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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Lançamento: O Garoto do Colorado, Stephen King

"Em uma ilha na costa do Maine, um homem é encontrado morto por um casal de estudantes. Agora, anos depois do ocorrido, os jornalistas locais Dave e Vince reconstroem o caso ao lado de Stephanie, estagiária do Weekly Islander, e apuram o que pode ter acontecido com o indivíduo que ficou conhecido como o Garoto do Colorado. Contudo, quanto mais eles analisam os desdobramentos e as circunstâncias desconcertantes da morte, menos entendem a conjunção que levou ao fim do sujeito. Foi um crime de caso pensado? Uma fatalidade? Ou há algo mais? Reunindo as teorias dos jornalistas e as de Stephanie, o trio revive cada detalhe da primavera de 1980, tecendo possíveis desfechos que envolvem as pontas soltas do incidente."
Este é o texto de apresentação da novela de terror e mistério O Garoto do Colorado (The Colorado Kid), originalmente publicada em 2005, de autoria do escritor americano Stephen King, que não precisa de apresentações, sendo um dos maiores bestsellers do mercado livreiro no mundo inteiro.
A novela, lançada no Brasil no último dia 5 de agosto, tem 144 páginas, tradução de Regiane Winarski e é uma publicação da editora Companhia das Letras pelo selo Suma. 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Lançamento: Mais sombrio, Stephen King

Mais sombrio
é o título da nova coletânea de contos do mestre do horror Stephen King, um lançamento do selo Suma da Editora Companhia das Letras. 
Diz o texto de divulgação: "Em Mais sombrio, o autor mergulha nas profundezas obscuras da vida, conduzindo o leitor por doze contos inesquecíveis, cinco deles inéditos, incluindo "Cascavéis", sequência do romance Cujo."
King é um exímio contador de histórias, com a rara habilidade de ser tão impactante tanto em seus romances como na produção de ficção curta. Suas coletâneas O bazar dos sonhos ruins e Escuridão total sem estrelas, resenhados neste blogue, mostram um escritor no auge das suas criatidade e competência técnica. 
Mais sombrio tem 528 páginas e tradução de Regiane Winarski.
Altamente recomendado.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Teatro de horror em dose dupla

A temporada de espetáculos teatrais de 2024 começou com duas estreias sensacionais para quem gosta de boas histórias de horror.
Para sentir medo de verdade, está em cartaz Misery, peça inspirada no romance de 1987 do escritor americano Stephen King, considerado o mestre do horror moderno. Misery já teve montagens anteriores para o teatro brasileiro e também um filme de cinema em 1990, que valeu o Oscar para a atriz Kathy Bates. 
Diz a sinopse: "Após sofrer um grave acidente de carro, o famoso escritor Paul Sheldon, conhecido pela série de best-seller sobre a personagem Misery Chastain, é resgatado pela enfermeira Annie Wilkes. Autointitulada a principal fã do autor, Annie se revolta com o desfecho trágico da personagem Misery descoberto em um manuscrito de Sheldon e o submete a uma série de torturas e ameaças."
A montagem traz no elenco Marcello Airoldi, Mel Lisboa e Alexandre Galindo. O roteiro original é de William Goldman, adaptado por Claudia Souto e Wendell Bendelack e direção de Eric Lenate. 
Em exibição no TUCA (Teatro da PUC-SP), que fica na Rua Monte Alegre, 1024, em São Paulo. A temporada vai até o dia 31 de março, com sessões às sexta às 20h30, sábados às 20h, e domingos às 17h.
A outra peça, esta bem menos assustadora, é a comédia musical O jovem Frankenstein, adaptação do espetáculo da Broadway inspirado no ótimo longa metragem homônimo de 1974 dirigido por Mel Brooks que, por sua vez, foi inspirado na obra seminal de 1818 da escritora britânica Mary Shelley, sendo considerado uma das melhores adaptações já realizadas. 
A peça "conta a história do Dr. Frederick, neurocirurgião que dá aulas em uma Faculdade de Medicina sobre o sistema nervoso central. Ao descobrir que recebeu de herança de seu avô, Victor Frankenstein, um castelo na Transilvânia, o médico viaja até lá e conhece o livro deixado pelo parente ilustre sobre a experiência em reanimar mortos. Ele resolve, então, fazer uma experiência e reativar a teoria do avô, mas as coisas não saem muito como o esperado."
A montagem brasileira também traz nomes conhecidos no elenco, como Marcelo Serrado (Frederick Frankenstein), Dani Calabresa (Elizabeth Benning), Totia Meireles (Frau Blücher), Malu Rodrigues (Inga), Fernando Caruso (Igor), Bel Kutner (Inspetora Hans Kemp), Claudio Galvan (o ermitão) e Hamilton Dias (o monstro), com traduão de Claudio Botelho e direção de Charles Möeller. 
O espetáculo está em exibição no Teatro Bradesco (R. Palestra Itália, 500, São Paulo), até 10 de março, com sessões de quinta a domingo Às 16 e às 21 horas.

domingo, 13 de agosto de 2023

Resenha do Almanaque: Celular, Stephen King

Celular (Cell), Stephen King. 398 páginas. Tradução de Fabiano Morais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Romance de horror e ficção científica do festejado escritor norte-americano Stephen King, autor de best sellers como O iluminado (The shining), Carrie (Carrie), A dança da morte (The stand), Christine (Christine), entre outros.
Em Celular, King volta a um tema que ele mesmo já explorou em outras histórias: o do cidadão americano comum diante do fim do mundo como o conhecemos. Desta vez, ele é Clayton Riddell, um jovem artista que acaba de assinar o seu primeiro contrato com uma grande editora de histórias em quadrinhos de Boston. Ao sair da editora, por volta da quinze horas do dia 1.o de outubro, diante de um prosaico quiosque de sorvetes, testemunha um surto coletivo de loucura da população em geral. As pessoas começam a se engalfinhar em lutas sangrentas e mortais, automóveis fora de controle atropelam pedestres e invadem lojas, causando grande destruição, pessoas em pânico correm pelas ruas, perseguidas por outras que gritam sons desarticulados.
Um desconhecido ataca Clayton com um cutelo de açougueiro, mas ele é salvo pelo providencial intervenção de Thomas McCourt, um homem baixinho, de bigotes, e com um ar um tanto afetado, mas que não estava louco. Juntos, eles sobrevivem às primeiras horas de caos escondidos num bar, onde encontram outras pessoas igualmente apavoradas e em estado de choque, como a jovem Alice Maxwell, que perdeu a mãe para a loucura. Do lado de fora, a matança continua e, em algum momento, acaba a energia elétrica, assinalando o fim da civilização humana na Terra.
Clay está muito longe de sua casa, em Kent Pond, e preocupa-se com sua esposa Sharon e seu filho Johnny, de doze anos, que lá ficaram enquanto ele empreendia a viagem à Boston. Durante a noite, as coisa se acalmam e, uma vez que Tom mora nos arredores da Boston, Clay e Alice decidem que é uma boa ideia acompanhá-lo até lá. Quando saem da cidade, percebem que boa parte dela arde em chamas.
Eles passam o restante da noite na casa em que Tom morava apenas com seu gato, sem maiores surpresas. Especulando sobre as causas do fenômeno, chegam a conclusão que pode ter sido ocasionado por algum tipo de pulso eletrônico distribuído pelos celulares, e passam a evitar todo o tipo de aparelhos, incluindo rádios e televisores, que também poderiam distribuir o pulso. Sem condição de se comunicar, o único modo de Tom ter notícias da família é indo até Kent Pond. Enquanto se preparam para a longa expedição, observam os enlouquecidos, aos quais chamam de "fonáticos". Percebem que eles demonstram um padrão comportamental: desaparecem durante a noite, mas são muito ativos durante o dia, circulando como zumbis pelas ruas, em busca de alguma coisa que nem eles mesmos parecem saber o quê. A princípio, atacam-se mutuamente, mas esse comportamento aos poucos começa a desaparecer. Os fonáticos também não demonstram interesse em entrar nas casas, de forma que o grupo decide viajar durante a noite, recolhendo-se em algum abrigo durante o dia. Com armas de fogo obtidos numa casa abandonada, partem rumo a Kent Pond.
Durante as longas semanas seguintes, os três companheiros encontram ao longo das estradas dos Estados Unidos um cenários de completo caos e decadência. Cidades abandonadas, muitas destruídas, milhares de carros acidentados com os corpos dos motoristas ainda dentro deles, muitas vezes semi-devorados, e cadáveres insepultos espalhados por toda parte. Os fonáticos, cada vez mais deteriorados, parecem não ter consciência de sua situação. Imundos, alguns com ferimentos gravíssimos, seguem sua rotina sem sentido. Aos poucos os peregrinos percebem que eles estão se organizando em grandes grupos e que parecem comunicar-se telepaticamente.
Nas ruínas de uma escola, Clay, Tom e Alice encontram Jordan, um jovem gênio da eletrônica que sobrevive ali junto ao Sr. Charles Ardai, velho professor e diretor interino da outrora pujante Academia Gaiten. Os três os ajudam a realizar um grande ataque a uma concentração de fonáticos num arruinado campo de futebol. A matança é tão horrenda que motiva o líder dos fonáticos, um negro tão ferido que eles o chamam de Homem Escangalhado, a dedicar atenção especial ao grupo. Fica claro que os fonáticos não estão apenas organizados, mas estabeleceram uma nova ordem social no mundo, incompatível com a existência dos não-fonáticos. A partir do primeiro encontro do Homem Escangalhado, que obriga o velho Charles a suicidar-se controlando-lhe os pensamentos, os quatro sobreviventes prosseguem o caminho para Kent Pond, com as esperanças de Clay cada vez mais reduzidas de encontrar sua esposa e filho com vida.
Celular está dividido em nove episódios, separados conforme a narrativa salta de um nível para outro: "O pulso", "Malden", "Academia Gaiten", "As rosas murcharam, o jardim morreu", "Kent Pond", "Bingo do telefone", "Worm", "Kashwak" e "Salvar no sistema".
É interessante notar que, ao contrário de outros trabalhos, King não deixa para mostrar as cenas de horror mais pesadas no final do livro: ele as coloca logo de cara, a partir dos primeiros parágrafos, nos momentos iniciais da loucura que se abate sobre a civilização. A tensão escatológica sobrenatural mantém-se por todo o primeiro episódio, que logo deixa de ser uma história de horror para se tornar uma ficção pós-apocalíptica na linha de Eu sou a lenda (I'm a legend) de Richard Matheson, associado a A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), de George Romero, autores aos quais King dedicou o romance.
Mas King vai ainda mais longe pois, além de ser um bom contador de histórias com ótimas referências, é um grande criador de personagens, provavelmente sua melhor qualidade como escritor. Cada uma das personagens das suas histórias – e Celular não é exceção – é uma confidente do leitor, tão realista quanto pode ser uma personagem de ficção. Desse modo, seus dramas parecem mais vivos e agudos, suas decisões mais dolorosas, suas experiências mais traumáticas. A certa altura, o leitor começa a se perguntar o que ele faria no lugar daquela personagem e, geralmente, as opções não são muito animadoras: tornamo-nos seus cúmplices, o que faz as questões morais envolvidas ficarem muito mais contundentes. O romance, originalmente lançado em 2006 nos EUA, já recebeu o interesse da indústria cinematográfica, mas não espere pelo filme: o livro é suficientemente bom por si só.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Para ler Stephen King... de graça

"Laurie" é um conto inédito de Stephen King que foi disponibilizado para leitura gratuita na internet, como aperitivo para o lançamento de Outsider, novo romance do mestre do horror que será publicado brevemente no selo Suma da Companhia das Letras. O conto foi disponibilizado pelo próprio autor nos EUA e foi traduzido para o português por Regiane Winarski. Para acessar o texto em pdf basta clicar aqui.
E, se não for o bastante, a degustação de Outsider também está disponível, aqui.
Aproveite!

domingo, 5 de novembro de 2017

Resenha: O bazar dos sonhos ruins

O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Conexão Literatura 11

Está circulando o número 11 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição de 43 páginas destaca o mestre do horror Stephen King, com artigos sobre autor e resenhas de alguns de seus livros. Em matéria de ficção, contos de Ademir Pascale, Misa Ferreira, Míriam Santiago, Dione Souto Rosa e Ricardo de Lohem. As escritoras Valentine Cirano, Marisa Rezende e Adriana Rodrigues são entrevistadas, bem como o artista Leandro Liporage, que produz incríveis miniaturas de escritores, músicos e personagens do cinema, quadrinhos e videogames.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. As edições anteriores também estão disponíveis.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!

sexta-feira, 2 de março de 2012

A luta continua

Concluída Traição, terceiro arco da versão em quadrinhos de A torre negra, cultuado romance dark fantasy de Stephen King, a editora Panini distribuiu às bancas o primeiro número do novo arco: A queda de Gilead (The fall of Gilead).
Com roteiro de Peter David e desenhos de Richard Isanove, esta nova série em seis episódios dá continuidade à saga da juventude do pistoleiro Roland Deschain no decadente Mundo Médio.
Diz o relise: "Se as coisas já não iam nada bem no Mundo Médio, acabam de piorar. Com a mente dominada pela esfera mística conhecida como Toranja de Merlim, o jovem pistoleiro Roland Deschain assassinou a própria mãe, Gabrielle, desencadeando uma crise sem precedentes e abrindo as portas para a grande investida de John Farson, o Homem Bom".
Ainda é possível encontrar nas bancas a edição anterior, o especial O feiticeiro (The sorcerer), prelúdio  dedicado exclusivamente a Marten Broadcloak, o nêmesis de Rolland.
Ambas as edições tem 36 páginas em cores e custam R$ 4,99 cada.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Torre Negra - Até aqui tudo bem


Acabei de ler o terceiro volume da heptalogia de Stephen King, subtitulado As terras devastadas (The waste lands). King não nega, pelo contrário, afirma peremptoriamente que se inspirou em O senhor dos aneis para desenvolver sua obra prima. Também não cansa de citar o poema “Childe Roland to the Dark Tower came”, de Robert Browning, como a base de toda a história.
No primeiro volume, O pistoleiro (The gunslinger), somos apresentados ao Mundo Médio, mistura de medievalismo, faroeste e pós-apocalipse, onde Roland Deschain, um pistoleiro juramentado do extinto baronato de Gilead, persegue o misterioso Walter, o homem de preto, através de um deserto interminável. Ele pretende obrigar Walter a lhe revelar como chegar à mítica Torre Negra, onde Roland acredita poder recolocar seu mundo nos eixos.
Lá pelas tantas, Roland encontra um garoto meio morto, Jake Chambers, que diz ter sido atropelado em Nova York e depois aparecido nesse lugar. Roland e Jake seguem juntos na pista do estranho homem que vai adiante, entram por um metrô em ruínas repleto de mutantes perigosos em direção ao confronto final.
No segundo volume, A escolha dos três (The drawing of the three), Roland está novamente sozinho. Ele chega a uma praia dessa terra moribunda e ali é vítimado por uma espécie de crustáceo carnívoro, que lhe devora parte da mão direita, causando uma infecção mortal. Ferido e febril, o pistoleiro caminha pela orla, onde encontra portas que levam a outras realidades. A primeira o leva para o interior da mente de Eddie Dean, um viciado em heroína que está prestes a ser capturado pela polícia. A presença de espírito de Roland salva Dean de vários problemas e, no final, acaba por levá-lo também para seu mundo.
Ambos seguem pela praia até uma segunda porta, que desta vez leva Roland a mente de Odetta Holmes, uma negra rica, paraplégica e esquizofrênica. Cada vez mais doente e fraco, Roland também resgata Odetta para sua realidade, mas ainda há uma terceira porta, que vai colocá-lo na mente do covarde assassino Jack Mort, cujas ações se desdobram para o passado e para o futuro dos escolhidos... mas, afinal quem é o terceiro escolhido? E escolhido para quê?
Estas perguntas começam a ser respondidas em As terras devastadas.
Algo muito estranho aconteceu com Roland quando esteve na mente de Jack. Ainda que curado da dura infecção que o acometeu ao longo do volume anterior, sua intervenção na pele do assassino impediu que Jake, o menino do primeiro livro, fosse atropelado. Dessa forma, agora Roland tem a memória de dois passados: um em que Jake o acompanhou no deserto, e outra em que ele caminhou sozinho. E isso o está enlouquecendo. Eddie e Odetta, agora chamada Susannah, não sabem o que fazer, mas Eddie tem sonhos estranhos com a Torre Negra que parecem algo premonitórios. Em outra linha narrativa, o agora salvo Jake também está com problemas. Sua mente está confusa e ele sente que deve ir embora dali, voltar para um lugar de onde ele nunca devia ter saído. Ao longo da primeira metade do volume, vamos ver como Roland e Jack vão recuperar suas sanidades.
A segunda metade do romance leva Roland, Eddie, Susannah, Jake e Oi, uma espécie de cão falante que adotou o grupo como seu bando, à cidade de Lud, uma monstruosa ruína ainda habitada por homens em uma guerra sem fim e sem sentido. Lá, o grupo pretende pegar uma carona com Blaine, um monotrilho supersônico com inteligência artificial que é uma das maravilhas remanescente do mítico tempo dos Grandes Antigos. Ele é provavelmente o único que pode levá-los para mais perto da Torre Negra. Porém, Blaine não é um cara muito legal...
Dessa forma, vemos que a saga de Roland é uma salada mista de gêneros. O primeiro volume é uma dark fantasy mesclada com faroeste. O segundo uma fantasia urbana, bem mais aproximada ao tipo de horror que Stephen King costuma contar. A primeira parte de As terras devastadas volta a ser uma dark fantasy pastoral na linha narrativa do Mundo Médio, mas continua sendo uma fantasia urbana na linha narrativa de Jake, em Nova York. E a segunda parte é claramente uma ficção científica pós-apocalíptica, com toda a tecnologia que tem direito, além de ser o trecho mais acelerado e emocionante de toda a história até o momento, com revelações vertiginosas sobre a natureza do Mundo Médio. Este terceiro volume termina algo inconclusivo, e o próprio King faz comentários a esse respeito no posfácio.
O quarto volume, Mago e vidro (Wizard and glass), já está em minhas mãos. Estou lendo a saga ao ritmo de um volume por ano, mas acho que não vou conseguir esperar para ler este, que é o mais volumoso dos quatro primeiros livros. Diz, quem já leu os sete volumes, que um deles é um tanto acessório e tenho impressão que se trata exatamente deste quarto volume, que conta o passado de Roland. Tudo bem, vou ler do mesmo jeito.
Também estou sabendo de um episódio avulso de A torre negra que se encontra na antologia Tudo é eventual (Everything is eventual), chamado "As irmazinhas de Eluria", muito bem recomendado por sinal. Está na minha alça de mira.
Enfim, A Torre Negra é um daqueles eventos literários que vale a pena experimentar. Eu não estou nada arrependido de ter embarcado nessa viagem com Roland e seus amigos. Portanto, não poderia dizer outra coisa: recomendo!