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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Bandeirola para todos

A mulher e o estranho: Narrativas do insólito, antologia com contos de escritoras nacionais e internacionais, organizada e traduzida pelo pesquisador paraibano Braulio Tavares, e a coletânea Mistérios! Crimes de quarto fechado, com contos de mistério do escritor paulista Carlos Orsi, depois de uma bem sucedida campanha de financiamento direto, estão agora em pré-venda. 
A mulher e o estranho tem 144 páginas com textos de Emilia Freitas, Emilia Pardo Bazán, Kate Chopin, Katherine Mansfield, Madeline Yale Wynne, May Sinclair, Vernon Lee e Virginia Woolf, "escritoras geniais que deram voz às mulheres do final do século XIX ao início do século XX. Feministas, ativistas contra a guerra, essas autoras marcaram suas vidas com ousadias e ótimas histórias". 
Mistérios! tem 192 páginas e traz, com tradução é de Baulio Tavares, sete contos originalmente escritos em inglês, verdadeiros quebra-cabeças das histórias de crime, além de uma entrevista com Orsi.
Se você está entre os que não apoiaram a campanha, agora é a sua chance. Ambos os volumes estão disponíveis no saite da Editora Bandeirola, aqui. Trechos das obras podem ser lidos online gratuitamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Braulio Tavares e Carlos Orsi falam sobre literatura

 Carol Mancini entrevista Braulio Tavares: Utopia feminista em Emília Freitas:


L.F. Lunardello entrevista Carlos Orsi: Afinidades entre a ficção científica, o horror e histórias de quarto fechado:

Estes e outros vídeos interessantes podem ser vistos no canal da Editora Bandeirola, aqui

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Em campanha: A mulher e o estranho

Está aceitando apoios a campanha de financiamento direto para a antologia de contos A mulher e o estranho: Narrativas do insólito, que reúne textos de oito escritoras de diversas nacionalidades, entre o final do século XIX e meados da década de 1920. 
Diz o texto de apresentação: "A criteriosa seleção de Braulio Tavares — também prefaciador e tradutor — traz narrativas de grandes escritoras dos séculos XIX e início do XX, cujas temáticas principais giram em torno do medo, da angústia, o ostracismo, a utopia feminista e o desejo. Cada uma das histórias amplia o horizonte do ordinário para proporcionar a percepção do desconforto e do infamiliar".
São estes os textos presentes na antologia: "A rainha do ignoto" (excertos, 1899), de Emília Freitas; "A ressuscitada (1908), de Emilia Pardo Bazán;  "A tempestade" (1898), de Kate Chopin, "A mosca" (1922), de Katherine Mansfield; "O quarto menor" (1895), de Madeline Yale Wynne; "A descoberta do absoluto" (1923), de May Sinclair, "A boneca" (1927), de Vernon Lee e "A marca na parede" (1917), de Virginia Woolf.
A organização é do escritor e pesquisador paraibano Braulio Tavares, um estudidoso da ficção de gênero, que assina este que é o segundo volume da coleção Biblioteca Pessoal de Braulio Tavares, pela Editora Bandeirola, que já conta com o livro Crimes impossíveis, publicado em 2021.
A mulher e o estranho tem 144 páginas e pode ser apoiada aqui até o dia 9 de janeiro de 2026. 
Obs.: O título pode ser apoiado em conjunto com Mistérios! Crimes de "quarto fechado", de Carlos Orsi, comentado no post anterior, aqui.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Lançamento: Artur e Isadora na cidade subterrânea, Braulio Tavares

Depois de 26 anos, Artur e Isadora ganham uma nova aventura. Trata-se de Na cidade subterrânea, novela de fantasia em forma de cordel de autoria do escritor paraibano Braulio Tavares e publicada pela Editora 34. A primeira aventura da série, A pedra do meio-dia, publicada em 1998 pela mesma editora, foi muito bem aceita pelos leitores e ainda é comentada pela originalidade da história e da apresentação. 
Diz o texto de divulgação: "Durante uma viagem, o casal se depara com uma enorme cratera na estrada. Ao descerem pela ribanceira, procurando uma passagem, veem o início de um túnel. Curiosos, entram e se deparam com uma complexa cidade subterrânea, habitada por pequenas criaturas que, no entanto, os acolhem com toda a hospitalidade. Em seguida, Artur e Isadora irão ajudar estes estranhos moradores a descobrir suas origens e encontrar novas possibilidades para seu futuro. Uma história em versos que estimula a inteligência e a solidariedade diante de um mundo misterioso ao mesmo tempo tão diferente e tão parecido com o nosso. Empregando as rimas e as sextilhas (as estrofes de seis versos características do cordel) com extrema habilidade, Braulio Tavares produziu uma narrativa que é, ao mesmo tempo, poética, precisa e extremamente fluente. Além das ilustrações de Cecília Esteves — que exploram a linguagem de alto contraste entre o preto e o branco, própria da xilogravura —, esta edição conta com um glossário, um texto sobre cidades existentes debaixo da terra tanto no passado como no presente e uma nota explicativa sobre a literatura de cordel."
O livro tem oitenta páginas, faz parte da Coleção Infanto-Juvenil e pode ser encontrado aqui.
Além de escritor, Braulio Tavares é tradutor, pesquisador e compositor, com parcerias importantes com Zeca Baleiro, entre outros artistas. Entusiasta da cultura brasileira e da ficção de gênero, mantêm o blogue Mundo Fantasmo com mais de cinco mil artigos interessantíssimos sobre os mais variados assuntos culturais.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Lançamento: Não ficções e Um estranho tão familiar

Ainda dá tempo para apoiar o projeto da Editora Bandeirola no Catarse, que propõe a edição de dois livros de não ficção que discutem os aspectos, caminhos e valores da ficção científica. São eles, Não ficções, de Braulio Tavares, e Um estranho tão familiar, de George Amaral.
É importante dar uma olhada nesses títulos, primeiro porque são publicações raras com estudos importantes sobre o campo literário e suas especificidades no que se refere ao gênero da ficção científica – que muita gente boa diz que não é gênero, e eu concordo, mas essa é uma discussão para os dois autores desenvolverem.
Além disso, os autores são pessoas muito sérias com carreiras ligadas ao gênero. Braulio Tavares é jornalista, compositor, escritor e organizador com muitos títulos do gênero publicados, e George Amaral é um psicalista e escritor, mestre e doutorando no curso de Teoria literária e literatura comparada pela USP. 
Com prefácio do jornalista e escritor André Cáceres, Não ficções é composto de vinte e cinco ensaios de Tavares, que passam por Jorge Luis Borges, Malba Tahan, Guimarães Rosa, Ray Bradbury, Colin Wilson, Carlos Drummond de Andrade, Augusto dos Anjos, Tim Powers, Jerônymo Monteiro e Emilia Freitas, entre outros. 
Um estranho tão familiar  analiza a história do estranhamento na literatura, do século XIX até a contemporaneidade, tratando o gênero a partir da filosofia, psicologia, psiquiatria e semiótica. O acadêmico Alexander Meirelles da Silva assina o seu prefácio.
Os volumes dão início a uma coleção, que promete para o futuro títulos de Roberto de Sousa Causo, Elizabeth 'Libby' Ginway e Bruno Matangrano. 
Mais informações estão disponíveis na página do projeto, através da qual é possível conferir as alternativas de apoio propostas e suas respectivas recompensas. 

segunda-feira, 20 de março de 2023

Resenha do Almanaque: A pulp fiction de Guimarães Rosa, Braulio Tavares

A pulp fiction de Guimarães Rosa, Braulio Tavares. 80 páginas. Série Veredas, nº 5. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008.

Nem todos os fãs de ficção científica e fantasia gostam quando algum estudioso descobre pontes entre o gênero fantástico e o cânone literário, pois isso parece retirar deles parte da autoridade. Afinal, se um figurão “de fora” de repente é inserido no fantástico, todos os argumentos ficam comprometidos até que o mesmo seja lido e estudado. No imaginário do fandom, os gêneros são quase uma propriedade particular, um espaço reservado no qual se pode, por exemplo, impedir que um autor do mainstream trafegue, uma pequena vingança à falácia que o mercado maldosamente bloqueia o acesso dos autores de gênero ao público.
Por outro lado, há fãs que gostam de ver grandes nomes da literatura envolvidos com a ficção de gênero exclusivamente para se sentirem um pouco melhor dentro de um nicho desprestigiado cultural e comercialmente.
Nem uma nem outra foram intenções do escritor pernambucano Braulio Tavares quando se debruçou sobre a obra de Guimarães Rosa em busca de vínculos com a ficção fantástica. Historicamente, Tavares tem dedicado boa parte de seu trabalho de pesquisa a identificar a fisionomia da ficção fantástica brasileira, com objetivos historiográficos, técnicos e estéticos, ou um pouco mais egoístas, qual sejam, descobrir caminhos que ele mesmo, como autor fantástico, pode trilhar. Ao compartilhar com os leitores o resultado de suas análises, ajuda outros autores e o próprio fã a entenderem a ficção fantástica e o que a torna inequivocamente brasileira.
Tavares já presenteou os leitores com diversos livros de ficção e não-ficção, como a coletânea A espinha dorsal da memória/ Mundo Fantasmo (Rocco, 1989), o romance A máquina voadora (Rocco, 1994) e os ensaios O que é ficção científica (Brasiliense, 1986) e Um rasgão no real (Marca de Fantasia, 2005), entre outros. Em A pulp fiction de Guimarães Rosa, seu segundo livro pela prestigiosa editora independente Marca de Fantasia, reuniu ensaios sobre trabalhos curtos de Rosa em três fases distintas, identificando influências, ferramentas narrativas e a forma roseana de pensar a ficção como peça de arte literária inserida na tradição cultural brasileira.
O primeiro ensaio, que traz o nome do volume, foi originalmente publicado no “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde, em 1998. Nele, Tavares trata de alguns contos da fase inicial de Guimarães Rosa, quando ele era ainda jovem. “O mistério de Highmore Hall” foi publicado em 1929 na revista O Cruzeiro, quando Rosa tinha apenas 21 anos. É um conto de contornos góticos, com um mistério de morte e horror num velho castelo escocês. Fica claro que Rosa conhecia – e gostava – dos textos de Edgar Alan Poe e Alexandre Dumas, e seguiu-lhes cuidadosamente os passos. Revela assim que, em seu início, Rosa agia exatamente da mesma forma que os atuais autores-fãs: escrevia pastiches de seus autores favoritos; bem escritos mas, ainda assim, pastiches.
O segundo conto tratado é “Makiné”, publicado em O Jornal, em 1930. Trata-se de uma dark-fantasy que se passa durante a visita dos fenícios às terras dos tupinambás. Ainda que a história lembre as prosas de Clark Ashton Smith e Robert Howard, já mostra que Rosa não estava satisfeito em apenas repetir-lhes, e tratou de inserir um Brasil pré-cabralino, geograficamente reconhecível: Maquiné é uma famosa gruta da região em que Guimarães Rosa nasceu.  Desta forma, Rosa repete também o processo de autoconsciência dos autores do fandom brasileiro que, a certa altura, perceberam que era necessário dar feição nacional a ficção que faziam. Ainda que o texto continue a parecer escrito por um estrangeiro, foi um passo enorme em apenas alguns meses de atividade. Os autores-fãs tiveram muito mais dificuldade em dar esse passo.
“Tempo e fatalidade” saiu em O Cruzeiro, em 1930. Conta a história de um enxadrista que vai participar de um torneio no sul da Alemanha e acaba envolvido por um mistério de deuses antigos e estados alterados de consciência.  Ainda que não tenha o regionalismo imposto, como visto no exemplo anterior, este conto apontou os caminhos de Rosa no trato com o simbolismo mitológico e a luta do bem contra o mal, que igualmente caracterizam a sua obra. Também já ensaia o zelo na escolha dos nomes dos personagens, que sempre trazem sentidos ocultos. Ou seja, está neste conto o gérmen do que viria a ser a proposta literária roseana e, neste aspecto, os paralelos com a ficção fantástica brasileira só vão ser encontrados nos trabalhos dos autores mais amadurecidos da fc&f brasileira, como por exemplo André Carneiro, Rubens Teixeira Scavone e Dinah Silveira de Queirós que, curiosamente, nunca foram autores-fãs.
O segundo ensaio, inédito, avalia minuciosamente um trabalho um pouco mais longo de Guimarães Rosa, a novela “O recado do morro”, publicada em 1956 na coletânea Corpo de baile. Acompanhar a dissecação que Tavares realiza é um verdadeiro cabo-de-guerra, pois esta novela é fruto de um Guimarães Rosa maduro e pronto.
Quem já leu a ficção roseana sabe que uma das muitas características do autor de Grande sertão veredas é uma prosa repleta de termos desconhecidos e desusados, que remetem à linguagem sertaneja. Ainda que possa soar incômoda a princípio, a musicalidade do texto leva o leitor a vestir o espírito sertanejo, evocando raízes profundas que nem mesmo acreditava ter, tanto que depois de algum tempo, a prosa clareia e ganha uma vitalidade especial, fruto de um cuidado nada casual.
Tavares nos conduz nessa rede intrincada e explica cada detalhe dessa história que repete a saga do herói medieval transposta com maestria ao sertão mineiro. Uma saga de viagem em que um mistificado Morro da Garça, através de um eremita, faz chegar uma profecia ao herói, prediz o futuro e pode salvar-lhe a vida. Não há aqui mais nenhum paralelo possível aos fenômenos criativos dos autores do fandom. Nenhum sequer chegou-lhe aos pés e é uma revelação perceber como uma narrativa fantástica absolutamente regional pode ser tão universal.
Fecha o volume um ensaio em que Tavares realiza, de forma igualmente interessante e detalhada, o entendimento do conto “Um moço muito branco“, originalmente publicado em 1962 na coletânea Outras estórias. Trata-se do trabalho de Rosa mais claramente identificado com a ficção científica, visto que relata a experiência de uma comunidade interiorana que faz contato com um homem tão estranho e poderoso que só lhe resta ser alienígena. É claro que isso não é explícito e, ao final da história, não há um desfecho conclusivo, o que Tavares aproveita para apresentar seu estudo sobre os protocolos de pergunta e resposta, que podem ser observados na ficção de forma geral e na fantástica mais explicitamente.
Em poucas páginas, que se leem rapidamente, Tavares reúne uma quantidade absurda de informações e considerações, cita dezenas de autores nacionais e estrangeiros, de fantasia ou não, com os quais a obra roseana dialoga. Também não decepciona o leitor ao inserir, ilustrando suas análises, trechos brilhantes dos trabalhos avaliados, trazendo a própria obra de Guimarães Rosa aos olhos de leitores que, de outra forma, não se entusiasmariam com a tarefa de ler esse grande autor brasileiro.
O título do volume, como se vê, não é tão adequado quanto provocativo, já que a definição de pulp-fiction corrente no fandom não guarda absolutamente qualquer similaridade com o Guimarães Rosa realizou. Mas seria uma beleza se guardasse.
Podemos dizer que Guimarães Rosa fez ficção fantástica? Esta é uma pergunta tão sem resposta quanto os próprios textos do autor. Fica ao critério do leitor. Pessoalmente, acho que é um ótimo argumento numa roda de críticos antipáticos a fc&f, mas isso é o que menos importa. A melhor contribuição de Tavares com seus ensaios é reabrir a picada que Guimarães Rosa inaugurou na mata fechada e desconhecida que é a ficção fantástica brasileira. Há um caminho ali, e ele é seguro e honesto, sendo hard e soft e horror e fantasia e ficção científica, um por um ou todos ao mesmo tempo. E, acima de tudo, sendo literatura brasileira sem receio até de ser mainstream.

sábado, 16 de abril de 2016

Memórias do futuro

O escritor e tradutor Braulio Tavares falou longamente sobre ficção científica no capítulo "Memórias do futuro" do programa Super Libris, projeto da SescTV que, em 26 episódios, forma um panorama sem preconceitos da literatura brasileira contemporânea a partir de entrevistas com autores representativos de cada segmento.
Como é sua característica, Tavares fez um discurso leve e colorido do gênero, com muitas imagens e frases pitorescas, tais como "A ficção científica é uma doença infantil, como o comunismo", ou "Não vale a pena conhecer o inconsciente de um autor cujo consciente é tão desinteressante".
O programa também apresenta uma série de artigos que detalham alguns dos exemplos citados na entrevista, tudo ponteado por belas vinhetas e uma ótima produção técnica.
Entre os demais episódios do Super Libris, também são entrevistados os escritores André Vianco, falando sobre a literatura de horror, e Eduardo Spohr, sobre fantasia.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Páginas de sombra

Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros, Braulio Tavares, org. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2003.
Não é de hoje que alguns estudiosos buscam identificar claramente a evolução da literatura brasileira especulativa, mas a memória do fandom brasileiro, até bem pouco tempo, não ia além dos anos 1980. A maior parte do conhecimento a respeito da fc&f nacional era fruto da observação em primeira mão e o que veio antes era misterioso, desconhecido e até secreto.
Graças aos estudos de Braulio Tavares (Fantastic, fantasy and science fiction literature catalog, Biblioteca Nacional, 1992), Roberto de Sousa Causo (Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, UFMG, 2003), M. Elizabeth Ginway (Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, Devir, 2005), entre outros, a história da fc&f nacional começou a se revelar de forma mais profunda, motivando novos pesquisadores a trabalhar também em outros ambientes midiáticos, ampliando o alcance dos gêneros na cultura local.
Contudo, ainda há muito a ser redescoberto, especialmente o campo da ficção curta, muito mais difícil de identificar. É sobre esse formato que se debruçou Braulio Tavares ao montar a antologia Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros. Provavelmente inspirado na antologia O conto fantástico, organizada por Jerônimo Monteiro, (Civilização Brasileira, 1959), Tavares garimpou ainda mais que o seu antecessor, para montar um panorama abrangente do fantástico na literatura nacional, no que foi muito bem sucedido.
A antologia é aberta por um detalhado ensaio chamado "Nas periferias do real ou O fantástico e seus arredores", do próprio organizador, que justifica e conceitualiza o trabalho de reunir os 16 textos que formam a coletânea, todos de autores consagrados no mainstream que não se furtaram em avançar no campo do fantástico quando julgaram relevante fazê-lo, e com resultados apreciáveis tanto no aspecto formal quanto no de conteúdo. Além disso, cada um dos contos vem precedido de uma breve contextualização do respectivo texto na história da literatura brasileira e na obra do autor, revelando detalhes e curiosidades saborosíssimas, uma atração a parte.
O primeiro conto é uma pequena joia: "Flor, telefone, moça", do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta maiúsculo da língua que também cometia ficções. Neste conto curto, publicado originalmente em 1951, uma é jovem assediada ao telefone – então uma revolucionária novidade tecnológica no país – por um suposto fantasma que exige que lhe seja restituída a flor subtraída por ela de seu túmulo.
"A podridão viva", de Amândio Sobral (1902-????), é um achado, de um autor tão obscuro que praticamente a única fonte de informações sobre ele é justamente a biografia que Tavares relatou na apresentação do conto. O texto foi publicado originalmente em 1934 e fala sobre um comerciante de marfim que testemunha o indizível numa malfadada expedição de caça na África.
O conto seguinte é de um autor já reconhecido pelo fandom, o mineiro Murilo Rubião (1916-1991), que construiu toda a sua carreira literária na fantasia. Tavares selecionou aqui o bizarro "Teleco, o coelhinho", publicado originalmente em 1965, no qual um homem recolhe em sua casa um ser metamorfo que muda de aparência conforme o estado de espírito. A princípio, a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
Outro autor que geralmente é lembrado pelos especialistas quando relacionam autores de fc&f brasileiros é o paraibano Berilo Neves (1901-1974), autor de sucesso em seu tempo, mas pouco lido pelas novas gerações. Dele temos "A última Eva", de 1934, tragicômico relato de ficção científica sobre a morte da última mulher – e, por conseguinte, da espécie humana – depois que uma praga varreu o gênero feminino do planeta.
Lilia A. Pereira da Silva é a primeira de três autoras publicadas por Tavares nesta antologia, e uma grata surpresa dentro do panorama da ficção fantástica nacional. Paulista de Itapira, Lilia publicou mais de noventa livros, entre os quais está a perturbadora coletânea Monstros e gênios, de 1965, de onde veio o conto "Máquina de ler pensamentos", no qual uma cientista que faz experiências com a mente a partir de estátuas decide passar a seres humanos e escolhe um menino de rua para ser sua primeira cobaia.
O texto seguinte é bastante conhecido dos leitores; trata-se da novela "A escuridão", do atibaiense André Carneiro (1922-2014), um dos textos mais lembrados entre especialistas, presente em inúmeras antologias nacionais e estrangeiras desde a sua primeira publicação, na coletânea Diário da nave perdida (1963). Conta a tragédia que se abate sobre a humanidade quando, repentinamente, todos ficam cegos. Ideia semelhante apareceu antes no romance O dia das trífides (The day of the triffids, 1951), do britânico John Windhan (1903-1969), mas neste clássico brasileiro o tema tem um tratamento mais maduro e sofisticado.
"A casa sem sono" é a contribuição do escritor maranhense Coelho Netto (1864-1934), conto publicado em 1923 no qual um homem é desaconselhado a adquirir uma linda mansão depois que seu amigo relata a experiência estressante que teve quando morou ali. Coelho Netto, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, também foi um autor de grande sucesso em sua época, que nos legou uma rica bibliografia especulativa, mas é praticamente desconhecido dos leitores de hoje.
O paulista Origenes Lessa (1903-1986) aparece com "A gargalhada", texto de 1963 de verve profundamente irônica, que relata o rápido desmoronamento da civilização a partir de um evento cômico, mas inegavelmente perturbador: uma gargalhada que irrompe, sem aviso, em meio às transmissões de rádio e televisão.
"O satanás de Iglawaburg", do capixaba Adelpho Monjardim (1903-????), envereda pelo horror gótico. Em algum momento antes da Primeira Guerra Mundial, uma pintura macabra aparentemente causa desastres num castelo medieval todas as vezes que alguém a tenta destruir. Monjardim se instala na categoria dos políticos escritores, pois foi Prefeito de Vitória, cumpriu pelo menos um mandato de Deputado Estadual e ainda encontrou tempo para escrever muitos livros de ficção especulativa, entre eles a coletânea A torre do silêncio (1944), na qual primeiro apareceu este texto.
Machado de Assis (1839-1908) não pode faltar em qualquer antologia de contos brasileiros e, para nossa sorte, não faltam contos de ficção especulativa em sua bibliografia. "As academias de Sião", publicado em 1884, é uma fantasia oriental com um surpreendente conteúdo feminista e transgênero. Conta a história de um rei sensível e inseguro e sua concubina decidida e autoritária, que decidem trocar de corpos através de um feitiço para confrontar as especulações filosóficas de duas academias rivais a respeito da sexualidade da alma.
"O caminho do poço verde", conto de 1994 do escritor carioca Rubens Figueiredo – já duas vezes vencedor do prestigioso Prêmio Jabuti –, é mais um achado do organizador. Conta as andanças de uma jovem mochileira em férias por rincões do interior sertanejo, onde experimenta o sobrenatural das comunidades isoladas. O conto não tem um componente fantástico explícito, mas o clima sombrio da narrativa, mesclado a alguma ambiguidade nas informações, é eficiente para criar um cenário mágico e misterioso, numa das mais intensas experiências literárias da antologia.
A carioca Heloísa Seixas é a segunda autora a aparecer na seleta, com o conto "Íblis", publicado em 1995, provavelmente na coletânea Pente de Vênus: Histórias do amor assombrado. Relata a experiência de uma acadêmica sofisticada em férias pela Europa, que tem um encontro ardente com a morte durante uma viagem de trem. Ainda que seja um texto curto, destaca-se por sua intensidade sensual.
A terceira autora do grupo é a também sempre lembrada Lygia Fagundes Telles. Paulistana de nascimento, esta grande dama da literatura brasileira quase sempre aparece nas antologias de gênero com "A caçada" ou "Seminário dos ratos", mas o organizador optou aqui pelo assustador "As formigas", conto de 1977 em que duas mulheres hospedadas num quarto de pensão, testemunham um exército de formigas, noite após noite, montarem o esqueleto de um anão abandonado ali em uma caixa.
"Luvibórix", do cearense Carlos Emílio Correia Lima, contribui à seleção com um contrastante texto pós moderno originalmente publicado em 1986. Conta sobre o momento sagrado em que o dragão místico Luvibórix, que dá forma à realidade com seu olhar, decide subir a superfície do planeta e, conduzido por um sacerdote, contemplar as ruínas da civilização que lhe serve de alimento.
"Os olhos que comiam carne", do maranhense Humberto de Campos (1886-1934) é um interessante exemplo da conjunção espontânea de ideias: publicado originalmente em 1932, antecipou a história do clássico filme de Roger Corman, O homem dos olhos de raio X (X: The man with the X-ray eyes, 1963). Conta sobre um homem cego que, submetido a uma cirurgia experimental revolucionária, recupera a visão de um modo traumático. Campos é, assim, mais um membro da Academia Brasileira de Letras que, ao lado de Machado de Assis, Coelho Netto, Antonio Olinto, Zora Seljan, Dinah Silveira de Queiroz e Rachel de Queiroz, entre outros, trabalhou bem com o fantástico em sua obra.
A edição é fechada pelo inolvidável "Demônios", do também maranhense Aluísio de Azevedo (1857-1913), um dos grandes clássicos da ficção especulativa brasileira, digno representante da estética da weird no País. Fantasia, horror e ficção científica se amalgamam para contar os últimos dias da humanidade depois que um estranho fenômeno apaga o sol e transforma as pessoas em seres rastejantes sem intelecto.
Páginas de sombra cumpre, assim, o importante papel de iluminar regiões fronteiriças da fc&f brasileira que, por muito tempo, se acreditou ser território exclusivo da ação de fãs desprezados pelo mainstream, mas, pouco a pouco, revela-se um campo de tradição muito maior e que precisa ser estudado. Fica claro que a literatura brasileira não ignorou a literatura de gênero, pelo contrário, a praticou com qualidade e aqui estão 16 inegáveis exemplos disso (sem esquecer também da ótima antologia Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizada por Lainister de Oliveira Esteves e publicada em 2010 pela Editora Escrita Fina, resenhada aqui). Muito ainda espera ser redescoberto e são pesquisas como esta que dão satisfação de ver que nunca estivemos sozinhos, e sim muito bem acompanhados: só é preciso olhar para o lado.

domingo, 24 de maio de 2015

A ficção científica e o espaço selvagem

A ficção científica e o espaço selvagem é o título da palestra que o escritor Braulio Tavares ministrou na Academia Brasileira de Letras dentro do ciclo de conferências Vertentes da Literatura Brasileira, coordenada por Antônio Torres e apresentada por Antônio Carlos Secchin. Na palestra, de cerca de uma hora, Braulio elencou diversos títulos da literatura brasileira do gênero, como O Doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar, A rainha do ignoto, de Emília Freitas, A filha do inca, de Menotti Del Picchia, e muitos outros textos fundadores da fc no país. Também cita alguns estudos como Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, de Roberto de Sousa Causo, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, além dos trabalhos da pesquisadora norte americana M. Elizabeth Ginway, sempre com clareza e uma didática perfeitas, que dá gosto de ouvir.
A palestra está integralmente disponível no Youtube, aqui.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Resenha: A espinha dorsal da fcb

O primeiro trabalho que li Braulio Tavares foi um pequeno texto chamado "Os pensadores de São Tiago" que ele gentilmente enviou para o número 11 do Hiperespaço, publicado em 1986, uma edição especial de contos. Só mais tarde soube que aquele pequeno texto havia sido sua estreia na ficção.
Na sequência, Tavares tornou-se colaborador regular do fanzine Somnium, do Clube de Leitores de Ficção Científica, publicação na qual acompanhei cada um dos contos que posteriormente formariam a coletânea A espinha dorsal da memória, publicada em 1990 pela Editora Caminho, de Portugal, que recebeu o Prêmio Nova de melhor livro naquele ano. A coletânea ganhou edição brasileira em 1996, pela Editora Rocco, acrescida da coletânea inédita O mundo fantasmo.
Na primeira parte da edição brasileira estão doze contos que integram a memória coletiva do fandom brasileiro, como "Sympathy for the devil", ganhador do Prêmio Nova em 1989, "História de Maldum, o Mensageiro", que deu origem ao seu romance A máquina voadora (Rocco, 1994), e "Príncipe das sombras", história de invasão alienígena que vai da fc hard à cyberpunk e à space opera, num passeio completo pelo gênero. Sem esquecer de "Mestre-de-armas", conto vencedor do Prêmio Nova em 1990, considerado por muitos como seu melhor trabalho.
Contudo, destaco um dos mais curtinhos: "Mare Tenebrarum", que relata um drama infelizmente muito comum no Brasil: um temporal, a água entrando pela casa, cobrindo móveis e destruindo a realidade de uma família pobre, mas... e se a enxurrada fosse forte demais?
Girando o livro de ponta-cabeça e lendo de trás-para-frente está Mundo fantasmo, que apresenta mais sete histórias, todas inéditas. "Oh Lord, won't you buy me" é praticamente uma homenagem ao fã brasileiro de fc&f, sempre a cata de mais e mais livros pelos sebos da cidade. É impossível não se identificar com o personagem que se encontra com Deus em pleno metrô paulista.
Mais homenagens em "Exame da obra de Giuseppe Sanz", história de um escritor de sucesso que produzia suas obras dissecando trabalhos alheios e revestindo-os com uma figuração moderna. E não é o que os autores fazem o tempo todo?
"História de Cassim, o Peregrino, e de um crime perfeito que Deus castigou" é uma espécie de sequência à "História de Maldun, o Mensageiro", menos assustadora mas igualmente deliciosa, na qual um homem relata aos seus companheiros de bebida um intrigante conto de amor, traição e imortalidade.
Tavares também experimentou formalmente em "Expedição às profundezas do oceano", história de horror urbano contada no único parágrafo de um relatório policial.
O conto que mais apreciei em Mundo fantasmo foi "E assim destruímos o Reino do Mal", no qual um guerreiro obcecado pela destruição do mal sobre a Terra acaba por tornar-se o próprio coração da maldade.
Tem muito mais, cada história é passagem para uma realidade diferente, repleta de sense of wonder que, no final das contas, é o que faz todos nós fãs da ficção fantástica.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Páginas do futuro

E para não deixar pedra sobre pedra, Braulio Tavares ainda guardava mais uma carta na manga. Acaba de ser anunciado o lançamento da antologia Páginas do futuro, organizado por Tavares com doze contos de literatura fantástica escritos por autores brasileiros escolhidos dentro do cânone nacional, como atestam alguns do nomes selecionados: Rachel de Queiroz, Rubem Fonseca e Joaquim Manuel de Macedo, entre outros.
Diz o relise: "Nesta edição estão representadas épocas sucessivas do conto de ficção científica, passando por narrativas épicas, fantásticas e aventurosas que incluem histórias de seres sobrenaturais, deuses, monstros, artefatos mágicos, cidades encantadas, excursões a outros mundos, mitos de criação do mundo e dos seres. Uma literatura na tênue fronteira entre o real e o imaginário, indo dos romances científicos até a literatura pulp, passando pela especulação filosófica e pela projeção dos avanços científicos de criogenia, robótica e informática".
O livro tem 152 páginas e é uma publicação da editora Casa da Palavra.

Amor e sexo

O escritor e jornalista paraibano Braulio Tavares investiu, um dia, em uma carreira de autor. Publicou duas coletâneas (A espinha dorsal da memória, 1989, e Mundo fantasmo, 1986) e um romance (A máquina voadora, 1994), todos de excelente qualidade literária. Porém, o que deu certo mesmo foram as antologias. Há alguns anos, Tavares mantém boa regularidade editorial organizando antologias de literatura fantástica que foram muito bem recebidas pelo mercado. Títulos como Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros (2003); Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005); Freud e o estranho: Contos fantásticos do inconsciente (2007) e Contos obscuros de Edgar Allan Poe (2010), todas publicadas pela editora Casa da Palavra.
Agora, Tavares está lançando, pela Imã Editoral, a antologia Contos fantásticos: Amor e sexo, reunindo textos de ficção científica de Samuel R. Delany, Robert Silverberg, John Crowley, Ruth Rendell, Greg Egan, Fausto Cunha, Honoré de Balzac, Conan Doyle, William A. Lee e Edgar Allan Poe. Sem dúvida um grupo seletíssimo, com alguns autores pouco publicados no Brasil.
Diz o relise: "Escritores do século 18 ao 20, entre clássicos e renovadores da Ficção Científica, criam contos em que o amor e o sexo vencem os limites do tempo e da morte e onde máquinas estendem para além do imaginável as paixões e os prazeres".
O livro tem 230 páginas e uma amostra pode ser vista aqui.

sábado, 10 de abril de 2010

Atrações da semana

Duas das mais interessantes iniciativas de FC&F na internet tiveram atualização nesta semana e justificam a atenção de fãs e interessados no gênero.

É só Outro Blogue, editado pelo escritor Tibor Moricz e recentemente comentado aqui, disponibilizou mais uma entrevista de sua série "De Bar em Bar", desta vez com o escritor e jornalista pernambucano Braulio Tavares.
As entrevistas dessa coluna têm estilo personalizado, mistura de ficção e não-ficção, uma brincadeira bacana e bem humorada. As vezes fica a impressão que Tibor modulou as respostas dos seus entrevistados para que eles pareçam mais agressivos do que geralmente são. Mas com o sempre muito tranquilo Tavares, isso não chega a acontecer, ainda mais porque a arma do autor contra a "violência" do ambiente - pois os cenários da entrevista sempre são algo insalubres - é a poesia.

A outra peça importante da semana é o novo episódio do Podespecular, "Vapores eletrônicos", um título inspirador para que os debatedores Paulo Elache, Edgar Smaniotto, Carlos Alberto Machado, Marco Ortiz e Rogério Brito diuscutam os contornos do steampunk, subgênero da ficção científica que tem recebido alguma atenção da mídia e dos fãs, e já se configura como um movimento tão importante quanto o dos fãs de Star Trek, Star Wars e vampiros. De fato, a onda steampunk dialoga de perto com a vampiromania, ao ponto do RPGMMO Vampire Wars, comentado aqui, dispôr adereços no estilo steampunk para decorar seus avatares.
Os debatedores têm idéias muito específicas sobre o que vem a ser steampunk e passam boa parte do programa definindo o que é e o que não é parte do subgênero, nem sempre concordando entre si, gerando uma tonelada de citações cujos links são disponibilizados na página que abriga o arquivo. O programa é longo, quase 90 minutos, mas vale a pena escutá-lo na integra. Os episódios anteriores também estão disponíveis e vale a pena escutar todos eles.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Um Jabuti para a fantasia brasileira

Já há muito tempo que o fandom brasileiro espera que o mainstream literário reconheça o valor de seus autores. Durante um tempo, fizemos nossos próprios prêmios - como o Prêmio Nova, que ajudei a promover durante alguns anos - na expectativa que a divulgação dos ganhadores pudesse influir de alguma forma nessa relação. Funcionou apenas internamente e, mesmo assim, durante pouco tempo, sem ter chegado a causar interesse fora dos muros do fandom.
Encerrada a aventuras dos prêmios, os olhos dos fãs voltaram-se para os prêmios literários consagrados, como o Prêmio Jabuti, o mais importante do país. Como alguns de nossos autores começaram a ser publicados em grandes editoras, renovou-se a esperança que a FC&F brasileira finalmente ganhasse visibilidade e pelo menos ombreasse o sucesso dos autores da chamada primeira onda da ficção científica brasileira. Fausto Cunha, um dos líderes daquela geração, escritor, tradutor e editor, ganhou um Jabuti em 1971 pelo ensaio O Romantismo no Brasil. E eu gosto de pensar que a ficção científica brasileira ganhou um Jabuti em 1977, quando Herberto Sales levou o prêmio pelo romance O fruto do vosso ventre, ainda que se possa questionar se ele e seus pares reconheciam que o romance era ficção científica de fato.

Enfim, como não me incomodo com essas polêmicas, pra mim não há nenhuma ansiedade. O fandom já ganhou pelo menos dois Jabutis - sem falar nos de ilustração, que são importantes mas não contam aqui porque são do pessoal dos quadrinhos, não da literatura.
Mesmo assim, não posso deixar de festejar efusivamente esta grande notícia: Braulio Tavares, um dos mais convictos e expressivos autores do fandom, ganhador de diversos Prêmios Nova, acaba de levar um Jabuti na categoria livro infantil pelo conto de fantasia A invenção do mundo pelo Deus-Curumim, publicado pela editora 34 Letras, que há alguns anos até tentou emplacar uma coleção de FC, mas infelizmente só ficou em duas edições. A história é inspirada em lendas indígenas e vem acompanhada pelas ilustrações de Fernando Vilela.
Braulio Tavares é paraibano de Campina Grande, há anos radicado no Rio de Janeiro. Escritor, poeta, compositor e jornalista, autor dos livros O que é ficção científica, A espinha dorsal da memória/O mundo fantasmo e A máquina voadora, entre outros. Mantém uma coluna diária no Jornal da Paraíba, na qual fala de um bocado de coisas, inclusive ficção científica. Acompanho há anos esses textos divertidos, muitas vezes geniais, através de pacotes periódicos que Braulio gentilmente encaminha a minha caixa postal.

Braulio gosta de trabalhar com literatura infanto-juvenil e o faz muito bem. Em 1998 publicou, pela mesma editora, o livro infantil A pedra do meio-dia ou Arthur e Isadora, em que narra na forma de poemas de cordel uma aventura no estilo das histórias de fadas. Já merecia um Jabuti por ele, mas como se diz, o que é do homem o bicho não come. O prêmio é mais do que merecido.
Uma curiosidade – e não posso deixar de dizer que é motivo de orgulho para mim – é que o Hiperespaço foi a primeira publicação a veicular a ficção de Braulio Tavares, em sua edição 11, especial de contos, de 1986.
É bom saber que um autor que viajou no Hiperespaço e que acima de tudo é um amigo pessoal, realizou um feito dessa categoria.
Parabéns Braulio.


Cesar Silva e Braulio Tavares durante a III FantastiCon, em 2009.