quarta-feira, 30 de junho de 2010

Fantasmas do século XX


Terminei de ler, há alguns dias, a coletânea do escritor americano Joe Hill, Fantasmas do século XX (20th century ghosts), publicada no Brasil em 2008 pela editora Sextante e premiada com o Bram Stoker, o British Fantasy e o International Horror Guild. A introdução do volume é assinada por Christopher Golden.
Não é segredo que Joe Hill é filho de Stephen King, e essa ascendência levou-me a crer que o jovem Joe Hill (nascido em 1972) de alguma forma fosse uma miniatura do pai e que dele fizesse pastiches e simulacros, de modo que a princípio eu não me entusiarmei com o título, pelo menos até saber do reconhecimento internacional que tanto a coletânea quanto vários dos contos presentes neste volume receberam.
"O melhor do novo horror" ("Best new horror" - prêmios British Fantasy e Bram Stoker) abre o volme e é o melhor texto da coletânea. Metalinguagem com ecos de O massacre da serra elétrica, mas com um algo mais que certamente vai apavorar quem vive em meio a livros e fanzines de horror.
"Fantasma do século XX" ("20th century ghost", prêmio Bradbury Fellowship) conta sobre um velho cinema assombrado pelo fantasma de uma garota e a maneira como um jovem se apaixona por ela. Participação especial de Steven Spielberg, com o nome trocado, é claro.
"Pop art" ("Pop art") fala sobre os problemas existenciais de um menino inflável. Delicioso.
Em "Vocês irão ouvir o canto do gafanhoto" ("You will hear the locust sing"), um jovem vira um inseto gigante e inicia uma cruzada de violência na cidade, óbvia citação a Kafka, com um quê de Carrie.
A ficção alternativa "Os meninos de Abraham" ("Abraham's boys") conta o que aconteceu depois dos eventos vistos em Drácula. Abraham Van Hellsing casa-se com Mina e com ela tem um filho. A família Hellsing migra para os EUA, onde nasce mais um menino. Mina morre e Abraham tem que criar as crianças sozinho. Mas ele é um pai rigoroso, paranóico com a ideia de que os vampiros ainda os estão perseguindo e os filhos sofrem com sua obsessão.
"Melhor do que lá em casa" ("Better than home" - prêmio A.E. Coppard) não é de horror, mas é delicioso. Um moleque cheio de encucações, cujo pai é jogador de beisebol profissional em um time da segunda divisão, conta suas impressões sobre os demais membros da família, em relatos maravilhosos do tipo Forest Gump.
"O telefone preto" ("The black phone") mostra como um garoto sequestrado por um psicopata encara a morte iminente.
"Encurralado" ("In the rundown") conta como o terror pode invadir a vida de qualquer um, seja durante um jogo de beisebol ou no caminho de casa depois do trabalho. Terror real, mas demasiado poético para ser realmente assustador. A poesia manda o medo para segundo plano.
"A capa" ("The cape") relata o que provavelmente um sociopata faria se pudesse voar.
"O último suspiro" ("Last breath") é uma belezinha. Uma família bem convencional visita, por acaso, um museu que guarda em grandes frascos, os últimos suspiros de várias personalidades famosas. Entre os silêncios engarrafados, por exemplo, o derradeiro suspiro de Edgar Allan Poe. As pessoas escutam o não-som engarrafado com estetoscópios e compartilham as últimas emoções do falecido. Um museu que deveria existir.
Depois, o curtíssimo "Madeira morta" ("Dead-wood"), sobre árvores fantasmas. Bom demais.
Em "O desjejum da viúva" ("The widow's breakfast"), um vagabundo chega a uma casa no meio de uma floresta e lá encontra uma viuva e suas três filhas pequenas. Narrativa realista, com um clima estranho mas muito suave, repleta de tragédia humana.
Em seguida, um dos melhores contos da coletânea: "Bobby Conroy volta dos mortos" ("Bobby Conroy comes back from the dead"). Mais uma vez, quase nada de fantasia... A narrativa é tão naturalista que o título parece uma licença poética, mas o desfecho é genial, que não é surpresa e não deixa dúvidas. Com participações especiais do maquiador Tom Savini e do cineasta George Romero, afinal a história se passa durante as filmagens de Dawn of the dead.
"A máscara do meu pai" ("My father's mask") é o penúltimo conto do livro. Um casal leva o filho adolescente à sua casa de veraneio para um final de semana em família. A mãe é uma mulher invulgar e ambígua, e o pai parece ser totalmente subordinado a ela. No caminho, a mãe inventa histórias malucas e propõe brincadeiras estranhas ao filho. Eles estão com problemas financeiros e parecem estar sendo perseguidos "pelas pessoas do baralho", como diz sua mãe, no que parece ser apenas mais uma das brincadeiras dela. Na casa de campo, um monte de máscaras, e a mãe recomenda que o menino as use o tempo todo para enganar as "pessoas do baralho". Como está frio, ela suspeitamente manda o menino buscar lenha na floresta para acender a lareira e, como numa história de fadas, recomenda que ele nunca saia da trilha. Na floresta, quando o garoto encontra as versões adolescentes de seus pais, fica claro que sua vida nunca mais será a mesma.
O conto final, "Internação voluntária" ("Voluntary committal" - World Fantasy para melhor novela), é muito perturbador. Só não supera em qualidade aquele que abre a antologia, o que revela o perfeito trabalho de estrutura da coletânea, com os dois melhores contos abrindo e fechando o volume. Fala de um garoto com problemas mentais que ajuda o irmão mais velho a se livrar de um problema. Ele constrói, no porão, um labirinto de caixas de papelão que transporta quem andar por ele para algum lugar que não se sabe onde é, para nunca mais voltar. Gosto de pensar que a vítima vai para o País das Maravilhas, mas quando lembro do romance de Stephen King, Os estranhos, em que um garoto metido a mágico manda o irmão para um lugar horrível, sinto-me mal.
Mas Hill ainda guardava uma carta na manga, um derradeiro conto embutido no posfácio. Diz o autor que fez isso porque queria ser tão criativo quanto Neil Gaiman, que havia embutido um conto em um prefácio (em Coisas frágeis, se não me engano). E lembro que King já havia embutido um conto numa nota de pé de página (em Dança macabra, se também não me trai a memória). Trata-se do interessante e curtinho "A máquina de escrever de Cherazade" ("Scheherazade's typewriter"), outro texto metalinguístico muito inspirado, sobre a máquina de escrever de um escritor falecido que continua a gerar romances por conta própria.
Fantasmas do século XX é um ótimo livro. Joe Hill não é imitador do pai e seu talento é suficientemente grande para que ele construa uma identidade literária independente, coisa que ele já comprova aqui. Coletânea altamente recomendada, tanto para quem gosta de horror quanto para quem não gosta.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lua Negra

O fechamento do Anuário 2009 combinado com a Copa do Mundo mais uma gripe enjoada, me deixou fora de combate por alguns dias, mas não quero terminar o mês sem atualizar alguns posts, então vamos lá.
A escritora andreense Laura Elias anuncia que está previsto para 9 de julho próximo a distribuição de Lua negra, segundo volume de saga vampírica dos Red kings, iniciada em 2009 com o romance Crepúsculo Vermelho, pela editora Mythos.
Laura apresenta assim a sinopse de seu novo trabalho: "Após ter sido salva das garras da morte pelo sangue de seu amado Bill Stone, a jovem Megan Grey se vê às voltas com o misterioso avanço de criaturas monstruosas, que deixaram o gélido Ártico rumo à cidade de Red Leaves. Por alguma razão, a aproximação de tais criaturas está criando o pior inverno de todos os tempos no Hemisfério Norte. Como se isso não bastasse, Megan enfrenta transformações no próprio corpo, que ameaçam substituir sua natureza humana por outra, animalesca e totalmente selvagem.

Gigantes ancestrais, vampiros, rovdyrs, ódios e segredos milenares, temperados por uma paixão que atravessou vários séculos unem-se no segundo volume da Saga Red Kings, lançando a jovem Megan em um abismo de sombras, onde somente morrendo ela poderá continuar viva."
E para quem perdeu o volume inicial, a editora Mythos redistribuiu Crepúsculo vermelho nas bancas, preparando assim o mercado para este segundo volume. Ainda que seja uma publicação de banca, a qualidade dos volumes é muito boa, as capas são bem feitas como se pode ver, e o preço é convidativo. E como Crepúsculo vermelho vendeu muito bem, a autora deve ter gozado de mais liberdade na elaboração deste novo romance. Vale a pena conhecer.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Melhores do Ano

Em março, falei aqui da iniciativa da escritora Ana Cristina Rodrigues em apurar os preferidos das comunidades virtuais de FC&F a respeito do que foi publicado em 2009 nos gêneros fantásticos em 14 categorias.
Aqui está a relação dos vencedores, divulgada hoje pelo twitter da Fábrica de Sonhos:

Romance: Kaori, de Giulia Moon, Giz Editorial;
Antologia: Anacrônicas, Ana Cristina Rodrigues, Editora A1;
Coletânea: Steampunk, Gianpaolo Celli, org. Tarja Editorial:
Conto: "O mapa para a terra das fadas", de Ana Cristina Rodrigues, e "Uma vida possível atrás das barricadas", de Jacques Barcia, empatados:
Não-ficção: Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica - 2008, Cesar Silva & Marcello Simão Branco, Tarja Editorial;
Revista: Scarium MegaZine;
Ebook: Empadas e mortes, de M. D. Amado, edição do autor;
Ezine: Black Rocket;
Site de contos: Estranho e Esquésito;
Sites informativos: Fantastik e Homem Nerd, empatados;
Colunista/Resenhista: Eric Novello;
Editor: Ademir Pascalle;
Editora: Draco;
Capa: Metamorfose, Ademir Pascalle, Editora All Print.

Ana Cristina anunciou no Ortkut que vai publicar amanhã uma relação mais detalhada no blogue Comunidade FC.
De minha parte, fiquei muito feliz em saber que o pessoal gosta tanto assim do Anuário. Agradeço a todos os que votaram nele e garanto que tanto eu quanto o Marcello Simão Branco, que o escreve comigo, nos esforçaremos para fazê-lo ainda melhor este ano. Obrigado a todos.

Tempo de comédia


Ainda que não seja o gênero mais popular do mundo, a ficção científica é bastante fácil de ser encontrada no Brasil, especialmente no cinema e na televisão, mas pode ser vista também nos
livros e nas histórias em quadrinhos com alguma frequência. Contudo, é raríssima no teatro. Muito de vez em quando alguma peça ousa aventurar-se no gênero e raramente aparece no grande circuito da cidade. Por isso eu não podia deixar de registrar aqui a temporada de Tempo de comédia, em cartaz no Teatro Sesi, no Centro Cultural FIESP, até 4 de julho.
Trata-se uma comédia de ficção científica de autoria do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn (Comic potential, no original), que parte do princípio que, no futuro, os atores das novelas de televisão serão substituídos por robôs. Uma das máquinas apresenta defeito, mas o autor na novela decide explorá-lo e levar a situação até as últimas consequências.
Apesar de ser uma comédia no estilo pastelão, é clara a inspiração na clássica peça R.U.R. do escritor checo Karel Capek, um dos pioneiros da ficção científica. Em seu texto, Capek tratou da questão de trabalhadores robôs e do acesso aos direitos básicos da existência, que também é o foco de Tempo de comédia.
A montagem brasileira é dirigida por Eliana Fonseca e tem no elenco Julia Carrera, Eduardo Muniz, Bia Borin, Sérgio Rufino, Luciano Gatti, Livia Guerra, Livia Lisboa, Ricardo Ventura, Malu Pessin e Luis Damasceno.
As sessões rolam aos sábados e domingos às 15 horas, mas não haverá espetáculo no dia 20/06 por causa do jogo da Copa.
O Centro Cultural Fiesp fica na Av. Paulista, 1313 e a entrada é franca. É ou não é uma excelente pedida?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

QI 103

Esta semana chegou, pelo correio, a edição de maio/junho do indispensável Quadrinhos Independentes, de Edgard Guimarães.
O fanzine segue sem surpresas, com 24 páginas em ótimas cópias digitais em preto e branco. Os artigos trazem os elementos inovadores, com assuntos variados como Tarzan, enciclopédias sobre HQs e um depoimento, em forma de dossiê, do editor e quadrinhista Alvimar Pires dos Anjos que, ao longo dos anos 1980, publicou a excelente revista Factus. Uma entrevista com o quadrinhista Luiz Roberto Rosso, neto de Nico Rosso, e uma outra, rapidíssima, com o quadrinhista Henry Jaepelt, que era colaborador frequente do Hiperespaço nos temos do zine em papel.
Como o prometido, há mais quadrinhos no novo formato do QI: Me Mort e Rafael Pereira, Leo Santana, Daniel Barraco, Paulo Miguel dos Anjos e Aline Leal, Beto Menezes e o próprio editor, são os artistas presentes na edição. A indefectível lista de lançamentos de fanzines, que foi a gênese do QI, mantém-se um tanto reduzida mas ainda bastante útil.
Para adquirir o QI é necessário tornar-se assinante, pois o editor produz a quantidade exata para atender as assinaturas, não há venda avulsa. Mais informações através do e-mail edgard@ita.br.

José Saramago (1922-2010)

A língua portuguesa acaba de perder um de seus mais expressivos escritores, o português José de Sousa Saramago, ganhador do Nobel de Literatura de 1988.
Saramago é autor de alguns dos mais surpreendentes textos da moderna literatura mundial, entre os quais o seminal Ensaio sobre a cegueira (1995), filmado em 2008 por Fernando Meirelles. Um perturbador mergulho na natureza humana que pode perfeitamente ser lido como um texto de ficção científica.
Além deste, outros títulos do autor navegam na ficção fantástica, como A jangada de pedra (1986), Ensaio sobre a lucidez (2004), As intermitências da morte (2005) e História do cerco à Lisboa (1989), entre outros.
O estilo genial e inusitado de Saramago, com longos parágrafos sem pontuação, diálogos embutidos, e ainda assim perfeitamente compreensível, desmonta todas as teorias literárias conhecidas.
Saramago foi um crítico ferrenho do catolicismo e seu último livro, Cain (2009), foi recebido com muita antipatia pela igreja Católica Romana.
Apesar de Saramago ter sido o maior representante vivo da ficção portuguesa, com uma boa quantidade de títulos claramente instalados em gêneros fantásticos, nunca aceitou o rótulo de escritor de ficção fantástica e talvez por isso o fandom português de FC&F não teve com ele uma relação próxima. Mas isso não desqualifica em nada a sua obra maiúscula, que merece ser conhecida e, por que não, imitada pelos autores jovens.
Saramago faleceu nesta sexta-feira, 18 de junho, aos 87 anos, em sua casa em Lazanrote, vítima de leucemia crônica.

R.I.P. 2

Há alguns dias foi disponibilizado para download gratuito a segunda edição do fanzine virtual R.I.P. - Read in Peace, fanzine de horror editado por M. D. Amado pelo site Estronho que lançou seu primeiro número em maio.
Esta edição mantém a qualidade visual do número de estreia, bem organizada e limpinha, com propostas ousadas de design, como títulos e blocos de texto desalinhados ou inclinados que, se não são ideais do ponto de vista editorial, dão identidade fanzineira à publicação, e o editor comemora exatamente isso no editorial deste segundo número, rebatendo algumas críticas que recebeu sobre uma suposta intenção profissionalista, inclusive neste blogue. Esclarecidos esses aspectos técnicos, vamos ao que interessa, que é o conteúdo em si.
Não há um tema determinado para a edição, mas os dois artigos e a capa fazem referência aos zumbis, o assunto do momento. Contudo, o grosso das páginas é dedicado à publicação de contos e poesias, entremeados a divulgação de livros de várias editoras.
A edição traz contos de Eliane C. Santos, Maldch, José Garcia Albareda, Alessandro Reiffer, Peter Menegat e Susy M. Hekamiah, poemas de Agnes Mirra, Mirian Castillo, Emilia Ract, artigos de Ademir Pascale e Rober Pinheiro, quadrinhos de Sandro Zamboni e Evandro Guerra e uma entrevista com e escritora Celly Borges. Trata-se, portanto, de uma nova onda de autores de horror que está despontando junto com o trabalho abnegado de um grupo bem organizado de novos editores que assumiram a tarefa de agitar o ambiente do horror de verdade.
Ah, se fosse no tempo das HorrorCons...