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sábado, 19 de janeiro de 2013

Resenha: Idade da decadência, Inferno em Khallah

Idade da decadência: Inferno em Khallah é um romance de ficção científica escrito pelo método round robin, sob organização de Rogério Amaral de Vasconcellos que, além do próprio organizador, envolveu os autores Cláudia Furtado, Diva Bernardes Sepulveda, Edison Luis Raffi Silveira e Marco A. M. Bourguignon.
Round robin é uma brincadeira cultural entre amigos, na qual cada autor é responsável pela redação de um capítulo de uma história proposta pelo organizador, com liberdade para acrescentar o que bem entender e deixar um desafio para ser resolvido pelo autor seguinte, sempre preocupando-se em manter alguma coerência narrativa. Em tempos de baixa tecnologia, esse procedimento era realizado pelo correio e nem sempre funcionava a contento, mas com o advento da Internet foi muito facilitado. O processo que viabilizou a composição da obra foi batizado de Slev, sigla que significa Suruba Literária Experimental Virtual, nascida no saite Oficina de Escritores.
A novela, dividida em três partes, tem cerca de 65 mil palavras no total e foi publicada no ano 2001 em formato digital e cópias por demanda. O exemplar analisado aqui foi impresso em jato-de-tinta e encadernado com espiral. Suas 146 páginas trazem também um glossário de neologismos, um quadro cronológico do planeta Khallah e um texto explicativo sobre sua história e geografia, acompanhado de um mapa do continente principal. O volume é apresentado como o livro dois de uma trilogia.
Trata-se de uma space-opera com muitas referências não disfarçadas a Duna (Frank Herbert), O senhor dos anéis (J. R. R. Tolkien), O mundo do rio (Phillip Jose Farmer), Crônicas de Majipoor (Robert Silverberg), O planeta dos dragões (Anne McCaffrey), diversos seriados de tv e filmes de cinema.
Conta a história de Lorn Cleópatra, clone da rainha Cleópatra do Egito, construída num planeta-babel chamado Khallah, no qual uma raça antiga e já desaparecida de alienígenas chamada Os Atemporais, instalou, por volta de 7900 AC, uma carrada de espécies sencientes coletadas de vários mundos destruídos por uma ameaça pouco explicada chamada Os Anéis.
Em Khallah, essas raças adaptaram-se e amalgamaram uma sociedade tribal por vários milênios, até a chegada da humanidade ao planeta, em 2390 DC. Mais avançados tecnologicamente, os humanos ali instalaram um gigantesco espaçoporto, construíram a cidade fortificada de Robotróia, considerada a jóia do universo, e impuseram aos autóctones um regime imperial de exploração e escravismo. Mas as viagens frequentes dos humanos acabaram por trazer a Khallah uma praga espacial chamada Fogo Alucinante, que matou dois terços da população, incluindo a humana, e jogou o planeta numa era de decadência política e tecnológica a partir de 2500 DC, isolando-o do universo.
A história relata os fatos a partir de 2575 DC, quando Robotróia passa por dificuldades políticas devido a atividades de guerrilheiros e terroristas. Essa nova Cleópatra, líder de um pelotão militar de elite a serviço da Imperatriz Numa de Robotróia, recebe ordens de atacar a comunidade paupérrima conhecida por Cinturão de Favelas, que cerca a cidade fortificada e abriga alguns desses guerrilheiros. O pelotão é formado exclusivamente por clones de personagens históricos como Mahatma Gandhi, Santos Dumont, John Lennon, e outros. Cleópatra vai envolver-se com alguns personagens alienígenas, principalmente Sykes, um nativo de aparência humanóide, ao ponto de converter-se a causa rebelde e enfrentar, ela mesma, a corrupta e devassa Imperatriz Numa e o poderio humano que dá suporte ao seu Governo.
Diga-se ainda que os Atemporais também foram os responsáveis pela coletagem das amostras de DNA humano ao longo da história da Terra. Os homens trombaram no espaço com uma nave abandonada pelos Atemporais e dela subtraíram boa quantidade de amostras, o que permitiu a clonagem desses personagens.
Apesar do cenário razoavelmente bem preparado, a equipe de escritores da Slev cometeu alguns pecados na construçâo do enredo de Idade da decadência: Inferno em Khallah. O principal deles talvez seja a escolha de um panorama clássico de space-opera, subgênero capa-e-espada  bastante explorado no período dourado da fc americana (décadas de 1940/1950) e praticamente esgotado do ponto de vista dramático, com poucos exemplos de qualidade na fc moderna.
A ambientação space-opera mascarou a sensibilidade dos autores para o fato que essa caracterização simplista não basta para suspender a incredibilidade do leitor. Os autores esforçam-se tanto em demonstrar que o poderio bélico humano estava de tal forma decadente que soa absurdo o fato de Robotróia manter sob controle político todo um planeta até aquele momento. Decadente como estava, Robotróia mal podia manter-se, quanto mais governar. O poder político já deveria estar longe de Robotróia e da Imperatriz há tempos, e essa situação irreal tira a verossimilhança do ambiente.
Outro problema é a dispersão dramática na metade inicial da narrativa, na qual grande quantidade de personagens superficialmente caracterizados não dão conta de quem é o quê. A história ganha fôlego somente quando os autores optam por centrar a ação na dupla Cleópatra/Sykes, cujo envolvimento romântico chega as vias de fato. Assim como quando a Imperatriz ganha função antagônica, juntamente com o bruxo Surabakh que, apesar de seu poder enorme, é vencido com facilidade pelo protagonista. Apesar disso, Surabakh não chega a morrer e os autores reservam a ele um epílogo dispensável, gancho para a sequência da história na Terra, estranhamente num futuro bastante próximo da nossa época.
Também soa estranho o modo pouco natural com que os personagens tratam-se em alguns momentos, como se os autores não soubessem seus nomes inteiros. Por exemplo, quando Cleópatra encontra com Santos Dumont no deserto de Khallah, o trata por Santos. Ora, militares, em geral, tratam-se pelo sobrenome, portanto seria mais natural se Cleópatra dirigir-se ao seu comandado por Dumont. Mas se o autor queria de fato dar ao encontro um caráter intimista, deveria ter usado Alberto, o primeiro nome de Santos Dumont, não o seu nome do meio.
Em alguns momentos na parte final da novela, o texto chega a empolgar, mas sua irregularidade geral (por conta do estilo fragmentado comum a todos os round-robins), da inexperiência dos autores (apenas Rogério teve experiência editorial anterior) e do objetivo da obra (ser uma espécie de jogo), faz com que toda a novela caia em um sem número de lugares comuns, com muitos personagens sem utilização adequada, perdidos na trama confusa. Uma boa enxugada poderia ser valiosa para tornar a leitura mais palatável, mas esse não era o objetivo das autores.
Mesmo assim, vale a pena conhecer o trabalho dessa turma, que está vários furos acima dos fanfics que abundam na internet e revistas especializadas.

Idade da decadência: Inferno em Khallah
Rogério Amaral de Vasconcellos, Cláudia Furtado, Diva Bernardes Sepulveda, Edison Luis Raffi Silveira e Marco A. M. Bourguignon. 146 páginas. Editora Mitsukai, Projeto Slev, 2001.

(Resenha originalmente publicada no Hiperespaço nº50, março de 2002)

Resenha: Vaca profana: Encruzilhadas

O projeto Slev é conhecido pelos leitores brasileiros de ficção científica, pois é o projeto literário mais extensivo do escritor-fã carioca Rogério Amaral de Vasconcellos, colaborador frequente dos principais fanzines brasileiros de ficção científica e fantasia. Vasconcellos é formado em física e estreou em 2000 com o romance Campus de Guerra, pela Editora Writers.
A princípio, a sigla Slev significou "Suruba Literária Experimental Virtual", uma oficina de literatura criativa com foco de ação na internet, a partir de um saite que aglutinava vários escritores amadores. Em 2001, o projeto publicou seu primeiro livro, Idade da decadência: Inferno em Khallah, um romance em edição por demanda assinado por Vasconcellos e mais quatro autores, cujos manuscritos foram discutidos em conjunto dentro do projeto.
Depois disso, a Slev foi rebatizada para "Sistema Literário Experimental Virtual" e, também a partir da internet, iniciou outra fase de criação, propondo aos seus autores filiados um universo compartilhado com viagens no tempo e no espaço. Os resultados dessa atividade foram publicados pela Slev a partir de 2003, com nada menos que trinta volumes em edição virtual ­– os conhecidos e-books –­ sendo que os dois últimos saíram no início de 2005.
Vaca profana: Encruzilhadas, é o primeiro título dessa coleção a ganhar edição física convencional, em papel. Junto com o segundo título ­Vaca profana: A nave – só disponível em formato virtual – ­ forma a introdução básica que foi primariamente apresentada aos autores do projeto e que definiu personagens e parâmetros com os quais todos deveriam trabalhar. Nessa introdução, Vasconcellos apresenta doze personagens principais que apareceram sozinhos ou em grupo nas histórias que foram escritas posteriormente, sendo que em Vaca profana: Encruzilhadas, são apresentados seis deles.
O primeiro é Benedito Raimundo Alves da Silva, um bem sucedido corrupto brasileiro que, ao perceber que seu esquema está prestes a ser desmontado pela Polícia Federal, embarca num voo só de ida para Miami. Porém, no meio da viagem, percebe que algo estranho aconteceu com os demais passageiros: não são mais os mesmos que embarcaram com ele e o próprio avião é diferente. Num jornal ele descobre que não está mais em 2000, mas um ano adiante, mais exatamente no mês de setembro de 2001. Com a aeromoça ele se informa que o voo, um avião da American Airlines, não vai mais para Miami. Na verdade, ele não irá para parte alguma...
Depois conhecemos Nahed Al-Shamalia, indiano, navegador estelar comissionado na espaçonave Altamira em 2285, em missão no espaço profundo, que passa a ser acometido por delírios em torno de seu pênis, numa fantasia erótica de proporções cosmológicas.
Também somos levados ao planeta Giron'dha, no sistema Epsilon-Eridani. Ali vive uma raça de sencientes vegetais, entre os quais destaca-se a fêmea plebéia Zandra de Harboor, chefe de um projeto científico importante, que desperta a inveja do grão-duque Alguroom de Refroom. Este planeja e põe em prática um esquema maquiavélico para livrar-se dela e, ao mesmo tempo, herdar seu prestígio e poder.
Finalmente, conhecemos o criacionista russo Dimitri Diogovitch Rosenkovski e o evolucionista grego Andreas Nikolos Papandriou, arqueólogos rivais que discutem calorosamente durante uma escavação no deserto de Gobi, na Mongólia, em 1866. Eles mal têm tempo de reagir quando percebem-se atacados por uma manada de animais desconhecidos, verdadeiros elos perdidos na escala da evolução. As feras são predadoras e estão famintas...
Os fragmentos não chegam a se concluir e são alinhavados frouxamente por um interlúdio final que nos apresenta o Barqueiro e o Zelador, seres de origem desconhecida que cuidam das celas em que os abduzidos estão confinados. Onde, para quê e por quê não se esclarece neste volume, o que parece ser uma estratégia do autor para motivar a criatividade dos colaboradores do projeto Slev.
Como se vê, Vaca profana:­ Encruzilhadas tem idéias boas e o texto de Rogério Amaral Vasconcellos apresenta correção técnica e algum estilo, entretanto é pesado e difícil de ler. A narrativa sincopada repleta de derivações, que também caracteriza outras obras do autor, exige muito do leitor, tornando a leitura lenta e sem variações de ritmo. Esse estilo é muito utilizado por autores introspectivos e funciona bem em narrativas estáticas com solilóquios ou monólogos, mas prejudica as cenas de ação, que Vasconcellos usa com frequência.
Vaca profana:­ Encruzilhadas foi publicado ainda no primeiro semestre de 2005 e, desde então, Rogério Amaral de Vasconcellos não anunciou mais nenhum outro título da coleção no formato convencional, mas sabe-se que há interesse do autor em levar às livrarias todos os trinta volumes publicados virtualmente.

Vaca profana: Encruzilhadas
Rogério Amaral de Vasconcellos.
Prefácio de André Carneiro.
Coleção Slev, Fase 1, nº zero.
Do autor, Rio de Janeiro. 82 páginas.

Resenha originalmente publicada no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005

Coleção Nave Profana

Há alguns dias, publiquei aqui o necrológico de Maria Helena Bandeira, escritora de fc&f muito querida no fandom. A autora publicou em muitas antologias e até na extinta Isaac Asimov Magazine, mas não teve em vida nenhum livro individual no país, exceto dois volumes da Coleção Nave Profana. Mas, que coleção é essa?
A Coleção Nave Profana foi produto da oficina literária Slev – sigla que no primeiro momento significava Suruba Literária Experimental Virtual, depois mudada para Sistema Literário Experimental Virtual.
A oficina Slev foi realizada pela internet por iniciativa do escritor Rogério Amaral de Vasconcellos, autor do romance de fc Campus de guerra (Writers, 2000). O primeiro fruto da oficina foi o romance de ficção científica Idade da decadência: Inferno em Khallah, escrito por muitas mãos e publicado 2001 pela Editora Mitsukai, cuja resenha pode ser lida aqui.
Já os livros da Coleção Nave Profana começaram a ser publicados em 2003. Foram escritos por autores voluntários, discutidos em grupo e editados em arquivo digital disponibilizados num saite exclusivo da oficina.
A proposta era construir um universo compartilhado em que cada autor teria liberdade de desenvolver seus próprios personagens e enredos, que poderiam ser aproveitados pelos demais em suas próprias histórias. A base era um ambiente de história alternativa em que épocas e realidades se chocavam.
Os livros eram vendidos a preços bastante acessíveis mas, na época, a internet era incipiente, difusa e nada popular: depois de algum tempo, a iniciativa esgotou-se. Com a desativação do saite, a coleção ficou indisponível e foi rapidamente esquecida.
O projeto da Coleção Nave Profana previa mais de 50 volumes, mas foram publicados apenas 30, o que ainda assim é uma marca considerável.
A coleção tem algumas curiosidades. A primeira é que o número 18 nunca foi distribuído. A título de divulgação, os volumes zero, quatro e seis tiveram distribuição gratuita. Os arquivos vinham com trava de impressão, de forma que só era possível ler no monitor. Vários volumes foram assinados por pseudônimos cujos autores verdadeiros nunca se revelaram, mas desconfia-se que eram todos do próprio Vasconcellos.
Fazem parte da Coleção Nave Profana os seguintes títulos:
1 - Vaca profana: Encruzilhadas, Rogério Amaral de Vasconcellos (2003)
2 - Vaca profana: A nave, Rogério Amaral de Vasconcellos (2003)
3 - Três reis magos, Larissa Redeker (2003)
4 -Tempo dos animais, Paffomiloff der Engel (2003)
5 - Dom Pedro I e... último, Gabriel Bozano (2003)
6 - Prova oral, Rogério Amaral de Vasconcellos (2003)
7 - Iroha, Ernesto Nakamura (2003)
8 - Maya, Alexis Lemos (2003)
9 - Tempo e templos, Maurício Wojciekowski (2003)
10 - A batalha dos egos reais, Cláudia Furtado (2003)
11 - Mahavira, memórias vegetais, Ernesto Nakamura (2003)
12 - Operação Britânia, Ricardo E. Caceffo (2003)
13 - Ahnk, Alexis Lemos (2004)
14 - Deserto, Roderico Reis (2004)
15 - A lei dos seios, Maria Helena Bandeira (2004)
16 - No templo da loucura, Rogério Amaral de Vasconcellos (2004)
17 - Uma janela para o nada, Rogério Amaral de Vasconcellos (2004)
18 - Edição não publicada
19 - Onze dias, Natalia Yudenitsch (2004)
20 - O último profeta, Ricardo Caceffo (2004)
21 - Pavão misterioso, Alexis Lemos (2004)
22 - A forja de Aliq, Ernesto Nakamura (2004)
23 - Guerra das Shetlands, Miguel Angel Pérez Correa (2004)
24 - Memórias de um sociopata, Cláudia Furtado (2004)
25 - Pax, Jaime da Conceição Araujo (2004)
26 - Talvez Helena, Maria Helena Bandeira (2004)
27 - Startrap, Rogério Amaral de Vasconcellos (2004)
28 - A flor improvável, Paffomiloff (2004)
29 - Sepulturas na eternidade, Rogério Amaral de Vasconcellos (2005)
30 - A espada de Dâmocles, Jaime da Conceição Araujo (2005).
Em julho de 2003 foi distribuída a única edição do Ciclope News Slevzine, fanzine virtual de divulgação da Coleção Nave Profana que, em suas 23 páginas, publicou contos e artigos sobre cinema e literatura.
E em 2005, o primeiro volume da coleção, Vaca Profana: Encruzilhadas, escrito por Vasconcellos, ganhou edição real editada pelo autor, com a promessa de, a partir de então, publicar todos os volumes nesse formato, mas o projeto não foi adiante. Uma resenha a esta edição, vista no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005, pode ser lida aqui.