quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Fanzine Boca do Inferno

O fanzineiro Renato Rosatti, editor do tradicional Juvenatrix, resistiu o quanto pode, mas abandonou há alguns anos a pratica de editar fanzines em papel. Juvenatrix foi um dos últimos fanzines de fc&f que saíram em papel, e parece ter se dado bem no formato virtual, uma vez que Rosatti continua firme publicando uma nova edição a cada 60 dias.
Mas, como todo fanzineiro das antigas, Rosatti deve sonhar com os velhos tempos e talvez tenha sido por esse motivo que, junto com Marcelo Milici, decidiram lançar, em papel, o fanzine Boca do Inferno, que também é um saite de referência na área do horror.
O fanzine é modesto: tem apenas 4 páginas em preto e branco, com artigos sobre cinema alternativo como A Morte e a morte de Johnny Zombie, Vermibus, Vontade, Sozinho, Coleção de humanos mortos e 6 tiros, 60 ml. Meu exemplar veio recheado com os encartes das mostras Espantomania 3 e Spaghetti Zombies, ambas realizadas em 2012.
O fanzine tem edição exclusivamente em papel e é distribuído gratuitamente em eventos.
Mais informações, pelos emails marcelomilici@yahoo.com.br e renatorosatti@yahoo.com.br.

Resenha: A ordem dos arquivistas: Centésimo

Geralmente não escolho um livro pela capa, mas esta novela, estreia de Ricardo Sodré Andrade na literatura, publicada em 2012 pela Editora Literata, me chamou a atenção justamente por causa dela, mas não pelos motivos que se pode imaginar a princípio. Na verdade, a bela ilustração de Yuji Schmidt me remeteu ao conto "O longo caminho de volta", de Ana Cristina Rodrigues, um dos melhores textos antologia As cidades indizíveis publicado em 2011 pela Llyr Editorial.
Motivado por esse experiência positiva, iniciei a leitura de A ordem dos arquivistas: Centésimo, cujo exemplar me foi cedido pelo próprio autor, que é graduado em Arquivologia, mestre em Ciência da Informação e doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, o que antecipava um discurso metalinguístico que, entretanto, não procede.
O trabalho apresenta influências do clássico Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, mas sem o mesmo corre-corre da série britânica. Apesar de ser situado num mundo alternativo, não se trata de um romance planetário nem de uma história alternativa.
Centésimo conta a aventura de Eli Saridem, jovem recém-formado na universidade, que busca por notícias de um tio querido, cujas cartas pararam misteriosamente de chegar. O tio desaparecido é um dos muitos filiados a Ordem dos Arquivistas, organização quase monástica dedicada a preservação de livros e documentos oficiais do reino de Astoril. O jovem empreende então uma longa viagem a sede da Ordem, onde acredita que poderá obter informações ou até mesmo encontrar o parente sumido. O lugar é um antigo castelo de medieval, como aliás o autor estruturou todo o universo da novela.
Eli tem os olhos cinzentos, uma característica rara que parece ter algo a ver com o mistério. A princípio, ele está unicamente interessado em localizar o tio, mas conforme vai se envolvendo no cotidiano da Ordem dos Arquivistas, começa a se interessar em tornar-se, ele mesmo, um membro dela.
Suas investigações o levam à um livro antigo escrito num alfabeto estranho, que parece ter relação com sua família e com os mistérios que cercam a Ordem, além de lendas sobre uma ilha mitológica onde se encontraria um portal para uma outra realidade de perfeição utópica.
A novela é despretensiosa, pausada, sem muitas reviravoltas e brutalismos, e sustenta bem o mistério, embora ele seja resolvido de uma forma um tanto rápida. O autor demonstra boa técnica na construção trama, seguindo a risca a premissa que todos os detalhes apresentados ao leitor devem ser úteis em algum momento, mas faltou uma revisão mais apurada ao texto, que apresenta repetições incômodas que poderiam ter sido corrigidas antes da publicação. Isto feito, qualificaria à novela aos leitores em idade escolar, devido a boa fluidez e acessibilidade que já estão presentes na narrativa. O volume é decorado com algumas gravuras belíssimas que não são creditadas, mas parecem ter origens diversas por conta do estilo variado.
Não há um gancho explícito para uma sequência, mas está claro que o universo de A Ordem dos Arquivistas: Centésimo tem potencial para ser explorado com mais profundidade.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lançamentos 2011

Como todo mundo já sabe, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, a partir de sua edição para 2011, passou a publicar apenas uma relação parcial de recomendações de livros de ficção científica, fantasia e horror publicados no País durante o ano. A lista completa, bem como as análises estatísticas que caracterizaram a publicação em suas sete primeiras edições, deixaram de aparecer.
A decisão de não mais publicar a lista completa dos lançamentos teve como objetivo dar ao volume uma agilidade maior, tanto na produção como em sua leitura, investindo nas demais seções, especialmente as resenhas. Mas não há dúvida que a lista completa tem valor e faz falta. Para mim mesmo, a lista de lançamentos é a seção que mais frequento nas edições do Anuário.
Tanto que, em 2012, publiquei aqui, numa sequência de diversos posts, a lista completa dos lançamentos que não saiu no Anuário 2011. Mas concordo que não é um documento fácil para o pesquisador.
Há alguns dias, recebi do amigo Alexandre Yudenitsch, a cópia impressa de um caderno que ele mesmo montou usando aquelas listas. Confesso que fiquei agradecido pela iniciativa dele, porque o caderno se provou utilíssimo e já me facilitou a vida algumas vezes.
Então, decidi oferecer aos colegas um documento um pouco mais organizado, com a lista completa dos lançamentos de literatura fantástica de 2011 montada exatamente como se fosse para a edição do Anuário, contudo, em arquivo pdf que pode tanto ser visualizado online quanto baixado para o hd do computador.
É claro que dizer que a lista é "completa" é um pouco de exagero, porque não é possível garantir que tudo tenha sido relacionado. Muitas vezes topamos com títulos desconhecidos anos depois de publicados, mas acredito que as ausências são poucas.
O Anuário impresso continuará a publicar apenas a lista de recomendados, mas vou tentar manter, em pdf, a edição da lista integral dos lançamentos, de forma a complementar o Anuário e facilitar a vida dos pesquisadores que, de mesma forma que eu, gostam de ter um acesso rápido à informação de referência.
O arquivo pode ser baixado gratuitamente aqui. Use a abuse.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Resenha: Fantasia com sabor de caju e medo

Entre os muitos lançamentos de fantasia de 2012, recebemos o terceiro volume da série Duplo Fantasia Heroica, da coleção de livros de bolso Asas do Vento, da Devir Livraria. Como nas edições anteriores, trata-se de um volume com duas histórias de fantasia de autores diferentes, ambas com predominantes aspectos brasilianistas.
No primeiro número, lançado em 2010, foram publicadas as noveletas "O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara", que inaugurou a série A Bandeira do Elefante e da Arara de Christopher Kastensmidt, autor norteamericano radicado no Brasil, e "A travessia", de Roberto de Sousa Causo, uma história da série do índio Tajarê, iniciada no livro A sombra dos homens (Devir, 2004).
O número dois, lançado no finalzinho de 2011, trouxe "A batalha temerária contra o capelobo", sequência da história de Kastensmidt com a dupla de aventureiros Gerard e Oludara no Brasil colonial, e "Encontros de sangue", de Causo, também uma sequência à aventura de Tajarê vista no primeiro volume.Nesta terceira edição, aparece mais um episódio da série de Kastensmidt, "O desconveniente casamento de Oludara e Arani", fazendo par com a novela "O relato do herege", da experiente fantasista gaúcha Simone Saueressig.
Na história de Kastensmidt, o escravo liberto Oludara está ansioso para se casar com a tupinambá Arani, mas ela hesita, embora também o ame. De fato, todos os membros da aldeia ficam perturbados com a notícia do casamento, mas ninguém revela o por quê. Irredutível, Oludara insiste e o casamento é marcado. Em clima de apreensão, a cerimônia começa, para logo ser interrompida pela aparição assustadora e violenta de uma nova entidade da natureza, o Curupira, que reivindica a primazia no casamento com Arani. As feras que o acompanham quase acabam com as vidas de Gerard e Oludara, mas Arani os salva aceitando desposar o Curupira, porém pede dois dias para se preparar. O monstro aceita, e esse é o tempo que os dois amigos terão para evitar que a promessa de Irani se cumpra. Para isso, terão de invadir os domínios de um ser ainda mais terrível, a Iara, no que serão auxiliados pela tímida Flor-do Mato, uma outra entidade das florestas.
Tal como os episódios anteriores, trata-se de uma história movimentada e divertida, com ambientação bem articulada e realista quanto às florestas brasileiras e sua fauna. Os seres mágicos, contudo, estão bem menos ferozes, e o Saci, assustador em sua primeira aparição, está até meio similar aquele que nos acostumamos a ver nas histórias de Monteiro Lobato.
Uma pequena correção talvez deveria ser aplicada a descrição que Gerard faz do caju, fruta natural do Brasil que todos nós conhecemos muito bem, mas que deve ter parecido realmente estranha para um europeu do século 16. Quando Gerard vê a fruta no pé, o autor a descreve como "uma fruta vermelha com um estranho caracol marrom crescendo no topo." A descrição até que está bem próxima da visão que um estranho teria de um caju numa bandeja mas, no pé, o "caracol" deveria ser visto em baixo, e não no topo da fruta. No mais, está tudo muito bem, e o texto é bastante satisfatório para o leitor brasileiro.
O texto leve e bem humorado de Kastensmidt contrasta fortemente com o conto de Simone Saueressig, que deixa bem claro, logo de cara, que não está para brincadeiras. Trata-se de uma história de horror sobrenatural, território muito familiar da autora, que estreia na Devir, mas tem uma sólida carreira literária. Simone já publicou dezenas de títulos por editoras como a L&PM e Scipione, sendo que tem em seu currículos alguns títulos de grande vendagem, como A noite da grande magia branca e A máquina fantabulástica. Em 2012, Simone publicou a antologia Contos do Sul, com cinco histórias de horror apoiadas no folclore brasileiro, linha na qual "O relato do herege" também está inserida.
A história conta, em forma de diário, o drama de Indigo Ruiz Lopes, um herege espanhol desterrado no sul do Brasil, em 1637. Em meio a um cenário desolador, ele testemunha a truculência do ambicioso capitão de uma missão, que abusa de sua autoridade na exploração de seu pequeno império, sustentado com mão de ferro. O odioso líder sabe das acusações que pesam sobre o herege e, quando descobre que ele realmente pode conjurar demônios, manobra as coisas de forma a tê-lo em suas mãos para chamar a maior de todas a entidades sobrenaturais da mitologia indígena e usá-la em seu próprio benefício.
O tom da novela de Simone é trágico e perturbador, como numa história de H. P. Lovecraft, em que a simples visão de um desses seres poderosos pode levar a loucura, na melhor das hipóteses. O cenário insalubre, gelado, úmido e miserável, contribui para que o leitor se sinta ainda menos confortável com toda a situação do pobre herege que, por si, já seria suficientemente desagradável. Mas as cenas de ação são tão poderosas e impactantes que fazem valer todo o desconforto da situação.
Duplo fantasia heroica afirma-se como um projeto editorial consistente e interessante, muito bem conduzido pelo editor Douglas Quinta Reis, e deve ser privilegiada na lista de leituras de todos aqueles que desejam conhecer uma das melhores propostas já apresentadas para uma ficção fantástica autenticamente brasileira.

Ano novo a todo vapor

Que carnaval que nada! A Editora Novo Século não quis saber de folia e já divulgou um pacote de lançamentos de janeiro em sua coleção Novos Talentos da Literatura Brasileira, que há anos tem recheado as listas de publicações do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica.
Pelo jeito, o ímpeto editorial não arrefeceu por causa da mudança do calendário e a editora apresenta nada menos que sete títulos nacionais inéditos de fc&f em janeiro.
São eles: os romances de fantasia Os segredos de Landara: Redescobrindo o passado, de B. Camporezii, A rosa e o dragão, de Vanessa Pereira, A linhagem, de Camila Dornas, e A ordem perdida, de Gabrile Schmidt, a ficção científica Rio 2054: Os filhos da revolução, de Jorge Lourenço, e o horror Demônios da noite, de M. K. Takenada. E ainda, a coletânea de contos fantásticos Corpos para um vitral, de Ana Julia Poletto.
Todos os títulos contam com amostras gratuitas para degustação, basta acionar o link, experimentar e escolher aquele que irá preencher suas próximas horas de leitura. Bom apetite!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Saga de Xam

Durante algumas semanas, tive a sorte de usufruir da guarda de um exemplar original da raríssima novela gráfica Saga de Xam, publicada originalmente em 1967 por Eric Losfeld Éditeur, de Paris. Com roteiro de Jean Rollin e desenhos de Nicolas Devil, trata-se de um livro enorme, formato 250 por 320 mm, com 58 páginas em cores, em papel de alta gramatura – aproximadamente 300g – encadernadas com capas duras sem qualquer identificação externa além de uma resistente sobrecapa em cuchê; uma apresentação gráfica incomum, que poucas obras dos quadrinhos igualaram.
Herdeira direta de Barbarella, de Jean-Claude Forest, Saga de Xam foi revolucionária porque ousou perverter todas as regras dos quadrinhos, tanto no conteúdo quanto nas técnicas. Tratou do liberalismo feminino com ousadia, colocando em foco uma linda humanóide alienígena de exuberante corpo azul, inspirado na modelo Handa Humbert, que aparece desnuda por quase toda a narrativa. A personagem é independente, toma suas próprias as decisões e sustenta uma relação homossexual durante boa parte da história.
Os desenhos são psicodélicos, complexos e detalhistas, e os balões enormes, com textos longos em letras bizarras. Muitos balões são sequer legíveis, sendo preenchidos com símbolos indecifráveis. As letras variam muito de tamanho dentro do mesmo balão, sendo às vezes tão pequenas que se faz necessário algum esforço na leitura. Dizem as lendas que as edições originais eram vendidas acompanhadas de uma lupa. As cores também são um elemento a parte, mudando bastante de um capítulo para o outro. Três coloristas trabalharam na edição: Jean-Pierre Gressin, Annie Merlin e Jacqueline Sieger.
A história está dividida em oito capítulos, nos quais o acabamento gráfico e a técnica narrativa mudam radicalmente entre si. Apesar do experimentalismo exacerbado já se apresentar desde as primeiras páginas, o capítulos iniciais ainda contam uma história inteligível.
Saga vem do planeta-mar de Xam, enviada por sua soberana para estudar a Terra e desenvolver uma proteção psíquica contra os invasores que ameaçam o seu planeta. Ela chega em meio a um grupo de cavaleiros medievais que acabaram de devastar uma aldeia. Capturada, é levada a um castelo onde as mulheres sofrem todo tipo de violência. Entregue ao feiticeiro Abdul Alhazred, Saga escapa mas é recapturada e amarrada a um poste de pedra onde será queimada viva. Mas ela descobre um botão oculto que, ao ser pressionado, transforma o poste de pedra em um veículo futurista com o qual Saga foge para o mar.
Enquanto manobra pelas ondas, Saga encontra um barco de guerreiros vikings com uma carga de mulheres sequestradas. Uma delas, chamada Zo, está sendo torturada amarrada a quilha do barco. Saga a liberta e ambas atacam os vikings, matando-os e assumindo o controle da embarcação. Saga decide partir, mas Zo se revela apaixonada por ela e ambas embarcam no veículo de Saga, deixando o barco viking entregue às mulheres. Nos saltos seguintes, Saga e sua amante passam por várias épocas e ficam algum tempo no antigo Egito. A partir de então, são acompanhadas em suas viagens pelo faraó Kractarus. Mais tarde, Saga retornará para sua dimensão, onde irá confrontar seus inimigos. A partir de então, a história fica ainda mais experimental e hermética: abandona os entrequadros, utiliza diagramações incomuns nos textos e até alguns códigos, cuja chave está disponível nas páginas finais do volume, para quem quiser decifrá-los.
Saga de Xam foi o divisor de águas entre o quadrinhos clássico e a moderna escola narrativa, abrindo o caminho para obras como Paulette, de Wolinski e Pichard, Valentina, de Guido Crepax, 5 x Infinitus, de Steban Maroto, Delirius, Philip Druillet, e toda a escola ligada a revista Métal Hurlant. Saga de Xam teve uma única tiragem de 5 mil exemplares e nunca foi republicada; elevada a categoria de obra de arte, seus exemplares são raros e valiosos.
Visto pelo distanciamento do século 21, Saga de Xam pode até parecer um tanto recatado e seu experimentalismo algo convencional, mas naqueles tempos reacionários e de violenta contestação social, era uma obra afinadíssima e relevante, sendo ainda hoje um mito na história dos quadrinhos.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Resenha: Idade da decadência, Inferno em Khallah

Idade da decadência: Inferno em Khallah é um romance de ficção científica escrito pelo método round robin, sob organização de Rogério Amaral de Vasconcellos que, além do próprio organizador, envolveu os autores Cláudia Furtado, Diva Bernardes Sepulveda, Edison Luis Raffi Silveira e Marco A. M. Bourguignon.
Round robin é uma brincadeira cultural entre amigos, na qual cada autor é responsável pela redação de um capítulo de uma história proposta pelo organizador, com liberdade para acrescentar o que bem entender e deixar um desafio para ser resolvido pelo autor seguinte, sempre preocupando-se em manter alguma coerência narrativa. Em tempos de baixa tecnologia, esse procedimento era realizado pelo correio e nem sempre funcionava a contento, mas com o advento da Internet foi muito facilitado. O processo que viabilizou a composição da obra foi batizado de Slev, sigla que significa Suruba Literária Experimental Virtual, nascida no saite Oficina de Escritores.
A novela, dividida em três partes, tem cerca de 65 mil palavras no total e foi publicada no ano 2001 em formato digital e cópias por demanda. O exemplar analisado aqui foi impresso em jato-de-tinta e encadernado com espiral. Suas 146 páginas trazem também um glossário de neologismos, um quadro cronológico do planeta Khallah e um texto explicativo sobre sua história e geografia, acompanhado de um mapa do continente principal. O volume é apresentado como o livro dois de uma trilogia.
Trata-se de uma space-opera com muitas referências não disfarçadas a Duna (Frank Herbert), O senhor dos anéis (J. R. R. Tolkien), O mundo do rio (Phillip Jose Farmer), Crônicas de Majipoor (Robert Silverberg), O planeta dos dragões (Anne McCaffrey), diversos seriados de tv e filmes de cinema.
Conta a história de Lorn Cleópatra, clone da rainha Cleópatra do Egito, construída num planeta-babel chamado Khallah, no qual uma raça antiga e já desaparecida de alienígenas chamada Os Atemporais, instalou, por volta de 7900 AC, uma carrada de espécies sencientes coletadas de vários mundos destruídos por uma ameaça pouco explicada chamada Os Anéis.
Em Khallah, essas raças adaptaram-se e amalgamaram uma sociedade tribal por vários milênios, até a chegada da humanidade ao planeta, em 2390 DC. Mais avançados tecnologicamente, os humanos ali instalaram um gigantesco espaçoporto, construíram a cidade fortificada de Robotróia, considerada a jóia do universo, e impuseram aos autóctones um regime imperial de exploração e escravismo. Mas as viagens frequentes dos humanos acabaram por trazer a Khallah uma praga espacial chamada Fogo Alucinante, que matou dois terços da população, incluindo a humana, e jogou o planeta numa era de decadência política e tecnológica a partir de 2500 DC, isolando-o do universo.
A história relata os fatos a partir de 2575 DC, quando Robotróia passa por dificuldades políticas devido a atividades de guerrilheiros e terroristas. Essa nova Cleópatra, líder de um pelotão militar de elite a serviço da Imperatriz Numa de Robotróia, recebe ordens de atacar a comunidade paupérrima conhecida por Cinturão de Favelas, que cerca a cidade fortificada e abriga alguns desses guerrilheiros. O pelotão é formado exclusivamente por clones de personagens históricos como Mahatma Gandhi, Santos Dumont, John Lennon, e outros. Cleópatra vai envolver-se com alguns personagens alienígenas, principalmente Sykes, um nativo de aparência humanóide, ao ponto de converter-se a causa rebelde e enfrentar, ela mesma, a corrupta e devassa Imperatriz Numa e o poderio humano que dá suporte ao seu Governo.
Diga-se ainda que os Atemporais também foram os responsáveis pela coletagem das amostras de DNA humano ao longo da história da Terra. Os homens trombaram no espaço com uma nave abandonada pelos Atemporais e dela subtraíram boa quantidade de amostras, o que permitiu a clonagem desses personagens.
Apesar do cenário razoavelmente bem preparado, a equipe de escritores da Slev cometeu alguns pecados na construçâo do enredo de Idade da decadência: Inferno em Khallah. O principal deles talvez seja a escolha de um panorama clássico de space-opera, subgênero capa-e-espada  bastante explorado no período dourado da fc americana (décadas de 1940/1950) e praticamente esgotado do ponto de vista dramático, com poucos exemplos de qualidade na fc moderna.
A ambientação space-opera mascarou a sensibilidade dos autores para o fato que essa caracterização simplista não basta para suspender a incredibilidade do leitor. Os autores esforçam-se tanto em demonstrar que o poderio bélico humano estava de tal forma decadente que soa absurdo o fato de Robotróia manter sob controle político todo um planeta até aquele momento. Decadente como estava, Robotróia mal podia manter-se, quanto mais governar. O poder político já deveria estar longe de Robotróia e da Imperatriz há tempos, e essa situação irreal tira a verossimilhança do ambiente.
Outro problema é a dispersão dramática na metade inicial da narrativa, na qual grande quantidade de personagens superficialmente caracterizados não dão conta de quem é o quê. A história ganha fôlego somente quando os autores optam por centrar a ação na dupla Cleópatra/Sykes, cujo envolvimento romântico chega as vias de fato. Assim como quando a Imperatriz ganha função antagônica, juntamente com o bruxo Surabakh que, apesar de seu poder enorme, é vencido com facilidade pelo protagonista. Apesar disso, Surabakh não chega a morrer e os autores reservam a ele um epílogo dispensável, gancho para a sequência da história na Terra, estranhamente num futuro bastante próximo da nossa época.
Também soa estranho o modo pouco natural com que os personagens tratam-se em alguns momentos, como se os autores não soubessem seus nomes inteiros. Por exemplo, quando Cleópatra encontra com Santos Dumont no deserto de Khallah, o trata por Santos. Ora, militares, em geral, tratam-se pelo sobrenome, portanto seria mais natural se Cleópatra dirigir-se ao seu comandado por Dumont. Mas se o autor queria de fato dar ao encontro um caráter intimista, deveria ter usado Alberto, o primeiro nome de Santos Dumont, não o seu nome do meio.
Em alguns momentos na parte final da novela, o texto chega a empolgar, mas sua irregularidade geral (por conta do estilo fragmentado comum a todos os round-robins), da inexperiência dos autores (apenas Rogério teve experiência editorial anterior) e do objetivo da obra (ser uma espécie de jogo), faz com que toda a novela caia em um sem número de lugares comuns, com muitos personagens sem utilização adequada, perdidos na trama confusa. Uma boa enxugada poderia ser valiosa para tornar a leitura mais palatável, mas esse não era o objetivo das autores.
Mesmo assim, vale a pena conhecer o trabalho dessa turma, que está vários furos acima dos fanfics que abundam na internet e revistas especializadas.

Idade da decadência: Inferno em Khallah
Rogério Amaral de Vasconcellos, Cláudia Furtado, Diva Bernardes Sepulveda, Edison Luis Raffi Silveira e Marco A. M. Bourguignon. 146 páginas. Editora Mitsukai, Projeto Slev, 2001.

(Resenha originalmente publicada no Hiperespaço nº50, março de 2002)