sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Resenha: O Mundo Resplandecente, Margaret Cavendish

O Mundo Resplandecente
(The Blazing World), Margaret Cavendish. Tradução de Milene Cristina da Silva Baldo. 151 páginas. São Paulo: Plutão, 2019. Originalmente publicado em 1666.

Cento e cinquenta anos antes do Frankenstein, de May Shelley, uma outra mulher, também britânica, ousou enveredar pela ficção fantástica em busca de uma utopia. Margaret Cavendish (1623-1673), também conhecida como Duquesa de Newcastle-upon-Tyne, foi uma filósofa e cientista muito respeitada, tendo sido a primeira mulher recebida na Royal Society of London, em 1667. Em sua época, Cavendish travou debates com contemporâneos importantes como Thomas Hobbes e René Descartes. 
Sua contribuição ao desenvolvimento da ficção científica se deu com o romance O Mundo Resplandecente, um texto incomum que reúne ensaio filosófico, feminismo, construção de mundos e aventura de ação a partir da descrição de um mundo ideal, aos moldes da Utopia de Thomas More (publicado em 1516) com contornos mais fantásticos, o que remete ainda a As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, publicado muito depois, em 1726.
A história conta como uma jovem inglesa é raptada por piratas e levada para longe num navio. Atingido por um inverno especialmente rigoroso no Círculo Polar Ártico, apenas ela sobrevive devido ao vigor de sua juventude. À deriva, o navio é arrastado por uma corrente marinha e chega ao Mundo Resplandecente, um lugar habitado por seres híbridos de homens e animais que vivem em paz e riqueza abundantes. 
No Mundo Resplandecente, que leva esse nome devido as estrelas especialmente luminosas que tornam suas noites tão claras quanto o dia, a beleza da jovem atrai a atenção do Imperador daquela terra, com quem acaba por se casar. Dotada de poderes de governança absolutos, a jovem Imperatriz implementa uma administração com resultados ainda mais fabulosos para seu povo. Amada pelo Imperador e por todos os súditos, requisita os conselhos de uma Duquesa de um outro mundo, que vem visitá-la em espírito e com ela empreende longos debates e uma missão de guerra contra o mundo dos homens, no qual as nações se uniram para destruir a Inglaterra. Dotada das tecnologias mais avançadas do Mundo Resplandecente, a Imperatriz subjuga todo o planeta com o uso de uma frota invencível de submarinos de ouro, fazendo do Rei da Inglaterra o governante plenipotenciário do mundo inteiro. 
O livro está dividido em duas partes, mas tem de fato três movimentos principais. Depois de poucas páginas explicando como a jovem dama se tornou a Imperatriz do Mundo Resplandecente, temos um longo trecho no qual a Imperatriz interroga todas as castas de homens-animais do reino a respeito de seus conhecimentos filosóficos, sendo cada uma especialista em uma área do conhecimento. Similar a um ensaio dialógico platônico, o texto expõe as ideias filosóficas de Cavendish, no qual ela defende o platonismo e ridiculariza a lógica aristotélica. A segunda parte conta como a Imperatriz convoca o espírito da Duquesa, que com ela chega a dividir o próprio corpo – bem como o marido da Duquesa – e as muitas viagens que fizeram juntas. A terceira parte narra a bem sucedida campanha militar da Imperatriz contra o mundo dos homens. 
Salta aos olhos a nulidade da ação masculina nas três realidades descritas no enredo. No Mundo Resplandecente, o Imperador é uma figura acessória e despersonalizada, uma vez que todo o poder está depositado nas mãos da Imperatriz. No mundo da Duquesa, o Duque é um homem endividado que só pode ser salvo da ruína com a ajuda da riqueza da Imperatriz. E, no nosso mundo, o Rei da Inglaterra só pode manter-se no poder com a ajuda militar das forças comandadas pela Imperatriz. 
Por conta de suas ideias inusitadas, muitos consideram O Mundo Resplandecente como o primeiro exemplo evidente de ficção científica na literatura, embora não estejam ali ainda as técnicas narrativas do romance moderno que podem ser aprecisadas em Frankenstein de Mary Shelley. Mas temos que reconhecer a primazia de Cavendish em muitos temas caros ao gênero, bem como a evidente proposta feminista muito antes de Mary Wollstonecraft (1759-1797) – mãe de Mary Shelley e filósofa respeitada, que primeiro desenvolveu textos em defesa dos direitos das mulheres. 
A edição da Plutão, em versão digital, é de alta qualidade, como também o é nos demais livros por ela publicados. Traz os prefácios das duas primeiras edições (1666 e 1668) e mantém o texto em sua forma original, sem divisões entre capítulos. As notas da tradutora Milene Cristina da Silva Baldo auxiliam no entendimento das muitas referências históricas do texto, que ficaria hermético sem elas. 
O Mundo Resplandecente recebeu outras edições no Brasil, como a da Rinocerote (2019, com tradução de María Fe González Fernández) e da Novo Século (2021, com tradução de Alcebíades Diniz). Talvez existam outras que não consegui identificar. 
Ainda que não seja uma leitura convencional, O Mundo Resplandecente não é difícil de ler, mesmo em seus trechos mais filosóficos. A autora certamente queria torná-lo um livro popular e obteve relativo sucesso nisso. Tanto que aqui estamos, quase quatrocentos anos depois, ainda a falar dele. Um livro que obriga a refletir nossas certezas a respeito das origens da ficção científica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário