domingo, 1 de novembro de 2026

Resenha: Fantástico brasileiro, Bruno Anselmi Matangrano & Enéias Tavares

Fantástico brasileiro: O insólito literário do romantismo ao fantasismo
, Bruno Anselmi Matangrano & Enéias Tavares. 340 páginas. Prefácio Flávio García, Posfácio Roberto de Sousa Causo. Capa e ilustrações internas de Karl Felippe. Curitiba: Arte & Letra, 2019.

Desde que o tradutor e escritor Fausto Cunha cometeu  a introdução "A ficção científica no Brasil: Um planeta quase desabitado" para a edição brasileira de Science fiction reader's guide (No mundo da ficção científica, Summus, 1974), do historiador e acadêmico americano L. David Allen, que muitos pesquisadores no Brasil, e também fora dele, passaram a se interessar por mapear, conhecer e entender a ficção científica produzida no país. Não que inexistissem livros de brasileiros sobre fc, mas eles eram basicamente tentativas de entender o gênero a partir de seus exemplos internacionais, especialmente a produção anglo-americana. Naquela época, compreender a incipiente fc brasileira era uma tarefa, senão impossível, virtualmente desnecessária. 
Nos últimos anos, com a publicação de milhares de títulos de ficção fantástica escrita por brasileiros, a quantidade de publicações dedicadas a fcf brasileira tem se ampliado, especialmente no âmbito da pesquisa acadêmica. Assim é o objeto desta resenha, o livro Fantástico brasileiro: O insólito literário do romantismo ao fantasismo, dos acadêmicos Bruno Anselmi Matangrano (USP) e Enéias Tavares (UFSM), publicado em 2019 pela editora curitibana Arte & Letra.
O estudo tem contornos acadêmicos inegáveis, mas os autores buscaram por um discurso acessível ao leitor leigo, que não se debruçasse demasiadamente sobre detalhes técnicos do fazer literário e da ciência dura de modo geral. Mas tanto esforço em se afastar do academicismo cobrou um preço. 
O livro tem 340 páginas, e traz Prefácio – de autoria do professor Flávio Gracía (UERJ) –, o prólogo "O fantástico em suas nuances", vinte e três capítulos temáticos divididos em três partes ("O longo século XIX", "O multifacetado Século XX", e "Os mundos insólitos do século XXI"), o epílogo "Fantasismo: um novo movimento literário?" e o posfácio "Uma questão literária para o século XXI" – de Roberto de Sousa Causo –, além de apêndices, notas, bibliografia, notas biográficas e agradecimentos. Curiosamente, os saites e portais de divulgação na internet da época da publicação do livro estão praticamente todos descontinuados atualmente, confirmando a conhecida afirmação marxista "Tudo que é sólido se desmancha no ar".
A parte mais volumosa do livro é uma longa sequência de ensaios curtos que se leem com facilidade e prazer. Há muitas citações, principalmente referências a textos de autoria dos pesquisadores Roberto de Sousa Causo e Braulio Tavares, que também dedicaram e ainda dedicam boa parte de suas vidas a entender a fcf brasileira. 
A base teórica da pesquisa vem do livro Introdução à literatura fantástica, do historiador franco-búlgaro Tzvetan Todorov (1939-2017), que estabeleceu os alicerces teóricos da produção literária da fantasia e da ficção científica contemporâneas. Na busca por não desrespeitar as marcações todorovianas, Matangrano e Tavares adotaram o princípio – mantido ao longo de todo o estudo – de se referir ao gênero fantástico pelo termo "insólito", uma vez que Todorov define cada subgênero da arte fantástica de forma bastante específica. O sentido da palavra "insólito" é, rigorosamente, "incomum". E como existe muita literatura incomum que não é fantástica, o termo acaba não convencendo. Principalmente em se tratando da ficção científica, que é um gênero (e muitos afirmam que não é um gênero) que, historicamente, resiste a todo tipo de rotulação e classificação. Contudo, no espaço restrito do ensaio de Matangrano e Tavares, o termo funciona bem.
Outra proposta do volume é o termo "fantasismo" – que aperece já no título – para definir o recente crescimento da fcf no meio literário brasileiro, sugerindo uma espécie de movimento articulado de editores e autores que, de fato, não existe. Mais provável é que isso guarde relação com os números do mercado que, inspirado por sucessos da produção audiovisual internacional, tem buscado avidamente por títulos de fcf em diversas partes do mundo, abrindo espaço também para a produção brasileira, embora em franca desproporção. Pode até não haver um movimento fantasista efetivo, mas os efeitos acabam por ser os mesmos. 
A maior parte do estudo realiza um levantamento enciclopédico da fcf brasileira, citando centenas de autores e obras de uma forma mais ou menos historiográfica. É natural que, mesmo com essa amplitude hiperbólica, nem tudo ou todos sejam citados. Mas, mesmo assim, não há justificativa para que o mestre André Carneiro (1922-2014), o mais bem sucedido escritor brasileiro de ficção científica, não tenha sido lembrado. Por exemplo, na descrição do trabalho da Editora Aleph, de São Paulo, registrado pelos romances de horror de André Vianco e Nazareth Fonseca, publicados entre 2010 e 2020, não foi citado o importante romance Amorquia, de André Carneiro, publicado em 1991 na Coleçao Zenith, quando a editora ensaiava seus primeiros movimentos na publicação de ficção fantástica. Por outro lado, o escritor gaícho Max Mallman (1968-2016) recebeu atenção especial, com um capítulo inteiramente dedicado a sua obra.
Outro aspecto comprometedor do estudo foi ignorar a contribuição dos fanzines brasileiros de ficção científica ao longo dos anos 1980 e 1990. Não é possível entender a fcf brasileira recente sem falar desses fanzines, que sustentaram a produção original brasileira por mais de quinze anos, período em que todas as editoras brasileiras reunidas não publicavam mais que meia dúzia de livros de fcf estrangeira por ano. 
Fantástico brasileiro oferece um amplo panorama de autores brasileiros e seus títulos, mas há pouca reflexão sobre os dados apresentados. Talvez, a vontade de fazer um levantamento tão abrangente sem um recorte específico tenha gerado essa dispersão analítica. O conteúdo mais reflexivo do volume são as contribuições do professor Flávio García e do escritor e pesquisador Roberto de Sousa Causo, que assinam, respectivamente, o prefácio e o posfácio da obra. Causo, inclusive, cumpre a função mais crítica da obra, denunciando o viéz político da crítica literária brasileira.
Fácil de ler e entender, sem pedantismo acadêmico e iluminado pelas belas e inspiradas ilustrações de Karl Felippe, Fantástico Brasileiro proporciona um agradável encontro dos leitores brasileiros com a história da produção literária nacional nos gêneros do fantástico, ou do insólito, para usar os termos do estudo. Sua maior e mais valiosa contribuição é lembrar, pois, como diz Roberto de Sousa Causo no pósfácio, "o principal produto da cultura brasileira é o esquecimento". Então, não vamos esquecer.