quarta-feira, 14 de março de 2012

Incal Integral

No início dos anos 1980, o grande nome dos quadrinhos era, sem dúvida, Moebius (1938-2012). Autor de uma porção de histórias lisérgicas na revista francesa Metal Hurlant e em sua versão americana Heavy Metal, Moebius tinha um estilo incomum e elegante que influenciou artistas em todo o mundo. Quando uniu seu talento ao do roteirista, escritor e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky na criação de O Incal negro, primeiro volume da saga espacial de John Difool, estava lançada a pedra fundamental de uma saga épica de ficção científica no estilo surrealista dos dois autores; uma sinergia perfeita que potencializou o talento de cada um deles, que já não era pequeno.
A história da alucinada investigação de John Difool sobre os mistérios do Incal não tem um enredo fácil de resumir. Diz o relise da editora: "A história gira em torno de John Difool, um detetive particular de quinta categoria, num amanhã totalmente corrupto. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando ele encontra um antigo e misterioso artefato chamado “Incal”. Em pouco tempo, ele se vê envolvido num conflito de proporções épicas entre o Meta-Barão, considerado o maior guerreiro da galáxia, e os poderes do Tecno-Papa". Mas isso é só o começo.
A Devir Livraria, que anteriormente trouxe para o Brasil a saga completa de O Incal (O Incal negro, O Incal luminoso, O que está e cima, O que está em baixo, A quintessência: A galáxia que sonha e Planeta Difool), publicada em três volumes, agora apresenta Incal integral, edição definitiva com tudo em um único e poderoso volume de 308 páginas em cores, capa dura e, de quebra, a mesma colorização da edição original. Sem dúvida uma linda homenagem a este artista maiúsculo que acabou de deixar todos nós um pouco órfãos.
Incal integral é uma publicação da Devir Livraria e custa R$95,00. E vale cada centavo.

Jean Giraud (1938-2012)

A Nona Arte perdeu um de seus maiores nomes. No dia 10 de março de 2012, depois de um longo período de dificuldades com a saúde, morreu ao 73 anos o genial ilustrador Jean Giraud, o Moebius.  
Jean Henri Gaston Giraud, o Gir, foi um dos mais completos artistas do traço da segunda metade do século 20. Nascido em 1938 em Nogent-sur-Marne, subúrbio de Paris, Giraud foi criado pelos avós depois que seus pais se divorciaram. Cumpriu serviço militar na Argélia e estudou sozinho a arte do desenho. Começou a trabalhar com quadrinhos aos 18 anos, fazendo a série de tiras Frank et Jeremie para a revista Far West. Em 1961 tornou-se aprendiz do cartunista belga Jijé (Jerry Spring). No ano seguinte, Gir iniciou uma frutuosa parceria com o roteirista Jean Michel Charlier na tira de faroeste Fort Navajo, na qual surgiria seu personagem de maior sucesso, Tenente Blueberry.
Em 1963, Gir criou o pseudônimo Moebius para assinar trabalhos de fantasia e ficção científica na revista Hara-Kiri. Abandonado por alguns anos, Moebius voltaria em 1974 na revista Metal Hurlant, publicada pela Les Humanoides Associes, editora criada por ele mesmo ao lado dos também quadrinhistas Jean-Pierre Dionnet, Philippe Druillet e Bernard Farkas. A garagem hermética e Arzach, publicados na Metal Hurlant, tornaram o artista uma verdadeira franquia dos quadrinhos. As histórias de enredo caótico e fragmentado, bem como os desenhos exaustivamente detalhados, foram creditados à influência de alucinógenos que o Gir teria experimentado em uma viagem ao México, mas o fato é que esse estilo de narrativa e traço influenciou artistas no mundo inteiro.
Em 1981, mais um grande sucesso: com roteiro do escritor chileno Alejandro Jodorowsky, Moebius lançou o álbum O Incal Negro, que seria a gênese de um rico universo de fantasia científica.  Em 1988, seu incomparável estilo de desenhar foi incorporado ao universo dos comics na grafic novel Surfista Prateado, da Marvel Comics, com roteiro de Stan Lee.
Além dos quadrinhos, Moebius esteve diversas vezes envolvido com o cinema. Primeiro, ao trabalhar na pré-produção de um filme de Jodorowsky pretendia fazer para o mega romance de ficção científica Duna, de Frank Herbert, que pode ser considerado o mais influente filme de cinema jamais produzido. Algumas das ideias de Moebius para esse projeto seriam finalmente aproveitadas no filme realizado por David Linch em 1984, com produção de Dino di Laurentis.
Moebius esteve na equipe de Alien (1979), de Ridley Scott, e a HQ The long tomorrow (com roteiro de Dan O'Bannon) forneceu o visual para Blade Runner (1982) também de Scott, baseado em um romance de Philip K. Dick. O longa O quinto elemento (1997), de Luc Besson, também usou e abusou das concepções visuais de Moebius nessa mesma história. Moebius também teve participação nos filmes O segredo do abismo (1989, James Cameron), Tron (1981, Steven Lisberger) e Willow (1988, Ron Howard).

 Nos desenhos animados, Moebius trabalhou intensamente em Heavy Metal: Universo em fantasia (1981, Gerald Potterton) e no fenomenal O garoto do espaço (1982) de Rene Laloux, baseado em um romance de Stephan Wull, entre outros.
A série Incal está disponível integralmente pela Devir Livraria, e a editora Nemo publicou recentemente dois álbuns luxuosos (Arzach e Absoluten Calfeutrail e outras historias) com algumas das primeiras histórias de Moebius. Contudo, a maior parte da obra de Giraud, seja como Gir ou como Moebius, está indisponível no Brasil. Sua maior obra, a série de 28 volumes de O Tenente Blueberry, continua quase toda inédita no Brasil.

segunda-feira, 12 de março de 2012

1ª Odisseia de Literatura Fantástica

Longe vão os tempos em que, com alguma sorte, o fandom brasileiro podia contar com um evento de FC&F no ano. Atualmente, há muitos deles acontecendo periodicamente, cada vez mais especializados mas, de forma geral, instalados no eixo Rio-São Paulo.
Em abril isso vai mudar: acontece em Porto Alegre/RS, a I Odisseia de Literatura Fantástica, congresso da escritores e editores de ficção fantástica organizada pela Editora Argonautas.
O trabalho de divulgação começou ainda em 2011, e muita gente conhecida já confirmou a participação: uma ampla lista de nomes pode ser vista aqui.
A programação inclui palestras e painéis sobre o panorama  editorial da FC&F no Sul e no Brasil, sobre como escrever e publicar, e sobre a atividade crítica no meio dos fãs, bem como diversos lançamentos, mas o objetivo parece mesmo ser o congraçamento entre autores e leitores. Ainda que, historicamente, nunca aconteça a integração ideal entre todos os participantes nos eventos do fandom, o espírito festivo deve ser suficiente para justificar uma visita ao local.
O evento acontecerá nos dias 27 e 28 de abril no Memorial Rio Grande do Sul (R. Sete de Setembro, 1020,  Praça da Alfândega, Porto Alegre/RS), com entrada fraqueada ao público.
Mais informações no blogue do evento, aqui.

sábado, 10 de março de 2012

Resenha: Vermelho, vivo

Enquanto os deputados do congresso nacional debatem sobre uma lei que obrigaria as editoras brasileiras de HQ a dedicarem 20% de suas tiragens para o produto nacional, já há alguns anos que a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo investe uma pequena parcela de seu orçamento anual para o financiamento de livros e álbuns de autores paulistas através do Programa de Ação Cultural, o Proac, que tem sido valioso para viabilizar a edição de trabalhos que dificilmente chegariam ao público pelos métodos ortodoxos.
Desde 2008 o programa seleciona anualmente dez títulos para serem financiados, exigindo a retribuição de 200 exemplares que serão distribuídos nos espaços de leitura do Estado, além de uma atividade direta do artista, que pode ser uma oficina ou workshop, por exemplo.
Um desses trabalho, publicado no final de 2011, é Vermelho, vivo, drama de violência urbana de autoria de Cristina Judar com os bons desenhos de Bruno Auriema. É o segundo trabalho da dupla, que esteve junta no álbum Lina, publicado em 2009 pela Editora Estação Liberdade, também com verba do Proac.
Vermelho, vivo conta a história de uma jovem sociopata que é flagrada pela segurança de uma loja ao tentar roubar um batom e, para escapar de um processo, aceita a proposta indecente do chefe da segurança.
O paralelo mais correlato que consigo me lembrar para essa história é o longa metragem Um dia de fúria (Falling down, 1993) dirigido por Joel Schumacher, com a excepcional atuação de Michael Douglas no papel de um homem que, encontrando seguidas dificuldades para chegar ao aniversário do filho, adota uma atitude violenta e inconsequente. A diferença em Vermelho, vivo é que o leitor não desenvolve simpatia pela protagonista, que planeja e executa um crime brutal, incriminando um inocente, apenas para encobrir um pequeno furto. Fica a sensação de que os autores concordam que, desde que não se deixe pegar, vale tudo para se defender, mesmo quando se está realmente errado.
Além da narrativa gráfica, o leitor encontra no álbum uma versão literária da história e alguns estudos do ilustrador que não foram aproveitados.
Vermelho, vivo tem 48 páginas e é uma publicação da Devir Livraria.

terça-feira, 6 de março de 2012

Eventos a granel

Passada a folia, finalmente 2012 começa de fato. E para registrar a disposição da turma, surgem eventos por todos os lados.
O primeiro deles vem através das informações de Thina Curtis, editora do fanzine Spellwork. Trata-se da exposição Batom, Lápis e TPM, com trabalhos de cartum e quadrinhos só de artistas mulheres, promovido pela comissão do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, para comemorar o Dia Internacional da Mulher.
É uma iniciativa valiosa para colocar em justa perspectiva o panorama das cartunistas num ambiente dominado pela atividade masculina.  A abertura da exposição acontece no dia 8 de março, às 20h, Armazém 14a do Parque Engenho Central, em Piracicaba/SP. Thina Curtis está entre as cartunistas selecionadas, bem como Fabi Menassi. A lista completa das cartunista selecionadas pode ser vista no saite do evento, aqui.
No mesmo dia acontece o lançamento paulista da antologia Páginas do futuro, organizada pelo escritor Braulio Tavares para a editora Casa da Palavra. Uma oportunidade excelente para conversar com o organizador e alguns dos autores selecionados, além de adquirir o volume que está entre as publicações mais comentadas em 2011. Além de Tavares, confirmaram presença os escritores Luiz Bras, Ademir Assunção, Ataide Tartari, Fabio Fernandes e Finisia Fideli, todos autores publicados na antologia. O evento rola no segundo piso da Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509, das 18h30 às 21h30.
No dia 9 de março, às 21h, rola o II Ugra Zine Fest, com o lançamento do 2º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas, no Club Sattva Bordô, na Praça Roosevelt, 82, em São Paulo.
Depois da balada, no dia 10 às 14h, o evento prossegue na Casa do Fazer, Rua Humberto I, 201, Vila Mariana, com uma série de atividades, pagas e gratuitas, ligadas à edição independente, com as presenças dos quadrinhistas Marcatti e Law Tissot. São os editores alternativos resistindo bravamente ao predomínio imediatista da internet. Maiores informações no blogue do evento, aqui.
Enquanto tudo isso acontece, desde o dia 1 de março está rolando em Sampa a exposição Arte Postal: Os Livros, uma mostra da cena contemporânea de arte postal e gravuras com trabalhos de 289 participantes de 20 países.

A exposição estará aberta a visitação até o dia 31 de março, na Galeria Gravura Brasileira, Rua Dr. Franco da Rocha, 61, Perdizes. Entre os artistas expostos, estão trabalhos do gravador Rubens Cavalcanti da Silva, que me deu a dica. Mais informações, no blogue da exposição, aqui.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A luta continua

Concluída Traição, terceiro arco da versão em quadrinhos de A torre negra, cultuado romance dark fantasy de Stephen King, a editora Panini distribuiu às bancas o primeiro número do novo arco: A queda de Gilead (The fall of Gilead).
Com roteiro de Peter David e desenhos de Richard Isanove, esta nova série em seis episódios dá continuidade à saga da juventude do pistoleiro Roland Deschain no decadente Mundo Médio.
Diz o relise: "Se as coisas já não iam nada bem no Mundo Médio, acabam de piorar. Com a mente dominada pela esfera mística conhecida como Toranja de Merlim, o jovem pistoleiro Roland Deschain assassinou a própria mãe, Gabrielle, desencadeando uma crise sem precedentes e abrindo as portas para a grande investida de John Farson, o Homem Bom".
Ainda é possível encontrar nas bancas a edição anterior, o especial O feiticeiro (The sorcerer), prelúdio  dedicado exclusivamente a Marten Broadcloak, o nêmesis de Rolland.
Ambas as edições tem 36 páginas em cores e custam R$ 4,99 cada.

A história da minha vida

Uma das brincadeiras literárias mais divertidas é a produção de biografias fictícias. O escritor argentino Jorge Luiz Borges era praticante dessa rara arte e escreveu uma porção delas, que são muito bem conceituadas. Também há quem escreva autobiografias que, se não são de gente que nunca existiu, pelo menos inventam muita coisa, para melhorar a imagem do autor.
Agora temos a chance de experimentar o melhor dos dois mundos: uma autobiografia fictícia, porque quem a "escreveu" é um personagem de histórias em quadrinhos, da italiana Sergio Bonelli Editore.
Trata-se de Tex Willer: A história da minha vida (Il romanzo della mia vita, 208 pág.), o famoso ranger que habitou a região do Texas, nos Estados Unidos, no século 19. Além de homem da lei, Willer era muito bem relacionado com os nativos, dos quais recebeu o nome de Águia da Noite, sendo considerado um chefe entre eles. Diz o relise: "Nesse relato, Tex revela suas origens, as histórias de seus parceiros, o encontro com o aparentemente mal-humorado Kit Carson e com o altivo navajo Jack Tigre, além do nascimento do filho Kit, depois do casamento com Lilyth, a filha do chefe Flecha Vermelha. Ele narra os acontecimentos que, no passado distante, por muito tempo o etiquetaram como fora da lei.
Tex conta como, apesar de ser texano, lutou na Guerra Civil do lado do Norte e narra sua participação na luta pela libertação do México ao lado do amigo Montales. Ele enfrenta bandidos, donos de terras inescrupulosos, políticos corruptos, militares ambiciosos, índios em revolta. É um defensor dos fracos e dos oprimidos, fortemente antirracista e amigo dos peles-vermelhas".
É claro que Tex Willer não escreveu nada disso. O autor real do livro é roteirista Mauro Boselli, que escreve suas histórias desde 1994. O personagem nasceu de fato em 1948, criação de Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini, e desde então vem sendo continuamente publicado, sendo no Brasil o personagem de quadrinhos estrangeiro mais bem sucedido do mercado.
O volume ainda conta com ilustrações do excelente Fabio Civitelli e um prefácio assinado pelo próprio Sergio Bonelli.
Tex Willer: A história da minha vida é uma publicação da Mythos Editora e custa R$24,90.