sexta-feira, 17 de julho de 2026

Resenha: Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, Ana Cristina Rodrigues.

Atlas ageográfico de lugares imaginados
; Ana Cristina Rodrigues. 256 páginas. Manaus: Lendari, 2019.

Desertos intermináveis são fortes no imaginário leitor, assim como grandes geleiras, montanhas altíssimas, rios muito longos ou muito largos, florestas fechadas, mares desconhecidos, etc. São imagens de fundo sublime, que atraem e assustam. São, em seu fulcro, uma espécie de representação do divino, tão poderoso diante do ser humano que este se sente absolutamente incapaz de enfrentá-lo. Desertos aparecem com frequência na literatura fantástica. Duna, de Frank Herbert, é o exemplo mais destacado, mas está longe de ser único. A famosa série A torre negra, de Stephen King, inicia o primeiro volume, O pistoleiro, justamente assim: "O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás". O quanto basta para capturar a atenção do leitor e mantê-lo atento pelos sete volumes da série. Mais recentemente, as escritoras Nnedi Okorafor (Quem teme a morte) e N. K. Jemisin (Lua de sangue) também usaram desertos sem fim para desenvolver suas histórias. 
Logo, não é de surpreender que a escritora carioca Ana Cristina Rodrigues tenha notado esse valor e instalado os personagens de seu romance Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados em uma jornada por um deserto mítico impossível em busca de redenção e de memórias perdidas. O livro foi publicado em 2019, pela manauara Editora Lendari.
A história acompanha três dias de caminhada de um grupo formado por uma jovem bibliotecária, um homem-morcego, o Rei-Máquina e um cavalo, que estão no tal deserto sem ter ideia de como foram parar lá. Sem água, sem alimento e sem abrigo, eles terão de colaborar uns com os outros para sobreviver e chegar a algum lugar que faça sentido em suas existências miseráveis. Cada um deles traz em si um sentimento de culpa que, conforme a caminhada avança, se revela em seus detalhes mais sórdidos; exceto pelo cavalo que, aparentemente, não está ali pelos mesmos motivos. A cada dia, o grupo é confrontado por uma entidade misteriosa que os desafia e conduz em direção a determinados pontos do deserto nos quais serão testados em seus limites físicos e emocionais.
O conceito do Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados é muito interessante pois trata de um livro mítico que registra a exitência de lugares de existência fugidia, criados e descriados conforme a vontade e conveniência dos deuses. A autora intercala os capítulos do romance com verbetes do Atlas, que trata de lugares em que os personagens visitaram ou visitarão em algum momento de suas vidas: o Deserto da Negação, a Cidade Sem Nome, o Oásis do Possível, a Cidade de Lata, o Desfiladeiro sobre o Vazio, os Penhascos do Ontem, e muitos outros. 
É evidente que o romance é uma expansão do conto "O longo caminho de volta" que apareceu na coletânea da autora Anacrônicas (Aquário, 2014) – e também na antologia Cidades indizíveis (Liyr, 2011) –, inserido integralmente no corpo do romance, acrescido de prequela e sequela. Não parece que as histórias dos demais personagens tenham sido também contos independentes, mas funcionam mais ou menos da mesma forma, de modo que o romance tem a textura de uma colcha de pequenos retalhos que vão se interligando até um desfecho comum. 
Trata-se de um bem realizado exercício criativo de Rodrigues, com poucos paralelos na ficção fantástica brasileira. Não seria demasiado dizer que é a sua obra-prima, ainda que se possa identificar algumas soluções incômodas ao estilo deus-ex-machina, mas que são aceitáveis diante da complexa estrutura da narrativa.
Para os que curtirem as ideias do Atlas ageográfico de lugares imaginados, a autora ainda oferece o conto Elegia etérea para o enterro da última quimera, publicado em 2015 unicamente em formato virtual.

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