamento que se espera de uma história de horror. Mas, ainda assim, Areia nos dentes é uma jogada de mestre, pois não há como acusar Xerxenesky de pecar nesse aspecto. Afinal, é Juan Ramírez o verdadeiro autor do romance e ele não é um escritor, além de estar sempre bêbado e empenhado em tornar a história de sua família em algo espetacular, mesmo que para isso tenha que mentir um pouquinho.
O maior mérito de Areia nos dentes está no experimentalismo gráfico. Por exemplo, numa certa altura o autor usa uma diagramação de roteiro de teatro, com fontes diferenciadas do corpo do texto, como se fosse um diálogo ensaiado. Noutra, contrapõe duas colunas simultâneas, sendo que na primeira a ação é praticada por Juan Ramírez e na segunda, por Samuel Marlowe. E quando o computador dá defeito, o texto transforma-se em sinais ilegíveis. Apesar de não contribuírem em nada para a construção do clima de ficção – ao contrário, prejudicam-no enormemente – estes experimentos gráficos são muito divertidos.
Dessa forma, Areia nos dentes, ainda que seja um faroeste de horror rasgado com tudo o que tem direito, acaba não sendo nem faroeste nem ficção de horror, mas uma peça de experimentalismo que pouco tem a ver com a literatura fantástica. Mesmo assim, não decepciona e vale a pena ser lido.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Resenha: Aventura!

A coleção Ficção de Polpa da Não Editora de Porto Alegre, formada por antologias de contos de gênero, tem escolhido um tema específico para cada edição. Os primeiros quatro números atenderam os gêneros terror, ficção científica, fantasia e crime. O quinto é Ficção de Polpa: Aventura!, publicado ainda em 2012 e que me chegou às mãos pela gentileza de Simone Saueressig, autora presente no volume. Contudo, isso faz com que a antologia não tenha um tema específico, uma vez que a aventura pode estar no bojo de qualquer história, independente do gênero. E isso pode ser observado no amplo espectro de gêneros que os autores experimentaram na edição, passando por histórias de crime, ficção científica, fantasia, piratas, guerra e selva. São sete histórias ao todo, cinco delas de autores brasileiros e duas de estrangeiros.
Após uma ligeira introdução, em que o editor Samir Machado de Machado defende uma literatura de emoções fortes que remetam à experiência do desbravamento de espaços desconhecidos, podemos ler "Por favor, não toque nos dinossauros", do gaúcho Bruno Matos, conto de ficção científica no qual um paleontólogo brasileiro é convidado a participar de uma iniciativa científica numa ilha secreta, não por acaso o mesmo lugar em que foi filmado o longa metragem Jurassic Park, apresentado ao mundo como se ficção fosse, mas onde dinossauros vivem de verdade. A história tem uma longa introdução em que o protagonista é cooptado para aceitar o trabalho mas, quando a ação se desloca para a ilha, embala um ritmo mais veloz e fantasioso.
O segundo conto é "Melhor servido frio", de Carlos Orsi, autor paulista conhecido entre os leitores de ficção científica e terror que, nesta história, aproveita a experiência que teve ao participar de uma excursão à Antártida para contar sobre um crime de vingança motivado por um triângulo amoroso e pela competitividade profissional entre pesquisadores residentes naquele continente.
A terceira história é "A igreja submersa", de Simone Saueressig, experiente autora gaúcha muito ativa no ambiente da fc&f. Ela também conta a história de um crime, toda ela passada no campanário de uma velha igreja de um vilarejo inundado pelas águas de uma barragem. Quando chega ao local um fotógrafo inspirado pela memória de sua falecida esposa – uma historiadora que defendia o valor das pinturas da catedral –, é rendido por um grupo de criminosos que pretendem recuperar um antigo tesouro submerso nas profundezas do templo arruinado.
A seguir temos "A joia de Évora", do norte-americano radicado em Porto Alegre Christopher Kastensmidt, fantasia passada no período colonial brasileiro. Conta sobre dois homens manipulados por uma mulher que, juntos, resgatam um antigo tesouro pirata de uma caverna, mas um deles é traído e atirado em um precipício. Contudo, o homem não morre da queda e, enquanto agoniza de fome e sede na escuridão, é encontrado por um índio velho que trata dele e, aos poucos, restaura sua saúde, não antes de obrigá-lo a perdoar seus algozes. Mas ele ganha mais que sua integridade no processo. Senhor de habilidades sobrenaturais, o homem vai atrás de seus antigos comparsas para retomar uma parte muito especial do tesouro.
"Virtude selvagem", do gaúcho Julio Ricardo da Rosa, inicia como uma história de piratas, com os marujos sendo severamente exigidos pelo seu impiedoso capitão para transportar e enterrar um grande tesouro em meio à floresta tropical. Feito o serviço, o capitão decide executar seus homens para manter o segredo a salvo, mas um deles reage, mata o corsário e foge pela floresta desconhecida, tentando retornar ao seu amado oceano e reconstruir sua vida.
A melhor história do volume é "Seis quilômetros", do também gaúcho Carlos André Moreira, tensa e surpreendente narrativa sobre os pracinhas brasileiros na Itália, numa missão perigosa já no final da guerra, depois da tomada de Monte Castelo, quando os alemães preparavam uma contra ofensiva que poderia mudar os rumos da guerra. As descrições são vivazes e convincentes, recriando com competência o clima limítrofe dos combates daquele conflito.
Fechando a antologia, temos "O Aranha", do norte americano Arthur Olney Friel (1855-1959), autor pulp que desenvolveu uma obra vinculada à vida selvagem. A história conta sobre os planos sinistros de um alemão, chamado de Aranha por causa de seu comportamento semelhante ao referido animal. Acostumado a obter o que quer a qualquer custo, Aranha é um homem violento, que acabou na selva amazônica fugindo de crimes anteriores, e sua índole perversa não tarda a emergir. Perseguido por seus ex-colegas de trabalho, Aranha vai lançar mão de toda sua maligna habilidade para obter o que ainda deseja.
O volume também apresenta um making off da capa, que tem arte de Jader Corrêa e Matias Strebb, além de uma seleta de antigos "reclames" de jornal entremeados aos contos que, somado à apresentação gráfica que simula o desgaste das páginas, aos textos sempre apresentados em duas colunas e às ilustrações que abrem cada conto – por Jéssica Albuquerque, Rodjer Goulart, Romano Corá, Elvis Moura, Fernando Gil e do próprio editor –, simula um divertido clima pulp que só não é mais autêntico porque a literatura brasileira nunca o teve de fato.
Ficção de Polpa: Aventura! é uma leitura agradável e interessante, indicada para ventilar a mente que está cansada de mesmices.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Cadernos de Não Ficção


Há alguns anos, não era difícil estar antenado em TUDO o que acontecia no ramo da FC&F no Brasil. Como não rolava quase nada, era só acompanhar um ou dois fanzines e se ficava sabendo tudo. Livros, então, era uma baba. Saiam, se muito, uns dez títulos num ano, dava para comprar e ler tudo com sobra.
Mas nos últimos anos o fandom cresceu tanto e em tantas direções - graças à Deus - que volta e meia, mesmo ficando com a antena ligada, escapam algumas coisas. No trabalho de listas do Anuário, por exemplo, sempre descubro títulos que ficaram de fora, às vezes mais de um ano depois.
Portanto, não me condeno por não ter percebido antes a ótima revista literária que a Não Editora está distribuindo através de seu site. Trata-se de Cadernos de Não Ficção, revista virtual muito bem produzida, editada pelo escritor Antonio Xerxenesky (Areia nos dentes, 2008, Não Editora), com textos agradáveis e interessantes sobre literatura. Não é um relise da editora, são artigos de interesse sobre vários autores e gêneros, incluindo FC&F, que é um dos ramos que a editora investe.

O número 1, publicado em 2008, é amplamente dedicado à obra do escritor suicida David Foster Wallace, com cinco textos assinados por articulistas diversos. Mas há textos sobre Cormac McCarthy, James Welch, e outros assuntos que vão interessar tanto a quem gosta de ler quanto de escrever e publicar.

O número 2, de 2009, segue a mesma toada, desta vez com a seção especial de cinco artigos dedicada à poesia contemporânea que até eu, que não sou ligado no assunto, li com muito prazer. O restante do conteúdo traz um ensaio muito bem escrito sobre China Miélville, assinado pelo escritor e tradutor Fábio Fernandes (Os dias da peste, 2009, Tarja), um artigo legal sobre oficinas literárias e narrativa, e um divertido depoimento de Samir Machado de Machado - o editor da Não - sobre o por quê dele não gostar dos e-books.
Enfim trata-se de uma publicação primorosa que vale a pena conhecer. As dua edições podem ser baixadas aqui.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Paradigmas e Ficção de Polpa


Na sexta-feira da semana passada estive reunido com os meus editores, Richard Diegues e Gianpaolo Celli, proprietários da Tarja Editorial, e com o meu colega Marcello Simão Branco, para acertarmos os detalhes da publicação da edição 2008 do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, que está em progresso, com possibilidades fortes de ser lançada durante a FantastiCon, em julho, na Biblioteca Viriato Correa, em São Paulo. A parte redacional foi concluída e revisada, a diagramação está pronta e estão sendo realizados apenas alguns ajustes técnicos para a a saída de gráfica. Em algumas semanas teremos uma prova da nova capa, que deve seguir o padrão da edição de 2007, porém com uma nova imagem.
Desta vez o Anuário vem com as resenhas dos livros Amor vampiro, Areia nos dentes, O caminho do poço das lágrimas, Fábulas do tempo e da eternidade, FCdoB – Ficção Científica Brasileira Panorama 2006/2007, Fome, O par: uma novela amazônica, A pulp fiction de Guimarães Rosa, Coisas frágeis, Nevasca, Tempo fechado, Esfinge e O homem que viu o disco voador, uma longa entrevista com o escritor André Vianco e um texto de Ramiro Giroldo sobre a obra de André Carneiro, além das listas de lançamentos, análises de mercado e todas as outras coisas que o leitor que acompanha o Anuário desde a sua primeira edição em 2005 já está acostumado.

No mesmo dia, aproveitei para prestigiar o lançamento do volume 2 da coleção de antologias Paradigmas organizada pelos editores da Tarja, com um apanhado de textos de ficção fantástica de diversos escritores brasileiros novos. Embora não tenha permanecido por muito tempo, adquiri meu exemplar, aproveitei o preço camarada (apenas R$13,00!) para comprar também o volume 1 que eu ainda não tinha, e cumprimentei alguns dos autores presentes, entre eles o meu amigo Ataíde Tartari, que eu não via há um bom tempo e não me canso de dizer que é um dos melhores escritores de FC&F do nosso meio. Pena que ele não exercite sua ficção com mais frequência, pois é um artista de mão cheia. Mas estou sendo um tanto injusto, uma vez que Tartari tem aparecido com alguma regularidade em antologias mainstream e está construindo uma reputação muito favorável.
Os volumes da coleção Paradigmas têm aparência gráfica inspiradora, que reporta aos experimentalismos de Dave McKean, cheia de detalhezinhos interessantes que atraem o olhar. Meus parabéns aos artistas que viabilizaram a publicação destes livros que, ombreados à coleção Ficção de Polpa – organizado por Samir Machado de Machado para a Não Editora –, sinalizam um renascimento dos periódicos de autores nacionais, agora num formato semiprofissonal que dá gosto ver. Ficção de Polpa também está num preço muito favorável, de forma que dá para comprar todos os volumes sem pesar no orçamento.

A propósito, o volume 3 de Ficção de Polpa, só com contos de fantasia, está à venda na Livraria Cultura da Avenida Paulista, onde também se podem encontrar os volume 1 – dedicado ao horror – e o volume 2 – dedicado à ficção científica. Com certeza, não temos do que reclamar em relação a o quê ler neste primeiro semestre de 2009.