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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Resenha: Rei Rato, China Miéville

Rei Rato
(King Rat), China Miéville. 400 páginas. Tradução Alexandre Mandarino; São Paulo, Tarja, 2011.

Saul é um jovem com problemas de relacionamento com o pai, com quem vive em um apartamento na periferia de Londres. Ao voltar de uma viagem, Saul vai direto para o seu quarto sem falar com o pai que, pelo som da tv ligada, estava na sala, provavelmente cochilando. 
Depois de um sono atribulado, Saul é acordado com o barulho de socos na porta da casa: é a polícia. Aturdido, Saul abre a porta e é imediatamente imobilizado pelos policiais, que o levam para a delegacia sob custódia: seu pai está morto no jardim, arremessado da varanda do prédio. O delegado encarregado da investigação acredita que Saul é o culpado, mas o garoto, em estado de choque, não entende nada do que está acontecendo. 
Enquanto aguarda a definição do caso, Saul fica detido em uma cela da delegacia. Mas algo bizarro acontece: um estranho de aparência assustadora, que se apresenta como seu tio, o tira de lá, passando imperceptível pelos policiais. O estranho o apresenta ao submundo de Londres, entre becos, lixo e esgotos. A vida de Saul vai mudar para sempre e as revelações que ele descobrirá serão terríveis não somente para ele, mas também para seus amigos. 
Rei Rato, romance de autoria do escritor britânico China Miéville, é um livro raro hoje em dia no Brasil. Publicado em 2011 pela extinta editora Tarja – de propriedade dos fãs e escritores de literatura fantástica Richad Diegues e Gianpaolo Celli –, teve tiragem pequena e nunca foi reeditado. Miéville, contudo, ganhou notoriedade desde então e o título hoje atrai o interesse de seus muitos leitores. 
Rei Rato foi o romance de estreia de Miéville, que hoje conta com livros premiados como A cidade e a cidade (2009), Estação Perdido (2000) e A cicatriz (2002), todos publicados no Brasil pela editora Boitempo. Por isso, Rei Rato pode soar como um trabalho menor na obra do autor, mas essa é uma percepção anacrônica. De fato, Rei Rato não apresenta o mesmo ritmo frenético, nem a ousadia na construção de mundo dos demais títulos, mas pode-se perceber nele muitas das marcas de estilo do autor, como um alto nível de escatologia e violência,  personagens ambíguos e cativantes, questões políticas evidenciadas, e muita dor. Também há diversos temas dentro da história que ecoam nas obras posteriores. Miéville foi mais ortodoxo na contação da história, que é uma aventura juvenil hard core, regada a música drum and bass e grande quantidade de gírias londrinas explicadas em muitas notas.
A história narra o caminho de descoberta e amadurecimento de um adolescente que se vê envolvido em uma guerra ancestral entre as nações dos ratos, das aranhas e dos pássaros, contra o misterioso e enlouquecido Flautista de Hamellin, que quer exterminar todas elas.
Embora a fantasia do horror estejam muito imbricadas, não é tão óbvio classificar Rei Rato como um romance New Weird (como seus outros livros) porque não há absolutamente nada de ficção científica na história. Mas podemos dizer, sem receio de erro, que se trata de uma fantasia urbana sombria na qual os subterrâneos londrinos são tão importantes quanto os personagens da trama, talvez mais. 
Rei Rato talvez seja mais palatável, apesar da escatologia, para a leitura de quem achou Miéville um escritor difícil de acompanhar, pois trata-se de uma narrativa simples e sem muitas reviravoltas. Contudo, sua leitura prévia não vai ajudar a acompanhar melhor os livros seguintes, porque a velocidade só aumenta e a vertigem é inevitável. Aliás, já dá para sentir um pouco dela aqui, especialmente nas sequências de ação intensa, que beiram o gore. 
Se for possível obter um exemplar, não deixe de ler Rei Rato, e entenda por que o New Weird causou tanto rebuliço na ficção especulativa mundial, inclusive entre os leitores e escritores brasileiros.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Resenha do Almanaque: O homem do futuro

O homem do futuro
, Cláudio Torres, 106 min. Globo Filmes, 2011. 

O homem do futuro é um longa metragem de autoria e direção de Claudio Torres, produzido em 2011 pela Globo Filmes. Conta a história de João, físico brilhante mas extremamente frustrado com o rumo que sua vida tomou após a formatura na universidade, vinte anos atrás: no baile de graduação, sua vida sentimental desmoronou quando Helena, sua namorada, o trocou por outro. Ao esbarrar sem querer na mais importante descoberta da humanidade – a máquina do tempo – João acredita que talvez seja possível voltar para aquela noite fatídica e corrigir o rumo de sua vida infeliz. O problema é que suas interferências no passado acabam por criar uma realidade alternativa ainda pior e João terá de se desdobrar para corrigir tudo antes que sua própria linha temporal desapareça. 
A ideia não é muito original. Por essa breve sinopse fica evidente a influência da série De volta para o futuro, que por si também não era muito inovadora: desde que  H. G. Wells publicou o romance A máquina do tempo, em 1895, os paradoxos temporais têm sido tão explorados que já formam um gênero a parte na literatura de ficção científica – sob o singelo nome de ucronias – tanto que hoje é muito difícil encontrar uma ideia nova dentro do tema. Mesmo na filmografia nacional, temos o curta metragem Barbosa (1988, Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado), que se insere exatamente na mesma linha. 
Resta aos autores recriarem e recombinarem o que já foi feito, torçendo para não desandar na receita, o que quase sempre acontece. O caminho de segurança é simplesmente alterar pontos de vista, inovar no contexto cultural e na estrutura dramática, que é justamente onde estão os méritos de O homem do futuro.
A produção é honesta, com efeitos especiais competentes e um design elegante e sofisticado, que convence plenamente na medida em que, mais que uma ficção científica, o filme é mesmo uma comédia romântica na bem sucedida linha hollywoodiana: João ama Helena que ama Ricardo que não ama ninguém. Por trás de toda a parafernália pesudotecnológica, o que existe de fato é um drama de amor bem contado e competentemente representado por um elenco de experientes artistas globais: Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Gabriel Braga Nunes, Fernando Ceylão, Daniel Uemura, além de participações especiais de Jean Pierre Noher, Rodolfo Bottino e Gregório Duvivier, entre outros.
Com locações em Paulínia, Campinas e Rio de Janeiro, o filme teve um orçamento de R$ 8 milhões e arrecadou mais de R$11 milhões, superando um milhão de expectadores nas salas de cinema do Brasil. Um sucesso que contribuiu de forma decisiva para a abertura do mercado nacional a outras produções do gênero. E esse é sem dúvida um mérito que é necessário exaltar. 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Time out – Os viajantes do tempo

Time out: Os viajantes do tempo, Ademir Pascale, org. 120 páginas. Apresentação de André Carneiro. Belo Horizonte: Estronho, 2011.

Seguindo a tendência iniciada em 2009, 2011 continuou a trazer à luz uma grande quantidade de antologias temáticas, que não deixam de ser uma tradição na fc&f brasileira. Algumas editoras têm de fato se especializado nisso, produzindo antologias em quantidade, embora de tiragens pequenas e memória ainda menor. A maior parte das dezenas de antologias publicadas no período receberam pouquíssimas resenhas e já nem são mais lembradas. Mesmo assim, o ambiente de antologias continua aquecido, com muitos projetos em fase de montagem por diversas editoras, apresentando novos autores, ao lado de veteranos que também precisam de espaço para mostrar seus escritos. Afinal, a quantidade de lançamentos não significa que os mais experientes já tenham estabilidade editorial – pelo contrário, tudo continua incerto e imprevisível, e é preciso aproveitar as oportunidades.
A mineira Estronho é uma das editoras que têm trabalhado fortemente no segmento das antologias temáticas, e em 2011 investiu alguns cartuchos na ficção científica, mas exatamente no subgênero da viagem no tempo, com a antologia Time out: Os viajantes do tempo.
Organizada pelo escritor Ademir Pascale, um dos campeões em organização de antologias temáticas em todos os tempos, Time out reúne oito contos de autores brasileiros, complementados por um ensaio sobre o tema e a apresentação do veterano escritor André Carneiro, uma autoridade no que se refere a ficção especulativa no Brasil.
O conto que abre a antologia é “Déjà-vu: O forte”, de Roberto de Sousa Causo, o texto de ficção mais elaborado do livro. Conta a história de uma mulher diagnosticada com doença terminal, que faz uma viagem sentimental pelo Brasil. Durante visita a um forte histórico, ela tem sua consciência arremessada para o passado, incorporando um soldado naquele mesmo lugar, durante o ataque de uma frota naval.
“A velha canção do marinheiro do futuro”, do próprio organizador, relata a situação incomum de um marinheiro que ficou preso num fenômeno espaço-temporal depois do navio em que estava ter sido usado em uma experiência mal-sucedida: o famoso experimento do USS Philadelphia, integrante da mitologia ufológica. Durante um de seus surtos, ele observa a distopia do mundo de 2075.
O melhor conto da antologia é “A difícil arte de lidar com os patrulheiros do tempo”, de Miguel Carqueija (autor de Farei meu destino; Giz, 2009), devido ao viés cômico que o autor manuseia muito bem. Um cientista meio maluco recebe, em pleno processo criativo, a visita de um jovem que se diz patrulheiro de uma polícia do futuro, que anuncia que vai matá-lo para evitar que invente alguma coisa muito ruim. Sem perder a fleuma, o cientista argumenta de forma a confundir seu assassino e mandá-lo de volta para onde veio.
“Pelas badaladas do tempo”, de Luciana Fátima, é o texto mais curto da antologia. Em clima de poesia, conta as visões de uma mulher ao escutar os sons de um sino.
Álvaro Domingues (autor de Sombras e sonhos; Balão, 2010) também envereda pelo humor em tons farsescos em “Modelo do ano”, em que dois amigos “nerds” que, quando jovens, sonhavam em construir uma máquina do tempo, reencontra-se depois de um afastamento de alguns anos. Um texto leve, mas com um travo machista que certamente não vai agradar as mulheres.
Ecos de Carl Sagan e H. P. Lovecraft se apresentam em “A máquina da insanidade”, de Estevan Lutz (o autor de O voo de Icarus, Novo Século, 2010), no qual um cientista enlouquecido que testou sua própria máquina do tempo, tenta contar sua história para a psicóloga do sanatório onde está internado.
Em “O último trem para as Plêiades”, de Allan Pitz (que escreveu A morte do cozinheiro, Above, 2010), um rapaz conta ao amigo incrédulo o sonho que teve no qual alienígenas o conduziram a uma viagem pelo espaço e pelo tempo, para mostrar-lhe que o fim do mundo está próximo. Texto pessimista e desesperançado, que contrasta com o tom galhofeiro da narrativa.
O último conto da antologia é “Contra o apagar das luzes”, de Mariana Albuquerque (autora de Coração de demônio, Writers, 1999), no qual um grupo de astronautas que testemunhou o fim do mundo cria uma máquina do tempo para voltar cinco anos no passado e tentar impedir a tragédia. Trata-se da mesma premissa do seriado de televisão Odyssey 5; uma fanfic, portanto.
Fecha a edição o breve ensaio “Viagens no tempo na ficção científica brasileira”, de autoria do pesquisador acadêmico Edgar Indalécio Smaniotto, que cita Monteiro Lobato, Erico Verissimo e Jerônymo Monteiro, destaca a noveleta “A ética da traição” (1993), de Gerson Lodi-Ribeiro, e a antologia Intempol, além de outros textos de menor expressão, o que revela a pouca intimidade da fcb com o tema, embora o ensaísta afirme o contrário.
Da mesma forma, a antologia Time out: Os viajantes do tempo é tão leve e despretensiosa que mal arranha o tema. De suas 120 páginas, apenas 80 realmente têm texto, o restante é ocupado por imagens e vinhetas em uma apresentação gráfica sofisticada que merecia a companhia de mais conteúdo.

Resenha do Almanaque: Sagas 1, 2 e 3

Sagas volume 1: Espada e magia (144 páginas), Sagas volume 2: Estranho oeste (144 páginas); Sagas volume 3: Martelo das bruxas (128 páginas), Cesar Alcázar & Duda Falcão, orgs. Porto Alegre: Argonautas, 2010 e 2011.

A Editora Argonautas, de Porto Alegre, como muitas outras editoras novas, é fruto da iniciativa de fãs de literatura de ficção científica e fantasia, no caso os escritores Duda Falcão e Cesar Alcázar. Entusiastas da clássica coleção portuguesa de fc&f Argonauta, da Editora Livros do Brasil, decidiram não apenas dar o mesmo nome à editora, mas estrear com uma publicação que segue a mesma tradição, a coleção Sagas, formada por livros de bolso com antologias temáticas. Trata-se de uma pequena joia em meio à barafunda que se tornou o espaço editorial da fc&f no Brasil, coalhado por antologias temáticas montadas a toque de caixa.
A primeira edição, dedicada à fantasia, foi publicada ainda em 2010, mas as edições 2 e 3, faroeste e bruxaria, respectivamente, saíram em 2011. A edição é cuidadosa e as capas, ilustradas por Nathan Milliner e Fred Macêdo, remetem aos quadrinhos e às revistas pulps.
Sagas volume 1: Espada & magia, tem 144 páginas, prefácio do escritor Roberto de Sousa Causo, e traz textos de autoria de Georgette Silen, Rober Pinheiro e dos próprios editores, explorando enredos na linha das histórias de Conan, O Bárbaro, e de Elric de Melniboné*.
O volume é despretensioso em sua proposta e equilibrado na organização. Os contos são simples, mas correspondem bem à proposta da edição, que é homenagear a Weird Fiction. O melhor texto do conjunto é “A cidadela de Ellan”, de Georgette Silen; de fato é o melhor texto da autora que já tive a oportunidade de ler, com elementos feministas e um enredo que escapa das convenções do gênero. Conta a história de uma guerreira psicologicamente problemática, que precisa recuperar um artefato que está sob a guarda de um velho conhecido, líder de um grupo de salteadores no momento escondidos num castelo. Velhos sentimentos vão emergir em meio à missão que tem tudo para resultar em tragédia.
Sagas Volume 2: Estranho oeste tem prefácio de Thomas Albornoz e apresenta, em suas 144 páginas, cinco histórias macabras de Alícia Azevedo, Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira, todas ambientadas no Velho Oeste norte-americano. Trata-se de um tema muito rico, pois no mesmo período podem ser contadas histórias em variados cenários e personagens: com nativos, dramas familiares em fazendas nas planícies, militaria da Guerra Civil, a Guerra da Independência, ou nas guerras indígenas, histórias com os pioneiros, sobre freakshows, sobre a corrida do ouro na Califórnia e no Alasca, sobre as caravanas, sobre os cowboys que atravessavam o país conduzindo seus rebanhos, sobre a construção das linhas de trens, caçadas de baleias, e até dramas urbanos vitorianos nas grandes metrópoles do leste, e muito mais. Mas faltou intimidade dos autores com o gênero. Todos acabaram contando histórias de pistoleiros metidos em confusões em saloons.
O melhor conto do volume é “Aproveite o dia”, de Christian David, com um protagonista patife e espirituoso que traz um colorido diferenciado à monocromia dos demais contos. Ele é um jogador que se mete numa situação da qual não terá chance de sair vivo, a não ser com muita sagacidade e um bocado de sorte.
A edição tem seus méritos, pois o tema é dos mais espinhosos para os autores brasileiros. Tanto que há poucos livros brasileiros nesse gênero, como os romances Areia nos dentes, de Antônio Xerxeneski (2008), e O peregrino, de Tibor Moricz (2011). Uma alternativa bastante razoável seria trocar o cenário do faroeste pelo cangaço, ou por bandeirantes, ou por jagunços modernos. As histórias poderiam ser exatamente as mesmas, mas ganhariam um colorido mais autêntico e imprevisível.
Finalmente, Sagas volume 3: Martelo das bruxas é o melhor da série, com 128 páginas e contos de Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com prefácio de Simone O. Marques.
“Cada história tem...”, de Christopher Kastensmidt, escritor norte-americano que vive no Brasil e aprecia trabalhar com os temas nativos, narra o duelo entre uma feiticeira e um caçador de bruxas no Brasil colonial, ambos acreditando estarem certos em seus pontos de vista. É o melhor conto publicado na série e, apesar do clima dramático, foi inevitável lembrar da épica luta entre Merlin e Madame Min no clássico desenho animado A espada era a lei (1963), de Walt Disney.
Ana Cristina Rodrigues também se apresenta com um bom trabalho. A história “O quão forte pode um gigante gritar” é ambientada na Irlanda medieval, onde o último sobrevivente de uma raça mágica envolve-se numa situação de risco para salvar uma jovem que está sendo torturada. O maior mérito do conto de Ana Cristina é a história de fundo, que demonstra riqueza suficiente para sustentar um texto bem mais longo. “Encruzilhada”, de Douglas MCT, apesar de não ser tão empolgante quanto os contos anteriores, destaca-se pelo estilo narrativo diferenciado. Conta a história de duas irmãs, meninas ainda, que precisam cumprir um ritual mágico de sacrifício mas, para isso, terão de enfrentar adversários poderosos.
A publicação é simpática e bem feita, contudo, depois do início alvissareiro, lançou apenas mais dois volumes: Sagas volume 4: Odisseia espacial (2013) e Sagas volume 5: Revolução (2014) que, infelizmente, encerraram a coleção. Uma revista similar, a Multiverso Pulp, voltaria em 2020, organizada pelo próprio Duda Falcão, agora pela Editora Avec. Sinal que o cancelamento de Sagas foi, decididamente, um tanto prematuro.
 
*Criações respectivas de Robert E. Howard e Michael Moorcock.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Muitas peles, Luiz Bras

Muitas peles, Luiz Bras. 128 páginas. São Paulo: Terracota, 2011

A produção de não-ficção no ambiente editorial fantástico brasileiro não é grande, mas tem se mantido estável, com dois ou três publicações por ano. Contudo, geralmente são textos oriundos de trabalhos de graduação acadêmica, com toda a parafernália que caracteriza os ensaios de pesquisa científica universitária: muitas citações, notações de referência e notas de pé de página, o que torna a leitura fragmentada e cansativa, sem esquecer que são textos voltados a provar uma tese, ou seja, são construídos em torno de um objetivo específico e o perseguem até que seja atingido; afinal, se isso não acontecesse, o trabalho seria rejeitado pela banca e seu autor teria de refazê-lo até obter esse resultado. São, portanto, leituras pragmáticas, de interesse específico, que depois de defendidas, aprovadas e publicadas, ficam nas estantes esperando que futuros pesquisadores acadêmicos as tomem para buscar referências e citações para seus próprios trabalhos.
Mas, algumas vezes, surgem títulos que não foram produzidos para o ambiente acadêmico e tornam-se trabalhos de leitura mais fluida para o leitor leigo, como por exemplo O que é ficção científica (Brasiliense, 1986) e Um rasgão no real (Marca de Fantasia, 2005), ambos de autoria de Braulio Tavares.
E também é o caso de Muitas peles, primeiro livro de não-ficção de Luiz Bras, publicado pela Editora Terracota com recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo), distribuído gratuitamente pelo autor. Trata-se de uma coletânea que reúne os melhores artigos de Luiz Bras, publicados na coluna “Ruído branco” do jornal literário Rascunho, de Curitiba.
Luiz Bras notabilizou-se por uma atitude de militância no gênero da ficção científica, atuando como escritor e ensaísta, com propostas de impacto e provocações que transcendem o fandom e ecoam no mainstream literário como nunca antes foi conseguido pelos escritores do gênero. Isso porque Luiz Bras é a persona do multipremiado escritor mainstream Nelson de Oliveira, sendo dele o heterônimo para a ficção científica. Bras tem sido extremamente ativo, publicando vários livros a cada ano, sempre de qualidade acima da média, tendo sido extensamente entrevistado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica em sua edição referente a 2010, ano em que teve publicada a ótima coletânea de contos Paraíso líquido, pela mesma Terracota.
Não por acaso, Muitas peles traz na capa um desenho de Teo Adorno (outro heterônimo do autor), o mesmo artista que ilustrou a capa de Paraíso líquido, e isso até pode confundir o leitor, mas tratm-se de trabalhos completamente diferentes.
Muitas peles traz dezesseis textos que discutem questões interessantes ligadas ao ato da escrita e da crítica literária, bem como sobre os valores da literatura de gênero, especialmente a ficção científica, frente aos caminhos do mainstream.
Entre os textos está o importante “Convite ao mainstream”, no qual Bras convida todos os autores brasileiros a experimentarem a ficção científica como uma alternativa ao engessamento estilístico da literatura brasileira, um texto que já se tornou basilar no ambiente da fc&f nacional.
Mas o livro tem muito mais a oferecer. Além de “Convite ao mainstream”, Muitas peles traz outros artigos que ampliam a percepção do leitor tanto para a literatura de gênero quanto para o mainstream, como por exemplo “Duas elites”, no qual Bras confronta lucidamente os parâmetros analíticos que predominam nos ambientes da ficção de gênero e do mainstream. O artigo é composto por breves depoimentos de Ana Cristina Rodrigues, Braulio Tavares, Fabio Fernandes, Guilherme Kujawski, Marcello Simão Branco, Roberto de Sousa Causo e Tibor Moricz, todos nomes vinculados ao fandom brasileiro de fc&f, ampliando o leque de opiniões expostas. Faltou, contudo, a contraparte mainstream para configurar um bom debate.
Os demais artigos que compõe o volume são: “O infinito: um delírio?”; “Fim do papel, fim da poesia”; “Escolha um futuro”; “Cinco erros”; “Três leis”; “Sabedoria secreta”; “Olha, mãe, uma cor voando!”; “Encontro com o autor-personagem”; “O autor e seu editor”; “Elogio do acaso”; “Paraíso perdido: a infância”; “Morte e imortalidade” e “Crítica é cara ou coroa”. A coletânea também abre espaço para o artigo “Um bárbaro que se preze não vem para o chá das cinco”, de Roberto de Sousa Causo, escrito a convite de Bras.
Muitas peles é um livro ágil, de leitura leve e agradável, mas de impacto contundente. Sem dúvida, uma das mais importantes publicações do gênero nos últimos anos.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Espectra – Histórias de fantasmas

Espectra: Histórias de fantasmas, Tomo 1, Georgette Silen, org. 240 páginas, prefácio de Simone O. Marques. Praia Grande: Literata, 2011.

Não há dúvida que o gênero preferido dos fãs de ficção fantástica é o horror. Neste momento, há um grande rebuliço com a fantasia por conta dos sucessos internacionais como O senhor do anéis, Harry Potter e A guerra dos tronos, mas o horror sempre esteve na ordem do dia. Mesmo quando a fantasia era interesse apenas de uns poucos nerds jogadores de rpg e a ficção científica dominava o cenário editorial, o horror estava lá, firme e forte, com seus fãs fiéis e ardorosos que sempre responderam bem aos produtos em todas as mídias.
Talvez seja por isso que, apesar de não predominar no formato de romance, as antologias do gênero são tão abundantes e voluptuosas. Em 2010, das 59 antologias inéditas publicadas no ano, 30 eram de horror, conforme dados divulgados no Anuário brasileiro de literatura fantástica 2010, e em 2011 não foi diferente.
Alguns organizadores especializaram-se na montagem de antologias de horror, como Ademir Pascale, M. D. Amado e Georgette Silen. Esta organizou para a editora Literata o volume Espectra: Histórias de fantasmas, que promete ser o primeiro de uma série.
O livro reúne em 240 páginas nada menos que 31 contos de 28 autores, boa parte deles estreantes. Como o título já diz, trata-se de uma antologia temática dedicada às histórias de fantasmas e assombrações. E no livro há um pouco de tudo: demônios, poltergeists, aparições, casarões e, é claro, fantasmas aos montes. É até estranho que com tanto fantasma por aí, eu nunca tenha visto um só sequer.
Seria exaustivo comentar todos os contos, mas vale a pena destacar alguns deles.
“Inferno particular”, de Sheilla Liz Cocconello, uma veterana nas antologias de ficção fantástica, conta o cotidiano de uma jovem suicida que, condenada a uma eternidade infernal, resiste em abandonar o local de sua morte. Mas não importa o quanto protele seu destino, o inferno sempre estará esperando por ela e não está com pressa.
Taiane Gonçaves, que estreou na antologia Tratado secreto de magia (Andross, 2010), participa desta seleta com três textos. O melhor deles é “As treze almas”, sobre um jovem que, ao visitar uma tia no interior, se vê as voltas com o fantasma de um assassino psicopata.
O saudoso Adriano Siqueira, autor da coletânea Adorável noite (Estronho, 2011), foi especialmente convidado para o livro e também oferece um texto interessante e divertido. “70 Km por hora” relata, em clima de videogame, uma noite de trabalho de um detetive especializado em casos bizarros. Aqui, o de um automóvel assombrado que coloca toda a cidade em risco.
“Anga”, de Carlos Gaiten, outro autor experiente em antologias, investe numa história de laivos políticos, na qual um vidente recebe de um fantasma a localização de uma vala onde estariam enterradas várias vítimas da ditadura militar.
“A gameleira”, de Carmelo Ribeiro, é o melhor texto da coletânea. Trata-se de um “causo” contado a moda antiga, sobre dois homens valentes que se desafiam mutuamente a enfrentar a maldição de uma velha árvore.
Outro bom texto é “Altar de ossos”, de Marcelo Augusto Claro. Um pai e seu filho, cuja profissão é caçar fantasmas, vão enfrentar um dos piores numa velha casa de fazenda.
Gian Danton, premiado roteirista de quadrinhos e um dos autores mais experientes do grupo, participa com o conto “Lembranças de sangue”, sobre um jovem estudante que se hospeda na casa de uma senhora simpática, mas vai descobrir, da pior forma possível, que o lugar é assombrado por lembranças de sangue e morte.
Além destes, o livro ainda traz textos de Marcelo Augusto Claro, Sória Celestino, Bruno Anselmi Matangrano, Vicente Reckziegel, Eduardo Bonito, Suzy M. Hekamiah, Jéssica Schiavetto Linhares, Michele C. Marchese, Debby Lenon, Marjorie Tolentino, Rosi Caobiano, Cecília Torres Nogueira, Rubens Alves, Sandra Françoso, Débora Jeronymo, Andrea Betoldo, Mariana Albuquerque, MBlannco, Celso Correa de Freitas, da prefaciadora Simone O. Marques e da própria organizadora, Georgette Silen.
Apesar da grande quantidade de autores e ampla variedade de estilos, a antologia é equilibrada e fácil de ler. Não chega a ser assustadora; está mais para divertida, como geralmente são as histórias populares de terror, e representa bem o estado da arte no ambiente dos fãs do gênero.
Na falta dos fanzines, quase todos extintos, as antologias têm cumprido a função de permitir o exercício editorial de novos autores, dessa forma são uma espécie de incubadora de talentos. Esperemos que, futuramente, alguns deles desdobrem suas asas e arrisquem voos solo. Aí sim, ninguém vai segurar essa turma.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Dieselpunk – Arquivos secretos de uma bela época

Dieselpunk: Arquivos secretos de uma bela época, Gerson Lodi-Ribeiro, org. 384 páginas. São Paulo: Draco, 2011.

O hábito de montar seletas de contos e novelas parece mesmo ser um dos grandes prazeres do fãs de fc&f no Brasil. E, curiosamente, temos um critério próprio que permite que essas coletâneas sejam possíveis num mercado que praticamente não publica ficção curta de outra maneira.
De modo geral, antologias são montadas com textos já experimentados em outros veículos, principalmente revistas periódicas. É comum nos Estados Unidos, por exemplo, seletas do tipo “O melhor da nova fc” ou “O melhor do novo horror”, reunindo os textos de autores que estrearam nos últimos meses. 
Isso até poderia ser possível hoje diante da estreia, nos últimos três anos, de alguns periódicos literários reais e virtuais apoiados na publicação de ficção de gênero, mas ainda são poucos e de periodicidade muito espaçada, o que resulta em uma quantidade pequena de material publicado para favorecer uma seleta. 
Dessa forma, a dinâmica adotada pelas editoras brasileiras, grandes e pequenas, tem sido abrir editais para que os escritores submetam seus textos, inéditos ou não, ao crivo de um ou mais organizadores que vão escolher quais serão os textos adequados ao projeto, e foi essa dinâmica que favoreceu o florescimento de uma indústria de antologias nacionais nos últimos anos que, tal como os cogumelos, surgem da noite para o dia. Essas seletas têm sido a base do exercício da ficção fantástica nacional, mas não permitem que antologias reunindo “os melhores do ano”, por exemplo, sejam realizadas, uma vez que os textos ficam retidos por contrato com as editoras. Exceções são as antologias montadas a partir de material mais antigo, especialmente em domínio público.
Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e ppublicada pela Editora Draco em 2011, adotou o método do edital para histórias inéditas. Seguindo o molde de uma antologia anterior, Vaporpunk: Relatos steampunk publicados por ordem de Suas Majestades, lançada em 2010 pela mesma editora, Dieselpunk também se propõe ser uma seleção de textos de história alternativa. Se em Vaporpunk a tecnologia dominante deveria ser o motor a vapor, em Dieselpunk supõe-se que seja o motor a óleo diesel que vai mover as histórias. Como a tecnologia do diesel ainda está por aí, podemos imaginar que qualquer coisa moderna pode estar enquadrada na premissa. Pelo menos, sempre vejo nos postos de combustível, ao lado das bombas de gasolina, álcool e gás, uma de óleo diesel. Mas a ideia talvez não fosse bem essa, já que a maior parte dos autores selecionados trabalharam temas restritos às primeiras décadas do século XX.*
O texto que abre a seleção é “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, uma aventura de vingador mascarado ambientada nos anos 1930 de um Brasil no qual os princípios da União Socialista Soviética tornaram-se a política predominante. É claro que o Escorpião Azul vai enfrentar os comunistas.
“O grande G” é uma fábula tecnológica escrita por Tibor Moricz, que contrapõe duas metrópoles — uma movida a carvão e outra a diesel — que lutam pelo predomínio econômico. No lado do diesel, um feroz empresário faz uso de todos os instrumentos de que dispõe não só para manter sua cidade na liderança, mas também para satisfazer suas taras e manter o poder em suas próprias mãos. O texto é algo libertino na abordagem, mas de fundo extremamente moralista: “não façam isso em casa, crianças, ou vocês vão se dar mal.”
“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o choço excomungado”, de Octávio Aragão, explora o confronto entre o bando de Lampião e a Coluna Prestes, que historicamente nunca aconteceu. Mas há mais na noveleta além do encontro destes dois mitos da história brasileira, entre os quais se incluem armas de tecnologias muito avançadas, pós-humanismo, viagens no tempo e um pouco de ufologia, Ou não. Trata-se de um bom trabalho, com muita ação e um final feliz.
“Impávido Colosso”, de Hugo Vera, é um épico ingênuo inspirado nos animes de robôs gigantes para contar como um Brasil monarquista, comandado pelo sucessor de D. Pedro II, enfrenta um infame ataque da Argentina à região sul do país. Enquanto o agressor usa um exército de autômatos mecânicos cedidos pelo Império Britânico, o Brasil defende-se com o experimental Impávido Colosso, um robô gigante projetado pelo engenheiro Rudolf Diesel e tripulado por uma bombshell paraguaia que é uma declarada homenagem à Larissa Riquelme, musa da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, uma entre muitas citações que acabam chamando mais a atenção do leitor do que a história em si.
O único conto não inédito da antologia é “Pais da aviação”, de autoria do próprio organizador, que já havia sido visto na antologia Vinte voltas ao redor do Sol, publicada pelo CLFC em 2005. Numa França em que Jules Verne é o presidente da República, Santos Dumont e os Irmãos Wright disputam a primazia de serem os primeiros homens a alçar voo num aparelho mais pesado que o ar.
O jornalista Antonio Luiz M. C. Costa participa com “Ao perdedor, as baratas”, um suspense político sobre um atentado a vida de um importante candidato a presidência num Brasil subdividido em repúblicas menores, inimigas entre si. A barata do título faz uma pontinha no final da história.
“Auto de extermínio”, do jovem fluminense Cirilo Lemos, é de longe o melhor texto da antologia e, arrisco dizer, um dos melhores contos da fc brasileira em todos os tempos. Bem escrito, com diálogos precisos, cenas empolgantes e personagens muito bem estruturados, a noveleta apresenta recursos mais que suficientes para ser expandida num romance. Até as citações são de uma engenhosidade inspirada e não perturbam a credibilidade da história, que gira em torno de Jerônimo Trovão, assassino de aluguel que se mete numa confusão maior do que pode administrar. A trama de várias frentes revela aos poucos a estrutura do rico universo alternativo que Lemos criou.
Outra noveleta ótima é “Cobra de Fogo”, do experiente roteirista Sid Castro, um dos raros exemplos de ficção desportiva na fc brasileira. É o texto que melhor responde às propostas da antologia, com uma corrida mundial de super locomotivas, sendo M’Boitata, a tal Cobra de Fogo, a representante do Brasil nessa disputa que tem um ligeiro fundo político. Ecos de Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, filme de 1965 dirigido por Ken Annakin, reverberam em cada página da noveleta, que tem um sabor Golden Age bem ao gosto do leitor brasileiro.
O texto que fecha o volume é “Só a morte te resgata”, do português Jorge Candeias, único autor estrangeiro da antologia. A primeira metade da história é militar, com uma batalha aérea entre caças e dirigíveis, que depois é completada por um thriller de espionagem, no qual um sobrevivente da batalha narrada anteriormente tenta retornar para casa. Trata-se de uma história dramática, e uma breve notinha final acrescenta-lhe uma profundidade pessoal emocionante.
Graças à experiência e representatividade dos autores selecionados, Dieselpunk resultou numa antologia de qualidade média superior às seletas nacionais publicadas recentemente. Um caminho adequado caso se pretenda construir outras seleções de boa qualidade dentro das limitações do mercado brasileiro.
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* Assim como a antologia anterior, esta reúne histórias de ficção científica recursiva, voltada para o passado.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Conan, o bárbaro, Robert E. Howard

Conan, o bárbaro (Conan, the conqueror), Robert E. Howard. 392 páginas. Tradução de Alexandre Callari.  São Paulo: Évora/Generale, 2011.

Depois de quase um século, finalmente as editoras brasileiras parecem ter descoberto os atrativos da Weird Fiction, estilo narrativo desenvolvido em revistas pulp como a Weird Tales, editada em 1923 por J. C. Henneberger, em Chicago, EUA. Em 2011 chegou às livrarias brasileiras, pela Editora Évora, a coletânea Conan, o bárbaro, de Robert E. Howard, a reboque do lançamento da superprodução cinematográfica homônima, dirigida pelo alemão Marcus Nispel, remake do grande sucesso de 1982 estrelado por Arnold Schwarzenegger. O livro traz alguns textos inéditos no Brasil deste personagem que é uma bem-sucedida franquia internacional, que se espalha por diversas mídias como o cinema, os quadrinhos, a televisão e os videogames.
Howard nasceu em dezembro de 1906, em Peaster, Texas, e nos breves 30 anos em que viveu, construiu uma saborosa mitologia ancestral, amálgama de histórias de guerras medievais com fantasias das Mil e Uma Noites, que hoje é conhecido como o subgênero Sword and Sorcery (Espada e Magia). Nessa versão delirante do passado da humanidade trafega Conan, guerreiro das montanhas geladas de algum lugar que parece ser o norte da Europa e que, no mundo criado por Howard, chama-se Ciméria. Aliás, Howard redesenhou o mapa do mundo, definindo um continente estranho, no qual se pode identificar versões de diversas culturas recentes, como os turcos, os árabes, os egípcios e até os romanos. A arquitetura descrita também se apoia nas desses povos, com uma boa dose de medievalismo europeu. Depois de bem cosida, Howard fixou essa mixórdia cultural numa época doze mil anos atrás, quatro mil anos depois do desaparecimento da lendária Atlântida, que chamou de Era Hiboriana. O ambiente é tão rico que permitiu a criação de outros personagens, como o Rei Kull, que governou a Atlântida em seus últimos dias.
Quase todas as histórias de Conan foram escritas entre 1926 e 1930, e publicadas principalmente na Weird Tales. A primeira história impressa foi chamada “A fênix e a espada” (“The phoenix on the sword”),  publicada em 1932. A série original completa conta com apenas vinte e um textos, três dos quais publicados postumamente. Na década de 1950, o material foi republicado em forma de livro pela Gnome Press, e reeditado em 1966 com belíssimas capas ilustradas por Frank Frazetta, que lhe renderam o sucesso atual. Autores como L. Sprague de Camp e Lin Carter deram sequência às aventuras de Conan, algumas a partir de manuscritos incompletos posteriormente descobertos.
No Brasil, os textos de Howard foram pouco publicados. A primeira tradução que se tem notícia foi do conto “A fênix e a espada”, visto em 1973 no número 7 da revista Planeta (Editora Três), então editada por Ignácio de Loyola Brandão. Outro texto de Howard só iria aparecer em 1990: “O povo do Círculo Negro” (“The people of the Black Circle”), publicado na antologia Isaac Asimov Apresenta: Magos, os Mundo Mágicos da Fantasia (Editora Melhoramentos). Em 1995, a editora Mercuryo, pelo selo Unicórnio Azul, distribuiu nas bancas cinco volumes do periódico Conan: Espada e Magia, com uma seleção de histórias do bárbaro escritas por Howard e seus seguidores. No ano seguinte, a editora Newton Compton Brasil distribuiu, do mesmo modo, um volume com a novela Pregos vermelhos (Red nails), um dos maiores clássicos do personagem. Em 2006, a Editora Conrad publicou dois volumes somente com contos de Conan escritos por Howard, na sua sequência original.
Conan, o Bárbaro apresenta quatro textos: o já anteriormente visto “Os profetas do Círculo Negro”, mais os inéditos “Além do Rio Negro” (“Beyond the Black River”), “As negras noites de Zamboula” (“Shadows in Zamboula”) e “A hora do dragão” (“The hour of the dragon”).
O livro inicia justamente com “A hora do dragão”, que narra um episódio da vida madura de Conan, durante seu reinado na Aquilônia. Três nobres de segunda linha tramam com um feiticeiro para se colocarem no poder dos reinos da região da Aquilônia. Para isso, restauram a vida de Xaltotun, um poderoso mago do extinto reino do Pyton, fazendo uso de um objeto místico chamado Coração de Ahriman. Xaltotum usa seus poderes para tirar Conan do trono, mas seu objetivo é muito mais amplo do que esperam seus capangas: ele pretende restaurar o antigo poder de Pyton e dominar todo o mundo hiboriano. Enquanto os nobres mergulham a região num banho de sangue, o deposto Conan tem que lutar para sobreviver, descobrir uma forma de derrotar o poderoso Xaltotum e assim poder recuperar seu trono. Trata-se do texto mais longo que Howard escreveu com o bárbaro. Considerado como o único “romance” de Conan, “A hora do dragão” é, na verdade, uma novela de narrativa linear centrada no protagonista. A história é cheia de detalhes, com muitos personagens e as costumeiras cenas da batalhas grandiosas típicas das aventuras de Conan.
“Além do Rio Negro” é o texto seguinte, uma noveleta que mostra o herói num período anterior, quando ele ainda era um guerreiro errante. Embrenhado na selva, Conan se envolve em uma guerra de fronteira com os selvagens pictos, raça de homens primitivos e ferozes, liderados por um xamã sedento de vingança. Apesar de curto, é o texto mais denso do volume, com um forte clima claustrofóbico.
“As negras noites de Zamboula” é a narrativa mais curta da coletânea. Depois de escapar de uma armadilha engendrada pelo proprietário da hospedaria onde dormia, Conan conhece uma linda dama que o convence a resgatar seu amante das garras de um feiticeiro. Depois de algumas tribulações, Conan acaba aplicando sua costumeira justiça, inclusive contra o traiçoeiro estalajadeiro que tentara enganá-lo.
“Os profetas do Círculo Negro” fecha o volume, um texto com a mesma carga épica da novela inicial. Conan é o líder de um bando de salteadores das montanhas que tenta negociar com a milícia local a libertação de alguns de seus homens que foram capturados. Mas ele é atacado e, ao fugir, leva a rainha Jasmina de Vendhya refém. Esta, por sua vez, pede a ajuda de Conan para vingar seu irmão morto pelas artes mágicas dos Profetas Negros de Yimsha, necromantes que habitam uma fortaleza mística no alto das montanhas. Levado pelas circunstâncias, Conan não tem outra opção a não ser enfrentar esses seres, para salvar a própria vida e recuperar a liderança de seus homens.
Os textos têm tradução de Alexandre Callari, autor da casa pela qual teve publicado em 2011 o romance Apocalipse zumbi. Callari assina também a apresentação da coletânea, que tem prefácio do roteirista norte-americano Roy Thomas, comentando a adaptação do personagem para os quadrinhos, o que soa um pouco deslocado no contexto de um volume literário, especialmente para aqueles leitores que não acompanham os quadrinhos do personagem.
O livro ainda traz um caderno de oito páginas com imagens em cores do remake e a capa reproduz o cartaz do filme. O grande problema ao associar tão enfaticamente a publicação de um texto clássico como este a uma adaptação cinematográfica é a enorme possibilidade de que o filme seja mal recebido pela crítica e pelo público. E quando um filme não vai bem, seus subprodutos tendem a seguir-lhe a trajetória, o que seria uma pena no caso deste livro, que tem qualidades suficientes para sustentar-se. Afinal, se há um subproduto aqui, ele é o filme.
No momento em que títulos como O senhor dos anéis, Crônicas de Nárnia e A guerra dos tronos estão entre os mais vendidos das livrarias, é um ótima chance para Howard, que foi um daqueles que moldou a forma original da fantasia como gênero.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: A bondade dos estranhos, João Barreiros

A bondade dos estranhos, João Barreiros. 210 páginas. Capa: Verena Peres, sobre ilustração de Marcelo Tonidandel. Adaptação para o português brasileiro por Luiz Marcos da Fonseca. Tarja Editorial, São Paulo, 2011.

Um dos mais bem-vindos fenômenos da Segunda Onda da ficção científica brasileira foi o intercâmbio com os autores portugueses, efetivado inicialmente através dos fanzines brasileiros e robustecida pela presença de representantes brasileiros nos congressos de fc&f realizados em Portugal, eventos estes em tudo mais sofisticados que seus correlatos brasileiros, uma vez que contavam com a presença de ilustres autores anglófonos e até com a publicação de raras antologias bilíngues nas quais alguns autores brasileiros lograram estampar trabalhos. Essa convivência exigiu a criação do termo “ficção lusófona” para se referir aos trabalhos de fc&f em língua portuguesa, não importando a nacionalidade do autor. Hoje, essa convivência já não é tão próxima quanto foi nos anos 1990, mas ainda se observa em algumas antologias brasileiras e portuguesas.
De forma geral, a relação só trouxe benefícios para a ficção científica no Brasil, uma vez que os autores portugueses demonstram habilidade e sensibilidade superiores em relação ao trato da língua e do gênero, sendo bons exemplos de criatividade e técnica.
Entre os autores lusitanos que desenvolveram uma relação mais íntima com o fandom brasileiro está João Manuel Barreiros, que teve diversos trabalhos aqui publicados, em fanzines como o Somnium, Megalon e Scarium, alguns deles premiados. Por isso tudo, é surpreendente que tenha demorado tanto tempo para que um editor brasileiro percebesse o valor do texto de Barreiros.
A bondade dos estranhos está com toda a certeza entre os melhores textos de fc já publicados no Brasil, com altas doses de ação, aventura, emoção e maravilhamento, sem esquecer do estilo arrojado característico do autor. O romance foi publicado em Portugal em 2007 pela Escritório Editora e promete ser o primeiro volume de uma trilogia.
A narrativa é voluptuosa e sensual, repleta de um fremir ansioso por mais e mais, numa orgia de violência e escatologia. Mas não há sexo em A bondade dos estranhos. O apelo é muito mais básico: a fome e a gula.
Num futuro em que a Terra foi definitivamente colonizada por diversas raças alienígenas, vive Joana Mendes, uma adolescente que, quando criança, foi selecionada para participar do projeto experimental Candy-Man, que lhe legou uma habilidade empática especial, mas deixou sequelas psicológicas graves. Os danos causados pelo despertar das habilidades de Joana são usados como instrumento de chantagem para convencê-la a cuidar, durante 24 horas, dos filhotes de um dos mais altos dignitários de uma das raças alienígenas que agora dominam o planeta. A tarefa seria fácil, não fossem eles de uma espécie predadora cuja agressividade se manifesta mais abertamente durante a juventude.
O cenário desse futuro também não é dos mais alvissareiros. A Terra está dividida entre três raças alienígenas invasoras que são concorrentes entre si: os angsts e os spleens, ambos absolutamente misteriosos para a percepção humana; e os spiertvick’kaps, um tipo de escorpião gigante, também chamados de helloweens por causa de sua cabeça em forma de abóbora. Apesar das evidentes diferenças físicas e culturais, é a raça alienígena mais identificada com a percepção e psicologia humanas. A presença dessas raças no planeta causa inúmeras e imprevisíveis alterações no ecossistema e na biologia terrestres, suas genéticas interagindo com animais e plantas nativos, transformando o planeta num ambiente em efervescente mutação.
Para não ser ainda mais responsabilizada pela misteriosa tragédia que aconteceu quando do despertar de suas habilidades, Joana aceita o “convite” da embaixadora spiertvick’kap Vielmina Spratzt, que vai ausentar-se para uma conferência e precisa que alguém tome conta de sua ninhada de nada menos que 500 filhotes. Joana vai contar com a orientação e supervisão de Mr. Jeeves, um mordomo robô tão formal quanto rigoroso. Para ele, a jovem humana nada mais é que um grande aborrecimento.
Joana tem que usar toda a sua capacidade empática para se impor frente aos vorazes filhotes, o que por si já não é tarefa fácil. Mas não é tão simples assim. No processo, Joana descobre que nos bastidores da propriedade de Vielmina Prazt prospera algum tipo de conspiração, cuja necessidade é que ela não saia de lá viva, mas Joana está resoluta a não colaborar com o esquema.
O romance tem características cyberpunks óbvias, mas também apresenta contornos New Weird, sendo exemplo bem acabado do que há de mais moderno na ficção científica internacional, um caldo de informações tão abundante e rico que o leitor brasileiro, acostumado a dietas mais leves, pode ficar perturbado.
Não é por acaso. João Barreiros é um especialista em fc, dono de uma biblioteca invejável que parece ter lido integralmente. Além de escritor, é tradutor, editor e crítico, formado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Ganhou dois Prêmios Nova e é autor de alguns dos mais festejados romances de fc em língua portuguesa, como Disney no céu entre os Dumbos (E-nigma Pro, 2001), A verdadeira invasão dos marcianos (Presença, 2004), e o volumoso Terrarium: Um romance em mosaicos (Caminho, 1996), em parceria com o escritor português Luís Filipe Silva. Também publicou as coletâneas O caçador de brinquedos e outras histórias (Caminho, 1994), Duas fábulas tecnocráticas (do autor, 1997) e Se acordar antes de morrer (Gailivro, 2010).
Por tudo isso, A bondade dos estranhos é leitura obrigatória a todos aqueles que querem ter uma verdadeira experiência literária gnóstica e gastronômica. Se é que você me entende.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Resenha do Almanaque: Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política, Marcello Simão Branco org. 408 páginas. Capa Vagner Vargas. São Paulo: Devir Livraria, 2011. Coleção Pulsar.

Depois de dois anos de trabalho entre os primeiros convites aos autores e o lançamento do volume, a antologia Assembleia estelar chegou bem mais parruda do que se imaginava a princípio, com quatorze textos, entre contos e noveletas, incluindo trabalhos dos importantes autores norte-americanos Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin (1929-2018).
A ideia nasceu do envolvimento do organizador com a política, uma vez que Marcello Simão Branco, além de respeitado estudioso de ficção científica, é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor na Unifesp nessa disciplina. Nada mais natural, portanto, que se lançasse à tarefa de aproximar suas duas paixões. Branco editou por muitos anos o prestigioso fanzine de ficção científica e horror Megalon e organizou uma das mais importantes antologias temáticas brasileiras, Outras copas outros mundos, publicada em 1998 pela Editora Ano-Luz. Desde a suspensão do Megalon, fanzine que editou entre 1988 e 2004, Branco dedicou-se exclusivamente ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual é um dos autores, e sua volta à aorganização literária criou muita expectativa.
Política é um tema que sempre recebeu interesse dos autores de fc. Obras clássicas e maiúsculas no gênero, como Tropas estelares (Starship troopers, 1959) e Estranho numa terra estranha (Stranger in a strange land, 1961) de Robert A. Heinlein, O mundo de Zero-a (The world of Null-a, 1948), de A. E. van Voght, Admirável mundo novo (Brave new world, 1932) de Aldous Huxley, 1984 (Nineteen eighty-four, 1949) de George Orwell, A muralha verde (We, 1920), de Evgeny Zamiátin, e Os despossuídos (The dispossessed: An ambiguous utopia, 1974), de Ursula Le Guin, entre outros, atestam o vigor que o tema detém dentro do gênero. Contudo, no Brasil, há poucos exemplos nessa linha, e os que existem pertencem à produção de autores do mainstream, que o abordaram de maneira transversal e alegórica, como Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, Não verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, Fazenda Modelo (1974), de Chico Buarque de Holanda, e Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga. Faltava mesmo que alguém demonstrasse que o tempo da censura e das perseguições políticas passou e podemos voltar a falar abertamente sobre política no Brasil, especialmente dentro do ambiente especulativo, que permite um leque amplo de abordagens criativas.
Além dos estrangeiros já citados, aos quais também se une o escritor português Luiz Filipe Silva, Branco selecionou textos de autores brasileiros cujos nomes já são bastante associados ao gênero, como André Carneiro e Daniel Fresnot. Contudo, a maior novidade da antologia é um texto do autor mainstream Fernando Bonassi, um verdadeiro achado do antologista.
O volume abre com um longo ensaio “Afinidades eletivas entre ficção científica e política”, do organizador, contextualizando a proposta e detalhando exemplos históricos na literatura estrangeira e nacional.
O primeiro conto é “A queda de roma, antes da telenovela”, de Luís Filipe Silva, um dos grandes nomes da fc lusitana, numa história sobre o ocaso do último político “à moda antiga”, ou seja, que atua num sistema representativo, uma vez que a atividade política se transferiu para uma nova tecnologia, não exatamente melhor conforme o ponto de vista.
Em seguida temos o excelente “Anauê”, de Roberval Barcellos, provavelmente o autor brasileiro mais politizado de sua geração. É uma história alternativa de um Brasil governado por uma ditadura nacionalista, visto através de um burocrata do Partido Integralista que tem de optar entre manter o seu status quo ou sua integridade moral frente a um terrível programa de higiene social.
“Gabinete blindado”, do veterano autor da Primeira Onda, André Carneiro, é o melhor texto da antologia. Com um estilo elegante e surpreendente, que muitos ainda acreditam não ser possível usar nos gêneros especulativos, Carneiro revive os Anos de Chumbo da ditadura militar, na história dos integrantes de um aparelho de guerrilha em plena operação.
“Trunfo de campanha”, de Roberto de Sousa Causo, é um texto do ciclo de Jonas Peregrino, space opera que o autor vem desenvolvendo em episódios espalhados por diversas publicações.  Aqui, Jonas tem que enfrentar as intrigas políticas de um figurão que quer se aproveitar de sua imagem de herói de guerra, numa história se assemelha às aventuras de espionagem ao estilo James Bond, porém com raios laser.
“Diário do cerco de Nova York”, do franco-brasileiro Daniel Fresnot, já é um clássico, visto na coletânea O cerco de Nova York e outras histórias (Alfa-Ômega, 1984). Conta a história de um escritor francês que tenta sobreviver em meio ao fogo cruzado da uma nova guerra civil nos Estados Unidos, que eclodiu depois que o prefeito da cidade de Nova York, apoiado por seus eleitores, decide descumprir ordens que recebe da União. A cidade é cercada por forças federais e atacada de forma avassaladora, o que a transforma numa reedição do gueto de Varsóvia.
Ataíde Tartari constrói uma alegoria às eleições majoritárias brasileiras de 2010 em “Saara Gardens”, na qual uma grande empresa tenta destruir o prestígio de uma candidata ambientalista que pode ser um grande problema, caso seja eleita.
Miguel Carqueija se apresenta com o curtinho “Era de aquário”, que não foge a seu estilo humorístico e irônico, sobre um tempo em que o esporte nacional brasileiro é assassinar políticos em atentados públicos.
Em “A evolução dos homens sem pernas”, Fernando Bonassi também investe na ironia e no humor para descrever os motivos que levaram os homens do futuro a desenvolverem mutações bizarras, mas talvez esses homens já estejam aqui, agora mesmo.
Assembleia estelar traz para os novos leitores a nova versão da noveleta “A pedra que canta”, de Henrique Flory, originalmente visto na coletânea de mesmo nome publicada pela Editora GRD em 1991. Trata-se da história de um jovem que recebeu um implante especial e pode literalmente fazer a “pedra cantar” numa ação que vai acabar com a guerra entre o Brasil e a Argentina.
Em “O dia antes da revolução”, Ursula K. Le Guin volta ao universo de seu romance Os despossuídos com uma prequela que mostra os últimos dias de Laia Odo, pensadora política que construiu o sonho anarquista de Anarres. Tal como o romance, este conto foi premiado com Hugo e Nebula, e é certamente o texto mais importante desta antologia. O conto foi originalmente visto em 1974 na revista Galaxy e recebeu tradução de Roberto de Sousa Causo.
A Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira está aqui representada por “O grande rio”, do autor mineiro Flávio Medeiros Jr, que elaborou uma ucronia intrincada para contar sua versão do assassinato do presidente John F. Kennedy.
O texto mais longo da antologia é a novela “O originista”, de Orson Scott Card, que também investe numa prequela, porém não de um romance próprio como fez Le Guin, mas ao clássico Fundação, de Isaac Asimov. O texto fez parte da antologia Foundations friends, organizada em 1989 por Martin H. Greenberg. Conta, de forma muito íntima, como o intelectual Hari Seldon, criador da Fundação e da Psico-História, desenvolveu o plano secreto de resistência ao governo totalitário do Império Galáctico a partir de um gigantesco mecanismo de pesquisa eletrônica que se parece muito com o Google moderno. A tradução é de Carlos Angelo.
“Questão de sobrevivência”, um dos textos mais publicados do escritor jundiaiense Carlos Orsi, também se insere no conflito entre um grupo de resistência e um governo totalitário.
A chave de ouro que fecha a antologia é “Vemos as coisas de modo diferente”, conto do papa cyberpunk Bruce Sterling, originalmente publicado em 1989 na coletânea Semiotext[e] sf.  A história faz uma extrapolação do conflito ocidente-oriente contando sobre um jornalista de um próspero mundo árabe que vem aos Estados Unidos – que está mergulhado em uma profunda crise econômica – para entrevistar um superstar do rock. A tradução é de Roberto de Sousa Causo.
Como se vê, trata-se de um livro de peso, tanto pelos autores quanto pelos textos reunidos, sendo uma das mais importantes antologias de ficção científica publicadas no Brasil nos últimos anos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Era a guerra de trincheiras

Era a guerra de trincheiras (C'était la guerre des tranchées), Jacques Tardi. Tradução de Ana Ban, 128 páginas. Editora Nemo, 2011.

Com o fim da corrida espacial e a derrocada da visão positivista de um futuro limpo e luminoso, a atenção das pessoas volta-se para o passado. Os fatos da história têm ganhado audiência em todo o mundo e também no Brasil. Livros sobre a história têm se tornado bestsellers e há até um canal da tv a cabo exclusivamente dedicado a ela, muito adequadamente chamado de History Channel.
Histórias em quadrinhos documentais estão cada vez mais em pauta, tanto sobre o passado distante quanto recente. As guerras são um cenário recorrente e rico, e já sustentaram seriados importantes em todos os mercados do mundo, como a coleção Combate, publicada no Brasil nos anos 1960 pela Editora Taika. Clássicos como Maus de Art Spiegelman e Gen: Pés descalços, de Keiji Nakazawa, mostram que ainda há muito o que se dizer sobre os grandes conflitos humanos.
Entretanto, algumas guerras parecem interessar mais do que outras. A Guerra do Vietnã e a Segunda Guerra Mundial ocupam a maior parte das páginas publicadas, por isso é valiosa a tradução no Brasil do álbum Era a guerra de trincheiras, do multipremiado cartunista francês Jacques Tardi.
Tardi nasceu em 1930, em Valence, França. Começou a fazer quadrinhos aos 23 anos, na revista Pilote, em parcerias com Jean Giraud, Serge de Beketch e Pierre Christin. Um de seus maiores sucessos foi a série Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec (iniciada em 1976), com histórias de uma investigadora paranormal ambientadas no início do século 20. Praticamente inédito no Brasil, Tardi teve publicado por aqui Le cri du peuple (O grito do povo, Conrad, 2005), álbum em dois volumes com roteiros de Jean Vautrin. Contudo, suas mais importantes contribuições para a arte dos quadrinhos são seus muitos relatos antibélicos, tais como Adieu Brindavoine (1974), Le trou d'obus (1984), e C'était la guerre des tranchées, vencedor do Eisner Awards 2011 em duas categorias.
Publicado originalmente em 1993 pela Casterman, Era a guerra de trincheiras chegou ao Brasil em 2011 pela Editora Nemo, com tradução de Ana Ban. Conta episódios dramáticos reais acontecidos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, provavelmente o conflito mais sangrento e absurdo da história do mundo.
Tardi reproduz os relatos de seu avô, que participou dessa guerra e testemunhou o cotidiano terrível e brutalizante que os soldados enfrentaram no front, durante anos de imobilidade enterrados em buracos lamacentos e insalubres, apenas porque seus comandantes não sabiam como lutar com as novíssimas tecnologias disponíveis. Blindados, aviões, bombas cada vez mais poderosas, gás, metralhadoras, tudo era experimentado como num show de horrores mortal. A Tardi não importam os motivos e o desfecho do conflito, mas as histórias particulares de soldados mal preparados que, na maior parte do tempo, sequer sabiam o que estavam fazendo ali.
O traço caricato reforça o horror da guerra, com um estilo que não nos permite desviar o olhar, como talvez fizéssemos caso o desenho fosse mais realista. Também transmite uma sensação de instabilidade contínua, de sujeira e umidade, que impregna a percepção. Embora não tenha sido intenção do autor fazer um documentário, a reconstituição é cuidadosa, com arquitetura, armas, veículos e uniformes perfeitamente caracterizados.
O acabamento do álbum é primoroso, as 128 páginas impressas em preto e branco sobre papel cuchê, encadernadas em capa dura. Nas duas últimas últimas páginas, estampa uma lista com filmes e livros sobre a Primeira Guerra Mundial, que valem como um guia de pesquisa para quem quiser se aprofundar no assunto.
Como trabalho de arte, Era a guerra de trincheiras é incomparável. Como histórias em quadrinhos, contudo, deixa um pouco a desejar, já que sua narrativa é fragmentada e distante, sem protagonista fixo, na maior parte do tempo narrada por recordatórios. Os poucos balões que surgem têm textos longuíssimos, as vezes quase incompreensíveis, que estancam a dinâmica narrativa e tornam a leitura lenta e difícil, obrigando o leitor a olhar os desenhos com ainda mais atenção.
De qualquer forma, isso é irrelevante frente a qualidade da arte de Tardi que, por si só, justifica plenamente a publicação do álbum, além de sua leitura do conflito ser de todo procedente e significativa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros

Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, Aníbal Bragança e Márcia Abreu, orgs. 664 páginas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

Em 1944, o escritor argentino Jorge Luiz Borges publicou na antologia Ficções o conto "A biblioteca de Babel". Nessa fantástica biblioteca imaginária, os pesquisadores encontram, perfeitamente alinhados em estantes idênticas e intermináveis, um exemplar de cada livro possível de ser escrito com as combinações dos dígitos dos quais dispomos para registrar nossas ideias. Ou seja, entre muitas obras ilegíveis também estariam ali todos os livros do mundo, de todos os tempos e culturas. Entre muitas leituras possíveis, Borges sublimou ali um intenso maravilhamento frente ao mercado livreiro e à imponderabilidade de suas gigantescas tiragens e variedade.
No romance Poeira: Demônios e maldições, de Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e vencedor do prêmio Casa de Las Americas, um bibliotecário surta quando livros começam a brotar por todos os lados, numa volúpia que inviabiliza a sua devida classificação.
Ambas são ficções recheadas de espanto perante a importância do livro para a civilização. O fabuloso é a argamassa da ficção fantástica, está sempre lá. Por isso, quando se quer ser surpreendido, nada melhor que abrir um livro de ficção.
Mas isso também pode acontecer com um texto de não-ficção acadêmico?
Pode. Um exemplo disso é a antologia de ensaios Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, organizada por Aníbal Bragança e Márcia Abreu, publicada em 2010 pela Editora UNESP e Fundação Biblioteca Nacional, comemorando os 200 anos da instalação da Impressão Régia no Brasil. Em 2011, este trabalho editorial foi agraciado pela Câmara Brasileira do Livro com o Prêmio Jabuti, na categoria Comunicação.
Geralmente, as publicações acadêmicas têm um viés tão específico e rigorosamente formatado aos padrões escolásticos que pouco ou nenhum prazer dão ao leitor leigo. São compêndios de conceitos científicos, com uma linguagem difícil e jargões impenetráveis. Contudo, enquanto conta a história da indústria editorial brasileira, a leitura desta antologia revela, como em Borges e Oliveira, um ambiente deliciosamente espetacular, nas franjas do fantástico e do mitológico.
Os organizadores têm ampla autoridade do assunto. Aníbal Bragança é português, mas tem toda a sua atividade acadêmica no Brasil. É Doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo, docente da Universidade Federal Fluminense, Coordenador-Geral de Pesquisa e Editoração da Fundação Biblioteca Nacional. É autor de Livraria ideal: Do cordel à bibliofilia (Com-Arte/Edusp, 2009), entre outros livros.
Márcia Abreu é professora do Departamento de Teoria Literária do IEL–UNICAMP, com doutorado em Teoria e História Literária na mesma Universidade, e pós-doutorado em História Cultural na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. É autora dos livros Histórias de cordéis e folhetos (Mercado de Letras/ALB, 1999), Os caminhos dos livros (Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2003) e Cultura letrada: Literatura e leitura (UNESP, 2006), entre outros.
Impresso no Brasil tem a introdução do imortal da Academia Brasileira de Letras, José Mindlin (1914-2010), e em suas 664 páginas reúne 35 ensaios de autores diferentes, divididos em duas partes. A primeira, chamada "Uma nova história editorial brasileira: editores, tipógrafos e livreiros" trata da história das editoras no país. É a parte mais volumosa do livro, composta por 22 ensaios. O primeiro é de autoria do próprio Aníbal Bragança, que vai buscar os precursores da tipografia no Brasil, António Isidoro da Fonseca e Frei José Mariano da Conceição Veloso, ainda no século 18, e os motivos pelo qual seu trabalho foi interrompido por um decreto do Rei de Portugal que, por longo tempo, interditou o funcionamento de qualquer tipografia na colônia, até a instalação da Família Real aqui em 1808 e a criação da Impressão Régia.
Em seguida, Márcia Abreu trata dos primeiros livros impressos no Brasil, sendo que a estudiosa identifica O diabo coxo: Verdades sonhadas e novelas da outra vida (1707), do escritor francês Alain-René Lesage, como o primeiro deles, traduzido em 1810.
Nos capítulos seguintes, a história do livro brasileiro desdobra-se nos ensaios de um grupo selecionadíssimo de pesquisadores acadêmicos. Eliana de Freitas Dutra aborda a Editora Garnier, Alessandra El Far comenta a moda das edições baratas do fim do século 19, Marcia de Paula Gregorio Razzini insere na história as publicações didáticas que caracterizaram o início da indústria livreira paulista.
O ensaio mais empolgante do volume é o de Cilza Bignotto, "Monteiro Lobato: Editor revolucionário?", que conta como esse conhecido intelectual das letras montou a primeira rede distribuidora de livros no país.
Outra personalidade importante da nossa indústria livreira tratada neste trabalho é Ênio Silveira, da Editora Civilização Brasileira, cuja característica revolucionária, ao contrário de Lobato, não é questionada pelos ensaístas Guilherme Cunha Lima e Ana Sofia Mariz. 
Já o ensaio de Gabriella Pellegrino Soares é inteiramente dedicado aos irmãos Weiszflog, fundadores da Editora Melhoramentos. Editoras que também mereceram atenção em ensaios específicos foram Companhia Editora Nacional (por Maria Rita de Almeida Toledo), Editora Abril (por Mateus Henrique de Faria Pereira) e Companhia das Letras (por Teodoro Koracakis). Outras tantas foram abordadas de forma mais genérica, em ensaios dedicados às editoras pequenas e médias (por Marília de Araújo Barcellos), editoras universitárias (por José Castilho Marques Neto e Flávia Garcia Rosa) e editoras regionais em Pernambuco (Denis Antônio de Mendonça Bernardes), Paraíba (Socorro de Fátima Pacífico Barbosa), Bahia (Luis Guilherme Pontes Tavares e Flávia Garcia Rosa) e Rio Grande do Sul (Elisabeth W. Rochadel Torresini).
Há ainda ensaios sobre a visualidade e tipologia dos livros nos séculos 19 e 20 (Isabel Cristina Alvez da Silva Frade), sobre a censura aos livros durante a ditadura militar (Sandra Reimão) e sobre a evolução do mercado editorial entre 1995 e 2006 (Fábio Sá Earp e George Kornis).
Dois ensaios destacam-se fechando esta primeira parte, por abordarem assuntos um tanto mais coloridos: Antonio Hohlfeldt trata das publicações dedicadas às crianças, citando O Tico-Tico, Sesinho, Suplemento Juvenil e Edição Maravilhosa, além de autores como Lobato, Viriato Corrêa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ziraldo e Maurício de Sousa, entre outros. O ensaio de Silvia H. S. Borelli é especialmente dedicado a analisar o fenômeno Harry Potter, série de livros infanto-juvenis de autoria da escritora britânica J. K. Rowling, a partir do seu desempenho no mercado europeu, com amplo espaço argumentativo conduzido por Humberto Eco, ferrenho defensor da série.
A segunda parte, intitulada "Cultura letrada no Brasil: autores, leitores e leituras" faz um levantamento histórico e geográfico das bibliotecas, salas de leitura, comunidades de leitores, organizações de autores, e trata também da obra de alguns deles.
Minas Gerais recebe a atenção nos ensaios de Luiz Carlos Villalta e Christianni Cardoso Morais, sobre as bibliotecas privadas, e de Francisca Izabel de Oliveira Galvão sobre as histórias de Lili. Marisa Midori Deaecto faz um levantamento das instituições de leitura em São Paulo, Sandra Jatahy Pesavento investiga a vida literária em Porto Alegre, enquanto Felipe Matos faz o mesmo em Florianópolis, e Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em Manaus. A Coleção Eurico Facó recebe a atenção de Giselle Martins Venancio, e Marcello Moreira estuda a nacionalização das letras da América portuguesa.
Os trechos mais emocionantes, contudo, estão nos ensaios de Lúcia Maria Bastos P. Neves e Tania Maria Bessone da Cruz Ferreira, sobre o direito autoral no Brasil do século 19, que é muito revelador sobre a tradição nacional de não respeitar esse princípio jurídico.
João Paulo Coelho de Souza Rodrigues recupera a história da Academia Brasileira de Letras, e Ana Maria de Oliveira Galvão trata do sempre bem vindo tema da literatura de cordel.
Fecham o volume os ensaios de Maria Tereza Santos Cunha, sobre a literatura erótica de Corin Tellado e Carlos Zéfiro, enquanto Richard Romancini avalia a obra de Paulo Coelho e seus predecessores.
Ficou faltando, entretanto, um capítulo que avaliasse o impacto das novíssimas tecnologias, especialmente as publicações virtuais, na arte literária, na indústria editorial e no hábito da leitura, visto que esta é certamente a mais significativa revolução editorial no país desde a instalação da Impressão Régia em 1808.
Mesmo sendo um estudo robusto e minucioso, Impresso no Brasil: Dois Séculos de Livros Brasileiros é uma leitura agradável e surpreendentemente leve, com temas variados que atraem a atenção de uma vasta gama de leitores, não apenas acadêmicos, mas de todos aqueles que trabalham com os livros, seja em bibliotecas, livrarias, editoras, comunidades de leitura e até mesmo do público leigo apaixonado pelos livros e por sua história. Provavelmente porque os próprios autores também sejam apaixonados por esses objetos prosaicos considerados por muitos como tecnologicamente ultrapassados, mas que, um por um, compõe uma Babel nacional que nem mesmo uma fabulação de Borges ou de Oliveira poderia retratar completamente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lançamentos 2011

Como todo mundo já sabe, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, a partir de sua edição para 2011, passou a publicar apenas uma relação parcial de recomendações de livros de ficção científica, fantasia e horror publicados no País durante o ano. A lista completa, bem como as análises estatísticas que caracterizaram a publicação em suas sete primeiras edições, deixaram de aparecer.
A decisão de não mais publicar a lista completa dos lançamentos teve como objetivo dar ao volume uma agilidade maior, tanto na produção como em sua leitura, investindo nas demais seções, especialmente as resenhas. Mas não há dúvida que a lista completa tem valor e faz falta. Para mim mesmo, a lista de lançamentos é a seção que mais frequento nas edições do Anuário.
Tanto que, em 2012, publiquei aqui, numa sequência de diversos posts, a lista completa dos lançamentos que não saiu no Anuário 2011. Mas concordo que não é um documento fácil para o pesquisador.
Há alguns dias, recebi do amigo Alexandre Yudenitsch, a cópia impressa de um caderno que ele mesmo montou usando aquelas listas. Confesso que fiquei agradecido pela iniciativa dele, porque o caderno se provou utilíssimo e já me facilitou a vida algumas vezes.
Então, decidi oferecer aos colegas um documento um pouco mais organizado, com a lista completa dos lançamentos de literatura fantástica de 2011 montada exatamente como se fosse para a edição do Anuário, contudo, em arquivo pdf que pode tanto ser visualizado online quanto baixado para o hd do computador.
É claro que dizer que a lista é "completa" é um pouco de exagero, porque não é possível garantir que tudo tenha sido relacionado. Muitas vezes topamos com títulos desconhecidos anos depois de publicados, mas acredito que as ausências são poucas.
O Anuário impresso continuará a publicar apenas a lista de recomendados, mas vou tentar manter, em pdf, a edição da lista integral dos lançamentos, de forma a complementar o Anuário e facilitar a vida dos pesquisadores que, de mesma forma que eu, gostam de ter um acesso rápido à informação de referência.
O arquivo pode ser baixado gratuitamente aqui. Use a abuse.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Anuário na Fantasticon

Silvio Alexandre, curador da Fantasticon, acaba de confirmar: Cesar Silva e Marcello Simão Branco, autores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, estarão presentes ao evento nos dias 15 de setembro, sábado, às 18h30, e no dia 22, também um sábado, às 17h.
O Anuário comparece à Fantasticon desde a sua primeira edição. Trata-se uma publicação de discussão, registro e memória da literatura fantástica brasileira, que acompanha atentamente a evolução do gênero no Brasil desde o ano de 2004 (publicado em 2005), sendo esta é a sua oitava edição, a terceira sob o selo da Devir Livraria.
A Fantasticon acontece nos dias 15, 16, 22 e 23 de setembro, no auditório da Biblioteca Viriato Correa (Rua Sena Madureira, 298, São Paulo).
Aproveito para reproduzir, a seguir, o relise de divulgação preparado pela editora:

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2011
Autores: Marcelo Simão Branco e Cesar Silva
Capa: Rogério Vilela
Selo Enciclopédia Galáctica, setembro 2012.
194 páginas PB em papel off-set 75 g/m²
Formato: 14,0 cm × 21,0 cm

Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Marcello Simão Branco e Cesar Silva, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005. Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.
Contém notícias sobre prêmios e personalidades, artigos sobre o mercado editorial, listas dos livros recomendados lançados durante o ano. Para esta edição de 2011 apresenta um resenhador convidado, que vem a somar com as resenhas dos autores do Anuário aos vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros publicados em 2011. Apresenta também ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes. A Personalidade do Ano de 2011 é o legendário editor Gumercindo Rocha Dorea, descobridor de talentos e responsável pelas principais coleções de livros de fc do país, nos anos 1960 e 1990. Dorea é contemplado com uma extensa entrevista sobre a sua obra.
O Anuário tem por meta realizar um registro do estado dos gêneros no país, além de auxiliar tanto os leitores em busca do que há de novo, como aos escritores que desejam destrinchar as tendências do mercado. E também a editores e pesquisadores, que estão em busca de um conhecimento mais sistematizado e amplo do que está surgindo e das perspectivas para o fantástico no Brasil.
O Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica recebeu em 2010 o Prêmio “Melhores do Ano”, na categoria “Melhor Não-Ficção”, concedido pelo site Ficção Científica e Afins, da escritora Ana Cristina Rodrigues.

Repercussões:
“Embora a literatura fantástica enfrente muitos desafios no Brasil, um trabalho árduo de crítica e pesquisa como o do Anuário permite uma base sólida para o desenvolvimento de pesquisas e publicações”.
— Rachel Haywood Ferreira, Iowa State University.

 “As suas carreiras críticas — existentes há anos em várias publicações, e há seis anos no Anuário —, são o balanço global dos gêneros literários que vocês analisam, o mais competente, sério e abrangente, dentro do universo crítico brasileiro.”
— André Carneiro, autor de Confissões do Inexplicável.

“O Anuário é uma das publicações de crítica de ficção especulativa mais independentes e de maior personalidade no país. Editores, pesquisadores, colecionadores de livros, escritores e fãs devem encontrar uma fonte de consulta, de avaliações e de opiniões críticas inestimável para dar perspectiva ao momento atual.”
— Roberto de Sousa Causo, Terra Magazine.

“Um projeto raro e ambicioso, que apresenta uma perspectiva global e sistematizada a respeito do mercado no Brasil e confere-lhe uma unidade na qual os autores poderão posicionar-se. Além disso, contribui para o crescimento da crítica profissional e do estudo acadêmico, essenciais ao desenvolvimento de qualquer literatura."
— Luís Filipe Silva, site Efeitos Secundários (Portugal).

Sobre o selo Enciclopédia Galáctica:
Em 2010, a Devir Livraria inaugurou o selo “Enciclopédia Galáctica”, destinado a obras de não-ficção voltadas para a discussão, análise e registro dos gêneros ficção científica, fantasia e horror na literatura, quadrinhos, jogos, cinema e televisão. O selo busca fomentar a produção crítica a respeito desses gêneros e formas de expressão, em um momento em que cresce muito o interesse pela literatura de ficção científica, fantasia e horror no ambiente acadêmico e literário nacional. O primeiro livro do selo foi Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, de M. Elizabeth Ginway, brasilianista e professora de língua portuguesa e literatura e cultura brasileira na Universidade da Flórida (em Gainesville).

Mais informações sobre o Anuário e suas edições anteriores podem ser obtidas no saite da Devir Livraria, e pelo email marialuzia.devir@gmail.com.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

E por falar em Anuário...

Está no prelo a nova edição do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2011, com um levantamento do estado do mercado editorial da literatura de gênero no país.

O conteúdo passou por algumas reformulações para ganhar agilidade, mas ainda investe em informação e memória, agora com mais resenhas. A edição homenageia, com uma longa entrevista, o legendário editor Gumercindo Rocha Dorea, da GRD, que ao longo da segunda metade do século 20, e ainda hoje, construiu um valioso catálogo nos gêneros fantásticos. A capa recebe uma ilustração belíssima de Rogério Vilela.
O livro estará disponível em algumas semanas no saite da Devir Livraria.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Repercutindo as listas

O blogue Nós Geeks gostou tanto das listas de lançamentos de FC&F em 2011 que está retransmitindo uma parte dela em outra frequência, o que é bem legal, pois assim mais gente terá acesso a informação. O blogue é editado por Fernando Firpo, ele mesmo um fã de FC&F. 
A lista divulgada foi a de romances brasileiros de ficção científica, mas é legal dizer que, historicamenrte, o melhor da produção brasielira no gênero está nos formatos mais curtos, como contos e novelas, e em 2011 não foi diferente. Quem quer apreciar o melhor da FC&F brasileira, deve ficar atento também a lista de coletãneas e antologias, que estão disponíveis nos posts de junho.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Os números da FCF&H no Brasil em 2011

Lançamentos de autores brasileiros
Romances: 187 de fantasia, 60 de fc e 57 de horror.
Antologias de contos: 19 de fantasia, 12 de fc e 18 de horror.
Antologias poéticas : 3 de fantasia e 2 de horror.
Não ficção: 4 de fantasia e 4 de fc.
Romances digitais: 12 de fantasia, 5 de fc e 7 de horror.
Antologias digitais: 5 de fantasia e 3 de horror.

Lançamentos de autores estrangeiros
Romances: 156 de fantasia, 19 de fc e 56 de horror.
Antologias: 7 de fantasia, 1 de fc 6 de horror. Não ficção: 6 de fantasia.
Ainda entre os estrangeiros, foram publicadas 1 novelização de fc e 1 de Horror, 1 romance digital de FC e 1 antologia digital de fantasia.

Republicações
Republicações nacionais: 1 romance de fantasia, 1 romance de horror e 1 antologia de horror.
Romances estrangeiros: 9 de fantasia, 25 de fc e 17 de horror.
Antologias estrangeiras : 4 de fantasia, 4 de fc e 3 de horror.

Uma breve análise
Entre inéditos e republicações, foram 401 títulos brasileiros e 317 estrangeiros, perfazendo o total geral de 718 títulos em 2011, o que indica o recuo do mercado em relação a 2010, quando foram publicados 889 livros, conforme dados publicados no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2010.
Os números também revelam que os autores brasileiros lograram publicar mais que os estrangeiros em 2011, o que não é usual. Mesmo no total parcial de inéditos, os autores brasileiros levaram vantagem, com 398 títulos contra 255 estrangeiros. Contudo, no que se refere às republicações, a ficção estrangeira deu um banho, com 62 títulos publicados, frente a apenas 3 nacionais. Mesmo levando-se em conta que essa marca elástica se deve a ação de uma única série (Coleção Júlio Verne da RBA), é histórico o desinteresse de leitores e editores pelo material não inédito brasileiro, e raramente ocorrem republicações.
Manteve-se também o predomínio do gênero da fantasia sobre os demais, sendo que a ficção científica continua a ser o gênero menos praticado em quase todos os segmentos. As exceções foram entre os romances inéditos, no qual a fc ficou em segundo lugar, ligeiramente adiante do horror, e em entre os livros de não ficção, que não tiveram nenhum título de horror em 2011.
Outra observação interessante é o recuo dos livros exclusivamente digitais. A maior parte dos títulos oferecidos em formato digital foi também apresentada em formato real e, por isso, listada como livros reais, o que demonstra a insegurança das editoras em investir nesse mercado.

Essencial
Finalmente, destaco a minha relação de publicações essenciais de 2011:
Brasileiros
Romances: B9, de Simone Saueressig; O caso Laura, de André Vianco.
Antologias: As melhores novelas brasileiras de fc; Páginas do futuro; As cidades indizíveis; Dieselpunk.
Não ficção: Muitas peles, de Luiz Bras.
Estrangeiros
Romances: Conan o bárbaro, de Robert E. Howard; Pequeno irmão, de Cory Doctorow; Rei Rato, de China Miéville; A situação de Jeff VanderMeer; A bondade dos estranhos de João Barreiros.
Antologia: Assembleia Estelar.
Não ficção: O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Republicação de coletâneas de FCF&H de autores estrangeiros no Brasil em 2011

Fantasia
Bola de sebo e outros contos, Guy de Maupassant. Editora Hedra.
Essencial, Franz Kafka. Penguin/Cia das Letras.
Oriente, ocidente, Salman Rushdie. Editora Companhia das Letras, coleção Companhia de Bolso.
Zaccarath e outros contos, Lord Dunsany. Editora Clube de Autores.

Ficção científica
O bilhete de lotaria n.º 9672 + Um drama nos ares + Dez horas de caçada, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O farol do cabo do mundo + Quadragésima ascensão francesa ao Monte Branco, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A galera "Chancelor" + Zacarias, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Martim Paz + Uma invernada nos gelos + O Doutor OX, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.

Terror
A cor surgida do espaço e outros contos, H.P. Lovecraft. Editora Clube de Autores.
Histórias de horror: O mito de Cthulhu, Howard Phillips Lovecraft. Editora Martin Claret, Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, nº 317.
Tripulação de esqueletos, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.

Republicação de romances de FCF&H de autores estrangeiros no Brasil em 2011

Fantasia
As aventuras de Pinóquio: História de um boneco, Carlo Collodi. Editora Cosac Naify.
O circo do Dr. Lao, Charles G. Finney. Editora Leya, coleção Barba Negra Eternamente Clássicos.
História do cerco à Lisboa, José Saramago. Cia de Bolso.
O jogo da amarelinha, Julio Cortazar. Editora Civilização Brasileira.
O mágico de Oz, L. Frank Baum. Editora Leya, coleção Barba Negra Eternamente Clássicos.
A mulher do viajante no tempo, Edição de bolso, Audrey Niffenegger. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
Os olhos do dragão, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
O reino das sombras, Robert E. Howard. Editora Clube de Leitores.
O visconde partido ao meio, Italo Calvino. Editora Companhia das Letras, Coleção Cia de Bolso.

Ficção científica
20 mil léguas submarinas: Edição Definitiva, Júlio Verne. Editora Zahar
A agência Thompson & Cia 1, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A agência Thompson & Cia 2, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A carteira do repórter, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Clovis Dardentor, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A descoberta da Terra 1, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A descoberta da Terra 2, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Em frente da bandeira, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Encontro com Rama, Arthur C. Clarke. Editora Aleph.
Os exploradores do século XIX 1, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Os exploradores do século XIX 2, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A esfinge dos gelos, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
A guerra das salamandras, Karel Capek. Editora Record.
O homem invisível, H. G. Wells. Editora Alfaguara.
A ilha de hélice, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Mistress Branican, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O náufrago do "Cynthia", Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Os navegadores século XVIII 1, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Os navegadores do século XVIII 2, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O país das Peles 1, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O país das Peles 2, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O povo aéreo, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O segredo do Maston, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
O soberbo Orenoco, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.
Um drama na Livónia, Júlio Verne. GD Colecionáveis/DINAP/Editora RBA, Coleção Júlio Verne.


Horror
O cemitério, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
Christine, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
A cor que caiu do céu, H.P. Lovecraft. Editora Hedra.
O clube dos suicidas, Robert Louis Stevenson. Editora Cosac Naify.
Desespero, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson. Editora Hedra.
Entrevista com o vampiro, Anne Rice. Editora Rocco.
O fantasma de Canterville, Oscar Wilde. Editora Leya.
A lenda do cavaleiro sem cabeça, Washington Irving. Editora Leya.
Love, a história de Lisey, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
Nas montanhas da loucura, H.P. Lovecraft. Editora Hedra.
Pombos do inferno, Robert E. Howard. Editora Clube de Autores.
Os olhos do dragão, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
Rose Madder, Edição de bolso, Stephen King. Editora Objetiva, Coleção Ponto de Leitura.
O senhor das moscas, William Golding. Editora Nova Fronteira.
A sombra vinda do tempo, H.P. Lovecraft. Editora Hedra.
A volta do parafuso, Henry James. Penguin/Cia das Letras.