sábado, 11 de março de 2023

Território Lovecraft

Território Lovecraft
(Lovecraft country), Matt Ruff. Tradução de Thais Paiva, 354 páginas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Há algum tempo, mais exatamente em 2017, o escritor e tradutor Fábio Fernandes, em seu podcast Terra Incógnita, publicou uma série de episódios sobre uma onda neolovecraftiana na fc&f americana, e um dos títulos que destacou foi justamente Lovecraft country. Foi a primeira vez em que ouvi falar do livro e de Matt Ruff, seu autor. Fernandes teceu efusivos elogios à obra e recomendou que os editores brasileiros dessem uma chance a ele.
É claro que não foi o singelo podcast que Fernandes, ainda que se considere a significativa influência de seu editor no fandom, que levou a editora Intrínseca a publicar o livro no Brasil. Isso só aconteceu quando a HBO Max anunciou a produção de uma série inspirada no livro, o que é um apelo irresistível aos editores brasileiros quando se trata de livros de fc&f. Por isso, não foi surpresa quando o livro apareceu nas lojas virtuais, em edição de luxo e capa dura. Não que o título não mereça: provavelmente foi o melhor livro de fc&f publicado no país em 2020 e certamente um dos cinco melhores da segunda década deste século.
O mais interessante é que não se trata de um livro lovecraftiano, como seria de se imaginar. Os escritores profissionais sabem muito bem que qualquer autor fã saberia imitar o estilo démodé de Lovecraft. Trata-se de um texto enxuto e potente, mas a leitura é sofrida por conta do tema; o estilo é bastante contemporâneo, ainda que toda a ação esteja localizada em algum momento dos anos 1950. Trata-se de um romance fix-up, formado por contos e novelas autônomos possivelmente publicados em separado, reunidos por um arco geral que lhes dá unidade dramática.
Conta a história de uma família de homens e mulheres pretos num Estados Unidos da América em que o racismo e a segregação racial são praticados com anuência do poder público. Um dos veteranos, chamado de George, mantém a publicação de uma espécie de fanzine turístico, o Guia de Viagem do Negro Precavido, para que as pessoas pretas possam transitar pelo país com alguma segurança. Para isso, viaja continuamente e enfrenta os perigos de caminhos ainda não experimentados, de modo a registrar os lugares em que o povo preto pode se alimentar e se hospedar sem o risco de ser assassinado. Oito história e um epílogo compõem o volume, cada uma focaliza um dos membro da família, embora os demais também participem com maior ou menor significado.
"Território Lovecraft" é a novela que abre o volume. Cumpre com louvor a apresentação dos personagens e do ambiente geral. Nela, acompanhamos Atticus, um jovem que retorna sua cidade natal e encontra Montrose, a quem chama de pai, desaparecido. Acompanhado de George e da jovem Letitia, embarcam no velho woody da família com destino ao condado de Ardhan, em pelo "Território Lovecraft", uma região perigosa para os negros. Lá, se depararam com Caleb Braithwhite, jovem branco muito misterioso, além de um grupo de homens brancos que praticam uma espécie de culto, a qual chamam de "Filosofia Natural", cujo ritual exige a participação de um dos nossos ousados viajantes e influirá no futuro de toda a família.
"A casa assombrada dos sonhos" focaliza as irmãs Letitia e Ruby, que compram por uma bagatela um antigo casarão no qual pretendem implantar uma pousada para negros. O problema é que o casarão está localizado em um bairro majoritariamente habitado por brancos racistas. E não só: a mansão era, no passado, residência de Hiran Winthrop, figurão da Filosofia Natural cujo fantasma nada amistoso assombra o lugar.
"O livro de Abdulah" é uma espetacular aventura ao estilo de Indiana Jones. Caleb Braithwhite está de posse do Livro dos Dias, que registra a vida dos membros da família durante o período da escravidão e é um documento importante para que eles possam obter uma polpuda indenização. Mas Caleb só o devolverá em troca do Livro dos Nomes, compêndio mágico que está escondido no subterrâneo do Museu de História Natural. Atticus, George, Montrose e alguns amigos embarcam nessa perigosa missão sobrenatural para garantir a devolução do tesouro roubado da família.
"Hyppolita perturba o universo" é a melhor história do volume, na minha opinião. E isso é um mérito enorme porque todas as histórias do livro são excelentes. Hippolita, a mãe de Letitia e Ruby, é uma mulher de vida agitada e de muita personalidade. É astrônoma, viaja sozinha e é colaboradora do Guia. Seu passatempo favorito é visitar observatórios astronômicos pelos EUA, principalmente aqueles em que não poderia entrar. E o observatório que ela quer invadir desta vez fica numa propriedade particular pertencente a Hiran Winthrop (sim, o fantasma da mansão de Letitia). Ela vai descobrir, da maneira mais surpreendente possível, que aquele não é um observatório como os demais, pois ele mostra as estrelas "bem" de perto.
"No ano-novo, Ruby acordou branca". Esta é a frase que abre o conto "Jekil em Hyde Park", no qual Ruby consegue realizar seu maior desejo, que é arrumar emprego numa loja de departamentos muito elegante. Mas ela só consegue isso graças a um feitiço que o sedutor Caleb Braithwhite lhe ensina.
"A casa Narrow" é uma história de viagem no tempo nada convencional, na qual Montrose é convencido por Braithwhite a recuperar cadernos antigos com anotações de Hiran Winthrop que aparentemente já foram destruídos. Para isso, ele terá de fazer uma pequena viagem a casa de um certo Sr. Narrow.
"Horace e o boneco do diabo" é de longe o texto mais assustador do volume, no qual Horace, o membro mais caçula da família, tem de enfrentar uma maldição mortal que Braithwhite lança sobre ele.
"A marca de Caim" apresenta o desfecho emocionante do combate entre os nossos protagonistas e o aparentemente invencível Braithwhite e seus asseclas, com muita ação, violência, tiroteios e magia negra, é claro.
Todo o texto está repleto de referências e citações ao universo nerd, a literatura fantástica e até aos jogos de RPG, que não são gratuitas nem derrubam a suspensão da incredibilidade como geralmente ocorre nesses casos. Pelo contrário, em Território Lovecraft, todas as citações são elementos fundamentais das histórias, que não poderiam ser contadas da mesma forma sem elas.
Comparando-se o texto original com a adaptação produzida pela HBO Max, é possível dizer que esta é bastante fiel ao romance mas está longe de ter a mesma qualidade. O livro de Ruff é muito superior à versão audiovisual, que tomou liberdades para outra conclusão, alterou personagens, fundiu histórias, ignorou outras, e inventou coisas que nem estão no livro. Algumas das melhores narrativas do original ficaram de fora, outras foram tão alteradas que mal é possível reconhecê-las, além de colocar o pobre Atticus numa situação ambígua e frágil que nada tem a ver com o personagem original. Sem falar na limagem das deliciosas citações, bem como da relevante questão metalinguística, proposta logo às primeiras páginas, sobre o modo contraditório como uma pessoa preta se relaciona com a ficção científica, gênero de tradição evidentemente racista.
Recomendo a leitura do texto original de Ruff. Quem só viu o seriado não recebeu o melhor de Território Lovecraft.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Spectros

Spectros
, série de tv em sete episódios. Roteiro e direção Douglas Petrie. São Paulo: Moonshot Pictures, 2020. 

A grande contribuição dos serviços de televisionamento por streaming foi a abertura de espaços mais generosos à produção local independente, antes só acessível a produtoras calçadas por grandes corporações econômicas, como as redes de tv aberta, por exemplo. 
Desde que o canal Netflix exibiu, em 2016, a primeira temporada da série de ficção científica 3%, mais e mais produções nacionais têm chegado ao público, muitas vezes com relativo sucesso. Foi nessa mesma plataforma que estreou, em 2020, a série de horror sobrenatural Spectros, criação do roteirista e diretor Douglas Petrie, produzida pela Moonshot Pictures. 
Conta a história de duas estudantes adolescentes que se envolvem com um marginal justamente na noite em que ele pretende roubar o templo de uma bruxa no bairro paulistano da Liberdade. As coisas complicam quando um homem em chamas surge e derruba uma velha boneca japonesa, objeto que parece ter o poder de reduzir as fortes dores de cabeça que há tempos torturam uma das garotas. Na fuga, num automóvel roubado, o grupo atropela e mata o tocha humana e todos acabam presos pela polícia. Mas há muitos segredos obscuros por trás daquela singela boneca e praticamente tudo o que circula pela Liberdade naquela noite concorre para complicar ainda mais a chances dos jovens chegarem vivos ao próximo nascer do Sol. 
Fantasmas, mortos-vivos, maldições ancestrais e necromantes psicopatas são ingredientes que alteram a percepção do delicado ambiente da Liberdade, bairro tão conhecido e querido dos paulistanos.
A série de sete episódios tem um elenco baseado em atores jovens, como Danilo Mesquita (Pardal), Claudia Okuno (Mila), Mariana Sena (Carla), Enzo Barone (Zeca) e Drop Dashi/Pedro Carvalho (Zeca), além de atores veteranos como Carlos Takeshi (Celso), Miwa Yanagizawa (Zenóbia), Norival Rizzo (o pipoqueiro Mário) e Daniel Rocha (o detetive Ricardo). 
A narrativa é movimentada, com muita correria e variação cenográfica, que vai de prédios abandonados e comunidades carentes, até construções históricas e cemitérios antigos. Mas exagera na amplitude geográfica do bairro, sugerindo uma extensão territorial muito acima da real: para aproveitar a cenografia da Rua da Glória, o grupo de jovens circula por ela continuamente de automóvel, num bairro que se atravessa a pé em meia hora, se muito. Talvez quem não conheça a Liberdade não perceba, mas isso prejudica muito a narrativa, alongando uma história que ficaria bem melhor em três ou quatro episódios.
Deixando tais detalhes de lado, Spectros engrossa a tendência da produção fantástica nacional inspirada em mitologia e folclore, que está fortemente presente na literatura de ficção e agora também na teledramaturgia, que já conta com outras séries nos canais de streaming como Cidade invisível (2021, Netflix), Desalma (2020, HBO Max), A todo vapor (2020, Amazon Prime) e Vale dos esquecidos (2022, HBO Max). Não deixa de ser interessante, afinal, tais iniciativas vinculam-se mais fortemente à cultura nacional e exploram aspectos raramente tratados por obras estrangeiras do segmento, mas é preciso muito cuidado para não se apropriar de culturas alheias e até em tratar crenças ainda vivas como se folclore fossem. Spectros, contudo, escapa bem desse risco, na medida que incorpora um elenco variado com predomínio de atores japoneses. 
Como produção, Spectros entretém e traz para o debate uma série de temas significativos, como a tortura, a intolerância e o racismo, bem como a diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. Os efeitos visuais são muito bons e todos os atores funcionam muito bem em seus papéis. Vale a pena assistir, desde que se tenha em mente que não se trata de um seriado americano: o ritmo é bem mais lento, mas o prazer de reconhecer os espaços e a realidade ali representados garante uma boa diversão.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Histórias extraordinárias 6

Faltam poucos dias para participar da campanha da sexta edição de Histórias Extraordinárias, fanzine literário de ficção fantástica lançado em 2020 e viabilizado através de financiamento coletivo. 
Editada por Marcus Garrett, Mario Cavalcanti e Paolo Fabrizio Pugno pela Editora Mundo, a revista tem formato impresso e uma linha editorial que remete à Segunda Onda da ficção científica brasileira.
Esta edição 6 promete 48 páginas com contos de Octávio Aragão, Roberto de Sousa Causo, Gerson Lodi-Ribeiro e dos editores, Cavalcanti e Pugno. 
Como se percebe, continua a ausência de mulheres entre os autores publicados. Se isso não for um impedimento, é possível adquirir não apenas esta edição, mas todas as anteriores, na página da campanha, aqui
De brinde, os apoiadores recebem simpáticos cards de escritores clássicos da fc. Pelo menos entre eles há uma mulher.

Lançamento: O homem de cristal

A editora Sol Negro acaba de publicar a interessantíssima antologia O homem de cristal & outras histórias de proto-ficção científica, organizada e traduzida por Camilo Prado, com textos que antecipam a criação do gênero que nos acostumamos a chamar de ficção científica. Esta é uma excelente oportunidade para se conhecer os caminhos trilhados pelos poetas antes de se convencionarem os protocolos do gênero na indústria editorial. Alguns desses caminhos podem ser identificados já nessas obras pioneiras mas, para quem realmente aprecia a leitura do gênero, o que mais agrada é encontrar os modelos que não foram continuados, pois revelam o que poderia ter sido, ou que pode vir a ser, dentro de um gênero que parece já ter esgotado todas as suas possibilidades protocolares. 
Diz o texto de apresentação: “Aqui estão reunidos seis contos, publicados entre 1879 e 1912, que tocam temas atualíssimos da ciência política, social, médica, tecnológica. Assim, ainda que seja um livro que busca as origens do que se convencionou denominar ficção científica, não são histórias que fogem à nossa atualidade. O leitor mais atento certamente perceberá nas entrelinhas muitos tópicos que hoje são reais e que na época dessas histórias eram apenas ficções”.
O livro tem 164 páginas e traz textos de Eduardo Holmberg (Argentina), Edward Mitchell (EUA), Clemente Palma (Peru), Morgan Forster (Inglaterra), João do Rio (Brasil) e Paul Arosa (França), além de ilustrações de Albert Robida (França), em uma tiragem de cem exemplares.
Mais detalhes podem ser obtidos aqui.

terça-feira, 7 de março de 2023

Velho oeste selvagem

Fundada em 2012 pelo entusiasta da ficção weird Denilson Ricci, a Editora Clock Tower tem reunido em torno de suas atividades uma legião de fãs dessa literatura, que já dispõe em seu catálogo obras raras de autores como H. P. Lovecraft, Arthur Machen, Clark Ashton Smith, Willian Hope Dodgson, Robert Chambers e, especialmente, de Robert E. Howard. 
Mais conhecido como o autor dos contos e novelas de Conan o bárbaro, Howard também atuou em diversos outros gêneros, sendo o do faroeste ambiente de importantes contribuições. É sempre bom lembrar que a popularidade da literatura pulp deve muito ao faroeste, que pavimentou as vias de circulação desse tipo de literatura, com publicações apelativas que ganharam grande notoriedade no final do século XIX nos EUA. A crise econômica de 1929 foi o catalisador para que se lançasse todo tipo de periódicos baratos, principalmente horror, ficção científica e fantasia, e o faroeste não foi esquecido. Howard, que era texano, produziu significativamente nesse gênero, como a Clock Tower já mostrou na bem sucedida coletânea Weird west, publicada em 2021, com histórias de faroeste sombrias. 
Agora, neste dia 7 de março, a Clock Tower inaugurou, no Catarse, uma campanha "Tudo ou nada"  para a publicação de Velho oeste selvagem, coletânea de contos de Howard, desta vez com histórias realistas, ou seja, sem o laivo sobrenatural da seleta anterior, contudo com a mesma ação e violência características do autor.
Entre as histórias confirmadas, que têm tradução de Daniel Iturvides Dutra, estão "Os abutres de Wahpeton" (considerada sua obra-prima do gênero), "O santuário dos abutres", "Os pistoleiros da cidade" e  "Águas selvagens". Outros textos podem entrar na seleção conforme as metas de captação forem superadas. O livro ainda trará ensaios e artigos de especialistas.  A ilustração da capa é obra de EdCarl Evans, e Franz Brehme assinará as ilustrações internas.
Mais informações podem ser obtidas na página da campanha, aqui, A campanha terá duração de dois meses, mas há um desconto especial para os três primeiros dias, então, aproveite! 

segunda-feira, 6 de março de 2023

Resenha do Almanaque: O alienado, Cirilo S. Lemos

O alienado, Cirilo S. Lemos. 240 páginas. São Paulo: Draco, 2012.

Cirilo Lemos é um jovem autor carioca, natural de Nova Iguaçu, que vem consistentemente demonstrando qualidade acima da média nos textos que publica. Seus contos têm surpreendido os leitores e este seu primeiro romance, O alienado, não é exceção.
A história relata a vida de um homem chamado Cosmo Kant, também conhecido como paciente AM013, que está preso numa espécie de manicômio onde sofre todo tipo de violência física da parte dos seus carcereiros. Kant teve uma vida trágica, perdendo o pai e o seu melhor amigo num acidente absurdo quando ainda era adolescente. Anos depois, morando na futurista Cidade-Centro, tratou-se com um psicólogo eletrônico, para quem contava a história de um romance que estava escrevendo. Quando os personagens de seu livro começaram a se manifestar no mundo real, num torvelinho de eventos absurdos, isso acaba por levá-lo à internação. Mas esse não é, nem de longe, o fim da história.
Narrado de forma fragmentada, como um quebra-cabeças desmontado, os primeiros capítulos são tão diferentes entre si que sugerem ser uma coletânea de contos pós-modernos. Mas, a partir da página 50, quando o leitor começa a perceber a história de fundo, o romance desabrocha e revela toda a sua profundidade.
Há de tudo um pouco em O alienado: ficção científica, realismo, metalinguagem, absurdismo, mistério, perseguições cinematográficas, ação, brutalismo, romance, erotismo e até um toque de lesbianismo. Em alguns momentos, a história remete aos sofisticados romances de Philip K. Dick, com altas doses de paranoia e correria. Noutros, dialoga com a literatura de Murilo Rubião – especialmente com o conto “A fila”–, quando o desesperado Kant se vê obrigado a passar dias seguidos na fila de uma repartição pública a procura de informações sobre sua irmã gêmea supostamente falecida. Como um todo, a história remete ao clássico universal O processo, de Franz Kafka, a quem o incomum nome do protagonista associa-se de imediato.
Além de tudo, partes da história são narradas em forma de história em quadrinhos, com um estilo despojado que propositalmente lembra o desenho de um adolescente, pois parte desse relato teria sido desenhada por Virgílio, o falecido e problemático amigo de infância de Cosmo.
A leitura de O alienado não é fácil. O autor parece ter feito questão de escolher a forma mais complicada e confusa possível para narrar a história, mas o esforço do leitor em montar esse mosaico desconjuntado é plenamente satisfeito, com surpresas a cada capítulo e um final contundente que, nas mãos de um autor menos capacitado, provavelmente estragaria o romance. Lemos não permite que as revelações finais desqualifiquem a história, ao contrário, elas reforçam o alinhavado frouxo construído a partir das poucas informações fornecidas pela trama, estabelecendo uma relação de cumplicidade entre o autor e o leitor, cada um cumprindo o seu papel na elaboração da obra.
O único senão de todo o livro talvez seja uma derradeira revelação final, ao estilo do seriado de televisão Além da imaginação, que acrescenta mais uma potência no já rebuscado enredo e soa um tanto forçado; mas não compromete tanto assim e, para muitos, pode até mesmo significar a cereja de um bolo bem confeitado.
O alienado é ficção científica de alta octanagem, que exige profunda interação do leitor e pode agradar até aqueles que não gostam do gênero. Na minha opinião pessoal, um dos melhores romances brasileiros de fc já publicados.

domingo, 5 de março de 2023

Resenha do Almanaque: Zanzalá, Afonso Schmidt

Zanzalá, Afonso Schmidt. Publicação original em 1928. Edição avaliada: Clube do Livro, São Paulo, 1949, 184 páginas.

Dentre muitas peças resgatadas do passado para a memória da ficção científica brasileira, Zanzalá, do importante jornalista, romancista e poeta Afonso Schmidt (1890/1964), é uma das que se destacam. Não tanto por sua qualidade nos protocolos do gênero, mas por seu pioneirismo histórico e por suas virtudes literárias.
Foi publicada completa pela primeira vez em 1936 no "Suplemento Literário" de O Estado de S. Paulo, mas sua estreia aconteceu de fato em 28 de fevereiro de 1928, na forma de um pequeno conto publicado no mesmo jornal, que veio a compor o primeiro capítulo da obra. Zanzalá somente foi publicada em livro em 1938, pela Editora Spes.
A edição do Círculo do Livro aqui resenhada foi revista e ampliada pelo autor. A novela tem por volta de 30 mil palavras e foi publicada consorciada com Reino do Céu, texto um pouco mais curto que não será comentado porque não faz parte do objetivo deste artigo.
Schmidt era natural da cidade de Cubatão/SP, e ambientou a maior parte de Zanzalá nessa cidade. Mas projetou para o século XXI uma situação muito diferente da que conhecemos. Zanzalá é uma utopia, uma metrópole pacífica, culta, limpa e avançada, líder de sua região. Schmidt nunca imaginou que a cidade que amava se tornaria uma das mais poluídas do mundo. Embora tenha antecipado um holocausto no final de sua história imaginária, soa como um conto de fadas comparado à verdadeira tragédia que Cubatão conheceu na Vila Socó, em 1984.
Mas Schmidt tinha consciência da imprevisibilidade das ficções. Diz o autor na apresentação do texto: "Wells escreveu em 1898: 'o homem nunca voará'. No entanto, em 1936, ele chegou de aeroplano aos Estados Unidos." E complementa adiante "...compus estas páginas pensando no bom sorriso dos leitores de amanhã: deve ser o mesmo sorriso que eu esboço ao saborear o trabalho dos meus colegas do passado... Desejo apenas contar uma história de 2028 aos possíveis leitores deste ano da graça de 1949."
A história inicia com o conto que inspirou a novela. O autor a apresenta já dizendo que essa parte pode ser pulada, se o leitor assim desejar. Isso porque o capítulo inicial apenas narra, sem personagens e sem diálogos, a evolução sócio-política do mundo ainda no século XX: como a tecnologia se desenvolveu ao ponto de construir autômatos perfeitos que, aos poucos, substituíram a mão de obra humana deixando milhões de pessoas na miséria, sem perspectiva de trabalho. Como essa legião de miseráveis fugiu para o campo; como as cidades tornaram-se feudos eletromecânicos a serviço da classe política e, finalmente, como até os políticos foram superados pelos governantes automáticos.
Isso levou a humanidade a instalar a utopia bucólica que vai predominar no restante da novela. Em Zanzalá, metrópole encravada num belo vale na Serra do Mar, perfeitamente integrada à natureza, uma população pacífica dedica-se à pesquisa científica e às atividades artísticas e desportivas, num sistema comunista de princípios anarquistas. Maria Balbina, João Antônio e Tuca - pai, mãe e filha respectivamente -, vão para lá trabalhar e estudar. Instalam-se facilmente em confortáveis residências pré-fabricadas, pouco mais que barracas, mas que proporcionam total segurança, uma vez que a meteorologia é controlada.
Daí em diante, a narrativa acompanha a vida da família nesse ambiente estranho. Os capítulos não têm uma sequência rígida, são episódios mais ou menos independentes. Um deles conta a história de amor de Tuca – a jovem filha do casal –, como ela conhece Zéfiro, seu futuro marido, o namoro e o casamento. Outro, apresenta a história de Flanela, compositor demente que monta uma superprodução musical usando toda a natureza de Zanzalá como instrumento.
Noutro ainda, um grupo de selvagens renegados invade a cidade e rapta o jumento de estimação de Zanzalá. Esses selvagens fazem parte de um tribo ao norte, formada por estrangeiros imigrados que não conseguiram se adaptar ao sistema comunitário de vida da metrópole. Os cidadãos de Zanzalá castigam os criminosos, deportando-os de volta para sua tribo. Mas isso atiça a beligerância de todos os selvagens que, então, preparam-se para atacar Zanzalá com toda a sua força militar. Zanzalá vê-se, subitamente, ameaçada pela "Guerra", fenômeno sociológico extinto há décadas que, anunciado com antecedência, chama a atenção da mídia.
Observadores, pesquisadores e turistas do mundo inteiro partem para Zanzalá dispostos a qualquer coisa para ter a oportunidade de testemunhar uma verdadeira guerra. Os cidadãos de Zanzalá esperam o ataque com ansiedade quase festiva: eles não têm medo da morte, encaram-na como parte do milagre da vida e o risco de morrer não lhes traz nenhuma angústia.
A destruição cai sobre Zanzalá, com transmissão dos fatos em tempo real para todo o mundo. Milhões morrem nesse dia mas, ao final do combate, esgotada a volúpia bélica dos selvagens e enterrados os mortos, Zanzalá é reconstruída e a vida volta ao normal.
O último capítulo é anticlimático. Conta os dias finais de Tuca, vítima de uma doença incurável. Sua despedida encerra a novela, com um tom tão suave e poético que contrasta constrangedoramente com as regras da fc&f pulp, que então estavam ainda sendo redigidas pelos "selvagens do norte".
Não há dúvida que Afonso Schmidt foi um grande escritor. Poeta parnasiano e amigo pessoal de Monteiro Lobato, recusou participar da Semana de 22. Escreveu romances importantes como Colônia Cecília e A marcha, recebeu o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano em 1963 e teve a data de seu aniversário, 26 de junho, instituída pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo como o Dia do Escritor Paulista.
Zanzalá é fruto de um tempo singelo e ingênuo, quando grandes escritores, como Schmidt, não tinham preconceito em cometer uma história de ficção científica.