segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Surface


Durante algumas semanas de novembro, a Rede Brasil, emissora de televisão que tem em sua grade diversas séries antigas, como Perdidos no espaço, Arquivo X e Lois and Clark, exibiu uma série que para mim era uma completa novidade. Trata-se de Surface, produção de 2005 – não tão antiga portanto – que passou batida pela TV brasileira. Há notícias que seus 15 episódios tenham sido exibidos pela Record e pela Universal, mas confesso que eu nunca tinha ouvido falar. A história é curiosa e bem desenvolvida, com efeitos especiais eficientes.
Conta o que acontece com a oceanógrafa Dra. Laura Daughtery que, num mergulho de pesquisa, observa um novo tipo de animal marinho de grande porte. Mas, quando divulga a descoberta, é ridicularizada pelos demais pesquisadores e perde sua graduação acadêmica. Isolada, Laura alia-se ao vendedor de seguros Rich Connelly, que testemunhou a morte do irmão num ataque do mesmo monstro e quer certificar-se de que não está louco. Juntos, partem em busca de provas irrefutáveis da existência do animal.

Enquanto isso, o jovem estudante secundarista Miles Barbett encontra um estranho ovo na beira do mar e resolve chocá-lo. Nasce um tipo de réptil marinho que ele decide criar em segredo, como animal de estimação. O bicho, ao qual ele dá o nome de Nimrod, tem a capacidade de emitir descargas elétricas fortes e é bastante inteligente, mas também muito agressivo. Atacado na praia por um grupo de animais semelhantes a Nimrod, Miles tem seu organismo contaminado com o DNA das criaturas e começa e desenvolver poderes esquisitos.

Com Miles esforçando-se na difícil missão de manter Nimrod longe dos olhos da família e dos cientistas do instituto oceanográfico, Laura e Rich realizam uma nova incursão de pesquisa submarina num batiscafo experimental, mas o barco que comanda o mergulho é atacado por supostos agentes do governo e o aparelho despenca para 4000 metros de profundidade, sem possibilidade de resgate. Encalhados em meio a um berçário dos monstros abissais, Laura e Rich aproveitam para filmar as criaturas. Quando o ar está para acabar, são acidentalmente arremessados para a superfície por um dos monstros.
Recolhidos por um helicóptero de resgate depois de alguns dias a deriva no mar, Laura divulga o filme em um programa de TV, mas é novamente ridicularizada. Não obstante, agentes secretos perseguem-na aparentemente interessados em ocultar algum grande segredo relacionado à descoberta. Os motivos, só podemos especular: o seriado ficou apenas na primeira temporada e termina quando um tsunami gigante faz submergir a costa leste dos EUA, espalhando as gigantescas criaturas pelo território inundado.
O destaque do seriado é a linda atriz Lake Bell, que interpreta a Dra. Laura Daughtery, expressiva e segura nas cenas dramáticas, em contraste ao ator Jay Ferguson, no papel de Rich Connelly, de interpretação afetada e irritante. Carter Jenkins faz Miles Barbett, o garoto mutante que, em vários momentos, eu desejei que fosse devorado pelos monstrengos. Num papel secundário, mas de importância para a trama, aparece ainda a conhecida atriz Marta Plimpton, a Stef de Os Goonies.

Enquanto assistia o seriado, ficava imaginando como não seria legal se fosse uma versão moderna para A guerra das salamandras (War with the newts, 1936), clássico da ficção científica de autoria do escritor checo Karel Capek, considerado em muitas listas como um dos dez melhores romances de FC já escritos.
Vale a pena procurar pelos episódios de Surface na internet ou em DVD, pois a história é boa e dialoga com uma série de referências da literatura e da cultura pop, ainda que eu passasse muito bem sem o chatonildo do Miles.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Barroco tropical

Ao longo de 2009, recebi periodicamente a newsletter da editora Companhia das Letras que ultimamente tem publicado alguns bons livros de FC&F. Este mês, um título interessante se apresenta: Barroco tropical, romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, um exemplo da ficção científica luso-africana, originalmente redigido em português, que fala aos brasileiros de forma muito próxima.
A história acontece em Luanda, em 2020, num enredo ligeiramente autobiográfico e, por isso mesmo, algo metalinguístico. Conta o que acontece com um escritor e sua amante depois que eles testemunham a queda de uma mulher que literalmente despencou do céu, uma ex-miss que foi amante de políticos poderosos.
Diz o relise da editora: "Numa narrativa que avança e recua livremente no tempo e que se desloca entre a África, a Europa e o Brasil, Agualusa traça um retrato vivo e pulsante da sociedade angolana atual, onde as tradições ancestrais convivem de modo nem sempre pacífico com uma modernidade mal assimilada. Essas contradições estão sintetizadas no prédio onde mora o escritor Falcato, a Termiteira, futurística torre de sessenta andares, o maior edifício do continente, que não terminou de ser construído e já está em ruínas, abrigando os ricos nos andares superiores e a ralé social e criminal no subsolo. Mães de santo e curandeiros convivem nestas páginas com figurinistas de fama internacional, empresários da aviação, militares golpistas e traficantes de drogas e de armas. O insólito está sempre presente, mas intimamente entrelaçado ao prosaico e ao cotidiano, pois, como declarou o autor, referindo-se a Angola, Portugal e Brasil, 'nos nossos países a realidade tende a ser muito mais inverossímil do que a ficção' ".
Isso já é mais que suficiente para me interessar. Além disso, não é todos os dias que nos deparamos com a FC angolana, de fato é a primeira que tenho notícia, o que por si só é um atrativo e tanto.
Agualusa estreou na literatura em 1988 e seus livros já foram traduzidos para diversos idiomas. Seu livro O vendedor de passados ganhou o prêmio de ficção estrangeira do jornal inglês The Independent.
Não vale a pena dar uma olhada nesse autor?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Anno Dracula

Em 1997, quando eu e meus colegas estávamos estruturando o projeto da editora Ano-Luz, discutimos quais seriam os títulos estrangeiros pelos quais pretendíamos batalhar. O primeiro título sempre fora Starship Troopers, de Robert Heinlein que inaugurou nossos trabalhos no início do ano seguinte, mas naquele momento ainda não sabíamos o tamanho da encrenca que é publicar um livro estrangeiro, o que só aprenderíamos a duras penas meses depois.
Como sonhar era de graça, estávamos dispostos então a adquirir pelo menos dois outros títulos: The postman, de David Brin, autor que havia construído alguma fama devido aos contos que apareceram na Isaac Asimov Magazine, e Anno Dracula, de Kim Newman, um escritor britânico então completamente desconhecido que desenvolvera um trabalho interessante de ficção fantástica.
O primeiro caiu da pauta assim que o filme estreou nos EUA e faturou meia dúzia de imerecidas Framboesas de Ouro, e o segundo depois que descobrimos que não sabíamos vender livros. Desde então, todos nós esperamos que alguma editora de porte descobrisse esses títulos e os disponibilizasse aos leitores brasileiros.

Finalmente, a editora Aleph, que nos últimos anos tem reforçado seu catálogo com diversos títulos de FC&F, especialmente republicações como os clássicos A laranja mecânica, de Antony Burgess, O homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick e Fundação, de Issac Asimov, atendeu aos constantes pedidos de uma legião de fãs de horror e FC e colocou nas livrarias brasileiras a tradução de Anno Dracula, um romance icônico da moderna FC britânica, sequência direta do clássico de Bram Stocker, que conta a história intrigante de uma realidade em que o Conde Drácula realmente existe e, através de sua influência poderosa, assume o poder na Grã Bretanha do final do século XIX ao desposar a Rainha Vitória. Daí parte uma grande quantidade de alterações históricas que levam os fatos desse universo alternativo a uma escalada de dramas bizarros surpreendentes, que envolvem ainda o famoso assassino serial Jack o Estripador.
Devido ao seu formato incomparável, Anno Dracula é um romance difícil de classificar, não porque não se possa descobrir o que ele é, mas porque é difícil definir o que ele não é. Trata-se de ficção científica na medida em que se insere no espaço de influência da história alternativa, com o qual se identifica de imediato devido aos muitos personagens reais que utiliza. Pode ainda ser visto como um trabalho steampunk, devido a sua ambientação vitoriana. Também é uma ficção alternativa, já que apresenta como protagonista um personagem de ficção reinterpretado e que, não por acaso, é um vampiro, o que permite ao texto a legítima classificação no gênero horror, como aliás a editora o está apresentando aos leitores. Alguns ainda podem ousar classificá-lo com o indevassável rótulo de new weird, que muita gente gosta mas ninguém consegue explicar direito o que é.
Mas tudo isso não importa, desde que a história empolgue os leitores brasileiros da mesma forma que encantou os leitores britânicos.
Anno Dracula já está a venda no site da editora Aleph, pela singela quantia de R$49,90. Bela opção para um auto-presente de Natal.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fanzines de horror do mês


Novembro está chegando ao fim e os fanzines de arte fantástica lançados na internet continuam sendo predominantemente dedicados ao horror. Nas última semanas foi disponibilizado para download o número 15 de Terrorzine, editado por Ademir Pascale e Elenir Alves pela Cranik.
A edição mantém a linha editorial de apresentar uma seleta de microcontos de autores brasileiros, entrevistas com escritores, no caso Jorge Ribeiro e Jocir Prandi, e divulgação de quadrinhos, romances e antologias. Também saiu o Terrorzine Suplemento nº3, com os contos vencedores do Concurso Cultural Estronho.
No ultimo final de semana, foi lançado o Juvenatrix 119, tradicional fanzine de terror e ficção científica publicada pelo engenheiro Renato Rosatti desde 1990, sendo provavelmente o mais antigo fanzine brasileiro em publicação. Também é o único que, depois de muitos anos sendo editado em formato real, virtualizou-se e manteve periodicidade consistente.
Isso deve-se unicamente a iniciativa e disposição de seu editor, que gosta do que faz e não tem nenhuma intenção de parar.
Juvenatrix investe na cena alternativa, com divulgação de bandas de rock pesado, produções de vídeo e cinema independentes, fanzines, livros, sites e blogs (até o Mensagens do Hiperespaço apareceu nesta edição, obrigado, Renato!). Também publica contos, artigos e resenhas, principalmente de cinema. O destaque da edição é a resenha do filme Saló, de Pier Paolo Pasolini, assinado por Matheus Ferraz, e a overdose de FC bagaceira resenhada pelo editor, com nada menos que doze filmes categoria "Z". O fanzine mantém ainda uma comunidade no Orkut. Peça sua cópia em renatorosatti@yahoo.com.br.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Celularidades

Desde 2000 que a Editora Virgo investe suas fichas na publicação cooperativa, num formato estruturado a princípio para a antologia de cartuns Humor Brasil 500 Anos, dedicada aos cinco séculos da nação tupiniquim.
A ideia era tão boa que a brincadeira continuou nos livros 2001 - Uma odisséia no humor e Humor pela paz. A série de antologia de tiras de quadrinhos Tiras de letra já vai pelo oitavo número, entremeada por outros títulos de ocasião, como Fome de ver estrelas, Isto é um absurdo e Internet@humor. Agora chegou a vez de Celularidades, um projeto antigo que custou a sair da prancheta.
Celularidades vai ter o lançamento oficial dia 21 de novembro, a partir das 21 horas na Livraria HQMix, Praça Roosevelt, 142, São Paulo. O evento pretende reunir a maior quantidade possível dentre os 26 artistas publicados, que são: Airon, Alecrim, André, Amorim, Bira Dantas, Biratan, Claudio, Ed Sarro, Eder Santos, Edra, Érico San Juan, F. Pontes, Gilmar de Godoy, Humberto Pessoa, J. Bosco, Julinho Sertão, Luigi Rocco, Mastrotti, Mayrink, Rei, Rice Araújo, Ronaldo Cunha Dias, Spacca, Spett, Waldez e Willian Medeiros.
O editor da Virgo é Mario Mastrotti, cartunista bem conhecido no meio, que a partir de São Caetano do Sul espalha aos quatro ventos seu humor gráfico. Diz Mastrotti sobre o volume: "O celular é uma realidade sem volta por tudo que significa de avanços, benefícios e bem-estar para o ser humano. No Brasil, país apaixonado por falar, e fala-se até demais, ele é parte integrante da vida de todos aproximando e vez por outra afastando muita gente.
Otimiza os negócios, agiliza as soluções e o faz de forma tão eficaz da mesma maneira que seu uso é aplicado para lesar e prejudicar o outro. O celular é um faz tudo e prova que também faz humor dos bons no traço de cartunistas de todo o país que nunca deixam cair a linha, sempre ocupada, ora com uma gargalhada imensa, ora com um sorriso esperto, melhorando a ligação entre as pessoas."
Celularidades apresenta 100 cartuns em 64 páginas, e custa R$15,00.
Mais informações sobre o evento pelos telefones (11) 3258-7740 e (11) 70324902.

Noticias... do Fim do Nada


Há alguns dias, rolou na lista de Literatura Fantástica do CLFC informações sobre a descontinuação, no número 82 (julho a setembro de 2009), de um dos últimos fanzines brasileiros de ficção científica em papel, o Notícias... do Fim do Nada, editado pelo médico aposentado e colecionador de livros de ficção científica Dr. Ruby Felisbino de Medeiros, de Porto Alegre.
O fanzine surgiu por volta de 1990 como órgão oficial da Laboratório Escola de Ficção Científica Robert Heinlein coordenada por Medeiros e manteve uma invejável regularidade, publicando quatro volumes por ano, sem falhas.
Nos primeiros tempos do fanzine, Medeiros costumava apresentar amplas listas de pesquisa, a partir do que publicou em fascículos o ousado Acervo Bibliográfico em Língua Portuguesa de Ficção Científica que pretendia relacionar, em ordem alfabética por autor, todos os contos do gênero publicados em português. Mais tarde, Medeiros os reuniu em um único volume e, mesmo incompleto e desatualizado, ainda é uma ferramenta valiosa e sem paralelo para os pesquisadores do gênero. O NFN também abriu um espaço enorme para autores novos e muitos trabalhos significativos foram publicados em suas páginas.
O editor fazia questão de uma apresentação limpa e organizada, meticulosa nos detalhes, mantendo sempre o mesmo formato em cópias perfeitamente legíveis. O fanzine também era rigoroso no conteúdo, de modo que as edições apresentavam sempre a mesma aparência geral. A linha editorial era conservadora e apegada a FC golden age, com uma generosa dose de tecnofobia: Medeiros recusou-se terminantemente a adotar a tecnologia digital. Nunca montou um site ou em blog e sequer teve um endereço eletrônico.
A certa altura, depois de uma consulta aos leitores, o fanzine reduziu a publicação de notícias e resenhas, privilegiando ficção e artigos de pesquisa. Aos poucos, deixou de publicar também as famosas listas, restringiu o corpo de colaboradores e ocupou a maior parte das páginas com reproduções de textos obscuros vistos revistas antigas e cópias de recortes de jornais. Nos últimos tempos, a divulgação e as resenhas de livros haviam retornado timidamente.
Um dos mais frequentes colaboradores do NFN foi o escritor carioca Miguel Carqueija. Eis aqui um trecho de sua mensagem na lista acima referida: "Num lacônico editorial, Ruby Felisbino Medeiros dá vagamente as razões: 'Várias causas obrigam-me a encerrar diversas tarefas'. O que provavelmente está pesando é a idade do editor (85 anos). E embora ele diga 'Procura-se outro editor', acho pouco provável que alguém mais assuma... Quem acompanha, como eu, a FCB desde os anos 80, pode constatar como os tempos mudaram e como a internet mudou os hábitos de autores e editores, no plano amador."
Dr. Ruby dedicou-se também a ajudar os colecionadores amigos a conseguirem livros raros de FC&F, e foi o criador da expressão "Cemitério da FC", o lugar para onde iriam as extintas publicações brasileiras de FC . Lamentavelmente, o NFN também para lá agora se encaminha.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Festão do Baraldão 2009


O multipremiado cartunista Márcio Baraldi preparou uma festa para receber amigos e leitores para o lançamento de seu novo álbum de quadrinhos.
Hey-ho... let´s go, o 12º de sua carreira e quarto volume de Roko Loko e Adrina Lina, personagens publicados ininterruptamente há 14 anos na revista Rock Brigade. Os álbuns são compilações das histórias lá publicadas.
Hey-ho... let´s go traz prefácios de Franco de Rosa e Sidney Gusman, pin-ups de Getúlio Delphim e Mozart Couto, e textos de personalidades da HQ e do rock nacional. A edição é da Opera Graphica para o selo "GRRR!... Gibi Raivoso, Radical e Revolucionário!", exclusivo de Baraldi.
A festança vai rolar no dia 5 de dezembro, das 14 às 19 horas, no Bar Blackmore (Alameda dos Maracatins, 1317, São Paulo), com salgadinhos, vinho e refrigerante na faixa, shows das bandas Exxótica e Cracker Blues, mágico, caricaturistas, discotecagem de Adriano Coelho e "otras cositas mas". O evento abrigará também a entrega da segunda edição do Troféu Bigorna para os melhores dos quadrinhos brasileiros. A entrada é franca e todos estão convidados.
Dê uma olhada neste "reclame" do Marcião, que está impagável. Para quem morria de vergonha de falar em público, foi evolução e tanto.
É isso aí, Baraldão. Sucesso!