terça-feira, 11 de abril de 2023

Peryc e Profecia

Jerry A. Souza é um nome conhecido dos anos 1990 – a empolgante era de ouro dos fanzines brasileiros –, editor do fanzine Profecia, dedicado aos quadrinhos nacionais. Infelizmente, a maior parte daquelas publicações desapareceu, mas o Profecia segue sua carreira na internet, agora no selo editorial Profecia Comics que acaba de disponibilizar o número 35 do fanzine, quarto volume da série Savage worlds, com aventuras de "Peryc, o mercenário", criação de Denilson Reis no ambiente da fantasia heróica. 
A edição tem 36 páginas e traz a primeira de três partes de uma nova aventura do personagem, com roteiro de Jerry e desenhos de Jader Correa. Ao final, será produzida uma edição impressa com a história completa.
Profecia pode ser lido online ou baixado gratuitamente no saite da publicação, aqui. Edições anteriores também estão disponíveis. Exemplares em formato impresso podem ser encomendados com o editor. 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: A bondade dos estranhos, João Barreiros

A bondade dos estranhos, João Barreiros. 210 páginas. Capa: Verena Peres, sobre ilustração de Marcelo Tonidandel. Adaptação para o português brasileiro por Luiz Marcos da Fonseca. Tarja Editorial, São Paulo, 2011.

Um dos mais bem-vindos fenômenos da Segunda Onda da ficção científica brasileira foi o intercâmbio com os autores portugueses, efetivado inicialmente através dos fanzines brasileiros e robustecida pela presença de representantes brasileiros nos congressos de fc&f realizados em Portugal, eventos estes em tudo mais sofisticados que seus correlatos brasileiros, uma vez que contavam com a presença de ilustres autores anglófonos e até com a publicação de raras antologias bilíngues nas quais alguns autores brasileiros lograram estampar trabalhos. Essa convivência exigiu a criação do termo “ficção lusófona” para se referir aos trabalhos de fc&f em língua portuguesa, não importando a nacionalidade do autor. Hoje, essa convivência já não é tão próxima quanto foi nos anos 1990, mas ainda se observa em algumas antologias brasileiras e portuguesas.
De forma geral, a relação só trouxe benefícios para a ficção científica no Brasil, uma vez que os autores portugueses demonstram habilidade e sensibilidade superiores em relação ao trato da língua e do gênero, sendo bons exemplos de criatividade e técnica.
Entre os autores lusitanos que desenvolveram uma relação mais íntima com o fandom brasileiro está João Manuel Barreiros, que teve diversos trabalhos aqui publicados, em fanzines como o Somnium, Megalon e Scarium, alguns deles premiados. Por isso tudo, é surpreendente que tenha demorado tanto tempo para que um editor brasileiro percebesse o valor do texto de Barreiros.
A bondade dos estranhos está com toda a certeza entre os melhores textos de fc já publicados no Brasil, com altas doses de ação, aventura, emoção e maravilhamento, sem esquecer do estilo arrojado característico do autor. O romance foi publicado em Portugal em 2007 pela Escritório Editora e promete ser o primeiro volume de uma trilogia.
A narrativa é voluptuosa e sensual, repleta de um fremir ansioso por mais e mais, numa orgia de violência e escatologia. Mas não há sexo em A bondade dos estranhos. O apelo é muito mais básico: a fome e a gula.
Num futuro em que a Terra foi definitivamente colonizada por diversas raças alienígenas, vive Joana Mendes, uma adolescente que, quando criança, foi selecionada para participar do projeto experimental Candy-Man, que lhe legou uma habilidade empática especial, mas deixou sequelas psicológicas graves. Os danos causados pelo despertar das habilidades de Joana são usados como instrumento de chantagem para convencê-la a cuidar, durante 24 horas, dos filhotes de um dos mais altos dignitários de uma das raças alienígenas que agora dominam o planeta. A tarefa seria fácil, não fossem eles de uma espécie predadora cuja agressividade se manifesta mais abertamente durante a juventude.
O cenário desse futuro também não é dos mais alvissareiros. A Terra está dividida entre três raças alienígenas invasoras que são concorrentes entre si: os angsts e os spleens, ambos absolutamente misteriosos para a percepção humana; e os spiertvick’kaps, um tipo de escorpião gigante, também chamados de helloweens por causa de sua cabeça em forma de abóbora. Apesar das evidentes diferenças físicas e culturais, é a raça alienígena mais identificada com a percepção e psicologia humanas. A presença dessas raças no planeta causa inúmeras e imprevisíveis alterações no ecossistema e na biologia terrestres, suas genéticas interagindo com animais e plantas nativos, transformando o planeta num ambiente em efervescente mutação.
Para não ser ainda mais responsabilizada pela misteriosa tragédia que aconteceu quando do despertar de suas habilidades, Joana aceita o “convite” da embaixadora spiertvick’kap Vielmina Spratzt, que vai ausentar-se para uma conferência e precisa que alguém tome conta de sua ninhada de nada menos que 500 filhotes. Joana vai contar com a orientação e supervisão de Mr. Jeeves, um mordomo robô tão formal quanto rigoroso. Para ele, a jovem humana nada mais é que um grande aborrecimento.
Joana tem que usar toda a sua capacidade empática para se impor frente aos vorazes filhotes, o que por si já não é tarefa fácil. Mas não é tão simples assim. No processo, Joana descobre que nos bastidores da propriedade de Vielmina Prazt prospera algum tipo de conspiração, cuja necessidade é que ela não saia de lá viva, mas Joana está resoluta a não colaborar com o esquema.
O romance tem características cyberpunks óbvias, mas também apresenta contornos New Weird, sendo exemplo bem acabado do que há de mais moderno na ficção científica internacional, um caldo de informações tão abundante e rico que o leitor brasileiro, acostumado a dietas mais leves, pode ficar perturbado.
Não é por acaso. João Barreiros é um especialista em fc, dono de uma biblioteca invejável que parece ter lido integralmente. Além de escritor, é tradutor, editor e crítico, formado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Ganhou dois Prêmios Nova e é autor de alguns dos mais festejados romances de fc em língua portuguesa, como Disney no céu entre os Dumbos (E-nigma Pro, 2001), A verdadeira invasão dos marcianos (Presença, 2004), e o volumoso Terrarium: Um romance em mosaicos (Caminho, 1996), em parceria com o escritor português Luís Filipe Silva. Também publicou as coletâneas O caçador de brinquedos e outras histórias (Caminho, 1994), Duas fábulas tecnocráticas (do autor, 1997) e Se acordar antes de morrer (Gailivro, 2010).
Por tudo isso, A bondade dos estranhos é leitura obrigatória a todos aqueles que querem ter uma verdadeira experiência literária gnóstica e gastronômica. Se é que você me entende.

sábado, 8 de abril de 2023

QI 181

O fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, é inteiramente dedicado ao estudo das histórias em quadrinhos, destacando a produção independente e os fanzines brasileiros. 
O número 181, referente ao período maio/junho de 2023, apresenta o inusitado detalhe de ter 42 páginas! Isso pode parecer normal em uma revista eletrônica, mas numa publicação impressa é algo fundamentalmente impossível, uma vez que, ao se dobrarem as folhas para formar o caderno, o resultado na quantidade de páginas será necessariamente um número múltiplo de quatro, ou seja, 40 ou 44. Como foi possível então ter apenas 42? O segredo está na capa, que apresenta uma solção gráfica diferenciada que serve de suporte para um curioso jogo gráfico com duas dobras de modo a expandir a primeira capa no dobro da largura. Para isso, o editor produziu as páginas 1 e 2 em uma folha à parte e depois a colou num caderno de 40 páginas. Mas isso só pode ser experimentado na edição impressa do fanzine, que traz artigos de Alex Sampaio, Pedro José Rosa de Oliveira, E. Figueiredo, Fábio Sales, Lio Guerra Bocorny e do editor, além de quadrinhos de Henrique Magalhães, André Carin e Luiz Iório, Mário Labate, Manoel Dama, Mário Latino, Julio Shimamoto, Luiz Claudio Lopes Faria e Guimarães. Completam a edição as colunas "Fórum" com 16 páginas de cartas dos leitores, "Edições independentes" divulgando lançamentos de fanzines do bimestre anterior e "Mantendo contato", de Worney Almeida de Souza. 
Junto a esta edição do QI, os assinantes receberam o segundo fascículo da série Sacolas pelo Mundo, com 8 páginas, e o sexto fascículo da série Mestres das Histórias em Quadrinhos, com 56 páginas (múltiplo de quatro!) inteiramente dedicadas a homenagear a vida e a obra de quadrinhsta português José Ruy, um estudioso da arte e colaborador do fanzine, que nos deixou no dia 23 de novembro de 2022. 
Exemplares impressos do QI e seus encartes podem ser adquiridos mediante assinatura. Mais informações, diretamente com o editor pelo email edgard.faria.guimaraes@gmail.com. Contudo, versões digitais de todas as edições, desde o primeiro número, bem como de seus encartes, estão disponibilizadas no saite da editora Marca de Fantasia, aqui.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Lançamento: A última margem de Terramar

Finalmente é publicado no Brasil, num lançamento da editora Morro Branco, o romance de fantasia A última margem (The farthest shore), da multipremiada escritora americana Ursula K. Le Guin (1929-2018), terceira parte da saga de Terramar, cujos volumes iniciais, O feiticeiro de Terramar e As tumbas de Atuan já tiveram diversas edições por aqui, inclusive pela própria Morro Branco.
Originalmente publicada nos EUA em 1972, A última margem completa o primeiro e principal arco da saga, que teve continuidade décadas mais tarde nos livros Tehanu (1990), Tales from Earthsea (2001) e The other wind (2001). A edição brasileira tem capa dura, tradução de Heci Regina Candiani e traz as ilustrações de Charles Vess premiadas com o Hugo em 2019. 
Diz o texto de divulgação: "A ordem foi rompida. Cantores esqueceram suas canções, feiticeiros não lembram mais como evocar seus poderes, habitantes mergulham em uma prometida imortalidade e as fontes vitais da magia estão secando. Ged, feiticeiro e Senhor dos Dragões, decide adentrar em mares sem fim para encontrar a fonte dessa ruína e conter o inexplicável mal que se espalha rapidamente. Com a ajuda do jovem príncipe de Enlad, Arren, ele embarca pelas águas que circundam as ilhas do continente em uma jornada traiçoeira que testará suas forças e desejos. Para restaurar a magia e trazer de volta o equilíbrio às terras afligidas pela destruição, os dois precisarão desbravar os cantos mais remotos do mundo, ultrapassando sua última margem — até os confins do reino da morte, de onde talvez não consigam mais voltar."
Ursula K. Le Guin é uma das mais prestigiadas autoras de ficção científica em todos os tempos, dona de um estilo limpo e preciso, e de uma obra vasta que trata de questões tão importantes e sensíveis como política, alteridade e identidade de gênero. Foi agraciada com vários prêmios Hugo, Nebula, Locus, Jupiter e o National Book Award, entre outros. 
A última margem já se encontra em pré-venda, aqui.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Conexão Literatura 93

O periódico eletrônico Conexão Literatura, editado por Ademir Pascale e dedicado à divulgação e publicidade de novos autores e obras da literatura brasileira, traz nas 115 páginas da edição 93, referente a março de 2023, contos de Mirian Santiago, Vinícius Jales, Ney Alencar, Idicampos, Iraci Marin, Mónica Palacios, B. B. Jenitez e Roberto Schima, além de entrevistas com artistas, poemas, crônicas, resenhas e artigos de assuntos variados.
A revista tem distribuição gratuita e esta edição pode ser baixada aqui. Números anteriores também estão disponíveis.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Mitologia Aberta

Publicado desde fevereiro de 2021, Mitologia Aberta: Revista de livres pensadores mitológicos é um periódico dedicado ao registro e à discussão da mitologia sob a ótica da cultura pop, com edição da socióloga paulistana Larissa Dias. 
O tema até pode soar árido, mas não é não. Isso porque não há recortes: todas e quaisquer mitologias estão no campo de interesse da revista, bem como todas e quaisquer abordagens artísticas. Tanto é que a revista já vai pelo número 16, lançado em abril de 2023. 
Com 90 páginas, esta edição tem colaboração de Adriana Gonçalves de Freitas, Estevam Cervone, Andreia Capraro, Leonardo Tondato, Luis Ribeiro, Caio Kehyayan, Luiz Júnior e Luciana Mandu Lima em artigos e ensaios que tratam de séries de tv, livros, música e quadrinhos, com uma resenha ao álbum Últimos deuses, de Eric Peleias e Hiro Kawahara, publicação independente lançada em 2018. A capa traz uma ilustração do quadrinhista Will. 
Mitologia Aberta pode ser lida ou baixada gratuitamente aqui. O saite da publicação oferece também todas as edições anteriores em pdf e para leitura online.

domingo, 2 de abril de 2023

Resenha do Almanaque: Associação Judaica de Polícia, Michael Chabon

Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), Michael Chabon. 472 páginas. Tradução de Luis Antônio de Araújo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

O escritor americano Michael Chabon impactou o ambiente literário com seus livros anteriores, Garotos incríveis (Wonder boys, 1995), As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (The amazing adventures of Kavalier & Clay, 2001, prêmio Pullitzer) e Summerland (2002), livros que margeiam a literatura de gênero. E ninguém diria que Associação Judaica de Polícia fosse um texto fantástico. Afinal, não seria de surpreender caso existisse mesmo uma Associação Judaica de Polícia. Mas o livro chegou ao Brasil referendado pelos prêmios Hugo, Nebula e Sidewise, portanto, deve estar instalado em algum lugar entre a ficção científica e a fantasia. O interessante é que não dá para dizer exatamente onde. Há uma premissa de história alternativa, mas ela é apenas uma base cenográfica, já que está claro que o que importa a Chabon não é fazer exercícios acadêmicos de historiografia.
Trata-se da história do detetive de polícia Meyer Landsman que, tarde da noite, é chamado pelo gerente do hotel decadente onde mora para ver o que aconteceu a outro morador, um jovem viciado em heroína que foi executado em seu quarto. O estranho morto a tiro é um judeu, como são todos ali em Sitka, cidade litorânea do estado do Alasca. Ao seu lado, um tabuleiro de xadrez com as peças distribuídas numa organização improvável. O detetive faz seu trabalho meticulosamente, aciona o polícia técnica e decide assumir a investigação do caso porque, afinal, ninguém devia ter matado um vizinho dele. Landsman se coloca assim no rastro de um plano terrorista que envolve um atentado a cidade de Jerusalém, o advento do messias dos judeus, a descoberta dos reais motivos da morte de sua irmã alguns anos antes, e a redenção de sua vida miserável.
Na realidade dessa linha histórica, a segunda guerra mundial teve um desfecho ligeiramente diferente. Chabon não detalha essas condições mas, num certo momento, cita uma explosão nuclear em Berlim. Mas o grande efeito visível é que o estado de Israel não foi implementado na Palestina, como em nossa realidade. Sem pátria, os judeus espalhados pelo mundo foram abrigados temporariamente no Alasca, com alguma autonomia política, mas a hora de devolver o território aos EUA se aproxima e a maioria daqueles quatro milhões de judeus não tem a menor ideia para onde ir, uma vez que Israel não existe e ninguém parece muito ansioso em receber esse contingente sem-teto.
O instável estado político reflete-se nas reações entre as personagens. Ali desfilam dramas e idiossincrasias de uma comunidade judia em desconstrução, com rabinos mafiosos, um agrimensor que tem a estranha tarefa de tornar santos os caminhos do judeus ortodoxos, jogadores de xadrez (o único jogo que um judeu pode praticar), enxadristas que mais parecem espiões da guerra fria, milícias paramilitares e um casca-grossa chefe de polícia indígena.
Aos poucos conhecemos a personalidade de Landsman, seus amigos e parentes, como seu parceiro Berko Shemets, um enorme índio tlingit mestiço judeu, que carrega um martelo de guerra que faz tremer o mais valente dos capangas. E sua ex-esposa Bina Gelbfish que, não por acaso, acaba por ser sua chefe de departamento. Landsman ainda nutre algum carinho por ela, mas que os pecados do passado dificultam uma reaproximação.
Está explícita a inversão de valores que Chabon faz com o atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York. A imagem das colunas de fumaça negra elevando-se de uma Jerusalém destruída, transmitidas em rede mundial de televisão e sendo festejada às lágrimas pelos militantes judeus, é bastante reveladora. Onde você estava quando Jerusalém queimou?
Chabon adota neste livro um projeto similar ao que vimos em Laranja mecânica (A clockwork orange, 1962), de Anthony Burgess, com um amplo uso de neologismos e gírias inventadas a partir de palavras iídiches e alemãs, associadas ao inglês americano. Um pequeno dicionário ao final ajuda na compreensão desse linguajar. A narrativa é naturalista e seca, de humor irônico muito ácido, com influências óbvias do romance policial de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Traz imagens detalhadas que transportam o leitor para aquele ambiente setentrional e, em alguns momentos, flerta até com o faroeste.
Na falta de uma classificação precisa, vamos dizer que Associação Judaica de Polícia seja uma peça de história alternativa. Só para facilitar a percepção de que, de fato, não é.
O romance foi bem recebido no mainstream e teve os direitos reservados para o cinema pelos respeitados irmãos Joel e Ethan Coen.