segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cripta

No final dos anos 1970, uma revista surgiu nas bancas para mudar o paradigma das histórias em quadrinhos fantásticas no Brasil. Tratava-se da revista Kripta, publicada pela então editora RGE (hoje Globo), que trazia histórias de altíssima qualidade originalmente publicadas pela influente editora Warren, nos EUA, em revistas como a Creepy, Eerie e 1984.
Algum material dessa editora já havia aparecido antes por aqui, na pequena série de revistas Vampirella, de modo que o mercado estava pronto para aquele salto qualitativo. Embalada por uma forte campanha publicitária na televisão, a revista Kripta firmou-se, garantindo presença de muitos anos no mercado brasileiro, só parando com a falência da Warren em 1983.
Há alguns meses, a Editora Mythos publicou o primeiro volume do álbum Cripta (240 páginas em preto e branco) com a republicação de algumas das ótimas histórias dessa saudosa revista de horror e ficção científica. A aceitação deve ter sido grande, porque a editora não tardou a lançar uma segunda edição, que está nas bancas  de São Paulo.
Mantendo o mesmo acabamento de luxo, esta segunda edição retoma o trabalho de apresentar a toda uma nova geração de leitores a qualidade que os quadrinhos americanos já tiveram um dia. Tal como na primeira edição, as 276 páginas do volume 2 exibem trabalhos de grandes roteiristas e ilustrações de mestres da arte, como Frank Frazetta, Al Williamson, Gene Colan, Gray Morrow, John Severin, Roy Krenkel, Neal Adams, entre outros. Algumas amostras das histórias presentes na edição podem ser vistas aqui.
A seleção do material não é brasileira, pois trata-se da tradução de uma série da americana Dark Horse, que pretende republicar todo o material da Warren em forma cronológica.
O preço assusta: R$48,90, o mesmo do primeiro volume. Mas considerando-se o conteúdo, o valor é  amplamente recompensado.

domingo, 30 de outubro de 2011

As lições do matador

O escritor paulista Roberto de Sousa Causo anunciou há poucos dias que a Devir Livraria prepara-se para iniciar a publicação da série As lições do matador, com aventuras de ficção científica do personagem Jonas Peregrino, que o autor vem desenvolvendo há algum tempo.
Alguns contos com histórias desse personagem já apareceram nas antologias Futuro presente (Record, 2009) e Assembleia estelar (Devir, 2011).
O primeiro episódio vai se chamar Glória sombria: A primeira missão do matador, no qual ele enfrenta uma frota alienígena de naves robôs.
A ideia de uma série de livros de um mesmo personagem no estilo space opera não é nova e muita gente já se debruçou sobre projetos similares que nunca foram efetivados, sempre espelhados na série alemã Perry Rhodan, que teve uma boa parte de suas histórias traduzidas no Brasil. Deve ser também o caso de Jonas Peregrino, uma vez que Causo nunca fez segredo que é fã do personagem alemão.
O livro deve ser lançado dentro de algumas semanas, possivelmente ainda em 2011. Mais informações podem ser obtidas com a editora, no email marialuzia.devir@gmail.com.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Da Paraíba para o mundo

Recebi este semana um pacotão remetido por Emir Ribeiro, quadrinhista paraibano que trabalha para os EUA, mas que mantém no Brasil uma produção pessoal de quadrinhos alternativos. Incansável, Ribeiro não passa um semestre sem apresentar alguma novidade, e desta vez ela veio em dose tripla.
A mais importante delas e a novela gráfica Nova: Tomo 2, publicação comemorativa aos 35 anos da criação da personagem. O primeiro volume saiu no início deste ano, comentada aqui. Este novo volume tem 68 páginas em preto e branco, com capas coloridas e plastificadas. Traz duas HQs completas e, em forma literária, a conclusão da novela com a origem da personagem iniciada no primeiro volume, além de alguns artigos e pinups de diversas fases do autor.
O segundo lançamento é A história da Paraíba em quadrinhos, ousado trabalho de Emir Ribeiro em pareceria com Emilson Ribeiro publicado nos anos 1990 e que recebe uma nova edição. O livro tem 128 páginas em preto e branco, capa colorida e plastificada, e também mescla quadrinho e texto para contar a saga da formação do povo e do Estado da Paraíba, de 1532 até hoje.
E a terceira novidade é um CD com versões digitais das primeiras seis edições do fanzine 10-Abafo, publicado entre 1978 e 1979, através do qual Ribeiro tornou-se conhecido não apenas em João Pessoa, mas em todo o Brasil, devido a um ótimo trabalho de distribuição.
O curioso disso tudo é que Emir produz por diletantismo e com recursos próprios. Seu trabalho tem fãs ardorosos e críticos ferozes mas, no fim das contas, tudo contribui para a formação de seu público e o fortalecimento de seu trabalho no ambiente alternativo, de onde ele até já teve chance de sair, mas preferiu manter-se independente.
Para mais informações sobre estas edições, informe-se no saite do autor, e para adquirir estes e outros títulos, veja aqui.

Resenha: O zen e arte da escrita

Possivelmente um dos lançamentos mais importantes de 2011, O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury, é uma pequena joia.
Bradbury dispensa apresentações, visto ser um dos mais expressivos nomes da literatura norte americana contemporânea. Hoje com 81 anos, é autor de Farenheit 451, O vinho da alegria, O país de outubro, Crônicas marcianas, Algo de sinistro vem por aí, Os frutos dourados do Sol e muitos outros títulos entre romances, coletâneas, peças de teatro e poemas, navegando pela ficção científica, a fantasia, o horror e o mistério e o realismo com igual talento e desenvoltura, sendo respeitado pelo mainstream. Sua ficção continua atual e impactante, e influencia autores em todo o mundo. Então devemos prestar muita atenção nos seus conselhos.
O livro, de apenas 168 páginas, reúne onze ensaios deste mestre, alguns deles originalmente apresentações ou prefácios de outros livros. São eles: "A alegria da escrita", "Corra, pare, ou a coisa no topo da escada, ou novos fantasmas de mentes antigas", "Como manter e alimentar a Musa", "Bêbado e no comando de uma bicicleta", "Investindo moedas: Fahrenheit 451", "Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria", "Sobre os ombros de gigantes", "Crepúsculo nos museus de robô: o renascimento da imaginação", "A mente secreta", "O zen e arte da escrita" e "Sobre criatividade", este último um conjunto de sete poemas. A certa altura, um pequeno bônus: um trecho alternativo inédito para Farenheit 451, a cereja deste bolo bradburiano.
Diz o relise: "Neste livro exuberante, o incomparável Ray Bradbury compartilha sua sabedoria, experiência e estímulo de uma vida de escritor. Aqui estão dicas sobre a arte da escrita dadas por um mestre do ofício. Um livro que reúne tudo, desde encontrar ideias originais até desenvolver a própria voz e o estilo, bem como leituras, impressões da infância e os bastidores da notável carreira de Bradbury como um autor fecundo de romances, contos, poemas, roteiros de filmes e peças de teatro. O zen e a arte da escrita é mais do que um simples manual para o aspirante a escritor, é uma celebração do ato da escrita, que vai encantar, exaltar e inspirar o escritor em você".
O livro é quase uma autobiografia, já que Bradbury trabalha o conteúdo a partir de sua própria vida, contando o modo como funciona a sua mente - ele lembra detalhes de sua mais tenra infância, quando ainda sequer sabia falar - e as experiências traumáticas pelas quais passou e que o levaram a se tornar o poeta que aprendemos a apreciar.
Em tese, é um manual de escrita criativa que orienta a escrever melhor. Mas vai muito além disso, discutindo questões filosóficas de grande profundidade que podem melhorar não apenas a forma como se escreve, mas o modo como vivemos.
Uma frase do autor resume brilhantemente o conselho de Bradbury para os leitores: “Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!”.
Não entendeu? Então não perca mais tempo e leia o livro.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Galeria do sobrenatural

Este livro foi lançado em 2009, mas somente agora chegou às minhas mãos. Trata-se da antologia Galeria do sobrenatural: Jornadas além da imaginação, organizada por Silvio Alexandre para a editora Terracota, na qual a ideia é homenagear o famoso seriado televisivo Twilight Zone, que fez sucesso nos anos 1960 e até hoje é referência de qualidade no que se refere a ideias e histórias.
Diz o relise da época do lançamento: "Esta antologia de histórias sobrenaturais evoca esse espírito de reflexão e presta uma homenagem, em seu cinquentenário, à criação de Rod Serling, que usou da ficção científica, da fantasia e do horror como instrumentos para expor suas idéias. Para ele, a condição humana só tem sentido se for para o aperfeiçoamento moral, espiritual e intelectual. Os seres humanos podem aprender a lidar com a vida de uma maneira mais satisfatória, tirando lições das situações em que se envolvem e onde é possível apresentar as contradições humanas. Sem isso, a existência humana se torna um pesadelo sem sentido, como Serling mesmo mostrou em várias de suas histórias".
O livro, de 160 páginas, apresenta dezoito contos assinados por Andréa Del Fuego, Braulio Tavares, Claudio Brites, Cláudio Villa, Danny Marks, Fábio Fernandes, Giulia Moon, Jana Lauxen, Lucio Manfredi, Luis Filipe Silva, Márcia Olivieri, Mario Carneiro Jr, Max Mallmann, Miguel Carqueija, Octávio Aragão, Regina Drummond, Shirley Souza e Tatiana Alves e uma história em quadrinhos de Cavani Rosas e Braulio Tavares. Um time de respeito num livro que deveria ter sido mais comentado e hoje já faz parte daquele conjunto de títulos que cairam no esquecimento frente a avassaladorea onda de lançamentos dos últimos dois anos.
Não sei dizer se o volume ainda está disponível no mercado, mas creio que pode ser conseguido da mesma forma que eu o obtive: através de um de seus autores, o carioca Miguel Carqueija, que pode ser contatado pelo email mcarqueija@gmail.com.

Gears of war

As bancas brasileiras têm sido muito maltratadas pelas editoras de quadrinhos. Quase nada de significativo chega aos consumidores populares: a nata do que se edita atualmente está restrita às livrarias, a preços exorbitantes. Nas bancas, encontram-se apenas super heróis, mangás, os fumetti da Bonelli (pelo menos isso) e algum quadrinho infantil, capitaneado pela Turma da Mônica. Não sobra muita coisa para quem tem interesses mais amplos em quadrinhos, a não ser que se esteja disposto a dispender uma boa soma nas livrarias.
É por isso que eu tenho que comentar o lançamento de Gears of war,  grafic novel de ficção científica publicada pela editora Panini, único lançamento de algum destaque nas bancas durante o mês de outubro.
Não que seja uma maravilha, longe disso. Trata-se de um subproduto, adaptação para os quadrinhos de uma bem sucedida franquia de videogames. Não é uma obra de arte como a grafic novel Halo, publicada há uns quatro anos, mas não faz feio. Desenhado pelo britânico Liam Roger Sharp com roteiro do escritor norte americano de ficção científica Joshua Ortega, o álbum foi originalmente publicado pela Wildstorm, um selo da DC Comics.
A história narra as missões de um esquadrão militar humano em luta com os habitantes de um planeta alienígena. Qualquer semelhança com Tropas estelares e Guerra sem fim certamente não é mera coincidência.
Por ser uma novela de ficção científica, algo raro nas bancas brasileiras, vale dar uma espiada em Gears of war, até porque o preço é mais ou menos acessível (R$18,90) e os desenhos são interessantes. E quando pelo menos dois elementos do tripé roteiro/desenho/preço são razoáveis, é um gibi no qual vale a pena investir.

Sonho, sombras e super-heróis

Desembarcou também por aqui, via ECT, o novo livro de Luiz Bras, Sonho, sombras e super-herois, publicado no selo Ciranda das Letras da Editora Autores Associados.
A princípio, pensei que se tratava de uma coletânea, mas é de fato um romance. Trata-se, aparentemente, de uma história de fantasia com toques sobrenaturais, uma novidade no caso de Bras, que tem se dedicado mais especificamente à ficção científica. Ainda não li, mas não me surpreenderei caso o trabalho, em algum momento, guine para a FC.
Diz o texto na contracapa: “Tinha sido um sonho, não tinha? Acordado ou não, só podia ter sido um sonho. Passei o resto da noite recapitulando tudo o que havia acontecido, de madrugada eu percebi eufórico que tinha uma história, um sonho só meu, aleluia, porém quanto  mais eu pensava nela mais a história mudava, coloquei um cemitério e um casarão mal-assombrado atrás da porta, depois troquei tudo isso por uma cidade fantasma habitada por espíritos cruéis e esqueletos ambulantes, a história cresce, adensou-se e roubou o controle da situação. Eu já não inventava mais minha história, era ela que se autoinventava”.
O livro tem 256 páginas, o papel interno é especial - um tipo de couchê fosco - e traz ilustrações em preto e branco de Renato Alarcão, que também assina a capa.
Luiz Brás é um autor recomendadíssimo, uma vez que o melhor livro de FC&F publicado em 2010 foi a sua coletânea Paraíso líquido, além de ter obtido a indicação de Babel Hotel para o Jabuti em 2010. E sempre é bom lembrar que Luiz Bras um pseudônimo do premiadíssimo Nelson de Oliveira que, também em 2010, faturou pela segunda vez o prestigioso prêmio Casa de las Americas com o romance de fantasia Poeira: Demônios e maldições.
O booktrailler deste novo romance de Luiz Bras pode ser assistido aqui.