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sábado, 23 de dezembro de 2017

A caverna cristalina

No dia 17 de dezembro de 2017, estive numa pequena feira vegana em São Caetano do Sul e lá conheci a escritora franco-brasileira Christiane de Murville, que promovia livros de sua autoria, entre os quais a série de fantasia científica A caverna cristalina, publicada em 2015 pela editora Chiado. Esse título não foi percebido pela pesquisa do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica quando de seu lançamento, devido a sabida dificuldade em identificar os livros que não chegam ao mercado e cujos autores não fazem parte ativa do fandom, como é o caso. Cristiane é doutora em Psicologia Clínica pela USP e já havia publicado trabalhos acadêmicos, mas esta série foi sua primeira incursão na ficção.
A série é formada por três volumes: Uma aventura no tempo, O desafio do labirinto e Capturados no tempo. todos bastante parrudos (416, 428 e 488 páginas, respectivamente). Conta sobre um grupo de pesquisadores que encontra uma caverna muito especial na Chapada Diamantina e, a partir de lá, espalha-se pelo tempo e pelas dimensões. A história vai além das questões puramente ligadas a tradição da ficção científica e avança sobre a filosofia oriental, a psicologia e outras correntes especulativas, construindo um painel autoral que escapa de uma classificação objetiva. Outro diferencial é que a série também teve edição na França.
Mais informações sobre estes e outros livros da autora podem ser encontrados no saite Livros & Esculturas, bem como podem ser adquiridos no saite da Editora Chiado, aqui.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Velta 2017

Depois de um longo hiato, o quadrinhista paraibano Emir Ribeiro lançou uma nova edição com aventuras de sua criação. Trata-se de Velta 2017, que dá continuidade às histórias vistas nas edições anuais de 2014 e 2015. Diz o autor e editor: "a enigmática Nefertite tem sua origem revelada, e demonstrando que não veio para brincadeira, derrota – ao mesmo tempo – Velta, Doroti e Denise... Como se não bastasse, Velta e Doroti vão parar num lugar ermo e gelado, onde são forçadas a se unirem para poder sobreviver".
A edição, publicada em formato impresso com capa plastificada em cores com lombada quadrada, tem 68 páginas em p&b, custa R$25,00 e pode ser adquirida diretamente com o editor. Mais informações pelos emails emir.ribeiro@gmail.com e emir_ribeirojp@yahoo.com.br.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Letras de outubro

O primeiro mês da primavera veio recheado de novidades ao fã de literatura fantástica. Além de uma sensível retomada da publicação por diversas editoras, a Companhia das Letras mantém o ritmo de seus selos, que por certo manterá o leitor bastante ocupado e satisfeito.
Para começar, pelo selo Seguinte chega a terceira e última parte da série de ficção científica Mundo novo: Nova era, de Chris Weitz, cujas edições anteriores, Mundo novo e Nova ordem foram resenhadas neste blogue. Como vimos anteriormente, o grupo de adolescentes novaiorquinos, sobrevivente de um apocalipse viral, retorna a sua cidade natal para curar os demais sobreviventes naquela cidade arruinada e tomada pela anarquia. Diz o texto de divulgação: "O grupo de Jefferson e Donna está de volta a Nova York, e os planos para distribuir a Cura a todos os adolescentes da ilha não ocorreram como o planejado. Depois de encarar a traição da Resistência, Donna está guiando a Reconstrução pela ilha, enquanto os meninos, Kath e os gêmeos fugiram com a bola de futebol, um aparelho de transmissão que possibilita o lançamento instantâneo de mísseis nucleares em direção a países que costumavam ser inimigos do governo norte-americano antes da Doença. Mas o grupo está sem os códigos de ativação do aparelho, que ficaram com os novos parceiros da Resistência: a tribo da Uptown. Dessa forma, os amigos vão precisar colaborar com os ingleses da Reconstrução para garantir que o mundo não acabe em uma explosão de mísseis nucleares.
Chapeuzinho Esfarrapado e outros contos feministas do folclore mundial é uma coletânea de contos de fadas organizada pelo Mestre em literatura medieval Ethel Johnston Phelps (1914-1984), reconfigurada sob a ótica feminista. Diz o texto de divulgação: "Quem disse que as mulheres nos contos de fadas são sempre donzelas indefesas, esperando para serem salvas pelo príncipe encantado? Esta coletânea reúne narrativas folclóricas do mundo inteiro — do Peru à África do Sul, da Escócia ao Japão — em que as mulheres são as heroínas das histórias e vencem os desafios com esforço, coragem e muita inteligência. O livro é para todo mundo que não se identifica com as princesas típicas dos contos de fadas. É para garotas e garotos, para que todos possam aprender que as maiores virtudes de um herói não são exclusivas a um só gênero. Enriquecida com textos de apoio e ilustrações modernas, esta edição é uma fonte inestimável de heroínas multiculturais — e indispensável para qualquer estante."
Pelo selo Suma das Letras, temos Jogada final, terceira e última parte da série de fantasia de Rezende Evil no mundo de Minecraft, de autoria do yotuber paranaense Pedro Afonso. Diz o texto: "Enquanto Pedro, Rezende e seus amigos seguem as pistas deixadas por Gulov, o mago do vilarejo, eles aos poucos descobrem segredos guardados há séculos. Inimigos poderosos os esperam com um plano maligno que põe todo o universo quadrado em risco. Mais do que nunca, é hora de provar que a união faz a força, pois novos versos da profecia foram revelados e muitas aventuras aguardam Pedro e Rezende neste último livro da saga. Será que o herói duplo estará pronto para fazer sua jogada final?".
Para os fãs de Stephen King, a editora republica Cujo, romance de terror publicado originalmente em 1981, que já teve inclusive adaptação para o cinema. "Frank Dodd está morto e a cidade de Castle Rock pode ficar em paz novamente. O serial-killer que aterrorizou o local por anos agora é apenas uma lenda urbana, usada para assustar criancinhas. Exceto para Tad Trenton, para quem Dodd é tudo, menos uma lenda. O espírito do assassino o observa da porta entreaberta do closet, todas as noites. Você pode me sentir mais perto… cada vez mais perto. Nos limites da cidade, Cujo – um são bernardo de noventa quilos, que pertence à família Camber – se distrai perseguindo um coelho para dentro de um buraco, onde é mordido por um morcego raivoso."
E em matéria de quadrinhos, pelo selo Quadrinhos na Cia, está nas livrarias Repeteco, novo trabalho do canadense Bryan Lee O’Malley, conhecido pelas histórias de Scott Pilgrim contra o mundo. Diz a sinopse: "A vida de Katie vai muito bem. Ela é uma chef talentosa, dona de um restaurante de sucesso e com grandes planos para a vida. De repente, em um único dia ela perde uma grande chance de negócios, sua paquera com um jovem chef azeda, sua melhor garçonete se machuca e um ex-namorado charmoso aparece para complicar ainda mais a situação. Quando tudo parece perdido e Katie já não enxerga mais uma solução, uma misteriosa garota aparece no meio da noite com a receita perfeita para uma segunda chance. E, assim, Katie ganha um repeteco na vida e precisará lidar com as consequências de suas melhores intenções."

sábado, 17 de setembro de 2016

Todas as Starlogs

Nos anos 1980, a grande fonte de informação dos fãs de ficção fantástica, especialmente sobre cinema e tv, era a revista americana Starlog que, mensalmente, trazia notícias e curiosidades sobre a produção de fc&f nos EUA, inclusive com artigos dedicados a literatura e outras mídias, embora o seu carro chefe sempre tenha sido a produção audiovisual. Era uma publicação valorizada, difícil de obter, especialmente por conta de seu alto custo. Chegou a ter uma versão brasileira nos anos 1990 que, assim como outras publicações do segmento, não vingou frente à concorrência da internet.
Mas agora, as facilidades da internet tornam a Starlog uma publicação ao alcance de todos: todas as edições estão disponíveis gratuitamente para leitura online aqui.
Recomendo especialmente a edição comemorativa número 100, que trouxe uma valiosa lista de personalidades da fc&f mundial que ainda pode servir de referência aos estudiosos do gênero.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Fc&f e Companhia... das Letras

Há poucas semanas, a Companhia das Letras renovou a parceria com o Hiperespaço e, desta forma, este blogue continuará resenhando livros dos selos da editora. Somente em 2016, a editora publicou nada menos que 14 títulos de fc&f, que podem ser conferidos na lista a seguir.
O selo Seguinte é o que reúne a maior quantidade de publicações. A rebelde do deserto, de Alwyn Hamilton, é o primeiro de uma trilogia que mistura mitologia árabe e faroeste que conta a história de uma garota que, para fugir de uma vida que não deseja, tem que se associar aos lendários djins do deserto e enfrentar o exército do sultão.
Echo, vol. 1: A profecia do pássaro de fogo, de Melissa Grey, instala-se na mitologia russa, com uma jovem em uma busca impossível para acabar com a guerra milenar entre duas raças mágicas.
A série A rainha vermelha, de Victoria Aveyard, chega ao seu segundo volume: Espada de vidro. Nesta sequência, os nobres de sangue prateado agora têm uma adversária a altura, uma sangue vermelho tão poderosa quanto eles mesmos. Já Coroa cruel é uma coletânea com dois contos no mesmo universo de A rainha vermelha. Duas mulheres – uma vermelha e uma prateada – contam sua história e revelam seus segredos.
Outras séries que receberam sequência em 2016 são A queda dos reinos, vol. 4: Maré congelada, de Morgan Rhodes; A sereia, de Kiera Cass; Só perguntas erradas, Volume 4: Por que esta noite é diferente das outras?, de Lemony Snicket; e a ficção científica Encruzilhada, volume 2: Fração de segundo, de Kasie West, sobre viagens no tempo.
O selo Suma das Letras, que abriga os livros do mestre do horror Stephen King, lançou recentemente o romance Mr. Mercedes, primeiro de uma série sobre a busca de um detetive por um assassino a bordo de um carro Mercedes Benz.
Pelo mesmo selo também temos Os sete reinos: A coroa escarlate, de Cinda Williams Chima, quarto volume de série fantasia de contornos medievais com muitos conflitos políticos e violência. E ainda, De volta ao jogo, único livro desta lista escrito por um brasileiro, Pedro Afonso, mais conhecido como Rezende Evil, estrela de um dos mais vistos canais do Youtube, que conta suas aventuras no mundo do jogo online Minecraft. Trata-se de uma novelização portanto, segundo da série cujo primeiro volume foi bestseller em 2015.
Pela Companhia das Letrinhas temos o simpático As improváveis aventuras de Mabel Jones, de Ross Collins e Will Mabbitt, sobre uma garotinha destemida que se vê forçada a servir num barco pirata prá lá de estranho.
Dois figurões da literatura fecham esta relação: pelo selo Alfaguara, O barco das crianças, de Mario Vargas Llosa, escritor vencedor do Nobel que aqui envereda pela literatura infantil para falar de um barco cheio de crianças a navegar pelos oceanos do mundo.
E, pela própria Companhia das Letras, Dois anos, oito meses e 28 noites, de Salman Rushdie, autor indiano que tem o hábito de escrever fantasias extremamente instigantes.
Neste romance, são os djins que, vivendo incógnitos entre os homens, repentinamente despertam para mais 1001 noites de embate com a humanidade (próximo livro a ser resenhado aqui).
Ainda se percebe um amplo predomínio da fantasia no catálogo da editora mas, conforme vão caindo no gosto dos leitores, a ficção científica e o horror por certo encontrarão mais espaço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sagas 5: Revolução

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heróica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A Batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Que monstro te mordeu?

Incomum é o mínimo que se pode dizer da série Que monstro te mordeu?, dirigida por Cao Hamburguer, em exibição desde novembro de 2014 nas TV Cultura e TV Ratimbum.
Conhecido pela bem sucedida série Castelo Ratimbum, Hamburguer caprichou, com um inspirado desenho de produção, belos cenários e bons efeitos especiais. Conta a história dos habitantes do Monstruoso Mundo dos Monstros, onde a jovem monstrinha Lali vive com seu pai, o cientista monstrólogo Dr. Z, e seus amigos monstros Luisa, Gorgo e Dedé. Lali, a única com aparência humana, é interpretada por Daphne Bozaski. Todos os demais personagens são construídos à base de marionetes e animação 3D.
Tudo seria perfeito por lá se, a cada episódio, não surgisse um novo monstro materializado a partir do desenho de uma criança da nossa realidade. Esses monstros novos vêm carregados de malícia, e contaminam os inocentes monstrinhos desta monstrolândia com maus comportamentos humanos, que terão de ser superados pelo grupo.
O seriado tem 50 episódios de 30 minutos, conta com outros 50 episódios produzidos especialmente para a internet, e já tem uma legião de fãs. Vale a pena conferir.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Resenha: Livros para chamar o Sol

Os sóis da América III: O coração de jade, 184 páginas; Os sóis da América IV: A Pedra da História, 176 páginas, Simone Saueressig. Ilustrações e capas de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2014.

Em 2014, Simone Sauressig publicou, com recursos próprios, O coração de jade e A Pedra da História, partes finais da tetralogia Os sóis da América, saga de fantasia com as aventuras do menino Pelume por um continente americano mítico, em busca da história para chamar o Sol, sem a qual seu povo, que habita a longínqua Caverna Mais Alta do Mundo, localizada em uma ilha no Círculo Polar Antártico, jamais verá o astro nascer novamente.
Nos livros anteriores, O Nalladigua e A Flauta Condor, publicados em 2013, Pelume e seus amigos, a menina Misqui e o guarani Nimbó, atravessaram os territórios do sul, passando pelos pampas gaúchos, o Rio da Prata, as cataratas do Iguaçu, os campos de caçada e a grande cordilheira dos Andes, fazendo novos amigos e enfrentando perigos mortais, entre os quais o bruxo Machí que, tendo seus planos frustrados por Pelume, os persegue sem trégua, em busca de vingança a qualquer custo. Quando Pelume precipita-se nos abismos andinos, Misqui e Nimbó são obrigados a seguir viagem sozinhos.
O coração de jade inicia exatamente nesse momento. Miraculosamente, Pelume sobrevive a queda ao ser capturado, em pelo ar, por uma ave que pretende devorá-lo, mas o velho remo – que é um galho da lendária árvore Nalladigua – o protegeu do apetite da fera alada. Perdido na selva, Pelume é envolvido pelas promessas da traiçoeira Cobra Grande, que consegue convencê-lo a trocar seu coração puro de menino pelo transporte até a cidade de Tiahuanaco. No lugar, Pelume passa a ter um coração feito de jade, duro e frio, que a Cobra Grande lhe deu. Agora sem sentimentos, Pelume suporta sem muita dificuldade uma aterrorizante viagem no lombo da cobra, só para, no final da jornada, encontrar seus amigos aprisionados pelo poderoso Machí. O confronto com o bruxo revela o quanto o menino mudara. Pelume resgata seus velhos amigos, mas o custo emocional é enorme e a relação entre eles nunca mais seria a mesma. Na sequência da jornada para o norte, os meninos chegam à maravilhosa cidade Teothiuacán, onde se deparam com uma urbanidade inédita que deixa maravilhado até o insensível Pelume.
Ali eles conhecem um povo muito desenvolvido, mas que está passando por um momento delicado. Esta próxima a hora da cerimônia do Fogo Novo, quando todos os fogos da cidade são apagados e substituídos por uma nova chama. Para isso, é necessário o sacrifício de um homem honrado, ou então, de um pouquinho do fogo sagrado de Popocatepetl, o vulcão que se ergue sobre a cidade. Por trás do drama de Tenamaztli, o valente guerreiro que terá de ser sacrificado, está a história de ciúme de uma mulher egoísta que não se importa em colocar toda a cidade em risco de ser destruída apenas para satisfazer seus caprichos. Isso vai colocar os três jovens do sul na busca pelo fogo de Popocatepetl e numa luta infernal contra um exército de seres mágicos que prenunciam o fim do mundo.
A Pedra da História, volume final da série, vai levar os jovens aos limites setentrionais do continente. Perseguidos de perto pelo cada vez mais enfurecido feiticeiro Maquí, que agora tem um séquito de feras mágicas sob suas ordens, os do sul atravessam as grandes pradarias norte americanas, a Floresta Dourada e a Mata do Norte, conhecem povos nativos e civilizações mágicas, e encontram-se com a misteriosa Mulher-Aranha, que entrega a Pelume a misteriosa Pedra da História e faz revelações que o menino só poderia compreender se ainda tivesse um coração de verdade no peito. A fuga prolongada e cansativa, as constantes lutas e o frio cada vez mais intenso começam a minar a determinação de Pelume, e quando ele percebe que seus amigos estão muito próximos do completo esgotamento físico e emocional, ele mesmo dominado pela frieza de coração de jade, decide abandonar a busca e se entregar à ira de Maquí. Mas as revelações pelas quais tanto lutou, bem como o destino de seus amigos, estão para além da banquisas polares.
Assim como em O Nalladigua e A Flauta Condor, O coração de jade e A pedra da história são ilustrados por Fabiana Girotto Boff, que também assina as capas. Cada livro vem com um marcador de páginas que estampa um útil glossário de termos linguísticos e figuras mágicas, que ajuda a entender de onde veio a infinidade de criaturas fabulosas que aparece ao longo da narrativa e seu contexto no folclore das diversas culturas com as quais Pelume toma contato.
Apesar da invejável bibliografia da autora, que detém em seu currículo vários prêmios importantes e romances ousados como aurum Domini: O ouro das missões (2010), O jogo no tabuleiro (2010) e B9 (2011), Os sóis da América se destaca como um trabalho de fôlego, que certamente exigiu um esforço monumental de pesquisa. Seu maior mérito é ter ido além de qualquer bairrismo, reclamando todo o continente como o espaço sem as fronteiras que perdemos de vista por causa do apelo nacionalista, uma proposta corajosa e inovadora na ficção fantástica brasileira.

domingo, 2 de novembro de 2014

A Bandeira do Elefante e da Arara em quadrinhos

Uma das mais interessante séries de fantasia a ter o Brasil como cenário é criação de Christopher Kastensmidt, texano radicado em Porto Alegre, que percebeu o potencial das mitologias brasileiras para a construção de um contexto diferenciado no gênero. Não que inexistam autores brasileiros que já fizeram o mesmo, pelo contrário. Desde as suas origens, a literatura brasileira registra autores que enveredaram pelo indianismo e suas mitologias, e mesmo no fandom brasileiro, historicamente resistente a esse tipo de solução, há autores como Roberto de Sousa Causo, Simone Saueressig e Ivanir Calado, entre outros, que não tiveram receio de a trilhar. O que diferencia o trabalho de Kastensmidt é seu alcance. Sendo um autor de língua inglesa, com acesso ao concorrido mercado anglo-americano, sua obra espraia-se por ambientes virtualmente inacessíveis aos autores brasileiros e, dessa forma, funciona como divulgador do imaginário e da ficção brasileiros naquele mercado.
A Bandeira do Elefante e da Arara surgiu na forma da noveleta "O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara", indicado ao prestigioso prêmio Nebula e publicado no Brasil em 2010, no primeiro volume da coleção Asas do Vento, da Devir Livraria. Conta a história de um holandês Gerard, que chega ao Brasil dos tempos coloniais em busca de fama e fortuna. Aqui, acaba por libertar o escravo Oludara, e ambos associam-se na empreitada de explorar o novo continente numa expedição de dois homens, a dita Bandeira do Elefante e da Arara. Em suas aventuras pelas matas, ambos têm de lidar com as gentes nativas, de hábitos estranhos para os estrangeiros, além da fauna, flora e entidades mágicas ferozes que se manifestam seguidamente no seu caminho.
Agora, a mesma Devir anuncia o lançamento dea versão em quadrinhos desse trabalho, A bandeira do Elefante e da Arara: O encontro fortuito, com roteiro do próprio Kastensmidt e desenhos de Carolina Milyus, uma jovem ilustradora de Porto Alegre. O álbum tem 112 páginas coloridas por Ursula Dorada, e já está disponível na loja da editora, aqui. Amostras da arte pode ser vista na página da publicação, aqui.
E está rolando um concurso cultural cujo prêmio é justamente um exemplar autografado deste álbum. Para participar, basta responder criativamente a pergunta "Se você fosse um explorador, de qual aventura gostaria de participar?". As respostas mais originais serão premiadas. O formulário e as regras da promoção estão disponíveis aqui.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Animal

Nos últimos anos, a teledramaturgia brasileira tem investido na produção de séries originais para a tv a cabo. Essas produções geralmente tratam de questões realistas, dramas familiares e sociais, comédias românticas e humor de forma geral. Apesar das inúmeras opções em diversos canais, a ficção fantástica tem sido um gênero ausente.
No passado, testemunhamos ótimas novelas de fc&f na televisão nacional, especialmente nos tempos da saudosa TV Manchete, que entre a sua programação de sucesso teve, por exemplo, as novelas Pantanal e A ilha das bruxas. Mais recentemente, fantasia e horror frequentaram a grade de novelas da Globo e da Record, nas novelas O beijo do vampiro, Bang bang, Morde e assopra, Cordel encantado e Os mutantes, esta última com toques de ficção científica.
Por isso tudo, é de surpreender a ausência do gênero nas séries nacionais, ainda mais considerando-se o sucesso que os enlatados estrangeiros de fantasia, fc e horror fazem junto ao público brasileiro.
Talvez tenha sido esse o motivo que levou a produtora Accorde Filmes, em parceria com a Globo, a realizar os treze episódios da primeira temporada de Animal, série de mistério e horror, criada e dirigida pelo cineasta e produtor gaúcho Paulo Nascimento, que estreou no dia 6 de agosto no canal a cabo GNT.
Paulo Nascimento tem ótimas credenciais, contando em seu currículo com o premiado longa Diário de um novo mundo (2005), além de Valsa para Bruno Stein (2007), A casa verde (2008), Em teu nome (2009) e A oeste do fim do mundo (2013).
O primeiro episódio de Animal, chamado "De volta para a toca", introduz a história do biólogo João Paulo Gil (Edson Celulari, de cabelos e barba grisalhos e desgrenhados) que retorna à sua cidade natal, Monte Alegre do Sul, em busca das anotações que seu pai registrou em diários, sobre uma doença incomum e hereditária que o acomete, cujos sintomas mais evidentes se revelam na ampliação de seus sentidos, mas que o leva a periódicos surtos de fúria incontrolável.
Porém, ele não é plenamente bem vindo na comunidade. Seu pai foi assassinado ali quando ele ainda era uma criança, sendo que ele mesmo não foi morto na oportunidade porque sua mãe o levou, fugindo para a cidade grande. Mesmo depois de tantos anos passados, João Paulo se depara com uma comunidade hostil que ainda o quer morto ou, pelo menos, bem longe dali.
Entre os personagens, um leque de figuras exóticas que são charme da história, como o líder de uma seita de virgens vestais, uma cafetina assustadora e um escultor louco – supostamente o assassino de seu pai – que passa a vida recluso em sua fazenda arruinada, entre outros. Há também uma boa quantidade de mistérios, sem falar em alguma nudez.
A série foi filmada em Caçapava do Sul (RS) e conta com um elenco de estrelas da televisão, tais como Nelson Diniz, Fernanda Moro e Cristiana Oliveira, que interpreta a prefeita de Monte Alegre e faz par romântico com Celulari.
Animal é exibida às quartas feiras, às 23 horas, mas conta com várias reprises em horários alternativos. Mais informações na página do seriado, aqui.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Laila

A coleção de ebooks Fantastiverso disponibilizou Laila e os caçadores de demônios, de Ademir Pascale, segunda parte da série iniciada com Antonio Spadoni e os caçadores de demônios.
Diz o texto de divulgação: "O que você faria se descobrisse que 10% da população sobre a Terra não é de humanos? E que, dos heróis nada convencionais que nos protegem, alguns ainda detêm dons especiais? Marcas foram deixadas na história: o pintor e poeta William Blake tinha estranhas visões de anjos e demônios, muitas das quais retratadas em suas ilustrações. Jim Morrison, vocalista do The Doors, enxergava mais do que a maioria das pessoas, e isso ficou registrado em suas letras e até no próprio nome da banda. Robert Johnson teve uma ajudinha sobrenatural para se tornar um dos maiores guitarristas de todos os tempos."
Com capa e diagramação de Marcello Biguetti, o ebook pode ser baixado gratuitamente aqui.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Resenha: A Flauta Condor

Segundo volume da série Os sóis da América, A Flauta Condor dá continuidade às aventuras do menino Pelume em peregrinação pelas terras de uma América mítica em busca da história para chamar o Sol, que pode salvar seu povo do que ele acredita ser a extinção certa.
No primeiro volume, O Nalladigua (também publicado em 2013), Pelume abandona sua terra natal, uma ilha no oceano antártico e, literalmente, voando nas asas do vento – que na sua tradição do povo Do Fogo é um pássaro chamado Furufuhué –, chega às terras meridionais do continente, onde conhece a menina Misqui que o acompanha em sua caminhada para o norte. Depois de enfrentar muitos perigos e tristezas, mas também vitórias, os jovens chegam às cataratas do rio Iguaçu e, de lá, embarcam novamente nas costas de Furufuhué em direção à coluna vertebral da América, a Espinha Branca.
A Flauta Condor inicia com Pelume, Misqui e Nimbó, garoto guarani que se uniu aos peregrinos, voando sobre o coração do continente a bordo de uma canoa equilibrada nas costas do Urubu-Rei, uma das muitas formas que Furufuhué assume entre os povos americanos. Mas, sendo vento, Furufuhué é sensível aos processos climáticos e, quando ele se transforma numa violenta tempestade, tem que deixar os garotos no chão para mantê-los a salvo, e a viagem é interrompida antes que a gigantesca cordilheira seja alcançada: os jovens terão de concluir a jornada a pé.
Caminhando por uma terra árida, exaustos e famintos, os jovens encontram um casebre calcinado pelo sol inclemente da região. Ali encontrar mais dois adolescentes, Taki e Sisa, filhos de nobres incas que até ali foram levados por um servo depois que sua casa foi atacada por revoltosos que mataram seus pais.
Auxiliados pelos espíritos da natureza Pombero e Coquena, os cinco jovens seguem viagem em busca das raízes da cordilheira. Ao atravessarem uma floresta encantada, o galho da Nalladigua – que Pelume carrega desde o início de sua jornada e na qual amarra suas lembranças – começa a revelar seus poderes, que ainda não são entendidos pelo garoto.
Quando, enfim, chegam à cidade inca de Potosi, encontram Uturunku, um antigo amigo da família real, que diz também estar sendo perseguido pelos revoltosos. Ele e seu filho Sonkoy passam a proteger os jovens herdeiros, que precisam escapar dos rebeldes e chegar à Cuzco, onde poderão ser protegidos pelas forças leias do império. Com os soldados em seus calcanhares, Uturunku guia os jovens pelo labirinto de túneis escuros das minas de prata de Potosi. Um dos perseguidores os alcança e, na mortal luta que se segue, Pelume consegue tirar dele um pequeno instrumento, a Flauta Condor, que tem o poder de transportar as pessoas instantaneamente para outros locais. Uma das notas pode levar à Cuzco, mas até que encontrem a nota certa, perigos ainda maiores esperam por Pelume, Misqui, Nimbó, Taki, Sisa, Uturunku e Sonkoy, incluindo a traição de quem menos se espera e o destino trágico para de um dos caminheiros.
Geralmente, as histórias de continuação costumam perder um pouco do fôlego nos volumes intermediários, uma vez que se tratam de "histórias de miolo", que ligam o início, em que os personagens e as situações se apresentam, e a conclusão, no volume final. Mas a experiente escritora Simone Saueressig, autora de livros como A máquina fantabulástica (Scipone) e A estrela de Iemanjá (Cortez), não permitiu que isso acontecesse em A Flauta Condor. A história é movimentada e ainda mais dramática que a do volume inicial, com muitos personagens novos interessantes que serão muito bem-vindos se retornarem à aventura mais adiante. Outras lendas sobre a origem do Sol são relatadas pela autora que vai, assim, construindo um atlas mitológico da América, com histórias colhidas em diversas culturas nativas.
Na resenha ao primeiro volume, citei o fato que numa América pré-colombiana não poderia existir a imagem do cavalo, usada para representar anhangá, uma vez que o animal só veio a ser conhecido por aqui com a chegada das caravelas europeias. Mas a autora contestou essa opinião dizendo que a América de sua história não é a nossa, mas uma outra, de um universo alternativo em que os animais mitológicos realmente existem e a história humana se passou de forma diferente. Portanto, também podem aparecer animais de outras partes do mundo. E, novamente em A Flauta Condor, a autora usa esse recurso ao descrever o guardião do Eldorado, uma enorme espécie de dinossauro que sobrevive nas regiões perdidas da floresta amazônica e é chamado pelos personagens de lagarto-tigre. Como a licença poética de tomar um dinossauro – que não existe em parte alguma – talvez seja ainda mais ousada do que citar um tigre – animal nativo da Ásia que não existe naturalmente na América real – cito aqui o fato só para antecipar ao leitor que na América de Simone Saueressig tudo pode acontecer, inclusive a presença das plantas antropófagas que estrelam o momento mais dramático do volume.
A ilustradora Fabiana Girotto Boff, que fez a capa e ilustrações internas do primeiro volume, retorna em A Flauta Condor, com desenhos mais detalhados e adequados à narrativa. A produção gráfica e editorial é da própria autora, num volume de 152 páginas com capa em cartão plastificado, com orelhas. Um marcador de páginas personalizado acompanha cada exemplar, com um útil glossário de termos incomuns citados na história, o que facilita bastante a busca uma vez que o marcador está sempre à mão. Na página final do volume está anunciado o título de Os sóis da América, Volume 3: O coração de jade, que deve ser lançado em 2014.
Mais informações sobre a saga de Pelume podem ser encontradas no blogue da série, aqui.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Doutor para todos

Em cima da hora, mas ainda em tempo: neste final de semana, sábado 30/11 e domingo 1/12, acontece o Doctor Who 50 Anos, mega-evento dedicado a registrar as cinco décadas de sucesso deste que é o mais longevo seriado da televisão mundial.
Organizada pelo Trekker ABC Sci-Fi & Cia, a atividade prevê uma ampla programação que, em ambos os dias, entre as 10 e as 19 horas, apresenta palestras, exposições, brincadeiras, concurso de cosplay, exibições de filmes, vídeos e episódios das séries clássica e recente, incluindo o longa The day of the Doctor, exibido em circuito mundial há alguns dias.
As atividades estarão abrigadas no Teatro Cacilda Becker, que fica na Pça. Samuel Sabatini, no Paço Municipal de São Bernardo do Campo (ao lado do terminal São Bernardo do tróleibus) e a entrada é franca. Mais informações na fanpage do evento, aqui.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Resenha: Laços de sangue

Não há dúvida que a grande contribuição de Gengis Khan para a cultura ocidental moderna foi a inspiração para o mito do vampiro. O medo das barbaridades creditadas ao conquistador de "além das florestas" circulava à boca pequena nos saraus e espalhou-se pela sociedade, logo assumindo um caráter mitológico ainda mais assustador, como é comum entre o povo inculto. Se até animais comuns da natureza viram feras antropófagas no imaginário popular, nem é preciso imaginar o que Khan virou: ele foi o protótipo do vampiro, mais tarde trabalhado por artistas que lhe deram feições mais europeias e requintadas, aproveitando outros personagens. O vampiro ficou cheio de charme, embora ainda aterrador.
Contudo, autores modernos esforçaram-se em tirar do mito os seus contornos mais tenebrosos, no que foram muito bem sucedidos diga se de passagem. A atual imagem de memória dos vampiros foi devidamente processada e homogenizada, e não oferece risco maior para os seres viventes do que aqueles que já corremos nas mãos de nossos iguais.
A escritora norte americana Richelle Mead é uma dessas autoras "amantes dos vampiros", como ela mesma nomeia a protagonista no primeiro romance da série Bloodlines: Laços de sangue, lançamento recente da editora Companhia das Letras através do selo Seguinte, com tradução de Ana Ban. O romance é sequência direta da série bestseller Academia de vampiros, também publicada no Brasil.
A mitologia vampírica de Richelle Mead baseia-se nas ações de uma sociedade secreta chamada de Alquimistas, cuja função é manter o segredo da existência dos vampiros na sociedade. Tal como 'homens de preto', os Alquimistas limpam a sujeira dos vampiros, divulgando versões plausíveis para explicar o rastro de mortes que eles geralmente deixam.
Os vampiros, por sua vez, são divididos em duas linhagens. Os Morois são suficientemente civilizados para viver em meio a sociedade humana e, apesar de terem alguns poderes sobrenaturais e não sofrerem das tradicionais limitações dos vampiros clássicos – podem sair ao Sol, tomar banho, aparecem nos espelhos e nas fotografias, envelhecem normalmente e podem até se reproduzir sexualmente –, são apresentados como criaturas irresponsáveis e frágeis, que precisam da tutela tantos dos alquimistas quanto dos dampiros, lutadores descendentes do cruzamento entre Morois e humanos, conhecidos como Guardiões.
Por terem um importante valor político, os Morois também precisam ser protegidos dos seus 'primos', os Strigois, raça degenerada, sádica e violenta, que se alimenta tantos de humanos quanto de Morois. Os Strigoi são mais parecidos com o mito tradicional, ferozes, perigosos e imortais.
Sydney Sage é uma jovem alquimista recém saída da adolescência, que é requisitada por seus superiores para fazer a proteção da linda, magra e pálida Jill Mastrano, princesa Moroi que precisa ser mantida a salvo de uma conspiração política que pretende assassiná-la. Para isso, ambas são enviadas incógnitas para um colégio interno em Palm Springs, região ensolarada que deve manter os Strigois relativamente à distância. Junto a elas vai o guardião Eddie Castile, dampiro destemido, hábil e totalmente dedicado à Jill.
Contudo, Palm Springs é a área de vigilância do Alquimista canastrão Keith Darnell, com quem Sidney tem uma relação pouco afetuosa. E a princesa terá que ser levada pelo menos uma vez por semana para se alimentar de sangue humano na residência de uma família Moroi na cidade, onde moram o velho meio gagá Clarence Donahue, seu filho Lee – que tem uma certa queda por Jill – e o misterioso e fútil Adrian Ivashkov.
Enquanto Sidney tenta cumprir o papel de babá de Jill, uma série de eventos suspeitos começam a se revelar, como a moda de tatuagens que dá estranhos poderes aos estudantes do grande colégio, assassinatos sucessivos de garotas Morois e o bulling que Jill começa a sofrer por conta de sua aparência invulgar, entre outros problemas da vida acadêmica.
Richelle Mead monta, assim, o cenário para uma história de aventura tipicamente adolescente, com um pouco de ação, um pouco de romance, um pouco de mistério e absolutamente nada do horror que aparentemente sugere. Os vampiros de Mead são belos, glamourosos, relaxados e positivos, mais até que os próprios humanos com quem Sidney parece ter muita dificuldade de se relacionar. A temida ameaça Strigoi praticamente não se apresenta em Laços de sangue, com apenas uma breve participação no trecho final.
O estilo narrativo é suave e naturalista, sendo a maior parte mostrada em forma de diálogo. Mesmo com pouquíssimas cenas de ação, a história se desenvolve com agilidade e suas 430 páginas podem ser lidas em poucas horas. A apresentação do livro é confortável e elegante, com relevos na capa, corpo do texto amplo no miolo em papel pólen soft, que deixa o volume bem leve, apesar da considerável quantidade de páginas.
Em suma, Laços de Sangue é uma história de vampiros perfeitamente recomendável para leitores jovens e, principalmente, para aqueles não gostam de terror: pesadelos não fazem parte do pacote.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A flauta Condor

A escritora Simone Saueressig acaba de lançar A flauta Condor, segundo volume da série de fantasia Os sóis da América, sequência de O Nalladigua (resenhado aqui), com a história de Pelume, jovem nativo da Caverna Mais Alta do Mundo que está peregrinando pelo continente americano em busca da história para trazer o Sol, sem qual o astro nunca mais se levantará sobre sua terra natal, uma ilha no círculo polar antártico. Superadas as Cataratas do Iguaçu, é hora de avançar para o noroeste do continente e encarar as maravilhas e os perigos a Espinha Branca, que nós conhecemos como os Andes.
Simone explica que a América de Pelume não é exatamente a nossa, pois nela os seres mitológicos de todas as culturas nativas realmente existem e interagem o tempo todo com o aventureiro e seus companheiros de viagem.
O livro tem 152 páginas, é ilustrado por Fabiana Girotto Boff, vem acompanhado de um marcador-glossário – para dissipar as dúvidas, diz a autora – e pode ser adquirido através do saite Porteira da Fantasia, aqui.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Os sóis da América

A escritora gaúcha Simone Saueressig, que trabalhou durante um bom tempo com a mitologia brasileira em diversos livros de ótima aceitação no ambiente escolar, dá agora um passo além com a série Os sóis da América, cujo primeiro volume, O Nalladigua, foi recentemente apresentado em Porto Alegre.
Trata-se de uma saga de fantasia narrada em quatro volumes, com uma viagem mágica por toda a extensão do continente americano, do sul da Patagônia às banquisas boreais, com imagens e criaturas das diversas culturas.
A série foi oferecida para diversas editoras, mas a autora decidiu publicar a obra de forma independente quando percebeu que a busca por uma casa editorial iria atrasar muito a sua disponibilização pública. "É um trabalho complexo. Exigiu muita pesquisa, até agora, e continuará a exigir. Mas se tudo der certo, creio que terá um resultado muito bacana, capaz de ganhar leitores por todo o país. Talvez, até, sair dos limites tupiniquins e adquirir, quem sabe, outros contornos”, diz a autora.
Para promover a obra, Simone produziu o blogue Sóis da América, que acompanha a produção e repercussão dos livros e permite a interação dos leitores.
O Nalladigua tem 160 páginas e conta com ilustrações de Fabiana Girotto Boff, que também ilustra a capa do livro.
Mais informações sobre Simone Saueressig e seus livros podem ser obtidas no saite Porteira da Fantasia.

terça-feira, 5 de março de 2013

Humor nas séries de tv de ficção científica

Na televisão, nem sempre o humor chegou a tanto refinamento quanto no cinema. Tal não é muito próprio da mídia mais popular de todas e, por isso, o que mais se vê nos shows de tv é o humor grosseiro e apelativo. Parafraseando uma máxima empresarial: o humor refinado ri das ideias; o humor comum ri das coisas, e o humor grosseiro ri das pessoas. Com esta régua, o leitor pode montar sua própria escala de qualidade naquilo que vê por aí.
Mas vale destacar alguns seriados que conseguiram apresentar algo mais em matéria de humor na fc.
O exemplo mais conhecido, e que dispensa maiores comentários, é o seriado Perdidos no espaço (Lost in space), que teve três temporadas entre 1965 e 1968, sempre com a presença hilária do desprezível Dr. Smith e sua escada preferida, o Robô "Lata-de-Sardinha", como ele carinhosamente o chamava.
Entre os desenhos animados, o melhor exemplo desde sempre é Os Jetsons (The Jetsons), produzido entre 1962 e 1963 pelos estúdios Hanna-Barbera. Conta as trapalhadas de uma típica família do futuro e os problemas que ela enfrenta diante dos avanços da tecnologia, que nunca são acompanhados por uma proporcional evolução do ser humano, de forma que concluímos que, quanto mais as coisas mudam, mais ficam iguais. Similaridades com a nossa própria vida não são meras coincidências.
Outro seriado clássico é Meu marciano favorito (My favorite martian), comédia de costumes exibida nas tvs americanas entre 1963 e 1965, que usa a presença de um alienígena humanoide entre a sociedade classe média americana para fazer graça com o comportamento dela.
Outro seriado com o mesmo perfil é Alf, o ETeimoso (Alf), produzido entre 1986 e 1990. Neste caso, o alienígena não é humano, mas sim um estranho bicho peludo, último sobrevivente de um planeta que foi destruído pela estupidez de seus próprios habitantes. O seriado teve também uma excelente versão em desenho animado, contando como Alf vivia em seu planeta natal.
Mais um seriado que navegou as mesmas águas foi 3rd rock from the Sun, produzido entre 1996 e 2001, com a presença ilustre e premiada de John Lithgow. Nele, um grupo de alienígenas assume a forma de uma família humana para estudar o comportamento da espécie local. Porém, nem todas as transformações foram bem sucedidas... na verdade, nenhuma delas.
Inédito na tv brasileira, mas possivelmente disponível em canais a cabo e por satélite, o seriado britânico Red Dwarf, produzido entre 1988 e 1993, conta a história do último sobrevivente da Terra viajando pelo que restou da galáxia numa enorme espaçonave, acompanhado de mutantes e alienígenas muito suspeitos. Seu humor advém principalmente da sátira e do pastiche de outros seriados e filmes de fc.
Também da Inglaterra vem a nova série do clássico seriado Doctor Who, cuja primeira temporada foi produzida em 1963. Esta nova série, que estreou em 2005 e ainda está em produção, conta a história do último dos Senhores do Tempo que, por algum motivo misterioso, sente uma atração irresistível pela Terra. A bordo da Tardis, uma poderosa máquina do tempo em forma de cabine telefônica azul ultramar, este Doutor sem nome combate invasões alienígenas e distorções temporais sempre na companhia de uma beldade terrestre que muda de tempos em tempos. Algumas vezes, as aventuras são bastante dramáticas, mas sempre contadas com muito bom humor e repletas de piadas inteligentes que exigem a atenção do expectador.
Outro exemplo recente do humor na fc televisiva é a multipremiada The big bang theory, sitcom focada em um disfuncional grupo de pesquisadores acadêmicos de uma universidade americana e as dificuldades que eles têm em se relacionar entre si e com as pessoas a sua volta. A fc aparece principalmente em citações, uma vez que o gênero é considerado um dos pratos favoritos dos nerds em geral. O seriado estreou em 2007 e é um grande sucesso no mundo todo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Matador e matadora: feitos um para o outro

O escritor Roberto de Sousa Causo tem desenvolvido, nas páginas de diversas antologias publicadas nos últimos anos, duas séries de ficção científica com personagens fixos. São elas Jonas Peregrino: As lições do matador e Shiroma: Matadora ciborgue. Peregrino teve episódios publicados nas antologias Futuro presente (2009), Assembleia estelar (2011) e Space opera (2011), enquanto que Shiroma se desenvolveu ao longo dos seis volumes da revista Portal, organizada por Nelson de Oliveira entre 2008 e 2010.
Ambos os seriados compartilham o mesmo universo e o autor já divulgou que pretende fazer as narrativas se cruzarem num grande e intrincado cenário de futurista. Isso justifica as semelhanças entre os selos desenvolvidos para as duas séries, recentemente divulgados. Um projeto sem dúvida incomum, que merece a atenção dos leitores.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Neve rubra

Enquanto a maior parte dos mortais espera que o cinema ou a tv mostrem novidades, as ideias progridem no formato dos quadrinhos. Algumas delas realmente chegam à ter versões audiovisuais, mas seus autores não se furtam a dar-lhes, nos quadrinhos, a devida continuidade.
Uma dessas bem sucedidas franquias é 30 dias de noite, criação de Steve Niles e Ben Templesmith publicada originalmente em quadrinhos em 2002, levada ao cinema cinco anos depois. Neve rubra é o sexto volume da série, que chega agora ao Brasil pela Devir Livraria.
Trata-se da primeira história independente da série, com roteiro e desenhos de Templesmith, contextualizando os eventos que, anos mais tarde, levariam tragédia à pequena cidade de Barrow, no Alasca.
Diz o texto de divulgação: "1941. A 'Operação Raposa de Prata' de Hitler fracassou, mas a guerra na Frente Oriental continua enquanto o inverno russo começa a apertar. O cabo Charlie Keating, adido militar britânico, observa o conflito do lado soviético, fazendo de tudo para que suprimentos essenciais cheguem às mãos dos soldados de Stalin que lutam na frente de batalha contra os nazistas. Mas existe uma outra ameaça na imensidão gelada, e não são os alemães. Não importa o quanto a humanidade tente se matar, há algo que faz isso melhor". A mistura de temas sobrenaturais com tropas nazistas não é original, mas geralmente resulta em trabalhos curiosos e interessantes. Similaridades com Dead snow não devem ser meras coincidências.
30 dias de noite: Neve rubra tem 104 páginas em cores, custa R$24,90 e é recomendada para adultos.