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domingo, 27 de agosto de 2023

Resenha do Almanaque: Aliança dos povos, Helena Gomes

A caverna de cristais, Volume 2: Aliança dos povos, Helena Gomes. 592 páginas. Bauru: Idea, 2007.

Romance de fantasia heróica com conceitos de ficção científica, segundo volume de uma série cujo primeiro episódio, O arqueiro e a feiticeira, foi primeiro publicado em 2003 pela Devir Livraria.
A autora, Helena Gomes, natural de Santos (SP), é jornalista e professora universitária. Estreou com o livro Memórias da hotelaria santista (1997), não ficção em coautoria com Viviane Pereira e Laire José Giraud, e também publicou em 2006 o romance de horror Lobo Alpha (Rocco).
Aliança dos Povos divide-se em três partes, cada uma com cerca de duzentas páginas: “Herdeiro”, “Mudu-Za” e “Terceiro guerreiro”. Inicia com os jovens irmãos Gothilan e Caleb, e como eles foram tocados pelos cristais mágicos conhecidos como Parenthis. Gothilan viria se tornar um grande líder militar e espiritual, e seria traído por seu irmão. Mas isso é apenas o primeiro capítulo dessa primeira parte: a história começa mesmo milhares de anos depois, quando vivem os irmãos Thomas e Vince, reencarnações de Gothilan e Caleb que mantêm, ao longo de todo o romance, um triângulo amoroso com a garota Erin.
A Terra está praticamente desabitada, exceto por tribos isoladas vivendo em organização feudal. O reino dos protagonistas chama-se, com efeito, Britanya. Thomas e Vince têm poderes especiais, concedidos pelas parenthis e herdados de suas vidas passadas. As parenthis também permitem alguma comunicação com os bondosos seres extradimensionais chamados eloras.
Para dar combate à Mudu-Za, líder dos anjos negros conhecidos como nergals – poderosa força alienígena enfrentada no primeiro volume da série –, os três jovens vão ao planta Gaia, capital da Aliança dos Povos – uma espécie de federação interplanetária –, para encontrar o mago Tolkien, o último guardião do universo. Para isso, tomam posse de uma espaçonave abandonada, envolvem-se com piratas espaciais e, finalmente, chegam ao destino auxiliados pelos amigos de Vince, que vêm em seu resgate.
Vince sente-se em casa, pois já vivera em Gaia, mas Thomas e Erin deparam-se com uma realidade muito diferente da que conheceram em Britanya. Gaia é um planeta moderno, tecnologicamente similar à Terra dos nosso dias, porém, com espaçonaves e um governo mundial que acaba de sair de uma ditadura, mas ainda guarda aspectos de um estado policial.
A busca por Tolkien é facilitada pelos poderes das parenthis, sendo ele, na verdade, o escritor de best sellers conhecido como Nicolas Sheridan. Entretanto, o encontro não passa despercebido da polícia de Gaia que, influenciada pelos nergals, tenta eliminar tanto Tolkien quanto os jovens heróis medievais. Os garotos conseguem escapar e, acompanhados do mago escritor, fogem de Gaia num cargueiro espacial.
Durante a viagem, ficam sabendo de um iminente ataque nergal à Gaia, e decidem sacrificar sua missão principal contra Mudu-Za para trabalhar na defesa da capital da Aliança dos Povos antes que seja tarde demais. Durante a aventura, os jovens isolam-se uns dos outros, cada um acreditando que os demais estão mortos.
A segunda parte do romance conta o que acontece a cada um deles enquanto estão separados, como se lhes revelam as identidades de Mudu-Za e dos eloras, e como despertam a totalidade de seus poderes.
Na terceira parte, todos reencontram-se em Britanya, para onde a batalha contra os nergals se desloca. Ali se prepara o confronto final entre as forças sombrias de Mudu-Za e as forças do bem dos eloras, com muitos conflitos de consciência entre os personagens, traições e superação frente a forças irresistíveis.
As quase 600 páginas do romance impressionam a primeira vista. Ainda mais quando percebemos que é apenas o segundo volume de sete previstos pela autora, uma das mais ambiciosas séries da ficção fantástica brasileira.
Não há dúvida que Helena Gomes sabe escrever. Seu texto é limpo e fácil de entender, não soa grandiloquente nem infantil, situando-se adequadamente naquele agradável modelo que caracteriza a ficção fantástica juvenil. Mas a narrativa é lenta, mesmo com as incontáveis cenas de ação que a autora espalhou pela história. As batalhas são caracterizadas por uma violência caricata, com longos diálogos em que os adversários se provocam mutuamente com piadas infames e citações da cultura pop da nossa época. A autora nem tenta disfarçar as inúmeras citações e homenagens a franquias populares como Guerra nas estrelas, Galactica, Babilon 5, O senhor dos anéis e muitas outras, recurso comum entre os autores-fãs brasileiros que nos faz pensar que o futuro da humanidade não acrescentará mais nada à história da cultura popular interplanetária, com prejuízos à delicada suspensão da incredulidade na qual a ficção fantástica brasileira tem deficiências históricas. Além do mais, há um evidente discurso proselitista religioso por detrás da história. Não que isso seja um pecado mortal: muita da boa ficção fantástica mundial é proselitista, seja religiosa, seja política, eventualmente ambas. Mas esse proselitismo só é justificável quando suscita a continuidade das discussões depois da última página, como acontece com Os despossuídos (The dispossessed), de Ursula K. LeGuin, Tropas estelares (Starship troopers), de Robert Heinlein, ou Além do planeta silencioso (Out of the silent planet), de C. S. Lewis.
Para os leitores que superarem as partes mais lentas do romance, há a promessa de uma movimentada e bem articulada terceira parte, que retoma o modelo de fantasia medieval visto no primeiro volume. Os personagens ganham corpo e os seus dramas pessoais vêm à tona, com ações firmes e definitivas. Mas o cansaço cobra um alto preço: a ideia de ler mais cinco volumes para chegar ao fim dessa história não é muito animadora.*

* A Idea publicou, em 2008, o terceiro volume de A caverna dos cristais: Despertar do dragão, e, no ano seguinte, republicou o primeiro volume, O arqueiro e a feiticeira. Em 2015, a editora Rocco lançou o quarto volume, A tríade, além de A herança da bruxa (2014) e O primeiro guerreiro (2014) A adaga mágica (2015)ebooks com aventuras no mesmo universo da série.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Resenha do Almanaque: O vampiro da Mata Atlântica, Martha Argel

O vampiro da Mata Atlântica, Martha Argel. 176 páginas. Capa de Billy Argel. São Paulo: Idea Editora,  2009.

Já tem algum tempo que a vampiromania invadiu o fandom brasileiro. Na verdade, suas raízes são antigas, vêm das seções de cinema nas madrugadas da tv que exibiam semanalmente os clássicos da Hammer, histórias de estilo gótico com vampiros que geralmente eram nobres da Europa oriental.
No ambiente da literatura popular para mulheres, romances fogosos com vampiros e lobisomens nunca foram novidade, mas explodiram sob a influência dos livros da franquia Entrevista com o vampiro (Interview with the vampire, 1976), de Anne Rice, que propunha um vampiro humanizado, sensível e ansioso por amor e carinho. O vampiro deixou de ser uma aberração para se tornar um objeto de desejo, com promessas sexo selvagem e amor literalmente eterno. Nos anos 1980, especialmente depois de filmes como Fome de viver (The hunger, 1983), a liberação feminina chegou ao vampirismo. Antes relegadas a  situação de escravas do vampirão chefe, as vampiras ganharam autonomia e passaram a ter seu próprio séquito.
As editoras de romances só perceberam que estavam dormindo no ponto em 2001, quando foi lançado o primeiro volume da franquia Os sete, do escritor paulista André Vianco, que atraiu a atenção dos leitores e vendeu dezenas de milhares de exemplares. Desde então, antologias, novelas, romances, trilogias com histórias de vampiros, de autores brasileiros estrangeiros, têm brotados nas estantes como cogumelos. Porém, apesar da grande atividade no gênero, os escritores elegeram unanimemente o modelo dos vampiros humanizados, como os de Entrevista com o vampiro. Realimentados por outras franquias estrangeiras, a coisa só fez acirrar-se, ao ponto de o mito original do vampiro ter praticamente se perdido.
Enfim, uma luz, embora o termo não seja totalmente adequado. A escritora paulista Martha Argel, uma especialista em ficção fantástica, resolveu que era hora de retomar o mito a partir de suas raízes primitivas. E o resultado foi o romance O vampiro da Mata Atlântica.
Martha iniciou a carreira de ficcionista escrevendo fc. Seus primeiros trabalhos saíram nos livros virtuais Lugar de mulher é na cozinha, antologia organizada pela própria Martha, e a coletânea individual Contos improváveis, ambas publicadas em 2000 pela editora Writers. Os vampiros começaram a predominar seu trabalho a partir do romance Relações de sangue (Novo Século, 2002), seguido da coletânea O vampiro de cada um (da autora, 2003). Marta afastou-se um tantos dos sugadores em 2005, com a coletânea virtual Olhos de gato (Writers) e, em 2006, com O livro dos contos enfeitiçados, ambos com histórias de fantasia de horror.
Enfim, retornou em grande estilo aos vampiros com O vampiro da Mata Atlântica, uma história que investe num monstro nada glamouroso, nascido do ódio, sem qualquer interesse além de matar e comer. Martha também inova ao estabelecer a origem do vampiro em uma mitologia diversa. Não há, neste vampiro, a convencional mordida que transmite o vírus maldito. Aqui, a maldição é literal, decorrente de suas próprias maldades humanas. Morto, renasce monstro faminto que assombra seu vilarejo localizado num remoto trecho na região do Alto Ribeira, até que este, abandonado pelos moradores, fica deserto e em ruínas. O lugar torna-se tabu e os demais habitantes da região não se aproximam dele.
Pelo menos até que dois pesquisadores universitários, Xavier Damasceno e Júlio Levereaux, aparecem por lá, contratados por uma empresa para realizar um levantamento ecológico na região, com vistas a implantação de uma área de preservação ambiental. Equipados e com muitos suprimentos, querem aproveitar a oportunidade para também realizar estudos pessoais sobre os animais nativos, que pode valer pontos acadêmicos importantes. Leveraux é apaixonados por mamíferos, especialmente morcegos, dos quais sabe tudo e mais um pouco, enquanto Xavier é ornitólogo, interessado nas raríssimas harpias, animais em grave risco de extinção que foram avistadas na área.
O tempo chuvoso dificulta a chegada ao local e fica claro aos cientistas que eles não vão conseguir sair de lá antes do fim das chuvas. Como não estão com pressa, montam acampamento nas ruínas do vilarejo e começam a explorar as ricas flora e fauna locais.
Embevecidos pela natureza exuberante e concentrados no trabalho, não percebem que algo não vai bem por ali. Antes que possam se proteger, o vampiro investe sobre Leveraux, deixando-o ainda vivo, mas fora de ação. Fica então a cargo do inseguro Xavier a responsabilidade por enfrentar a criatura, num jogo mortal que Xavier não tem a menor chance de vencer. O isolamento, a rusticidade do lugar, o clima instável e a falta de recursos favorecem em tudo ao predador, que se diverte com as pífias estratégias de Xavier para proteger a si e a seu colega ao longo de cada noite de terror.
A única esperança de Xavier é sua criatividade e uns parcos conhecimentos sobre a lenda dos vampiros que Leveraux lhe explicou rapidamente, durante o primeiro dia de pesquisas. Mas isso pode não ser o bastante.
Muito inteligentemente, Martha aproveitou sua própria experiência acadêmica como ornitóloga para construir a introdução da história. A primeira metade do romance mal toca no assunto dos vampiros. Ela a usa para apresentar os personagens e suas motivações pessoais, com grande sucesso. Uma antiga rivalidade entre os dois cientistas tempera o relacionamento, da mesma forma que a cuidadosa descrição da Mata Atlântica, muito bem conhecida pela escritora, e a descrição detalhada da metodologia de pesquisa dos cientistas ajuda a dar verossimilhança ao ambiente. Quando finalmente o monstro se revela, toda a incredulidade do leitor já foi desmontada. Ficamos rendidos ao horror daquela criatura improvável e completamente real, tanto nas assombradas noites de Xavier, como nos nossos próprios pesadelos.
Martha, que sempre teve um texto correto e técnico, ganhou uma consistência inédita neste romance devido a ter situado a história em um ambiente familiar às suas experiências pessoais. É inclusive pertinente supor que algumas das situações descritas sejam autobiográficas.
O volume flerta com o mercado paradidático ao inserir, depois da história, artigos instrutivos sobre a Mata Atlântica, a região do Alto Ribeira e seus animais, com atenção especial para os morcegos, é claro.
Também cabe aqui ressaltar o belo trabalho de direção de arte, com uma imagem fabulosa na capa assinada pelo respeitado designer Billy Argel, irmão da aurora, além de um acabamento gráfico perfeito, que é padrão nas edições da Idea.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O arqueiro e a feiticeira

Mais um romance que me chegou às mãos durante a III FantastiCon, desta feita pelos préstimos do publisher Rodrigo Coube, foi A caverna de cristais volume 1 - O arqueiro e a feiticeira, de Helena Gomes, recentemente relançado pela Editora Idea de Bauru, SP.
Na oportunidade pude também conversar um pouquinho com a autora, muito simpática e elegante, que autografou meu exemplar com direito a dedicatória, foto e tudo mais.
O Anuário tem dado atenção a esta obra de fantasia, que inicialmente apareceu pela editora Devir, em 2003. No Anuário 2005, ela foi abordada no artigo "O gênero fantasia brasileiro de 2001 a 2005: globalizando e abrasileirando O senhor dos anéis" da brasilianista Elisabeth Ginway, analisado ao lado de outros exemplos da fantasia brasileira de contornos tolkenianos. Mais tarde, o Anuário 2007 avaliou o segundo volume da série, Aliança dos povos, publicado pela Idea, em resenha exclusiva assinada por mim, que a autora lamentou não ter sido mais positiva.

Mas isso não desmotivou a Editora Idea em utilizar uma das frases dessa resenha como epígrafe na contra-capa da nova e melhorada edição de O arqueiro e a feiticeira, de maneira que o Anuário e vultoso trabalho de Helena Gomes estão agora definitivamente vinculados, espero que com vantagens para todos.
A caverna de cristais está planejada para ser uma série de sete volumes, dos quais já foram publicados três, os dois citados acima e também Despertar do dragão, publicado em 2008 também pela Idea. Ainda faltam quatro.
Mais sobre a obra de Helena Gomes pode ser lido no seu blog pessoal, Mundo Nergal. E mais sobre a megassérie A caverna dos cristais, aqui e no site da Editora Idea.
Uma curiosidade para os fãs de plantão: lembro-me muito vagamente de ter visto no cinema, no início dos anos 1980, um filme com jeito de produção italiana com o título de O arqueiro e a feiticeira (The archer and the sorceress), mas praticamente não há referências a ele na internet. Encontrei-o a venda na Amazon, somente em VHS, dirigido por Nicholas Corea e data de 1979. Já no IMdB, o encontrei sob o título de The archer: fugitive from the empire, porém com data de 1981. Que mistério!