domingo, 3 de julho de 2016

Rapidinhas de horror

Estão disponíveis novas edições dos fanzines de cinema horror Astaroth e Boca do Inferno, publicados por Renato Rosatti.
Astaroth 67 tem quatro páginas e traz um único e longo artigo sobre o clássico do cinema de horror The evil dead.
Boca do Inferno 13, editado em parceria com Marcello Milici, tem duas páginas com artigos sobre os igualmente clássicos filmes A casa dos horrores mortais (1974) e A mosca da cabeça branca (1958).
Ambos têm suas versões impressas distribuídas gratuitamente em eventos, mas cópias em pdf podem ser solicitadas através dos emails marcelomilici@yahoo.com.br e renatorosatti@yahoo.com.br.

Quadrinhos de fc da Devir

A Devir Livraria anunciou recentemente um grande pacote de novas publicações de quadrinhos de ficção fantástica cujas sinopses são de entusiasmar qualquer apreciador do gênero.
Para começar, uma nova edição do primeiro volume da multipremiada série Saga, que estava esgotada há algum tempo. Saga é uma space opera de autoria de Brian K. Vaughan e Fiona Staples, originalmente editada pela Image Comics. Diz a sinopse: "Saga conta a história de Alana e Marko, soldados de lados opostos numa longa e devastadora guerra intergalática, que se apaixonam e lutam para garantir que Hazel, sua filha recém-nascida, continue viva".
Também vem a luz o segundo volume de Criminosos do sexo: Dois mundos, uma polícia, reunindo os volumes 6 a 10 desta também premiada série, criação de Matt Fraction e Chip Zdarsky para a Image Comics. No primeiro volume, Uma estranha habilidade, vimos que "Jon e Suzie têm um lance. Quando eles fazem sexo, o tempo para. Não, não é uma metáfora. O tempo realmente para, congela. Mas o casal também tem um problema. Enquanto Jon odeia o seu trabalho no banco, Suzie odeia o banco por ter fechado sua biblioteca. A solução surge muito facilmente: unindo o útil ao mais do que agradável, eles fazem muito sexo e começam a roubar o banco". Nesta segunda edição, "surge a Polícia do Sexo, que monitora todos aqueles dotados dos mesmos poderes do nosso jovem casal de parar o tempo".
Mais uma série premiada que recebe seu segundo volume é Umbrella Academy: Dallas, de Gerard Way (ex-vocalista da banda My Chemical Romance) e do ilustrador brasileiro Gabriel Bá, para a Dark Horse Comics. Diz o texto de divulgação: "Os tempos estão difíceis para a família disfuncional de super-heróis conhecida como Umbrella Academy. Na esteira do quase apocalipse criado por um de seus pares, e depois da morte do seu querido mentor, Pogo, o grupo se encontra bastante desesperançado. Cada membro da equipe desperta lentamente da sua apatia quando o perigo de outra catástrofe ameaça alterar a história ou destruir o mundo".
Agora as novidades: A floresta: A seta, é o primeiro volume de uma nova série de ficção científica criada por James Tynion IV e Michael Dialynas para a Boom! Studios. Diz a sinopse: "No dia 16 de outubro de 2013, 437 alunos, 52 professores e 24 integrantes da equipe complementar da Escola Preparatória de Bay Point, nos subúrbios de Milwaukee, Wisconsin, EUA, desapareceram sem deixar vestígios. A incontáveis anos-luz de distância, muito além das fronteiras do universo conhecido, 513 pessoas se veem no meio de uma selva antiga e primitiva. Onde elas foram parar? Por que estão lá? As respostas serão bem mais estranhas do que alguém poderia imaginar". A série já teve seus direitos adquiridos para a produção de um seriado de tv.
Outra que pode virar seriado de tv em breve é Carta 44: Velocidade de escape, criação de Charles Soule e Alberto Jiménez Alburquerque para a ONI Press. É também o primeiro volume de uma série de ficção científica na tradição das histórias de invasão alienígena. Diz a divulgação: "No seu primeiro dia no gabinete, o recém-eleito presidente dos Estados Unidos Stephen Blades esperava mergulhar de cabeça nos vários temas críticos que assolam a nação: guerra, iminente colapso econômico e um sistema de saúde deficitário – ou seja, uma típica presidência. Mas, no fim desse primeiro dia, Blades descobriu uma verdade: sete anos antes, a NASA detectou uma presença alienígena potencialmente agressiva no cinturão de asteroides e seu antecessor decidiu manter isso em absoluto segredo".
Um belo pacote de leituras para as férias, não é mesmo, amiguinhos?

Letras de junho

Gigantes adormecidos é o instigante romance do escritor canadense Sylvain Neuvel, que chega às livrarias pelo selo Suma das Letras, da Companhia das Letras. Conta a história de uma garota que, ao cair em um buraco num bosque próximo à sua casa, se depara com uma gigantesca mão de ferro.
Anos depois, graduada em Física, ela continua a estudar este e outros artefatos similares encontrados ao redor do mundo, que parecem formar um enorme robô cuja origem é completamente misteriosa. O interessante é que o robô pode ser remontado, mas será seguro fazê-lo?
Pelo selo Seguinte, da mesma editora, chega Thomas e sua inesperada vida após a morte, da escritora americana Emma Trevayne, da qual já resenhei aqui o romance steampunk Voos e sinos e misteriosos destinos (2014). A autora mantém, neste aventura de fantasia, a mesma aura sombria de seu trabalho anterior, ao contar a história de um garoto que ganha a vida roubando túmulos. As coisas ficam muito complicadas quando, ao abrir mais uma sepultura, ele se depara com seu próprio cadáver.
Interessante, não é? Na dúvida, leia ambos.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A volta de um clássico do horror

Um dos primeiros textos da literatura fantástica mundial, O manuscrito de Saragoça volta a estar disponível, agora pela Devir Livraria.
De autoria do escritor polonês Jan Potocki (1761-1815), o romance é formado por uma série de textos curtos levemente interligados, que trafegam pelo sobrenatural e pelo gótico, enfiando uma história na outra, numa perturbadora aura de suspense e pesadelo.
Originalmente publicado no Brasil pela lendária editora GRD nos anos 1960, esta nova edição mantém a tradução de José Sanz , bem como o selo da editora que primeiro o publicou no país.
O lançamento acontece em São Paulo, no dia 29 de junho, quarta-feira, das 18h30 às 21h30 na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509).

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Asteroid Girl

Originalmente publicado em 2014 pela Kobo Books, volta a estar disponível o romance de ficção científica Asteroid Girl, fruto de uma parceria entre os escritores Miguel Carqueija e Ricardo Guilherme dos Santos.
Num futuro distante, após a terrível Guerra da Água, com a civilização na Terra parcialmente destruída e a humanidade espalhada por colônias no Sistema Solar, o agente da Cosmopol Alex Bristol enfrenta um dificílimo dilema: a mulher que ele deve capturar, a pirata espacial Kittie Kubrick, vulgo Asteroid Girl, é alguém que, no passado, foi muito importante em sua vida. O volume inclui também a história paralela de Isabel Toledo, companheira de aventuras de Asteroid Girl.
Asteroid Girl pode ser lido e baixado gratuitamente no saite Recanto dos Escritores, aqui.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Conexão Literatura 12

Está disponível o número 12 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição de 71 páginas destaca o trabalho do escritor brasileiro Rodrigo de Oliveira, autor da série de horror As crônicas dos mortos, devidamente destrinchado em uma entrevista. Aproveitando o tema dos zumbis, a edição apresenta diversos artigos sobre mortos ambulantes, assim como uma resenha assinada por João Paulo Balbino ao romance O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares, do americano Ranson Riggs.
Nas ficções, textos de Misa Ferreira, J.B.Alves, Míriam Santiago, Dione Souto Rosa, Ricardo de Lohem, Zoraya Cesar e Francis Graciotto, e mais entrevistas com Márcio Benjamin, Tiago Vitezi, Francis Graciotto, Flávio Assunção, Aline Basztabin, Rafael Colavite, André Jorge C. Casagrande, Carol Bonacim, Carlos Caldas, Danilo Barbosa, Luanna Capesi e Juliano Barbosa Alves.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Dois anos, oito meses e 28 noites

Dois anos, oito meses e 28 noites (Two years eight months and twenty-eight nights), Salman Rushdie. Tradução de Donaldson Garschagen. 336 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

No século 12, tempo em que os mouros dominavam a península ibérica, viveu em Córdoba um filósofo chamado Ibn Rushd, que tinha ideias um tanto perturbadoras para uma sociedade teocrática dominada pelos conceitos de outro filósofo, o já falecido Gazhali de Tus. As ideias transgressoras de Rushd o levam ao exílio e à proibição de lecionar sua filosofia. Destituído de sua autoridade, o sábio passa a viver de pequenos negócios. É quando conhece uma bela jovenzinha chamada Dunia que bate a sua porta em busca de abrigo, e acaba por tornar-se sua amante e mãe de uma legião de filhos. Ocorre que essa jovem não era exatamente uma mulher, mas sim um djin, mais exatamente uma djínia (djin feminino) que, em períodos específicos, pode vir ao mundo dos homens.  Dunia se encantou com o amor e tudo faz para experimentá-lo, apesar de sua condição de djin, em que o amor não tem lugar. Sua dedicação ao sábio caído torna-se uma ternura que irá atravessar os séculos e perdurar muito além de sua morte.
Oitocentos anos depois, os descendentes de Dunia e Rushd estão espalhados pelo mundo. A única característica que os identifica é a falta do lóbulo na orelha, coisa que quase ninguém percebe e é ignorada inclusive por eles mesmos. Mas, como sempre acontece nas história em que dois mundos se chocam, mais uma vez as brechas entre o Peristão – o mundo dos djins –  e mundo dos homens voltam a se abrir, e coisas bizarras começam a acontecer por toda parte. A mais importante delas para o relato em questão é o que acontece com o já idoso jardineiro Geronimo Manezes que, depois de uma tempestade de três dias arrasar a cidade, percebe que seus pés não tocam mais o chão e, a cada dia, a distância entre eles e o solo aumenta um pouco mais. Mas não só: um bebê abandonado na sala da prefeita demonstra ter o poder de revelar a corrupção naqueles que a tocam, surgem uma infinidade de moléstias desconhecidas, pessoas desenvolvem superpoderes, outras ainda morrem esmagadas por um súbito aumento da força da gravidade sobre elas, e o mundo torna-se uma confusão ainda maior quando quatro poderosos djins das trevas, que causam perturbações até no Peristão, vêm ao mundo dos homens para exercitar suas maldades. Estas poderosas entidades não odeiam os humanos, na verdade não têm nenhum sentimento especial por nós além do desprezo, mas pretendem divertir-se um pouco por aqui. É quando Dunia retorna para despertar seus descendentes, cujos poderes adormecidos podem ajudar a salvar ambos os mundos da sanha dos gênios do mal. Quando encontra Geronimo, que é de fato um de seus descendentes, Dunia reconhece nele a mesma aparência do velho Ibn Rushd, por ele se apaixona e o leva para o Peristão, onde vai despertar sua natureza djin para a luta que seguirá.
Salman Rushdie é um prestigiado escritor indiano, nascido em 1947 em Bombaim e radicado na Inglaterra desde a adolescência. Formou-se em História em Cambridge, trabalhou como ator e tornou-se escritor em período integral em 1971. Ganhou prêmios importantes como o Booker Prize, o Booker of Booker e o Best of the Booker com o romance fantástico Os filhos da meia-noite (Midnight's children), que guarda muitas similaridades com Dois anos, oito meses e 28 noites. Mas seu romance mais conhecido é Os versos satânicos (The satanic verses), que lhe legou o prêmio Whitbread e uma sentença de morte pelo então líder espiritual do Irã, aiatolá Khomeini.
Dois anos, oito meses e 28 noites é uma fábula filosófica sobre o conflito das forças que regem o mundo, o embate das visões místico-religiosa e acadêmico-científica. O longo título faz referência ao clássico As mil e uma noites (que somam exatamente dois anos, oito meses e 28 noites) que, na mitologia do romance, é um período cíclico de transformações em que o véu que separa os dois mundos se rompe e a magia se manifesta também no mundo dos homens.
O texto de Rushdie é leve e contemporâneo, e sua formação multicultural dá à narrativa um colorido ímpar nas letras britânicas, com referências à várias culturas, especialmente da Índia, seu país da nascença, mas também às de outras regiões, incluindo a África e até o Brasil, que é citado algumas vezes no romance.
Ainda que haja condições para uma leitura aventuresca para esta história de amor e fúria, na maior parte do tempo, o autor trabalha questões profundas, não apenas sobre o conflito filosófico que fundamenta a narrativa, mas muitas outras como, por exemplo, sobre a polêmica que surgiu há alguns meses no ambiente literário, quando Kazui Ishiguro, também ele um escritor britânico, fez comentários aparentemente preconceituosos sobre o gênero da fantasia.  Diz Rushdie na página 245:

"... contar uma coisa ocorrida antigamente é falar do presente. Narrar contos imaginários, fantasias, é também uma forma de contar uma história sobre a atualidade. Se isso não fosse verdade, contar histórias seria inútil, e em nossa vida cotidiana procuramos, ao máximo possível, evitar inutilidades. A pergunta que nos fazemos ao narrar nossa história é a seguinte: como foi que chegamos aqui, vindo de lá?". 

Apesar da aparente similaridade, Dunia não é Jeanie (personagem de um popular seriado de tv dos anos 1960, interpretada por Barbara Eden). Apesar de igualmente apaixonada, Dunia não é serva de ninguém, ela é senhora, protagonista que define os rumos de sua própria história. Uma ideia bastante atual num mundo ainda dominado pelo machismo, que vê as mulheres como um acessório pouco mais que decorativo. Neste romance, as condições se invertem e a mulher enfrenta com ousadia os desafios da condição feminina, mesmo sendo uma djínia pois, mesmo no mundo dos djins, as coisas não são muito diferentes no fim das contas.