sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Temos que pegar!

Ainda que não seja o gênero mais querido pelas editoras comerciais, a ficção científica conta com muitos adeptos, que têm dado vazão a seus escritos através da grande rede, de forma gratuita, a quem quiser ler. E não são coisas a se desprezar.
O experiente Miguel Carqueija disponibilizou no portal Recanto das Letras o ebook Histórias de mulheres, uma antologia com três contos fantásticos cuja característica comum é terem, como protagonistas, mulheres fortes e destemidas. O prefácio é assinado pela escritora Regina Madeira e o arquivo é apresentado em formato de texto.
Já o portal Entretextos foi escolhido por Ronald Rahal para tornar público o arquivo de texto Linha temporal alternativa do moinho e o tempo, que faz uma releitura de um conto original de Miguel Carqueija.
O escritor Goulart Gomes também disponibilizou gratuitamente, um arquivo pdf de seu primeiro livro de fc, Deixando de existir, publicado em 2009.

E finalmente, mas não menos importante, o trabalho mais ousado desta pequena lista, a antologia Universo desconstruído: Ficção científica feminista, organizada por Aline Valek e Lady Sybylla, com um conjunto de dez textos que discutem a questão feminista, a homofobia e o racismo pelo prisma da ficção científica. Participam do livro os escritores Ben Hazrael, Camila Mateus, Leandro Leite, Gabriela Ventura, Lyra Libero, Thabata Borine, Alex Luna e Dana Martins, além das próprias organizadoras. O livro está disponível em vários formatos digitais e também pode ser obtido no formato real, em papel, aqui.

Megalon 32

Está disponível a edição 32 do histórico fanzine de ficção científica e horror Megalon, originalmente publicada em outubro 1994.
Com 32 páginas, ela dá continuidade ao folhetim de fc de Miguel Carqueija, mais contos de Carlos Angelo e Alysson Ferrari, uma história em quadrinhos de José Carlos Neves, artigos de Jorge Luiz Calife e Gerson Lodi-Ribeiro, e traduz a entrevista que o escritor inglês Brian Lumley cedeu ao fanzine britânico Flikers' N' Frames, além de notícias e divulgação das ações do fandom naquele momento. A capa tem uma ilustração do Roberto Schima e download, gratuito, pode ser feito aqui.
Como de costume, o editor Marcello Simão Branco disponibilizou também um arquivo bônus, com documentação de eventos e lançamentos realizados no período.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Resenha: Mary

Todas as histórias em quadrinhos são mudas, porque, afinal não têm som. Mas entre elas, há um tipo muito especial de narrativa, que é aquele que não tem nenhuma palavra escrita, nada que simule a função do "som" que os quadrinhos nunca tiveram. Não são comuns e nem fáceis de achar. O melhor do quadrinho que se lê apenas pelas imagens é sua universalidade, não importa qual língua o leitor fale, a história será plenamente compreendida.
Alguns cartunistas usaram esse modelo narrativo com resultados belíssimos, como os clássicos Pinduca (Henry, no original), de Carl Anderson, e O Reizinho (The Little King) de Otto Soglow, ambos dos anos 1930. Eles demonstram muito bem o fundamento que o grande cartunista Will Einser (1917-2005) batizou como Arte Sequencial, a mais nobre característica dos quadrinhos.
No Brasil, o quadrinho mudo também não é comum, mas tem muitos admiradores, porque sua execução exige maestria e virtuosismo artístico. E é justamente isso que encontramos em Mary, de Magno Costa, um pequeno álbum de apenas 40 páginas publicado dentro da coleção Zug, da Balão Editorial.
A história mostra o drama de uma mulher vitimada pela Inquisição e as consequências funestas desse ato violento. Os desenhos, apenas um por página, são em preto e branco com belos tons de aguada, e têm uma expressividade perturbadora realçada pela esqualidez das personagens. A história não chega a aterrorizar, mas deixa no leitor o gosto amargo da cumplicidade pelo destino daquela gente confusa.
Magno Costa é um autor jovem, mas que já conta com um currículo respeitável. Premiado em 2011 com o HQMix de desenhista revelação, publicou anteriormente dois trabalhos muito bem avaliados pelos leitores: Oeste vermelho e Matinê, ambos em parceria com seu irmão gêmeo, Marcelo.
A Balão Editorial tem um conceito intrigante com a coleção Zug. Com formato semelhante ao de uma caixa de cd, no tamanho 13 x 13 cm, remete a uma situação do jogo de xadrez conhecida como zugzwang. Cada número da coleção é identificado com uma peça do tabuleiro. Todo mundo é feliz, de Mateus Acioli, é o peão branco. Como na quinta série, de DW Ribatski, é o peão preto (que pode – e deve – ser lido online, aqui). Mary é o terceiro volume, o bispo branco.
O preço acessível, de apenas R$13,00, é amplamente compensado pela qualidade do trabalho, um exemplo raro e didático de até onde uma história em quadrinhos pode ir nas mãos de um artista talentoso.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os números do Argos 2012

Há algumas semanas, mais exatamente durante o VII Fantasticon ocorrido em setembro último, foram anunciados os vencedores do Prêmio Argos, um dos poucos prêmio dedicados a observar a literatura fantástica no Brasil (o outro é o Codex de Ouro). Como já disse aqui, os vencedores foram Kaori e o samurai sem braço, de Giulia Moon, na categoria Romance, e "No vácuo você pode ouvir o espaço gritar", de Carlos Orsi, na categoria Conto, sendo ainda entregue um prêmio honorário ao escritor Braulio Tavares, pelo conjunto de sua obra.
O Prêmio Argos é uma promoção do Clube dos leitores de Ficção Científica. Teve algumas edições no início do século, parou por algum tempo e retornou em 2012, sendo esta a sua segunda premiação depois do interregno. A apuração está fundamentada na consulta aos membros do Clube, por voto direto em escrutínio único. Embora os vencedores sejam conhecidos desde então, é divulgada uma lista com os cinco finalistas de cada categoria, sendo os vencedores revelados na cerimônia de entrega dos troféus, de forma a criar alguma expectativa, aos moldes da entrega do Oscar.
Uma coisa que me incomodava no Argos era a falta da divulgação dos números finais da pesquisa que, na minha opinião, têm significado maior até que os nomes dos vencedores. Conversando com o presidente do Clube, atualmente o escritor Clinton Davisson, finalmente tive aceso às planilhas da premiação de 2012, que quase ninguém tinha visto até agora, arquivo este que pode ser consultado e baixado aqui.
As planilhas permitem perceber o cuidado dos organizadores no processo. São duas: uma mostra a classificação completa das duas categorias, com definição dos primeiros e segundo lugares (cada votante indica dois títulos por categoria, na ordem), o total de votos recebidos e a pontuação de cada título. A outra mostra a situação de cada voto, sem informar o nome do votante. Todos os votos estão lá, válidos ou não, especificando o motivo no caso de invalidação. Na categoria Contos, a planilha revela apenas os títulos votados em primeiro lugar, sem o mesmo detalhamento dado às indicações dos romances, muito mais completo.
O vencedor de 2012 na categoria Romance foi A guardiã da memória, de Gerson Lodi-Ribeiro, de longe o título mais votado, com 8 votos em primeiro lugar e 2 em segundo, num total de 18 pontos (são computados 2 pontos para cada primeiro lugar e 1 para cada segundo). Em segundo lugar ficou Os filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida, de Eduardo Spohr (5 pontos, dois primeiros lugares). Em terceiro, A ilha, de Flávio Carneiro (4 pontos, dois primeiros lugares), em quatro, B9 de Simone Saueressig (2 pontos, 1 primeiro lugar) e Sonho, sombras e super-heróis, de Luiz Brás, na quinta colocação (com 2 segundo lugares). Ainda foram citados outros dez títulos, lembrados apenas uma única vez, alguns em primeiro, outros em segundo lugar. Fica patente aqui um critério discutível, pois o Argos considera que dois segundos lugares valem mais que um primeiro, o que a mim não parece muito justo, mas vá lá.
Entre os finalistas, nomes conhecidos do fandom, a exceção de Flávio Carneiro, lembrado por dois votantes. A maior parte dos citados (não vou considerar os votos inválidos) são trabalhos de fantasia (7), com o terror e a fc empatados na segunda posição (4 cada um), embora dentre os finalistas, 3 sejam de fc, incluindo o vencedor, o que é de se esperar sendo a pesquisa feita dentro de um grupo de fãs desse gênero. Uma das surpresas foi ver Kaori: Coração de vampira, de Giulia Moon, segundo volume da série vencedora em 2013, apenas na nona colocação.
Na categoria Conto, venceu "Pendão da esperança", de Flávio Medeiros (10 pontos, 5 primeiros lugares), seguido de "Auto de extermínio", de Cirilo Lemos (6 pontos, 2 primeiros lugares), "Seu momento de glória", de Marcelo Jacinto Ribeiro (6 pontos, 2 primeiros lugares), "Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica", de Alliah (5 pontos, 2 primeiros lugares) e "A esfera dourada", de Clinton Davisson (5 pontos, 2 primeiros lugares). Percebe-se aqui outro ponto polêmico, uma vez que foram validados os votos dados ao trabalho de um dos organizadores da promoção, além de presidente da agremiação promotora, o que, na maior parte das dinâmicas desse tipo, não é considerado ético, visto que isso pode incentivar a manipulação dos votos.
Outros 27 trabalhos foram lembrados e a fc predominou com pelo menos metade dos títulos citados, reflexo de algumas antologias do gênero muito bem avaliadas pelos fãs.
De um total de 43 votantes registrados nas duas categorias (incluindo os testes), 20 tiveram pelo menos uma de suas indicações a romance validadas. Quanto aos contos, foram 32 votos válidos para o primeiro lugar, sinal que os votantes estão muito mais bem informados com relação a ficção curta.
Davisson confidenciou-me que, em 2013, o universo de votantes foi consideravelmente ampliado, mas não precisou a quantidade exata, adiantando que as planilhas de 2013 devem ser divulgadas ainda este ano. Quando isso acontecer, voltarei ao assunto aqui.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Colheita macabra

Este ano, trouxe dois livros do Fantasticon, recebidos diretamente de seus autores. O primeiro que me chegou às mãos foi Diabólica e outras histórias (2013, Literata), primeira coletânea individual de Ademir Pascale, autor que há anos desenvolve o trabalho de organizar antologias coletivas para diversas editoras. Apesar do título sugestivo, a coletânea reúne 14 histórias que trafegam pelo horror, a fantasia e a ficção científica, sendo boa parte inédita. Os contos são curtos, formando um volume de 124 páginas que se leem rapidamente. O volume, impresso em papel pólem, tem um bom acabamento, com capa de laminação fosca e orelhas. Apesar de ser a primeira coletânea de Pascale, não é o primeiro livro do autor, que já tem em sua bibliografia, os romances O desejo de Lilith (2010, Draco) e Encruzilhada (2011, Literata). Estes e outros títulos do autor podem ser conferidos aqui.
O segundo livro foi Ritual do espírito maligno, publicação do selo Dimensões Ficção da editora Multifoco, primeiro romance da jovem autora Wândria Coelho, estudante de Ciências Biológicas na Unesp, que veio diretamente da cidade de Catanduva, no interior de São Paulo, para prestigiar o evento e divulgar o trabalho. O volume tem 122 páginas e conta, é claro, uma história de terror sobrenatural, na qual um jovem que se meteu onde não devia e acabou amaldiçoado, busca desesperadamente por uma maneira de se livrar de um destino nada agradável. Entre bruxarias e exorcismos, ele vai descobrir mistérios sobre o mundo dos mortos que certamente preferia nunca ficar sabendo. Uma ótima estreia, conforme avaliação do saite Prosa Mágica. Ambos estão na fila para futuras resenhas aqui.

Atmosfera rarefeita

A coleção Enciclopédia Galáctica, de Devir Livraria, selo que chancela os Anuários, acaba de receber mais um título significativo, Atmosfera rarefeita: A ficção científica no cinema brasileiro, não-ficção do Prof. Dr. Alfredo Suppia que, como o próprio nome revela, se debruça no mapeamento do gênero dentro da produção cinematográfica nacional, seara de poucos mas importantes trabalhos.
Diz o texto de apresentação do livro: "...para além de uma noção conservadora de gênero cinematográfico, a ficção científica se oferece como interface de análise de um amplo conjunto de filmes, uma arena de debates sobre a sociedade brasileira, sua relação com a ciência e a tecnologia e a produção nacional de artefatos culturais. Nesse sentido, o cinema brasileiro de ficção científica se apresenta como importante plataforma para a investigação da 'cultura nacional', da história do país e de suas mais notórias contradições, produto de uma 'modernização conservadora' assombrada pelo antagonismo entre vetores arcaicos e ondas progressistas".
Suppia colaborou no Anuário 2011 com o ensaio "Cinema e literatura de ficção científica no Brasil: Apontamentos sobre uma tímida relação", que já revelava a profundidade com que domina o tema. Atmosfera rarefeita avança na análise crítica do cinema de fc brasileiro, em curta e longa metragens, de seus primeiros exemplos até os mais recentes. Entre suas 348 páginas, traz um caderno de 16 páginas com imagens em cores de raras produções nacionais nele comentadas.
Suppia é professor de Cinema na Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, e tem em sua bibliografia os livros A metrópole replicante: Construindo um diálogo entre Metropolis e Blade Runner (2011) e Cinema(s) independente(s): Cartografias para um fenômeno audiovisual global (2013), além de ser fundador e editor da revista eletrônica Zanzalá.
Atmosfera rarefeita é, sem dúvida, um dos mais importantes ensaios sobre fc já publicados no País. Recomendadíssimo.

A portadora da estrela e Honey Bell

O simpático escritor carioca Miguel Carqueija não para. Em ação desde o início dos anos 1980, ele é certamente o mais prolífico autor brasileiro de ficção fantástica, com uma produção intensa e variada que passa pela fantasia, ficção científica e horror, indo do infantil ao adulto e do dramático ao humorístico com a mesma desenvoltura, sempre com personagens femininas fortes e destemidas.
A maior parte de sua produção apareceu em fanzines e publicações coletivas, mas já logrou publicar títulos profissionais, tais como Farei meu destino (2008, Giz) e O estigma do Feiticeiro Negro (2012, Ornitorrinco). Ainda assim, o autor não abandona os canais alternativos e acaba de publicar pelo portal Recando das Letras o ebook A portadora da estrela, descrito pelo próprio como "uma fanfic cruzada que homenageia diversos universos ficcionais". Conta a história de uma jovem, membro de um clã de guerreiras místicas, guarda de um segredo extraordinário que pode comprometer a sua missão. O volume tem prefácio da escritora Regina Madeira e pode ser baixado gratuitamente aqui.
Carqueija também está em busca de uma editora que lhe publique um novo livro, já finalizado. Trata-se de As aventuras de Honney Bell, novela cômica de ficção científica que se passa num mundo colonial em um futuro distante. Diz o texto de divulgação do autor "O que você diria de uma agente secreta que nada sabe sobre o assunto, que é desastrada e assumidamente biruta? Que se tornou agente secreta por acaso? Poderia dar certo de alguma forma? Bem. Talvez, se o nome dela for Honey Bell e se possuir um truque secreto do qual só ela tem conhecimento e somente ela sabe utilizar." O texto já tem até prefácio e posfácio, assinados por Francisco Martellini e Ricardo Guilherme dos Santos, respectivamente. Ativo como é, acredito que Carqueija logo encontrará uma casa para Bell.