terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Resenha: Quarta Asa, Rebecca Yarros

Quarta Asa
(Fourth Wing), Rebecca Yarros. 544 páginas. Tradução de Laura Pohl. São Paulo: Planeta Minotauro, 2024. Originalmente publicado em 2023.

Violet Sorrengail é uma jovem em idade de serviço militar, atividade que lhe parece inevitável, uma vez que sua mãe, Lilith Sorrengail, é general e seus dois irmãos, Mira e o falecido Brennan, cavaleiros das forças de defesa do reino de Navarre, que mantém um conflito ancestral contra o reino de Poromiel. Porém Violet é uma garota com um baixo potencial físico, estatura pequena, facilidade para sofrer dores e lesões nas articulações, músculos e ossos, o que não parece nada adequado para que ela se torne uma cavaleira como seus irmãos. 
De fato, seu falecido pai, que era escriba, a preparou para que seguisse a sua própria carreira na ordem, mas a inflexibilidade da mãe a obriga a se alistar no Instituto Militar Basgiath, uma academia que forma os cavaleiros do reino. Não cavaleiros comuns, mas cavaleiros de dragões, o que exige uma alta dose de força física e resistência. Por isso, o processo de seleção dos cadetes é cruel, levando a maioria deles à morte ao longo dos três anos de preparação, com inúmeras chances para perder a vida que, de resto, vale muito pouco em Navarre. 
Violet vai ser levada ao limite de suas forças, mas é claro que irá sobreviver para ter não apenas um, mais dois dragões, animais gigantescos e violentos, com sua própria cultura, linguagem e poderes mentais, dotados ainda de capacidades mágicas que são transferidas aos cavaleiros depois de serem ligados a eles em uma disputa mortal em meados do primeiro ano em Basgiath. 
Mas os perigos não terminam aí. Quando mais o curso avança, mais cadetes perdem a vida num processo de depuração que só permitirá a formatura dos efetivamente mais capazes. Tudo para serem, depois, colocados na frente de batalha onde terão de enfrentar os Paladinos de Poromiel, que cavalgam nada menos que os ferozes grifos. 
Devido à personalidade autoritária e impiedosa da General Sorrengail, Violet será caçada na academia pelos estudantes que veem de famílias que sofreram nas mãos dela. O mais feroz deles é um "gigante" chamado Xaden, terceiro anista da Basgiath cujo pai foi assassinado pela própria General. Ele tem um dragão sanguinário, é o melhor aluno da academia e um hábil manipulador das sombras. E mais: ele é o comandante da Quarta Asa, divisão dos cavaleiros de dragões para a qual Violet acaba designada. Mas não existe apenas ódio em Xaden. Muitos segredos rondam o seu coração, e também, ao que parece, todas as demais relações entre cadetes, guerreiros e comandantes de Basgiath.
Este é o ambiente no qual se desenrola a história de Quarta Asa (Fourth Wing), romance de alta fantasia da escritora americana Rebecca Yarros, originalmente publicado em 2023, que se tornou um fenômeno no Tik Tok e grande sucesso editorial. O livro inaugura a série O Empyriano, que também conta com os romances Chama de ferro (Iron flame, 2023); Tempestade de ônix (Onix storm, 2025), ambos também já publicados no Brasil. 
É um livro longo, repleto de detalhes e reviravoltas, e de uma narrativa competente que estofa muito bem o modelo recorrente dos chamados livros de romantasia. Lembra, na estrutura geral, a série Divergente, ficção científica de Veronica Roth, com uma protagonista inadequada que tem que sobreviver a um treinamento brutal para encontrar seu lugar numa sociedade distópica e, enfim, descobrir que tudo aquilo em que acreditava não passava de mentiras. 
É um livro de leitura ágil, com persongens bem construídos e cenas de ação intensa, mas que tem um defeito grave: dois capítulos eróticos – quase pronográficos – que tornam o livro absolutamente contra-indicado para leitores jovens. Sua gratuidade faz concluir que foram colocados ali à força, provavelmente para atender a alguma exigência editorial uma vez que, se não forem lidos, não fazem falta na trama. Até o estilo do texto muda, quase como se esses trechos tivessem sido elaborados por outro escritor, piorados pelo fato de quem quer os tenha escrito, seja Yarros ou outro qualquer, evidentemente não dispunha de domínio sobre as narrativas eróticas.
Quarta Asa chegou às livrarias brasileiras em 2024 no selo Minotauro da Editora Planeta, com tradução de Laura Pohl, 544 páginas, capa dura e um preço bastante salgado no lançamento mas, agora, já está mais acessível e pode até ser lido gratuitamente na plataforma pública BibliOn, aqui.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Resenha: Rei Rato, China Miéville

Rei Rato
(King Rat), China Miéville. 400 páginas. Tradução Alexandre Mandarino; São Paulo, Tarja, 2011.

Saul é um jovem com problemas de relacionamento com o pai, com quem vive em um apartamento na periferia de Londres. Ao voltar de uma viagem, Saul vai direto para o seu quarto sem falar com o pai que, pelo som da tv ligada, estava na sala, provavelmente cochilando. 
Depois de um sono atribulado, Saul é acordado com o barulho de socos na porta da casa: é a polícia. Aturdido, Saul abre a porta e é imediatamente imobilizado pelos policiais, que o levam para a delegacia sob custódia: seu pai está morto no jardim, arremessado da varanda do prédio. O delegado encarregado da investigação acredita que Saul é o culpado, mas o garoto, em estado de choque, não entende nada do que está acontecendo. 
Enquanto aguarda a definição do caso, Saul fica detido em uma cela da delegacia. Mas algo bizarro acontece: um estranho de aparência assustadora, que se apresenta como seu tio, o tira de lá, passando imperceptível pelos policiais. O estranho o apresenta ao submundo de Londres, entre becos, lixo e esgotos. A vida de Saul vai mudar para sempre e as revelações que ele descobrirá serão terríveis não somente para ele, mas também para seus amigos. 
Rei Rato, romance de autoria do escritor britânico China Miéville, é um livro raro hoje em dia no Brasil. Publicado em 2011 pela extinta editora Tarja – de propriedade dos fãs e escritores de literatura fantástica Richad Diegues e Gianpaolo Celli –, teve tiragem pequena e nunca foi reeditado. Miéville, contudo, ganhou notoriedade desde então e o título hoje atrai o interesse de seus muitos leitores. 
Rei Rato foi o romance de estreia de Miéville, que hoje conta com livros premiados como A cidade e a cidade (2009), Estação Perdido (2000) e A cicatriz (2002), todos publicados no Brasil pela editora Boitempo. Por isso, Rei Rato pode soar como um trabalho menor na obra do autor, mas essa é uma percepção anacrônica. De fato, Rei Rato não apresenta o mesmo ritmo frenético, nem a ousadia na construção de mundo dos demais títulos, mas pode-se perceber nele muitas das marcas de estilo do autor, como um alto nível de escatologia e violência,  personagens ambíguos e cativantes, questões políticas evidenciadas, e muita dor. Também há diversos temas dentro da história que ecoam nas obras posteriores. Miéville foi mais ortodoxo na contação da história, que é uma aventura juvenil hard core, regada a música drum and bass e grande quantidade de gírias londrinas explicadas em muitas notas.
A história narra o caminho de descoberta e amadurecimento de um adolescente que se vê envolvido em uma guerra ancestral entre as nações dos ratos, das aranhas e dos pássaros, contra o misterioso e enlouquecido Flautista de Hamellin, que quer exterminar todas elas.
Embora a fantasia do horror estejam muito imbricadas, não é tão óbvio classificar Rei Rato como um romance New Weird (como seus outros livros) porque não há absolutamente nada de ficção científica na história. Mas podemos dizer, sem receio de erro, que se trata de uma fantasia urbana sombria na qual os subterrâneos londrinos são tão importantes quanto os personagens da trama, talvez mais. 
Rei Rato talvez seja mais palatável, apesar da escatologia, para a leitura de quem achou Miéville um escritor difícil de acompanhar, pois trata-se de uma narrativa simples e sem muitas reviravoltas. Contudo, sua leitura prévia não vai ajudar a acompanhar melhor os livros seguintes, porque a velocidade só aumenta e a vertigem é inevitável. Aliás, já dá para sentir um pouco dela aqui, especialmente nas sequências de ação intensa, que beiram o gore
Se for possível obter um exemplar, não deixe de ler Rei Rato, e entenda por que o New Weird causou tanto rebuliço na ficção especulativa mundial, inclusive entre os leitores e escritores brasileiros.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Braulio Tavares e Carlos Orsi falam sobre literatura

 Carol Mancini entrevista Braulio Tavares: Utopia feminista em Emília Freitas:


L.F. Lunardello entrevista Carlos Orsi: Afinidades entre a ficção científica, o horror e histórias de quarto fechado:

Estes e outros vídeos interessantes podem ser vistos no canal da Editora Bandeirola, aqui

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Psiu Psiu Psiu

Piscou e já estão disponíveis três novas edições do Psiu, tradicional fanzine de quadrinhos editado por Edgard Guimarães, através do selo EGO da Editora Marca de Fantasia, em formato exclusivamente digital. A publicação recupera trabalhos antigos nunca vistos pelos leitores desta geração, além de algum material inédito.
O número 19 foi publicado em julho de 2025 e tem 68 páginas; o número 20, de setembro, com 74 páginas; e o número 21, publicado em novembro, com 68 páginas. Cada edição traz trabalhos de Luiz Iório, Henrique Magalhães, Franquin, Glen Gravith, Joselito, Geny Marcondes, Jota Carlos, Marcatti, Alfredo Storni e do próprio editor. 
Todas as edições do Psiu, além de outras publicações do selo Ego, podem ser baixadas gratuitamente aqui.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Lançamento: Jardim noturno, Shirley Jackson

A escritora americana Shirley Jackson (1916-1965), conhecida por sua literatura gótica repleta de mistério, que tem no romance A assombração da Casa da Colina seu texto mais conhecido e diversas vezes adaptado para o cinema, também escreveu muitos contos embora não sejam tão conhecidos no Brasil. Até agora, porque a editora Darkside está lançando Jardim noturno, coletânea de contos da autora com um apanhado de sua extensa ficção curta. 
Diz o texto de apresentação: "Um diabo inquieto, uma velha maliciosa e um Jack, o Estripador do pós-guerra; uma perseguição por uma paisagem urbana sinistra e uma cidadezinha onde o mal espreita por trás de roseiras impecáveis. Em cada conto de Jardim noturno, Shirley Jackson atesta por que é considerada uma das grandes mestres da narrativa curta, capaz de extrair o extraordinário da rotina, o absurdo do familiar, o horror do que se apresenta como inofensivo. Publicada postumamente a partir de manuscritos encontrados por seus filhos, Laurence Jackson Hyman e Sarah Hyman DeWitt, esta antologia reúne contos inéditos ou esquecidos da autora. Aqui estão tanto os textos macabros e perturbadores que consagraram Jackson quanto cenas de humor doméstico, sempre com uma dose de ironia que desnuda a natureza humana em seus gestos mais triviais."
O volume tem 576 páginas, tradução de Sonia Moreira, e pode ser adquirido no saite da editora, aqui.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Lançamento: Voltas ao redor do Sol 2025

A série de antologias anuais Voltas ao redor do Sol, que estreou em 2023, chega a terceira edição mais uma vez organizada por Rubens Angelo. Publicada pelo Clube de Leitores de Ficção Científica - CLFC, o volume também assinala os quarenta anos de fundação do clube, apresentando em 173 páginas contos de autores brasileiros convidados especialmente para a publicação. São eles: Gian Danton, Maira M. Moura, David Machado, Liana Zilber Vivekananda, Gerson Lodi-Ribeiro, Ale Santos, Fábio Fernandes, Ivan Carlos Regina, João Barreiros e Roberto Causo.
Diz o texto de apresentação: "Nestas páginas você poderá saborear histórias de alguns dos grandes nomes da ficção científica nacional, narrativas essencialmente fantásticas que extravasam as fronteiras da ciência, explorando com humor, horror ou ironia os mais diversos temas: distopia, New Weird, inteligência artificial, história alternativa, horror cósmico, multiverso, exploração espacial, space opera… Voltas ao redor do Sol vai agradar todos aqueles que gostam de boa literatura fantástica."
O livro tem edição unicamente digital e pode ser encontrado aqui.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A política da fantasia: Entrevista exclusiva com China Miélville

Para registrar o lançamento do romance A cicatriz, A TV Boitempo, canal do Youtube da Editora Boitempo, promoveu uma extensa entrevista com o escritor britânico China Miéville, com as participações dos entrevistadores brasileiros Pétala e Isa Souza (as afrofuturas), Fábio Kabral, Felipe Castilho e Thiago Guimarães e a mediação da pesquisadora Ana Rüsche, todos eles também escritores dedicados à ficção fantástica. 
A proposta da entrevista, que pode ser acompanhada aqui, é tratar de assuntos relacionados a obra do autor, sua técnica, suas ideias sobre literatura, arte, política, internet e temas correlatos. As respostas de Miéville, sempre muito densas e profundas, têm tradução de Kim Doria.
Vale muito a pena ouvir com atenção os noventa e dois minutos da entrevista, pois as perguntas e as respostas são todas muito interessantes e didáticas.