Estranhas invenções, Ademir Pascale, org. 120 páginas. Petrópolis: Ornitorrinco, 2012.
Antologias temáticas continuam em alta na ficção fantástica brasileira. Isso se explica por conta da crescente demanda por espaço editorial para autores novos e pelo favorável esquema comercial que gerencia esse tipo de publicação. Uma vez que reúne um grupo grande de autores, uma antologia pode contar com muito mais gente no lançamento, e possibilita ações regionais de cada autor, favorecendo uma distribuição mais abrangente. Contudo, percebe-se que há uma certa urgência na montagem e lançamento dos livros, que nem sempre cumprem os objetivos propostos.
Estranhas invenções é um desses casos. A antologia apresenta-se como uma seleção de textos curtos de ficção fantástica – com um pendão óbvio mas não obrigatório para a ficção científica – em homenagem o famoso artista, engenheiro e inventor Leonardo Da Vinci (1452-1519). A produção gráfica, creditada a Marcelo Biguetti, remete a esse objetivo, com ilustrações e citações do sábio florentino espalhadas pelas páginas, criando um clima perfeito para histórias ao estilo steampunk. Mas Da Vinci é sequer citado nos dez textos selecionados; nenhuma das histórias se passa em sua época ou faz referência a qualquer de seus espetaculares inventos, incluindo os textos assinados pelo próprio Biguetti e pelo organizador Ademir Pascale. A homenagem teve aqui um papel apenas decorativo.
"Tempus fugit", de Tibor Moricz, abre a antologia com uma história sobre viagens no tempo, que vem a ser o tema mais recorrente da antologia. Conta os momentos finais de dois cientistas que, depois de aterrorizar a sociedade com seus métodos pouco ortodoxos de pesquisa, têm o laboratório atacado por uma turba furiosa. Para escapar da morte certa, decidem fugir pela própria máquina do tempo que acabaram de inventar mas, na pressa, saltam exatamente para onde nunca deveriam ir.
Em "A ponte para o infinito", Daniel Borba – que também assina o prefácio do livro – conta sobre como um jovem decide realizar o sonho de sua falecida namorada projetando uma máquina de teletransporte para viajar até às estrelas, mas que o arremessa de volta ao passado.
Ana Lucia Merege foi a única autora a situar sua história no passado; não no Renascimento de Da Vinci, mas na época vitoriana. Em "A incrível máquina de Micawber", um grupo de intelectuais do século 19 comparece ao laboratório de um inventor excêntrico para testemunhar os milagres de uma máquina para bisbilhotar os sonhos alheios. O texto tem um caráter levemente cômico e bons diálogos, sendo um dos melhores textos do conjunto.
Só não é melhor que "A temporalamina", de Miguel Carqueija, que retoma o conceito do efeito borboleta à luz do seu habitual estilo farsesco. Um cientista, inspirado pela morte da esposa irascível mas que ele amava, inventa uma beberragem que o permite voltar no tempo para salvá-la. A história é narrada por um amigo do inventor, que o visita esporadicamente e, em cada um dos encontros, se depara com uma realidade mais espantosa que a anterior.
Cesar Alcázar participa com "Na solidão de Phobos", uma história sofisticada em que um homem isolado numa estação espacial vicia-se numa espécie de gravador de sonhos, ao ponto de não saber mais a diferença entre sonhos, gravações e a realidade, uma situação de grande risco para quem está tão longe de casa.
"O terceiro nível", de Maurício Montenegro, também faz uso de um dispositivo similar para contar a história de um cientista que, ao ser entrevistado num programa de tv, sente um mal súbito que o leva a questionar os contornos de sua própria identidade na medida que ela vai sendo sobreposta pela de um criminoso de outra realidade.
Alícia Azevedo, em "Anastasis", inventa uma máquina de ressurreição de animais de estimação, que traz fortuna aos seus criadores, mas imperfeições do processo acabam causando mais dor do que alegria.
"Apenas um botão" é o conto assinado pelo organizador, Ademir Pascale, sobre um garoto problemático, porém genial, que cria um computador com o qual pretende reconfigurar suas próprias memórias, mas os resultados são trágicos.
O experiente autor de hard fiction Jorge Luiz Calife comparece com "Uma questão de tempo", situado no mesmo universo da trilogia Padrões de contato. Luciana Vilares vai à Austrália entrevistar um cientista que afirma ter inventado uma máquina do tempo. É claro que a intrépida jornalista quer experimentar o aparelho e acaba se envolvendo numa aventura selvagem. A história tem a qualidade habitual do autor, mas por conta de alguns detalhes de seu desfecho, soa equivocada dentro do universo da Tríade.
Fechando a antologia, "A fuga", de Marcello Biguetti, conta em tom debochado os passos de um homem infantilizado rumo a uma improvável e certamente imerecida divindade.
Como se percebe, montar uma antologia temática é uma missão complicada quando se depende unicamente de textos inéditos. Mesmo neste caso, em que temos a participação de autores experientes, ninguém arriscou ir além do óbvio e os textos acabaram falando das mesmas coisas, sendo que alguns chegam a ser incomodamente similares entre si. Talvez o prazo estabelecido para a seleção dos contos tenha sido demasiadamente estreito, ou o conceito da obra não foi compreendido plenamente pelos autores. De qualquer forma, o avaliação geral de Estranhas invenções é que, além de ter perdido a grande oportunidade de falar de Da Vinci, a antologia também não satisfaz as expectativas de um leitor que busca pelo estranhamento prometido no título.
Mostrando postagens com marcador editora Ornitorrinco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador editora Ornitorrinco. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 26 de abril de 2023
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
O Feiticeiro Negro ataca!
O evento contará com uma mesa redonda sobre literatura infanto juvenil que, além dos autores, terá a presença de Ana Lúcia Merege e Estevão Ribeiro, e mediação de Ana Cristina Rodrigues. A entrada é gratuita e todos são bem-vindos.
Marcadores:
editora Ornitorrinco,
eventos,
fantasia,
literatura,
Miguel Carqueija,
romances
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
O estigma do Feiticeiro Negro
A Editora Ornitorrinco colocou em pré-venda O estigma do Feiticeiro Negro, novo romance de Miguel Carqueija em parceria com Melanie Evarino, com uma história ao estilo da alta fantasia, com muita aventura, humor e personagens cativantes.Homenagens, personagens saborosos e uma discussão importante.
Nos últimos anos, especialmente ao longo da primeira década do século XXI, muitos romances de Alta Fantasia têm sido publicados no Brasil. Esse subgênero da Fantasia, que se dedica à criação de mundos e realidades completas, é ainda pouco desenvolvido no país, que tem uma tradição mais consolidada no realismo fantástico. Contudo, neste momento, uma infinidade de autores jovens vêm se dedicando à ele. São, em geral, trabalhos recursivos, apoiados em textos de autores de mercados nos quais o gênero é mais desenvolvido.
Longe de ser um pecado mortal, como afirmam muitos críticos, é um caminho de aprendizado, que acontece da mesma forma na poesia, na música, nos quadrinhos, na pintura etc. É inevitável que a globalização cultural influencie os autores nativos, notadamente os mais jovens. A prova é que a rede internacional de computadores está forrada dos chamados fanfics, ou ficções de fã, que repetem situações, enredos, personagens e universos dos autores consagrados. O autor fã, diferentemente do autor original, não pretende necessariamente criar, embora isso até lhe seja possível. Antes, quer reutilizar os elementos que lhe são queridos, que aprendeu a amar e anseia reviver. E da mesma forma pensam os seus leitores, que não são poucos.
O estigma do Feiticeiro Negro é uma fanfic de Alta Fantasia, escrita a quatro mãos por Miguel Carqueija e Melanie Evarino Leite, ambos fãs tanto de ficção fantástica quanto dos animês, os populares desenhos animados japoneses. Assumem, sem pudores, as influências que receberam, aproveitando desde a fantasia do autor britânico J.R.R. Tolkien e até o faroeste, que surge em alguns momentos da narrativa.
Acompanho a carreira literária do escritor fluminense Miguel Carqueija desde seus primeiros trabalhos, publicados nos fanzines brasileiros de ficção científica e fantasia a partir dos anos 1980. O autor tem facilidade em construir mundos e personagens, variar gêneros, e especialmente, inserir bom humor nas narrativas, característica rara na ficção fantástica brasileira, destacada em O estigma do Feiticeiro Negro. Carqueija divide a autoria com sua afilhada, Melanie Evarino Leite que, recentemente, estreou como escritora na antologia Invasão (Giz Editorial), com o conto "Contato de quinto grau", também em coautoria com Carqueija.
O estigma do Feiticeiro Negro é uma típica história de jornada, na qual um herói em missão reúne, pelo caminho, amigos que o ajudam a cumprir seu destino. No caso, uma heroína, a guerreira elfa Gislaine Pétala que, ao partir em resgate de sua montaria roubada, um dragão convenientemente chamado de Morte, vê-se obrigada a intervir no que parece ser uma inevitável guerra total entre dois reinos.
A ela unem-se o enfezado anão Armenio de Gottfried, o falastrão e atrapalhado cavaleiro Iúri, o mago incorpóreo conhecido como Homem Sombra, a mestra espadachim Moira Ryan, o hobbit ladrão Luis Bertholdo e o enorme indígena americano Olho de Águia. Juntos enfrentam as hordas do Cavaleiro Negro, que pretende dominar toda a região e ressuscitar antigos e poderosos espíritos adormecidos. Até alguns dos vilões são adoráveis, como o ambíguo andarilho Scoth Sergeevna e o afetado pirata Barbamarrom.
Mas o mundo de Gislaine Pétala e seus amigos não se revela totalmente e deixa mistérios saborosos à imaginação do leitor. Trata-se, obviamente, de uma realidade alternativa, na qual a magia e os seres mitológicos existem de fato mas, ao mesmo tempo, parece ser uma peça de história alternativa ao sugerir que, tal como aconteceu na nossa realidade, Jesus Cristo, o messias cristão, realizou ali o mesmo ministério e legou a mesma herança: a própria elfa Gislaine afirma ser uma convertida. Ainda que essa interessante especulação não seja desenvolvida, levanta aspectos morais e éticos que podem ser discutidos frente às atitudes da protagonista ao longo da aventura.
Enfim, O estigma do Feiticeiro Negro é uma divertida homenagem à uma pletora de obras de referência que bem o merecem, e agradará àqueles que buscam por um texto acessível, movimentado, bem humorado e positivista.
Marcadores:
editora Ornitorrinco,
fantasia,
Melanie Evarino,
Miguel Carqueija,
romances
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Para ler FC e fantasia brasileira
Seguindo sua prática favorita, os autores brasileiros de ficção fantástica apresentam duas novas seletas temáticas com contos de FC e fantasia.
Estranhas invenções, antologia organizada por Ademir Pascale, foca a obra do artista, arquiteto, cientista e engenheiro renascentista Leonardo da Vinci para falar sobre inventos ainda mais malucos desse famoso e genial personagem histórico, alguns bons, outros nem tanto.
Além do próprio organizador, os autores selecionados para a esse desafio foram Tibor Moricz, Ana Lúcia Merege, Miguel Carqueija, Maurício Montenegro, Marcelo Bighetti, Alícia Azevedo, Cesar Alcázar, Jorge Luiz Calife e Daniel Borba, que também assina o prefácio. O volume tem 120 páginas e é uma publicação da Editora Ornitorrinco. Mais sobre este coletânea pode ser lido aqui.
A conferir também a coletânea Bazar pulp, com sete contos de fantasia, aventura e horror, todos de autoria de Cezar Alcázar, na linha de Robert E. Howard e H. P. Lovecraft. O volume tem formato de bolso, 96 páginas e traz na capa uma ilustração de Fred Macêdo. É uma publicação da Editora Argonautas.
Estranhas invenções, antologia organizada por Ademir Pascale, foca a obra do artista, arquiteto, cientista e engenheiro renascentista Leonardo da Vinci para falar sobre inventos ainda mais malucos desse famoso e genial personagem histórico, alguns bons, outros nem tanto.
Além do próprio organizador, os autores selecionados para a esse desafio foram Tibor Moricz, Ana Lúcia Merege, Miguel Carqueija, Maurício Montenegro, Marcelo Bighetti, Alícia Azevedo, Cesar Alcázar, Jorge Luiz Calife e Daniel Borba, que também assina o prefácio. O volume tem 120 páginas e é uma publicação da Editora Ornitorrinco. Mais sobre este coletânea pode ser lido aqui.A conferir também a coletânea Bazar pulp, com sete contos de fantasia, aventura e horror, todos de autoria de Cezar Alcázar, na linha de Robert E. Howard e H. P. Lovecraft. O volume tem formato de bolso, 96 páginas e traz na capa uma ilustração de Fred Macêdo. É uma publicação da Editora Argonautas.
Marcadores:
antologias,
coletânea,
contos,
editora Argonautas,
editora Ornitorrinco,
fantasia,
ficção científica,
literatura
sexta-feira, 8 de julho de 2011
2013: Ano um

Há poucas horas, aceitei o convite do escritor e blogueiro Daniel Borba para prefaciar uma antologia que ele está organizando, ao lado da também escritora Alícia Azevedo, para as editoras Ornitorrinco e Literata. Trata-se de 2013: Ano um, que pretende reunir textos sobre a reconstrução do mundo após o hipotético apocalipse previsto para dezembro de 2012. Eu não podia recusar um convite desses, afinal, pós holocausto é o meu tema preferido na ficção fantástica.
Diz o texto de divulgação: "Os contos presentes na antologia devem tratar dos eventos pós-apocalípticos de 2012. O que nós queremos é saber como será a reconstrução do mundo após o apocalipse na visão de cada um".
Estão confirmadas as participações de Roberto de Sousa Causo, Gerson Lodi-Ribeiro, Tibor Moricz, Ana Lúcia Merege, Ademir Pascale, Duda Falcão e Adriano Siqueira, convidados para compor a base da antologia que está aberta a submissões de autores que tiverem bons trabalhos nesse tema. Os contos devem ter entre 8 mil e 24 mil caracteres e o prazo para as submissões é 15 de setembro, com o lançamento lançamento previsto para dezembro de 2011.
Maiores informações podem ser obtidas no saite da antologia e com os organizadores, Daniel Borba (dfborba@hotmail.com) e Alícia Azevedo (alazeved@terra.com.br).
Boa sorte.
Marcadores:
2013,
antologias,
Editora Literata,
editora Ornitorrinco,
ficção científica,
literatura
Assinar:
Postagens (Atom)


