quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Ebooks grátis

Este início de ano está sendo um verdadeiro boom para as edições virtuais. Entre muitos títulos à venda por preços que vão do acessível ao absurdo, também podem ser encontrados alguns de distribuição gratuita, como a novela de fantasia científica A batalha do poder, do conhecido escritor Miguel Carqueija, publicada pelo saite Entretextos, no qual também pode ser lida uma resenha à obra, assinada por Edgar Indalécio Smaniotto. Anteriormente apresentada em forma de folhetim, a novela foi reunida integralmente num arquivo pdf de 66 páginas, que conta ainda com uma série de depoimentos, uma entrevista com o autor e uma longa introdução assinada por Flávio Araujo Lima Bittencourt. Não coloco aqui uma imagem da capa porque o arquivo realmente não a tem.
A Estronho é mais uma editora que começou a investir no formato digital. Entre os primeiros títulos de seus catálogo virtual, disponibiliza para download gratuito o conto inédito de ficção científica Adam, do mineiro Marcelo Amado, e o conto de terror Tinta vermelho sangue, de Bruna Caroline, visto primeiro na antologia Insanas: Elas matam.
O diferencial da Estronho é a publicação em formatos mais adequados para os dispositivos móveis de leitura, sendo que o superado formato pdf sequer está disponível entre as opções. Mas mesmo o leitor que não tenha uma dessas moderninhas traquitanas, pode ler o arquivo no computador convencional fazendo uso do Adobe Digital Editions, que pode ser instalado gratuitamente a partir do saite da Adobe, aqui.

Salomão Ventura

A história do quadrinho brasileiro pode muito bem ser resumida como a luta entre a criatividade e a falta de verba. Salomão Ventura: O caçador de lendas, de Giorgio Galli, é uma dessas muitas histórias de dificuldade editorial. Trata-se de uma série de aventuras de horror criada em 2010 como trabalho de conclusão de curso em design e ilustração, que teve duas edições publicadas de forma independente, sendo a segunda delas pelo selo Quarto Mundo. É esse o material que aparece agora reunido no primeiro número da Edição Especial Contos do Absurdo, acompanhado de um conto assinado por Pietro Vaughan e uma série de pinups inéditas feitas por ilustradores como Mario Cau, Caio Yo, Will, Alex Genaro de Souza, Mario Mancuso, Bira Dantas e Carlos Brandino, entre outros, além de uma prévia do que será visto na futura edição número 3, cuja produção será financiada através do sistema crowdfounding.
Edição Especial Contos do Absurdo número 1 tem 78 páginas e pode ser baixada gratuitamente aqui.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Juvenatrix 144

Podem desabar todos os apocalipses vaticinados há milênios por povos que nem mais existem, que nada abala a vitalidade do Juvenatrix, fanzine de horror e ficção científica editado por Renato Rosatti que, conforme me lembrou o editor por email (reproduzido nos comentários do post sobre o fanzine Boca do Inferno, aqui), voltou a ser rigorosamente mensal desde abril de 2012.
A nova edição, cuja capa é ilustrada por Celso Moraes Faria, vem com 15 páginas de notícias e divulgação de produções alternativas e rock extremo, com artigos sobre as bandas Sodom e Slayer, resenhas de filmes fantásticos com destaque para Balada para Satã (The Mephisto waltz, 1971), além de contos assinados por Rynaldo Papoy e Marcelo Milici.
Para obter uma cópia gratuita, basta solicitar ao editor pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

Doberman

Há muita dificuldade em se tratar a plenitude da arte dos quadrinhos no meio digital. Muita gente está pesquisando o assunto, mas quanto mais avançam, menos o resultado se parece com os quadrinhos que nos acostumamos a ler nas revistas. Talvez esteja aí o nascedouro de uma nova arte narrativa, que pode ou não ser como os quadrinhos, contudo, a maior parte dos autores não está muito preocupada com isso. Porque a história em quadrinhos já é uma arte madura em si mesma e sustenta uma estrutura narrativa satisfatória para aqueles que a amam e querem usá-la, tal como é, para contar histórias ou exorcizar pesadelos.
É o que parece ter sido a ideia de Felipe D'Andrea e João Pirolla em Doberman, novela gráfica na tradição das revistas impressas, que se utilizou da internet unicamente para divulgar o trabalho, publicado em arquivo digital e distribuído gratuitamente.
Doberman conta a história de Míriam, adolescente judia em crise de identidade, que tem que confrontar suas dúvidas e certezas numa situação em que cada uma delas parece ter virado do avesso. Míriam tem problemas com seu namorado católico pois, devido aos seus valores familiares, resiste em consumar um relacionamento com ele. Por outro lado, também está em conflito com sua família, que exige dela um envolvimento mais efetivo com a religião. Também está em luta com seu próprio íntimo, devido aos medos e preconceitos que carrega por conta da trágica história de sua avó, uma sobrevivente do holocausto nazista. E tudo fica ainda mais premente depois que Míriam e seu namorado são atacados por um animal desconhecido.
A história tem 70 páginas em preto e branco, com um tratamento gráfico que fica a meio caminho entre o underground e o profissional. O desenho de Pirolla é estiloso, com muitas hachuras e aplicações de aguada, bem diverso do claro-escuro pesado que geralmente caracteriza a histórias em quadrinhos de horror, gênero que se apresenta aqui de uma forma transversal, uma vez que o foco narrativo é muito mais dramático. O texto é bom e correto, mas o letreiramento foi improvisado, às vezes espalhando-se para além dos limite dos balões ou variando sem motivo o tamanho da fonte.
Como geralmente ocorre com conteúdos gráficos de arquivos digitais, a leitura não é confortável. A ampliação necessária para se ler os balões prejudica a visualização da página como um todo, e a exibição individual das páginas compromete a experiência estética do espelhamento das mesmas.
Mas, de acordo com o texto de divulgação, os autores consideraram estes prejuízos amplamente compensados pelo alcance que a obra conquistou, sendo vista por leitores nos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Colômbia e Sudeste Asiático.
O álbum está disponível em português e inglês, e pode ser lido on-line ou baixado gratuitamente aqui.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Megalon 16

Está disponível mais uma edição histórica do multipremiado fanzine de ficção científica e horror Megalon, originalmente publicada em julho de 1991, sob a edição de Marcello Simão Branco e Roberto de Sousa Causo.
Em suas 42 páginas, este número 16 apresenta contos dos brasileiros Fábio Fernandes, Roberto de Sousa Causo e Roberto Schima, e do norteamericano Richard Stooker, artigos de cinema, literatura e ciência de Causo, Jorge Luiz Calife, Miguel Carqueija e Gilberto Schoereder.
Mas o que realmente chama a atenção neste número do fanzine é o resultado da enquete que o Megalon promoveu entre seus leitores para identificar os melhores da ficção científica em todos os tempos.
Os fãs escolheram Arthur C. Clarke como o Melhor Escritor, seguido por Isaac Asimov e Ray Bradbury, reafirmando o ABC do gênero. Os brasileiros Jorge Luiz Calife e André Carneiro apareceram nas 36ª e 37ª posições.
Na categoria Melhor Romance, foram apontados Fundação, de Isaac Asimov, Duna, de Frank Herbert, e Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller, nas primeiras posições. O único texto brasileiro lembrado foi Piscina livre, de André Carneiro, na 42ª posição.
Na categoria Melhor Longa-Metragem, uma barbada: 2001: Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, Blade Runner, de Ridley Scott e O planeta proibido, de Fred M. Wilcox, ocupam as primeiras posições. Nenhum filme nacional aparece na relação, como era de se esperar. Até me surpreendi ao ser lembrado que, por coincidência, fui eu quem acertou a maior quantidade de palpites corretos naquela enquete (67% dos itens).
Para ver a relação completa, além de curtir o valioso conteúdo da publicação, baixe gratuitamente o arquivo pdf, aqui.

Resenha: A espinha dorsal da fcb

O primeiro trabalho que li Braulio Tavares foi um pequeno texto chamado "Os pensadores de São Tiago" que ele gentilmente enviou para o número 11 do Hiperespaço, publicado em 1986, uma edição especial de contos. Só mais tarde soube que aquele pequeno texto havia sido sua estreia na ficção.
Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do fanzine Somnium, do Clube de Leitores de Ficção Científica, publicação na qual acompanhei cada um dos contos que posteriormente formariam a coletânea A espinha dorsal da memória, publicada em 1990 pela Editora Caminho, de Portugal, que recebeu o Prêmio Nova de melhor livro naquele ano. A coletânea ganhou edição brasileira em 1996, pela Editora Rocco, acrescida da coletânea inédita O mundo fantasmo.
Na primeira parte da edição brasileira estão doze contos que integram a memória coletiva do fandom brasileiro, como "Sympathy for the devil", ganhador do Prêmio Nova em 1989, "História de Maldum, o Mensageiro", que deu origem ao seu romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e "Príncipe das sombras", história de invasão alienígena que vai da fc hard à cyberpunk e à space opera, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de "Mestre-de-armas", conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos como seu melhor trabalho.
Contudo, destaco um dos mais curtinhos: "Mare Tenebrarum", que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas... e se a enxurrada fosse forte demais?
Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás-para-frente está Mundo fantasmo, que apresenta mais sete histórias, todas inéditas. "Oh Lord, won't you buy me" é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de fc&f, sempre a cata de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulista.
Mais homenagens em "Exame da obra de Giuseppe Sanz", história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?
"História de Cassim, o Peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou" é uma espécie de sequência à "História de Maldun, o Mensageiro", menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.
Tavares também experimentou formalmente em "Expedição às profundezas do oceano", história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial.
O conto que mais apreciei em Mundo fantasmo foi "E assim destruímos o Reino do Mal", no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.
Tem muito mais, cada história é passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder que, no final das contas, é o que faz todos nós fãs da ficção fantástica.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Resenha: Um clássico da fcb

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no País. Ele foi autor do romance O homem que viu o disco voador (1958), possivelmente o mais bem sucedido livro da fc brasileira, e da antologia O diálogo dos mundos (1963), entre outros trabalhos. Scavone recebeu o Jabuti em 1973 por seu romance mainstream Clube de campo e presidiu a Academia Paulista de Letras por vários mandatos.
Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone  foi buscar inspiração no clássico Contos de Cantebury, de Geoffrey Chaucer, obra escrita há mais de 600 anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino, publicado em 1993 pela editora Estação Liberdade, com ilustrações de Giselda Leirner.
Trata-se de uma história extremamente significativa em termos humanos e emocionais. Uma narrativa tocante e de estilo incomum que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor para seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da fc convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras desusadas. Esse estilo, com um quê de barroco, pode parecer estranho ao leitor moderno, mas se deve a escolha do autor, que se fez passar pelo próprio Chaucer.
Contos de Cantebury relata as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, ao sul de Londres, local em que o santificado Arcebispo Becket foi imolado pelos cavaleiros de Henrique II. Cada um dos romeiros assume um arquétipo social e por ele é batizado. Por isso os personagens não têm nomes, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade Mendicante, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro, o Carpinteiro, o Magistrado, o Cavaleiro, o Escudeiro, o Moleiro, o Cônego e seu Criado, o Médico, o Provedor, o Lavrador, a Freira, o Homem do Mar, o Feitor, o Proprietário Rural, o Beleguim e o Estalajadeiro.
Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa do mesmo na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone) que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo que justifica perfeitamente a releitura fantástica que Scavone dá a obra de Chaucer.
Chaucer/Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os peregrinos católicos que, naturalmente, são muito supersticiosos.
A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma jóia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.
Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de fc. É claro que, para ser classificada assim, há que se encontrar nela algum componente explícito do gênero, e ele surge à altura devida, quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer/Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor/personagem.
O livro ainda guarda muitas outras qualidades. É uma novela que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou o rejeita, fica ao leitor a responsabilidade por decidir.
O 31º peregrino está entre os melhores textos da fcb, ao lado de "A escuridão", de André Carneiro, e A hora dos ruminantes, de José J. Veiga e, como tais, deve ser leitura obrigatória para aqueles que apreciam a literatura fantástica brasileira e querem experimentar seus limites.