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sábado, 30 de março de 2019

Mais horror e decadentismo pela Nephelibata

Nunca foi tão importante o trabalho das editoras alternativas. Num momento em que a cultura é desqualificada sem piedade pelo estado, é necessário que se resista disponibilizando o conhecimento da forma mais capilar quanto possível. Com o mercado em franca retração e as grandes corporações editoriais em crise, o trabalho das pequenos editores independentes volta a ser, como já foi no passado não tão distante, aquilo que dá algum alento de que nem tudo está perdido.
Por isso é que fico feliz em anunciar que a editora Nephelibata, que já comentei aqui, está com novos títulos em seu interessantíssimo catálogo, apoiado especialmente em textos decadentistas.
Contos de um bebedor de éter é uma coletânea de contos de Jean Lorrain, pseudônimo de Paul Alexandre Martin Duval (1855-1906). O volume tem 140 páginas e traz nove contos do livro original, publicado originalmente em 1895, mais três outras histórias, sempre no ambiente sombrio e mágico do vício do éter. A tradução é do editor Camilo Prado.
Entre brumas, sobre vastos mares, de Maurice Laumann (1863-1928), reúne em 148 páginas todos os dez contos do autor, num horror que navega entre o real e o sobrenatural. A tradução é de Camilo Prado.
Desespero é uma antologia poética de ninguém menos que o mestre do horror cósmico H. P. Lovecraft (1890-1937), e inclui o longo "Psychopompos: uma história em versos". O volume tem 132 páginas com tradução e apresentação de Renato Suttana, professor da Universidade Federal da Grande Dourados.
São obras raras de tiragens reduzidas e acabamento elegante, que valem a pena conhecer. Aproveite e explore o catálogo da editora, que tem muito mais a oferecer.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalobrasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos.  "Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Ridrogo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Novas antologias da Nephelibata

A editora catarinense Nephelibata, comandada pelo editor Camilo Prado, superando as dificuldades que 2016 infligiu a todos nós, finalmente anuncia a publicação de dois novos volumes reunindo os mais incomuns textos da ficção fantástica produzida entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, quase tudo em domínio público.
Paris invadida por um flagelo desconhecido: Contos de folhetim francês tem 156 páginas com textos de Jean Rameau, Maurice Leblanc, J. Joseph Renaud, Georges Rouvray, Maurice Level, Gaston-Ch. Richard, André de Lorde, Pierre de La Batut, G. Gustave Toudouze, Gustave Le Rouge e R. A. Fleury. Diz o texto de divulgação: "Foi em nome da Imaginação que esses escritores de folhetim criaram uma literatura que hoje na França chamam de littérature populaire. Arrancaram do mundo da imaginação as coisas mais estranhas, bizarras, assustadoras – e, às vezes, divertidas, por que não? – para com elas povoar o cotidiano dos leitores franceses. Suas plantas carnívoras, seus mortos-vivos, seus mundos misteriosos, seus personagens desvairados, suas descobertas incríveis, suas invenções assustadoras – haverá o leitor de notar –, posteriormente entraram para o universo do cinema. Nessa literatura, o real e o imaginário se mesclam e se confundem de tal maneira que pouco importa os dados históricos, a psicologia dos personagens, a preocupação com o estilo. Importa apenas arrastar o leitor para aventuras distantes, ideias insanas, mundos impensados, enfim, para o reino do 'puramente literário'".
Contos de terror é dedicada ao terror produzido por brasileiros. O livro tem 168 páginas e traz textos de Coelho Netto, Lucilo Varejão, João do Rio, Théo-Filho, Viriato Corrêa, Julia Lopes, Humberto de Campos, Gastão Cruls, Monteiro Lobato, Rodrigo Octavio, Domicio da Gama, Medeiros e Albuquerque, Baptista Junior e Carlos de Vasconcelos. Diz a divulgação: "Sendo o terror na literatura brasileira um gênero bastante desprezado, não é de se surpreender que tenha sido partilhado pelos mesmos desprezados escritores do nosso Decadentismo... Aqui permanecemos dentro dos limites do natural, e do psicologicamente real. E nada há de mais assustador do que a incongruência chamada realidade, e dentro dela, nenhum outro ser mais abominavelmente aterrorizante do que o homem."
Como é padrão da Nephelibata, ambas são edições artesanais muito caprichadas, com tiragem de 70 exemplares numerados cada. Mais informações, bem como vídeos sobre as duas publicações, podem ser vistos aqui.
O catálogo oferece ainda diversos outros títulos de interesse, que vale conhecer aqui.

sábado, 19 de março de 2016

Editora Nephelibata

Há algumas semanas, através de uma divulgação nas redes sociais, tomei contato com o trabalho da Editora Nephelibata que, tenho certeza, os leitores deste blogue também vão curtir. Sediada na cidade catarinense de São Pedro de Alcântara, a Nephelibata é dirigida pelo editor Camilo Prado e investe em edições artesanais caprichadas, de pequeníssimas tiragens numeradas, focando autores brasileiros e estrangeiros obscuros, geralmente em domínio público, de conteúdo poético, filosófico e alguma prosa.
Entre os títulos disponíveis, encomendei três coletâneas de contos sombrios: A música de Erich Zann, de H. P. Lovecraft (2011), Contos fantásticos, de Rubén Dario (2014), e Um cavaleiro no céu, de Ambrose Bierce (2011), e atestei a qualidade do material, que é muito bem impresso e encadernado.
O catálogo completo tem dezenas de títulos, todos muito interessantes, e amplia-se continuamente com livros raros em novas traduções. O atendimento é rápido e muito simpático, e os marcadores que acompanham os livros são de uma elegância singela, adequada à exclusividade do material.
Vale a pena conhecer e explorar todo o catálogo da Nepehlibata, aqui. Altamente recomendado.