quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Resenha do Almanaque: Kalum, Menotti Del Picchia

Kalum, Menotti Del Picchia. Publicação original de 1940. Edição avaliada: Ediouro Publicações, Coleção Prestígio, Rio de Janeiro, sem data.

Em 1940, dez anos após a primeira publicação de A filha do inca, Menotti Del Picchia retornou ao universo da República 3000 em Kalum, esta também uma história de aventuras na selva brasileira, "para recreio da nossa juventude", como diz o autor em seu prefácio.
Kalum repete a estrutura usada no livro anterior e, de forma geral, é um livro mais regular que aquele. Mas é lamentável que seja assim, pois as imagens de A filha do inca emocionam muito mais e fixam-se de forma mais profunda na memória do leitor. Desse modo, Kalum soa anticlimático, ainda que tenha muitas sequências emocionantes.
A história de Kalum inicia com uma expedição alemã, científica e cinematográfica, que pretende filmar os rituais canibalescos de uma tribo  indígena da Amazônia, os kurongangs, intocada pela civilização. A tribo habita uma área de difícil acesso e a jornada é longa, ainda que não tão desastrada quanto aquela comandada pelo Capitão Fragoso. Esta expedição é chefiada por Karl Sopof, um tipo atlético e esperto que acredita que é sua melhor chance de ficar rico, pois tem certeza que o filme que pretende fazer vai ser um sucesso na Europa.
Os mateiros que guiam a expedição têm medo, pois conhecem a selvageria dos kurongangs, especialmente seu líder, o cacique Kalum, O Sangrento. A certa altura, os expedicionários são surpreendidos pelos kurongangs e levados prisioneiros. Quando se aproximam da taba dos indígenas antropófagos, numa clareira de acesso difícil entre montanhas altas e escarpadas, Karl surpreende-se com a arquitetura de algumas ocas, que se parecem com casas urbanas, porém erguidas com bambu e barro.
Ao confrontarem Kalum, todos percebem porque ele é tão temido. Trata-se de uma figura um tanto cômica, de pequena estatura, ainda que fortíssimo e de aparência feroz. Mas o que realmente assusta é que Kalum demonstra ser psicológica e emocionalmente instável. Kalum decreta que todos os prisioneiros deverão ser sacrificados mas, antes disso, devem ser purificados pelo pajé, um tipo misterioso chamado de Bogum. Karl é levado a sua presença justamente numa das choças de aparência familiar, e se depara com outra criatura bizarra, barbada e vestida em andrajos, mas que fala sua língua e sabe exatamente o que ele pretendia fazer ali com seus equipamentos estranhos. Alguns mistérios desfazem-se quando Bogum revela a Karl que ele é, na verdade, o padre D. Rui Colaço, que sobrevive entre os kurongangs pois impressionou-os com truques de mágica, enquanto seus companheiros, de uma malfadada missão de catequese, foram todos mortos.
Bogum sabe que não pode fazer muito pelos prisioneiros sem arriscar sua própria vida mas, junto com Karl, elabora um plano para intimidar Kalum, que consiste em filmá-lo, exibir o filme realizado e convencê-lo que Karl também é um feiticeiro poderoso e que aprisionou sua alma.
O plano funciona parcialmente pois, dessa forma, Karl e Bogum conseguem livrar os demais prisioneiros que rapidamente abandonam a taba. Porém, Bogum e Karl são retidos pelo desconfiado Kalum, que exige a devolução de sua alma. Quando percebem que nunca sairão vivos da tribo kurongang, ambos decidem fugir pela única saída possível, uma passagem secreta sob as montanhas, que Bogum descobriu através de um mapa que encontrou junto a um esqueleto do que ele julgara ser uma criança. Na proteção da noite, ambos esgueiram-se em direção as escarpas, mas são descobertos e caçados pelos indígenas. Já próximos do paredão de rocha, o velho padre é abatido mortalmente por uma flexada, enquanto Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, através do qual ele se atira precipitadamente. Os kurongangs ficam assustados com o poder do estranho feiticeiro que fugiu para dentro da montanha, mas Kalum não está com medo. Promove um dos feiticeiros menores ao posto do falecido Bogum e exige, sob pena de morte, que ele descubra uma maneira de também abrir a montanha, para recapturar o feiticeiro branco que lhe roubou a alma.
Enquanto o aterrorizado feiticeiro tenta desesperadamente descobrir como se abre uma montanha, Karl tateia na escuridão de uma caverna colossal que se aprofunda mais e mais para dentro da rocha. Milhares de metros abaixo do solo, descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas como crianças, lindas, louras e idênticas que, ainda por cima, falam sua língua. Bem recebido, Karl se depara com uma versão ampliada das pequenas mulheres, a única entre elas que tem a altura normal, chamada Elinor. Ela lhe conta que os habitantes daquela cidade, que também se chama Elinor, descende de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes dos quais outro ramo de descendentes fundou, em local mais favorável, a mítica República 3000. Nas cavernas, seu povo encontrou abrigo e segurança, pois na floresta eram hostilizados pelos kurongangs, que os caçavam sem trégua. Lacraram a entrada da caverna, aprofundaram as galerias e erigiram ali sua cidade, com sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar. Através de receptores de rádio-televisão, acompanharam a evolução dos povos do mundo, aprendendo suas línguas e absorvendo seu conhecimento. Sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações e, sem a luz natural do sol, o ar fresco e o céu aberto, uma desgraça terrível se abateu sobre o povo de Elinor. Uma infelicidade existencial profunda vitimou principalmente os homens, que se suicidaram aos milhares. As mulheres resistiram melhor, mas tornaram-se infantis e fúteis. Aos poucos, a população foi se reduzindo e naquele momento encontra-se à beira da extinção.
Elinor lidera os homens remanescentes numa investida desesperada em escavar, a partir dos níveis mais profundos da caverna, uma passagem para o exterior, longe dos ferozes kurongangs. O trabalho é lento e imprevisível, mas há esperança que seja finalizado em breve.
As pequenas mulheres não se importam com a escavação e em nada ajudam os trabalhos, passando seu dias em absoluta improdutividade. Volúveis e medrosas, logo voltam-se contra Karl, temendo que ele traga os kurongangs até ali. Os ânimos exaltam-se e, quando parece que nem Karl nem Elinor poderão contê-las, soam os alarmes: os kurongangs finalmente abriram o portal e a luta final tem início.
Como se percebe, a história de Kalum é muito mais elaborada que a vista em A filha do inca. Há mais detalhes, os personagens são individualmente mais trabalhados, os conceitos de uma história de aventuras são melhor instalados e mesmo as estruturas de gênero parecem melhor arranjadas, ainda que muita coisa pareça absurda ao leitor moderno. Mas falta o toque de maturidade que A filha do inca tem de sobra. Falta, sobretudo, um personagem carismático como o Maneco, tão bem colocado na história anterior. Parece, a princípio, que um dos muitos companheiros de Karl, especialmente o grandalhão e sentimental Fritz, poderia assumir esse posto, mas todos são removidos da trama antes de sua metade.
Kalum ainda tem a seu desfavor o fato de ser uma história muito mais sombria se comparada a A filha do inca. Enquanto em A filha do inca os autômatos da República 3000 sobem em revoada para as estrelas, numa cena emocionante e transcendental que levaria qualquer fã de hard fiction às lágrimas, Kalum só tem sangue e destruição a oferecer. Para compensar, Kalum apresenta um epílogo lírico e belíssimo de efusividade tropical, em si uma peça à parte, com seu colorido contrastando ao preto e branco predominante da história. Decerto que Del Picchia já sabia disso tudo. Ele mesmo diz, em seu prefácio, que se entregara "à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso".
Cabe a nós percebermos que esse maravilhoso não tem que ser, invariavelmente, positivista. No caso de Kalum, é o maravilhoso do horror que se apresenta muito mais exposto do que o maravilhoso científico. Comparado à pobreza de ideias que cerca o gênero do horror no Brasil, que se volta insistentemente para um gótico superado e enfadonho, Kalum mostra que Menotti Del Picchia estava adiante de todos nós tanto na ficção científica quanto no horror.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Anacrônicas, Ana Cristina Rodrigues

Anacrônicas: Contos mágicos e trágicos
, Ana Cristina Rodrigues. 204 páginas. Rio de Janeiro: Aquário, 2014.

Ana Cristina Rodrigues construiu sua reputação como ativista cultural no ambiente da ficção fantástica através das redes sociais, sendo uma autora identificada claramente com o que os estudiosos do gênero convencionaram chamar de "terceira onda" da ficção científica brasileira. Como resultado direto de sua militância, Rodrigues foi, no início do século, a primeira mulher a presidir o Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC e teve sua ficção destacada principalmente no ambiente virtual. 
Anacrônicas: Pequenos contos mágicos foi, provavelmente, sua primeira seleta individual, publicada em 2009 pela Editora A1. O volume aqui analisado é a segunda edição do título, publicado em 2014 no selo Aquário, que a autora fundou ao lado do cartunista Estevão Ribeiro.
Esta edição reúne, em 204 páginas, boa parte da produção literária inicial da autora; republica doze textos da primeira edição, a eles acrescenta três inéditos e mais nove, vistos primeiro em diversas antologias, num total de 24 contos que se espalham em diversos ambientes no gênero da fantasia, quase sempre medieval. A autora afirma, no prefácio, que alguns dos textos são, de fato, trechos de um mesmo trabalho mais longo. 
Muitos contos são vinhetas e homenagens literárias, como a fanfic de Sandman, "O ladrão de sonhos", e a de Alice no País das Maravilhas, "É tarde".
O melhor texto da seleta é "O longo caminho de volta" que, com 24 páginas, também é mais mais longo do conjunto. Primeiro publicado na antologia Cidades indizíveis (2011, Liyr), fala sobre uma mulher que retorna para sua cidade natal depois de anos no exílio, para tentar restaurar sua dignidade. O interessante é que a cidade em que ela nasceu é uma gigantesca biblioteca a céu aberto. 
Também vale destacar  "O ensurdecedor silêncio dos deuses" (2016, Aquário), que é o texto que mais se aproxima da ficção científica e fala sobre o ritual de sacrifício do povo-macaco que vive oprimido pela tribo dos homens-águia. "Carta a monsenhor", visto primeiramente na antologia Paradigmas 2 (2009, Tarja), revela a confissão de um moribundo que passou a vida aterrorizado por demônios. Em "A morte do temerário", visto primeiro na antologia Espelhos irreais (2009, Multifoco), um príncipe procura por redenção na busca por uma ave mítica. E o drama arturiano "A dama de Shallot", texto já presente na edição de 2009, que fecha esta seleta.
Vale a visita à ficção de Ana Cristina Rodrigues que, independente de qualquer significado político que tenha conquistado ao longo de sua militância no fandom, possui um texto elegante, muitas vezes interessante, e que, devido ao seu aspecto histórico, pode agradar diversos tipos de leitores, especialmente aqueles que não são fãs de ficção fantástica.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Prêmio Argos 2022

O Prêmio Argos de Literatura Fantástica, criado em 2000 e promovido anualmente pelo Clube de Leitores de Ficção Científica, reconhece os melhores trabalhos em romance, antologia e história curta de ficção científica, fantasia e horror escritos em língua portuguesa publicados no ano anterior, por meio de votação direta dos seus sócios. 
Os vencedores em 2022 são:
Romance: Até que a brisa da manhã necrose o seu sistema, Ricardo Celestino, Clube de Autores.
Demais finalistas: Jack London e a criatura de Salmon Pond, Ana Lucia Merege & Allana Dilene, Draco; Olhos de pixel, Lucas Mota, Plutão; Pecados terrestres, Gerson Lodi-Ribeiro, Draco.
Antologia: Outros Brasis da ficção científica, Davenir Viganon, org., Caligo.
Demais finalistas: Colapso, Ricardo Labuto Gondim, org., Caligari; Farras fantásticas, Ian Fraser, Ricardo Santos & João Mendes, orgs., Corvus; Não existem humanos inteligentes, Saulo Adami & Lu Evans, orgs., Nebula.
Conto: "Sobre a fé de um andante que teve a cara mastigada", Ricardo Celestino, Outros Brasis da ficção científica, Caligo.
Demais finalistas: "O bará de Marte", Davenir Viganon, Outros Brasis da ficção científica, Caligo; O evento, Camile Queiroz, edição de autor; "A ópera dos doces horrores", Diego Mendonça, Diário macabro, Diário Macabro; "Paralaxes", Ricardo Labuto Gondim, Colapso, Caligari; "O tesouro no fim da escadaria", Rodrigo Ortiz Vinholo, Tempo de exploradores, edição de autor.
O resultado foi divulgado com grande atraso, no último dia 5 de fevereiro, através do perfil do prêmio no Twitter. O saite oficial do CLFC ainda não divulgou o resultado. 

Resenha do Almanaque: A filha do inca, Menotti Del Picchia

A filha do inca, Menotti Del Picchia. Edição original de 1930. Edição avaliada: Livraria Martins Editora, São Paulo, 1982.

Entre os leitores brasileiros de ficção científica existe uma indisfarçada má vontade para com os romances clássicos da fantasia nacional. Supõem que são textos rasos, de pouca ou nenhuma qualidade, seja literária, seja nos parâmetros da ficção de gênero. Afinal, o que poderia um matuto no início do século XX produzir de significativo para um gênero que mal engatinhava em seus mercados mais importantes, se até neles os autores tinham dificuldades em encontrar o tom e o espaço correto desses protocolos?
A dificuldade de acesso a esses livros mais antigos, que não se encontram nas livrarias há décadas, também contribui para que sejam preteridos e, muitas vezes, esquecidos. Por preconceito e distanciamento, os primeiros exemplos da ficção científica brasileira vão sendo empurrados para a vala comum do que não tem valor. É o caso do romance A filha do inca ou A República 3000, do modernista Menotti Del Picchia (1892-1988).
Mais conhecido por seus textos realistas, como Juca Mulato (1917) e Laís (1931), Del Picchia nasceu em São Paulo/SP, iniciou como jornalista em Pouso Alegre, dirigiu o jornal A Tribuna de Santos e trabalhou em diversos periódicos importantes de São Paulo. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais tarde, chegou a criticar os excessos do Modernismo. O que ficou marcado na obra de Menotti Del Picchia foi sua ânsia por uma literatura iminentemente brasileira, para o que lançou mão de mitologias indígenas e imagens da flora e da fauna nacionais. De certa forma, Del Picchia foi o primeiro interlocutor de um debate conceitual que, nos anos 1980, viria a ser conhecido como Movimento Antropofágico da ficção científica brasileira.
Contudo, até isso reforça o preconceito dos leitores de hoje pois há tantas correntes críticas restringindo o espectro da ficção científica ao ponto de quase nada se enquadrar nele e qualquer contexto culturalmente definido, como o sugerido pelo Modernismo, é suficiente para que a obra seja retirada do balaio.
No prefácio, assinado pelo autor, Del Picchia assume sua motivação de escrever  "à nossa mocidade que procura uma leitura imaginosa que raramente lhe oferecem nossos melhores escritores, pois talvez achem o gênero puramente lúdico."  Ainda diz que se lançou à escrita de A filha do inca como uma forma de superar os traumas de A tormenta, livro sobre a Revolução de Isidoro em 1924, que ele testemunhou. Era de se esperar, portanto, uma novela leve e juvenil, que realmente justificasse o preconceito com relação a seriedade do autor brasileiro para com os gêneros fantásticos. Ledo engano.
A filha do inca inicia num frenesi devastador. Talvez as memórias sangrentas do autor fossem tão fortes que ele não conseguiu purgá-las todas redigindo A tormenta. As primeiras oitenta páginas de A filha do inca são de um furor pouco comum em toda a literatura fantástica, brasileira ou não.
Um grupo de militares, comandado pelo capitão Paulo Fragoso, está em missão de cartografia nos confins da Serra do Caiapó. A tropa enfrenta problemas sérios com doenças e acidentes. A mata fechada e o terreno acidentado atrasam a missão, que vai perdendo homens ao longo do caminho.
A certa altura, a tropa é atacada por uma tribo de selvagens que mata a maioria dos soldados e captura outros, ficando livres apenas o próprio Fragoso e um de seus comandados, o inábil e pouco valente Maneco, além do cão Faísca. A sequência de combate entre os índios e a tropa é de vigor e realismo espetaculares, em alguns momentos beirando à sanguinolência explícita.
Mesmo sem munição e mantimentos, Fragoso e Maneco tentam resgatar seus companheiros da sanha antropófaga dos indígenas, mas fracassam na tentativa. Exaustos e em frangalhos, a única chance de sobreviver é chegar ao ponto de encontro onde um avião viria resgatar a tropa.
Com dificuldades, o trio consegue chegar a uma planície castigada pelo sol, onde encontram uma tétrica muralha que parecia seguir em linha reta de horizonte a horizonte, formada por ossos calcinados de todos os tipos de animais conhecidos e desconhecidos, esqueletos humanos e um sem número de armamentos primitivos, trabalhados em ouro, prata e pedras preciosas.
Nesse momento, percebem a aproximação do avião de resgate mas, ao sobrevoar a muralha de ossos, os motores do aparelho falham. Dos destroços fumegantes, nada se pode aproveitar.
Desanimados, Fragoso, Maneco exploram a estranha barreira, que desperta a cobiça de Maneco. Cruzam-na sem problemas mas, ao tentar pular de volta, o cão morre eletrocutado. Os dois homens são capturados e conduzidos por uma estranha energia que os faz caminhar até um edifício onde são confrontados por um autômato antropomórfico que os leva para a mais estranha das nações sobre a face da Terra: a República 3000.
Ali vivem descendentes de homens vindo da Grécia há milênios, cuja embarcação naufragou na Ilha de Marajó. Depois de muita atribulação nas terras de uma América selvagem, fixaram-se naquela planície rica em minérios e alimentos, e desenvolveram-se para além do mais avançado sonho tecnológico. Fecharam seu perímetro com uma barreira eletrônica que impede qualquer invasão, trocaram seus corpos mortais pelos de autômatos e ali estabeleceram uma utopia que está prestes a dar um novo e grandioso salto evolutivo. Mas a sorte de Fragoso e Maneco está selada: eles substituirão os dois últimos remanescentes de uma tribo inca escravizada pela República 3000: Capac e Raymi – "a filha do inca" –, por quem Fragoso se apaixona e é correspondido. Contudo, a substituição implica no sacrifício ritual de Raymi e Capac, sendo que suas mortes devem vir pelas mãos do pobre Maneco. Parece não haver futuro para o romance entre Fragoso e Raymi, a não ser que os sábios da República descubram a equação final que procuram e fará deles cidadãos do universo.
A filha do inca apresenta duas partes bem distintas: a primeira é um relato realista da malfadada missão militar, com descrições vivas da geografia, flora e fauna brasileiras. A segunda, uma história fantasiosa e romântica, na tradição das aventuras de H. Rider Haggard, com ambientes áridos e minimalistas arrematados por um final positivista que cumpre a intenção do autor em realizar um texto para jovens. Entretanto, a parte inicial é tão pungente que agrada também ao leitor adulto.
Não há preconceito que resista a leitura do texto vigoroso de A filha do inca. Quem quer que o faça vai, imediatamente, defender que seja relacionado entre as melhores obras da ficção científica brasileira, com admiração por saber que foi redigido em época anterior a maioria dos grandes clássicos internacionais da ficção científica, antecipando em muito a consciência do gênero no Brasil.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Cidade dos deitados, Heloísa Prieto

Cidade dos deitados
, Heloísa Prieto. Ilustrações de Elizabeth Tognato. 64 páginas. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

Mesmo para um leitor especialista, muitas vezes certos títulos escapam, seja porque foram publicados em tiragens muito reduzidas, porque tiveram distribuição irregular ou regional, ou porque acabaram sendo colocados nas estantes erradas das livrarias, misturados a títulos que nada tem a ver com eles. Também pode ser porque a editora não promoveu o volume adequadamente ou porque circulou em um nicho não muito permeável a outros públicos. Fato é que sempre acabamos por encontrar, as vezes sem querer, um título interessante que passou despercebido quando de sua publicação. Este é o caso de Cidade dos deitados, da escritora paulistana Heloisa Prieto, publicado em 2008 pela editora Cosac Naify na coleção Ópera Urbana. 
Muitas coisas tornam este um volume especial. A começar pela capa dura, o papel encorpado e brilhante do miolo e as páginas pretas com todo o texto em branco. Mas o que se destaca, além do texto delicioso, são as ilustrações de Elizabeth Tognato, que dão um show visual que torna a leitura quase como a de uma história em quadrinhos. 
A inspiração são os cemitérios da capital paulista, que conseguimos reconhecer seja pelas vívidas descrições da narrativa, seja pelas ilustrações, que não têm um estilo único: cada página é uma surpresa, passando por montagens, bicos de pena, crayons, grafites, fotografias, lápis de cor, arte igital e muito mais.
O texto é uma novela-poema de horror que se lê em não mais que meia hora. Narra o passeio de uma transeunte (provavelmente a própria autora) por alamendas de um cemitério durante uma estranha noite insone, recheada de aparições e habitantes noturnos, até as primeiras luzes da manhã. 
Leitores de Neil Gaiman vão perceber a mesma satisfação melancólica de O livro do cemitério, e os fãs de Stephen King recordarão do mesmo clima onírico de "Andando na bala" (publicado na coletânea Tudo é eventual). Mas o texto de Prieto escapa da armadilha do pastiche na medida em que se apega a sua própria história pessoal – o texto faz referência a perda de uma parente querida –, aos espaços físicos paulistanos e ao imaginário brasileiro sobre os cemitérios e o "mundo dos mortos". Desse modo, replica o enlevo sem perder a originalidade. E o volume ainda vem acompanhado de um libreto de 36 páginas recheado de informações sobre cemitérios famosos de São Paulo e do mundo. Apesar do tema algo mórbido, tem uma leitura tão deliciosa quanto a da novela em si.
Por sua apresentação gráfica e título, qualquer um diria que Cidade dos deitados é um livro juvenil, e o encarte faz parecer que é, realmente, paradidático. Mas não é nada disso. Não que não possa ser lido por jovens, de fato acredito que o volume faria muito sucesso entre os adolescentes, mas a escrita é madura e exige participação do leitor, sem a qual pode nao ser possível aproveitar todos os detalhes do história.
Por este e outros aspectos já citados é que posso dizer que Cidade dos deitados é um trabalho de fronteira muito rico, que pode ser percebido em diversos níveis e matizes por diversos públicos. 
Enfim, Cidade dos deitados é uma dessas agradáveis surpresas, um encontro noturno com uma aparição delicada, sem o travo do horror que geralmente acompanha tais eventos.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Conexão Literatura 92

O periódico eletrônico Conexão Literatura, editado por Ademir Pascale e dedicado à divulgação e publicidade de novos autores e obras da literatura brasileira, chega a edição 92 – referente a fevereiro de 2023 – e traz, em 101 páginas, contos de Gilmar Duarte Rocha, Idicampos, Iraci J. Marin, Ney Alencar e Roberto Schima, além de entrevistas com artistas, ficção, poemas, crônicas, resenhas e artigos de assuntos variados.
Conexão Literatura tem distribuição gratuita e esta edição pode ser baixada aqui. Números anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Nos quânticos da incerteza: o centenário

André Carneiro (1922-2014), poeta, cineasta, artista plástico e fotógrafo, é o mais importante escritor brasileiro de ficção científica, autor de obras maíusculas traduzidas em diversas línguas, sendo o escritor brasileiro desse gênero mais publicado fora do país.
O pesquisador acadêmico Ramiro Gilroldo, que desenvolve há tempos um trabalho de registro e resgate da obra desse multiartista atibaiense, inaugura o selo Yhade, da editora Mojuganide Studio, com André Carneiro nos Quânticos da Incerteza: O Centenário, um ensaio de cinquenta páginas sobre a obra do autor. Com prefácio de Marcello Simão Branco, o título homenageia a coletânea poética de Carneiro Quânticos da incerteza, publicada em 2007 pela Redijo Gráfica.
Diz o texto de divulgação: "André Carneiro nos Quânticos da Incerteza: O Centenário é publicado logo após a celebração do centenário de nas­cimento de André Carneiro. Nele, Ramiro Giroldo lança um olhar abrangente sobre a ampla produção desse escritor que explorou por quase seis décadas o potencial do gênero em obras desafiadoras e provocativas. Com foco na produção literá­ria, a abordagem também cobre toda a produção artística do autor, incluindo sua atividade na poesia e nas artes visuais. É a avaliação definitiva de uma das mais longevas e prestigiosas carreiras da ficção científica do Brasil." 
O volume tem publicação digital disponível aqui