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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O corvo e suas traduções

O corvo e suas traduções, Ivo Barroso, org. 153 páginas. São Paulo: Editora Leya, 2012.

A poesia é um grande mistério e, a princípio, parece fácil versejar. Afinal, os poetas o fazem com tanta naturalidade que parece ser um dom genético ou uma inspiração vinda diretamente dos deuses. As vezes, essa inspiração realmente emerge de um estado de consciência alterada por alguma patologia psicológica, pelo uso de drogas ou por um delírio criativo que nem o próprio autor sabe explicar. Contudo, também pode ser fruto de planejamento, apoiado em uma exaustiva atividade intelectual.
A crítica tende a desvalorizar o trabalho artístico obtido a partir de métodos científicos, por isso muita gente não gostou quando um dos mais importantes escritores da língua inglesa, o poeta "louco" Edgar Allan Poe (1809-1849) explicou, no ensaio "A filosofia da composição" (1846), o passo a passo que cumpriu para chegar ao resultado absolutamente incomparável de seu poema mais ilustre, "O corvo" ("The raven"), escrito em 1845.
Parece mesmo um tanto anticlimático olhar o poema a partir de seus bastidores, uma vez que o efeito, quando visto sob os holofotes da ribalta, se apresenta como fruto de um espírito enlouquecido. O clima tenebroso, reforçado por rimas guturais e aliterações angustiantes não parece ser resultado de um cálculo matemático. Ou não deveria ser, para o bem de todas as nossas certezas.
São essas algumas das preocupações que o poeta e tradutor mineiro Ivo Barroso explora como organizador da antologia O corvo e suas traduções. Originalmente publicado em 1998, pela Editora Lacerda, o volume retornou em 2012 pela Editora Leya já em sua terceira edição.
Além do poema original em inglês, o livro reúne nada menos que 11 traduções, três para o francês, de Charles Baudelaire (1853), Stéphane Mallarmé (1888) e Didier Lamaison (1998), seguidas das mais importantes versões para a língua portuguesa: Machado de Assis (1883), Emílio de Menezes (1917), Fernando Pessoa (1924), Gondin da Fonseca (1928), Milton Amado (1943), Benedicto Lopes (1956), Alexei Bueno (1980) e Jorge Wanderley (1997). É curioso notar como um mesmo texto original pode ter traduções tão diferentes entre si. Inclui ainda um artigo biográfico sobre Poe e o já citado ensaio, uma aula de criação literária, mas que deixa as questões técnicas da poesia ao gosto do leitor. Barroso detalha algumas delas, bem como as diversas tentativas de seus tradutores em transpor para o português todas as filigranas da versão original. Alguns tiveram mais sucesso que outros, mas todas as traduções têm seu valor como verdadeiros documentos de sua época. E, a cereja no bolo, uma apresentação assinada por Carlos Heitor Cony, de todo simpática a obra do autor americano.
O volume tem 153 páginas e ótima legibilidade, com diagramação perfeita em fonte Berkeley impressa em papel pólen de aspecto muito confortável, de tal forma que as explicações de Poe sobre a construção "matemática" do poema parecem fazer todo o sentido, mesmo que sua vida conturbada reforce a ideia de um talento alienado e irracional.
Tido como ébrio de alma torturada que morreu na indigência, parece lícito vê-lo como um louco em contínuo estado de desespero. Sua ficção perturbadora supõe confirmar os aspectos sombrios de sua vida, mas visto na perspectiva facilitada pela leitura de O corvo e suas traduções, revela uma inteligência sagaz, racional e criativa.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Marvel Comics: A história secreta

Livros sobre quadrinhos são raros no Brasil e, quando aparecem, geralmente são fruto do trabalho acadêmico de algum pesquisador brasileiro sobre detalhes da arte no País. Ensaios estrangeiros raramente são traduzidos aqui, o que é frustrante para os interessados na história geral dos quadrinhos, que precisam buscar por publicações originais para terem acesso a um material de referência mais confiável que o Wikipedia.
Por isso, é uma surpresa a publicação no Brasil, pela Editora LeYa, de Marvel Comics: A história secreta (Marvel Comics: The untold story) volumoso ensaio do jornalista Sean Howe, editor da Entertainment Weekly, lançado em 2012 nas livrarias americanas.
Trata-se de um levantamento minucioso sobre a construção de um dos mais lucrativos impérios da cultura pop internacional, que reúne um conjunto invejável de personagens amados em todo o mundo, cheios de histórias para serem lembradas. A Marvel movimenta um faturamento gigantesco amealhado em diversas mídias, e o  livro é igualmente monumental, com 560 páginas em papel pólen soft, surpreendentemente leve e confortável de ler.
A pesquisa está dividida em cinco partes principais. A primeira, "Mitos e criações", relata as origens da editora desde a fundação, em 1930, por Martin Goodman, então sob o nome de Timely Comics. Mas a história para valer só começa em 1961, quando Stanley Martin Lieber, ou Stan Lee, então com mais de vinte anos de trabalho na empresa, teve a ideia de reunir personagens antigos em um grupo, como fez a editora concorrente, a Detective Comics, com a Liga da Justiça. Assim nasceu o Quarteto Fantástico que, devido a uma inovadora abordagem realista nos roteiros, repercutiu favoravelmente entre os leitores.
O relato avança ao longo dos dez anos seguintes, período em que surgiu a maior parte das ideias e personagem que iriam caracterizar a franquia, através da relação entre Lee e seus colaboradores, como o recluso Steve Ditko – que concebeu o Homem-Aranha – e, principalmente, Jack Kirby, que deu forma a praticamente todo o resto.
A segunda parte, "A nova geração", inicia com a saída de Kirby em 1970. Vemos a editora tornar-se um ambiente de maturidade artística com nomes como Roy Thomas, Archie Goodwin, Jerry Conway, Marv Wolfman, John Romita, Gil Kane e Jim Starling, entre outros, aproveitando o relaxamento gradual do famigerado Comics Code que, até então, era um garrote na indústria americana dos quadrinhos.
A terceira parte, "Trouble Shooter", inicia em 1978, com a entrada de Jim Shooter como editor e muitos problemas decorrentes da competitividade profissional. Foi nesse período que Chris Claremont e John Byrne estruturaram o que viria a ser o carro-chefe da Marvel dali em diante: os X-Men, e Frank Miller iniciou sua carreira meteórica em O Demolidor, enquanto o mercado era agitado por processos judiciais que os artistas moviam contra as editoras pleiteando direitos autorais sobre suas criações, que acabou com a decisão a favor deles. A última fase deste capítulo trata da famigerada minissérie Guerras Secretas, elaborada, entre outras coisas, para ajustar os muitos problemas que atravancavam o trabalho de uma equipe de artistas cada vez maior.
A quarta parte, "Expansão e queda", acompanha a evolução dos quadrinhos da Marvel ao longo dos anos 1980, sob o comando editorial de Ton DeFalco e Mark Gruenwald, que adotaram a estratégia de sucessivos cruzamentos entre os títulos da casa, e investiram em minisséries e grafic novels com acabamento sofisticado de custo elevado. Apesar de terem existido iniciativas anteriores, são desse período as primeiras tentativas sérias de adaptar os personagens Marvel para o cinema.
O relato conclui com o capítulo "Uma nova Marvel", acompanhando os anos 1990 quando a editora quase foi a falência, da qual se recuperou em 1997, a partir do sucesso do filme Blade e da lucrativa adaptação cinematográfica do Homem Aranha, em 2001, culminando em um negócio bilionário com a Disney, que comprou a Marvel em 2009. Isso reavivou antigas rusgas entre Stan Lee e seus primeiros parceiros, Steve Ditko e Jack Kirby, uma vez que o velho marechal da "Casa de Ideias" recebeu todo o crédito pela criação dos personagens, e o que aconteceu nos tribunais pode até não ter sido bonito de ver, mas é muito divertido de ler com a devida perspectiva histórica.
O volume ainda traz um apêndice organizado pelo tradutor Érico Assis, com uma ampla lista das edições da Marvel no Brasil, relacionando quando e por qual editora cada título citado no livro foi aqui publicado.
Marvel Comics: A história secreta fala especialmente àquele leitor que passou os últimos 40 anos ao lado de personagens e artistas dessa grande família, mas fala muito também ao leitor interessado em destrinchar cases mercadológicos, estratégias de negócios e demandas reais entre empresas e seus colaboradores.
Sem dúvida, a leitura de Marvel Comics: A história secreta vai desmistificar muitas das lendas que correm há décadas no imaginário dos fãs. E talvez acabe criando outras.

sábado, 25 de maio de 2013

Antes da fama

Muito antes de explodir mundialmente com a série de romances de fantasia A guerra dos tronos, o escritor norte-americano George R. R. Martin já era lido no Brasil. Além de alguns contos em revistas e antologias, Martin teve aqui publicada a minissérie em quadrinhos Cartas Selvagens, subproduto de um jogo RPG homônimo. A minissérie não fez muito sucesso fora do circuito dos fãs e colecionadores, por isso a versão literária nunca foi cogitada pelas editoras brasileiras. Até agora.
A editora LeYa acaba de lançar Wild Cards: O começo de tudo, primeiro volume de uma série de novelizações organizada pelo próprio Martin com a ajuda de grande time de escritores, entre os quais estão os pesos-pesados Roger Zelazny, Pat Cadigan e Chris Claremont.
Iniciada em 1987 e projetada para ter 22 volumes, a série ainda está em curso nos EUA, atualmente no número 21. O próprio Martin afirma estar escrevendo o volume final.
O que deve ter motivado a tradução do título, além do evidente fato de Martin ter se tornado um bestseller, é a notícia ainda não confirmada que a série pode se tornar uma franquia cinematográfica.
Wild Cards conta sobre um vírus altamente mortal que assolou Nova York em 1946, e cujos poucos sobreviventes tiveram o efeito colateral foi ganhar superpoderes.
Wild Cards: O começo de tudo tem 480 páginas e custa R$44,90.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Guerra dos tronos em quadrinhos

Depois de arrebentar em forma de séries de livros e TV, A guerra dos tronos, fantasia épica de George R. R. Martin, chega também aos quadrinhos adaptada pelo romancista Daniel Abraham e o ilustrador Tommy Patterson. 
A série gráfica, originalmente publicada pela Dynamite Entertainment, foi apresentada em revistas periódicas, mas chega ao Brasil na forma de um álbum com 240 páginas, reunindo as seis primeiras edições. 
Considerada uma saga adulta de alta fantasia, A guerra dos tronos conta o drama de Westeros, um mundo no qual a sobrevivência depende da capacidade de se resistir a um secular e rigoroso inverno que se aproxima. Mas não há como salvar a todos. Então, os reinos de Westeros estão em guerra pelo controle dos limitados recursos necessários para garantir a vida durante essa mini-era glacial.
O volume conta com prefácio do próprio George Martin e um making off com rascunhos, esboços e estudos dos personagens.
Independente de ser um produto claramente dirigido aos fãs, vale a pena dar uma olhada no material, pois o álbum é uma publicação da editora LeYa através do selo Barba Negra, que tem editado alguns dos melhores trabalhos em quadrinhos disponíveis no mercado, tais como O gosto do cloro, de Bastien Vivès, Lucille, de Ludovic Debeurme, Koko be good, de Jen Wang, O pequeno pirata, de David B, e O Paraíso de Zahra, de Amir e Kalil. Está muito bem acompanhado, portanto.

domingo, 8 de julho de 2012

O gosto do cloro

Depois de uma prolongada fase de experimentalismos formais e narrativos, as histórias em quadrinhos demonstram ter chegado à maturidade com o lançamento de O gosto do cloro (Le goût du chlore), uma crônica em quadrinhos do francês Bastien Vivès, originalmente publicado em 2008, quando o autor tinha apenas 22 anos. É o primeiro trabalho de Vivès publicado no Brasil, através do selo Barba Negra da Editora LeYa, numa edição de alto luxo com 144 páginas belamente coloridas.
Conta a história de um jovem que é intimado por seu terapeuta a praticar natação para ajudar no tratamento de uma escoliose severa. Relutante, ele vai a uma piscina pública e passa a conviver ali num micro universo social, uma comunidade de anônimos colocados juntos por apenas alguns minutos por semana. E são todos realmente anônimos, uma vez que o leitor sequer fica sabendo os nomes dos personagens principais.
O jovem chega à piscina um tanto inseguro, pois o que ele conhece da natação é suficiente apenas para não morrer afogado. Só sabe boiar e nadar de costas, e muito mal. Mesmo assim, fica elaborando competições imaginárias com os demais freqüentadores, entre os quais está uma garota bonita, que nada muito bem, mas sua timidez galopante impede que se aproxime dela.
Até o dia em que um amigo o acompanha à piscina, um jovem em tudo diferente dele. Animado e extrovertido, logo está de conversa com a garota que ele observava a distância, e essa é a deixa para que, enfim, ele lhe dirija a primeira palavra, um prosaico "oi" na hora de ir embora. Na semana seguinte, a moça toma a iniciativa de falar com ele e começa então uma espécie de amizade de bolso, restrita aquele universo molhado. Todas as semanas, os jovens encontram-se na piscina e a experiente nadadora passa a instruir o rapaz nos fundamentos da arte. Durante um desses treinamentos, ele sugere atravessar a piscina de ponta a ponta, totalmente submerso, e passa então a treinar natação em apnéia. Num desses momentos, a garota fala-lhe alguma coisa sob a água, através de mímica labial, que ele não chega a compreender, muito menos nós, visto que os movimentos são em francês. Isso, somado a um desfecho ambíguo, ao mesmo tempo trágico e anticlimático, conduz o leitor a participar da história decidindo pelo destino das personagens.
O gosto do cloro foi o terceiro trabalho publicado de Vivès e tornou-se sua obra prima ao receber o Prêmio Revelação do Festival de Angoulême, em 2009. O que destaca o trabalho entre o que geralmente se vê nos quadrinhos modernos é a delicadeza narrativa, tanto no roteiro quanto nos desenhos, numa estética minimalista e econômica. O ambiente da piscina, não muito rico em detalhes, transforma-se num universo de tons e texturas, onde a expressão física predomina. Reconhecemos os personagens mais por sua movimentação corporal do que por qualquer outro detalhe. A superfície água, quase sem movimento, marca a fronteira entre dois mundos distintos, cada um com seu próprio tempo e história, e o texto mínimo, sem grandes tensões, favorece um ritmo ágil e agradável na leitura. O efeito sequencial ganha relevância, com angulações e enquadramentos belos e cinematográficos.
Hoje com 28 anos de idade, Vivès continua produtivo, publicando de dois a três títulos por ano. Só em 2012 já lançou em seu país os álbuns Le Jeu Vidéo e La Famille. Aqui está um autor que deve ser observado de perto.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Resenha: O paraíso de Zahra

Publicado em 2011 pela Editora Leya em seu selo de quadrinhos Barba Negra, O paraíso de Zahra, de Amir e Khalil, é um drama político que se insere no mesmo segmento de algumas obras primas da arte sequencial, como Persépolis de Marjane Satrapi, Maus, de Art Spiegelman, Palestina, de Joe Sacco, e Gen: Pés Descalços, de Keiji Nakazawa.
Trata-se de uma história de ficção, mas que se insere num fato verídico, angustiante e assustador, muito familiar aos brasileiros: as manifestações populares que ocorreram em Teerã logo após as suspeitas eleições que elegeram Mahmoud Ahmadinejad presidente do Irã. Fortemente reprimidas pela polícia política iraniana, muitos jovens iranianos foram presos, torturados e mortos nos porões do regime teocrático dos aiatolás.
Há quem goste de usar a situação como argumento anti-religioso, mas o fato é que tudo o que aconteceu e ainda acontece no Irã nada mais é que a nossa muito conhecida ganância humana. É apenas uma questão de poder e dinheiro, como se pode ver no angustiante relado sobre Zahra Alavi, que busca por seu jovem filho Mehdi depois que ele desaparece durante a maior das manifestações acontecidas em Teerã, que reuniu mais de três milhões de pessoas. A história é contada por seu irmão Hassan que, através de um blogue, tenta denunciar ao mundo as arbitrariedades do regime de seu país. A propósito, O paraíso de Zahra foi primeiramente publicado na internet, traduzido para doze línguas e lido por milhões de pessoas no mundo inteiro.
Um trecho curioso é quando um mecânico elogia uma chave de fenda fabricada na Turquia, a que Hassan comenta: "O Irã não consegue nem fazer uma chave de fenda que preste, e o mundo tem medo do programa nuclear iraniano?"
Além do explosivo conteúdo político, O Paraíso de Zahra é uma maravilhosa peça de arte. As ilustrações de Khalil são elegantes e mostram em detalhes as ruas de Teerã e o modo de vida de seu povo.
O livro ainda traz apêndices valiosos, entre os quais um glossário de termos e nomes árabes, muito útil para entender os conceitos políticos, históricos e culturais citados na história, um posfácio sobre as origens da obra, um relato sobre as eleições presidenciais iranianas em 2009, artigos sobre a morte de Neda Agha Soltan – assassinada nas ruas de Teerã pela milícia Basij durante as manifestações de 2009 – e sobre a prisão de Kahrizak, e o "Omid", relação de treze páginas com nomes de milhares de vítimas do governo revolucionário iraniano.
Se metade do que diz O paraíso de Zahra for verdade, o presidente do Irã é um sociopata perigoso do mesmo nível de Pinochet. E eu não tenho dúvida que é verdade.
O paraíso de Zahra tem 272 páginas e é leitura obrigatória para quem quer saber sobre a questão sócio-política iraniana recente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Últimas leituras de 2011

Entre os lançamentos do final de 2011, chegaram-me às mãos três títulos interessantes.
Fiz questão de ler primeiro a coletânea de tiras Rei Emir Saad: O monstro de Zazarov, novo álbum do cartunista carioca André Dahmer. Trata-se de uma série de humor negro, na qual o dito Emir Saad, rei do Ziniguistão, mantém seu poder através de violência, tortura e crimes políticos, às vezes fazendo o tipo de rei medieval, outras o de ditador sul-americano ou de algum estado da Europa Oriental. As tiras são interessantes e devem funcionar muito bem quando publicadas num jornal diário, mas a leitura s contínua é algo incômoda. Dahmer tem se especializado em fazer graça com temas espinhosos, como em sua série de tiras mais conhecida, "Malvados", sobre as maldades cotidianas, e "Apóstolos", com críticas ao Cristianismo. O álbum tem 96 páginas em cores e foi publicado pelo selo Barba Negra da Editora Leya.
Outro lançamento recente é Brasil 1500: Segredo de Estado, de Fábio Fonseca, Andrei Miralha e Otoniel Oliveira. Trata-se de uma aventura histórica, que acontece em Lisboa entre a volta de Vasco da Gama de sua viagem às Índias e a partida da frota de Pedro Álvares Cabral. Um jovem acaba envolvido nas tramas de um espião espanhol, cobiçoso de informações sobre as novas rotas descobertas pelos navegantes portugueses. A aventura tem ilustrações competentes e um estilo narrativo algo didático. O melhor de tudo é o desprezível espião espanhol Mendoza, que estabelece todos os conflitos da história. Como já disse, a história termina exatamente no momento em que a frota cabralina zarpa do Rio Tejo, com um gancho perfeito para uma sequência. O álbum tem 48 páginas em cores e é uma publicação da Devir Livraria.
Completei minhas leituras em 2011 com o surpreendente A Liga Extraordinária: Século 1969, de Alan Moore e Kevin O'Neil, também publicado pela Devir Livraria. Depois dos excelentes volumes iniciais (A Liga Extraordinária I e II) e de ter sido obrigada a saltar a publicação do excepcional Black Dossier por conta de problemas com direitos autorais da edição original, a editora brasileira havia apresentado em 2010 o fraquinho A Liga Extraordinária: Século 1910, que não satisfez os leitores das edições anteriores. A ausência da contextualização de Black Dossiê, que não é muito esclarecida nem mesmo no resumo que acompanha a edição, deixou a história solta e frouxa.
As muitas alterações dos personagens e a dificuldade do autor em continuar a usar referências contemporâneas – que devem ter sido justamente as causas dos problemas legais enfrentados em Black Dossier – também tiraram o brilho que caracterizava a trama. Restrito às referências de domínio público, Moore e O'Neil tiveram de frear seu ímpeto criativo, fixando a história em Wilhelmina Murray e Allan Quartermain às voltas com o supervilão místico Oliver Haddo. As novas aquisições da Liga, Thomas Carnacki, Arthur Raffles e o curioso Orlando, imortal que muda periodicamente de sexo, não chegaram a empolgar. Então, a expectativa por Século 1969 não era das melhores, principalmente porque o apelo steampunk das primeiras edições certamente não estaria presente. Contudo, os autores conseguiram destacar novos caminhos para sustentar a aventura iniciada na edição anterior. Agora, uma Liga Extraordinária diluída e ilegal chega ao tempo do amor livre, da pílula e das drogas numa Londres alternativa em constante orgia. Depois das duas guerras mundiais e dos anos de ditadura do Grande Irmão, quando a Liga foi desfeita e devidamente apagada da memória oficial, Murray, Quartermain e Orlando têm uma nova chance de acabar com as armações de Haddo. O clímax da narrativa acontecendo durante um show de rock no Hide Park, em ritmo de viagem lisérgica. Os textos de apoio acrescentaram mais detalhes ao período "em branco" da Liga, de forma que a trama voltou a ganhar foco. Impossível não fazer paralelo entre A Liga Extraordinária e outra obra importante de Alan Moore, Watchmen, que também conta uma história de intrigas numa realidade alternativa com um grupo de heróis atirados na ilegalidade. Mas isso só melhora a coisa toda.
Século 1969 ainda está distante da excitação dos primeiros volumes de A Liga Extraordinária, mas já recuperou um pouco do brilho dessa que é uma das sagas mais criativas da história dos quadrinhos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Resenha: O zen e arte da escrita

Possivelmente um dos lançamentos mais importantes de 2011, O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury, é uma pequena joia.
Bradbury dispensa apresentações, visto ser um dos mais expressivos nomes da literatura norte americana contemporânea. Hoje com 81 anos, é autor de Farenheit 451, O vinho da alegria, O país de outubro, Crônicas marcianas, Algo de sinistro vem por aí, Os frutos dourados do Sol e muitos outros títulos entre romances, coletâneas, peças de teatro e poemas, navegando pela ficção científica, a fantasia, o horror e o mistério e o realismo com igual talento e desenvoltura, sendo respeitado pelo mainstream. Sua ficção continua atual e impactante, e influencia autores em todo o mundo. Então devemos prestar muita atenção nos seus conselhos.
O livro, de apenas 168 páginas, reúne onze ensaios deste mestre, alguns deles originalmente apresentações ou prefácios de outros livros. São eles: "A alegria da escrita", "Corra, pare, ou a coisa no topo da escada, ou novos fantasmas de mentes antigas", "Como manter e alimentar a Musa", "Bêbado e no comando de uma bicicleta", "Investindo moedas: Fahrenheit 451", "Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria", "Sobre os ombros de gigantes", "Crepúsculo nos museus de robô: o renascimento da imaginação", "A mente secreta", "O zen e arte da escrita" e "Sobre criatividade", este último um conjunto de sete poemas. A certa altura, um pequeno bônus: um trecho alternativo inédito para Farenheit 451, a cereja deste bolo bradburiano.
Diz o relise: "Neste livro exuberante, o incomparável Ray Bradbury compartilha sua sabedoria, experiência e estímulo de uma vida de escritor. Aqui estão dicas sobre a arte da escrita dadas por um mestre do ofício. Um livro que reúne tudo, desde encontrar ideias originais até desenvolver a própria voz e o estilo, bem como leituras, impressões da infância e os bastidores da notável carreira de Bradbury como um autor fecundo de romances, contos, poemas, roteiros de filmes e peças de teatro. O zen e a arte da escrita é mais do que um simples manual para o aspirante a escritor, é uma celebração do ato da escrita, que vai encantar, exaltar e inspirar o escritor em você".
O livro é quase uma autobiografia, já que Bradbury trabalha o conteúdo a partir de sua própria vida, contando o modo como funciona a sua mente - ele lembra detalhes de sua mais tenra infância, quando ainda sequer sabia falar - e as experiências traumáticas pelas quais passou e que o levaram a se tornar o poeta que aprendemos a apreciar.
Em tese, é um manual de escrita criativa que orienta a escrever melhor. Mas vai muito além disso, discutindo questões filosóficas de grande profundidade que podem melhorar não apenas a forma como se escreve, mas o modo como vivemos.
Uma frase do autor resume brilhantemente o conselho de Bradbury para os leitores: “Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!”.
Não entendeu? Então não perca mais tempo e leia o livro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A nova onda da FCB

No início eram a citação, a homenagem e a releitura. Depois veio o fanfic. Agora é a vez do "mashup", romances caídos em domínio público aos quais são adicionados novos trechos que subvertem a leitura num sentido imprevisto pelo autor original.
O primeiro exemplo dessa tendência que aportou no Brasil foi Orgulho, preconceito & zumbis, traduzido no início deste ano pela Editora Intrínseca, no qual o escritor norte-americano Seth Grahame-Smith parodia o clássico romance da escritora britânica Jane Austen.
Mas o que começou como brincadeira parece estar sendo transformado em prática pela Lua de Papel, selo da Editora Leya que anunciou a coleção Clássicos Fantásticos, com quatro títulos do gênero. O primeiro a ser divulgado é Dom Casmurro e os discos voadores, romance de estreia do escritor Lúcio Manfredi, um dos mais promissores autores da Segunda Onda da ficção científica brasileira.
No livro, além dos desencontros da história original, os personagens de Machado de Assis vão se envolver com alienígenas e andróides, numa disputa intergaláctica entre duas civilizações que habitam a Terra há milhões de anos. O blogue do autor, aqui, faz uma ótima contextualização do trabalho.
O lançamento acontece no dia 22 de setembro, a partir das 18h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, São Paulo).
Os outros volumes anunciados na coleção Clássicos Fantásticos são Senhora, a bruxa, de José de Alencar e Angélica Lopes, A escrava Isaura e o vampiro, de Bernardo Guimarães e Jovane Nunes, e O alienista caçador de mutantes, de Machado de Assis e Natalia Klein.