terça-feira, 27 de outubro de 2026

Resenha: Maré de mentiras, Roberto Campos Pellanda

Mar Interno Livro 1: Maré de mentiras
, Roberto Campos Pellanda. 452 páginas. Porto Alegre: Avec, 2023. Capa de Chris Rawlins.

Uma das minhas melhores leituras em 2026 foi o romance de fantasia Maré de Mentiras, do escritor gaúcho Roberto Campos Pellanda, originalmente publicado em 2023. É o primeiro volume da série Mar Interno, que também conta com os os romances Filha do mar (2024), Mar de chamas (2024) e a prequela Terceiro saber (2022), todos publicados pela Editora Avec, embora a chancela da editora não apareça na ficha catalográfica e, em algumas edições, sequer assine as capas. 
A história conta a crise política que se abate sobre o mundo do Mar Interno com a morte do Duque Alexander Terrasini, da cidade-estado de Sobrecéu. Sendo um dos políticos mais influentes de seu mundo, o vácuo criado com sua ausência revive rivalidades e ódios antigos de guerras passadas. Enquanto as tensões vão se acumulando, acompanhamos os dramas de três personagens chave nessa trama: Theo, um golpista que sobrevive de pequenos furtos na cidade de Valporto, Anabela Terrasini, filha do falecido Duque de Sobrecéu, e o decadente comandante Asil Arcan que, no passado, foi herói de guerra nas forças navais da cidade-estado de Tássia, e hoje vive aterrorizado pelas visões de seu passado violento. 
Enquanto Anabela tenta se articular em meio a política de Sobrecéu, onde a liderança da cidade está incerta entre sua mãe, seu irmão e conselheiros repletos de segundas intenções, Theo tenta resgatar sua protegida, a jovem criança muda Raíssa, sequestrada por piratas e levadas para destino incerto. 
Quando o perturbado Asil é reconvocado para asumir o comando das forças navais de Tássia, nuvens escuras se avolumam em direção a uma guerra global ainda mais violenta que os conflitos do passado. 
Mas, como problema pouco é bobagem, existe uma trama ainda mais perversa por trás de toda a violência que se avizinha. Forças sinistras, vindas de uma terra antiga, parecem estar preparando uma invasão ainda mais mortal que qualquer guerra humana; isso porque suas hostes não são humanas. O enfrentamento desse perigo maior, que ameaça toda a vida, deve ser realizado pelos nossos três protagonistas e todas as chances de vitória passam pelo resgate da pequena Raíssa, cuja mudez prenuncia um poder inesperado. 
A história, em si, remete a muitas outras fantasia contemporâneas, dialogando de forma mais evidente com a série A Guerra dos Tronos, de J. R. R. Martin, com traços de Elric de Michael Moorcock, e de As crônicas de Majipoor, de Robert Silverberg, principalmente pelo aspecto episódico (as histórias dos protagonistas só de encontram no final do romance) e pela cenografia naval mediterreânea, que ainda evoca imagens de um dos mundos chave da série Fronteiras do universo, de Philip Pullman. Todas referências luxuosas, portanto.
Mar Interno é um projeto ambicioso. Há muitos personagens em diversas linhas narrativas, o que torna a leitura entrecortada e cansativa, com ganchos frequentes, como se fosse um folhetim. Mas Maré de mentiras tem o mérito de um texto bem articulado, especialmente os diálogos deliciosos que temperam a narrativa com sabores raramente vistos na ficção fantástica brasileira e garantem o interesse mesmo do leitor mais exigente. A série conta ainda mais um título, o conto O mar que veste o mundo, publicado em 2022 em formato digital. 
Pellanda sustenta ainda outras duas séries de fantasia: O Além-Mar – que conta com os livros Noite sem fim (2021) e Primeiro amanhecer (2022) –, e a distopia Céu de chumbo, na qual, por enquanto, foi publicado apenas o romance Baikal (2025). 
Recomendo a leitura de Mar de mentiras, pela qualidade de seu texto, a beleza dos cenários e o detalhamento de seus personagens. Eu mesmo já estou em busca dos demais livros do autor, todos disponíveis em catálogo.

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