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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Lançamento: Herdeiras de pedra e ar, Mar Freitas

"Rubi Takahashi é uma Herdeira do Ar, nascida em berço de ouro no próspero Império de Körin e sucessora de uma poderosa indústria bélica. Sua vida de luxo e privilégios é abruptamente arruinada durante um sequestro desastroso em que é obrigada a saltar de um dirigível no meio de uma tempestade. Ela cai direto no coração do território inimigo: o militarizado reino de Minéria. Lá, quem a encontra é a capitã Céu Steinbachi, uma soldada implacável cuja missão é proteger a fronteira mágica de Minéria a qualquer custo. Para Céu, a herdeira arrogante não é apenas uma prisioneira de guerra, mas um segredo perigoso que pode expor seu passado e atrair a fúria de uma rainha tirana. Forçadas a uma convivência improvável, a herdeira da tecnologia e a capitã da terra logo descobrem que a linha que separa o ódio da atração é mais tênue do que imaginavam."
Este é o texto de apresentação do romance de fantasia sáfica Herdeiras de pedra e ar, da escritora mineira Mar Freitas, que já tem em sua bibliografia os ebooks Eu que não amo você (2025) e Debaixo do meu chapéu (2024).
Herdeiras de pedra e ar tem 392 páginas, é uma publicação do selo Galera da Editora Record e está em pré-venda aqui, com data de lançamento marcada para 10 de novembro. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Despertar: Uma maldição de ruínas e fúria, Jennifer L. Armentrout

A escritora americana Jennifer L. Armentrout, que ficou bastante conhecida no Brasil pelos romances da série Sangue e cinzas, está lançando uma nova série de fantasia sombria. Trata-se de Despertar, cujo primeiro volume, originalmente lançado em 2023, leva o título Uma maldição de ruínas e fúria (Fall of ruin and wrath).
Diz o texto de apresentação: "Há muito tempo, o mundo foi destruído pelos deuses. Apenas nove cidades foram poupadas. Separadas pela vastidão selvagem repleta de monstros e perigos inimagináveis, cada uma delas é governada por um guardião, um membro da realeza que se alimenta do prazer sentido pelos mortais. Dotada com uma intuição que nunca falha, Calista sabe que seus talentos são extremamente valiosos para os poderosos. Desse modo, ela leva a vida escondida como cortesã do Barão de Archwood, oferecendo a ele informações em troca de proteção. Quando a intuição de Calista a leva a salvar um lorde de um perigo terrível, a voz da intuição da garota ressoa como um alarme em seus ouvidos: Hoje, ele a trará felicidade, mas um dia causará sua ruína. O incidente chama a atenção do Barão, que logo se interessa pelo viajante, enquanto Lorde Thorne, por sua vez, se interessa por Calista. A jovem então se torna acompanhante temporária do visitante, mas a região está tomada por rebeliões, tornando o acordo entre eles ainda mais difícil. Enquanto a violência se alastra pelo reino, com cavaleiros e monstros batalhando nos portões da cidade, o lorde fica cada vez mais faminto pela companhia de Calista em sua cama e a intuição da garota não parece ser o suficiente para mantê-la segura. Em meio ao caos na cidade, Calista deve decidir entre seguir sua intuição e proteger a si mesma, ou seguir seu coração até a própria ruína anunciada".
Uma maldição de ruínas e fúria tem 434 páginas, tradução de Carlos César da Silva e é uma publicação do selo Galera da Editora Record.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

O segredo das larvas, Stefano Volp

"Em um futuro não tão distante, Freya mora em uma colônia onde pessoas de pele negra são confinadas. Lá, além de lidar com os transtornos mentais da mãe, ela vive constantemente assombrada pela Filtragem, o programa da metrópole que promete selecionar as garotas mais belas para passarem o restante de suas vidas em Éden, desfrutando dos privilégios da capital tão desejada.
Apesar de não conhecer o mundo do outro lado da cerca, Freya se recusa a acreditar nessas promessas. Ela tem certeza de que a convocação é um disfarce para os piores pesadelos. Algo terrível acontece nas beiras do mundo e as garotas filtradas correm perigo. Freya sabe de tudo isso porque sua própria mãe foi uma Filtrada. A única que retornou...
Chegou novamente o período da Filtragem e só o que resta a fazer é escapar. Só que agora, nada será igual e Freya precisará decidir até onde está disposta a ir para não mais apenas sobreviver, mas finalmente se vingar."
Este é o texto de apresentação de O segredo das larvas, romance afrofuturista do escritor capixaba Stefano Volp, publicado originalmente em 2019 pela Letras e Versos, e que volta agora pelo selo Galera da editora Record. 
Apesar de ser sua estreia na ficção científica, Volp possui experiência como escritor, tendo em seu currículo os livros Nunca vi a chuva (2023), Homens pretos (não) choram (2022)e O beijo do rio (2022), entre outros. Também é o idealizador do Clube da Caixa Preta, clube de leitura dedicado a contos clássicos escritos por autores negros. 
O livro tem 406 páginas e está em pré-venda aqui.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Lançamento: Dengue boy, Michel Nieva

"No ano de 2272, a crise climática atinge um ponto intransponível. As zonas polares derreteram por completo, a temperatura média global é de 90°C e cidades como Nova York e Buenos Aires se encontram submersas. No extremo sul do continente, os Arquipélagos Patagônicos formam o Caribe Pampiano: de um lado, um balneário com belíssimas praias artificiais; de outro, uma miserável e tépida orla. É nesse cenário devastado que cresce o dengue boy. Ninguém gosta do dengue boy. Na escola, seu aspecto bizarro e nojento o transforma no principal alvo das zombarias comandadas pelo pequeno tirano Dulce. Em casa, sua situação não é muito melhor. A mãe, exausta de seus dois empregos, não aguenta a bagunça feito pelo filho, que não possui mãos. E assim, deslocado, o esquisito mosquito humanoide vai levando sua vida, dia após dia, no mormaço insuportável do único canto ainda habitável da Terra."
Este é o texto de apresentação do romance Dengue boy: A infância do mundo (El niño dengue), do jovem escritor argentino Michel Nieva, texto ganhador em 2022 do prêmio O. Henry para ficção curta, publicado em inglês no periódico literário britânico Granta.
Graduado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente atuando como professor na Universidade de Nova York, Nieva é fundador do subgênero Gauchopunk e instala toda a sua ficção nesse ambiente.
O volume tem 208 páginas, tradução do também escritor Joca Reiners Terron para o selo Amarcord da editora Record, e pode ser adquirido no site da editora, aqui.

domingo, 30 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: Geração Subzero

Geração Subzero: 20 autores congelados pela crítica mas adorados pelos leitores, Felipe Pena, org. 320 páginas. Rio de Janeiro: Record, 2012.

Geração Subzero foi certamente o livro de ficção fantástica brasileira mais comentado em 2012. Desde muito antes de seu lançamento, já era assunto nas redes sociais e, quando do lançamento, rapidamente ganhou resenhas em publicações importantes que a ficção de gênero raramente atinge.
Toda essa atenção foi fruto das inteligentes provocações implícitas em seu título, que faz referência explícita à prestigiosa antologia mainstream Geração Zero Zero: Fricções em rede (2011, Língua Geral), organizada por Nelson de Oliveira, e também porque exagera nas tintas de um suposto confronto entre os autores de gênero e a crítica literária.
O tom provocativo continua forte na longa introdução do volume, assinada pelo organizador, Felipe Pena, que é jornalista, escritor, professor e doutor em Literatura pela PUC, com pós-doutorado pela Universidade de Paris. Um currículo acima de qualquer suspeita, portanto. Essa introdução revela alguns dos objetivos de Pena quanto ao público que ele busca para o livro. O discurso soa como uma pregação, não para os convertidos, mas para o público leigo e, especialmente, para os intelectuais das letras. Isso fica claro porque Pena retoma assuntos superados há anos no fandom, como se os autores de fc&f ainda estivessem preocupados com as antipatias do mainstream tanto quanto já o foram no passado. Até mesmo um manifesto faz parte dessa apresentação, o "Manifesto Silvestre", que propõe elevar o entretenimento à categoria de arte. O conflito entre a literatura de gênero e o mainstream realmente foi pauta entre os autores-fãs nos anos 1990, mas a própria evolução do mercado editorial tratou de reduzi-la à devida estatura.
Mas é na leitura dos contos que se percebe a seriedade do trabalho de Pena. A antologia publica vinte contos, cujos critérios de seleção foram bastante científicos, como é de se esperar de um doutor em literatura. Nada do "gostei- não-gostei" e dos bairrismos comuns nesse tipo de dinâmica. Pena não é um iniciado nos corredores do fandom e conseguiu escapar muito bem deles. Seus critérios, que partiram principalmente da presença dos autores nos ambientes frequentados pelos leitores de gênero e a receptividade que cada um dele goza dentro dessas comunidades, conseguiram ser bastante precisos quanto ao instantâneo do estado da arte da ficção de gênero praticada hoje no Brasil. Não é um portfólio para inglês ver, nem uma antologia revolucionária. É um retrato, um recorte como dizem os acadêmicos, do panorama médio da fc&f nacional neste início de século.
Um antologista geralmente busca a excelência, reunir num único volume os melhores textos de uma escola ou de um gênero. Mas Pena não estava interessado nisso. Então, o livro passeia por vários gêneros, indo do mistério à ficção científica, reunindo autores de vários estilos e competências.
Não vou abordar conto a conto porque isso tornaria a leitura enfadonha, mas alguns deles merecem ser comentados.
A primeira metade da antologia é mediana, mas salta aos olhos o conto "O índio do abismo sou eu", de Luiz Bras, heterônimo do experiente escritor Nelson de Oliveira acima citado que, dessa forma, subscreve a proposta de Pena. Bras tem desenvolvido sua carreira exclusivamente no gênero da ficção científica, abordando temas atuais com um estilo maduro e consistente, qualidades presentes também neste texto que conta a história de uma mulher que sofre de uma doença terminal incurável. Congelada até a cura ser descoberta, quando volta a consciência, muito anos no futuro, ela é sequestrada por um grupo de ativistas políticos que pretende retirar dela todos os órgãos para suprir transplantes em pessoas carentes. A narrativa salta continuamente entre o tempo objetivo natural e um tempo subjetivo virtual, que acontece apenas na mente da protagonista.
A segunda parte da antologia sobe bastante de qualidade, principalmente a partir de "Entrevista com o saci", de Martha Argel, autora da segunda geração da ficção científica brasileira, nos anos 1990, que depois enveredou pela literatura de horror, na qual obteve sucesso e reconhecimento. Martha é cientista, doutora em ornitologia com muitos trabalhos acadêmicos publicados, além de diversos romances e coletâneas de horror. O conto, cujo título homenageia a escritora americana Anne Rice, fala sobre uma psicóloga de um asilo que conhece um velhinho solitário cheio de histórias revoltantes para contar.
Janda Montenegro é uma jovem autora carioca, formada em Letras pela UFRJ, que também tem alguns livros publicados. Sua contribuição para a antologia foi "Outras onomatopeias", conto absurdista situado nas franjas da ficção fantástica. A história, rápida e pungente, conta o drama improvável que um escriturário medíocre passa ao ser abordado por uma estranha "blitz" nas ruas do Rio de Janeiro. O final esconte uma piadinha, mas ela é tão cruel que evoca tons de humor muito obscuros.
Delfim, que além de escritor é editor e jornalista especializado em quadrinhos, assina "O escritório de design publicitário", um conto na linha absurdista de Murilo Rubião, que fala a respeito de um jovem que vê sua vida irremediavelmente comprometida por causa de seu estranho emprego novo.
"A lua é uma flor sem pétalas", de Cirilo Lemos, autor do romance O alienado, é um conto de ficção científica cyberpunk que, com muita ação e violência, conta uma história de guerra entre gangues de uma superfavela futurista.
Além dos autores já citados, o livro também apresenta textos de André Vianco, Eduardo Sphor, Thalita Rebouças, Carolina Munhóz, Eric Novello, Raphael Draccon, Ana Cristina Rodrigues, Juva Batella, Estevão Ribeiro, Pedro Drummond, Luis Eduardo Matta, Sérgio Pereira Couto, Julio Rocha, Helena Gomes e Vera Carvalho Assumpção, alguns deles verdadeiros pesos pesados da literatura de gênero, que, não raro, figuram nas listas dos mais vendidos. Muitos deles são experientes na literatura de gênero, especialmente no campo infanto-juvenil, aos quais o organizador também gosta de definir com a máxima “Escrever fácil é muito difícil”. Certamente que cada um deles têm, em seus repértórios, contos bem superiores aos vistos nesta antologia mas, como já foi comentado aqui, não era esse o objetivo do organizador. Cabe também lembrar que todos os autores cederam os direitos de seus contos em favor da ONG Ler é Dez, Leia Favela.
Contudo, Geração Subzero ainda esconde uma última pérola. Trata-se do conto "A invenção do cânone", do próprio Felipe Pena, publicado no corpo da apresentação do livro como uma espécie de ilustração. Trata-se de uma ficção absurdista que mostra o diálogo entre um casal de intelectuais numa casa de chás em Paris. Divertidíssimo e repleto de significados.
Geração Subzero poderia ser melhor, é claro. Mas não é esse o mérito do trabalho de Pena. A partir de um olhar suficientemente distanciado e amplo, Pena consegui apresentar um panorama realista das virtudes e pecados da ficção de gênero praticada no Brasil. Para o bem ou para o mal, é o que somos. E contra isso não há como argumentar.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: A Companhia Negra, Glen Cook

A Companhia Negra (The Black Company), Glen Cook. 308 páginas. Tradução de Edmo Suassuna. Rio de Janeiro: Record, 2012.

Quem viveu os primeiros anos do segundo fandom brasileiro de ficção fantástica, entre nos anos 1980 e 1990, sabe que, naqueles tempos, o que mais havia para ler era ficção científica. O acesso ao gênero era garantido por diversas coleções de grandes editoras, como a José Olimpio, Nova Fronteira, Brasiliense, Hemus e Record, sem falar naquelas que vinham importadas de Portugal, com a nata da Golden Age e da New Wave estrangeiras.
A efervescente atividade dos fanzines e a chegada da edição brasileira do periódico Isaac Asimov Magazine, em 1990, parecia acenar com o estabelecimento definitivo do gênero. Nessa época, os leitores tiveram acesso ao que de melhor se fazia no Brasil e no mundo em matéria de fc. Também havia uma boa e constante oferta de horror, principalmente dos medalhões do gênero, mas a fantasia... ah, a fantasia. 
A não ser pelos clássicos e uma poucas edições de Marion Zimmer Bradley – bestseller à época –, nada mais havia para ler. Tolkien conhecia apenas uma edição mal distribuída de O senhor dos anéis – pirata, dizem as más línguas. O próprio C. S. Lewis, autor de referência na alta fantasia, era mais conhecido dos leitores brasileiros por seus romances de ficção científica, gênero que também caracterizava o único livro que o escritor novaiorquino Glen Cook tinha publicado por aqui: Os herdeiros da Babilônia (The heirs of Babylon, Global), uma surpreendente história de guerra naval pós-holocausto, com o realismo cruel de quem tem experiência no serviço militar – Cook serviu a Marinha.
A Companhia Negra, de longe seu trabalho mais importante, foi originalmente publicado nos EUA em 1984 mas, por ser fantasia, foi preciso que os editores brasileiros esgotassem todas as demais possibilidades até que alguém arriscasse uma chance para esse grande contador de histórias praticamente desconhecido no Brasil. 
É o primeiro romance de uma série que já conta com pelo menos dez volumes publicados. Trata-se de um relato, em forma de um comjunto de crônicas, escrito por Chagas, codinome do médico da Companhia Negra, um tradicional e respeitado grupo de mercenários que aluga seus serviços especializados a governos de um mundo tão fantástico quanto violento, continuamente mergulhado em guerras entre seus governantes que, geralmente, são muito mais do que homens.
Uma das coisas que mais impressiona ao se iniciar a leitura de A Companha Negra é que a história não tem um início tradicional. Nada de gnomos risonhos a tomar chá enquanto explicam como seu mundo funciona. Por exemplo, veja a seguir os primeiros parágrafos do volume:

"Houve prodígios e maravilhas suficientes, é o que o Caolho diz. Temos de culpar a nós mesmos por interpretá-los mal. A definição do Caolho não prejudica nem um pouco sua admirável capacidade de olhar para trás. 
Relâmpagos num céu limpo atingiram a Colina Necropolitana. Um dos raios acertou a placa de bronze que selava a tumba dos forvalakas, obliterando metade do feitiço de confinamento. Choveu pedras. Estátuas sangraram. Sacerdotes de vários templos relataram vítimas de sacrifício sem corações ou fígados. Uma dessas vítimas escapou depois de ter as tripas abertas, e não foi recapturada. Na Caserna da Forquilha, onde as Coortes Urbanas estavam aquarteladas, a imagem de Teux se virou completamente para trás. Por nove noites seguidas, dez abutres negros circularam o Bastião. Então um deles expulsou a águia que vivia no topo da Torre de Papel."

A narrativa segue nesse mesmo tom, contando uma batalha feroz na qual a Companhia Negra tenta defender, sem muito sucesso, os muros do castelo de seu atual contratante do ataque de uma fera monstruosa, sendo que boa parte da Companhia não sobrevive ao primeiro capítulo.
Entre o sangue e a morte que cercam o cronista, ficamos sabendo que seu mundo está passando por um tipo de revolução, um levante popular conhecido como Rosa Branca, que luta contra o domínio da Dama, soberana que está muito interessada em contratar os serviços da Companhia e, para isso, move seus peões num jogo quase sempre desonroso.
A Dama é uma bruxa com milhares de anos de idade, que tem aos seu serviço um grupo de generais lendários conhecidos como Tomados, magos impiedosos, cada um deles mestre em algum tipo de incomum habilidade sobrenatural. Não que a magia seja exclusiva desses monstros, longe disso. Ela está enraizada nas relações cotidianas desse mundo. Todo o exército que se preze mantém diversos bruxos em suas fileiras, e a Companhia Negra não é diferente. Boa parte das batalhas são travadas – e decididas – pelas força das artes arcanas. Mas um bruxo também pode ser morto, daí o uso ainda bastante útil dos guerreiros e suas espadas. Além das batalhas, o mundo da Companhia Negra está coalhado de monstros poderosos e assustadores, que matam e devoram. Ninguém é completamente confiável e até os protagonistas são arrogantes e traiçoeiros.
De tudo isso, só vamos ter uma noção mais ou menos clara para além de dois terços do romance, porque nada é explicado previamente. O leitor, da mesma forma que o narrador e seus companheiros de armas, na maior parte do tempo não fazem a menor ideia do que está acontecendo e só tentam manter-se vivos e de pé. O cronista não pode contar nada além do que aquilo que vê, o que deixa o leitor perdido no meio de intrigas incompreensíveis e batalhas que não parecem fazer nenhum sentido.
A narrativa é ágil e feroz, montada a partir de episódios frouxamente amarrados entre si. O texto é ríspido, sincopado e desconfortável, o que contribui para uma intensa sensação desamparo, sem espaço para a poesia que geralmente predomina o gênero.
Contrariando os protocolos, Cook lança mão de um grande contingente de personagens populares, gente comum que se vê envolvida pela violência e tem que dar um jeito de sobreviver. Os problemas dos reis, rainhas, príncipes e princesas não são o foco da atenção do autor, que os deixa de lado, recolhidos atrás das paredes de pedra de suas torres.
Como já foi dito, a série conta com dez sequências, sendo que as duas primeiras foram traduzidas pela Record em 2013 e 2014, respectivamente: Sombras eternas (Shadows linger, 1984), A Rosa Branca (The White Rose, 1985), The silver spike (1989), Shadow games (1989), Dreams of steel (1990), Bleak seasons (1996), She is the darkness (1997), Water sleeps (1999), Soldiers live (2000), Port of shadows (2018) e anunciada A pitiless rain, ainda não publicada.
Além de A Companhia Negra, Glen Cook escreveu muitos outros livros igualmente inéditos no Brasil, como os das séries Garrett p.i., Dread Empire, Instrumentalities of the night, Starfishers e Darkwar, além de diversos romances independentes, dos quais conhecemos apenas o já citado Os herdeiros da Babilônia que, de qualquer forma, merecia uma republicação.
Glen Cook é um grande escritor e deveria receber mais atenção dos editores e dos leitores. E, sendo seu livro mais significativo, A Companhia Negra é obrigatório para todos que querem conhecer, como diz o personagem de Laurence Fishburne em Matrix, "até onde vai a toca do coelho".

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: O pagamento, Philip K. Dick

O pagamento (Paycheck: Classics stories by Philip K. Dick), Philip K. Dick. 384 páginas. Tradução de Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife & E. Barreiros. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Desde que o cineasta Ridley Scott dirigiu Blade Runner: O caçador de andróides, baseado em um romance de Philip K. Dick, o autor tornou-se referência de fc no cinema, com diversas de suas histórias transpostas para as telonas. O próprio romance O caçador de andróides (Do androids dream of eletric sheep?) só chegou ao Brasil em 1983, pela Francisco Alves, após o lançamento do filme nas salas exibidoras. E não foi por outro motivo que a editora Record tomou a iniciativa de publicar o volume que é tema desta resenha: o lançamento do longa-metragem O pagamento, dirigido por John Woo.
Talvez seja por isso que a referida editora não demonstrou capricho na realização do volume, que teve produção gráfica digna de uma edição popular das mais simplórias, com a tradução – assinada por Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife e E. Barreiros – comprometida por uma revisão trágica; não se preocupou em inserir um desejável texto de apresentação para situar os contos da coletânea na obra do autor e nem mesmo fez constar seus títulos originais. Somado ao altíssimo preço de capa, só mesmo sendo fã de PKD para aguentar tanto descaso. Foi tanta a falta de confiança da Record nos atrativos da ficção de Dick que a editora fez questão de citar destacadamente na capa do volume não apenas o nome do diretor da versão cinematográfica do conto que batiza a coletânea, mas três dos seus atores também, como se isso fizesse alguma diferença num texto que PKD escreveu em 1953. E não só: citou, também na capa, a coletânea anterior, Minority report: A nova lei, cuja publicação, à sua época, também foi uma jogada de oportunismo da editora.
Apesar da forma claramente depreciativa com que a editora tratou o livro, a coletânea tem méritos. O primeiro deles é que onze dos doze contos de O pagamento estavam ainda inéditos em português, exceto por um deles, "O pai-coisa" que, de acordo com o Acervo bibliográfico em língua portuguesa de fc, de Ruby F. Medeiros, havia sido anteriormente visto apenas na edição número 49 da obscura revista Suspense.
O segundo mérito é que, dentre os contos desta coletânea, há vários que podem ter perfeitamente sido os ensaios para os romances mais destacados de PKD. Pelos comentários a seguir, o leitor perspicaz certamente vai identificá-los. Entre os parêntesis está grafado o ano em que o conto foi publicado pela primeira vez.
"O pagamento" (1953)
Num futuro próximo, a sociedade civil mundial tornou-se um estado policial e apenas as corporações particulares ainda detêm uma certa independência. A Empreiteira Rethrick contrata, por tempo determinado, profissionais especializados para seus projetos internos e, completado o contrato, os trabalhadores são bem recompensados em dinheiro, mas suas memórias são apagadas para preservar o que eles viram e fizeram dentro da empresa do assédio da Polícia Secreta do governo. Jennings é um especialista em eletromecânica que acabou de cumprir seu contrato e ter a memória apagada mas, como pagamento recebe, ao invés da boa grana que esperava, apenas sete objetos ordinários e sem nenhum sentido, juntamente com uma carta de próprio punho em que ele mesmo pediu que esses objetos substituíssem o seu gordo cachê. Confuso e acreditando ter sido passado para trás pela empresa, Jennings mal tem tempo de se indignar porque, ao sair do escritório da empresa, é imediatamente detido pela PS para interrogatório e levado para a delegacia — e todos sabem que ninguém que uma vez entra na delegacia da PS é visto novamente. Poucos minutos depois, Jennings se vê usando cada um daqueles objetos para preservar sua integridade física. Sorte? Coincidência? O que haveria por trás dos dois anos em que Jennings passou na Rethrick?
"Babá" (1955)
A família Fields tem uma babá para cuidar de seus dois filhos pequenos. Ela é uma das maravilhas da tecnologia moderna, um robô compacto similar a um besouro, absolutamente confiável e eficiente, sempre pronto a atender qualquer necessidade das crianças. A babá dos Fields é um modelo discreto e depois de três anos de uso está no limite da obsolescência, mas é mantida no posto porque as crianças a adoram. Porém, as babás dedicam-se também a uma atividade obscura que vai levar a família Fields a entrar numa escalada consumista que, em tese, ela nunca desejou.
"O mundo de Jon" (1954)
A Terra está devastada pela guerra, uma guerra total que deixou o mundo em cinzas. Os sobreviventes, que se refugiaram na Lua, voltam as poucos e tentam reconstruir o planeta, mas o trabalho é difícil e progride lentamente. Por isso, os cientistas desenvolveram uma máquina do tempo, que irá ao passado resgatar os estudos do maior cientista da história humana e permitirá recuperar a perdida tecnologia dos robôs com cérebros artificiais que foram, a princípio, a ruína da Terra, mas que podem ser agora a sua redenção. O encarregado da missão é Caleb Ryan e ele tem um filho, Jon, um garoto que está enfrentando um momento difícil. Visões de um mundo pastoral o arrebatam cada vez com mais intensidade. Seu pai acredita que ele está tendo crises psicóticas e decide lobotomizá-lo antes de embarcar em sua viagem cronal. Caleb consegue resgatar os documentos que queria mas, no processo, altera dramaticamente o passado, colocando em risco a viagem de volta ao mundo em que o lobotomizado Jon o espera.
"Café da manhã no crepúsculo" (1954)
A família MacLean, pai, mãe e três filhos, desperta para mais um dia comum. Do lado de fora uma neblina muito forte impede a visão. Quando um dos filhos tenta sair para ir à escola, é impedido por um comando militar que invade a casa e subjuga toda a família. Os soldados estão atônitos e desconfiados: diante deles está uma família americana típica tomando prosaicamente o café da manhã numa residência igualmente típica que foi a única coisa a resistir ao bombardeio de saturação da noite anterior, numa guerra que já dura oito anos da qual a família MacLean nunca tinha ouvido falar.
"A cidadezinha" (1954)
Verne Haskel é um homem de meia idade que tem uma vida infeliz. Casado com uma esposa que não o ama, com um emprego do qual não gosta e um chefe que odeia, o único prazer de sua vida é um trenzinho elétrico que ele mantém montado no porão de sua casa, para o qual, ao longo dos anos, Verne construiu uma reprodução em escala da sua própria cidade, com todos os detalhes. Num acesso de frustração, ele arranca a miniatura do prédio da firma em que trabalha e a destrói, substituindo por outra miniatura sem correspondente real, e então percebe que poderia refazer toda a cidade de acordo com sua própria definição. Demite-se do emprego no dia seguinte e surpreende a esposa em adultério, mas não se abala: tranca-se no porão e dedica-se tão somente à reconstrução de sua cidadezinha, o que pode ter desdobramentos inesperados.
"O pai-coisa" (1954)
Charles Walton tem oito anos e está apavorado. Viu seu pai na garagem conversando com alguma coisa que parecia igualzinha a ele mesmo e agora sabe que o que está diante dele, na mesa do jantar, embora pareça seu pai, não é. Ele sai da mesa sem jantar e sem pedir licença, e seu pai-coisa promete-lhe castigo pela falta de modos. Charles foge pela janela do quarto e vai à garagem procurar pelo seu verdadeiro pai. O que ele encontra é apenas o início do terror.
"A Cerca de Cromo" (1954)
Don Walsh está com problemas. A sociedade em que vive está em conflito aberto por conta da pressão de um projeto de lei que pretende exigir compulsoriamente que todos os cidadãos não tenham mais odor corporal, mau-hálito e cabelos feios. E isso está causando conflitos sérios em varias partes do país, no qual Puristas (defensores da tal lei) e Naturalistas (defensores da natureza como ela é) lutam até à morte. Walsh tenta "ficar em cima do muro" o máximo de tempo possível, de forma a se afastar da violência, mas ela já se manifesta entre os membros de sua própria família. Mais cedo ou mais tarde ele terá de tomar uma atitude.
"Autofab" (1955)
Um grupo de humanos sobreviventes de uma guerra nuclear total quer paralisar a rede de fábricas automáticas de bens de consumo e suprimentos que a humanidade instalou durante a guerra para suprir os abrigos. Isso porque as fábricas estão esgotando os recursos do planeta e impedindo que os humanos voltem a cuidar de si próprios. Como não há argumentos que convençam as fábricas que, além de inexpugnáveis, são administradas e operadas por robôs auto-replicastes, eles elaboram um plano ousado para fazer com que as fábricas entrem em conflito umas com as outras.
"Os dias de Pat Prafrente" (1963)
Depois da guerra que destruiu o planeta, a humanidade sobrevivente reúne-se em pequenas comunidades isoladas, com pouco contato entre si. Sem contato físico, alienígenas marcianos arremessam ao solo, a partir de máquinas voadoras, os mantimentos que sustentam os últimos humanos sobre a Terra. Os suprimentos são fornecidos em quantidade além da necessária e a maioria é simplesmente abandonada onde caiu, servindo de alimento apenas aos estranhos animais mutantes que habitam as ruínas da civilização.
Os homens aproveitam uma ou outra coisa, sempre tendo em vista sua aplicação no tabuleiro de um jogo de representação que todos os adultos praticam, no qual Pat Prafrente, uma boneca no estilo Barbie, é a personagem principal. Todas as relações da comunidade giram em torno desse jogo e as coisas ficam confusas quando chegam notícias de um novo jogo que é praticado em uma comunidade mais distante, algo similar a Pat Prafrente, mas com outra boneca. Um casal aceita apostar seu bem mais valioso — a sua própria boneca Pat Preferente — para jogar contra os campeões desse novo jogo.
"Plantão" (1963)
A presidência dos Estados Unidos está ocupada, há uns bons anos, por um supercomputador infalível que detém o controle absoluto de todos os mecanismos sociais, econômicos, políticos e militares do país. Só por garantia, um cidadão indicado por um sindicato de classe ocupa o lugar de plantonista da presidência, para assumir o cargo no remotíssimo caso do computador falhar, o que nunca aconteceu. Para amenizar o impacto da perturbadora notícia de que uma frota de espaçonaves alienígenas foi identificada nas proximidades do Sistema Solar, o mais popular âncora jornalístico da televisão ("palhaço", de acordo com a tradução) decide pautar uma entrevista cômica com o novo indicado para essa desnecessária função burocrática. E é exatamente no momento em que a entrevista se inicia que, devido a intervenção dos alienígenas, o supercomputador presidencial falha. É hora do mais inútil dos americanos assumir o poder.
"Uma coisinha para nós, temponautas" (1974)
Os russos saíram novamente na frente dos americanos, enviando dois temponautas ao futuro e trazendo-os de volta. Para não ficar em desvantagem, o programa temporal americano envia três temponautas duas vezes mais longe, mas algo não sai bem e ocorre um acidente fatal na viagem de volta. Um dispositivo especial, chamado Atividade de Tempo de Emergência (cuja sigla o tradutor não se decidiu entre ATE ou ETA), permitiu que os temponautas voltassem ao continuum por tempo limitado, num momento posterior ao evento fatal, de forma a participarem de seus próprios féretros e contribuírem para uma propaganda mais favorável ao programa americano. Addison Doug, um dos temponautas, sofre de insistente sensação de déjà vu, como se estivessem todos presos num loop, repetindo indefinidamente os mesmos fatos. Ele acredita que a morte no acidente é única forma de interrompê-lo. Entretanto, um dos cientistas do programa sugere que é justamente o acidente fatal que está gerando o loop. Mas Addison decide garantir, talvez mais uma vez em seu loop eterno, que o acidente aconteça.
"As pré-pessoas" (1974)
Em algum momento num futuro próximo, as leis americanas pró-aborto extrapolaram: o aborto pode ser feito enquanto a alma não entrar no corpo da criança, e os burocratas decidiram que isso só acontece quando se domina álgebra, matéria que é ensinada quando as crianças têm aproximadamente dez anos de idade. Basta que os pais façam uma solicitação e uma viatura oficial — o caminhão do aborto — retira a criança indesejada de sua casa e a leva para um campo de concentração. Caso ninguém se interesse em adotá-la, será sacrificada (ou “abortada“). O oficial do caminhão de abortos detém, na estrada, um jovem que não tem os documentos obrigatórios que provariam que não é uma criança indesejada. Nesse momento, surge o pai do garoto, um homem de 35 anos que insiste que, por também não dominar a álgebra, não tem alma e deve ser igualmente abortado. Confuso, o oficial resolve levar ambos para a instalação municipal, e não imagina o problema que isso vai causar.
A coletânea é equilibrada e isso acontece não só porque PKD é um escritor acima da média, mas principalmente porque o organizador da antologia — que pode ter sido o próprio Dick, uma vez que não há nenhuma informação a respeito no livro — optou por apresentar os contos em ordem cronológica. Isso permite que o leitor acompanhe a evolução do estado da arte do autor, atingindo o clímax no conto final, de longe o melhor do conjunto. Também oferece trabalhos de vários matizes, tanto para agradar o leitor que prefere o modelo pulpish de fc — que lida com temas recorrentes que eram encomendados pelos editores das revistas que os publicavam — como aquele que aprecia obras autorais sofisticadas.
Uma das leituras que se pode fazer desta coletânea é que PKD teria um interesse especial nas viagens no tempo, com o que construiu uma espécie de história do futuro, porém isso não ocorre na mesma proporção no total da obra do autor. Nos romances, PKD investiu no tema apenas em Now wait for last year e de modo um tanto oblíquo em Counter clockworld (Regresso ao passado, Editorial Panorama). É possível que tal acúmulo de narrativas sobre viagens no tempo neste coletânea tenha sido proposital, talvez para reunir todas elas.
Mas há mais uma interpretação importante que se pode ter da leitura deste conjunto de contos e, desta vez, o restante da obra de PKD não a desmente. Ainda que a ideia de futuro de PKD seja pessimista em relação à humanidade como um todo, o autor demonstra insistência especial em desvalorizar a figura feminina, numa mal disfarçada misoginia. Em algumas histórias, as personagens femininas simplesmente inexistem e, na maioria, assumem papel apenas coadjuvante ou de pouco significado. Mas o autor as trata de maneira declaradamente animosa em "A cidadezinha" e "As pré-pessoas". Nesta, em especial, há um discurso mais de uma página acusando as mulheres de "fêmeas castradoras" e de serem as principais interessadas na legalização do aborto. Dick casou-se nada menos que cinco vezes ao longo de sua vida e isso deve ter algo a ver com esse pensamento que é recorrente em sua obra.
Apesar de tudo, O pagamento é um livro altamente recomendável ao leitor que aprecia uma leitura inteligente, embora possa gerar perturbação psicológica e desvios na percepção da realidade. Mas essa é marca registrada de todos os trabalhos de PKD.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O peculiar

A Terra Velha, também conhecida como o mundo das fadas, liga-se ao mundo dos homens por portais que surgem eventual e naturalmente. Nesses episódios, homens desatentos os atravessam para ficar para sempre presos nas florestas selvagens da magia, ou fadas vêm parar aqui, onde definham por causa da magia fraca. Mas, em raríssimas vezes, surgem portais grandes o suficiente para que muitas fadas atravessem para o nosso mundo. É quando as coisas realmente ruins acontecem. Foi o que ocorreu em Bath, uma pequena aldeia próxima de Londres, na noite de 23 de setembro de algum ano no século 19. Todos os aldeões desapareceram misteriosamente e uma horda fadas selvagens começaram a causar todo tipo de problemas nos arredores. O exército interveio e uma guerra feroz aconteceu. No início, foi um massacre, mas aos poucos os homens aprenderam a subjugar as fadas e acabaram por vencê-las. Com o fim do conflito, que ficou conhecido como Guerra Sorridente, o mundo mudou. As fadas se tornaram um recurso valioso entre os homens, como fonte alternativa à tecnologia, embora esta ainda predomine na maior parte do mundo. Máquinas movidas a carvão e magia são coisas corriqueiras. Na virada do século, homens e fadas desfrutam de uma convivência quase pacífica, embora estas ainda estejam, em sua maior parte, escravizadas ou segregadas em guetos insalubres. As fadas até são toleradas, ao ponto de terem representantes no Parlamento, mas uma categoria delas é odiada pela sociedade, tanto humana quanto mágica: os peculiares, popularmente chamados de medonhos. Filhos da união entre fadas e homens, sem ser nem homens nem fadas, os peculiares são odiados e perseguidos até a morte. Por isso, ninguém ligou quando corpos ocos de peculiares jovens começaram a surgir boiando no Tâmisa.
Na periferia favelada de Bath, no Beco do Velho Corvo, os irmãos peculiares Bartholomew e Hattie Kettle moram com sua mãe humana. Seu lema de vida é "não seja notado e não será enforcado". Por isso, vivem escondidos no barraco que chamam de casa, fora das vistas de todos. Mas como a curiosidade também é um traço forte nas crianças peculiares, Barth vê quando uma linda e elegante dama num vestido cor de ameixa leva embora um de seus poucos amigos, peculiar como ele, entregue pela própria mãe a troco de alguma coisa. Mas a bisbilhotice de Barth não passou despercebida.
Em Londres, o despreocupado Sr. Jelliby segue com sua vida confortável como representante no Parlamento. Sobreviver às tediosas reuniões políticas é o principal desafio de sua vida, sendo que passa o restante de seu tempo em festas, espetáculos e bons restaurantes da metrópole. Mas o destino tem outros planos para ele e as coisas começam a acontecer muito rápido quando é obrigado, muito a contragosto, a comparecer a uma reunião social protocolar na residência do Lorde Chanceler John Wednesday Lickerish, a mais bem posicionada fada do império. Quando mais um peculiar é encontrado no Tamisa, um turbilhão de acontecimentos sinistros colocará o Sr. Jelliby ao lado do jovem Bartholomew, empurrando-os literalmente em direção ao fim do mundo.
O peculiar (The peculiar) é o romance de estreia do jovem escritor americano Stefan Bachmann, publicado em 2012 pela Harper Collins quando tinha apenas 19 anos, sendo elogiado por autores como Rick Riordan e Christopher Paolini. Bachmann nasceu em 1993, no Colorado, e vive atualmente em Zurique, na Suiça, onde estuda música, tendo composto uma trilha sonora para o livro, disponível em ThePeculiarBook. A edição brasileira veio em 2014 pelo selo Galera Junior da editora Record, com tradução de Viviane Diniz.
O romance impressiona pela concisão e boas ideias, dialogando com obras vultosas como o premiado Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke. Há um toque steampunk secundário na trama, embora seja um elemento útil em vários momentos. Também há méritos do autor na habilidade em reconstruir o ambiente britânico, algo que nem todo americano consegue tão naturalmente.
Bachmann escreveu uma sequência, The whatnot, publicado em 2013 e já anunciado pela Record com o título de Não-sei-o-quê, cujo capítulo inicial está disponível para leitura aqui.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Geração subzero

Com uma estratégia de marketing de mestre, foi lançado no último dia 11 de julho, no Rio de Janeiro, a antologia Geração subzero, organizada por Felipe Pena para a Editora Record. Trata-se de mais uma antologia de ficção fantástica brasileira, em nada diferente das boas antologias do gênero, mas que ganhou relevo na mídia devido principalmente ao seu título, que faz referência declarada à bem sucedida antologia mainstream Geração zero zero, organizada pelo escritor Nelson de Oliveira.
Apesar de comentários divulgados na internet sugerirem uma confrontação acadêmica entre esta antologia e aquela organizada por Oliveira, na verdade isso também é uma estratégia de visibilidade, pois o próprio Nelson de Oliveira está entre os autores subzerianos selecionados, assinando com seu heterônimo fabulista Luiz Bras.

Pena, que é doutor em Literatura, selecionou vinte textos de ficção fantástica para demonstrar que existe toda uma geração de autores que trafegam pela literatura de entretenimento, atendendo ao seu público, mas que não tem sido observada pelo jornalismo cultural, como afirma no próprio subtítulo do volume "20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores”. Uma frase um tanto exagerada, convenhamos. Entre os autores publicados estão, de fato, grandes vendedores de livros, como André Vianco e Eduardo Sphor, mas a ficção fantástica brasileira está longe de ser "adorada" pelo público. Não deixa de ser uma ótima frase de efeito, contudo, tanto que já reflete resultados, o que é bom para a antologia e para todo o gênero, alcance que se mostra ainda mais amplo devido ao fato dos direitos da venda do volume terem sido doados pelos autores à ONG Ler é Dez, Leia Favela.
Além dos já citados Braz, Vianco e Spohr, compõem a antologia textos de Thalita Rebouças, Carolina Munhóz, Martha Argel, Delfin, Eric Novello, Raphael Draccon, Ana Cristina Rodrigues, Juva Batella, Estevão Ribeiro, Pedro Drummond, Luis Eduardo Matta, Sérgio Pereira Couto, Julio Rocha, Helena Gomes, Vera Carvalho Assumpção, Janda Montenegro e Cirilo S. Lemos. Muitos deles são experientes na literatura de gênero, especialmente no campo infanto juvenil, aos quais o organizador também gosta de definir com outra máxima: “Escrever fácil é muito difícil”.
O livro terá lançamento também em São Paulo, no dia 17 de julho, às 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073). Sem entrar no mérito da qualidade intrínseca da obra, Geração subzero já é, sem dúvida, um dos mais importantes lançamentos da literatura fantástica brasileira em 2012.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ficção estrangeira em destaque

Durante muito tempo, as editoras brasileiras esqueceram que FC&F existia. E não estou falando da nacional, pois essa continua esquecida, mas da estrangeira mesmo, escrita por autores consagrados do gênero. De vez em quando vinha um Clarke, um Asimov, ou em Bradbury temporão. Com um pouco de insistência, a gente até achava um Dick ou um Ballard, mas quase sempre o que aparecia eram edições do tipo "veja o filme e leia o livro". Ainda há editoras que pautam seus lançamentos conforme a bola da vez do cinema, mas as coisas estão melhorando.
Nas últimas semanas, quatro lançamentos interessantes foram anunciados. Da pequena editora Hedra, que tem feito um ótimo trabalho editorial com textos clássicos, chegam dois títulos do mestre do horror H. P. Lovecraft: A cor que caiu do espaço e Nas montanhas da loucura. Ambos foram editados antes por outras editoras, mas os volumes da Hedra vêm acompanhados de textos complementares inéditos, que valem a edição.
Já a Editora Suma das Letras traduziu Ao cair da noite (Just after sunset), coletânea de 400 páginas com treze contos inéditos de Stephen King.
Nos últimos anos, King tem publicado principalmente romances, mas sabendo da grande qualidade de sua ficção curta, é um volume recomendadíssimo.
A poderosa Editora Record resolveu traduzir Pequeno irmão (Little brother), ficção cyberpunk de Cory Doctorow, autor conhecido por liberar seus textos na internet, inclusive tendo ganhado, em 2010, uma edição em português pelo blogue Capacitor Fantástico.
Não sei como fica a questão comercial agora, já que a Record não pode exigir exclusividade de uma obra que tem copyleft, e talvez seja por isso que liberou o primeiro capítulo do livro na internet, aqui.
Desta forma, fica comprovada a teoria de Doctorow que liberar livros na internet não é um entrave para convencer grandes editoras estrangeiras a traduzirem seus livros.
Assim, o leitor escolhe: se quiser ler sem pagar, pode, mas se quiser ler no formato elegante com que os livros se tornaram tão populares, a Record ficará feliz em ser paga por isso.

Quadrinhos interessantes

As editoras estão reservando seus melhores cartuchos para os formatos encadernados, com histórias longas embora não necessariamente completas. Como acontece na literatura, a publicação é facilitada quando o título vem apoiado numa fraquia, num filme de cinema, ou ambos, como é o caso de Resident evil, franquia dos videogames que chegou ao cinema várias vezes e conta histórias de sobreviventes em meio a um apocalipse zumbi causado por um experimento militar secreto. No álbum em quadrinhos, publicado originalmente pelo selo Wildstorm e traduzido no Brasil pela editora Panini, a história se passa em meio a selva amazônica. Com roteiro de Ricardo Sanchez e arte de Kevin Sharpe, a edição tem 148 páginas e custa R$14,90.
Cowboys e aliens vem subsidiado por um longa no cinema, mas é originalmente uma série em quadrinhos mesmo, se é que podemos dizer que uma história que mistura cowboys e aliens seja original. Afinal de contas, um dos maiores clássicos da FC, Uma princesa de Marte (A princess of Mars, 1917) de Edgar Rice Burrougs, já tinha esse mesmo escopo.
Mas os autores Scott Mitchell Rosenberg, Fred Van Lente e Andrew Foley devem ter feito um bom trabalho também, para animar Jon Favreau a adaptar a história para o cinema. Então, é claro, a editora Record apressou-se em trazê-lo para o Brasil, a tempo de aproveitar a maré de interesse pelo filme. O álbum tem 112 páginas e custa a bagatela de R$42,90. Fica a dúvida: será que a história se aguentaria sem o filme? Mistério...
A Torre Negra: Traição inaugura o terceiro arco de histórias da juventude do pistoliero Roland Deschain, às voltas com o Rei Rubro e a Toranja de Merlin, seja lá o que isso for — eu ainda não entendi patavina, vou ter que avançar na leitura dos romances originais de Stephen King para tentar compreender melhor esse imbróglio todo. A arte repete a equipe das edições anteriores, A Torre Negra: Nasce o pistoleiro e A Torre Negra: O longo caminho para casa, com argumento de Robin Furth, roteiro de Peter David e arte de Jae Lee e Richard Isanove. A edição publicada pela Panini é a primeira de seis, tem 36 páginas e custa inacreditáveis R$3,99.
A mesma editora também publica o álbum de capa dura Sandman apresenta: As Fúrias, mais um spinn-off da série Sandman, um dos grandes sucessos dos quadrinhos em todos os tempos, desta vez detalhando a história subsequente de Lyta Hall, mãe do jovem Daniel que se tornou o novo senhor do Sonhar. Com roteiro de Mike Carey e arte pintada de John Bolton, o álbum tem 96 páginas e custa R$22,90. Só pelo trabalho de Bolton, já vale a pena.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Príncipes da Pérsia

Está nas bancas a edição 3 da série Disney Cinema em Quadrinhos, da Editora On Line que, há poucos meses, distribuiu a quadrinhização do longa Alice no País das
Maravilhas, de Tim Burton, comentado aqui. Desta vez, a revista quadrinhiza a história de Príncipe da Pérsia: Areias do tempo, de Mike Newell, longa metragem recentemente distribuído nos cinemas, baseado num famoso videogame. O roteiro é assinado por Alessandro Sisti e os desenhos, muito bons por sinal, são de Slava Panarin. A revista tem 76 páginas, é totalmente colorida e, como podemos perceber, trata-se de uma versão italiana.

Também podemos encontrar nas livrarias a versão americana em quadrinhos desse mesmo filme, publicada há algumas semanas pela Editora Record na Coleção Galera. A edição foi lançada originalmente pela First Second Books, tem roteiro de A.B. Sina e Jordan Mechner, o criador do game, e desenhos de LeUyen e Alex Puvilland. Esta versão pode agradar mais aos leitores que apreciam desenhos estilizados, pois têm jeito de cartum, quase cômico.
Contudo, as duas versões são muito boas e merecem uma olhadinha. E para quem, como eu, se divertiu jogando o vidogame, com certeza será uma bela viagem no tempo.