terça-feira, 9 de outubro de 2018

Revistinha Pulp

Sem alarde, já está à venda o terceiro número, Aliens, do periódico literário Revistinha Pulp, inteiramente dedicado à ficção científica, com edição do dramaturgo Saulo Sisnando através do grupo Teatro de Apartamento, que desenvolve a produção e apresentação de peças no gênero.
Aliens tem 88 páginas e traz contos de Abdrei Simões, Breno Torres, Clara Gianni, Fábio de Andrade, Flávio Ramos Moreira, Giuliana Murakami e Lenmarck.
A publicação está disponível para leitores Kindle, mas acredito ser possível lê-lo usando o leitor online Kindle Cloud. As edições anteriores, Terror e Assombração, também estão disponíveis.

Conexão Literatura 40

Está circulando o número 40 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale.
A edição tem 86 páginas e destaca em entrevista o escritor português Nuno Morais, autor da trilogia Tráfico desumano. Também são entrevistados os escritores Gabriel Ferreira (Espirando e expelindo), Caio Mirabelli (A conscienciologia evolutiva), César Dabus (A liga dos corações puros) e José Michel (Laquê na virilha). Nas seção de ficções, contos de Míriam Santiago e Roberto Schima; artigos e divulgação de filmes e livros completam a edição.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Prêmio ABERST 2018

Surge um novo prêmio para a literatura fantástica brasileira: o Prêmio ABERST de Literatura, que pretende apurar, através de um corpo de jurados, os melhores nas categorias Conto/noveleta/novela policial ou de suspense; Conto/noveleta/novela de terror ou horror; Romance policial ou de suspense; Romance de terror ou horror; Projeto gráfico numa obra de terror, horror, suspense ou policial; Autor/autora revelação de terror/horror/suspense/policial; e Conjunto da obra.
ABERST é sigla para Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, entidade idealizada pela escritora Cláudia Lemes que tem como objetivo promover e congregar os autores desses gêneros no país.
A cerimônia de entrega acontece no dia 27 de outubro, às 14 horas, no auditório da Unibes Cultural  (R. Oscar Freire, 2500, São Paulo). Duda Falcão, autor cuja obra está intimamente ligada ao horror, aparece indicado em duas categorias. A lista completa dos indicados pode ser conferida no saite da entidade, aqui.

Múltiplo 19

Enfim, está circulando o número 19 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim. Como foi anunciado, a edição saiu atrasada - a numeração já vai pelo 22 - por conta de alguns contratempos com o conteúdo.
A edição de 112 páginas destaca a hq "Segredos extremos", de Belardino Brabo e Elinaldo Barbosa, reunindo uma enorme quantidade de super heróis do novo quadrinho independente. Também focaliza em entrevista o roteirista Rodrigo Marcondes (criador do personagem Blindado).
A edição ainda traz quadrinhos de Elenílton Freitas, Chris Ciuffi, Marcos Gratão, Jhonas Vieira, Glauco Torres Grayn, Alexandre Cardoso, Fernando César, Luiz Iório, Josi OM e João Carlos Magier. Artigos e resenhas completam a edição. A capa traz um desenho de Fernando César R. Fonseca .
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui, e as dições anteriores também estão disponíveis. O zine também pode ser encomendado em formato impresso, aqui.

Mafagafo 2 - 1 de 4

Está disponível para download o primeiro fascículo da segunda edição da revista eletrônica Mafagafo, organizada por Jana Bianchi, com folhetins de ficção fantástica brasileira apresentados em episódios.
A edição tem 160 páginas e traz as primeiras partes de oito contos dos seguintes autores: Sergio Motta, Anna Fagundes Martino, Marcos Berto, Dante Luiz e Ana Rüsche, Isa Propero, Lautro Kociuba e Michel Peres. Também traz nove ficções-relâmpago assinadas por Luiz Miguel Lisboa Machado, Rafael Peregrino, Viviane Maurey, H. Pueyo, Pasola Siviero, Sergio Eduardo Felisbino Jr., Allan Jonhnatha, Lucas David Michels dos Santos e Carol Vidal. Diversas ilustrações ilustram cada trabalho e embelezam a publicação. A capa é de Giovanna Cianelli.
Mafagafo pode ser baixada gratuitamente aqui nos formatos mobi, epub e pdf, bastando compartilhar um post nas redes sociais. As edições anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Parabéns: Hiperespaço 2

Prosseguindo com a comemoração aos 35 anos do Hiperespaço, está disponível o histórico segundo número do fanzine de ficção científica patriarca deste blogue, publicado originalmente  no início do icônico ano de 1984.
A edição tem 10 páginas e destaca os detalhes do longa O retorno de jedi, então recentemente lançado nos cinemas brasileiros, num artigo de José Carlos Neves. Também publica uma entrevista com o ilustrador Rodval Matias – autor do desenho da capa –, quadrinhos de Mário Mastrotti e notícias sobre fatos e eventos da época.
Hiperespaço 2 pode ser lido online aqui ou baixado gratuitamente aqui. O número 1 também está disponível.

Algazarra

Santiago Santos, autor do excelente romance episódico Na eternidade sempre é domingo (2016), retorna às estantes pela Editora Patuá com a coletânea de microcontos Algazarra. São cinquenta textos que vão de trezentas a mil palavras e trafegam por diversos temas e formatos, passando inclusive pela fantasia, o terror, a ficção científica e o realismo fantástico, entre outros gêneros. O volume é ainda valorizado pela belíssima capa de Ericka Lugo.
Organizada pelo próprio autor, esta é a primeira seleta de suas publicações no bem avaliado saite Flash Fiction, ainda ativo e publicando periodicamente trabalhos inéditos sempre surpreendentes pela ousadia e qualidade.
Santiago é jornalista e constrói seu multiverso ficcional a partir de Cuiabá, onde reside desde criança. Recomendadíssimo.
Mais informações no saite da Editora Patuá, aqui.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Contos de Horror: Shimamoto

Grande mestre dos quadrinhos brasileiros, Julio Shimamoto tem boa parte de sua obra associada aos  quadrinhos de horror, que pratica desde sua estreia na arte, tendo participado da história dos quadrinhos em praticamente todas as suas fases, tanto nas editoras mais importantes como nos fanzines e publicações alternativas. Algumas de suas histórias mais clássicas estão destacadas na coletânea Contos de Horror organizada pela Atomic Books e Quadrante Sul Comics. São seis história, produzidas entre 1961 e 1989 e originalmente publicadas nas revistas Medo (Press) Mestres do Terror, Calafrio (D’Arte) e Spektro (Vecchi),  todas no preto e branco que Shimamoto domina como poucos, sendo duas delas com roteiro de Júlio Emílio Braz e as demais do próprio Shimamoto.
A edição tem 64 páginas, acabamento gráfico primoroso com papel encorpado, capa laminada, e lombada quadrada, que tem sido o padrão dessa editora independente.
Mais informações no blogue da Atomic, aqui.

Full Moon

Miguel Carqueija disponibilizou um guia para os sete volumes da série fantasia em quadrinhos Full Moon, criada por Arina Tanemura, originalmente publicada no Japão em 2001 e traduzida no Brasil em 2009 pela editora JBC.
Conta a história da menina orfã Mitsuki Koyama, que está com os dias contados por causa de um câncer na garganta. Essa proximidade com a morte lhe dá a habilidade de conversar com gênios sobrenaturais – shirigamis, no folclore japonês – que resolvem ajudá-la a realizar o sonho de ser cantora antes da data fatídica.
O arquivo, em forma de texto, está disponível para download gratuito aqui.

Múltiplo 22

Está circulando o número 21 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
A edição de 88 páginas destaca o trabalho de E. C. Nickel, quadrinhista bem conhecido dos leitores do Hiperespaço, que é entrevistado por Lancelot Martins. Além da ilustração da capa, Nickel comparece com duas hqs de sua série de ficção científica Ultrax. Também participam com quadrinhos os artistas Francinildo Sena, Antônio Gabriel, Gilberto Borba, Luiz Iório, João Carlos Magiero e Josi OM. Artigos e resenhas de Elinaudo Barbosa e de Carim completam a edição.
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui, e as dições anteriores também estão disponíveis. O zine também podem ser encomendado em formato impresso, aqui.

JSouza 30 anos

São raras publicações de quadrinhos dedicadas a destacar a produção dos roteiristas. Na maior parte das vezes, os desenhistas é que são homenageados, e eles merecem, é claro. Mas é bom lembrar que um bom desenho, por melhor que seja, não salva uma história ruim. O trabalho do roteirista é fundamental para cativar o leitor, e é no roteiro que a magia do quadrinho realmente acontece. É preciso ter uma boa história, personagens interessantes e uma narrativa dinâmica, além de um texto correto e elegante. Não serve qualquer coisa.
Com JSouza: 30 anos, a editora independente Atomic Books investe na obra do roteirista Jerônimo Sousa, que participou diretamente da organização do volume. São 90 páginas em preto e branco com 14 histórias ilustradas por Toninho Lima, Alcione da Silva, Jonathan Pires, Anderson ANDF, Moreno Fransceschi, Alex Doeppre, Gilberto Borba e Iwfran Costa, que vão da fantasia ao horror, com uma pegada fanzineira bastante nostálgica. O projeto pretende que seja o primeiro número de uma série anual. Mais informações no blogue da Atomic, aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Abdução: Relatório da terceira órbita

Antes disponível apenas em edição digital, o romance de ficção científica Abdução: Relatório da terceira órbita, de Pedroon Lane, ganha publicação real pela editora Novo Século, em seu selo Talentos da Literatura Brasileira.
Trata-se de um catatau de mais de 700 páginas, que investe na ficção ufológica, uma das mais fortes tradições da fc brasileira. Este não é o primeiro trabalho do autor, que já dispõe de certa notoriedade na internet, sendo Abdução uma sequência ao romance Adução: O dossiê alienígena.
Diz o texto de divulgação: "No passado, uma dupla de alienígenas chega à Terra com intenções desconhecidas. No futuro, um casal de irmãos dá a largada para uma nova vida em um estranho habitat paralelo ao Sistema Solar, um mundo hiperfuturista descrito como Universo Quântico. A vida da dupla e do casal parece convergir por caminhos distintos, mas sua conexão é tão forte que nem a distância que os separa tão longe no tempo evitará a cadeia de ações e a sequência de acontecimentos que colocarão em risco o destino do planeta e da inteira humanidade".
Abdução também está disponível em ebook, aqui.
O lançamento oficial do livro acontecerá no dia 14 de outubro, a partir das 16 horas, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509, São Paulo).

A repartição do tempo

A repartição do tempo, direção de Santiago Dellape. Brasil, cor, 2018. 100 minutos.

É triste a sina dos brasileiros, e os inventores não escapam a ela. Essa é a constatação a qual chegamos ao assistir A repartição do tempo, longa metragem dirigido por Santiago Dellape, com roteiro original de Davi Mattos, que chegou às telas no início de 2018 depois de cumprir um longo roteiro de festivais no Brasil e no exterior. O trailer pode ser visto aqui.
Conta a história de um grupo de funcionários de um escritório de registro de patentes em Brasília, que ganhou celebridade depois que uma revista a classificou como a repartição pública mais ineficiente do país. A fama inoportuna irrita profundamente o chefe da seção, filho de uma senadora da república que o colocou lá para que ficasse longe de problemas. De fato, o lugar é um poço de absurdos, em que os funcionários dormem, embebedam-se, drogam-se, traficam e desenham histórias em quadrinhos durante o expediente. O momento mais festejado do dia é quando, no final do dia, ao som de A voz do Brasil, todos fazem fila para bater o ponto de saída.
Contudo, por um acaso, no mesmo dia em que a reportagem é publicada, o inventor Dr. Brasil (interpretado por Tonico Pereira) deposita para análise do departamento um protótipo funcional de uma máquina do tempo por ele construída. Ao arquivá-la no depósito, o abelhudo Jonas (Edu Moraes), inadvertidamente faz uma curta viagem no tempo, que o duplica por alguns minutos. O fenômeno não passa despercebido do chefe da seção Lisboa (Eucir de Souza), que vê nisso a oportunidade de tirar seu departamento da vexatória posição em que se encontra. Depois de embebedar os funcionários com a promessa de uma licença-prêmio, duplica cada um deles e escraviza os duplos num abrigo nuclear escondido no subsolo da repartição, para que produzam a força o trabalho que os funcionários originais jamais fariam. O plano parece caminhar bem, até que o duplo de Jonas consegue escapar da reclusão, sendo o original jogado por engano em seu lugar. O duplo tenta de todas as formas libertar seus companheiros de cárcere, mas tem que enfrentar não apenas a descrença dos originais dos colegas, mas também os duplos do segurança troglodita e da secretária piranha que estão mancomunados com o chefe.
Anunciado como uma "comédia de ficção científica", não há dúvida que é fc, mas da comédia passa longe. Na verdade, é uma história muito dramática, ainda que com forte viés irônico.
O momento mais divertido do filme é quando entra em cena um delegado da Polícia Civil interpretado por Dedé Santana, mais por conta da presença física do comediante, que é naturalmente engraçado, do que pela situção em si que, de fato, não tem nada de engraçada.
Do ponto de vista técnico, o filme é muito bem realizado, com boas soluções visuais, efeitos especiais eficientes, uma cenografia setentista irretocável e ótimas atuações. Como fc, contudo, tem lá suas falhas: o fenômeno da duplicação não convence e a história ignora a maior parte dos paradoxos temporais, preservando apenas aqueles de que precisa para contar a história.
O maior problema, contudo, é o alto nível de preconceito do filme com relação ao funcionalismo público, tanto que chega a ser angustiante e anula todo o pretenso humor da situação.
Também estão no filme os atores Bianca Müller, Antonio Abujamra, Andrade Júnior, André Deca, Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, Yasmim Sant'Anna, Dina Brandão, José de Campos, Lauro Montana, Ricardo Pipo, Romulo Augusto, Rossana Viegas, Selma Egrei e Sérgio Hondjakoff.
Após os créditos, um pequeno curta mostra Dr. Brasil retornando à repartição com seu novo invento, para levar a confusão a um novo paradigma.
É interessante notar que a ficção fantástica, ainda que incipiente, tem comparecido com mais frequência no cinema nacional, com produções bem realizadas, inclusive com componentes culturais bem mais evidentes do que é geralmente encontrado na fc&f literária produzida aqui. Uma interação maior entre as duas artes decerto que poderia promover alguma evolução em ambas, isso se a política cultural brasileira não arrasar com tudo antes, como parece pretender.

Os fantasmas de Vênus

Roberto Schima, que nos anos 1990 era o grande nome da ficção científica brasileira, está disponibilizando sua novela Os fantasmas de Vênus, originalmente publicada em 1993 na coletânea Tríplice universo (GRD), agora pela plataforma de autoedição da Amazon. Trata-se de um drama familiar que se desenrola entre a ilha de Fernando de Noronha e a terraformação de Vênus.
Diz o texto de divulgação: "Pedro e Miguel, nascidos e criados no paradisíaco arquipélago de Fernando de Noronha, apesar de gêmeos, cada qual alimenta sonhos diferentes. Pedro ama o mar e tudo ligado a ele. Seu desejo nada mais é do que seguir a tradição pesqueira da família, conviver ao lado de peixes, crustáceos e estrelas do mar. Miguel foi cativado pelas estrelas também, só que pelas estrelas do céu. E seus sonhos conduziram-no ao espaço".
Trata-se de um dos mais expressivos trabalhos do autor, exemplo de uma época que é avaliada por muitos especialistas como o ponto culminante da produção de fc no Brasil. Vale a pena conhecer.

De ferro e de sal

A escritora gaúcha Simone Saueressig anuncia que já está disponível na plataforma de autoedição da Amazon seu romance inédito De ferro e de sal, fantasia densa destinada ao leitor adulto.
Diz o texto de divulgação: "Em torno da Forja, ergue-se Brutmir, a Cidade dos Ferreiros. O cenário perfeito para que a Reta e Cega se encontrem para seu baile macabro. A Reta e a Cega: os Potentados sinistros da Vingança e da Traição. As que nunca esquecem. As que jamais desistem".
Simone tem muita habilidade no trato dos gêneros fantásticos e também já demonstrou ser ótima autora para adultos, como se pode atestar na leitura do romance histórico aurum Domini: O ouro das missões e da ficção científica B9, e não erro em afirmar que é a melhor escritora do gênero no país.
Confira seu estilo elegante e agudo lendo gratuitamente aqui o conto "Muiraquitã", merecidamente vencedor do concurso A Bandeira do Elefante e da Arara RPG, promovido pela REDERPG, e veja se não tenho razão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha

Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, Liudmila Petruchévskaia. 206 páginas. Tradução de Cecília Rosas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2018.

Uma das mais antigas reclamações dos leitores brasileiros de fc&f é a falta de novidades internacionais nos catálogos das editoras que trabalham com ficção fantástica no Brasil. Embora haja muita novidade no que se refere aos autores nacionais, entre os estrangeiros a regra é republicar o que está fora de catálogo ou publicar um novo título de um autor já consagrado. Vez ou outra, aparece um nome novo, já que as editoras brasileiras têm receio de investir em títulos que podem não ser comercialmente bem sucedidos, e os mais arriscados certamente são aqueles de autores que nunca foram publicados aqui. Por isso, é motivo de comemoração o lançamento de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha, coletânea da escritora moscovita Liudmila Petruchévskaia, uma novidade absoluta.
Nascida em 1938, Liudmila é considerada a mais importante escritora russa viva, mas nem mesmo na Rússia ela é unanimidade, pois sua ficção não faz concessões, mas cutuca feridas e pisa nos calos sem piedade. Sua obra, proibida por muito tempo, só ganhou espaço com fim do regime comunista e chegou ao Brasil por influência de seu filho Fedor, um apaixonado pelo Brasil, que a acompanhou à edição de 2018 da FLIP, a convite da editora Companhia das Letras que lançou a coletânea com tradução de Cecília Rosas, diretamente do russo.
Uma dificuldade é citar o seu título original. Na edição brasileira, o título original está grafado em cirílico e não consegui encontrar um modo de reproduzi-lo. Para complicar ainda mais, a página oficial do livro no saite da Companhia das Letras dá como título original em inglês There once lived a girl who seduced her sister's husband, and he hanged himself: Love stories, que não se parece em nada com o título norte-americano There once lived a woman who tried to kill her neighbor's baby. E durma-se com um barulho desses.
Trata-se de um livro de pequeno volume, com apenas 206 páginas, mas de um vulto incomensurável por conta do estilo e dos temas abordados nos 21 contos divididos em quatro seções: "Contos dos eslavos do oeste", "Alegorias", Réquiens" e "Contos de fadas".
Alguns dos textos lembram os contos decadentistas franceses com traços de romantismo, em que as histórias trabalham com situações de morte, pós-morte ou quase-morte, na forma de pesadelos ou relatos, muitos em primeira pessoa, que têm o mesmo tipo de estética que encontramos nas obras surrealistas, ou seja, são situações muito reais e cotidianas, mas que estão eivadas de um estranhamento perturbador que não permite considerá-las realistas.
Não vou comentar todos aqui, é claro, pois vale muito a pena conhecê-los em primeira mão, mas destacarei alguns dos que mais me impressionaram. O conto que dá nome a antologia é o mais realista dentre todos os textos da seleção, mas a maior parte dela está identificada com a fantasia, como "O deus Posêidon", em que  uma mulher visita a amiga em uma luxuosa mansão e descobre que seu marido é filho de um deus, ou "A mãe-repolho", em que uma mãe amorosa tenta desesperadamente criar a filha minúscula.
É claro que as histórias de horror são aquelas em que a situação de desconforto se potencializa.  Como no primeiro texto da coletânea é "O abraço", em que um militar, depois de um sonho premonitório, desenterra o corpo da falecida esposa para recuperar a carteirinha do partido (deveria ser um documento muito importante na Rússia soviética) que acidentalmente havia caído no caixão, mas ele não obedece integralmente as instruções recebidas no sonho e isso causará consequências muito desagradáveis. Ou "O sobretudo preto", em que uma mulher se vê desorientada em uma cidade penumbrosa, na qual as pessoas têm uma ralação estranha com os fósforos. E "A história do relógio", que fecha a edição, no qual uma garotinha encontra um relógio que traz uma maldição: quem lhe dá corda uma vez, tem sua vida irremediavelmente ligada ao seu funcionamento: se o relógio parar, é morte certa.
Os textos de ficção científica também são bastante sombrios. Em "Higiene", acompanhamos a decadência física e moral de uma família isolada em seu apartamento enquanto uma virose letal dizima a população da cidade. E "A nova família Robinson", em que uma outra família tenta sobreviver ao frio, à fome e à violência de um verdadeiro apocalipse ambiental.
Duas coisas se destacam na obra de Liudmila: o protagonismo feminino, que predomina quase todos os textos, com uma reflexão profunda sobre a posição da mulher na relação com o esposo, com a família e com a sociedade, e a ausência de todos os protocolos que saturam a fc&f ocidental. Ainda que as histórias de Liudmila possam ser identificadas com este ou aquele gênero, está claro que não foram escritas com isso em mente, pois as situações de misturam sem qualquer regra estabelecida. Não há o clichê das infindáveis jornadas do herói embolando as narrativas, assim como nenhuma outra condição editorial imposta à construção dos relatos: tratam-se de criações pessoais sem qualquer modelo prévio, herdeiras de uma escola que nos parece completamente estranha.
É uma maravilha ler histórias fantásticas que não apelam para elfos, anões e magos agredindo-se mutuamente, zumbis devoradores de cérebros, astronautas com armas de raios combatendo alienígenas psicopatas e trans humanos com próteses computadorizadas lutando contra megacorporações do ciberespaço. Somente quando recebemos o frescor de uma literatura como a de Liudmila é que percebemos o quanto isso já saturou.
A leitura de Era uma vez a mulher que tentou matar o bebê da vizinha não é fácil, porque não é agradável. Não há entretenimento nela, mas um convite a reflexões sobre a vida e a morte individual e social. Para pensar o quanto, às vezes, nossas vidas podem ser tão mais fantásticas que qualquer ficção.

Conexão Literatura 39

Está circulando o número 39 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale.
A edição tem 89 páginas e destaca a obra da escritora britânica Agatha Christie num artigo de Eudes Cruz. Entrevista os escritores C. C Oak (O clã das amazonas: Os reinos do norte), André Moreira (O expresso da Mooca), Carmen Villas Bôas (O compêndio de um amor perdido), Manuela Marques Tchoe (Ventos nômades), Rogério Lima Goulart (As borboletas no muro do cemitério) e Vinni Corrêa (Sexo a três). Nas seção de ficções, contos de Idianara Lira Navarro, Míriam Santiago e Roberto Schima, poemas de Ajomar Santos e Idianara Lira Navarro, além de resenha e crônica assinadas por Rafale Botter.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Hiperespaço faz 35 anos

Em outubro próximo, o fanzine Hiperespaço completa 35 anos do lançamento de seu primeiro número, em 1983, que inspirou uma série de novas publicações de ficção científica lançadas nos anos seguintes, formando aquilo que hoje chamamos de Segunda Onda da ficção científica brasileira.
Na época de seu lançamento, os editores promoveram a distribuição gratuita do primeiro número, enviando-o pelo correio a uma enorme relação de nomes e endereços compilada ao longo de anos de relacionamento postal dos editores com fãs de fc, cinema e quadrinhos. Foram distribuídos mais de 200 exemplares dessa edição, a partir do que foi implementado um sistema de assinaturas que sustentou a publicação até o número 52 (publicado em 2003), quando o fanzine foi descontinuado, substituído por ações como a Coleção Fantástica, que publicou novelas inéditas de fc&f nacional em formato de livros de bolso, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, com artigos, entrevistas, ensaios e levantamentos estatísticos sobre a fc&f no Brasil, e este blogue, com o conteúdo noticioso do zine.
Nunca tive intenção de digitalizar o Hiperespaço mas, em 2013, fiz edições fac-similadas dos dois primeiros números, que foram distribuídas entre os participantes de uma das edições do festival Fanzinada, justamente para assinalar os 30 anos da data. Como não possuo mais as matrizes, tive de escanear diretamente dos exemplares originais remanescentes, que são de baixíssima qualidade – infelizmente, esse era o tipo de impressão disponível na época.
Tanto trabalho merecia ser melhor aproveitado, então disponibilizarei aqui, nos próximos meses, versões digitalizadas dos quatro primeiros números do Hiperespaço, que formam o primeiro ano de publicação, com imagens tratadas da melhor forma possível, embora não tenha logrado obter a qualidade ideal.
E, para começar a festa, está disponível para leitura online e download o primeiro número do Hiperespaço, que traz dez páginas de artigos sobre modelismo e cinema de fc. A capa tem um desenho de José Carlos Neves (artefinalizada por Cerito), obviamente inspirada no space jockey de Alien: O oitavo passageiro.
Parabéns pra nós! Aproveite o presente.

Quadritos 14

Quadritos, fanzine de quadrinhos editado por Marcos Freitas, chega ao seu número 14 com pinta de publicação profissional. Na verdade, mais que isso, porque uma publicação profissional, que tem de obedecer as regras do mercado, jamais atingiria a qualidade que Quadritos tem nesta edição que comemora 30 anos de publicação.
São nada menos que 180 páginas muito bem impressas, capa cartonada e um time de colaboradores de peso, com nomes como Luciano Irrthum, Emir Ribeiro, Bira Dantas, Laudo, Gazy Andraus, Joacy Jamis, Ciberpajé, Edgard Guimarães, Calazans, Gustavo e Itamar, entre outros. A edição ainda traz entrevistas com Luga, Júlio Emílio Brás e Franco de Rosa, e até quadrinhos internacionais de Bodé, Abuli e Bernet. A capa tem uma ilustração de Laudo.
Não deixe de garantir este exemplar histórico, que pode ser obtido diretamente com o editor pelos emails fanzinequadritos@gmail.com e atomiceditora@gmail.com, ou pelo blogue da Editora Atomic, aqui. A versão digital, em formato pdf, pode ser baixada gratuitamente aqui.

The gentlemen's alliance


Miguel Carqueija publicou mais um de seus guias de episódios, desta vez sobre o mangá The gentlemen's alliance: A aliança dos cavalheiros, de Arina Tanemura, minissérie em 11 volumes publicada no Japão em 2004, e traduzida no Brasil entre 2010 e 2012. Trata-se de uma história gótica de mistério passada numa escola secundarista sobre o conturbado relacionamento entre a ex-delinquente Haine Otomiya e o presidente do conselho estudantil Shizumasa "Imperador" Touguu, que protagonizam um drama familiar tão antigo quanto tenebroso.
O guia, em formato de texto, está disponível para download gratuito aqui.


Vampirelle

Vampirelle é um interessante fanzine de horror que mistura história em quadrinhos e fotonovela para contar as aventuras de Vampirelle, a Vampira de Curitiba, criação assinada a seis mãos por Dione M. S. Rosa, Adriano Siqueira e Isabelle Aguilar. É Isabelle quem dá corpo físico à personagem, que já dispõe de um blogue, o Mordida da Vampira, e uma fanpage nas redes sociais.
O fanzine tem oito páginas em cores e é distribuído em forma impressa, mas é possível obter o arquivo pdf com as páginas organizadas para impressão. Para uma boa experiência de leitura é preciso imprimir e montar o fanzine.
Contatos e mais informações em dirosa19@gmail.com (Dione) e siqueira.adriano@gmail.com (Adriano).

domingo, 26 de agosto de 2018

Múltiplo 21

Enquanto esperamos número 19, que está em pré-venda, já circula o número 21 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
A edição de 84 páginas destaca em entrevista o trabalho de Tony Fernandes, criador de uma série de personagens muito conhecidos, como O pequeno Ninja, Apache e Fantastic Man, que recebe uma hq na edição. Também apresenta o "Tomo 1" de "Epopeia: Futuro perfeito", projeto de Marcos Franco e Elenílton Freitas que pretende reunir mais de 50 personagens em uma saga que, entre outras coisas, vai contar a morte de Velta. Esta primeira parte tem arte de Luiz Iório. Anderson Gomes e  João Carlos Magiero também comparecem com seus quadrinhos, enquanto Elinaudo Barbosa, Estêvão Moraes e o editor assinam artigos e resenhas. A capa traz um desenho de Tony Fernandes.
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui, e as dições anteriores também estão disponíveis. O zine também podem ser encomendado em formato impresso, aqui.

Qi 152

Está circulando o número 152 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz os artigos "Napoleão, os quadrinhos e sucedâneos", por Lio Guerra Bocorny, e "As línguas de Esopo", por E. Figueiredo, além dos quadrinhos de Luiz Claudio Lopes Faria e do editor. 14 páginas são dedicadas à seção "Fórum", que reproduz as cartas dos leitores. Completam a edição as colunas "Mantendo contato" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa traz uma ilustração do editor que também esconde um segredinho, divertido mas politicamente incorreto.
Junto à edição, os assinantes recebem Voos d'o Tico Tico nº1: J. Carlos, Augusto Rocha, Leonidas e Cicero Valladares, fascículo com 16 páginas com uma pesquisa de Francisco Dourado sobre a participação dos ilustradores citados no famoso periódico, que apresentou os quadrinhos à primeira geração de leitores no Brasil.
O QI impresso é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital, bem como seus encartes, são disponibilizados pelo saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Edições anteriores também podem ser encontradas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Araruamas

Um dos mais expressivos cases de sucesso da plataforma de crowndfunding Cartarse, Araruama 2: O livro das raízes, romance de fantasia  de Ian Fraser inspirado em culturas nativas brasileiras e mesoamericanas, bateu o bom desempenho do primeiro volume, publicado em 2017 com o apoio de mais de 700 pessoas, e reuniu nada menos que 982 apoiadores e superando a meta de R$25.000,00 em mais de 250%, com uma arrecadação total de R$63.931,00!
Um dos diferenciais do projeto é doar parte da arrecadação para o Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais, uma instituição sem fins lucrativos fundada e dirigida por indígenas brasileiros, abrindo uma discussão sobre a apropriação cultural que começa a se tornar importante no espaço da ficção fantástica brasileira.
Enquanto os apoiadores esperam pacientemente a entrega dos livros – eu entre eles –, quem não aproveitou pode adquirir aqui a versão em ebook do primeiro romance da série, no qual cinco jovens treinam para um ritual de passagem, o Turunã. O livro é publicação da Editora Moinhos.

Tempos fantásticos.com

Depois de dois anos e 24 edições publicadas, o jornal satírico Tempos Fantásticos suspendeu suas operações em meados de 2018. Ao contrário de outros órgãos de imprensa não noticiam com clareza os motivos da própria descontinuidade, Tempos Fantásticos revelou que foi tudo descorrente de uma intensa perseguição de seus inimigos, embora não cite os nomes dos mesmos. Mas parece que a publicação pode voltar em breve, e o primeiro sinal dessa recuperação é o lançamento do novo saite do jornal, que disponibiliza, para download gratuito, as versões eletrônicas de todas as suas 24 edições.
Editado por Angelo Dias, Jana P. Bianchi, João P. Lima, Ludmila Honorato e Raphael Andrade, Tempos Fantásticos é uma ideia interessante mas não inédita. Nos anos 1990, duas publicações de igual natureza circularam entre os fãs brasileiros de ficção fantástica: o Zominum – autocaricatura do fanzine Somnium, boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica –  e o Hiperespaço TNG, ambas publicadas no Rio de Janeiro e que também tiveram existência curta. A diferença é que enquanto estes eram fanzines da era pré-internet, Tempos Fantásticos traz a sofisticação gráfica dos tempos digitais, emulando a diagramação dos jornais modernos.
Enquanto o lobo não vem, aproveite para passear no bosque, isto é, para baixar e ler as edições antigas de Tempos Fantásticos. Afinal, sendo um jornal atemporal, ele tem a vantagem de nunca ficar desatualizado.

Areia fugaz

Está disponível para download gratuito a novela inédita de ficção científica Areia fugaz, de autoria de Miguel Carqueija e Jorge Luiz Calife.
Com prefácio de Ronald Rahal e posfácio de Gabriel Solis, a publicação reedita a parceria entre Carqueija e Calife, experimentada em As portas do magma (Scarium, 2009). Calife é autor da bem avaliada série Padrões de contato, publicada em volume único pela Devir em 2009 e por muitos considerada como o marco inicial da Segunda Onda da ficção científica brasileira. Carqueija, por sua vez, é autor dos livros O estigma do feiticeiro negro (Ornitorrinco, 2012) e Farei meu destino (Giz, 2009).
Diz o texto de apresentação: "Antônio Gusmão de Campos, mais conhecido por Toni, ex-militar da Força Cósmica, chega à Roda Espacial Carl Sagan, na zona externa do Sistema Solar, em busca de um emprego. Reencontra seu amigo de outros tempos, Sigmund Halley, e conhece uma bela empresária de modas, altamente sedutora, Thais, que lhe arranja um emprego. Mas por trás disso está uma imprevisível aventura interplanetária e a onipresente ameaça dos piratas cósmicos".
Outros textos de Carqueija podem ser acessados através do mesmo portal Recanto das Letras que disponibiliza este trabalho.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Poranduba

Poranduba é um podcast inspirador produzido e apresentado por Andriolli Costa, do saite O Colecionador de Sacis, que toda semana publica ótimas entrevistas com artistas que trabalham o folclore em suas obras, além de artigos e dramatizações de textos selecionados.
Nos últimos tempos, o folclore tem sido lembrado com mais frequência pelos autores brasileiros de ficção fantástica, mas ainda é um tema que incomoda aqueles que, na pretensão de fazer uma ficção comercialmente "universalista", alegam que passa uma imagem estereotipada do Brasil. É claro que esta é uma visão equivocada, muitos trabalhos excelentes tratam de temas folclóricos e étnicos com qualidade; só vira estereótipo se é mal feito. Com talento e sensibilidade, vai muito bem.
Destaque para o episódio 5, gravado durante um debate na V Odisseia de Literatura Fantástica, ocorrida no primeiro semestre de 2018 em Porto Alegre.
Independente da opinião, Poranduba é um prato delicioso que merece ser pelo menos experimentado. Dê uma chance ao saci e, como diz o apresentador, "ajude a tirar o folclore da garrafa".

Conexão Literatura 38

Está circulando o número 38 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale.
A edição de 76 páginas e destaca em entrevista a poeta e doceira Ana Neves, do Brigadeiros Literários, e também entrevista os escritores Neurivan Sousa (Palavras sonâmbulas), Carmen Aparecida Gomes (Amo eternamente uma única vez), Fabio Prumo (Os filhos de Elator), Wagner Azevedo (Dicionário de animais com outros significados) e Ricardo Dias de Oliveira (O conhecimento da cabala). Nas seção de ficções, contos de João Gomes Moreira, Roberto Schima e Míriam Santiago. Poemas de Ajomar Santos, crônica de Emerson Sarmento e resenhas de Rafael Botter e Eudes Cruz completam a edição.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Sabixões e Sabixinhos

Produzido a duas mãos por Sofia Soft e Teo Adorno, Sabixões e sabixinhos confessa ser uma história em quadrinhos. De fato, é a volta de Adorno, que em outras encarnações foi apaixonado por quadrinhos, à linguagem preferida de sua infância. Mas ousada como é, a dupla Soft/Adorno não se conformou com a linguagem engessada dos quadrinhos, com seus requadros, balões e onomatopeias, e enveredou por um experimentalismo digno de um sonho surrealista. O livro tem 104 páginas, mas a ordem não importa, pois é possível ler a história a partir de qualquer ponto, inclusive de cabeça para baixo, que também foi contemplado com conteúdos. O leitor pode ler num sentido, depois no outro, ou girar loucamente o livro, como melhor lhe aprouver. Os textos são espalhados na página, as vezes na forma de aforismos, outras como um poema, que compõem um ritmo inusitado com as imagens dos "bixinhos" geométricos que, mais uma vez, remetem ao expressionismo de Kadinsky. Se é HQ é algo para os acadêmicos da área. Mas para nós, mortais, é muito divertido e libertador.
Sabixinhos e Sabixões é uma publicação da editora @Link. O livro ainda não aparece no saite da editora, então experimente o contato com os autores nas redes sociais, aqui.

O ditador honesto

O que viria a ser um ditador honesto? Isso existe? Por incrível que pareça, houve época que esse personagem era louvado pelos intelectuais mas, naqueles tempos, recebia o nome de "déspota esclarecido". Não são poucos os pensadores iluministas do século 18 que viam nessa figura contraditória a luz de um futuro redentor para a humanidade, e sabemos para onde isso nos trouxe. Contudo, O ditador honesto também pode ser muito divertido, pois trata-se do romance satírico de ficção política - e arrisco dizer científica - do escritor baiano Matheus Peleteiro, autor do romance Mundo cão (2016) e da coletânea Pro inferno com isso (2017). O ditador honesto é narrado por um secretário escandalizado com as práticas do chefe de estado de numa distopia não muito diferente dos nossa...
A preocupação com o crescimento do fascismo no Brasil é o principal motivador de uma série de livros que têm ganhado a luz nos últimos meses, como os já resenhados Ninguém nasce herói, de Eric Novello, e Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron.
O livro tem 172 páginas e é uma publicação independente. Para obter um exemplar, entre em contato com o autor pelo email matheus_peleteiro@hotmail.com, ou pelo nas redes sociais, aqui.

Para ler Stephen King... de graça

"Laurie" é um conto inédito de Stephen King que foi disponibilizado para leitura gratuita na internet, como aperitivo para o lançamento de Outsider, novo romance do mestre do horror que será publicado brevemente no selo Suma da Companhia das Letras. O conto foi disponibilizado pelo próprio autor nos EUA e foi traduzido para o português por Regiane Winarski. Para acessar o texto em pdf basta clicar aqui.
E, se não for o bastante, a degustação de Outsider também está disponível, aqui.
Aproveite!

Kobato

Miguel Carqueija apresenta mais um de seus guias de episódios de séries japonesas de animação, desta vez sobre a série de fantasia Kobato, do CLAMP, grupo de mangakás responsável por sucessos como Guerreiras Mágicas de Rayearth, X e Sakura Cardcaptors, entre outros.
Diz o editor: "são 24 episódios, constando ainda a resenha geral dos mangás que a CLAMP editou antes do seriado. Kobato é uma personagem angelical, uma terna e ingênua adolescente que, como Mary Poppins, desce à Terra de guarda-chuva, acompanhada pelo mal-humorado mentor Ioryogi, um ser poderoso e malvado que, por castigo, foi reduzido à forma de um cachorro de pelúcia, capaz de andar e falar. Kobato, que não recorda de seu passado, sabe apenas que deve ajudar as pessoas de "coração ferido", acumulando em cada ajuda pequenos cristais num pote de vidro, até enchê-lo, quando sua missão estará completada. A contragosto, Ioryogi tem de ajudá-la e orientá-la. Há vários personagens importantes na história, mas Kobato a centraliza do princípio ao fim, com sua inocência infantil e sua impressionante bondade."
O guia está disponível em formato de texto no saite Recanto das Letras, aqui.

O velocista

O velocista é o primeiro romance do professor pernambucano Walter Cavalcanti Costa, Doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (PPGL/UFPE). Trata-se de uma ficção científica de propostas experimentalistas, que narra, em forma de diário, as inquietações do astronauta Jô Tadeu em missão prolongada no espaço sideral.
O que salta aos olhos é a proposta formal, com uma narrativa dividida em 310 fragmentos de uma ampla variedade de experimentações criativas, bem como a presença importante de uma poética rara na ficção científica, que passei por várias propostas estéticas.
O livro tem 214 páginas e a apresentação gráfica também é destaque imediato, com impressão na contracapa, páginas negras que separam os capítulos e a bela capa que remete ao surrealismo, e vem recomendado pelo 5º Prêmio Pernambuco de Literatura e pelos bem recebidos trabalhos anteriores do autor, a coletânea poética Entressafra 89 (2011) e o infanto-juvenil Marlinda: Em diálogo de amor às suas cidades (2017). O velocista é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco - Cepe.
Pedidos ao autor pelo email waltercavalcanticosta@gmail.com.

Juvenatrix 196

Está circulando a edição de julho do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix editado por Renato Rosatti, que traz em 11 páginas contos de Rogério Amaral de Vasconcellos e Allan Fear, resenha ao filme de cinema Invasion of the saucer men (1957), além de divulgação e curiosidades sobre fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo. A capa traz uma ilustração de José Nogueira.
Estranhei a ausência dos fanzines e postagens de Rosatti por tempo tão dilatado - a edição anterior do Juvenatrix saiu em abril -, pois o editor sempre foi extremamente fiel na periodicidade de suas publicações. Perguntei a ele, por email, o que estava acontecendo, ao que me respondeu: "Estou dando uma pausa porque estou um pouco cansado. Parei com o fanzine, com as resenhas de cinema, notas no blog, etc. Estou preferindo ser mais consumidor que produtor. Mas, deverei retornar em breve, mesmo que devagar e menos produtivo. Quero consumir mais e então estou desviando meu tempo livre para isso". É compreensível, Rosatti está em ação ininterrupta há mais de vinte anos e o que move os editores alternativos é a animação do público. Infelizmente, essa animação tem faltado desde que o Brasil tornou-se antipático à cultura. Vamos torcer para que isso não continue por muito mais tempo.
Para solicitar uma cópia em formato pdf, envie email para renatorosatti@yahoo.com.br.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Noite dentro da noite

Noite dentro da noite, Joca Reiners Terron. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.

Há relações evidentes entre a ficção fantástica e o Surrealismo como proposta para o discurso artístico. O atrito entre o que é e o que não é, o real e o imaginário, o desperto e o onírico é o que constrói as narrativas, formando a substância do que poderia ser. Se o Surrealismo plástico lançou mão da combinação de imagens incompatíveis, a ficção fantástica cria interferências na realidade usando o sobrenatural, o metafísico e o absurdo, costurando bem seus contornos e disfarçando com retoques do que se convencionou chamar de "suspensão da incredibilidade". Conforme o conjunto, damos-lhe a classificação de fantasia, ficção científica ou horror.
No início do período pulp, ou seja, anos 1930, os três gêneros conviviam misturados e só separaram conforme os interesses comerciais predominaram no meio editorial dos EUA. Mas os autores não vinculados ao modelo anglo-americano continuaram a trabalhar a ficção fantástica sem sectarização, e esse tipo de tratamento, ainda que muito suavizado pelas propostas modernistas, também teve representantes na literatura brasileira. É dessa forma que podemos entender a literatura que Joca Reiners Terron traz à luz em Noite dentro da noite, vultoso romance publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras, que foi razoavelmente comentado quando de seu lançamento, mas com pouca ou nenhuma repercussão dentro do fandom brasileiro de fc&f, o que é muito imerecido. Isso porque Terron nos apresenta um trabalho denso, repleto de perturbações e literariamente sofisticado, que se estabelece tanto na tradição do fantástico latino-americano quanto na literatura brasileira recente.
O romance conta a história de um jovem que, devido a um acidente, perde toda a memória. Pouco depois, vê-se levado abruptamente para uma terra estranha – a região do Pantanal mato grossense, na fronteira com o Paraguai –, onde vai passar a adolescência como um pária, perseguido barbaramente pelos colegas na escola e convicto de que sua mãe – a quem se refere como a Rata – e o pai, um gerente de banco severo e distante, não são seus pais verdadeiros. Mas as tragédias não se esgotam aí. Sua vida vai se misturar com a de personagens míticos e históricos, como o tradutor Curt Meyer-Clason – narrador de boa parte do que lemos –, o marinheiro e cientista nazista Kurt Meier – que, apesar do nome, não é a mesma pessoa –, o assassino imortal El Cazador Blanco, um submarino fantasma do Chaco paraguaio, uma entidade vegetal referida pelo impronunciável nome de Pyhareryepypepyhare – ou a flor-vampiro –, Elisabeth Nietzsche e seu marido Bernhard Förster – que realmente fundaram uma vila anti-semita no Paraguai, em 1887 – e uma infinidade de membros da família Reiners, personagens torturados, sempre à sombra da histórica nevasca que destruiu a economia do estado do Paraná em 1975. Até a a escritora Hilda Hilst faz uma pontinha.
A história ainda passa pela Segunda Grande Guerra, pela ditadura militar, pela guerrilha do Araguaia, e chega até o período da abertura política, incluindo um atentado a bomba num comício na Candelária, no Rio de Janeiro, que mata um promissor candidato a presidência da República que, alguns poderão dizer, faz deste um legítimo romance de história alternativa.
Terron também mistura referências autobiográficas com a mais transgressora ficção, sem poupar o leitor nas passagens de violência e horror explícitos, delírios de pesadelo regados a fortes doses de fenobarbital, longos passeios de carro por estradas de terra e uma narrativa não linear que salta como uma máquina do tempo enlouquecida, avançando e recuando sem aviso prévio, com histórias dentro de história num efeito rocambolesco que amplia ainda mais a inadequação melancólica do protagonista.
Não é possível dizer que Noite dentro da noite seja um livro de ficção fantástica. Também não é possível dizer taxativamente que não é. Talvez seja o mais bem acabado exemplo de surrealismo literário já cometido em Terra Brasilis. Isso fica para o leitor decidir.
Desorientados é como saímos desta leitura complexa e angustiante, que remete à Roberto Bolaño e David Foster Wallace. Não sei quanto aos demais leitores mas, por associação, arrisco dizer que é um livro muito bom e que uma leitura é recomendável. Provavelmente, mais de uma.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Múltiplo 20

Está circulando o número 20 do fanzine virtual de quadrinhos Múltiplo, editado por André Carim.
Interessante notar que está sendo disponibilizado antes do número 19, ainda em produção.
A edição de 76 páginas destaca o trabalho do talentoso Sílvio Ribeiro, ilustrador gaúcho autor do belíssimo livro Curso completo de desenho artístico. Ribeiro é longamente entrevistado e assina  a imagem da capa da edição, que também apresenta quadrinhos de Hugo Máximo, Marcos Franco,  Lancelott Martins, Bruno Lima,  Luiz Iório, Aoi Tsubasaka, Rodrigo Marcondes e João Carlos Magiero, ilustrações de May Santos, Estêvão Moraes e Serj D’Lima Plácido, além de um artigo de Elinaudo Barbosa.
A publicação pode ser lida online ou baixada gratuitamente aqui, e as edições anteriores também estão disponíveis. O zine também podem ser encomendado em formato impresso, aqui.

ConanZine

Interessante fanzine dedicado a registrar os 35 anos do filme de cinema Conan, o bárbaro, de John Milius, lançado em 1983. O filme fez muito sucesso à época e ainda tem uma infinidade de fãs, muito devido ao ótimo roteiro de Oliver Stone, a belíssima fotografia Duke Callaghan e trilha sonora inspiradora de Basil Poledouris, que fizeram até o inexpressivo Arnold Schwarzenegger parecer um grande ator.
Editado por Denilson Rosa dos Reis para grupo Quadrante Sul, tem 17 páginas inteiramente ocupadas por ilustrações exclusivas de autoria de Adão de Lima Jr., Bira Dantas, Carlos Lima, Dennis Rodrigo Oliveira, Edenilson Fabricio, Helcio Rogério, Heraldo Wilson Wilson, João Paulo Anselmo, Josias Silveira, Julio Shimamoto, Rafael Martins da Costa, Silvio Ribeiro e Humberto Yashima. A capa é assinada por Juliano Oliveira Kaapora com cores de Elvis Silva.
A versão digital de ConanZine pode ser obtida gratuitamente pelo email tchedenilson@gmail.com. Disponível também em formato impresso.

Conexão Literatura 37

Está circulando o número 37 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição de 84 páginas comemora três anos de publicação e destaca o resultado do concurso de contos Os viajantes do tempo, promovido pela publicação e vencido pelos textos "Abismo do tempo", de Roberto Schima, e "Predestinada", de Maria Mattos. Roberto Schima é veterano da segunda onda da ficção científica brasileira, vencedor do concurso de contos Jerônymo Monteiro, promovido em 1991 pela saudosa revista Isaac Asimov Magazine, e há anos estava afastado das publicações de fc&f. Maria Mattos é professora carioca e está iniciando sua carreira como escritora. Ambos são entrevistados na edição, que também publica os textos premiados. Também são entrevistados os escritores Lendário Jhow (Garotos versus aliens), Alexandra Sá (Vítimas do próprio coração), José Carlos Castro (Crime hediondo), Katia Simões Parente (Em busca da fotografia perfeita), Gilson Pinheiro (Bruno e as estrelas), Roberto Martins de Souza (Histórias e memórias de idosos analfabetos) e Wellington Budim (Teu pecado). Ficções de Daniel Borba, Míriam Santiago e MBlancco e resenhas de Andrea Boechat, Rafael Botter e Eudes Cruz completam a edição.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

domingo, 24 de junho de 2018

Almanaque: Os lançamentos da fcf&h em 2017

Como faço há muitos anos, em 2017 também acompanhei as publicações de livros de fantasia, ficção científica e horror no Brasil, em sequência ao trabalho iniciado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa pesquisa, além do levantamento estatístico muito interessante, gerou o já disponível Almanaque da Arte Fantástica Brasileira - Lançamentos 2017, que traz a relação integral dos lançamentos da literatura de gênero no país naquele ano, em duas listas principais – de autores nacionais e estrangeiros –, subdivididas em lançamentos e relançamentos nos formatos romances, coletâneas, novelizações, livro de arte e não ficção, nos três gêneros da ficção fantástica. Para quem acompanha estes estudos, a edição apresenta novos dados sobre a evolução do mercado e sobre as tendências do ponto de vista editorial. A lista não é absoluta e, tal como a verdade, sempre alguma coisa escapa. Mas como isso também é uma constante, acredito que as conclusões são confiáveis.
Apesar do campo estar vivendo um momento de aparente otimismo, a situação revelada pelos números não é muito animadora quando comparada ao passado recente. Confirmando a tendência, 2017 mostra queda na atividade editorial em relação à 2016, especialmente no que se refere a edição de autores nacionais. Considerando-se os números totais, isto é, lançamentos e relançamentos de autores brasileiros em todos os formatos e gêneros, foram 252 títulos (235 inéditos) em 2017, contra 321 (295 inéditos) em 2016.
Entre os livros de autores estrangeiros, a situação se manteve estável, com a publicação de 348 títulos (326 inéditos) contra 339 (219 inéditos) em 2016. Mas é bom que se diga que grande parte da responsabilidade por esse desempenho é da coleção de ebooks do Perry Rhodan, publicada pela editora SSPG que há alguns anos lança regularmente uma média de sete títulos inéditos por mês.
Ainda assim, somando brasileiros e estrangeiros, em 2017 foram 600 títulos contra os 660 em 2016, uma retração significativa portanto. A não ser para aqueles que desprezam a produção nacional em favor do material traduzido, não há muito o que comemorar.
Na tabela ao lado, podemos ver a evolução dos números ao longo do tempo a partir de 2011 e observar a tendência de queda que vem se confirmando nos números parciais de 2018. Na medida em que os investimentos de editoras e autores não se transformam  em lucro, estes migram para outras atividades, permanecendo no meio apenas os fãs diletantes. Era de se esperar que isso acontecesse depois da bolha de 2012. Mas ainda temos números generosos se comparados aos paupérrimos cenários vividos nos anos 1980 e 1990.
Quem quiser, pode repetir esses estudo a partir das listas anteriores, disponíveis na plataforma Issuu.
Estão lá as listas de 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 a 2016, mas por conta das alterações que a plataforma impôs aos usuários, não é mais possível baixar os ebooks diretamente. Mas existem alternativas indiretas como, por exemplo, o Issuu Publication Downloader, aqui. Aproveite.

QI 151

Está circulando o número 151 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz os artigos "O traço quase divino de Caprioli", por Lio Guerra Bocorny, "Sebo", por E. Figueiredo e "O Gaúcho", por Guimarães, além dos quadrinhos de Julie Albuquerque, Luiz Claudio Lopes Faria, Antonio d'Lima e do editor. Completam a edição as colunas "Fórum" com as cartas dos leitores, "Mantendo contato" com a sequência do artigo sobre Fernando Bonini, e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre.
A capa traz mais uma experiência gráfica do editor: um aplique em papel amarelo com uma hq que se dobra para dentro.
Junto à edição, os assinantes recebem Retrospectiva Edgard Guimarães, fanzine com 36 páginas e sobrecapa em papel vegetal, com o levantamento cronológico das publicações do editor, que vai trazer boas lembranças aos leitores veteranos.
O QI impresso é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital, bem como seus encartes, são disponibilizados pelo saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Edições anteriores também podem ser encontradas.

sábado, 2 de junho de 2018

Conexão Literatura 36

Está circulando o número 36 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição de 64 páginas destaca em entrevista o trabalho do escritor Otávio Bravo (Travessuras de minha menina má). Também são entrevistados os escritores Diego H. Favero (Cercada de segredos), Anália Souza (Os guardiões: A força), Bárbara Kristina (Os sentimentos das sombras), Piaza Merighi (O conto de Y: Raízes, espadas e ossos) e Marcelo Pereira Rodrigues (A queda). Ficções de Míriam Santiago e MBlannco e artigos de Rafael Botter e Eudes Cruz completam a edição. E continua aberto para submissões o concurso de contos "Os viajantes do tempo". Os vencedores serão publicados no número de julho da revista.
Conexão Literatura é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A floresta sombria

A floresta sombria (黑暗森林; The dark forest), Cixin Liu. 472 páginas. Tradução de Leonardo Alves. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2017.

Primeiro: a principal necessidade de uma civilização é a sobrevivência. Segundo: a civilização cresce e se expande continuamente, mas a matéria total do universo permanece constante.
Estas são as premissas que definem A floresta sombria, segundo volume da série Remembrance of Earth's past, do escritor chinês Cixin Liu, cujo primeiro volume, O problema dos três corpos, ganhou o prêmio Hugo em 2015 quando de sua tradução para o inglês, além de ter sido indicado para o Prêmio Nebula. A resenha a esse primeiro volume pode ser lida aqui.
Dividida em três partes, “Barreiras”, “O feitiço” e “A floresta sombria”, esta continuação trata do que acontece à Terra quando a frota alienígena trissolar inicia sua viagem de invasão que, mesmo a dez por cento da velocidade da luz, vai durar quatrocentos anos devido a grande distância entre os planetas.
O projeto de invasão, apresentado já no romance anterior, é administrado a partir de Trissolaria – um planeta que orbita um sistema estelar trinário em que as condições de sobrevivência são caóticas – através de sondas quânticas chamadas sófons, que se ligam à mente de certos humanos e permitem a comunicação instantânea com os alienígenas, algo similar ao ansível proposto pela escritora americana Ursula K. Le Guin em alguns de seus romances. A ação dos sófons também gera na humanidade um bloqueio mental que impede  o avanço da ciência terrestre, de forma que não seja possível defender-se da invasão, ainda que ela só vá acontecer em quatro séculos. O futuro conflito, chamado de Guerra do Fim do Mundo, deixa a humanidade em polvorosa e, embora seja algo distante, causa grande comoção porque tudo leva a crer que o homem será inevitavelmente exterminado pelos trissolarianos.
Para enfrentar o problema, a ONU cria um programa de longo prazo chamado Projeto Barreiras, e escolhe quatro homens especiais para desenvolverem, em segredo absoluto, estratégias que possam fazer frente a força trissolar. Os planos não podem ser discutidos com ninguém, pois os sófons trissolares poderiam descobri-los. Os quatro homens, que se tornam personalidades mundiais com plenos poderes para fazer o que fosse necessário para viabilizar suas estratégias, são: Frederick Tyler, ex-secretário de defesa dos EUA, o ex-presidente venezuelano Manuel Rey Diaz, o neurocientista inglês e prêmio Nobel Bill Hines, e o escritor chinês Luo Ji.
Desde o início, Lou Ji resiste a sua indicação, por não se considerar a altura de um projeto de tal magnitude, mas a forte pressão da ONU o obriga e ele finge concordar. Enquanto as demais barreiras promovem planos de altos impacto e custo, que buscam o desenvolvimento de superbombas, frotas de espaçonaves, máquinas de reprogramação mental, criogenia e outras tecnologias que, apesar de extrapoladas, são apenas avanços de conceitos científicos já existentes – pois as novas descobertas estão retidas pelo bloqueio sófon –, Lou Ji usa os poderes de seu estatuto para encontrar a mulher de seus sonhos e com ela viver um idílio pastoral num paraíso retirado. A falta de resultados palpáveis de Lou Ji irrita seus superiores que decidem congelar sua esposa perfeita e a filha que com ela teve, para serem descongeladas somente no futuro, e obrigá-lo a trabalhar a força de chantagem.
Mas os trissolarianos também não ficam inertes. Além de despacharem uma pequena frota de sondas não tripuladas que chegarão à Terra duzentos anos mais cedo, implementam o programa Destruidores de Barreiras, que seleciona humanos ligados a sófons para descobrir os planos das barreiras e anulá-los. Aos três figurões, os seus destruidores têm a missão de desmoralizar, no que são plenamente bem sucedidos, mas a Luo Ji, cujos planos são aparentemente indecifráveis, é decretada a pena de morte. Sua única providência acaba sendo enviar, para uma estrela distante, uma mensagem que ele chamou de "feitiço". Logo depois de disparar seu feitiço, Luo Ji contrai uma doença mortal desconhecida, aparentemente criada pelos trissolarianos para esse fim, e é congelado para ser despertado somente quando uma cura fosse descoberta.
Duzentos anos depois, às vésperas da chegada  da primeira sonda trissolariana, Lou Ji é curado e descongelado apenas para ser destituído de seu cargo de barreira. Ele encontra uma Terra muito diferente daquela que deixou no passado, com a sociedade vivendo em cidades subterrâneas autônomas, governada pela força de defesa espacial e absolutamente confiante de que vencerá a Guerra do Fim do Mundo. A chegada da sonda parece reforçar suas certezas, pois trata-se de um veículo tão belo e elegante que só pode ser um presente de paz. Mas o que virá a seguir é o horror da absoluta estupidez humana. Sem qualquer esperança, resta à humanidade lançar-se à orgia dionisíaca ou esperar que o desprezado e ridicularizado feitiço de Luo Ji cause enfim algum resultado.
A floresta sombria é um romance massivo, denso, de personagens vívidos e situações dramáticas intensas. Do ponto de vista formal, é tão ou mais elaborado que o volume anterior, e apresenta uma história mais evidentemente vestida de ficção científica, sem tantos elementos regionais chineses quanto visto em O problema dos três corpos. Também percebe-se a grande habilidade do autor em manter todas as costuras do enredo muito bem alinhavadas, com os eventos conclusivos dialogando diretamente com as conceitos apresentados nas primeiras páginas do romance, numa legítima hard fiction de dimensão cósmica desnorteante, ainda que as extrapolações futuristas do terço final revelem um panorama difícil de aceitar depois de seiscentas páginas de uma história em tudo contemporânea. Mas Liu não perde a mão, pois o foco segue sendo nos personagens. Curioso, neste aspecto, o fato que o único personagem do primeiro volume que se manteve neste foi o detetive Da Chi, que parece assim ser o avatar do autor na história. Também é importante observar que Liu apresenta, em meio ao romance, diversos conceitos filosóficos muito interessantes, que por si só justificam a sua leitura.
A edição da Editora Companhia das Letras em seu selo Suma – antes chamado Suma das Letras – é caprichada, com ótima tradução de Leonardo Alves e uma revisão muito boa, com poucos deslizes.  Promete publicar no Brasil ainda em 2018 a terceira e última parte da série, Death's end, originalmente publicada em 2010 e traduzida para o inglês em 2016.
Eis aqui uma trilogia que vale a pena acompanhar.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Hocus pocus high tech

Está disponível para leitura online o ebook Hocus pocus high tech, antologia de microcontos de ficção científica com até trinta palavras organizada por Luiz Bras.
Mais de 140 autores submeteram trabalhos para a edição que, na verdade, é a primeira etapa de um processo de seleção para escolher os 100 melhores dentre os 260 textos publicados. Os contos estão publicados um por página, conforme a ordem alfabética do nome dos autores, e a ideia é que cada leitor aponte seus dez textos favoritos, bastando para isso indicar os números das páginas que os contenham através de uma mensagem para o organizador em sua página no Facebook, aqui.
Quem tiver interesse em votar, colabore. Mas se não tiver, aproveite a leitura, pois há bons autores entre os textos submetidos. Só não vele votar nos próprios textos. O prazo de votação se encerrará no próximo dia 27 de maio. Vamos lá?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Somnium 114

Maio é o mês do Somnium. Logo, está circulando a edição 2018 do fanzine do Clube dos Leitores de Ficção Científica editado por Ricardo Herdy, inteiramente dedicada a esse gênero especulativo, exatamente um ano após a edição 113.
Acredito que não é intenção do editor lançar apenas um único número por ano, visto que em suas origens a publicação era mensal, mas tem sido difícil para o clube manter suas atividades: em 2017 quase não houve o Prêmio Argos, que só rolou depois que o presidente da entidade pediu socorro pelas redes sociais. Da mesma forma, o seu órgão oficial tem dificuldades para seguir caminhando autonomamente, seja por falta de conteúdo, seja por carência de mãos para construir fisicamente a publicação, o que é lamentável visto o carinho que Herdy dedica a edição do material que garimpa tão arduamente. Mas me parece ser pior de tudo o fato de que os próprios membros do clube não referenciarem a publicação: na última edição do Argos acima referida, não houve um único finalista advindo do Somnium, e não por falta de qualidade do que foi publicado. Talvez seja hora do Clube rever suas estratégias de divulgação.
A edição traz contos de Ana Cristina Luz, Anatoly Belilovsky (EUA), Jana P. Bianchi, Jefferson J. Arenzon, Jorge Quillfeldt, Lou Antonelli (EUA), Jerry Wright (EUA), Ludmila Hashimoto, Michel Peres, Rachael K. Jones (EUA), Santiago Santos, Sylvia Spruck Wrigley (País de Gales) e Viviane Maurey. A presença de tantos autores traduzidos é reflexo direto da dificuldade do editor em reunir textos de autores brasileiros. Ainda publica artigos de Flávio Andrade e Mário André, e homenageia o fundador do CLFC, Roberto Cezar Nascimento, falecido há alguns anos, com depoimentos de Gerson Avillez, Gerson Lodi-Ribeiro e Ivan Carlos Regina. A capa traz uma ilustração Anderson Awvas.
Por hora, só foram distribuídas as versões epub e mobi do fanzine. Para baixar gratuitamente os arquivos basta clicar nos respectivos links. A versão pdf ainda está em produção e será anunciada oportunamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

45 anos de Velta, Tomo 2

Acredito que o paraibano Emir Ribeiro seja o fanzineiro mais veterano do Brasil neste momento. Ele começou a publicar sua personagem Velta ainda nos anos 1970, e foi uma das primeiras referências que tive nos fanzines, no início dos 1980, ao lado do saudoso Oscar Kern e sua Historieta. Emir nunca parou nem perdeu o pique, e todos os anos publica três ou quatro novas edições de Velta e outros personagens que criou, o que é sem dúvida um feito admirável. E acaba de sair mais uma nova edição, o Tomo 2 de 45 anos de Velta, cuja parte 1 saiu no finalzinho de 2017 e foi divulgada aqui.
Esta nova edição tem 64 páginas e traz duas hqs inéditas, em que Velta vai parar num planeta gelado onde encontra a alienígena Doroti, uma de suas mais perigosas inimigas. As capas são cartonadas e plastificadas, e a impressão é de alta qualidade.
A revista é comercializada exclusivamente no formato impresso e pode ser adquirida com o autor pelo email emir.ribeiro@gmail.com.
Mais informações sobre estas e outras publicações de Ribeiro podem ser obtidas em seu saite, aqui.