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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

4x Fanzine

Depois de tratar dos fanzines Megalon e Hiperespaço, o canal Café Especulativo, do pesquisador Edgar Smaniotto, recebeu, no último dia 18 de janeiro, o pesquisador e escritor Roberto de Sousa Causo para contar um pouco de sua longa trajetória como editor de fanzines. 
Causo editou diversos títulos dedicados a fantasia e a ficção científica, como O Rhodaniano, Papêra Uirandê, The Brazuca Review, Borduna & Feitiçaria, entre outros, publicados ao longo dos anos 1980 e 1990. 
O vídeo da entrevista, que durou três horas, está integralmente disponível aqui.

domingo, 23 de julho de 2023

Resenha do Almanaque: O par, uma novela amazônica, Roberto de Sousa Causo

O par: uma novela amazônica
, Roberto de Sousa Causo. 140 páginas. São Paulo: Humanitas, 2008.

Novela de ficção científica do escritor paulista Roberto de Sousa Causo, premiado no concurso Projeto Nascente II promovido pela Universidade de São Paulo em 2001.
Conta a história do soldado Feitosa, desertor de uma força especial do Exército Brasileiro na selva Amazônica, nos anos 30 do século XXI. Depois de um pequeno desentendimento entre Feitosa e seus colegas, a tropa é enviada para as fronteiras de uma área isolada sob o assédio de forças estrangeiras, onde ocorrem fenômenos bizarros protagonizados por objetos voadores não identificados, possivelmente alienígenas. Quando o soldado se vê sozinho contra seus desafetos, há um confronto violento e, depois do tiroteio, Feitosa embrenha-se no território desconhecido.
Na mata profunda, depois de testemunhar a aparição de um esquadrão de OVNIs, o soldado desenvolve um abcesso na perna esquerda. Quando se defronta com um bando de caçadores ilegais, do qual apenas ele mesmo sobrevive, cai num sono pesado e, quando acorda, está acompanhado de uma jovem que em tudo lembra-lhe a falecida esposa; no local do abcesso resta apenas uma depressão cicatrizada. A mulher passa a acompanhá-lo em sua peregrinação pela mata fechada e surge entre eles uma ligação íntima, telepática e simbiótica. Deslocando-se sempre em direção ao norte e pretendendo se refugiar na Venezuela, o casal encontra uma aldeia de traficantes e tem de mais uma vez que entrar em combate para garantir sua sobrevivência.
Os meses passam e o soldado e seu par – que Feitosa já reconhece como uma criação dos alienígenas através de sua própria carne, embora ainda não saiba o por quê –, encontram-se com muitos outros pares, todos indo, sem saber o motivo, para um grande encontro com o destino próximo ao Pico da Neblina.
O trabalho retoma alguns dos temas preferidos do autor, como o ambiente da floresta Amazônica e seus povos nativos – vistos em Terra verde (Cone Sul, 2000) e A sombra dos homens (Devir, 2004) –, do soldado desgarrado – visto em "O infiltrado" (Dança das sombras, Caminho, 1999) e diversos outros contos do autor – e do contato com inteligências extraterrestres – mais uma vez, em Terra Verde e na novela Voo sobre o mar da loucura (M&C, 1998).
Causo faz o texto dialogar também com uma quantidade de referências não explícitas, como o romance O coração das trevas, de Joseph Conrad, os longa-metragens Contatos imediatos do terceiro grau, de Steven Spielberg, e O segredo do abismo, de James Cameron, e livros da ficção científica brasileira que têm na guerra pela posse da Amazônia um tema recorrente, como A guerra da Amazônia, de Carlos Bornhofen (Novo Século, 2004) e A ira da águia, de Humberto Loureiro (Literalis, 2007).
O isolamento da gigantesca floresta a coloca em pé de igualdade, como elemento dramático, aos espaços extremos da natureza, como a Antártida, as fossas abissais e o espaço sideral. Neste aspecto, é um lugar mais que adequado à aparição dos OVNIs.
A narrativa de Causo é consistente e o personagem principal é sólido, embora os demais sejam bastante simples, uma vez que entram e saem da trama em uns poucos parágrafos, quase sempre de forma violenta. Aliás, a violência é um parâmetro regulador na aventura do soldado Feitosa, que ora é vítima, ora é um algoz de frieza admirável. Para ele não importa a ética, desde que se sobreviva, e é este mesmo critério que vai determinar o destino do casal em seu último conflito.
Feitosa, transformado em caboclo, toma o destino nas próprias mãos e rejeita o estado e as forças da civilização, quase sempre mais ameaçadoras que a selva, por mais insalubre que seja.
De acordo com Marcello Simão Branco, “há uma simbiose temática entre o estranhamento do contato alienígena e das forças da Natureza, com uma crítica sociopolítica importante à situação hipócrita pela qual o Estado brasileiro – e boa parte da sociedade –, encara a chamada ‘questão amazônica’, no contexto das prioridades ambientais e econômicas do país”. (Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2005)
Isso porque as lideranças políticas e a opinião pública do Brasil parecem recear, como num pesadelo recorrente, perder a autoridade política sobre a Amazônia, ao mesmo tempo que nada fazem para ajudar, sequer compreender, as necessidades da floresta e sua gente, muitas vezes abandonados à própria sorte a partir de um discurso pseudo-preservacionista feito sob medida para justificar essa incompetência histórica.
Desse modo, O par cumpre, de forma brilhante, um dos fundamentos da ficção científica ao levantar uma das mais delicadas polêmicas nacionais e, ainda que não tenha a pretensão de apontar as soluções, apresentar uma visão crua das várias forças envolvidas nessa questão, que não deve, nem pode, ser preterida pelos brasileiros.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Resenha do Almanaque: A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo

A saga de Tajarê, Livro 1: A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Bráulio Tavares. 120 páginas. São Paulo: Devir, 2004.

Romance de aventura mitológica e especulativa de Roberto de Sousa Causo, escritor nascido em São Bernardo do Campo que desde muito jovem optou pelos temas fantásticos, principalmente a ficção científica. São seus livros a antologia A dança das sombras (Caminho Editorial, Lisboa, 1999), o romance Terra verde (editora Cone Sul, São Paulo, 2000) e o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (editora UFMG, Belo Horizonte, 2003).
A sombra dos homens reúne dois contos já vistos na revista Dragão Brasil (ed. Trama) mais uma noveleta inédita, resultando num dos poucos exemplos autênticos de fix-up na literatura fantástica brasileira, uma vez que não é comum no Brasil a publicação avulsa de contos em revistas (fix-up é um romance que resulta da compilação de contos originalmente independentes que, justapostos, formam uma trama única e coerente).
Tajarê, o protagonista da história, é um indígena sul americano que vive numa época pré-cabralina. Dotado de poderes espirituais e mágicos, Tajarê é usualmente convocado pelas forças da natureza para dar cabo de qualquer ameaça à integridade da mesma, as quais sempre atende embora não aprecie o uso da força que tem de lançar mão para cumprir a tarefa, principalmente quando por conta disso possam acontecer mortes. Portanto Tajarê é um herói infeliz na sua condição de protetor.
A história do primeiro conto, que dá nome ao livro, inicia-se quando Tajarê é convocado a defender sua terra de invasores perigosos vindos de outro continente. Ele é conduzido pelos seres mágicos até uma praia, onde vê desembarcar um grupo pequeno de guerreiros vikings. Eles protegem Sjala, sacerdotisa que pretende localizar e libertar o deus Loki que está aprisionado em algum lugar na Amazônia. Fazendo uso de seus atributos físicos surpreendentes, Tajarê derrota todos os guerreiros vikings e captura a sacerdotisa, pela qual se apaixona.
O segundo conto é o mais curto do livro. "A benção das águas" é a narrativa de um monólogo interior de Sjala. Algum tempo adiante e ainda cativa, ela vive com Tajarê em sua aldeia e dele espera um filho. Apesar de ser prisioneira e sentir um amor paradoxal por seu captor, a sacerdotisa espera a oportunidade ideal para escapar e cumprir a missão que a trouxe para tão longe de sua terra.
A noveleta a seguir é divida em duas partes. A primeira, chamada "Sangue no Grande Rio", mostra exatamente o momento em que a oportunidade da fuga se apresenta a Sjala, anos mais tarde. Niadorã, o filho de Sjala e Tajarê, já é um curumim crescido. Ao pressentir o ataque de uma onça ao seu filho, Sjala usa seus poderes para salvá-lo, irritando a tribo que já não via com muito gosto a presença da cativa branca entre eles. A decisão do chefe tribal, aproveitando a presença de uma comitiva comercial de guerreiras brancas — as ferozes icamiabas — é o banimento de Sjala, que é entregue às amazonas.
Tajarê, que não estava na aldeia, retorna quando o fato já está consumado. Tomado de angústia, parte imediatamente em busca da mãe de seu filho. Depois de uma perseguição exaustiva muitos quilômetros rio acima e com a ajuda de algumas entidades mágicas da natureza, Tajarê ataca o barco das icamiabas que leva Sjala, mas as guerreiras reagem fazendo uso de atributos mágicos, ferindo o guerreiro gravemente. Ainda assim, Tajarê insiste na batalha mas, no momento em que imaginava ter conseguido resgatar Sjala, ela se transforma numa garça e literalmente foge de seus braços, voando em direção da aldeia fortificada das icamiabas, a montante do grande rio. Tajarê não sabe que, apesar de todo o seu amor por ele e Niadorã, Sjala agora está decidida a cumprir sua missão original: libertar Loki e promover o Ragnarok.
A segunda parte da noveleta, chamada "Olhos de fogo", arremata o volume em grande estilo, não deixando nada a dever aos grandes momentos de ação dos grandes livros estrangeiros de fantasia. Sjala, ainda transformada em garça, chega a aldeia das icamiabas, uma cidadela fortificada construída sobre o rio. É recebida pelas guerreiras com um misto de desconfiança e fascinação. As amazonas, que dizem ser descendentes dos atlantes, dominam uma série de instrumentos de tecnologia desconhecida, trunfos contra os muitos inimigos que têm. Mas agora cobiçam o talento de se transformar em ave demonstrado por Sjala que, por isso, é aprisionada até que se recupere o bastante para ensinar-lhes o encanto. Mesmo contida pela magia da cidadela, Sjala elabora um novo plano de fuga, convocando mentalmente para ajudá-la o monstro do mar Kraken. Enquanto as icamiabas esperam que a sacerdotisa viking se recupere, Tajarê planeja o ataque definitivo à cidadela. Para isso, usa todos o expediente de magia que tem a sua disposição, arregimentando um grande número de entidades da natureza, entre elas o poderoso Mboitatá, uma gigantesca cobra que lança fogo pelos olhos. Mas nada lhe será dado sem um preço, e Tajarê sabe que pode não sobreviver a esse custo. Mas seu amor a Sjala e a Niadorã fala mais alto; com o coração apertado pelas mortes que irá causar, Tajarê aceita seu destino, seja qual for.
Causo mostra competência na construção deste enredo, que é dramático sem ser piegas e violento sem ser gratuito. Explora com competência uma mancheia de lendas e mitologias indígenas, dando ao livro um sabor brasilianista poucas vezes visto na fc&f. O excesso de ufanismo que isso poderia sugerir é compensado com referências à mitologia nórdica que, felizmente, não sobressaem. A forma como o autor aproveitou uma variedade de animais nativos da Amazônia, incorporando-lhes atributos mitológicos, é uma das melhores qualidades da obra. Não é definitiva, mas dá um bom exemplo aos demais autores brasileiros das ricas possibilidades por explorar.
Entretanto, apesar do que a apresentação gráfica do volume sugere, com a ilustração de capa assinada por Lourenço Mutarelli, ilustrações e vinhetas gráficas do próprio autor ao longo de todas as páginas internas, e a própria narrativa de fantasia heróica, A sombra dos homens não é um livro infantojuvenil. O texto não apresenta leitura fácil, com a fluidez adequada para crianças e jovens, pois Causo elaborou uma estrutura linguística criativa para modular a identidade dos diversos personagens e culturas, usando palavras incomuns e construções gramaticais exóticas em maior ou menor grau conforme a "indianização" dos mesmos. Resultou, mas esse instrumento exige uma concentração de leitura que pode dificultar a aceitação do texto por leitores pouco tolerantes. A complicada gramática criada pelo autor não é muito elegante, além de ser contraditória em si. Uma língua que não gerou a ideia de uma primeira pessoa do singular não iria permitir insigts de individualidade por parte de seus interlocutores.
Um problema adicional que pode incomodar o leitor exigente é a falta de profundidade do protagonista. Uma vez que Tajarê segue o arquétipo do herói, isso já lhe dá dificuldades para ser "redondo", pois um arquétipo que ganha profundidade deixa imediatamente de ser um arquétipo. Mas o mais visível é que, apesar de ser obviamente um indígena, Tajarê não apresenta nacionalidade específica. É um "índio genérico", que tanto poderia ser Tupi-Guarani, Tapajó, Xavante ou Caiapó. É de esperar que, aos olhos dos homens brancos, os indígenas pareçam todos iguais, mas eles não são. Elaborar um indígena brasileiro autêntico é tão difícil quanto um viking, talvez mais. Isso não implicaria em conspurcar o arquétipo do protagonista, pois os traços culturais indígenas mais visíveis estão na arquitetura das moradias, na religião, na língua, nos costumes sociais e alimentares, etc. Causo deu pouca atenção a isso, infelizmente, passando muito rápido pelas descrições que poderiam colaborar no estabelecimento dessa identidade, dando ainda ao trabalho alguma profundidade antropológica. Esse descuido não atrapalha a narrativa, mas enfraquece o valor da obra, que poderia ter sido muito enriquecida por uma pesquisa mais profunda.
Ainda assim, superada a dificuldade inicial com a gramática heterodoxa, A sombra dos homens é um trabalho que se lê com prazer e que se reveste de dimensão significativa no panorama da fc&f brasileira; um trabalho que deve ser lido e discutido por suas muitas contribuições e sugestões ao gênero.
Ainda vale ressaltar a introdução luxuosa que o jornalista, compositor e escritor Braulio Tavares cedeu ao volume, um ensaio sobre o mito do herói, o herói realista, o herói brasileiro e o aproveitamento que Roberto Causo faz disso no texto que se segue.

terça-feira, 24 de março de 2020

Universo GalAxis

O escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo formou-se na leitura, entre outras coisas, do seriado alemão de space opera Perry Rhodan e, muitas vezes, conversamos sobre as chances de uma série brasileira similar mas, ao longo dos anos 1980 e 1990, essa era uma possibilidade muito remota devido às peculiaridades do nosso mercado editorial. Com o amadurecimento tanto das técnicas gráficas quanto da fc brasileira de modo geral, veio a possibilidade de enfim trabalhar algo que, se não tem a pretensão de ser a série mais longeva da história do gênero – título que pertence ao seriado alemão – pelo menos pode trazer o conceito para o que é possível num mercado em crise contínua.
Causo logrou êxito ao propor o Universo GalAxis, que estreou com o livro Glória sombria (2013) e prosseguiu em Shiroma, matadora ciborgue (2016) e Mestre das marés (2018), todos publicados pela Devir Livraria, engrossado pelo saite Galaxis: Conflito e intriga no século 25 e agora também pela revista Universo GalAxis Anual 2019, publicação voltada à divulgação do projeto.
A revista, que é editada pelo designer Taira Yuji, tem 140 páginas e conta com a colaboração dos ilustradores Vagner Vargas, Sylvio Monteiro Deutsch e Gomes Brown, entre outros, além de textos de Nelson de Oliveira, Camila Fernandes, Carlos Rocha, Paulo Soriano, Ramiro Giroldo, Luann Grigoletto e do próprio Causo.
A edição digital de Universo GalAxis Anual 2019 pode ser baixada gratuitamente aqui, mas sua versão impressa não está descartada.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

FC de Plutão

Terceiro colocado no Prêmio Jerônimo Monteiro, concurso de contos realizado em 1991 pela Editora Record e publicado no número 14 da extinta edição brasileira da Isaac Asimov Magazine, Patrulha para o desconhecido, de Roberto de Sousa Causo, ganha sua primeira republicação no selo Ziguezague da Plutão Livros. Conta a história de soldados da FEB numa missão na Itália durante a segunda grande guerra, onde encontram muito mais do que era de se esperar. O título está disponível em formato ebook.
Outro ebook recente da editora é O ovo do tempo, primeiro título solo da prestigiada escritora brasileira Finisia Fideli, só publicado em 1994 na rara antologia Dinossauria tropicalia, da GRD. Diz o texto de divulgação: "Quando descobre uma pedra estranha na loja de cristais místicos, Mariana não faz ideia de que está prestes a sair em uma viagem para além de tudo o que já sonhou".
A Plutão Livros está especializando seu catálogo com obras raras da fc nacional. Em 2019 já republicou dois importantes livros do gênero: 3 meses no século 81, de Jeronymo Monteiro, e Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz, além da coletânea Sobre a imortalidade de Rui de Leão, com dois contos de fc de Machado de Assis, publicada em 2018. Recomendadíssimos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Mestre das marés

Neste sábado, dia 2 de fevereiro, a partir das 16 horas, o escritor Roberto de Sousa Causo e a Devir Livraria estarão recebendo leitores e amigos na Omniverse Livraria e Hobby Store para o lançamento oficial do livro O mestre das marés, romance de ficção científica no mesmo universo de Glória sombria, livro anterior do mesmo autor. À venda desde outubro de 2018,  este novo romance leva o protagonista Jonas Peregrino em uma missão de guerra num planeta distante contra uma raça alienígena poderosa que detém tecnologias desconhecidas pelo homem e podem desequilibrar o conflito ao seu favor.
Além de Causo, também estará presente ao evento o ilustrador Vagner Vargas, que assina a capa do volume e autografará o poster exclusivo com sua arte que será ofertado a todos os compradores do livro.
A Omniverse fica na rua Teodureto Souto, 624/630, Cambuci, em São Paulo.
Mais informações sobre o trabalho do autor podem ser obtidas no saite Galaxis. O livro também pode ser adquirido pela internet, aqui.

domingo, 19 de março de 2017

Mistério de Deus

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera finalmente acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance indicado ao Jabuti Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente de Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações. 
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil - 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Galaxis repaginado

Está de roupa nova o saite Galaxis: Conflito e intriga no século 25, dedicado à obra do escritor sambernardense Roberto de Sousa Causo. Trata-se de um autor que construiu sua carreira explorando o ambiente fantástico, especialmente a ficção científica, que é objeto deste saite, mais especificamente as séries de 'space opera' Shiroma e Lições do Matador, ambas com diversos textos já publicados em livros, revistas e antologias.
O trabalho de recriação visual esteve a cargo do ilustrador paulistano Vagner Vargas, conhecido pelas belas capas que produz para livros de fc&f.
Para quem gosta de apreciar imagens inspiradoras, vale a pena dar uma olhada também no saite de Vargas, que tem muito para mostrar.

sábado, 16 de abril de 2016

Para ler e ver agora

Shiroma, matadore ciborgue é o novo livro de Roberto de Sousa Causo, publicado pela Devir Livraria, uma coletânea de onze histórias dessa personagem de space opera que tem aparecido em várias antologias recentes do gênero. O livro foi enfaticamente recomendado, ao lado de vários outros livros recentes de autores nacionais e estrangeiros, na palestra que Luiz Braz cedeu ao programa Café Filosófico, produzido pelo Instituto CPFL Cultura e gravado na noite do último dia 14 de abril, em Campinas, disponível aqui.
Outro volume que merece atenção especial é Treze, nova coletânea editava pela Avec com contos de horror de Duda Falcão, autor gaúcho e editor do selo Argonautas, que investe no estilo das antigas revistas em quadrinhos do gênero, com direito até a um sinistro mestre de cerimônias. Duda também falou longamente no último dia 14 sobre este e outros trabalhos seus num hangout promovido pelo canal Estante Etérea, que pode ser visto aqui.
Embora seja um tanto difícil de obter no Brasil, quero também divulgar o novo livro do português António de Macedo, A provocadora realidade dos mundos imaginários, coletânea de ensaios publicada pela editora Épica, na qual este experiente autor de ficção fantástica discorre sobre cidades e manuscritos misteriosos que, apesar de lendários, são muito reais no imaginário humano.
Ficção científica, horror e fantasia em doses generosas para que gosta de ser surpreendido.

domingo, 11 de outubro de 2015

Papêra Uirandê Especial 9

Em novembro de 2002, saiu a última edição de Papêra Uirandê, fanzine sobre literatura especulativa editado pelo escritor Roberto de Sousa Causo, numa edição dedicada à obra de Berilo Neves (1901-1974).
O fanzine seguiu para o oblívio, chamado de "O cemitério da fcb" pelo saudoso Dr. Ruby (editor do fanzine gaúcho Notícias do Fim do Nada), junto com muitas outras publicações do fandom impactadas por uma acentuada queda no número de leitores, motivada pela chegada da internet.
Treze anos depois, o fanzine surpreende a todos e retorna à vida numa edição especial dedicada ao cyberpunk praticado por autores brasileiros, que o editor batizou de Tupinipunk.
São 34 páginas com contos de Luiz Bras, artigos e resenhas assinados por Ramiro Giroldo, Ahvid Engholm (Suécia), Miguel Carqueija, Edgard Smaniotto e do próprio editor, além de entrevistas com Luiz Bras, Timothy Zahn, Marcello Simão Branco e Cesar Silva. A capa traz uma ilustração clássica de Henrique Alvim Corrêa.
Papêra Uirandê Especial 9 pode ser baixado gratuitamente aqui mas, para os saudosistas, o editor promete também disponibilizar para venda algumas cópias em papel. Contatos com o editor pelo email rscauso@yahoo.com.br.
Vale a pena baixar e ler a edição deste que é um dos mais sofisticados fanzines de fc&f já publicados no País. O editor promete novas edições para os próximos meses.

domingo, 16 de agosto de 2015

42 Toalhas

Está disponível o primeiro episódio do podcast 42 Toalhas, produzido pelo saite The Talking Nerds, que é dedicado principalmente à mídia audiovisual. O podcast, contudo, dá o seu primeiro passo no ambiente literário, com o tema "Ficção científica no Brasil" e a presença dos escritores Enéias Tavares e Roberto de Sousa Causo.
Disse Causo sobre a experiência: "A conversa com Tavares foi ótima. Ele é o autor de A lição de anatomia do temível Dr. Louison, romance steampunk ganhador do Prêmio Fantasy, livro que eu recomendo muito, já que o achei um dos melhores romances brasileiros de fc dos últimos anos (e que também pode ser lido como horror). De minha parte, falei mais do meu romance de space opera Glória Sombria".
Rafael Silveira "O Toupeira" também participa do batepapo, que tem apresentação de Nando Moraes. O episódio pode ser ouvido online ou baixado aqui.

sábado, 2 de maio de 2015

Uma resenha ao Anuário 2013

O escritor e pesquisador de ficção especulativa Roberto de Sousa Causo publicou no saite Who's Geek uma gentil resenha ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2013, publicado no final de 2014 pela editora Devir Livraria. O artigo, que aponta como principais falhas as gralhas de revisão e os excessos estilísticos dos autores - Marcello Simão Branco e Cesar Silva -, na maior parte do tempo tece elogios à publicação.
Diz o resenhista: "Um trabalho exaustivo, minucioso, granulado, de lupa e caderneta na mão, único tanto para o fã e o pesquisador quanto para o profissional editorial ou ao escritor que desejasse se profissionalizar ou, pelo menos, atacar o mercado com algum conhecimento de causa. É claro que, Brasil sendo Brasil e a comunidade de ficção especulativa (termo que eu favoreço sobre o disseminado 'literatura fantástica') sendo o que é, aqui abaixo da Linha do Equador, o Anuário nunca alcançou o reconhecimento e a importância que merecia."
Obrigado, Causo.
O artigo completo pode ser lido aqui.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A história da ficção científica tem oficina em São Paulo

"A ficção científica no Brasil e no mundo" é a oficina que o escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo coordenará no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O trabalho apresentará, em quatro encontros, um panorama da história, do desenvolvimento e da herança da ficção científica como gênero literário.
A oficina acontecerá às quartas-feiras (26 de março, 2, 9 e 16 de abril), das 19 às 21h30.
Mas informações e inscrições no saite do Sesc, aqui.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Fantastik

Fantastik – que já foi nome de um periódico sobre cinema e tv – é agora o novo selo da Editora Navras Digital, coordenado por Ademir Pascale, dedicado exclusivamente a edição de textos de ficção fantástica.
A coleção acaba de anunciar o início de seus trabalhos com dois títulos:
Órbitas mortais é uma coletânea com três contos inéditos de ficção científica do experiente Roberto de Sousa Causo. “Mi casa, su casa” conta a história de uma piloto espacial num conflito global em uma Terra com sérios problemas ambientais. “Os róseos anos-luz” vai até Plutão narrar uma guerra disputada com uma nova e surpreendente tecnologia, enquanto “O asteróide da cobiça”, sobre uma guerra pela independência das futuras colônias espaciais do Terra. O volume tem 41 páginas e a versão para Kindle pode ser adquirida aqui.
Dullahan: Os cavaleiros sem cabeça é uma noveleta de fantasia de autoria de Marcelo Hipólito, que conta a história de um casal – uma princesa e seu guardião – em busca da paz entre dois reinos. O volume tem 43 páginas e pode ser adquirido, para Kindle, aqui.
A Navras Digital anunciou ainda O amigo oculto, de Regina Drummond, como o próximo volume da coleção, sem maiores detalhes, entretanto.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pulsando

A Devir Livraria anunciou recentemente o lançamento de dois novos títulos em sua Coleção Pulsar, dedicada à literatura de ficção científica. O primeiro deles é Os filhos da mente (Children of the mind), quarto e último volume da saga de Ender Wiggin, multipremiada space opera de Orson Scott Card, escritor norte americano que tem uma antiga relação com os brasileiros.
Os dois primeiros volumes da série, O jogo do exterminador e Orador dos mortos, foram traduzidos no Brasil nos anos 1980, pela Editora Aleph, e republicados recentemente pela Devir, que deu-lhes sequência em 2011 com Xenocídio. A série conta a história de Ender, um menino superdotado que foi levado pelo governo do mundo a exterminar toda uma civilização alienígena. Apesar de ter sido enganado, ele se sente responsável e passou boa parte de sua vida vagando pelo universo, como o orador daquele povo assassinado. Finalmente, ele chega ao planeta Lusitânia, colonizado por um grupo de brasileiros que tenta se entender com os habitantes locais, seres de fisiologia intrigante que passam a juventude como animais e a maturidade como vegetais. Isso acontece por causa de um vírus, o Descolada, que faz parte da ecologia lusitânia mas é mortal pera os seres humanos. Para impedir que o vírus escape, o governo galáctico envia ao planeta uma esquadra de extermínio, e os habitantes de Lusitânia lutam contra o tempo para descobrir uma forma de neutralizar o vírus e evitar um novo xenocídio que agora ameaça nada menos que três espécies inteligentes.
Os filhos da mente tem 352 páginas, tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e capa de Vagner Vargas.
O segundo lançamento anunciado é o romance Glória sombria, de Roberto de Sousa Causo, primeira aventura do personagem Jonas Peregrino, visto em histórias curtas publicadas em diversas antologias desde 2009. Jonas é um ex-militar que tornou-se herói depois de lutar numa feroz guerra espacial. Sua reputação e seus conhecimentos tornam-se interesse de várias organizações governamentais e privadas, que o recrutam para que realize missões especialmente difíceis. A ilustração da capa também é assinada por Vagner Vargas. A editora não revelou qual seria o enredo desta nova história do personagem, mas já anunciou que será o primeiro de uma série. O segundo volume, chamado Mestre das marés, está programado para 2014.
Mais informações sobre este e outros lançamentos da Devir podem ser obtidas no saite da editora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Matador e matadora: feitos um para o outro

O escritor Roberto de Sousa Causo tem desenvolvido, nas páginas de diversas antologias publicadas nos últimos anos, duas séries de ficção científica com personagens fixos. São elas Jonas Peregrino: As lições do matador e Shiroma: Matadora ciborgue. Peregrino teve episódios publicados nas antologias Futuro presente (2009), Assembleia estelar (2011) e Space opera (2011), enquanto que Shiroma se desenvolveu ao longo dos seis volumes da revista Portal, organizada por Nelson de Oliveira entre 2008 e 2010.
Ambos os seriados compartilham o mesmo universo e o autor já divulgou que pretende fazer as narrativas se cruzarem num grande e intrincado cenário de futurista. Isso justifica as semelhanças entre os selos desenvolvidos para as duas séries, recentemente divulgados. Um projeto sem dúvida incomum, que merece a atenção dos leitores.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fandemônio

O título provocativo, resultado da fusão das palavras fandom + pandemônio, é de uma coluna de análise do estado da arte da FC nacional publicado no saite O Bule.
A coluna, assinada pelo escritor Roberto de Sousa Causo, será mensal e vai apresentar textos densos e longos. O artigo de estreia, "Para deglutir o futuro", faz referência a discussão sobre a antropofagia do Modernismo aplicada a FCB, que vem gerando discussão há muito tempo e teve um recente ressurgimento em alguns fóruns do fandom. Vale a pena acompanhar.

domingo, 30 de outubro de 2011

As lições do matador

O escritor paulista Roberto de Sousa Causo anunciou há poucos dias que a Devir Livraria prepara-se para iniciar a publicação da série As lições do matador, com aventuras de ficção científica do personagem Jonas Peregrino, que o autor vem desenvolvendo há algum tempo.
Alguns contos com histórias desse personagem já apareceram nas antologias Futuro presente (Record, 2009) e Assembleia estelar (Devir, 2011).
O primeiro episódio vai se chamar Glória sombria: A primeira missão do matador, no qual ele enfrenta uma frota alienígena de naves robôs.
A ideia de uma série de livros de um mesmo personagem no estilo space opera não é nova e muita gente já se debruçou sobre projetos similares que nunca foram efetivados, sempre espelhados na série alemã Perry Rhodan, que teve uma boa parte de suas histórias traduzidas no Brasil. Deve ser também o caso de Jonas Peregrino, uma vez que Causo nunca fez segredo que é fã do personagem alemão.
O livro deve ser lançado dentro de algumas semanas, possivelmente ainda em 2011. Mais informações podem ser obtidas com a editora, no email marialuzia.devir@gmail.com.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Brasil na Locus - parte II

O escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo, que mantém uma coluna na revista americana Locus sobre a FC&F no Brasil, teve publicado na edição de novembro um novo artigo sobre as atividades das editoras e dos fãs brasileiros.
O artigo ocupa pouco mais de uma página e cita uma série de títulos e autores, tais como Finisia Fideli, Jaques Barcia, Gianpaollo Celli, Fabio Fernandes, Alfredo Suppia, Edgar Nolasco, Rodolfo Londero, Paulo Sousa Ramos, Ademir Pascale, Jim Anotsu, além de um amplo e detalhado comentário sobre o Anuário 2009. Thank you, friend!
Quem quiser ver e guardar o recorte, Causo dispôs imagens das duas páginas, que eu fechei num arquivo compactado que pode ser baixado gratuitamente aqui.