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sábado, 30 de março de 2019

Renato Canini (1936-2013)

Um dos mais queridos cartunistas brasileiros, Renato Vinícius Canini nasceu em 22 de fevereiro de 1936, na cidade de Paraí, no Rio Grande do Sul. Desde jovem, interessou-se pela arte do traço e, aos 21 anos, já trabalhava como ilustrador na revista infantil Cacique, publicada pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Ainda nos anos 1960, participou ativamente da lendária CETPA - Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre, iniciativa que tinha como meta a nacionalização do quadrinho brasileiro e contou com o apoio do então Governador Leonel Brizola. Com roteiros de José Geraldo Barreto, Canini desenhava Zé Candango, um cangaceiro que lutava contras os super heróis estrangeiros.
Canini mudou-se para São Paulo em 1967, para trabalhar na revista infantil Bem-Te-Vi, publicada pela Igreja Metodista. Dois anos depois foi contratado pelo estúdio de quadrinhos da Editora Abril, para ilustrar a revista Recreio.
Logo passou a trabalhar com Zé Carioca, personagem popular criado em 1942 por Walt Disney. Aproveitando-se do controle frouxo que a Disney então mantinha sobre os quadrinhos de sua franquia feitos no País, Canini incorporou diversos aspectos da Cidade Maravilhosa às histórias, bem como trejeitos brasileiros ao personagem. Foram cerca de 135 histórias, produzidas entre 1971 e 1977, amplamente apreciadas pelos leitores brasileiros. Mas esse grande sucesso acabou atraindo a atenção da matriz americana, que desaprovou o trabalho, considerando-o demasiado distante do seu padrão original. Por muito tempo, o trabalho de Canini em Zé Carioca ficou proibido de ser republicado, situação que só mudou em 2005, quando a própria Editora Abril homenageou o artista com um volume da coleção Mestres Disney, equiparando-o assim aos ilustradores Don Rosa, Cavazzano, Gottfredson e Romano Scarpa, vistos nos outros volumes dessa coleção.
Em 1974, Canini criou para a revista Crás a sátira de faroeste "Koka Kid", rebatizada depois pelo editor como Kactus Kid. Inspirado na fisionomia de Kirk Douglas, Kactus Kid era um agente funerário que, quando necessário, transforma-se num pistoleiro elegante e boa-pinta, não sem alguma dificuldade, uma vez que tinha que passar pela picada dolorosa de uma agulha para fazer o indefectível furinho no queixo.
Outra criação importante de Canini é o psicólogo Dr. Fraud que, nos anos 1970, chegou a aparecer em várias edições da revista Patota, da Editora Artenova, e publicado em álbum em 1991 pela editora Sagra-DC Luzatto, sempre envolvido com problemas psicológicos dos mais famosos personagens dos quadrinhos.
Em 1978, criou o indiozinho Tibica para participar de projeto de tiras da Editora Abril, que não foi adiante. O personagem seria enfim publicado em 2010 no álbum Tibica: O defensor da ecologia, pela Editora Formato.
Canini também teve trabalhos publicados nos jornais Correio do Povo, Diário de Notícias, O Pasquim e nas revistas Mad e Pancada, entre outras publicações.
Também são seus os livros infantis Cadê a graça que tava aqui? (1983, Mercado Aberto), Um redondo pode ser quadrado? (2007, Formato) e O cigarro e o formigo (2010, Formato). Em 2012, publicou seu último trabalho, o álbum Pago pra ver (IEL/CORAG), reunindo 250 ilustrações sobre o Rio Grande do Sul e os pampas, realizadas ao longo dos últimos trinta anos.
Casado com a também desenhista Maria de Lourdes, Canini sofreu um mal súbito decorrente de um problema cardíaco e veio a falecer no dia 30 de outubro de 2013, aos 77 anos, sendo sepultado no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas, onde morava.
Entre as muitas homenagens que recebeu ainda em vida, Canini foi agraciado em 2003 com o título de "Grande Mestre" pelo Prêmio HQMix.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Sergio Toppi (1932-2012)

Intensa. Esta é a melhor definição para a arte de Sergio Toppi, ilustrador milanês falecido no dia 21 de agosto de 2012, pouco antes de completar 80 anos.
Toppi foi um ilustrador de traço impactante, considerado em todo o mundo como um dos maiores mestres dos quadrinhos. Senhor de um estilo moderno e arrojado, que valorizava os espaços brancos, influenciou muitos artistas importantes em todo o mundo, como Bill Sienkiewicz, Walt Simonson e Frank Miller, por exemplo.
Nascido em 11 de outubro 1932, Toppi apaixonou-se pelos quadrinhos em algum momento dos anos 1940, ao ver os desenhos de Dino Battaglia e Hugo Pratt em um exemplar da revista Asso de Picche.
Estudou na Escola de Arte do Castelo, mas não terminou o curso. Antes de se envolver com a arte que lhe daria prestígio, começou fazendo ilustrações publicitárias para a Enciclopedia dei Ragazzi, para a Unione Tipografico-Editrice Torinese, para a editora Mondadori e para a revista Topolino. Também trabalhou produzindo desenhos animados publicitários para a Caroselli Televisivi.
Estreou nos quadrinhos infantis no início dos anos 1960, com a hq Il mago Zurli, publicada no Corriere dei Piccoli. Trabalhou várias vezes com o roteirista Mino Milani, para quem ilustrou a série La Vera Storia di Pietro Micca, também publicada no Corriere dei Piccoli.
Sua grande chance surgiria em 1974, quando foi contratado por Sergio Bonelli para ilustrar Herman Lehmann: L'indiano bianco. Especializou-se então no quadrinho juvenil, publicando histórias avulsas nas revistas Sgt. Kirk e Il Giornalino, entre outras, numa qualidade que lhe valeu um Prêmio Yellow Kid em 1975, recebido no 11º Festival Internacional de Quadrinhos de Lucca.
No ano seguinte, também a convite de Bonelli, começou a ilustrar uma série de três álbuns para prestigiosa coleção Un uomo, un'avventura, com ficções históricas que passariam a caracterizar sua obra.
Entre 1978 e 1980, ilustrou História da França em quadrinhos e A descoberta do mundo para a editora francesa Larousse.
Sérgio Toppi colaborou com algumas das mais importante revistas europeias de quadrinhos, com trabalhos publicados na Linus, Alter Alter, Corto Maltese, L'Eternauta, Comic Art e Ken Parker Magazine. Também são títulos importantes de sua obra os álbuns Sharaz-De* e Il Colezzionista, o único personagem criado por ele.
Mais recentemente, Toppi colaboraria novamente com os estúdios Bonelli, ilustrando histórias para as séries Nick Rider e Julia Kendall, e passaria a ser publicado regularmente na revista francesa Mosquito.
No Brasil, a obra de Toppi foi vista em uma única edição da coleção Um homem/Uma aventura: O homem do Nilo (Ebal, 1978) e na edição nº11 da revista Júlia Kendall, As aventuras de uma criminóloga  (Mythos, 2005). Algumas de suas histórias curtas também puderam ser vistas nas revistas Eureka nº11 (1978) e Eureka Aventura (1977), da Editora Vecchi; Capitão América nº15 (1976) e O Tocha Humana: Blochinho espetacular nº13 (1976), da Editora Bloch. Em 2005, ilustrou as capas das edições americanas da minissérie 1602: New Word, da Marvel Comics, publicada no Brasil no ano seguinte em um único volume na coleção Marvel Apresenta.
Em 2003, o mestre esteve em Belo Horizonte, participando do FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, que abrigou uma bela exposição de seus trabalhos.
Toppi faleceu em Milão, depois de uma longa luta contra o câncer que, apesar de dura, nunca o afastou da prancheta, numa carreira de quase sessenta anos. Entre suas últimas obras estão, pela Edizioni Papel, os portfólios Lo sono l'Erba (2008) e Divertissement (2009), ambos com ilustrações inspiradas na Irlanda, e Luce dell'Est (2012), sobre o Japão medieval. Intensos, como sempre.

* Dois números da série Sharaz-De foram publicados em 2016 e 2017 no Brasil pela editora Figura.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Era a guerra de trincheiras

Era a guerra de trincheiras (C'était la guerre des tranchées), Jacques Tardi. Tradução de Ana Ban, 128 páginas. Editora Nemo, 2011.

Com o fim da corrida espacial e a derrocada da visão positivista de um futuro limpo e luminoso, a atenção das pessoas volta-se para o passado. Os fatos da história têm ganhado audiência em todo o mundo e também no Brasil. Livros sobre a história têm se tornado bestsellers e há até um canal da tv a cabo exclusivamente dedicado a ela, muito adequadamente chamado de History Channel.
Histórias em quadrinhos documentais estão cada vez mais em pauta, tanto sobre o passado distante quanto recente. As guerras são um cenário recorrente e rico, e já sustentaram seriados importantes em todos os mercados do mundo, como a coleção Combate, publicada no Brasil nos anos 1960 pela Editora Taika. Clássicos como Maus de Art Spiegelman e Gen: Pés descalços, de Keiji Nakazawa, mostram que ainda há muito o que se dizer sobre os grandes conflitos humanos.
Entretanto, algumas guerras parecem interessar mais do que outras. A Guerra do Vietnã e a Segunda Guerra Mundial ocupam a maior parte das páginas publicadas, por isso é valiosa a tradução no Brasil do álbum Era a guerra de trincheiras, do multipremiado cartunista francês Jacques Tardi.
Tardi nasceu em 1930, em Valence, França. Começou a fazer quadrinhos aos 23 anos, na revista Pilote, em parcerias com Jean Giraud, Serge de Beketch e Pierre Christin. Um de seus maiores sucessos foi a série Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec (iniciada em 1976), com histórias de uma investigadora paranormal ambientadas no início do século 20. Praticamente inédito no Brasil, Tardi teve publicado por aqui Le cri du peuple (O grito do povo, Conrad, 2005), álbum em dois volumes com roteiros de Jean Vautrin. Contudo, suas mais importantes contribuições para a arte dos quadrinhos são seus muitos relatos antibélicos, tais como Adieu Brindavoine (1974), Le trou d'obus (1984), e C'était la guerre des tranchées, vencedor do Eisner Awards 2011 em duas categorias.
Publicado originalmente em 1993 pela Casterman, Era a guerra de trincheiras chegou ao Brasil em 2011 pela Editora Nemo, com tradução de Ana Ban. Conta episódios dramáticos reais acontecidos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, provavelmente o conflito mais sangrento e absurdo da história do mundo.
Tardi reproduz os relatos de seu avô, que participou dessa guerra e testemunhou o cotidiano terrível e brutalizante que os soldados enfrentaram no front, durante anos de imobilidade enterrados em buracos lamacentos e insalubres, apenas porque seus comandantes não sabiam como lutar com as novíssimas tecnologias disponíveis. Blindados, aviões, bombas cada vez mais poderosas, gás, metralhadoras, tudo era experimentado como num show de horrores mortal. A Tardi não importam os motivos e o desfecho do conflito, mas as histórias particulares de soldados mal preparados que, na maior parte do tempo, sequer sabiam o que estavam fazendo ali.
O traço caricato reforça o horror da guerra, com um estilo que não nos permite desviar o olhar, como talvez fizéssemos caso o desenho fosse mais realista. Também transmite uma sensação de instabilidade contínua, de sujeira e umidade, que impregna a percepção. Embora não tenha sido intenção do autor fazer um documentário, a reconstituição é cuidadosa, com arquitetura, armas, veículos e uniformes perfeitamente caracterizados.
O acabamento do álbum é primoroso, as 128 páginas impressas em preto e branco sobre papel cuchê, encadernadas em capa dura. Nas duas últimas últimas páginas, estampa uma lista com filmes e livros sobre a Primeira Guerra Mundial, que valem como um guia de pesquisa para quem quiser se aprofundar no assunto.
Como trabalho de arte, Era a guerra de trincheiras é incomparável. Como histórias em quadrinhos, contudo, deixa um pouco a desejar, já que sua narrativa é fragmentada e distante, sem protagonista fixo, na maior parte do tempo narrada por recordatórios. Os poucos balões que surgem têm textos longuíssimos, as vezes quase incompreensíveis, que estancam a dinâmica narrativa e tornam a leitura lenta e difícil, obrigando o leitor a olhar os desenhos com ainda mais atenção.
De qualquer forma, isso é irrelevante frente a qualidade da arte de Tardi que, por si só, justifica plenamente a publicação do álbum, além de sua leitura do conflito ser de todo procedente e significativa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros

Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, Aníbal Bragança e Márcia Abreu, orgs. 664 páginas. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

Em 1944, o escritor argentino Jorge Luiz Borges publicou na antologia Ficções o conto "A biblioteca de Babel". Nessa fantástica biblioteca imaginária, os pesquisadores encontram, perfeitamente alinhados em estantes idênticas e intermináveis, um exemplar de cada livro possível de ser escrito com as combinações dos dígitos dos quais dispomos para registrar nossas ideias. Ou seja, entre muitas obras ilegíveis também estariam ali todos os livros do mundo, de todos os tempos e culturas. Entre muitas leituras possíveis, Borges sublimou ali um intenso maravilhamento frente ao mercado livreiro e à imponderabilidade de suas gigantescas tiragens e variedade.
No romance Poeira: Demônios e maldições, de Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e vencedor do prêmio Casa de Las Americas, um bibliotecário surta quando livros começam a brotar por todos os lados, numa volúpia que inviabiliza a sua devida classificação.
Ambas são ficções recheadas de espanto perante a importância do livro para a civilização. O fabuloso é a argamassa da ficção fantástica, está sempre lá. Por isso, quando se quer ser surpreendido, nada melhor que abrir um livro de ficção.
Mas isso também pode acontecer com um texto de não-ficção acadêmico?
Pode. Um exemplo disso é a antologia de ensaios Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros, organizada por Aníbal Bragança e Márcia Abreu, publicada em 2010 pela Editora UNESP e Fundação Biblioteca Nacional, comemorando os 200 anos da instalação da Impressão Régia no Brasil. Em 2011, este trabalho editorial foi agraciado pela Câmara Brasileira do Livro com o Prêmio Jabuti, na categoria Comunicação.
Geralmente, as publicações acadêmicas têm um viés tão específico e rigorosamente formatado aos padrões escolásticos que pouco ou nenhum prazer dão ao leitor leigo. São compêndios de conceitos científicos, com uma linguagem difícil e jargões impenetráveis. Contudo, enquanto conta a história da indústria editorial brasileira, a leitura desta antologia revela, como em Borges e Oliveira, um ambiente deliciosamente espetacular, nas franjas do fantástico e do mitológico.
Os organizadores têm ampla autoridade do assunto. Aníbal Bragança é português, mas tem toda a sua atividade acadêmica no Brasil. É Doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo, docente da Universidade Federal Fluminense, Coordenador-Geral de Pesquisa e Editoração da Fundação Biblioteca Nacional. É autor de Livraria ideal: Do cordel à bibliofilia (Com-Arte/Edusp, 2009), entre outros livros.
Márcia Abreu é professora do Departamento de Teoria Literária do IEL–UNICAMP, com doutorado em Teoria e História Literária na mesma Universidade, e pós-doutorado em História Cultural na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. É autora dos livros Histórias de cordéis e folhetos (Mercado de Letras/ALB, 1999), Os caminhos dos livros (Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2003) e Cultura letrada: Literatura e leitura (UNESP, 2006), entre outros.
Impresso no Brasil tem a introdução do imortal da Academia Brasileira de Letras, José Mindlin (1914-2010), e em suas 664 páginas reúne 35 ensaios de autores diferentes, divididos em duas partes. A primeira, chamada "Uma nova história editorial brasileira: editores, tipógrafos e livreiros" trata da história das editoras no país. É a parte mais volumosa do livro, composta por 22 ensaios. O primeiro é de autoria do próprio Aníbal Bragança, que vai buscar os precursores da tipografia no Brasil, António Isidoro da Fonseca e Frei José Mariano da Conceição Veloso, ainda no século 18, e os motivos pelo qual seu trabalho foi interrompido por um decreto do Rei de Portugal que, por longo tempo, interditou o funcionamento de qualquer tipografia na colônia, até a instalação da Família Real aqui em 1808 e a criação da Impressão Régia.
Em seguida, Márcia Abreu trata dos primeiros livros impressos no Brasil, sendo que a estudiosa identifica O diabo coxo: Verdades sonhadas e novelas da outra vida (1707), do escritor francês Alain-René Lesage, como o primeiro deles, traduzido em 1810.
Nos capítulos seguintes, a história do livro brasileiro desdobra-se nos ensaios de um grupo selecionadíssimo de pesquisadores acadêmicos. Eliana de Freitas Dutra aborda a Editora Garnier, Alessandra El Far comenta a moda das edições baratas do fim do século 19, Marcia de Paula Gregorio Razzini insere na história as publicações didáticas que caracterizaram o início da indústria livreira paulista.
O ensaio mais empolgante do volume é o de Cilza Bignotto, "Monteiro Lobato: Editor revolucionário?", que conta como esse conhecido intelectual das letras montou a primeira rede distribuidora de livros no país.
Outra personalidade importante da nossa indústria livreira tratada neste trabalho é Ênio Silveira, da Editora Civilização Brasileira, cuja característica revolucionária, ao contrário de Lobato, não é questionada pelos ensaístas Guilherme Cunha Lima e Ana Sofia Mariz. 
Já o ensaio de Gabriella Pellegrino Soares é inteiramente dedicado aos irmãos Weiszflog, fundadores da Editora Melhoramentos. Editoras que também mereceram atenção em ensaios específicos foram Companhia Editora Nacional (por Maria Rita de Almeida Toledo), Editora Abril (por Mateus Henrique de Faria Pereira) e Companhia das Letras (por Teodoro Koracakis). Outras tantas foram abordadas de forma mais genérica, em ensaios dedicados às editoras pequenas e médias (por Marília de Araújo Barcellos), editoras universitárias (por José Castilho Marques Neto e Flávia Garcia Rosa) e editoras regionais em Pernambuco (Denis Antônio de Mendonça Bernardes), Paraíba (Socorro de Fátima Pacífico Barbosa), Bahia (Luis Guilherme Pontes Tavares e Flávia Garcia Rosa) e Rio Grande do Sul (Elisabeth W. Rochadel Torresini).
Há ainda ensaios sobre a visualidade e tipologia dos livros nos séculos 19 e 20 (Isabel Cristina Alvez da Silva Frade), sobre a censura aos livros durante a ditadura militar (Sandra Reimão) e sobre a evolução do mercado editorial entre 1995 e 2006 (Fábio Sá Earp e George Kornis).
Dois ensaios destacam-se fechando esta primeira parte, por abordarem assuntos um tanto mais coloridos: Antonio Hohlfeldt trata das publicações dedicadas às crianças, citando O Tico-Tico, Sesinho, Suplemento Juvenil e Edição Maravilhosa, além de autores como Lobato, Viriato Corrêa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ziraldo e Maurício de Sousa, entre outros. O ensaio de Silvia H. S. Borelli é especialmente dedicado a analisar o fenômeno Harry Potter, série de livros infanto-juvenis de autoria da escritora britânica J. K. Rowling, a partir do seu desempenho no mercado europeu, com amplo espaço argumentativo conduzido por Humberto Eco, ferrenho defensor da série.
A segunda parte, intitulada "Cultura letrada no Brasil: autores, leitores e leituras" faz um levantamento histórico e geográfico das bibliotecas, salas de leitura, comunidades de leitores, organizações de autores, e trata também da obra de alguns deles.
Minas Gerais recebe a atenção nos ensaios de Luiz Carlos Villalta e Christianni Cardoso Morais, sobre as bibliotecas privadas, e de Francisca Izabel de Oliveira Galvão sobre as histórias de Lili. Marisa Midori Deaecto faz um levantamento das instituições de leitura em São Paulo, Sandra Jatahy Pesavento investiga a vida literária em Porto Alegre, enquanto Felipe Matos faz o mesmo em Florianópolis, e Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em Manaus. A Coleção Eurico Facó recebe a atenção de Giselle Martins Venancio, e Marcello Moreira estuda a nacionalização das letras da América portuguesa.
Os trechos mais emocionantes, contudo, estão nos ensaios de Lúcia Maria Bastos P. Neves e Tania Maria Bessone da Cruz Ferreira, sobre o direito autoral no Brasil do século 19, que é muito revelador sobre a tradição nacional de não respeitar esse princípio jurídico.
João Paulo Coelho de Souza Rodrigues recupera a história da Academia Brasileira de Letras, e Ana Maria de Oliveira Galvão trata do sempre bem vindo tema da literatura de cordel.
Fecham o volume os ensaios de Maria Tereza Santos Cunha, sobre a literatura erótica de Corin Tellado e Carlos Zéfiro, enquanto Richard Romancini avalia a obra de Paulo Coelho e seus predecessores.
Ficou faltando, entretanto, um capítulo que avaliasse o impacto das novíssimas tecnologias, especialmente as publicações virtuais, na arte literária, na indústria editorial e no hábito da leitura, visto que esta é certamente a mais significativa revolução editorial no país desde a instalação da Impressão Régia em 1808.
Mesmo sendo um estudo robusto e minucioso, Impresso no Brasil: Dois Séculos de Livros Brasileiros é uma leitura agradável e surpreendentemente leve, com temas variados que atraem a atenção de uma vasta gama de leitores, não apenas acadêmicos, mas de todos aqueles que trabalham com os livros, seja em bibliotecas, livrarias, editoras, comunidades de leitura e até mesmo do público leigo apaixonado pelos livros e por sua história. Provavelmente porque os próprios autores também sejam apaixonados por esses objetos prosaicos considerados por muitos como tecnologicamente ultrapassados, mas que, um por um, compõe uma Babel nacional que nem mesmo uma fabulação de Borges ou de Oliveira poderia retratar completamente.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

QI 153

Está circulando o número 153 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos, destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz os artigos "Tiradas do Sampaio", do editor, "A décima oitava árvore", de E. Figueiredo, e "O Barba-Azul", de Lio Guerra Bocorny, além de quadrinhos de Julie Albuquerque, Cleber José Coimbra, Luiz Cláudio Lopes de Faria e de Guimarães, que também ilustra a capa. Completam a edição as colunas "Fórum" com as cartas dos leitores, "Mantendo contato" de Worney Almeida de Souza, e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre.
Junto à edição, os assinantes recebem Artigos sobre histórias em quadrinhos 10: Os pseudo cow-boys dos quadrinhos, fascículo com 16 páginas com uma pesquisa de Carlos Gonçalves sobre diversos personagens de faroeste.
O QI impresso é distribuído exclusivamente por assinatura (informações com o editor no email edgard.faria.guimaraes@gmail.com), mas sua versão digital, bem como seus encartes, são disponibilizados pelo saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Edições anteriores também podem ser encontradas.

Hiperespaço 4

Concluindo a comemoração aos 35 anos do Hiperespaço, está disponível o histórico quarto número desse fanzine de ficção científica publicado originalmente em 1984.
A edição tem 10 páginas e traz entrevista com o ilustrador Mozart Couto, autor da capa exclusiva dessa edição, sequência do artigo de José Carlos Neves sobre os efeitos especiais da ILM, e a sempre elogiada seção de "fofocas" do fanzine. Hiperespaço 4 pode ser lido online aqui ou baixado gratuitamente aqui. O número 1, o número 2 e o número 3 também estão disponíveis.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

As melhores histórias brasileiras de horror

Este é um convite oficial para o lançamento do livro que ajudei a organizar, As melhores histórias brasileiras de horror, publicado pela Devir Livraria.
As melhores histórias brasileiras de horror tem a intenção de mostrar o quão rica e assustadora é esta trajetória, com uma seleção caprichada que vai de 1870 a 2014, ou seja, cobre 144 anos, quase toda a trajetória independente da vida nacional. Procuramos escolher histórias representativas, em especial as que abordam mais de perto a cultura brasileira, além de se destacar pela qualidade literária. Nesse sentido o conjunto dos autores selecionados é demonstrativo do interesse de parte dos melhores autores brasileiros, de diferentes épocas: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Afonso Arinos, João do Rio, Gastão Cruls, Thomaz Lopes, Tabajara Ruas, Braulio Tavares, Márcia Kupstas, Roberto de Sousa Causo, Júlio Emílio Braz, Carlos Orsi, M. Deabreu, Walter Martins e Gustavo Faraon.
Um mosaico do que a ficção de horror brasileira já fez de mais interessante em cada época, permitindo uma experiência de leitura rica e diversificada. Aparecerão temas como canibalismo, feitiçarias e misticismos, catalepsia, erotismo sobrenatural, fantasmas e assombrações, fim dos tempos, epidemia, rituais pagãos, pactos e possessões, paranoias e conspirações. Um variado leque para despertar a imaginação e deixar os sentidos alertas. Pois o horror poderá estar à espreita em cada linha, em cada página. E certamente em todas as histórias.
Ficaremos felizes com a sua presença.

sábado, 20 de outubro de 2018

Hiperespaço 3

Prosseguindo com a comemoração aos 35 anos de lançamento do Hiperespaço, está disponível o histórico terceiro número deste fanzine de ficção científica publicado originalmente em 1984.
A edição tem 10 páginas e traz artigos de José Carlos Neves sobre os efeitos especiais da hoje lendária ILM, empresa responsável pelos efeitos especiais da trilogia clássica da franquia Star wars, e sobre a construção de um modelo super-realista da famosa espaçonave da série de tv Battlestar Galactica. A capa traz uma ilustração de Cerito.
Hiperespaço 3 pode ser lido online aqui ou baixado gratuitamente aqui. O número 1 e o número 2 também estão disponíveis.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Parabéns: Hiperespaço 2

Prosseguindo com a comemoração aos 35 anos do Hiperespaço, está disponível o histórico segundo número do fanzine de ficção científica patriarca deste blogue, publicado originalmente  no início do icônico ano de 1984.
A edição tem 10 páginas e destaca os detalhes do longa O retorno de jedi, então recentemente lançado nos cinemas brasileiros, num artigo de José Carlos Neves. Também publica uma entrevista com o ilustrador Rodval Matias – autor do desenho da capa –, quadrinhos de Mário Mastrotti e notícias sobre fatos e eventos da época.
Hiperespaço 2 pode ser lido online aqui ou baixado gratuitamente aqui. O número 1 também está disponível.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Hiperespaço faz 35 anos

Em outubro próximo, o fanzine Hiperespaço completa 35 anos do lançamento de seu primeiro número, em 1983, que inspirou uma série de novas publicações de ficção científica lançadas nos anos seguintes, formando aquilo que hoje chamamos de Segunda Onda da ficção científica brasileira.
Na época de seu lançamento, os editores promoveram a distribuição gratuita do primeiro número, enviando-o pelo correio a uma enorme relação de nomes e endereços compilada ao longo de anos de relacionamento postal dos editores com fãs de fc, cinema e quadrinhos. Foram distribuídos mais de 200 exemplares dessa edição, a partir do que foi implementado um sistema de assinaturas que sustentou a publicação até o número 52 (publicado em 2003), quando o fanzine foi descontinuado, substituído por ações como a Coleção Fantástica, que publicou novelas inéditas de fc&f nacional em formato de livros de bolso, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, com artigos, entrevistas, ensaios e levantamentos estatísticos sobre a fc&f no Brasil, e este blogue, com o conteúdo noticioso do zine.
Nunca tive intenção de digitalizar o Hiperespaço mas, em 2013, fiz edições fac-similadas dos dois primeiros números, que foram distribuídas entre os participantes de uma das edições do festival Fanzinada, justamente para assinalar os 30 anos da data. Como não possuo mais as matrizes, tive de escanear diretamente dos exemplares originais remanescentes, que são de baixíssima qualidade – infelizmente, esse era o tipo de impressão disponível na época.
Tanto trabalho merecia ser melhor aproveitado, então disponibilizarei aqui, nos próximos meses, versões digitalizadas dos quatro primeiros números do Hiperespaço, que formam o primeiro ano de publicação, com imagens tratadas da melhor forma possível, embora não tenha logrado obter a qualidade ideal.
E, para começar a festa, está disponível para leitura online e download o primeiro número do Hiperespaço, que traz dez páginas de artigos sobre modelismo e cinema de fc. A capa tem um desenho de José Carlos Neves (artefinalizada por Cerito), obviamente inspirada no space jockey de Alien: O oitavo passageiro.
Parabéns pra nós! Aproveite o presente.

domingo, 26 de agosto de 2018

Qi 152

Está circulando o número 152 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz os artigos "Napoleão, os quadrinhos e sucedâneos", por Lio Guerra Bocorny, e "As línguas de Esopo", por E. Figueiredo, além dos quadrinhos de Luiz Claudio Lopes Faria e do editor. 14 páginas são dedicadas à seção "Fórum", que reproduz as cartas dos leitores. Completam a edição as colunas "Mantendo contato" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa traz uma ilustração do editor que também esconde um segredinho, divertido mas politicamente incorreto.
Junto à edição, os assinantes recebem Voos d'o Tico Tico nº1: J. Carlos, Augusto Rocha, Leonidas e Cicero Valladares, fascículo com 16 páginas com uma pesquisa de Francisco Dourado sobre a participação dos ilustradores citados no famoso periódico, que apresentou os quadrinhos à primeira geração de leitores no Brasil.
O QI impresso é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital, bem como seus encartes, são disponibilizados pelo saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Edições anteriores também podem ser encontradas.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Calazans atômico

Graças à gentileza do editor Marcos Freitas, recebi há poucos dias uma trinca de publicações da Atomic Quadrinhos, todas com trabalhos do acadêmico Flávio Calazans, artista que tenho acompanhado desde os anos 1980, quando ele publicava o fanzine Barata. A Atomic tem montado um catálogo de contornos históricos, buscando sempre recuperar trabalhos importantes e artistas distantes das luzes da ribalta.
Flávio Calazans construiu sua carreira basicamente nos fanzines e entre seus trabalhos mais conhecidos está A guerra dos golfinhos, ficção científica publicada originalmente em forma de fanzine, mas que recebeu diversas republicações posteriores, inclusive na saudosa revista Aventura e Ficção, da Abril Jovem, nos anos 1990. Ao longo do tempo, a história evoluiu e esta é por certo a versão mais bem acabada da mesma, que já está em sua quinta edição pela Atomic, com uma bela capa em cores, 86 páginas e muitos extras interessantes.
Na sexta edição está o igualmente antológico Guerra de ideias, outra obra dos anos 1980 que teve diversas edições, e recebeu o mesmo acabamento cuidadoso da Atomic, com capa cartonada em cores, 76 páginas e extras que ajudam a contextualizar esta história que se insere no campo do quadrinho filosófico, estilo do qual o autor é um dos fundadores e principais praticantes.
A hora da horta foi uma novidade para mim. Trata-se de uma pequena aventura histórica originalmente publicada em capítulos em um jornal do litoral paulista. A edição é caprichada, com a maior parte das suas 46 páginas tomada por textos de apresentação e um "diário de bordo" em que o autor comenta a construção do trabalho, que é presentado na íntegra.
Todas as edições são muito bem produzidas, bonitas e robustas, ideais para constar no acervo de bibliotecas. Vale a pena conhecer. Mais informações no blogue da Atomic, aqui.

domingo, 29 de outubro de 2017

Douglas Quinta Reis (1954-2017)

Se há uma coisa que não gosto de escrever são obituários, que adio o máximo que posso. Fica ainda mais difícil quando se trata de uma pessoa é próxima, como é o caso. Mas não posso me furtar a testemunhar aqui o passamento de Douglas Quinta Reis que, por muitos anos, foi o meu principal editor.
Reis foi um dos fundadores da Devir Livraria que, ao longo dos anos 1980, montou um esquema próprio de distribuição de revistas importadas, para o qual criou o boletim Recado Devir, fanzine que marcou uma geração de leitores. A Devir também ficou conhecida pela publicação de livros de RPG e card games, jogos que se tornaram grandes coqueluches dos anos 1990. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, a Devir também se envolveu com a publicação de quadrinhos de artistas nacionais e estrangeiros - sempre apresentados na forma de álbuns de luxo -, e com a literatura fantástica, para a qual mantinha selos exclusivos para ficção científica, horror e fantasia, de autores brasileiros e estrangeiros, clássicos e modernos. Reis era como um malabarista que mantém muitos pratos girando ao mesmo tempo na ponta de varetas, sem derrubar nenhum e sem perder a classe. O trabalho adiante de todas essas linhas editoriais ao longo dos 30 anos da Devir colaborou decisivamente para estabelecer no Brasil um segmento hoje muito disputado, o da chamada cultura geek.
Conheci Reis em 1995 quando me lancei a tarefa de realizar a primeira de quatro convenções anuais de horror, as HorrorCons. Logo de cara, e com toda boa vontade e gentileza que sempre o caracterizaram, Reis se aproximou do evento, patrocinou cartazes de divulgação e esteve presente em todas elas. Mais tarde, acolheu a publicação do meu Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual publicou cinco edições, sem falar em vários outros projetos dos quais participei direta e indiretamente. Neste momento estávamos envolvidos na preparação de uma antologia de contos de horror, que organizei ao lado de Marcello Simão Branco - que também foi meu parceiro nas HorrorCons e no Anuário -, e estávamos em contato quase diário. Foi um choque receber a notícia de sua morte repentina, vitimado por um ataque cardíaco fulminante na noite de 12 de outubro. Até porque Reis não tinha histórico algum, era jovem e ativo. Divertido, bem informado e sempre pronto para um bom papo - sem falar nas lições sobre edição que passava naturalmente durante as conversas - era um prazer compartilhar sua presença.
Seu corpo foi velado e enterrado no dia 14 de outubro no Cemitério da Quarta Parada, em São Paulo.
A Devir continua e torcemos por seu sucesso, mas por certo que não será a mesma sem a presença de Douglas Quinta Reis. Não há dúvida que testemunhamos aqui o fim de uma era.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Max Mallmann (1968-2016)

No dia 4 de novembro de 2016, aos 48 anos, perdemos o escritor e roteirista brasileiro Max Mallmann Souto-Pereira, uma das gratas revelações do final da Segunda Onda da ficção científica brasileira.
Mallmann era gaúcho de Porto Alegre e estreou em 1989 com o livro de realismo fantástico Confissão do minotauro, publicado pelo Instituto Estadual do Livro. Seu segundo romance foi o vencedor do Prêmio Açorianos Mundo bizarro (1996, editora Mercado Aberto), também na linha do realismo fantástico e com o qual ele foi definitivamente integrado ao fandom nacional da literatura de gênero.
No final dos anos 1990, Mallman iniciou seu trabalho como roteirista na TV Globo, onde atuou  em importantes seriados e novelas, tais como Malhação, A grande família e Carga pesada, mas não abandonou o ofício de escritor. Em 2000 publicou pela editora Rocco a novela Síndrome de quimera, finalista do Prêmio Jabuti e ganhadora do Prêmio Argos. Seus livros seguintes, também pela Rocco,  foram Zigurate: Uma fábula babélica (2003) e a ficção histórica  O centésimo de Roma (2010), e sua sequência, As mil mortes de César (2014). Seu último trabalho publicado foi Tomai e bebei, uma pequena novela sobre vampiros lançada em 2015 pela editora Aquario.
Dono de uma prosa agradável e divertida, Mallmann não abria mão do humor e da ironia em doses generosas, que eram também características de seu comportamento social, sendo assim um autor querido por seus colegas e leitores.
Sua morte foi decorrência do agravamento de um câncer de pulmão com o qual lutava desde 2015. O corpo foi cremado no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, e as cinzas levadas para sua cidade natal.


Mustafá Ali Kanso (1960-2017)

Uma grande perda para a ficção científica brasileira: deixou-nos em 26 de junho último, aos 57 anos, o escritor curitibano Mustafá ibn Ali Kanso.
Bacharel em Química e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Kanso teve uma carreira breve nas letras fantásticas, contudo produtiva e bem avaliada. Suas primeiras contribuições surgiram no início do século, durante as oficinas de escrita criativa ministradas na capital paranaense pelo saudoso escritor André Carneiro, que foi seu grande mentor. Após a morte do mestre em 2014, Kanso assumiu a direção da atividade.
O autor conviveu com grandes nomes do gênero e com eles compartilhou várias antologias: Futuro presente (2009, Record), organizada por Nelson de Oliveira, Contos imediatos (2009, Terracota), Proibido ler de gravata (2010, Multifoco), Sagas: Odisseia espacial (2012, Argonautas), Estranhas histórias de seres normais (2015, Illuminata) e Possessão alienígena (2017, Devir), além de algumas edições do Projeto Portal, organizadas e editadas por Luiz Brás em 2009 e 2010.
Seus livros solo foram a coletânea A cor da tempestade (2011, Multifoco) e o romance O mesmo sol que rompe os céus (2016, Fragmentos).
Vítima de um ataque cardíaco fulminante, seu passamento repentino e precoce surpreendeu todo fandom nacional de literatura fantástica. O corpo foi cremado no Crematório Vaticano, em Curitiba.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Na eternidade sempre é domingo

Na eternidade sempre é domingo, Santiago Santos, 144 páginas. Ilustrações de Jean Fhilippe. Editora Carlini & Caniato, Cuiabá, 2016.

O escritor matogrossense Santiago Santos apareceu há poucos anos nas redes sociais com um trabalho a conta gotas apoiado em minicontos surpreendentes, mas logo chamou a atenção por suas tramas envolventes e bizarras. Essas pequenas narrativas, que podem ser vistas no blogue Flash Fiction, revelam um autor maduro e repleto de recursos, que não se embaraça seja no mainstream, seja nos gêneros, que desenvolve sem padrões e protocolos. Cada texto é uma experiência diferente e, muitas vezes, depois dos poucos minutos dedicado à degustação do mesmo, o leitor fica com a vontade de mais.
Na eternidade sempre é domingo vem atender ao desejo desses leitores. Trata-se do que, na tradição anglófona, se convencionou chamar de fix-up, um romance construído a partir de narrativas menores independentes entre si mas que, quando reunidas assim, formam um todo coerente. Os vinte pequenos contos publicados neste livro parecem prometer satisfazer o anseio do leitor, mas, no fim das contas, fiquei querendo mais do mesmo jeito.
O romance, o primeiro do autor, é um relato de um mochilão pelos Andes peruano e boliviano, viagem que Santiago realmente empreendeu em 2014. No primeiro conto, ainda no Brasil, o autor é confrontado por uma entidade mágica que se apresenta como Nipi, um espírito ancestral que, a cada trecho da viagem, revela os segredos fantásticos que diversos personagens escondem em sua aparência cotidiana. Assim, uma senhora insuspeita se revela uma antiga modelista da corte incaica, dois meninos de rua são os filhos imortais de Atahuallpa e Huáscar, e até animais domésticos se elevam a categoria de semidivindades. Todo isso para que a história e a cultura andinas sejam levadas ao mundo e nunca esquecidas.
A jornada nos leva a Cusco, La Paz e diversos vilarejos e pontos turísticos da região, como o Lago Titicaca e Machu-Picchu, com descrições vívidas de suas paisagens e costumes. Cada conto/capítulo é aberto por uma fotografia tirada pelo autor, que ilustra os personagens que irão ali se apresentar.
O autor revela ter feito uma longa e minuciosa pesquisa para escrever os relatos, de forma que a ficção se mistura à realidade e não sabemos exatamente onde termina uma e começa a outra. Para auxilar o entendimento dos muitos termos quíchua que dão título aos contos e surgem a todo tempo em meio à narrativa, há oportunas notas de rodapé e vários apêndices, que também dão aos contos uma sólida consistência histórica.
Mas o que isso tem a ver com nós, brasileiros, que aparentemente não somos em nada participantes dessa cultura? Em tempos de governo golpista que vira as costas para a América Latina, pode mesmo parecer inútil, mas nos faz pensar no porquê disso, que é uma questão que paira sem resposta desde os primeiros tempos do fandom brasileiro de fc&f. Por que não temos um intercâmbio com a produção dos nossos vizinhos? Por que não valorizamos a cultura do subcontinente no qual nos incluímos, desprezando até mesmo nossa própria tradição em favor de modelos de terras muito mais distantes e ainda mais incompreensíveis?
Santiago Santos mostra que é possível construir ficção relevante sem tributar às metrópoles e que a América Latina é um mistério ainda por ser descoberto pelos brasileiros. Porque, afinal, as fronteiras são apenas limitações políticas: a América Latina também está em nós.
A aventura termina como todas as peregrinações: numa última viagem de ônibus de volta para casa. Nipi se despede mas, por certo, continua a espera dos peregrinos, para mostrar outros segredos da rica magia andina.
O volume está disponível em versão digital aqui, mas pode ser obtido em papel no saite da editora ou diretamente com o autor – com direito a autógrafo e dedicatória – através do email contato@flashfiction.com.br.
Uma entrevista em áudio em que Santiago conta a experiência de escrever este livro, pode ser ouvida aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

11 de dezembro: Dia da ficção científica brasileira

O próximo dia 11 de dezembro será uma data lembrada para sempre. Pela primeira vez na história, a ficção científica brasileira terá o seu dia. E não é um dia qualquer, escolhido aleatoriamente: trata-se da data de nascimento de Jerônymo Monteiro (1908-1970), considerado pelos fãs do gênero como o pai da ficção científica brasileira, escritor, tradutor, editor e organizador de extrema ousadia, que teve importante papel na construção de uma consciência brasilianista no gênero, numa época em que a fc era desprezada pela intelectualidade.
Monteiro é autor, entre outros livros, do romance Três meses no século 81 (publicado em 1947), foi diretor de redação da Magazine de Ficção Científica, da editora Globo, que, a cada edição, apresentava um autor brasileiro. Também foi um dos primeiros autores brasileiros a enveredar pela literatura policial. Foi fundador do Clube de Ciencificção (1964) e da Associação Brasileira de Ficção Científica-ABFC (1969), os primeiros do gênero no país.
Para fixar essa efeméride, a Biblioteca Pública Viriato Corrêa vai receber um evento especial, quando o ator será lembrado e homenageado nas pessoas de Helio Monteiro e Cris Monteiro Kayatt, filho e neta de Jeronymo Monteiro, num bate papo mediado pelo editor Silvio Alexandre e pelo escritor Luiz Bras. Também sertão expostos objetos, fotos e livros ligados ao escritor.
O evento acontece exatamente no dia 11 de dezembro, das 15 às 17 horas, na Biblioteca Pública Viriato Corrêa (Rua Sena Madureira, 298 - Vila Mariana - São Paulo). A entrada é franca.
Mais informações na fanpage do evento, aqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ondas não bastam

Todas as vezes que sou questionado a respeito da história da fc&f brasileira, fico perdido nas classificações cronológicas porque, nesta altura dos acontecimentos, o mapeamento já ultrapassou os limites das três "ondas" que antes pareciam ser suficientes para definir e entender a evolução da arte.
Há vasto material anterior à organização do fandom e, mesmo durante o período de ação deste, pelo menos um importante momento da fc&f nacional não fez parte de nenhuma das ditas ondas. Estas só fazem sentido de fato no restrito escopo da produção dos fãs e dos autores que se identificaram com sua ação.
Por mais que isso desagrade determinados grupos, a história da fc&f transcende o antes e o durante do fandom. Assim sendo, e por falta de uma classificação mais conveniente, montei a seguinte proposta, que conta com seis subdivisões principais:
Clássicos: refere-se aos autores dos primeiros exemplos da fc&f nacional, anteriores ao Movimento Modernista. Exemplos: Álvares de Azevedo, Augusto Zaluar, Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Coelho Netto, Monteiro Lobato, Aluísio de Azevedo etc
Modernistas: autores contemporâneos e/ou identificados ao Movimento Modernista: Exemplos: Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Gastão Cruls, Humberto de Campos, João do Rio, Malba Tahan, Guimarães Rosa, Afonso Schimidt, Beliro Neves, Murilo Rubião etc.
Primeira onda ou Geração GRD: Autores claramente identificados com o movimento autoral e editorial de literatura de gênero, cuja obra apresenta vínculos claros com os protocolos da fc&f pulp. Exemplos: Jerônymo Monteiro, Rubens Teixeira Scavone, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, André Carneiro, Nilson Martello, Levy Menezes, Rubens F. Lucchetti etc.
Não alinhados: Autores contemporâneos não participantes da primeira e segunda ondas, cujas obras vinculam-se perifericamente aos gêneros e estão mais identificadas ao mainstream literário. Exemplos: José J. Veiga, Chico Buarque, Ariano Suassuna, Vitor Giudice, Érico Veríssimo, Paulo Leminski, Cassandra Rios, Ligia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão, Ruth Bueno, Moacyr Scliar, Nilza Amaral, Herberto Sales, Julio Emilio Braz, João Ubaldo Ribeiro, Fausto Fawcett, Domingos Pelegrini, João Batista Melo, Neil de Castro, Nelson de Oliveira, etc.
Segunda onda ou Geração dos fanzines: Autores claramente vinculados ao fandom organizado nos anos 1980, cujos trabalhos desenvolveram-se especialmente em publicações amadoras. Exemplo: Daniel Fresnot, Jorge Luiz Calife, Roberto Schima, Roberto de Sousa Causo, Simone Saueressig, H. V. Flory, Braulio Tavares, Max Mallmann, José dos Santos Fernandes, Ivanir Calado, Gerson Lodi-Ribeiro, Fábio Fernandes, Carlos Orsi, Ivan Carlos Regina, Martha Argel, Miguel Carqueija, Carlos Patati, Gian Danton, Ataíde Tartari, Finisia Fideli etc
Terceira onda ou Geração internet: Autores surgidos no século 21, principalmente a partir da ação dos fãs em saites e redes sociais. Exemplo: Tibor Moricz, Ana Cristina Rodrigues, Giulia Moon, Cristina Lasaitis, Helena Gomes, Clinton Davisson, Andre Vianco, Luiz Bras etc.
É claro que há interstícios que podem agrupar autores identificados com mais de uma classificação, bem como grupos restritos de ação pontual mas, por hora, fiquei satisfeito com estas subdivisões. Seria interessante iniciar um amplo debate a respeito disto, para acertar arestas e afinar definições, identificando também as obras mais relevantes da cada ciclo e os temas mais praticados em cada uma, se houver.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Catalogador de Universos

O ilustrador e fanzineiro Lancelott Martins mantém há alguns anos um sério trabalho de catalogação de personagens dos quadrinhos brasileiros através do fanzine Catalogador de Universos.
Periodicamente, Lancelott apresenta uma nova edição desse e de outros títulos com os mesmos honrosos objetivos historiográficos, compilando quadrinhos clássicos e raridades da bibliografia nacional.
Vale a pena conhecer todas as publicações de editor, disponíveis aqui. Para baixar os fanzines para o seu computador, é necessário estar logado no servidor do Issuu. Mais informações no blogue do editor, aqui.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Hiperespaço no Rudge Ramos Online

Acaba de ser publicado na edição online do Jornal Rudge Ramos o artigo "Fanzines fazem parte da cultura do ABC", focado principalmente nas carreiras dos fanzines Hiperespaço, editado por Cesar Silva, e A Cigarra, editado por Jurema Barreto, ambos lançados na década de 1980 e com mais de duas décadas de circulação. De autoria de Gabrielli Salviano e Marcelo Argachoy, o artigo faz um levantamento histórico das duas publicações e discute o valor da ação alternativa na cultura brasileira.
Empenho, publicamente, meus agradecimentos ao bom trabalho dos jornalistas. O texto completo pode ser lido aqui.