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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Guilty: guia de episódios

Miguel Carqueija disponibilizou em sua página no saite Recanto das Letras um guia para os onze episódios da série de japonesa Culpada (Guilty), produzida em 2010 pela Meteor Dramas, com direção de Yoshinori Kobayashi e Yasushi Ueda. É uma série live action, isto é, com atores, com Kanno Miho no papel da protagonista, além de Tamaki Hiroshi, Kichise Michiko e grande elenco.
Trata-se de uma história de suspense e mistério com um toque sobrenatural, como bem revela o subtítulo "A mulher que fez pacto com o demônio".
Diz a sinopse: "Nogami Meiko é uma jovem de pouco mais de trinta anos, há pouco saída da prisão. Quinze anos atrás ela foi considerada culpada pela morte do cunhado e do sobrinho, vítimas de uma torta envenenada que ela trouxera da confeitaria. Todavia Meiko era inocente. Agora livre ela dá início a um elaborado e perigoso jogo de vingança contra todos os homens que conspiraram, num festival de mentiras, para que ela fosse condenada e tida como uma pessoa monstruosa. Mashima Takuro, excêntrico e sorumbático detetive, começa a investigar suicídios misteriosos e descobre que todos os suicidas estão ligados ao caso Meiko. Entretanto Mashima acaba se envolvendo sentimentalmente com Meiko, provocando os ciúmes de Enomoto Mari, sua colega detetive e ex-namorada". 
O guia foi publicado em 2022 e está disponível em forma de arquivo de texto, que pode ser baixado gratuitamente aqui.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Poe 200 anos

Poe 200 anos: Contos inspirados em Edgar Allan Poe, Maurício Montenegro & Ademir Pascale, orgs. 140 páginas. São Paulo: All Print, 2010.

2009 marcou o duplo centenário do nascimento de Edgar Allan Poe, escritor americano que morreu na miséria, mas cuja obra influenciou toda a literatura moderna e é hoje muito respeitada.
Poe reuniu em si um vórtice criativo do qual emergiram as bases de toda a ficção fantástica, qual seja, a ficção científica, a fantasia e o terror, além do romance de mistério e investigação. Como Poe tem um grande contingente de fãs, isso facilitou o trabalho de Maurício Montenegro e Ademir Pascale em reunir vinte e dois textos de autores de todo o Brasil nesta antologia comemorativa que se pretendia fosse publicada em 2009, mas acabou saindo no ano seguinte.
O conhecido escritor carioca Miguel Carqueija, autor de Farei meu destino (Giz, 2008), assina o prefácio, em que apresenta a vida e a obra de Poe. Ele também participa com um conto, "O quarto caso de Dupim", um texto simples, elegante e divertido no qual o detetive criado por Poe ajuda a polícia francesa a encontrar um empresário americano desaparecido em Paris. Um ótimo contraponto ao clima predominantemente funesto da antologia.
O volume também traz trabalhos dos dois organizadores e de Alex Lopes, Alícia Azevedo, André Catarinacho Boschi, Deborah O'Lins de Barros, Dimitry Usiel, Duda Falcão, Frank Bacurau, Georgette Silen, Gil Piva, Jocir Prandi, Kathia Brienza, Luicana Fátima, M. D. Amado, Mariana Albuquerque, Márson Alquati, O. A. Secatto, Ronaldo Luiz Souza, Roseli Princhatto Arruda Nuzzi e Thiago Félix.
Além do texto de Carqueija, também se destacam os contos comentados a seguir, nos quais os autores encontraram uma forma pessoal de homenagear Poe.
"Relíquia", de Duda Falcão, homenageia o conto "O gato preto", e narra a história de um menino curioso que visita uma espécie de show de aberrações literárias. Metalinguagem realizada com talento e sensibilidade poética, num estilo que lembra mais o estilo de Ray Bradbury – outro grande mestre da ficção fantástica.
"Um homem afortunado", de Kathia Brienza, embarca numa homenagem a "O barril de Amontillado", contando sobre um professor oportunista que progride na profissão às custas de trapaças. Ao ganhar um concurso de monografias acadêmicas roubando o trabalho de seu rival, sente que chegou ao ápice de sua carreira. Mas nem tudo vai ser sempre como ele deseja. Um ótimo trabalho, saboroso e bem realizado.
Mariana Albuquerque é um nome conhecido do fandom, participou de vários fanzines e antologias, e publicou os livros Coração de demônio (Writers)  e O pássaro e o rochedo (Nativa). Ela assina "A máscara de Vênus", um texto curto que homenageia "A máscara da morte rubra", sendo a única ficção científica em todo o volume. Conta o que acontece ao que resta da civilização, refugiada na Antártida depois do fim do mundo. O conto que tem a melhor primeira frase da antologia: "No equador, os oceanos ferviam". Muito inspirador.
"Inferno no circo" é um conto simples e efetivo, dentro do que se pode esperar de uma homenagem a Poe, com a bem mais que emocionante estreia no circo do orangotango de "Os crimes da Rua Morgue". O autor, Jocir Prandi, é gaúcho de Vacaria e participou de várias antologias. Seu primeiro livro é Inspiração à beira do abismo (Evangraf).
"Louco, eu?", de Ademir Pascale, baseia-se no conto "O coração delator" e conta a história de um psicopata que acredita ver demônios e falar com animais. Apesar de previsível, é um trabalho bem redigido e tem um momento brilhante, quando o protagonista dialoga com fantasmas dos autores dos livros que lê.
Fecha a antologia o texto "Memórias póstumas de Edgar Allan Poe", de Roseli Princhatto Arruda Nuzzi, que não é exatamente um conto, mas uma biografia romanceada na qual um Poe desencarnado narra uma série de fatos de sua vida que podem ou não ser verdade, pois a credibilidade foi comprometida pela mistura com ficção.
Os demais trabalhos seguem uma narrativa algo recorrente, centrada na primeira pessoa e imitando, às vezes bem, o estilo de Poe, mas que resulta em histórias previsíveis e de pouco brilho próprio.
O livro é bem editado, com erros mínimos de revisão, e são homenageados vários outros contos do "Poeta Louco". É justamente esse diálogo com a obra maiúscula de Poe que "contamina" a antologia dando-lhe contornos nobres e clássicos.
Para quem conhece o trabalho de Edgar Allan Poe, a leitura de Poe 200 anos é divertida. Contudo, quem não conhece deve ler os textos originais do autor antes de embarcar nesta verdadeira tietagem literária pois, de outro modo, a maior parte da graça será perdida.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Lua negra, Laura Elias

Lua negra, Laura Elias. 190 páginas. Capa: Altair Sampaio. São Paulo: Mythos, 2010.

Lua negra é o segundo volume da série Red kings, sequência de Crepúsculo vermelho, publicado em 2009 pela mesma editora. Mas a leitura deste volume prescinde daquele e o leitor não terá dificuldade em acompanhar a história sem ter lido o primeiro volume, como foi o meu caso.
A protagonista da série é Megan Grey, jovem de dezessete anos de idade que mantém um relacionamento emocionalmente intenso com Bill Stone, líder da banda de sucesso The Red Kings of Dark Paradise e, não por acaso, também um descendente da linhagem dos rovdyr, raça inumana de caçadores de vampiros que sustentam uma guerra secreta com poderosas e tradicionais famílias de sugadores. Envolvida na disputa, Megan foi mortalmente ferida no primeiro romance da série e sobreviveu graças ao sangue de Bill que lhe foi administrado.
A história de Lua negra inicia durante um inverno especialmente severo, que tornou branca a paisagem da pequena cidade de Red Leaves, onde Megan vive com sua família, enquanto Bill está fora em excursão com sua banda. Mas o rigor desse inverno não é natural e sim decorrente do despertar de forças antigas e poderosas. Um exército feroz de monstros do Ártico está marchando para o sul, disposto a aniquilar tudo o que encontrar pelo caminho, e a onda de baixas temperaturas e tempestades violentíssimas é apenas seu cartão de visitas.
O risco de aniquilamento une vampiros e rovdyrs contra o inimigo comum, numa batalha sangrenta nos campos nevados de Red Leaves. Segredos de família, intrigas e fantasmas do passado vão tornar a relação de Megan e Bill uma montanha russa de acontecimentos trágicos, com muita ação e violência. Megan ainda enfrentará o despertar de estranhos poderes herdados do sangue rovdyr de Bill, que ela não entende e nem controla.
Laura Elias tem uma narrativa ágil, fluida e agradável, apesar do tema mórbido. A linha principal da história acompanha o ponto de vista da Megan mas salta, eventualmente, para plots paralelos. Há uma grande quantidade de personagens coadjuvantes orbitando a relação de Megan e Bill, que os mantém quase sempre afastados e levam a impetuosa Megan a meter-se em enrascadas mortais para ficar perto de seu amado.
Nem todos os mistérios apresentados na trama são explicados, uma vez que Lua negra não é uma conclusão e a história deve ter pelo menos mais um volume, provisoriamente intitulado Luz na noite, sem data de publicação definida*.
Laura Elias é fluminense de Barra Mansa, radicada em Santo André, no ABC paulista. Apesar de pouco conhecida, é uma autora experiente, com mais de 35 livros publicados sob diversos psedônimos, tais como Loreley Mackenzie, Sophie H. Jones, Suzy Stone, Laura Brightfield. A maior parte de sua obra é formada por romances populares realistas, mas a autora também navega no fantástico – como nos livros da série Red kings – e no infanto-juvenil, como no livro Tristin Mckey e o mistério do dragão dourado, assinado como Elizabeth Carrol, publicado em 2007 também pela Mythos. Sua produtividade autoral é invejável, e ela afirma com tranquilidade que consegue produzir um romance do porte de Lua negra em poucas semanas, pois esta é uma exigência comum no mercado em que ela atua.
A autora revelou, numa de suas muitas palestras e entrevistas, que o título e os nomes dos personagens de Crepúsculo vermelho foram definidos pelo editor, originalmente eram outros. Isso porque a Mythos não sabia se um romance de horror iria emplacar entre o seu público e Laura nunca havia trabalhado no gênero, embora sempre tivesse gostado dele. Quando Crepúsculo vermelho finalmente foi distribuído, em 2009, tornou-se o seu livro mais vendido, o que lhe deu maior liberdade em Lua negra.
Os livros da coleção Mythos Books seguem o padrão dos romances de banca tradicionais, como os das populares coleções Harlequim, Bianca e Sabrina, com capas envernizadas em papel mole e miolo em papel jornal impresso em rotativa. A produção é modesta, mas caprichada, com boa apresentação e revisão, e um preço ao consumidor bastante acessível.
Laura Elias foi pioneira nos romances fantásticos brasileiros dirigidos às mulheres e distribuídos em banca. Antes dela, tivemos apenas livros de pequeno porte dirigidos aos leitores masculinos, como os da Coleção Mini Bolso, da Editora Opera Graphica, da Coleção Império, publicada pela Editora MC, e da série Pocket Suspense, da Editora Fittipaldi. Contudo, o sucesso deste trabalho da Laura Elias não se confirmou como tendência de mercado, devido aos inúmeros problemas que assolaram a indústria editorial nos anos seguintes, bem como às mudanças radicais do modelo do negócio, se é que ainda podemos chamá-lo assim. Tanto é que a autora desapareceu desse ambiente e há anos não apresenta novos trabalhos. O que é uma grande pena, em todos os sentidos.

* O romance foi publicado em 2013 pela Editora Literata sob o título de A rainha vermelha.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Uma princesa de Marte, Edgar Rice Burroughs

Uma princesa de Marte (A princess of Mars), Edgar Rice Burroughs. 270 páginas. Tradução de Ricardo Giassetti. São Paulo: Aleph, 2010.

O mercado editorial brasileiro tem um déficit gigantesco em relação a fc&f de todas as épocas. Os motivos disso são inúmeros e passam pela falta de investimento, falta de educação, falta de critérios, falta de competência, entre outros. Ainda hoje, muitos editores continuam a pautar os títulos que pretendem publicar a partir de apelos acessórios, como por exemplo se o dito cujo vai ganhar alguma adaptação no cinema ou se tornar uma série de tv, como se os leitores só se interessassem por livros com esses vínculos, o que não é verdade.
Isso fica muito evidente quando se fala em Edgard Rice Burroughs (1875-1950), escritor americano que construiu um grande império de entretenimento graças a uma resma de séries de aventuras que escreveu na primeira metade do século 20. No Brasil, a única coisa que vem a mente quando se fala no autor é a série Tarzan dos macacos, personagem de grande sucesso que teve boa atenção dos editores por algum tempo – hoje está imerecidamente esquecido, uma vez que já não ocupa mais na mídia o espaço de outros tempos.
Mas, Burrougs não teve em sua carreira unicamente Tarzan. Ele foi um autor produtivo, que escreveu outros seriados interessantes e bem sucedidos, como Carson de Vênus, Pellucidar e John Carter de Marte que, inacreditavelmente, continuam inéditos em língua portuguesa. Ou estavam.
Pelo menos um desses personagens chegou enfim ao Brasil, traduzido pela editora Aleph. Uma princesa de Marte é o primeiro de uma série de onze livros da franquia Barsoom, publicado primeiramente em 1912 na forma de um seriado na revista All-Story Magazine. Trata-se de uma aventura que é, de muitas formas, o protótipo da pulp fiction que tanto sucesso fez em seu tempo. Trata-se de uma ficção científica com elementos de fantasia, chamada pelos teóricos do gênero como Ficção Planetária, pois toda a história gira em torno da descrição de um planeta alienígena, no caso Marte que, desde as declarações do astrônomo Percival Lowel, em 1895, sobre a possível habitabilidade do planeta vermelho, tornou-se alvo de interesse popular.
O romance foi influente em sua época e muitos escritores de ficção científica já declararam ter sido inspirados por ele. E não é por menos. A história é fabulosa, repleta de sense of wonder e até hoje impressiona.
Uma princesa de Marte conta o que acontece com John Carter, veterano da guerra civil americana que, depois de resgatar o corpo de um companheiro atacado por índios selvagens, abriga-se em uma caverna que é tabu entre os indígenas. Ali ele é alcançado por um gás que o adormece profundamente. Quando desperta, não está mais na caverna, mas num lugar absolutamente estranho, nu e incapaz de andar, próximo a uma estrutura repleta de ovos que ele logo vai descobrir, de uma forma bastante desagradável, ser uma incubadora dos tharks, raça de  grandes seres verdes de quatro braços. Escravizado pelos tharks, Carter aprende sua língua e os impressiona com sua coragem e força desproporcional, uma vez que a gravidade do lugar é muito menor que a da Terra. Adquire o estatus de guerreiro depois de matar um deles e, apesar de ser um prisioneiro, ganha alguma autonomia dentro da tribo, onde faz amigos como o guerreiro Tars Tarkas e a fêmea thark Zola, assim como muitos inimigos formidáveis.
Quando os tharks atacam uma frota de grandes carros a vela, Carter descobre que em Barsoom, a forma como os tharks chamam seu planeta, é habitado também por uma raça humana. Eles capturam Dejah Toris, princesa de Helium, um reino fortificado que está envolvido numa guerra terrível contra o reino de Zodanga.
Os habitantes de Barsoon, que Carter vai descobrir ser o planeta Marte, vivem em guerra constante, atacando-se mutuamente. A biosfera de Barsoon sofre um processo acentuado de decadência, os oceanos e rios secaram e a atmosfera só é mantida graças a uma usina de processamento de oxigênio que existe há tanto tempo que sua tecnologia não é mais conhecida pelos barsoonianos.
Além de homens e tharks, Barsoon é habitado por uma série de animais interessantíssimos, alguns muito perigosos, outros assustadores, como o pequeno Woola, uma espécie de cão de múltiplas pernas que se afeiçoa a Carter, o mais fiel amigo que ele faz em Barsoon.
De combate em combate, Carter conquista o coração da bela Dejah Thoris, ajuda Helium a derrotar seus inimigos e até salva o planeta da destruição iminente, mas acaba voltando à caverna na Terra, muitos anos depois de sua partida – o tempo em Barsoon progride mais lentamente que aqui - onde passa o restante de seus dias.
A aventura é relatada na forma de um diário, escrito pelo próprio John Carter nos anos em que passou na Terra e deixado como herança a um sobrinho que o revela ao leitor conforme o recebeu, após o desaparecimento do tio. O romance não especifica se Carter retornou à Barsoon, mas uma vez que este é apenas o primeiro livro de uma série, é bastante provável que a resposta seja positiva.
Contudo, não há nenhuma garantia que os demais livros da série Barsoon – ou das outras séries de Burroughs – sejam publicados no Brasil*. Ficamos um pouco menos desinformados do que antes, porém com apenas este único exemplo da divertida ficção científica deste precursor importante do gênero.
E não dá para deixar de lembrar que Uma princesa de Marte só chegou ao Brasil porque, em 2009, os estúdios Disney anunciaram a produção um filme com a história – lançado em 2012 –, além do cineasta James Cameron ter afirmado que esse romance foi parte da inspiração para fazer o seu blockbuster Avatar. Ou seja, quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais.

* A editora brasileira descontinuou a série em 2012 depois de publicar mais dois títulos: Os deuses de Marte (The gods of Mars), e O comandante de Marte (The warlords of Mars).

sábado, 20 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Guerra justa, Carlos Orsi

Guerra justa
, Carlos Orsi. 150 páginas. São Paulo: Draco, 2010.

Um dia, no futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das religiões ocidentais, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas a religiões conhecidas. No vácuo desse cataclisma, emerge um novo profeta – o Pontífice – que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica em órbita da Terra, numa estação espacial.
Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder no mundo graças a capacidade do Pontífice para prever o futuro. Sua igreja torna-se, rapidamente, um governo mundial todo poderoso, um estado policial teocrata que literalmente controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.
Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go que, com essa informação, adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece um outro pólo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.
Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes a qual sua irmã fazia parte. Ela é levada à Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu lider espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.
Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas suas coletâneas Medo, mistério e morte (Didática Paulista, 1996), Tempos de fúria (Novo Século, 2006), Campo total (Draco, 2013) e Mistérios do mal (Draco, 2016), além de participações em diversas antologias.
Guerra justa foi seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas 150 páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto. Mas esse tratamento gráfico deu ao romance uma leveza visual incomum e muito personalizada, usando inclusive o interessante recurso de páginas em negro, com texto vazado em branco.
Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário brasileiro de literatura fantástica - 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.
Apesar de ter apontado suas baterias às religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento, quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.
Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar da premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, estas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaismo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, a destruição de seus templos mais sagrados.
O autor demostra habilidade ao emular o estilo de autores como Willian Gibson e Bruce Sterling – os mais populares fundadores do movimento cyberpunk – como, por exemplo, a forma episódica, com uma porção de personagens cujas histórias vinculam-se frouxamente, e uma espécie de globalização narrativa que lança a trama para os quatro cantos do mundo e até para fora dele, num mosaico expressionista em que a sensação vale mais que o enredo. A única personagem mais elaborada é Rafaela, que ancora levemente a trama mas não chega a causar identificação com o leitor. Seu destino, ainda que importante para o desfecho da história, é de somenos relevância damática.
Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir republicou em 2006 O jogo do exterminador, seguido de O orador dos mortos em 2007 e, finalmente em 2010, a terceira parte da saga, até então inédita em língua portuguesa, Xenocídio.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu O jogo do exterminador sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O orador dos mortos conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica já publicados no Brasil. O fato de não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, abrindo a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais seis romances, uma coletânea e diversos romances e novelas spinoffs nas séries Shadow saga, Formic wars e Fleet school –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, bem como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Sagas 1, 2 e 3

Sagas volume 1: Espada e magia (144 páginas), Sagas volume 2: Estranho oeste (144 páginas); Sagas volume 3: Martelo das bruxas (128 páginas), Cesar Alcázar & Duda Falcão, orgs. Porto Alegre: Argonautas, 2010 e 2011.

A Editora Argonautas, de Porto Alegre, como muitas outras editoras novas, é fruto da iniciativa de fãs de literatura de ficção científica e fantasia, no caso os escritores Duda Falcão e Cesar Alcázar. Entusiastas da clássica coleção portuguesa de fc&f Argonauta, da Editora Livros do Brasil, decidiram não apenas dar o mesmo nome à editora, mas estrear com uma publicação que segue a mesma tradição, a coleção Sagas, formada por livros de bolso com antologias temáticas. Trata-se de uma pequena joia em meio à barafunda que se tornou o espaço editorial da fc&f no Brasil, coalhado por antologias temáticas montadas a toque de caixa.
A primeira edição, dedicada à fantasia, foi publicada ainda em 2010, mas as edições 2 e 3, faroeste e bruxaria, respectivamente, saíram em 2011. A edição é cuidadosa e as capas, ilustradas por Nathan Milliner e Fred Macêdo, remetem aos quadrinhos e às revistas pulps.
Sagas volume 1: Espada & magia, tem 144 páginas, prefácio do escritor Roberto de Sousa Causo, e traz textos de autoria de Georgette Silen, Rober Pinheiro e dos próprios editores, explorando enredos na linha das histórias de Conan, O Bárbaro, e de Elric de Melniboné*.
O volume é despretensioso em sua proposta e equilibrado na organização. Os contos são simples, mas correspondem bem à proposta da edição, que é homenagear a Weird Fiction. O melhor texto do conjunto é “A cidadela de Ellan”, de Georgette Silen; de fato é o melhor texto da autora que já tive a oportunidade de ler, com elementos feministas e um enredo que escapa das convenções do gênero. Conta a história de uma guerreira psicologicamente problemática, que precisa recuperar um artefato que está sob a guarda de um velho conhecido, líder de um grupo de salteadores no momento escondidos num castelo. Velhos sentimentos vão emergir em meio à missão que tem tudo para resultar em tragédia.
Sagas Volume 2: Estranho oeste tem prefácio de Thomas Albornoz e apresenta, em suas 144 páginas, cinco histórias macabras de Alícia Azevedo, Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira, todas ambientadas no Velho Oeste norte-americano. Trata-se de um tema muito rico, pois no mesmo período podem ser contadas histórias em variados cenários e personagens: com nativos, dramas familiares em fazendas nas planícies, militaria da Guerra Civil, a Guerra da Independência, ou nas guerras indígenas, histórias com os pioneiros, sobre freakshows, sobre a corrida do ouro na Califórnia e no Alasca, sobre as caravanas, sobre os cowboys que atravessavam o país conduzindo seus rebanhos, sobre a construção das linhas de trens, caçadas de baleias, e até dramas urbanos vitorianos nas grandes metrópoles do leste, e muito mais. Mas faltou intimidade dos autores com o gênero. Todos acabaram contando histórias de pistoleiros metidos em confusões em saloons.
O melhor conto do volume é “Aproveite o dia”, de Christian David, com um protagonista patife e espirituoso que traz um colorido diferenciado à monocromia dos demais contos. Ele é um jogador que se mete numa situação da qual não terá chance de sair vivo, a não ser com muita sagacidade e um bocado de sorte.
A edição tem seus méritos, pois o tema é dos mais espinhosos para os autores brasileiros. Tanto que há poucos livros brasileiros nesse gênero, como os romances Areia nos dentes, de Antônio Xerxeneski (2008), e O peregrino, de Tibor Moricz (2011). Uma alternativa bastante razoável seria trocar o cenário do faroeste pelo cangaço, ou por bandeirantes, ou por jagunços modernos. As histórias poderiam ser exatamente as mesmas, mas ganhariam um colorido mais autêntico e imprevisível.
Finalmente, Sagas volume 3: Martelo das bruxas é o melhor da série, com 128 páginas e contos de Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com prefácio de Simone O. Marques.
“Cada história tem...”, de Christopher Kastensmidt, escritor norte-americano que vive no Brasil e aprecia trabalhar com os temas nativos, narra o duelo entre uma feiticeira e um caçador de bruxas no Brasil colonial, ambos acreditando estarem certos em seus pontos de vista. É o melhor conto publicado na série e, apesar do clima dramático, foi inevitável lembrar da épica luta entre Merlin e Madame Min no clássico desenho animado A espada era a lei (1963), de Walt Disney.
Ana Cristina Rodrigues também se apresenta com um bom trabalho. A história “O quão forte pode um gigante gritar” é ambientada na Irlanda medieval, onde o último sobrevivente de uma raça mágica envolve-se numa situação de risco para salvar uma jovem que está sendo torturada. O maior mérito do conto de Ana Cristina é a história de fundo, que demonstra riqueza suficiente para sustentar um texto bem mais longo. “Encruzilhada”, de Douglas MCT, apesar de não ser tão empolgante quanto os contos anteriores, destaca-se pelo estilo narrativo diferenciado. Conta a história de duas irmãs, meninas ainda, que precisam cumprir um ritual mágico de sacrifício mas, para isso, terão de enfrentar adversários poderosos.
A publicação é simpática e bem feita, contudo, depois do início alvissareiro, lançou apenas mais dois volumes: Sagas volume 4: Odisseia espacial (2013) e Sagas volume 5: Revolução (2014) que, infelizmente, encerraram a coleção. Uma revista similar, a Multiverso Pulp, voltaria em 2020, organizada pelo próprio Duda Falcão, agora pela Editora Avec. Sinal que o cancelamento de Sagas foi, decididamente, um tanto prematuro.
 
*Criações respectivas de Robert E. Howard e Michael Moorcock.

sábado, 15 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: O livro do cemitério, Neil Gaiman

O livro do cemitério (The graveyard book), Neil Gaiman. 336 páginas. Ilustrações de Dave McKean. Tradução de Ryta Vinagre. Coleção Jovens Leitores. Rio de Janeiro: Rocco,  2010.

O autor britânico Neil Gaiman, desde que voltou sua carreira prioritariamente para a literatura – antes ele se dedicava mais aos quadrinhos – vem arrebatando os mais cobiçados prêmios da FC&F internacional, como os Hugo, Nebula e Locus, às vezes com contos, outras com novelas e romances. Em 2010, a editora Rocco publicou, em sua coleção Jovens Leitores, O livro do cemitério que, em 2009, recebeu o prêmio Hugo de Melhor Romance. A história apareceu primeiro como um conto na antologia M is for magic (2008) e recebeu o prêmio Locus de melhor noveleta.
Conta a delicada história de Ninguém Owens, um bebê que, numa noite trágica, escapa de seu berço e gatinha pela rua até ter a atenção atraída por um cemitério antigo. Enquanto o bebê faz sua viagem de exploração, Jack, um assassino implacável e perfeccionista a serviço de uma organização muito misteriosa, chacina seus pais e irmãos. Quando chega ao berço para completar o serviço, o encontra vazio. Furioso, parte para a rua na intenção completar a tarefa.
O espírito recém desencarnado da mãe assassinada, nos poucos momentos de que dispõe, implora aos fantasmas do cemitério que protejam o seu bebê. Ele é escondido e o assassino vai embora frustrado, mas resoluto em terminar o trabalho no futuro.
O pequeno é adotado pelo falecido casal Owen que, como não sabe seu nome, o chama de Ninguém. Silas, um estranho morador da capela do cemitério, que não é fantasma mas também não está exatamente vivo, aceita proteger o menino e é ele quem proporciona, a partir de então, alimento, roupas e outras necessidades básicas da criança. Sua educação, contudo, fica ao cargo da população desencarnada que ali habita, gente de diversas épocas, algumas mortas há centenas de anos. Nin, como é carinhosamente chamado,  vive escondido no cemitério, sem contato com os vivos, pois os fantasmas temem que, caso ele saia, seja atacado pelo assassino. Contra todos os prognósticos, Nin cresce e se desenvolve nas artes fantasmagóricas, adquirindo poderes que geralmente só os fantasmas têm.
Muitos outros personagens intrigantes aparecem na história, entre eles a Sra. Lupescu, membro dos Sabujos de Deus, por quem a princípio Nin não nutre muita simpatia, mas que se revela sua mais dedicada protetora.
As aventuras de Nin dentro do cemitério têm um aspecto épico grandioso. É um mundo à parte, com regras especiais e uma beleza que só mesmo um fantasma pode apreciar. Uma das tumbas, por exemplo, guarda a entrada do mundo dos ghouls, os devoradores de cadáveres, assim como uma estranha e assustadora cripta encravada nas profundezas do cemitério, onde habita uma entidade tão antiga quanto poderosa.
Certo dia, Nin conhece Scalett, uma menina viva que vai brincar no cemitério. Ela não fica por muito tempo, mas Nin desenvolve por ela uma afeição especial e acaba iniciando-a nos mistérios de sua estranha vida. Nem ele, nem ela e nem mesmo os leitores podem imaginar a importância que a garota terá no desfecho desta história.
Os fantasmas tentam, mas não conseguem refrear a curiosidade e a iniciativa do menino quando ele começa a explorar o exterior do cemitério. Sua aparência desgrenhada e roupas estranhas chamam a atenção e logo Jack está de volta para concluir o serviço inacabado.
O Livro do Cemitério tem muitos atributos para agradar o leitor, além da riqueza de seus personagens, todos memoráveis – incluindo Jack – e do enredo movimentado e surpreendente. O maravilhamento emana mais intensamente das coisas que não chegam a ser mostradas e explicadas, como a imensa cidade fortificada dos ghouls, as motivações da estranha corporação que quer Nin morto, a natureza incógnita dos protetores de Nin, além das histórias fascinantes de cada um dos fantasmas daquele cemitério.
Gaiman constrói um ambiente britânico de intenso clima gótico e, espertamente, adota o mesmo artifício que Stephen King e Peter Straub usaram em O talismã, encerrando a história quando o menino atinge a idade em que não será mais um menino, deixando ao leitor a perspectiva de imaginar como seria uma possível sequência. Não sei se Gaiman resistirá em contá-la ele mesmo; King e Straub não conseguiram evitá-lo.
As ilustrações são uma atração à parte. Dave McKean é parceiro histórico de Gaiman desde seu primeiro trabalho americano, a minissérie em quadrinhos Orquídea Negra, depois como capista de todas as edições de Sandman. Seu estilo está intimamente identificado com a arte de Gaiman, de forma que não poderia ter sido uma escolha melhor. McKean trabalhou aqui apenas com nanquim negro, num desenho repleto de contrastes dramáticos que lembram o cinema expressionista alemão.  A presença das ilustrações reforça o objetivo juvenil da edição, porém a história de infância de Nin Owen no cemitério guarda segredos suficientes para causar interesse nos adultos também. E o estilo arrojado de McKean contribui para dar-lhe os contornos visuais adequados.
Gaiman tem tantas qualidades como contador de histórias que não é de estranhar, portanto, que o livro tenha sido premiado com o Hugo, numa votação popular de fãs de ficção científica. Além do Hugo, O livro do cemitério recebeu a Newbery Medal, a Carnegie Medal e foi indicado ao prêmio Locus de Melhor Novela Juvenil. Uma leitura extremamente agradável, desde que o leitor não se incomode com alguma morbidez.

sábado, 18 de março de 2023

Resenha do Almanaque: Obra completa, Murilo Rubião

Obra completa, Murilo Rubião. 232 páginas. Coleção Companhia de Bolso. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Sempre que alguém decide relacionar os mais significativos fantasistas da literatura brasileira, o nome do mineiro Murilo Rubião (1916-1991) é um dos primeiros a serem lembrados. E é surpreendente que seja assim, considerando que é um autor pouco lido, cuja obra é reduzida, limitando-se a apenas trinta e três contos publicados entre 1947 e 1991.
O fato de Rubião ser tão lembrado talvez seja efeito direto da força de seus textos, emotivos, perturbadores e extremamente bem escritos. Era um perfeccionista que nunca dava um texto por terminado. A cada republicação – suas coletâneas sempre traziam republicações ao lado de inéditos – ele os revisava como um joalheiro caprichoso.
Seu primeiro livro foi O ex-mágico, publicado em 1947. Depois vieram A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias e O convidado (ambos de 1974). Antes de sua morte, ainda publicou A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento, em 1991. Seus livros foram traduzidos para o inglês, alemão, espanhol, tcheco e publicados em diversos países.
O fantástico de Rubião é muito pessoal. O absurdo surge de forma natural, sendo aceito placidamente pelos personagens, como nas histórias de Franz Kafka (1833-1924). Não se trata exatamente de uma ficção de gênero e é de difícil classificação. Tal como os textos de outro importante fantasista brasileiro contemporâneo, o goiano José J. Veiga (1915-1999), Rubião não segue protocolos específicos. Há um amálgama de ficção científica, fantasia, horror e realismo mágico, num naturalismo muitas vezes desconcertante e, quase sempre, exasperante.
Rubião afirmava ter sido influenciado pela leitura de Machado de Assis e da Bíblia Sagrada. Tanto que, cada um de seus contos traz uma epígrafe bíblica que dialoga intimamente com o contexto, as vezes sendo eles mesmos a chave do entendimento da história ou da ampliação desse entendimento para outras interpretações.
Obra completa, publicado na coleção de bolso da Companhia das Letras, apresenta num único volume todos os trinta e três contos que Rubião publicou em vida (ele deixou alguns trabalhos inéditos), pintando o mais amplo panorama da obra desse escritor.
Destaco aqui alguns daqueles que mais me impressionaram, embora nenhum possa ser preterido. Cada conto de Rubião encerra um universo completo a ser explorado e supera qualquer escala de avaliação que eu possa um dia ter sonhado estabelecer.
"O pirotécnico Zacarias" abre a coletânea  e é provavelmente o seu conto mais conhecido. Um homem morre atropelado na beira de uma estrada, mas ressuscita e segue sua existência, mantendo as mesmas atividades de quando ainda vivia.
Em "O ex- mágico da Taberna Minhota" um homem ressente-se da sua habilidade natural de realizar magia verdadeira e vive infeliz por não conseguir ter uma vida normal. Busca desesperadamente pelo anonimato, sempre fracassando, uma vez que não tem controle sobre seus poderes. Um dia, porém, a magia acaba.
"Bárbara" narra o martírio de um homem que faz de tudo para satisfazer os pedidos absurdos de sua esposa. E quanto mais ele a adula, mais ela engorda.
Em "A cidade", um caixeiro viajante chega de trem a uma cidade estranha e, quando pede uma informação banal, é preso, porque a polícia estava na captura de um homem perigoso cuja única identificação era que ele fazia perguntas. Desesperado, o homem vê que fica cada vez mais difícil explicar sua inocência, pois cada pergunta reforça sua culpa.
"Os dragões" conta a história de um homem que adota dois filhotes de dragão e os cria como se fosse seus filhos, passando por muitos problemas na educação dos mesmos.
"Teleco, o Coelhinho" é um dos textos mais bizarros da coletânea. Um homem recolhe em sua casa um estranho ser metamorfo, que muda de aparência conforme seu estado de espírito. A princípio a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
"O edifício" conta como é executado um ousado projeto arquitetônico: um edifício com centenas de andares. Depois de séculos de trabalho, quando o prédio já atinge 900 andares, o projeto entra em colapso financeiro, desestabilizando a vida de toda a sociedade.
"A fila" é o melhor texto do livro. Um homem do interior vai à cidade grande levando para um industrial importante uma mensagem que só pode ser entregue pessoalmente. Mas a fila de atendimento nunca acaba e sua vida vira um verdadeiro inferno.
Em "O bloqueio" um homem recentemente separado da esposa dominadora, esconde-se no apartamento de um prédio que parece estar sendo demolido.
"A diáspora" conta a história de um grupo de trabalhadores que chega a uma pequena cidade onde se pretende construir uma ponte, mas a população local se recusa a permitir que a obra seja executada.
"Epidólia" tem um componente lovecraftiano perturbador. Conta a história de um homem que persegue obsessivamente a mulher que o abandonou. A busca o leva a um lugar cuja geografia tem um comportamento bizarro, onde ele obtém estranhas revelações sobre a vida da moça.
"O convidado" é um texto que o autor afirma ter passado vinte anos escrevendo. Um homem vai a uma recepção misteriosa, feita em homenagem a um convidado desconhecido. Aborrecido com as pessoas dali, ele tenta ir embora, mas simplesmente não consegue afastar-se do lugar.
Um conceito similar envolve "Os comensais", texto que fecha a coletânea. Um homem faz suas refeições num restaurante em que todos os demais frequentadores estão imóveis. Dia após dia, ele percebe que os rostos mudam, embora ele nunca veja ninguém entrando ou saindo do lugar. Garçons trocam os pratos continuamente, mas apenas ele come o que é servido. Perturbado, ele tenta racionalizar o que acontece, mas quanto mais se envolve na questão, menos sentido encontra.
Como se pode perceber, a obra de Murilo Rubião é vultosa em significados, um amplo cabedal de ideias ainda a ser estudado. Um monumento praticamente desconhecido tanto do grande público quanto do fandom brasileiro, apesar do nome do autor estar na ponta da língua dos comentaristas.
Rubião é, certamente, um dos melhores modelos para uma ficção fantástica brasileira, que ainda se debate em busca de sua fisionomia.

domingo, 12 de março de 2023

Resenha do Almanaque: Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado

Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado. 296 páginas. Coleção Pulsar. São Paulo: Devir Livraria, 2010.

Ivanir Calado, escritor carioca de Nova Friburgo, é dono de um trabalho significativo dentro dos gêneros fantásticos. Estreou em 1985, com os romances infantojuvenis O grilo do grilo e A salamandra de jade.
Em 1990 publicou A mãe do sonho, jornada de horror ao estilo de Stephen King, com mitologia indígena em doses generosas. Em 1992, publicou a novela juvenil O lago da memória e o romance histórico A imperatriz do fim do mundo que, embora seja pouco lembrado dentro do fandom, teve boa acolhida no mainstream e serviu de referência para a minissérie global O quinto dos infernos.
Depois de um período de dez anos sem um novo livro, Calado publicou em 2002 o romance de fantasia A caverna dos titãs e mais cinco anos depois, O mundo das sombras: O nascimento do vampiro. Os longos intervalos entre os livros foram ocupados com a publicação muitos contos publicados em diversas antologias.
Anjos, mutantes e dragões é resultado da reunião desses contos em um único volume. O livro, publicado pela Devir Livraria em sua Coleção Pulsar, foi dividido pelo organizador Roberto de Sousa Causo, em cinco capítulos distintos, cada um voltado para um momento específico do trabalho do autor.
O primeiro comporta um único conto, o perturbador "Paradoxo de Narciso", publicado originalmente em 1991 no extinto periódico Isaac Asimov Magazine. O texto narra um encontro muito íntimo de um viajante do tempo consigo mesmo.
A segunda parte apresenta três noveletas, que foram publicadas em 1994 na coleção Fatos e Relatos, da Ediouro. Os contos foram escritos por encomenda a partir de sugestões da organizadora da coleção, Helena Rodarte. "O refém" parte de uma premissa algo convencional na literatura moderna, a violência urbana e a marginalidade. Uma dupla de delinquentes invade um apartamento e faz um garoto como refém. Assustado, o menino tem sua mente perturbada por uma aventura imaginária na qual ele é o piloto de uma espaçonave sendo sequestrado por alienígenas beligerantes. As duas narrativas vão se sobrepondo até o leitor ter dúvidas sobre qual delas é a real.
"Tia Moira" é mais lírica, mas não deixa de guardar uma certa familiaridade com o naturalismo mainstream. Conta o drama de uma família de classe média que se vê agitada pelas previsões de Moira, uma tia solteirona viciada em telenovelas. O imponderável surge quando um dos filhos nota que as previsões da Tia Moira sobre uma telenovela estão se manifestando em sua própria vida. A ideia não é inédita na fc, mas é realizada com muita classe e identidade, sendo um dos pontos altos do volume.
Em "O anjo", Calado volta ao tema das viagens no tempo, contando a história do principal líder da sociedade de um Rio de Janeiro futuro e utópico, que acredita que seu sucesso é fruto das desgraças passadas de sua vida. O dilema se impõe quando chega a ele um artefato revolucionário que pode permitir que evite suas tragédias pessoais, arriscando porém a integridade do futuro positivista que ajudou a construir. Tal como em "O refém", o leitor será parte importante no desfecho da narrativa.
A terceira parte da antologia é composta por sete contos curtos dedicados a cada um dos pecados capitais. Os textos também foram resultado da encomenda de Helena Rodarte, e publicados em 1995 na coleção Eles são sete, da Ediouro. Quatro contos acontecem no mesmo universo. "Bobo (A ira)" é uma história pungente, sobre uma civilização alienígena dominada por um governo totalitário em que uma casta de humoristas propositalmente deformada apresenta um espetáculo autorizado de crítica ao governo. "O dia do dragão (Preguiça)" é quase uma releitura de O hobitt, de J. R. R. Tolkien. Numa aldeia escravizada por um dragão, um jovem é escolhido para ser a oferenda anual que vai alimentar o monstro. Decidido a não morrer sem luta, resolve atacar o dragão de surpresa e matá-lo. Em "Kilumbo (Orgulho)" e "A volta do dragão (Avareza)", um ancião de uma raça alienígena conta ao neto histórias de seu passado. São estas duas narrativas que amarram as quatro num único contexto cenográfico.
As outras três histórias são independentes. Em "Operação Lobo (A gula)" ex-espiões da guerra fria trocam confidências numa mesa de bar e um deles conta uma de suas aventuras mais secretas. "Não é por inveja (Inveja)" é uma narrativa em primeira pessoa, na qual um estudante e seu melhor amigo passam pela vida acadêmica numa relação de amor e ódio que, por falta de sinceridade, pode culminar em tragédia. "Avthar (Luxúria)" fecha o capítulo como o melhor conto dessa série. Um menino chega a puberdade e desenvolve o poder de restaurar a vida animal e vegetal a sua volta quando tem orgasmos. Porém, os sacerdotes do lugar não concordam com o valor de seus milagres e o banem para uma ilha deserta até que ele consiga purificar seu poder.
A quarta parte da antologia traz dois contos publicados em 2000 na coleção Aventura no tempo, da Editora Record, em referência aos 500 anos do descobrimento do Brasil. "Foi assim (Talvez)" é uma interessante reconstrução do Brasil pré-cabralino e romantiza o encontro dos hoje extintos Homens do Sambaqui com uma desconhecida raça de índios mais forte e melhor equipada. O segundo conto é "A carta do filho da puta", uma narrativa epistolar na qual um grumete analfabeto escreve uma carta imaginária a sua mãe, igualmente analfabeta, contando seus sofrimentos, dissabores e alegrias vividos durante a viagem da esquadra de Cabral ao Brasil, em 1500, da qual ele fazia parte.
A quinta e última parte apresenta dois textos, sendo o primeiro o único texto inédito da antologia, o conto "Eleanor Rigby", inspirado numa canção da banda britânica The Beatles, originalmente escrita para compor uma antologia temática de autores fãs nos anos 1980, que nunca foi publicada. O texto destaca-se também por ser o único no qual o autor fez experiências formais, com frases inacabadas e períodos truncados.
Fecha o volume a notável novela cyberpunk "O altar dos nossos corações", publicado originalmente na antologia lusófona O Atlântico tem duas margens (Caminho, 1993), que consagrou Ivanir entre os grande nomes da fc&f nacional.  A história fala sobre a corrupção do governo brasileiro, as trapaças, armações, acordos escusos e o controle da verdade pela mídia, em meio a uma sociedade desonesta e violenta controlada pelo crime organizado. Escrita há duas décadas, a novela continua atual e impactante.
Ivanir Calado que, além de escritor, é músico, compositor, tradutor e diretor de teatro, confirma nesta antologia todas as qualidades autorais demonstradas em seus romances. Um trabalho que agrada tanto aos jovens quanto aos veteranos leitores de fc&f, pois navega em todos os gêneros com desenvoltura e qualidade. Um volume que certamente vai satisfazer até aos leitores mais exigentes.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Clássicos macabros brasileiros

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, Lainister de Oliveira Esteves. 256 páginas. Editora Escrita Fina, Rio de Janeiro, 2010.

Muitas vezes, a diferença entre uma impressão e uma certeza pode ser mínima. E a impressão que a ficção especulativa sempre fez parte da literatura brasileira era uma convicção que eu tinha comigo. Mas sempre foi difícil argumentar com precisão quando se tratava de citar exemplos. Mas tenho que confessar que, afora alguns títulos e autores mais destacados que sempre são lembrados nesses momentos, dava até a mim mesmo a sensação que talvez estivesse forçando a tese para além do que ela poderia se sustentar.
A antipatia da crítica especializada pela ficção de gênero, que sempre desconsidera essa classificação para textos de autores canônicos, mantinha as referências à distância, sempre que possível. Parecia ser necessário um prolongado e exaustivo trabalho de pesquisa acadêmica para tirar esses trabalhos dos cofres da memória, esquecidos em livros obscuros e jornais antigos, como tem feito o pesquisador Braulio Tavares em diversas antologias recentes, como Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003) e Páginas do futuro: Contos brasileiros de ficção científica (2011), ambos publicados pela editora Casa da Palavra.
A estes volumes junta-se agora Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizado por Lainister de Oliveira Esteves para a Editora Escrita Fina. Na verdade, este trabalho foi publicado em 2010, mas somente agora o descobri. Esteves é um pesquisador carioca, doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado em História Cultural, e este trabalho ilustra muito bem o carinho que o organizador tem para com a literatura brasileira.
Como o nome já diz, a antologia é formada por treze textos de horror de autoria de nove escritores canônicos já em domínio público: Álvares de Azevedo (1931-1852), Bernardo Guimarães (1825-1884), Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913), Thomaz Lopes (1879-1913), João do Rio (1881-1921), Gonzaga Duque (1886-1911), Humberto de Campos (1886-1934) e Lima Barreto (1881-1922). Destes autores, quatro já são bastante conhecidos entre os leitores de ficção fantástica: Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, mas os demais são gratas novidades no arcabouço da ficção fantástica nacional.
O primeiro conto selecionado pelo organizador, que decidiu dar ao volume um tratamento mais ou menos cronológico, é "Bertram", uma das cinco sangrentas histórias que formam Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, o trabalho de horror mais conhecido das letras nacionais publicado originalmente em 1885. É justamente o texto mais forte do conjunto, com a história de um conquistador que vai até as últimas consequências por um rabo de saia. O estilo elegante de Azevedo reporta diretamente a Edgar Alan Poe.
"A dança dos ossos", de Bernardo Guimarães, publicado no livro Lendas e romances, de 1871, é uma sequência de três pequenos 'causos' de assombração, confrontando o racional e o irracional a partir de um assassinato brutal motivado por ciúmes.
Machado de Assis comparece com dois textos. Em "Sem olhos", publicado em 1876 no Jornal da Família, o narrador conta a história mórbida de seu vizinho de pensão, um homem incomum enlouquecido pela proximidade da morte. É curioso notar uma certa similaridade deste trabalho, em especial, às narrativas de H. P. Lovecraft, autor norte-americano que desenvolveu sua obra posteriormente, sem os componentes intolerantes deste, contudo. "A causa secreta", publicado 1875 na Gazeta de Notícias, é menos sobrenatural e, por isso mesmo, mais perturbador, pois trata de um distúrbio psicológico algo comum, o sadismo. A narrativa se resume a fatos simples, mas assustadores, que permeiam a vida de um casal e um amigo, num triângulo amoroso insuspeito.
Aluísio de Azevedo também comparece com dois textos. "O impenitente", publicado em 1898 na coletânea Pegadas, é uma narrativa clássico de horror gótico, em que um padre descontrolado pela paixão por uma mulher, tem uma experiência aterrorizante durante uma noite de insônia. O segundo texto do autor é o clássico "Demônios", a narrativa mais longa do volume, publicado em 1893 na coletânea de mesmo nome. É uma história surrealista, que flerta com a ficção científica, antecipando diversos temas do gênero. Conta a transformação por que passa o protagonista e toda a sua realidade a partir do momento em que as estrelas começam a se apagar.
"O defunto", publicado em 1907 por Thomaz Lopes, explora um tema recorrente no gênero: o enterrado vivo. Um homem desperta de seu sono cataléptico aprisionado em uma cripta de pedra e mármore. Ainda que tenha alguma liberdade para se deslocar, ar para respirar e a luz do sol que ilumina o lugar por uma pequena fresta, todos os seus esforços não permitem que ele saia dali. Conforme os dias passam, a fome e a sede ganham contornos cada vez mais mais desesperadores.
João do Rio era um autor que eu conhecia só de ouvir falar, e fiquei surpreso com a força dos dois textos de sua autoria que o organizador selecionou para esta antologia. Em "Dentro da noite", um homem conta aos companheiros de uma viagem de trem noturna, como sua vida desmoronou por causa de uma compulsão bizarra, e o excelente "O bebê de tartalana rosa", que conta a experiência desconcertante de um libertino durante a madrugada de uma quarta-feira de cinzas. Os dois trabalhos foram publicados respectivamente em 1906 e 1908 na Gazeta da Noite.
Gonzaga Duque é outra grata novidade, com o conto "Confirmação", uma história de fantasma com pendões de ficção científica, publicada originariamente em 1914 na coletânea Horto das mágoas. Conta o que acontece durante um experimento conduzido por um cientista em uma sessão de espiritismo.
Os dois textos de Humberto de Campos exploram a linha do terror, ou seja, o medo gerado a partir de um evento não sobrenatural, ambos publicados coletânea O monstro e outros contos, de 1932. "O juramento" acompanha ao relato de um bêbado louco que conta como sobreviveu a captura de uma tribo de índios antropófagos, e "Retirantes" mostra a dor e o desespero de uma velha matrona decadente cuja única escapatória à seca terrível que assola sua terra é ir embora dali. Mas, para isso, ela precisa de roupas.
Lima Barreto, autor que tem vários outros textos ligados a ficção fantástica, fecha a seleta com o conto "O cemitério", publicado em 1956 na coletânea Marginália, no qual um homem passando por um cemitério se encanta com a fotografia de uma jovem ali sepultada.
A antologia ainda conta com os ensaios "Uma literatura envolta em sombras", que contextualiza os contos selecionados, e "Sobre os autores", com biografias breves de cada autor apresentado, ambos assinados pelo organizador.
Percebe-se a evolução do gênero ao longo dos textos, que começam com o recorrente medo do morto e da morte, que também caracterizou as primeiras obras do gênero em outras culturas, avançando para questões psicológicas e patológicas conforme a morte se desmistificou, chegando até a especulações de ordem científica, o que demonstra que a literatura brasileira não esteve alheia ao gênero e fez uso dele de forma consistente. Percebe-se também que o exercício do gênero esteve intimamente vinculado a literatura popular publicada nos periódicos, que se define assim esse como o espaço "pulp" que a literatura nacional não experimentou plenamente.
Além de muito divertido, Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira é um volume valioso para aqueles que buscam entender o desenvolvimento da literatura de gênero no Brasil e seu valor dentro do cânone nacional.