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sábado, 9 de setembro de 2023

Resenha: A torre acima do véu, Roberta Spindler

A torre acima do véu
, Roberta Spindler. 272 páginas. São Paulo: Giz, 2014.

Aconteceu muito rápido e ninguém nunca soube de onde veio o miasma que cobriu todo o planeta em algum momento de um futuro não muito distante. Quem respirava a névoa morria em dolorosa agonia, pelos menos esse foi o destino daqueles que tiveram sorte. 
Os arranha-céus das cidades futuristas, com centenas de andares, proporcionaram a uns poucos a possibilidade de sobreviver nos níveis mais altos, acima da névoa venenosa. Ali, esses miseráveis fundaram uma nova sociedade dominada por leis draconianas, devido a escassez extrema recursos, especialmente de energia, comida e água. Abaixo da linha da névoa, a vida também mudou. Humanos e animais transformados em selvagens antropófagos chamados de sombras, eventualmente sobem as escadas para caçar os últimos seres humanos encurralados no topo dos edifícios. 
Nesse ambiente insalubre vivem Beca e Edu, filhos de Lion, cidadãos da comunidade de Nova Superfície, sobreviventes que habitam um conjunto de prédios cuja sede está localizada nos últimos andares da Torre, o mais alto edifício da antiga megalópole de Rio-Aires. Beca é uma mergulhadora, exploradora especializada que, fazendo uso de cabos e outros equipamentos de escalada, desce aos andares próximos à linha da névoa em busca de qualquer dispositivo remanescente da antiga tecnologia que possa ser reaproveitado. Enquanto Beca cumpre a parte braçal do processo, Edu, seu irmão mais novo, e Lion, seu pai, um mergulhador aposentado, ficam numa central de computadores monitoranto os movimentos de Beca e mantendo cosntante contato de rádio de forma a mantê-la viva durante a missão. A história inicia durante uma dessas incursões, na qual Beca procura por um tipo de bateria de energia infinita cuja localização lhe foi passada por Rato, um informante não muito confiável. A operação acaba comprometida por um conflito com outra equipe de mergulhadores, e Beca acredita que foi traída por Rato. 
Esse desentendimento inicial progride a um conflito mais sério quando Edu, ao participar de um mergulho, acaba despencando para dentro da névoa, onde desparece completamente. Tudo leva a crer que Edu morreu, mas Rato pensa que ele ainda vive em algum lugar na superfície. Desesperados para resgatar Edu, Beca e Lion convencem os governantes de Nova Superfície a organizar uma missão de resgate na região dominada pela névoa venenosa e pelos sanguinários mutantes. E a aventura vai revelar muito mais sobre o que está por trás da névoa, de onde ela veio e por quê, e o papel de cada um nesse drama mortal.
A torre acima do véu é um romance originalmente publicado em 2014, pela Giz Editorial, e é essa a edição tratada nesta resenha. A autora, Roberta Spindler, é paraense de Belém e publicou anteriormente o romance Contos de Meigan: A fúria dos cártagos, em parceria com a também paraense Oriana Comesanha, publicado em 2012 pela Editora Dracaena. Também teve publicado o romance Heróis de Novigrat (Suma, 2018), já resenhado aqui
Spindler tem um texto maduro e bem modelado, sem experimentalismos formais, seguindo a risca todos os protocolos da ficção de gênero numa mescla de fantasia, terror e ficção científica acessível aos leitores mais jovens para quem sua ficção é dirigida. Os personagens são estruturados com motivações bem calçadas, o que dá verossimilhança ao drama ainda que seja todo crivado de situações hiperbólicas incríveis. É justamente o bom desenvolvimento dos personagens que fleva o leitor a avançar, preocupado com o destino deles. 
A produção da Giz é caprichosa, com ótima revisão de Sandra Garcia Cortez e a expressiva ilustração de Rafael Victor que já bastou para capturar a minha atenção, numa das mais instigantes capas da ficção fantástica brasileira recente. 
Enquanto aguardamos a já anunciada continuação para A torre acima do véu, o romance acaba de ganhar nova edição pela Editora HarperCollins Brasil. Vale a leitura deste e dos demais trabalhos de Roberta Spindler, que tem progredido rapidamente no espaço editorial brasileiro. 

terça-feira, 13 de junho de 2023

Resenha do Almanaque: Amor vampiro

Amor vampiro
, Ednei Procópio, org. São Paulo: Giz, 2007 

Antologia com contos de dark fantasy organizada pelo editor da Giz, reunindo alguns dos mais ativos autores brasileiros que têm nos contos com vampiros o principal trabalho. O expediente informa 2007 como a data de publicação, mas só foi efetivamente publicado no início de 2008.
O livro é elegante, com uma belíssima capa assinada por Amauri Modesto de Oliveira, ótimas produção gráfica, diagramação e revisão. Em suma, uma edição que faria história em qualquer época em que fosse publicada, exceto hoje, uma vez que o mercado está saturado de histórias de vampiros. É lamentável que assim seja, porque o livro apresenta um projeto editorial consistente e os autores publicados têm experiência.
Por exemplo, Adriano Siqueira foi editor do bem sucedido saite de horror Adorável Noite, que ajudou a catalisar o gênero no Brasil. André Vianco é um dos maiores fenômenos da literatura fantástica brasileira, com muitos livros publicados, entre eles o bestseller Os sete (2001), bem recebido também pela crítica. Martha Argel podemos dizer que é uma veterana no fandom, presente desde a década de 1990 quando praticava ficção científica, até identificar-se com os vampiros e desenvolver alguns dos bons livros no tema, como o romance Relações de sangue (2002), a antologia O vampiro de cada um (2003) e o excelente O vampiro da Mata Atlântica (2009), entre outros. J. Modesto é autor do romance Trevas: Eles estão por toda parte (2006). Nelson Magrini tem em seu currículo os livros Anjo, a face do mal (2004) e Relâmpagos de sangue (2006). Regina Drummond é a mais experiente de todos, com um trabalho importante e premiado como escritora, editora e incentivadora da leitura. Giulia Moon, por sua vez, é uma das mais interessantes autoras brasileiras de vampiros, com vários livros publicados, entre eles Vampiros no espelho & Outros seres obscuros (2004), A Dama-Morcega (2006) e a série de romances com a vampira Kaori.
Dessa forma, era de se esperar que os contos publicados fossem trabalhos destacados no gênero e na bibliografia dos autores, aproveitando a ousadia que o título da antologia sugere, uma vez que os vampiros são, em sua dimensão mítica, seres deformados. Mas como se poderá perceber pela resenha a seguir, não houve muita variação e quase todas as histórias versam sobre relações entre homens e vampiras com as mais previsíveis conotações. Nenhum outro tipo de amor parece fazer parte do ideário vampírico, seja por parte do monstro seja por parte das suas vítimas, pelo menos na opinião do organizador da antologia, uma vez que alguns dos autores já mostraram visões mais interessantes nesse mesmo tema em outras oportunidades. Apesar disso, o conjunto soa harmonioso, sem que nenhum dos trabalhos publicados se destaque entre os demais.
Não parece haver um padrão na ordem dos autores, mas cada um deles forma um caderno particular, isolados entre si por uma folha decorada com grafismos e um pequeno currículo.
Adriano Siqueira abre a antologia, com três trabalhos muito curtos. O primeiro deles é “O outro lado do espelho”, com apenas três páginas é o mais breve da antologia e faz o trabalho de um diapasão para o que virá em seguida. Numa ambientação algo gótica, um vampiro satisfaz o desejo de uma bruxa que insiste ser vampirizada. Em “O dia dos vampiros”, um jovem sem sorte troca de lugar no espaço e no tempo com um vampiro que ia ser imolado séculos atrás. Enquanto o jovem azarado é sacrificado em seu lugar, o vampiro acompanha sua namorada a uma festa dedicada aos vampiros. O conto assume ser uma homenagem a 13 de agosto, o Dia do Vampiro, quando a comunidade brasileira de fãs festeja o seu objeto de desejo. O terceiro conto é “A grande chance”, no qual um adolescente apaixonado pela garota mais bonita da escola espera pela chance de se declarar. Mas ela está envolvida com um vampiro e o destino do jovem é tornar-se o prato principal da noite.
O caderno seguinte apresenta o conto “A canção de Maria”, de André Vianco. O experiente autor ousa instalar sua narrativa na Palestina dos tempos de Jesus Cristo, quando um lenhador judeu abriga em sua casa uma jovem mãe que lhe pede ajuda. Porém a mulher morre e deixa sua criança com o homem, que decide cuidar dela sozinho. Mas o fantasma da mãe parece rondar a casa com a intenção de levar também a criança, que fica cada vez mais fraca e doente. Assustado e cada vez mais desesperado, o homem abandona suas convicções religiosas e busca na feitiçaria uma forma de proteger o bebê e a si mesmo. É o conto mais diferente do livro, com uma vampira não usual e uma relação de amor triangular entre o lenhador, a jovem mãe e o bebê. Mas o conto não está bem ambientado e a Palestina romana de Vianco não soa realista. O judeu não pratica sua religião e talvez nem o seja de fato, mas ao buscar ajuda com o Nazareno, sem sucesso, dá a impressão de que fosse. A imagem burocrática que Vianco pinta de Jesus que, na sua opinião, seria agenciado por João Batista, é historicamente inconsistente e enfraquece o conto. Os resultados seriam melhores se Vianco tivesse plantado seu drama de horror diretamente na Europa medieval, com a qual se identifica mais plenamente. Apesar disso, é o melhor trabalho do livro.
A seguir, Martha Argel apresenta o conto mais longo do volume, “A flor do mal”, uma noveleta com quarenta páginas ambientada na Florença do tempo dos Médicis. Uma vampira, ao voltar de sua caçada noturna, é surpreendida por um homem em busca de vingança pela morte de um parente, mas os instintos da monstra a alertam a tempo de evitar qualquer dano, e o atacante acaba escravizado pela vampira. Surge um romance entre os dois e, mais tarde, a vampira acaba transformando seu amante numa criatura semelhante a ela. Há bons momentos no conto – especialmente os mais apimentados, que a autora domina muito bem – e a ambientação florentina é eficiente, mas faltou algo mais à história, pois os dramas emocionais dos dois vampiros não são convincentes.
J. Modesto conta duas histórias. Em “Amante notívago” um vampiro se aproveita de uma dama da nobreza enquanto seu marido não está no castelo. Este, vindo não se sabe de onde, esfalfa-se para chegar a tempo de salvar sua esposa das garras do monstro. O confronto favorece ao homem que, depois de destruir a criatura do mal, deita-se ao lado da esposa desacordada. Quando o cansaço o faz dormitar, a dama finalmente revela sua nova natureza. Em “O anjo e a vampira”, uma senhora idosa fala a seu neto adolescente sobre a paixão entre dois seres de naturezas incompatíveis. Apaixonados, anjo e vampira procuram uma bruxa que conspurca a santidade do anjo para que o casal possa satisfazer sua luxúria em segurança. Modesto é o autor menos experiente do grupo, mas suas histórias não destoam do conjunto.
“Isabella” é a contribuição de Nelson Magrini, que conta como um nerd obcecado por uma vampira arma um esquema para que ela o note e se apaixone por ele. Usando de lógica supostamente científica, o rapaz argumenta que a vampira é mais humana do que pensa e, finalmente, consegue convencê-la a se entregar a sua paixão. O texto tem problemas com repetições de palavras e aliterações, e nas primeiras páginas há uma adjetivação tão exagerada que chega a incomodar. Mas passado esse mal início, a narrativa flui melhor.
Regina Drummond participa com “A velha, o jovem e o casarão”, a aventura de um adolescente que, maltratado pela madrasta, foge de casa. Sem ter para onde ir, observa como uma velha senhora desaparece num trecho desmoronado do muro que cerca um velho casarão aparentemente abandonado, e resolve segui-la. Uma vez nos domínios do imóvel, é envolvido por energias nefastas que o impedem de se afastar. Depois de passar uma noite no casarão, finalmente se encontra com a velha, que o recebe com amabilidade. Dessa forma, o jovem decide permanecer para explorar melhor as dependências do velho solar, o que vai revelar ser um grande erro. A história, se não é original, é muito bem contada, tem um nível de estranhamento delicioso e faz uma bela homenagem aos velhos casarões assombrados. A referência ao amor vampiro é transversal e só vai materializar-se no trecho final da história, mesmo assim é preciso a participação interpretativa do leitor. A apresentação de Regina Drummond impressiona, é uma autora muito experiente, com uma sólida carreira dedicada à literatura infanto-juvenil, e é estranho que com tanto prestígio não tenha uma bibliografia mais consistente no fantástico. Certamente não é por causa de seu texto, que é irrepreensível, assim como sua criatividade, que faz de seu conto um dos melhores trechos da antologia. Talvez sua carreira literária já estabelecida seja um dificultador junto aos seus editores, e sua presença nesta coletânea inaugure uma linha alternativa de sua obra. Espero que a autora tenha a oportunidade de nos apresentar, num futuro breve, mais trabalhos voltados para o fantástico, com ou sem vampiros, pois é uma excelente escritora.
“Dragões tatuados”, de Giulia Moon, fecha a antologia com uma história que se passa no bairro da Liberdade, na capital paulista. Um rapaz tem por profissão observar e catalogar vampiros em nome de alguma organização que não é explicitada na história. Sempre muito discreto e cuidadoso, catalogou centenas dessas criaturas amaldiçoadas, mas desta vez alguma coisa não deu certo, pois ele acorda na cama de sua suíte no hotel sem lembrar dos eventos da noite anterior e com duas pequenas perfurações em seu pescoço. Na busca por respostas, ele vai se envolver com uma mulher fatal que tem por hobby tatuar dragões em suas vítimas. Giulia tem um ótimo domínio do texto e a história envolve o leitor mas, depois de tantas histórias de paixão entre homens jovens e vampiras sedutoras, acaba por ser mais um pouco do mesmo.
Fica a certeza que o organizador perdeu a chance de construir uma antologia realmente representativa do tema escolhido, pois alguns dos autores selecionados já publicaram histórias melhores nessa premissa. Quando os textos se aproximam de uma narrativa pornográfica, um pouco mais de ousadia poderia ter elevado a experiência do leitor a algo realmente emocionante – uma vez que assustadora não é – mas os contos são comedidos, juvenis, e fica a impressão de um moralismo excessivo, que não consegue pensar num amor vampiro para além do heterossexual. Uma visão mais criativa e ousada ficou assim para uma outra oportunidade.
De qualquer forma, o livro entretem e o editor nos informou que o volume teve aceitação muito boa pelos livreiros, provavelmente animados com o nome de André Vianco entre os autores, e com a excelente apresentação gráfica.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Resenha do Almanaque: Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon

Kaori e o samurai sem braço, Giulia Moon. 200 páginas. Ilustrações de Giulia Moon. São Paulo: Giz,  2012.

Kaori tornou-se rapidamente um ícone no ambiente da dark fantasy brasileira. Isso porque, depois de aparecer com regularidade em antologias e coletâneas, chegou em 2012 ao seu terceiro romance, com boa aceitação de público e crítica – os dois primeiros são Kaori: Perfume de vampira (2009) e Kaori 2: Coração de vampira (2011), ambos publicados pela Giz Editorial. 
Não é para menos. Giulia Moon é uma das mais gratas revelações recentes da literatura fantástica nacional que, além de um texto enxuto, suave e envolvente, domina muito bem os protocolos do gênero.
Kaori é uma vampira secular, originária do Japão feudal que, por capricho do destino, veio morar em São Paulo. Ela é linda, sensual, imortal e feroz, e sua presença exala um perfume irresistível tanto aos homens quanto às mulheres. A maior parte de suas histórias se passa nos dias atuais, mas a autora decidiu inovar desta vez.
Kaori e o samurai sem braço é o que muita gente gosta de chamar de "prequela", anglicismo pavoroso que significa uma aventura que, cronologicamente, se passa antes da primeira história de uma série. Contudo, o romance inicia nos dias de hoje, com a sensual vampira fazendo uma visita a Takezo, um velho amigo de "profissão". Conversa vai, conversa vem, Kaori conta ao amigo uma história de sua juventude no Japão, quando ainda era ainda uma kyuketsuki (vampira, em japonês) selvagem e inexperiente. Ela lembra de como foi surpreendida por um terremoto violento e ficou presa sob os escombros de uma residência, e de como foi salva, praticamente destroçada, por um estranho e destemido vagabundo e sua acompanhante. Protegida e alimentada, ela recupera pouco a pouco sua consciência e vigor, para se ver enredada numa situação da qual não tinha como sair. Seu salvador era Kuroshima Kitarô, o lendário samurai maneta caçador de monstros, e sua serviçal mágica Omitsu, uma kistune, um ser da natureza misto de mulher e raposa. Kitarô tinha uma proposta irrecusável: ele quer que ela o ajude, durante um ano, a localizar um monstro muito pior, Shinku, um demônio transmorfo que matou sua família. Em troca, ele não acaba com a existência da vampira. Findo o acordo, Kitarô promete libertar Kaori. E se ela não aceitasse, morreria ali mesmo.
Enfraquecida e sem alternativa, Kaori aceita o acordo, mas o início da relação é tenso. Conforme o trio persegue o rastro de Shinku e enfrenta outros monstros pelo caminho, Kaori recupera suas forças, mas também percebe que Kitarô é honrado e a confiança começa a se estabelecer entre eles. No final, será preciso todo o habilidade, coragem e confiança destes três improváveis aliados para confrontar o poderoso e astuto Shiku.
O romance se desenvolve em forma episódica, com os trio de guerreiros enfrentando diversos demônios e monstros antes do confronto final com Shinku. Essas histórias funcionam como um espaço de desenvolvimento dos personagens e das relações de confiança e amor que vão se formando entre eles, mas nem por isso deixam de ser divertidas e, por muito pouco, não roubam o espetáculo, tal o carinho com que Giulia tratou cada uma delas. O romance, com certeza, não ficaria melhor sem elas.
Outro grande mérito de Kaori e o samurai sem braço é a cuidadosa pesquisa que a autora realizou sobre o ambiente japonês do século 18, seus cenários naturais, arquitetura e costumes, bem como os termos originais, devidamente explicados em notas de pé-de-página, que não deixam nada sem o devido esclarecimento, uma verdadeira viagem de Giulia Moon às suas origens étnica e cultural.
Além disso, o livro é decorado com belíssimas ilustrações realizadas pela própria autora, que é designer profissional e demonstra aqui toda a qualidade de sua arte, valorizada pela elegante produção gráfica do volume.
Posso afirmar que, sem dúvida alguma, ninguém está fazendo mais e melhor que Giulia Moon no que se refere à dark fantasy no Brasil. E, se tivermos sorte, podemos esperar muito mais de Kaori e de Giulia Moon nos próximos anos.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Doces vampiras

Chegou-me às mãos, por gentileza da dama do horror vampírico Giulia Moon, a coletânea Flores mortais, publicada pela Giz Editorial, reunindo oito contos da autora com suas principais personagens femininas.
A maioria dos textos foi vista nas antologias das quais a autora participou nos últimos anos, principalmente suas coletâneas anteriores, Vampiros no espelho & outros seres obscuros (2004) e A dama morcega (2006). Mas há, pelo menos, um texto inédito: "A exótica dama oriental e o inesperado Luar", no qual a vampira Kaori contracena com o personagem Luar, de Kizzy Ysatis. Trata-se da primeira parte de um trabalho a quatro mãos, cuja sequência pode ser lida no livro de Ysatis, Eterno castigo, também publicado em 2014 pela Giz.
Kaori é a personagem mais conhecida de Giulia e já apareceu em três romances muito bem recebidos pelos leitores: Perfume de vampira (2009), Coração de vampira (2011) e O samurai sem braço – livro que venceu o prêmio Argos de Melhor Romance de 2013.
Flores mortais tem 224 páginas e apresentação luxuosa, com laminação fosca e reservas de verniz. Traz ainda uma série de competentes ilustrações exclusivas da autora, que abrem cada um dos contos publicados.
Mais detalhes sobre estes e outros livros da autora no saite da Giz, aqui.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Zumbis atacam no Rio e em Sampa

Com o interesse criado na mídia por histórias com os misteriosos mortos-vivos antropófagos, que gerou no País pelo menos uma antologia de contos de autores nacionais (Zumbis: Quem disse que eles estão mortos?, 2010, All Print), entre outros títulos literários, nossos calados amiguinhos protagonizam agora dois álbuns de quadrinhos produzidos com todo o capricho.
Imagine (zumbis) na Copa é uma novela gráfica de Felipe Castilho e Tainan Rocha, publicada pelo novíssimo selo GiBiz da editora Giz. O título, que faz uma brincadeira com um meme da internet, já entrega mais ou menos o que o leitor vai encontrar, o que, certamente, é uma coisa que a Fifa não autorizaria, ainda mais durante a partida final num Maracanã lotado. Se é possível imaginar algo pior que o maracanazo de 1950, deve ser isso.
Apesar do cenário, ambos os artistas são de São Paulo. Castillho é autor de dois livros recentes que trabalham com mitologia brasileira: Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia , ambos pela editora Gutenberg. Rocha, que publicou de forma independente a coletânea poética Máquina de sujar, tem neste álbum seu primeiro trabalho autoral como ilustrador.
Imagine (zumbis) na Copa tem 48 páginas e pode ser encontrado nas gibiterias.
São Paulo dos mortos é uma coletânea de 96 páginas com cinco histórias curtas, cada uma delas com um tema e um ilustrador diferente, embora sejam todas de autoria do experiente e premiado roteirista Daniel Esteves, criador da série Nanquim descartável.
As histórias mostram episódios mais ou menos independentes, em uma São Paulo tomada pela praga, tendo entre seus cenários o Metrô, a Cracolândia, o Itaquerão e o Palácio dos Bandeirantes. O trabalho de arte foi distribuído entre Al Stefano, Alex Rodrigues, Ibraim Roberson, Laudo Ferreira, Omar Viñole, Samuel Bono, Wagner de Souza, Wanderson de Souza e Jozz.
A edição é assinada com o selo Petisco do Estúdio HQ em Foco, e foi financiada pelos leitores através do saite Catarse.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Kaori e o samurai sem braço

Depois de um período produtivo investindo em ficção curta, muitas das quais vistas nas coletâneas Luar de vampiros (2003), Vampiros no espelho & Outros seres obscuros (2004) e A dama morcega (2006), a escritora paulista Giulia Moon está agora devotada aos romances, especialmente à série Kaori, iniciada em 2009 com o romance Perfume de vampira, seguido de Coração de vampira em 2011, ambos publicados pela Giz Editorial e bem recebidos pelos leitores.
Agora é a vez de Kaori e o samurai sem braço, terceiro volume da série com a vampira nipobrasileira que, antes dos romances, havia sido vista em alguns contos.
Como a protagonista tem centenas de anos de idade, as histórias se espalham em diversos períodos históricos, não necessariamente lineares. Tanto que este novo título está situado entre os dois romances anteriores, unindo duas tragédias naturais que assolaram o Japão, os terremotos de 2011 e de 1782, quando Kaori conheceu Migite-no-Kitarô, o lendário samurai sem braço, e sua companheira Omitsu, a mulher-raposa. Diz o relise: "O objetivo do trio é exterminar um terrível monstro devorador de almas, mas essa missão os levará ao mais arriscado dos confrontos: o desafio de enfrentar a si mesmo, às próprias fraquezas e arrependimentos, numa luta de vida ou morte!"
A história não exige a leitura prévia dos demais volumes para ser compreendida e traz uma bem vinda novidade: dezoito ótimas ilustrações da própria autora, que assina também a capa da edição.
Outra particularidade é a decisão da autora em transferir 2% dos lucros obtidos com a primeira tiragem de Kaori e o samurai sem braço à entidades assistenciais para auxiliar as vítimas de catástrofes naturais, como os ocorridos no Japão em 2011.
O livro será lançado durante a 22ª Bienal do Livro de São Paulo, no dia 18 de agosto às 18 horas, no estande da Giz Editorial, M-79.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Maquetes e Miniaturas

Como, desde criança, sou entusiasta do maquetismo, chamou muito a minha atenção o livro Maquetes e miniaturas: Técnicas de montagem passo-a-passo, de Regina Mazzocato Nacca, publicado pela editora Giz em 2007, uma edição rara pois há pouquíssima literatura a respeito publicada no Brasil. A maior parte dos livros sérios sobre o assunto, em língua portuguesa, são publicações lusitanas. Ainda mais porque, por aqui, o assunto é geralmente tratado como curiosidade, embora tenha função extremamente técnica no ramo da arquitetura, sendo especialmente importante na área comercial.
Agora, a autora volta ao tema com um novo título. Trata-se de Maquetes e miniaturas: Monte sua minicidade, com uma proposta diferenciada em relação ao primeiro volume da coleção. Desta vez, Regina propõe atividades lúdicas e educativas dirigidas a professores e estudantes do ensino fundamental, aproveitando material descartável como caixas de papelão e embalagens em geral, além do papel, isopor e outros materiais, para construir edifícios, veículos, figuras humanas, ruas, vegetação e outros elementos urbanos.
O volume foi lançado na 22ª Bienal do Livro de São Paulo e também é publicação da Editora Giz. Mais informações sobre o trabalho de Regina podem ser obtidas no saite da autora, aqui.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Três da Giz

Conheci o editor da Giz, Ednei Procópio, no inicio de 2007, quando estava em busca de um editor para o Anuário. Indicado por um amigo em comum, estive no escritório da Giz no centro da São Paulo, acompanhado por Marcello Simão Branco, meu colega na autoria do Anuário.
Não fechamos com a editora e a edição 2006 do Anuário ainda saiu de forma amadora, mas foi bom ver o quanto a Giz estava se esforçando por colocar no mercado um bom catálogo de ficção fantástica. Desde então, tenho visto Procópio em diversos noticiários culturais na televisão, geralmente falando sobre a edição de livros eletrônicos. A editora diversificou o catálogo e não publicou muitos títulos do gênero nesse período. Mas a coisa pode mudar agora. A Giz anunciou o lançamento simultâneo de três títulos de FC&F neste início de 2012, que já estão em pré-venda.
A escritora Georgette Silen é autores de dois deles: Fábulas ao anoitecer é uma coletânea de 160 páginas, com diversos  contos em gêneros variados. Diz o relise: "Terror, amor, magia, criaturas fantásticas como fadas, bruxos, dragões, elfos, e até ficção científica surgem de suas páginas. Mitologia e lendas folclóricas mundiais são revisitadas e conduzem o leitor pelo maravilhoso mundo da Literatura Fantástica Brasileira".
As crônicas de Kira é um romance de fantasia heróica, tem 152 páginas e é dirigida ao público juvenil. O texto de divulgação diz: "Kira, a Princesa de Hisipan, terra de fabulosas mulheres guerreiras, parte em uma jornada heróica por reinos distantes, à procura de um artefato mágico. Uma narrativa épica, repleta de reviravoltas e personagens complexos, guerreiros, batalhas espetaculares em terra e mar, criaturas fantásticas, monstros saídos de histórias de terror, belas mulheres e feiticeiros sinistros, que irá hipnotizá-lo do início ao fim".
Fecha o conjunto o romance juvenil O despertar das tatuagens, de Regina Drummond e Rosana Rios, que a editora apresenta da seguinte forma: "Uma profecia pode levar a salvação para o continente devastado. Mas pode também atrair criaturas perigosas: as Sombras, que se alimentam das fraquezas humanas, encontram o campo livre para agir. Entre duas realidades cheias de desafios, Raiziar, o herdeiro da Grande Mãe, luta pelo despertar das nove tatuagens que traz no corpo. Só elas poderão ajudá-lo a encontrar o objeto capaz de devolver força e poder aos seus ancestrais".
A previsão de lançamento é dia 15 de março, e quem comprar um exemplar durante a pré-venda, vai ganhar um brinde surpresa. Mais informações diretamente no saite da Editora Giz.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Kaori 2

Depois do bom desempenho do romance anterior, a escritora paulista Giulia Moon lança, na Bienal do Rio no próximo dia 10 de setembro às 16h, Kaori 2: Coração de vampira, segundo volume da série com a vampira japonesa Kaori, novamente pela editora Giz.
Desta vez circulando em paisagens cariocas, a história ainda envereda por um apocalipse zumbi nas ruas de Sampa. Diz o relise: "Praia de Copacabana, Rio. Uma bela garota oriental passeia pelo calçadão. Seus olhos oblíquos seguem alguém: Yoshi, um garoto de programa meio-brasileiro e meio-japonês, com um raro talento para sedução. Ferida por um amor trágico do passado, Kaori enfrenta um dilema: dar vazão ao seu desejo pelo mestiço ou manter-se protegida, salvaguardando o seu coração?
Enquanto isso, o mundo sofre a ameaça de uma praga virulenta. Mortos-vivos, ogros, demônios e criaturas fabulosas começam a enlouquecer. Em São Paulo, os especialistas do IBEFF entram em ação para controlar o surto. E Kaori será envolvida, a contragosto, em mais um perigoso confronto com a sua arqui-inimiga, Missora, uma cruel cortesã do Japão feudal".
O romance terá também um lançamento em São Paulo, no dia 22 de setembro, às 19h, na Livraria Martins Fontes Paulista (Av. Paulista, 509). Uma pequena amostra do que espera os leitores nas páginas de Kaori 2 pode ser lida aqui.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Relações de sangue

Uma coisa que me chateia é a falta de interesse pela história da FC&F no Brasil, especialmente pela produção nacional. Muitos livros ótimos, fundamentais para se entender a FC&F brasileira, estão esgotados há décadas e não há uma só editora que se interesse em trazê-los de volta as livrarias. A ampla maioria dos livros de FC&F um dia publicados estão esgotados e só podem ser achados nos sebos, com alguma sorte. São raros os casos de livros de FC&F de autores brasileiros que tiveram relançamentos. Mas, aparentemente, isso está mudando.

Relações de sangue, de Martha Argel, romance originalmente publicado em 2002 pela editora Novo Século, sai agora pela caprichosa Editora Giz, um autêntico relançamento.
Diz a sinopse distribuída pela editora: "Maria Clara Baumgarten levava uma vida bem normal, até conhecer a vampira Lucila, cujos olhos castanhos grandes e inocentes enganariam até o mais desconfiado dos humanos, quanto mais a pobre Clarinha. Um vampiro traz o outro, e logo ela está às voltas com Daniel, um inescrupuloso vampiro de programa. Moreno, alto, bonito e sensual, ele precisa da ajuda das humana e da vampira para encontrar o assassino em série que está atacando suas “clientes”. Mas... e se o assassino encontrar Clara primeiro?"
Martha Argel é uma escritora revelada na ficção científica que, um certo dia, percebeu que gostava mesmo era de escrever sobre vampiros e este foi seu primeiro romance no gênero. Desde então, Martha construiu uma boa reputação entre os fãs dos sugadores e escreveu outros livros muito bons, como o excelente O vampiro da Mata Atlântica, publicado em 2009 pela editora Idea.
Quem quiser conhecer o trabalho de Marta e bater um papo pessoalmente com ela, a Giz informa que a escritora estará autografando seu novo livro no estande da editora na 21ª Bienal do Livro de São Paulo, no dia 13 de agosto às 19 horas e no dia 21 de agosto, às 16 horas.
Parabéns a Editora Giz pela iniciativa. Tomara que a moda pegue e, em breve, tenhamos muitos outros títulos esgotados de volta às livrarias.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Prefácio para Farei meu destino, de Miguel Carqueija

A comunidade de autores de ficção científica no Brasil não tem o
costume de privilegiar a produção de histórias do gênero para os leitores jovens. Há um interesse predominante por se produzir para adultos, histórias violentas e repletas de referências que só um leitor com mais de 30 anos poderia perceber. Os enredos são herméticos, muitas vezes inseridos em séries cujos episódios anteriores são propriedade quase que exclusiva de grupos de interesse muito restritos.
Os editores também têm um comportamento elitista em relação ao que publicam quando se trata de ficção científica. Procuram por autores cultuados, com fama de pós-modernos, distantes do interesse e do alcance dos leitores jovens. Publicam pouco e mal, com tiragens pequenas, preço de capa altíssimo e distribuição tão deficiente que mal chega aos fãs mais ardorosos do gênero. É claro que esse tipo de política comercial também não colabora para que as histórias do gênero sejam acessíveis aos leitores que estão sendo apresentados à literatura.
Décadas dessa atitude criaram um mercado com um grande lapso de oferta de literatura de antecipação para jovens, que passaram a consumir ficção científica exclusivamente em outras mídias, principalmente a televisão e o cinema que, com filmes altamente digestivos, são um prato atraente para as mentes jovens famintas por aventuras fantásticas.
É aqui que se insere a obra do escritor carioca Miguel Carqueija, autor de ficção científica que, apesar de ter neste volume seu primeiro romance publicado profissionalmente, é veterano no gênero dentro do ambiente dos fãs de ficção científica – o conhecido fandom –, publicando em fanzines e revistas eletrônicas.
Miguel Carqueija está envolvido com a arte de escrever ficção fantástica desde os primeiros momentos do fandom, mais exatamente desde 1983, quando surgiu o já extinto fanzine Antares, editado em Porto Alegre pelo Clube de Ficção Científica Antares. Nesse e nos fanzines que vieram depois, tais como Megalon, Somnium, Juvenatrix, Notícias do Fim do Nada e outros, publicou uma enorme quantidade de trabalhos, principalmente ficção curta, mas também uma e outra novela, sempre de forma amadora e de distribuição restrita.
Como editor amador, apoiei o trabalho de Miguel Carqueija exatamente porque percebi nele essa dedicação aos leitores jovens. Além de vários contos publicados no meu fanzine Hiperespaço, publiquei três livrinhos de bolso com suas novelas de ficção científica: A âncora dos argonautas (1999), A Esfinge Negra (2003) e As luzes de Alice (2004), todas editadas pelo selo Hiperespaço. Recentemente, Carqueija teve publicada a novela O fantasma do apito (2007) pela Coleção Scarium Fantástica.
Mas Carqueija não passou todo esse tempo sem publicar profissionalmente. Participou da importante antologia Dinossauria Tropicália (GRD, 1994) e publicou em revistas como HorrorShow (Escala), Dragão Brasil (Trama), Magazine Perry Rhodan (SSPG) etc. Também é autor cativo nos luxuosos livros Banco de Talentos publicados pelo Banco do Brasil. O conto "O tesouro de Dona Mirtes", publicado num desses livros, chegou a ser transformado em curta-metragem.
Invariavelmente, Carqueija busca escrever histórias construtivas, que enalteçam qualidades humanas como a amizade, a honra, a compaixão e a esperança. Aprecia trabalhar com personagens com senso de humor e também faz lá suas referências, mas elas são geralmente de natureza infanto-juvenil, parte do universo de identidade dos leitores jovens.
Assim, Carqueija tem ultimamente buscado nos mangás e animês, produtos japoneses de grande aceitação entre os jovens de hoje, inspiração para seus trabalhos mais recentes. Este é o caso do romance agora publicado pela Giz Editorial, Farei meu destino, uma história de ação com a doçura comumente encontrada nas narrativas orientais. Segue também o urdume comum a essas histórias, reunindo um grupo de jovens que tem a missão de salvar uns aos outros de um mal aparentemente invencível.
Quando fiz a primeira leitura desse trabalho, sugeri ao autor alternativas para o destino dos jovens protagonistas, algumas das quais um tanto sinistras. É claro que, em sua sensibilidade autoral, Carqueija as rejeitou em função de uma solução mais adequada ao tipo de leitor que ele busca. E, sendo assim, aceito de muito boa vontade essas soluções.
A publicação de Farei meu destino é uma rara iniciativa da literatura de ficção científica brasileira em fazer ela mesma alguma coisa pragmática pela verdadeira renovação do corpo de leitores do gênero.
Farei meu destino não é um romance para adultos. Pelo menos não para aquele tipo de adulto que se esqueceu de que também é muito bom para a ficção científica ser positiva e construtiva, só para variar.
Farei meu destino foi publicado em 2008 pela Giz Editorial.