sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Resenha: Rei Rato, China Miéville

Rei Rato
(King Rat), China Miéville. 400 páginas. Tradução Alexandre Mandarino; São Paulo, Tarja, 2011.

Saul é um jovem com problemas de relacionamento com o pai, com quem vive em um apartamento na periferia de Londres. Ao voltar de uma viagem, Saul vai direto para o seu quarto sem falar com o pai que, pelo som da tv ligada, estava na sala, provavelmente cochilando. 
Depois de um sono atribulado, Saul é acordado com o barulho de socos na porta da casa: é a polícia. Aturdido, Saul abre a porta e é imediatamente imobilizado pelos policiais, que o levam para a delegacia sob custódia: seu pai está morto no jardim, arremessado da varanda do prédio. O delegado encarregado da investigação acredita que Saul é o culpado, mas o garoto, em estado de choque, não entende nada do que está acontecendo. 
Enquanto aguarda a definição do caso, Saul fica detido em uma cela da delegacia. Mas algo bizarro acontece: um estranho de aparência assustadora, que se apresenta como seu tio, o tira de lá, passando imperceptível pelos policiais. O estranho o apresenta ao submundo de Londres, entre becos, lixo e esgotos. A vida de Saul vai mudar para sempre e as revelações que ele descobrirá serão terríveis não somente para ele, mas também para seus amigos. 
Rei Rato, romance de autoria do escritor britânico China Miéville, é um livro raro hoje em dia no Brasil. Publicado em 2011 pela extinta editora Tarja – de propriedade dos fãs e escritores de literatura fantástica Richad Diegues e Gianpaolo Celli –, teve tiragem pequena e nunca foi reeditado. Miéville, contudo, ganhou notoriedade desde então e o título hoje atrai o interesse de seus muitos leitores. 
Rei Rato foi o romance de estreia de Miéville, que hoje conta com livros premiados como A cidade e a cidade (2009), Estação Perdido (2000) e A cicatriz (2002), todos publicados no Brasil pela editora Boitempo. Por isso, Rei Rato pode soar como um trabalho menor na obra do autor, mas essa é uma percepção anacrônica. De fato, Rei Rato não apresenta o mesmo ritmo frenético, nem a ousadia na construção de mundo dos demais títulos, mas pode-se perceber nele muitas das marcas de estilo do autor, como um alto nível de escatologia e violência,  personagens ambíguos e cativantes, questões políticas evidenciadas, e muita dor. Também há diversos temas dentro da história que ecoam nas obras posteriores. Miéville foi mais ortodoxo na contação da história, que é uma aventura juvenil hard core, regada a música drum and bass e grande quantidade de gírias londrinas explicadas em muitas notas.
A história narra o caminho de descoberta e amadurecimento de um adolescente que se vê envolvido em uma guerra ancestral entre as nações dos ratos, das aranhas e dos pássaros, contra o misterioso e enlouquecido Flautista de Hamellin, que quer exterminar todas elas.
Embora a fantasia do horror estejam muito imbricadas, não é tão óbvio classificar Rei Rato como um romance New Weird (como seus outros livros) porque não há absolutamente nada de ficção científica na história. Mas podemos dizer, sem receio de erro, que se trata de uma fantasia urbana sombria na qual os subterrâneos londrinos são tão importantes quanto os personagens da trama, talvez mais. 
Rei Rato talvez seja mais palatável, apesar da escatologia, para a leitura de quem achou Miéville um escritor difícil de acompanhar, pois trata-se de uma narrativa simples e sem muitas reviravoltas. Contudo, sua leitura prévia não vai ajudar a acompanhar melhor os livros seguintes, porque a velocidade só aumenta e a vertigem é inevitável. Aliás, já dá para sentir um pouco dela aqui, especialmente nas sequências de ação intensa, que beiram o gore
Se for possível obter um exemplar, não deixe de ler Rei Rato, e entenda por que o New Weird causou tanto rebuliço na ficção especulativa mundial, inclusive entre os leitores e escritores brasileiros.

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