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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Lançamento: As crônicas de Âmbar, Tomo II, Roger Zelazny

Está em pré-venda o segundo volume da saga As crônicas de Âmbar, do escritor americano Roger Zelazny (1937-1995), mantendo o modelo usado no primeiro volume ao reunir os cinco títulos finais do Ciclo de Merlin: "Arcanos da perdição", "Sangue de Âmbar", "Sinal do caos", "Cavaleiro de sombra" e "Príncipe do caos".
Diz o texto de apresentação: "Após a jornada épica de Corwin para reivindicar seu direito ao trono, descobrir o paradeiro do rei Oberon e salvar a Ordem de Âmbar da destruição iminente das Cortes do Caos, cabe a seu filho, Merlin, trilhar o desfecho da série As crônicas de Âmbar. Herdeiro das duas realidades, Merlin deve percorrer um caminho entre sombras, segredos e feitiçaria em busca das respostas de que precisa, mas que podem abalar todo o multiverso. Vivendo na Terra de Sombra como estudante de ciência da computação, ele constrói em segredo o Roda-fantasma, um artefato senciente que une a lógica das máquinas ao poder dos arcanos de Âmbar. Mas o que começa como uma tentativa de reencontrar o pai desaparecido logo o envolve em uma teia de conspirações familiares, assassinatos, amores perdidos e conflitos entre poderes cósmicos. De embates mágicos e armadilhas oníricas a revelações sobre a própria natureza da realidade, Merlin enfrenta inimigos que mudam de rosto e aliados que nem sempre são o que parecem, tendo seu caminho entrelaçado ao do enigmático Luke, da poderosa Jasra e do imprevisível Mandor. Entre o Padrão e o Logrus, entre a Ordem e o Caos, Merlin é forçado a escolher um lado… ou a desafiá-los para moldar o próprio destino."
O volume tem 880 páginas, tradução de Leonardo Alves, publicação da Editora Intrínseca e está em pré-venda aqui, com lançamento previsto para o dia 2 de março de 2026.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Lançamento: Casas estranhas 2, Uketsu

O estranhismo do misterioso youtuber japonês Uketsu continua dando frutos sombrios nas livrarias brasileiras. Acaba de ser publicado o segundo volume de Casas estranhas: O mistério das onze plantas baixas, que dá sequência às histórias de casas assombradas iniciadas no primeiro volume, publicado em maio de 2025 pela mesma editora Intrínseca. 
Diz o texto de divulgação: "Após finalizar uma investigação sobre uma casa repleta de detalhes bizarros, um autor fascinado por ocultismo passa a receber inúmeros relatos acerca de outras construções 'incomuns'. Em pouco tempo, ele se dá conta não apenas de que existe um enorme número de imóveis do tipo no país, mas também de que, embora a princípio não fique claro que exista qualquer relação entre eles, alguns parecem compartilhar uma estranha ligação. Ele reúne, então, onze histórias em que certas características se repetem e se completam, todas envolvendo propriedades com descrições misteriosas ― desde quartos que desaparecem e corredores sem destino a apartamentos de onde é impossível fugir e casas projetadas para matar. Munido desses documentos, o escritor se junta com o projetista Kurihara, que o ajudou a resolver mistérios anteriores, para tentar descobrir a verdade por trás desses locais. Enquanto os dois personagens analisam plantas baixas, entradas de diário, entrevistas e registros jornalísticos e literários, uma alarmante sensação de desconforto vai se insinuando."
O volume tem 336 páginas, tradução de Jefferson José Teixeira, e pode ser adquirido no saite da Editora Intrínseca, aqui.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Lançamento: Alchemised, SenLinYu

Alchemised
é um, denso romance de dark fantasy que marca a estreia do escritor americano SenLinYu, publicado no Brasil há poucas semanas, ainda no mesmo ano em que foi lançado nos EUA.
Diz o texto de apresentação: "Helena Marino é uma prisioneira de guerra ― e também da própria mente. Outrora considerada uma alquimista de futuro promissor, ela viu o mundo ruir e seus poderes se esvaírem quando seus aliados foram brutalmente assassinados. Após um longo e violento conflito, Paladia tem uma nova classe dominante, formada por guildas corruptas e necromantes depravados. Suas criaturas vis e mortas-vivas foram essenciais para a vitória na guerra, e o uso da necromancia se tornou o modus operandi. Os novos governantes mantêm Helena em cativeiro. De acordo com os registros, ela era uma figura de pouca importância na hierarquia. Mas, quando seus carcereiros descobrem que a memória da prisioneira foi alterada, surge a dúvida se o papel dela na Resistência era tão irrelevante quanto se imaginava. Talvez o esquecimento esconda algo poderoso, o gatilho para uma ofensiva derradeira. Para revelar o que as profundezas sombrias de sua memória ocultam, a mulher é enviada ao comando de um dos mais implacáveis necromantes do novo mundo. Aprisionada em meio a ruínas, Helena luta para proteger seu passado perdido e preservar os últimos resquícios de quem foi um dia. Mas o martírio está apenas começando, pois sua prisão e seu captor têm os próprios segredos… E ela terá que desvendá-los."
Alchemised tem 960 páginas, edição de Intrínseca, com tradução de um time formado por Helen Pandolfi, Laura Pohl, Ulisses Teixeira e Sofia Soter.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Lançamento: Katábasis, R. F. Kuang

"Alice Law tem apenas um objetivo: se tornar uma das mentes mais brilhantes da área de magia analítica. Ela sacrificou tudo: orgulho, vida amorosa e até mesmo a sanidade. Abriu mão do que foi preciso para entrar no programa de pós-graduação de Cambridge e trabalhar ao lado do professor Jacob Grimes, o maior mago do mundo. Mas Grimes não é uma figura fácil. Rígido e exigente, é capaz de ultrapassar qualquer limite. E em um universo onde cometer o menor erro pode ser física e moralmente fatal, Alice se vê sem rumo quando o professor morre em um experimento mágico simples. E a culpa talvez seja dela."
Este é o texto de divulgação de Katábasis (Katabasis), novo romence da escritora sino-americana R. F. Kuang, vencedora dos prêmios Nebula e Locus por Babel ou a necessidade de violência (2022). Ainda gravitando no universo acadêmico das grandes universidades da Inglaterra, Kuang agora toma Cambridge como cenário principal, mas não se espante se de repente se ver às portas do inferno.
Katábasis tem 480 páginas, Tradução Marina Vargas e é uma publicação da Editora Intrínseca.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Lançamento: As crônicas de Âmbar, Roger Zelazny

Lançado ainda em agosto de 2025, As crônicas de Âmbar (The chronicles of Amber) é apenas o segundo livro do multipremiado escritor americano Roger Zelazny (1937-1995) lançado no Brasil (o primeiro foi O senhor da luz, publicado há poucos meses pela Editora Aleph). E já chega para diminuir o atraso: a edição reúne nada menos que os cinco primeiros volumes da saga: Os nove príncipes de Âmbar (1970), As armas de Avalon (1972), O sinal do unicórnio (1975), A mão de Oberon (1976) e As cortes do caos (1978), que formam o "The Corwin cycle", primeiro tomo de uma série.
Diz o texto de apresentação: "Certo dia, Corwin, príncipe de Âmbar, acorda em uma terra estranha sem memórias de seu passado. Ao tentar escapar de seu exílio, ele descobre que sua família é capaz de manipular a realidade, viajar entre as infinitas sombras do multiverso e controlar poderosos artefatos mágicos, como os arcanos. Quando o patriarca da família desaparece misteriosamente, os nove príncipes de Âmbar travam uma guerra implacável pelo trono. Em meio a traições familiares, duelos mágicos e reinos que desafiam a lógica, Corwin embarca em uma jornada épica para recuperar sua identidade, conquistar seu lugar no trono e desvendar o paradeiro de seu pai, o ardiloso rei Oberon. Ao enfrentar perigos de infinitos mundos e a ganância implacável de seus irmãos, cada qual com os próprios segredos e ambições, Corwin descobrirá que a lealdade pode ser tão mutável quanto as sombras que cercam o reino de Âmbar."
A série tem pelo menos mais cinco volumes (que formam "The Merlin cycle"), uma coletânea de contos (Seven tales in Amber) e quatro prequelas escritas por John Gregory Betancourt, após a morte de Zelazny, consideradas fanfics pelos mais puristas.
As crônicas de Âmbar tem 736 páginas, tradução de Leonardo Alves e é uma publicação da Editora Intrínseca.
Na página da obra, aqui, dá para baixar uma "desgustação" em pdf para experimentar a leitura, mas nem precisa: Zelazny é um dos mais surpreendentes escritores de fcf que já andaram sobre este planeta.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Lançamento: Casas estranhas, Uketsu

Poucas semanas após o lançamento de Imagens estranhas, chega ao Brasil mais um livro do misterioso escritor japonês Uketso. 
Casas estranhas foi o primeiro trabalho do autor, publicado originalmente  no Japão em 2021, onde vendeu mais de três milhões de exemplares. 
Diz o texto de apresentação: "Em um bairro residencial tranquilo em Tóquio, uma casa chama a atenção de um casal que está prestes a ter seu primeiro filho. A construção é relativamente nova, bem iluminada, perto de uma estação de trem, com entorno arborizado ― à primeira vista, parece ser a opção perfeita. No entanto, um detalhe intrigante faz com que hesitem: no térreo, entre a cozinha e a sala, existe um espaço misterioso. Em busca de explicações sobre o que pode ser aquilo, os potenciais compradores entram em contato com um escritor fascinado por ocultismo, acostumado a ouvir histórias de fantasmas e experiências estranhas. Auxiliado por um conhecido, especialista em arquitetura, ele se debruça sobre a planta baixa do local e logo descobre que, na verdade, a casa esconde outros pontos bizarros ― portas duplas, quartos sem janelas, cômodos com disposições estranhas ― que os fazem perceber que a situação é mais aterrorizante do que eles imaginavam. O que será esse espaço misterioso, e por que ele existe? Quem seriam os antigos donos da casa, que desapareceram de forma tão repentina? Que coisas horríveis teriam acontecido ali? E seria realmente possível descobrir o segredo por trás de tudo? O escritor e seu colega não conseguem resistir ao desafio de ir atrás dessas respostas… Mas mal sabem que podem acabar se deparando com uma realidade macabra e inesquecível."
Uketso é o pseudônimo deste enigmático escritor da internet, que tem mais de 1,7 milhões de seguidores no Youtube. Suas histórias de horror misturam literatura e imagens, propondo aos leitores mistérios a serem desvendados. 
Casas estranhas tem 176 páginas, tradução de Jefferson José Teixeira e é uma publicação da Editora Intrínseca.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Lançamento: Babel ou A necessidade de violência, R. F. Kuang

Houve um tempo, perdido na história, quando os livros ganhadores dos principais prêmios internacionais nunca eram publicados no Brasil ou, quando eram, vinham muito tempo depois, já quase esquecidos. Felizmente, esse tempo tenebroso ficou no passado e hoje tudo que é reconhecido é aqui traduzido quase que imediatamente! Verdade? É claro que não. Há centenas, senão milhares de títulos festejados no mundo inteiro que nunca tiveram tradução no Brasil. Isso porque quase sempre o interesse dos editores brasileiros recai não na qualidade do que pretendem publicar, mas nos apelos de eventuais adaptações audiovisuais. Assim, títulos que se sabem receber alguma atenção de Hollywood são celeremente traduzidos, na expectativa de uma "barbada". Inclusive já aconteceu de editoras anunciarem traduções de textos que haviam sido sondados para adaptações serem sumariamente cancelados com as notícias de que a adaptação não viria. 
Para nossa sorte, não é o caso da editora Intrínseca, que acaba de lançar Babel ou A necessidade de violência, da escritora sino-americana Rebecca F. Kuang, romance de fantasia originalmente publicado em 2022 e vencedor dos prêmios Locus e Nebula, mas que segue protocolos de ficção científica ao tratar do poder das palavras e sua instrumentalização política. 
Diz o texto de apresentação: "Em 1828, um menino se torna órfão pelo rastro do cólera em Cantão, na China. Sob o nome de Robin Swift, ele é levado a Londres pelo misterioso professor Lovell e por anos se dedica ao estudo de diversos idiomas, como latim e grego antigo, preparando-se para um dia ingressar no prestigiado Real Instituto de Tradução da Universidade de Oxford, conhecido como Babel. Com sua torre imponente que guarda segredos inimagináveis, Babel é o centro mundial do saber. No Instituto, Robin descobre que aprender a traduzir é também aprender a dominar a magia. Através de barras de prata encantadas, é possível manifestar as nuances e os significados perdidos na tradução – e essa arte trouxe aos britânicos uma dominância sem precedentes. Para Robin, Babel é uma utopia dedicada à busca do conhecimento. Mas o conhecimento obedece ao poder... Chinês criado na Grã-Bretanha, o jovem começa a se questionar se servir a Babel significa trair sua pátria e se vê dividido entre a Instituição e uma obscura organização destinada a impedir a expansão colonialista. Quando a Grã-Bretanha vislumbra entrar em guerra com a China motivada por prata e ópio, Robin vai precisar escolher um lado. Afinal, será possível mudar as instituições por dentro ou a violência é inerente à revolução?" 
Como se vê, trata-se de uma aventura metalinguística, que guarda alguma semelhança com a surpreendente série R.O.D.: Read ou die, de Hideyuki Kurata, publicada no Japão entre 2000 e 2016, mas cada uma original e identificada em seu próprio universo.
Kuang é mestre em Filosofia por Cambridge e doutoranda em Literatura e Línguas do Leste da Ásia em Yale. Tem em seu currículo a bem sucedida trilogia A guerra da papoula, indicada a diversos prêmios e também publicada no Brasil pela Intrínseca.
Babel tem 592 páginas, tradução de Marina Vargas e pode ser adquirido no site da editora, aqui.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Resenha do Almanaque: Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, Volume 1, Felipe Castilho

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação,
Volume 1, Felipe Castilho. 448 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

No ano de 2017 já era possível antecer as sombras que se infiltravam no cenário brasileiro. Golpe de estado em 2016, crise econômica, perda de direitos trabalhistas, fake news em profusão nas redes sociais e o crescimento de um discurso de intolerância que sabemos bem para onde nos levou. Associado a tudo isso, desenvolvia-se uma profunda crise editorial que iria abater o mercado de publicações em sua base. Grandes editoras e redes de livrarias internacionais estavam abandonando o país enquanto as locais rolavam dívidas cada vez maiores, afigurando o calote que viria. 
Mas ainda havia fôlego para investir, pois o golpe prometera novos tempos para a economia nacional, combalida por anos de uma campanha de desmoralização política e econômica. Talvez seja o que animou a publicação do ousado romance de fantasia Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, numa parceria da editora carioca Intrínseca com o evento midiático ComiCon Experience-CCXP, realizado em São Paulo no final de 2017. Foi promovida uma gigantesca campanha de divulgação do lançamento do volume, com cartazes enormes espalhados pela cidade, e a CCXP daquele ano foi uma grande vitrine para ele. A ousada estratégia, nunca antes vista para um autor nacional de ficção fantástica – arrisco dizer que nem para qualquer outro autor de qualquer gênero – funcionou muito bem, até proque a CCXP é toda projetada para vender, haja vista o entusiasmo consumista de seu público. 
Ordem Vermelha: Filhos da Degradação é assinado pelo escritor paulistano Felipe Castilho (autor da série de fantasia juvenil O legado folclórico). Apesar de não estarem creditados na capa, a autoria é dividida com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa, ambos artistas do ambiente de games eletrônicos e RPG. Didier, ilustrador, e Sousa, animador, contribuíram de forma importante para a construção do ambiente e dos personagens do romance, bem como na construção do enredo. De fato, Castilho foi contratado para dar forma textual à história que, ao que tudo indica, é propriedade da própria CCXP. O plano original prevê mais volumes pois a página de rosto estampa a expressão "Volume 1".*
O formato do romance tem cacoetes de um jogo de RPG e talvez seja mesmo resultado de algo do gênero. O ambiente emula o modelo cosmológico de O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, e de As crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, no qual a magia é a "tecnologia" corrente e diversas raças míticas convivem em equilíbrio instável de intolerância e violência. No romance de Castilho há humanos e anões, e também sinfos e kaorshs, que são correlatos de duendes e elfos, além de uma miríade de animais fantásticos, como os betouros (amálgama de besouros com touros) e outras feras.
A história se passa em Untherak, cidadela medieval muralhada que se acredita ser o último refúgio da civilização assolada pela Degradação, decadência ambiental que tornou o mundo um lugar desértico e pouco hospitaleiro. Untherak é governada por uma monarquia teocrática de castas, controlada pelo culto à deusa imortal Una, e por uma poderosa polícia estatal cujo comandante supremo é o General Proghon, um tipo que em tudo lembra o personagem Darth Vader, da fanquia Star Wars. A liderança científica é exercida pelo cruel Centípede, feiticeiro cuja consciência se espalha em uma legião de indivíduos. O poder da deusa Una é mantido pelo medo e pela violência, com o povo escravizado por uma elite administrativa chamada de "Autoridades", que vive segregada em bairros nobres enquanto o povo sofre em condições de miséria. 
Nessa situação praticamente sem esperanças acontece o Festival da Morte, competição de artes marciais na qual é prometida a liberdade ao derradeiro sobrevivente. A kaorsh Raazy decide participar dele, para ter a chance de, vitoriosa, aproximar-se de Una na cerimônia de premiação. Seu objetivo é matá-la,  provar que Una não é imortal e levar Untherak a uma insurreição. O plano funciona parcialmente, mas Raazy acaba morta por Proghon e a revolta é abafada. 
Inspirado por um mítico rebelde conhecido como Aparição, um grupo de paladinos formado pela korsh Yanisha, viúva de Raazy, o sinfo Ziggy e o falcoeiro Aelian, um escavo humano que também viu seu pai ser morto na arena do Festival da Morte, tenta o que parece impossível: derrubar a tirania da deusa Una. No processo, eles terão o apoio pouco confiável do anão negro Harun, que é um Autoridade, mas cujo objetivo de vida é localizar e recuperar a armadura sagrada de seu povo, que esté escondida em algum lugar de Untherak. Juntos, eles lutarão pela libertação do povo oprimido pelo governo de Una e seus generais. Contarão ainda com a ajuda da própria Aparição, cuja identidade é o segredo mais bem guardado de Untherak.
O livro é dividido em três partes principais: "O Miolo", que introduz o ambiente de Untherak e os principais atores da trama, "O coração de todo o medo", em que a revolta é planejada, e "O fio da espada", que conta a ação dos rebeldes e a batalha do povo contra as hostes de Proghon. Cada um dos capítulos é antecedido por trechos de um epílogo, impresso em negativo, que narra a volta da Aparição à Untherak após anos de exílio. Ainda que criativo, a estrutura descontextualiza os trechos e confunde o entendimento da história, tornando a leitura truncada e quase incompreensível. Recomendo que o leitor deixe para ler as páginas negras após a leitura do romance inteiro, que funciona muito melhor. 
Há uma grande quantidade de personagens e, apesar de estarem bem integrados à história, alguns deles são bastante esquemáticos. O romance tem bons momentos e a leitura entretém. Temas como o protagonismo feminino e a diversidade de gênero são evidenciados e contribuem para a formação de um conceito mais contemporâneo para ficção fantástica brasileira, quase sempre preconceituosa e misógena. Há um comprometedor "deus ex machina" no confronto entre os rebeldes e o Centípede mas, excluindo-se esse problema, o texto de Castilho é limpo e agradável, com boas cenas de ação e descrições vívidas da topografia e da arquitetura de Untherak. Um mapa impresso em papel diferenciado, encartado no meio do volume, ajuda a visualização geral da cidadela. 
A apresentação do livro é sofisticada, com impressão em papel pólen levemente amarelado; a capa tem laminação fosca com reserva de verniz no título e uma bela ilustração de Rodrigo Bastos Didier. O livro é dedicado ao escritor Max Mallmann (1968-2016) e Lucas S. Souza (este sem maiores referências).
Talvez Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tenha sido um romance um tanto superestimado, notadamente pela desproporcional campanha publicitária que se fez, mas não é um trabalho nada desprezível e revela que, desde que exista disposição e capital, é possível levar a literatura fantástica a um patamar mais profissonal e popular. À fc&f brasileira nunca faltou bons autores e boas ideias, temos dúzias deles. O que nos falta mesmo é, e sempre foi, o mercado, que se faz com editoras e pontos de venda. Algo que está a cada dia mais em falta, infelizmente.

*Ordem Vermelha: Crianças do silêncio é o segundo volume da série, lançado em 2023 pela Intrínseca.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Lançamento: Ordem Vermelha - Crianças do silêncio

Está em pré-venda, com lançamento previsto para o início de dezembro durante a ComicCon Experience deste ano, o segundo e último volume da série de alta fantasia Ordem Vermelha, subtitulado Crianças do silêncio
A série foi iniciada com Filhos da degradação, do escritor paulistano Felipe Castilho, publicado em 2017 pela Editora Intrínseca. O novo volume chega pela mesma editora, mas com créditos compartilhados com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa. 
Diz o texto de divulgação: "Raazi e Yanisha arriscaram a própria vida para revelar a farsa da deusa Una, na esperança de acabar com um sistema de servidão milenar. Esse feito foi o estopim de uma grande rebelião, que o exército maculado esmagou de forma violenta e traiçoeira. Aqueles que conseguiram escapar dos muros de Untherak adentraram um deserto imenso, talvez infinito, onde não parece haver nada além de areia. Porém, é nesse território inóspito que uma vingança vem sendo planejada há gerações pela última representante de um povo esquecido. Enquanto isso, o falcoeiro Aelian, desgarrado de seus amigos, expande as fronteiras da própria mente, aprende a manipular os elementos essenciais da carne e da alma e faz descobertas chocantes sobre a verdadeira origem das seis raças. O mundo é muito mais vasto do que todos eles jamais imaginaram… e a verdade sobre Untherak, muito mais devastadora".
O livro tem 496 paginas e pode ser adquirido aqui.

sábado, 11 de março de 2023

Território Lovecraft

Território Lovecraft
(Lovecraft country), Matt Ruff. Tradução de Thais Paiva, 354 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Há algum tempo, mais exatamente em 2017, o escritor e tradutor Fábio Fernandes, em seu podcast Terra Incógnita, publicou uma série de episódios sobre uma onda neolovecraftiana na fc&f americana, e um dos títulos que destacou foi justamente Lovecraft country. Foi a primeira vez em que ouvi falar do livro e de Matt Ruff, seu autor. Fernandes teceu efusivos elogios à obra e recomendou que os editores brasileiros dessem uma chance a ele.
É claro que não foi o singelo podcast que Fernandes, ainda que se considere a significativa influência de seu editor no fandom, que levou a editora Intrínseca a publicar o livro no Brasil. Isso só aconteceu quando a HBO Max anunciou a produção de uma série inspirada no livro, o que é um apelo irresistível aos editores brasileiros quando se trata de livros de fc&f. Por isso, não foi surpresa quando o livro apareceu nas lojas virtuais, em edição de luxo e capa dura. Não que o título não mereça: provavelmente foi o melhor livro de fc&f publicado no país em 2020 e certamente um dos cinco melhores da segunda década deste século.
O mais interessante é que não se trata de um livro lovecraftiano, como seria de se imaginar. Os escritores profissionais sabem muito bem que qualquer autor fã saberia imitar o estilo démodé de Lovecraft. Trata-se de um texto enxuto e potente, mas a leitura é sofrida por conta do tema; o estilo é bastante contemporâneo, ainda que toda a ação esteja localizada em algum momento dos anos 1950. Trata-se de um romance fix-up, formado por contos e novelas autônomos possivelmente publicados em separado, reunidos por um arco geral que lhes dá unidade dramática.
Conta a história de uma família de homens e mulheres pretos num Estados Unidos da América em que o racismo e a segregação racial são praticados com anuência do poder público. Um dos veteranos, chamado de George, mantém a publicação de uma espécie de fanzine turístico, o Guia de Viagem do Negro Precavido, para que as pessoas pretas possam transitar pelo país com alguma segurança. Para isso, viaja continuamente e enfrenta os perigos de caminhos ainda não experimentados, de modo a registrar os lugares em que o povo preto pode se alimentar e se hospedar sem o risco de ser assassinado. Oito história e um epílogo compõem o volume, cada uma focaliza um dos membro da família, embora os demais também participem com maior ou menor significado.
"Território Lovecraft" é a novela que abre o volume. Cumpre com louvor a apresentação dos personagens e do ambiente geral. Nela, acompanhamos Atticus, um jovem que retorna sua cidade natal e encontra Montrose, a quem chama de pai, desaparecido. Acompanhado de George e da jovem Letitia, embarcam no velho woody da família com destino ao condado de Ardhan, em pelo "Território Lovecraft", uma região perigosa para os negros. Lá, se depararam com Caleb Braithwhite, jovem branco muito misterioso, além de um grupo de homens brancos que praticam uma espécie de culto, a qual chamam de "Filosofia Natural", cujo ritual exige a participação de um dos nossos ousados viajantes e influirá no futuro de toda a família.
"A casa assombrada dos sonhos" focaliza as irmãs Letitia e Ruby, que compram por uma bagatela um antigo casarão no qual pretendem implantar uma pousada para negros. O problema é que o casarão está localizado em um bairro majoritariamente habitado por brancos racistas. E não só: a mansão era, no passado, residência de Hiran Winthrop, figurão da Filosofia Natural cujo fantasma nada amistoso assombra o lugar.
"O livro de Abdulah" é uma espetacular aventura ao estilo de Indiana Jones. Caleb Braithwhite está de posse do Livro dos Dias, que registra a vida dos membros da família durante o período da escravidão e é um documento importante para que eles possam obter uma polpuda indenização. Mas Caleb só o devolverá em troca do Livro dos Nomes, compêndio mágico que está escondido no subterrâneo do Museu de História Natural. Atticus, George, Montrose e alguns amigos embarcam nessa perigosa missão sobrenatural para garantir a devolução do tesouro roubado da família.
"Hyppolita perturba o universo" é a melhor história do volume, na minha opinião. E isso é um mérito enorme porque todas as histórias do livro são excelentes. Hippolita, a mãe de Letitia e Ruby, é uma mulher de vida agitada e de muita personalidade. É astrônoma, viaja sozinha e é colaboradora do Guia. Seu passatempo favorito é visitar observatórios astronômicos pelos EUA, principalmente aqueles em que não poderia entrar. E o observatório que ela quer invadir desta vez fica numa propriedade particular pertencente a Hiran Winthrop (sim, o fantasma da mansão de Letitia). Ela vai descobrir, da maneira mais surpreendente possível, que aquele não é um observatório como os demais, pois ele mostra as estrelas "bem" de perto.
"No ano-novo, Ruby acordou branca". Esta é a frase que abre o conto "Jekil em Hyde Park", no qual Ruby consegue realizar seu maior desejo, que é arrumar emprego numa loja de departamentos muito elegante. Mas ela só consegue isso graças a um feitiço que o sedutor Caleb Braithwhite lhe ensina.
"A casa Narrow" é uma história de viagem no tempo nada convencional, na qual Montrose é convencido por Braithwhite a recuperar cadernos antigos com anotações de Hiran Winthrop que aparentemente já foram destruídos. Para isso, ele terá de fazer uma pequena viagem a casa de um certo Sr. Narrow.
"Horace e o boneco do diabo" é de longe o texto mais assustador do volume, no qual Horace, o membro mais caçula da família, tem de enfrentar uma maldição mortal que Braithwhite lança sobre ele.
"A marca de Caim" apresenta o desfecho emocionante do combate entre os nossos protagonistas e o aparentemente invencível Braithwhite e seus asseclas, com muita ação, violência, tiroteios e magia negra, é claro.
Todo o texto está repleto de referências e citações ao universo nerd, a literatura fantástica e até aos jogos de RPG, que não são gratuitas nem derrubam a suspensão da incredibilidade como geralmente ocorre nesses casos. Pelo contrário, em Território Lovecraft, todas as citações são elementos fundamentais das histórias, que não poderiam ser contadas da mesma forma sem elas.
Comparando-se o texto original com a adaptação produzida pela HBO Max, é possível dizer que esta é bastante fiel ao romance mas está longe de ter a mesma qualidade. O livro de Ruff é muito superior à versão audiovisual, que tomou liberdades para outra conclusão, alterou personagens, fundiu histórias, ignorou outras, e inventou coisas que nem estão no livro. Algumas das melhores narrativas do original ficaram de fora, outras foram tão alteradas que mal é possível reconhecê-las, além de colocar o pobre Atticus numa situação ambígua e frágil que nada tem a ver com o personagem original. Sem falar na limagem das deliciosas citações, bem como da relevante questão metalinguística, proposta logo às primeiras páginas, sobre o modo contraditório como uma pessoa preta se relaciona com a ficção científica, gênero de tradição evidentemente racista.
Recomendo a leitura do texto original de Ruff. Quem só viu o seriado não recebeu o melhor de Território Lovecraft.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O rei de amarelo, Robert W. Chambers

O rei de amarelo (The king in yellow), Robert W. Chambers. Tradução de Edmundo Barreiros, comentários de Carlos Orsi. 256 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

A história da ficção fantástica começou com a literatura gótica, passou pelo decadentismo e pelo romantismo, e só se tornou o que é hoje depois da crise econômica de 1929, que favoreceu o desenvolvimento explosivo das publicações pulp nos EUA, publicações estas que já existiam de forma incipiente desde o final do século 19. Devido ao seu caráter algo alienante (que permitia aos que sofriam com as agruras da vida algumas horas de distanciamento) e aos processos de repodução mais acessíveis, as revistas pulp tornaram-se o principal espaço de entretenimento aos que não tinham dinheiro para obter acesso à cultura, frequentar cinemas elegantes ou comprar um rádio. Os editores desses periódicos criaram e promoveram diversas estratégias para otimizar as vendas; uma delas foi criar protocolos de produção para cada gênero, de modo a promover nichos de mercado e fidelizar os consumidores. Temas, abordagens, conteúdos, tudo era cuidadosamente manipulado para que as vendas fossem as melhores possíveis. Assim, surgiram aquilo que hoje chamamos de gêneros fantásticos: a fantasia, a ficção cinetífica e o terror, que se somaram ao faroeste, que já era bastante popular. Mais tarde viriam ainda as aventuras de guerra e de espionagem, mas isso é uma outra história.
O caso é que, devido a essa operação comercial muito bem elaborada, um certo tipo de literatura acabou por desaparecer do mercado, embora continuasse a ser praticada em ambientes não "civilizados" pela literatura pulpesca. Uma literatura que não respeita os protocolos comerciais e mistura os gêneros ao ponto de não ser possível determinar a qual deles o texto pertence. Foi dessa literatura "selvagem" que se originou toda a literatura de gênero como a conhecemos hoje. 
Escritores identificados com uma das primeiras publicações do gênero, a Weird Tales – lançada em 1923 nos EUA –, foram os construtores das bases da fc&f contemporânea, como H. P. Lovecraft, Robert E. Howard, Clark Ashton Smith, entre outros. Mas eles não inventaram a roda. Antes deles, autores como Edgard Alan Poe, Ambrose Bierce, M. R. James, Lord Dunsany, Jan Potocki, Evgeni Zamiátin, entre outros, já enveredavam por esses caminhos obscuros. A maior parte é bastante conhecida e respeitada, mas há muitos que ainda não tiveram suas contribuições devidamente valorizadas. É o caso de Robert W. Chambers (1865-1933), escritor americano que escreveu dezenas de novelas populares, sendo O rei de amarelo uma de suas primeiras obras, publicada originalmente em 1895. O livro reúne vários contos mais ou menos amarrados por citações e referências interligadas à ideia de uma peça, chamada justamente "O rei de amarelo", cuja leitura leva à loucura. 
A edição da Intrínseca, publicada em 2014, traz nove contos mais um conjunto de dez poemas em prosa, e a excelente introdução de Carlos Orsi que acrescenta comentários e referências ao longo de todos os textos, apontando vínculos nem sempre tão evidentes como, por exemplo, a recorrência de nomes de personagens e cenários – que o comentador indica como sintoma de uma realidade paralela na própria mitologia da obra. 
Alguns dos contos têm o raro talento de nos fazer ter pesadelos, como "O reparador de reputações", "O emblema amarelo", "A máscara", No pátio do dragão" e "A demoyselle d'Ys". Outros são terror em estado primitivo, como "A rua da primeira bomba" um pungente drama de guerra que, a certa altura, torna-se um pesadelo. E ainda, textos de caráter realista, como "A rua dos quatro ventos", "A rua de Nossa Senhora dos Campos" e "Rua Barrée", cuja relação com o conceito de "O Rei de Amarelo" é bastante transversal.
O que causa tanto interesse nessa obra de Chambers é o conceito de universo compartilhado em torno de um livro amaldiçoado que, no caso, é uma peça de teatro. Em 1970, o escritor americano James Blish publicou uma versão pessoal para a peça maldita, ainda não traduzida para o português: apesar de Chambers estar em domínio público, Blish não está. 
Lovecraft, que cita Chambers em seu famoso ensaio O horror sobrenatural na literatura, emprestou do autor, com o "Necronomicon"  livro de segredos arcanos escrito por um místico árabe –, a ideia de um livro cuja leitura enlouquece, bem como a de uma mitologia antiga que ecoa no presente. Outro mestre do horror que confessou ser influenciado por Chambers foi Stephen King, e encontramos em A torre negra referências evidentes como, por exemplo, o Rei Rubro. 
O New Weird, movimento criado em 1990 por escritores como China Miéville, Paul Di Filippo e Jeff VanderMeer, entre outros, recuperaram o estilo Weird com algum sucesso, mas são rejeitados por muitos dos leitores formados pela leitura pulpesca, uma vez que suas histórias não obedecem os protocolos aos quais estes estão habituados e ainda vêm carregadas de questões políticas incômodas. 
Apesar de não estarem vinculados ao New Weird (encerrado nos primeiros anos do século 21), outros autores conseguem trabalhar de forma bastante similar ao estilo de Chambers, como a escritora russa Liudmila Petruchevskaia e o novaiorquino David Foster Wallace, entre outros. No Brasil, os casos mais bem sucedidos são os contos de Murilo Rubião e o romance Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.  
A Editora Avec anunciou, há poucos meses, a publicação de uma outra antologia, Carcosa: Contos do Rei de Amarelo, republicando alguns dos textos de Chambers vistos na edição da Intrínseca, ao lado de contos de Poe, Bierce e Lovecraft.
A leitura de Chambers hoje se reveste de significado na medida que aponta para soluções narrativas não alinhadas aos protocolos de gênero criados pela industria editorial, servindo pois como boa influência para fugir das cansativas e previsíveis estratégias literárias ensinadas nos cursos e oficinas de literatura criativa que pululam por aí.