domingo, 16 de abril de 2017

Reino imaginário

Depois de toda uma vida dedicada a sua própria literatura, o prolífico escritor carioca Miguel Carqueija publica a primeira antologia organizada por ele mesmo. Trata-se de Reino imaginário, que reúne 14 contos de autores de diversas partes do Brasil. A proposta é mostrar um painel da literatura  nacional nos gêneros da ficção científica, fantasia e horror. Os textos, que variam entre contos, vinhetas e poemas, são assinados por Cristina Gaspar, Ronald Rahal, Regina Madeira, Francisco Carlos Amado, Cesar Silva, Maria Santino, Irá Rodrigues, Vânia Lopes, Maria Candida Vieira, Alex Raymundo, Jey Lima Valadares, Simone Saueressig, Maria da Penha Boselli e do próprio organizador.
Reino imaginário está disponível na rede social Recanto das Letras, onde o autor mantém uma página com seus inúmeros trabalhos.
O arquivo, em formato pdf, pode ser baixado gratuitamente aqui.

Juvenatrix 184

Está disponível a edição de abril do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 14 páginas e traz um conto de Norton A. Coll e o artigo "Os 50 melhores filmes de horror do século 20", assinado por Mercello Simão Branco. Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

Conexão Literatura 22

Está circulando o número 22 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 43 páginas e destaca o trabalho da escritora britânica J. K. Rowling, autora do bestseller Harry Potter. Também podem ser lidas entrevistas com os escritores brasileiros Dione M. S. Rosa (Naga), Wagner Torres de Araújo (Memórias dispersas), Angela Aguiar (Inevitável), Danni Victorino (Diário de Júlia), Angela Maria Drago (Teimosamente romântica), Júlia Lemos (A exposição dos sóis) e Priscila M. Mariano (Inocência perdida). Traz ainda contos de Míriam Santiago e Helder Felix de Sousa Júnior, e crônicas assinadas por Misa Ferreira e Rafael Botter. 
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

domingo, 26 de março de 2017

Dentro da noute

O horror está definitivamente em alta nos dois lados do Atlântico. Dentro da noute: Contos góticos, organizada por Ricardo Lourenço, é a mais nova antologia de textos clássicos do gênero, publicada em 2017 através do Projecto Adamastor.
São 397 páginas com 27 contos e novelas em domínio público, nas palavras do organizador,  "uma amostra representativa da literatura gótica produzida por escritores portugueses e brasileiros, assim como dos principais temas que caracterizam o género".
Os textos estão divididos em duas seções principais: a primeira parte é voltada aos autores portugueses: Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Alberto Osório de Vasconcelos, Raul Brandão, Fialho de Almeida, Ana de Castro Osório, Florbela Espanca, Álvaro do Carvalhal, Júlio César Machado, Beldemónio, Manuel Teixeira Gomes e Mário de Sá-Carneiro. Já a segunda parte é inteiramente dedicada aos autores brasileiros: Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Júlia Lopes de Almeida, Inglês de Sousa, Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel, Afonso Arinos, Medeiros e Albuquerque, Aluísio Azevedo, Thomaz Lopes, Machado de Assis, João do Rio, Gonzaga Duque e Humberto de Campos, boa parte deles já vistos em seleções similares, por isso mesmo, formam um apanhado bastante representativos do que de melhor se viu em matéria de horror gótico entre os autores de língua portuguesa.
A antologia está disponível aqui para download gratuito, em dois formatos para dispositivos móveis.

domingo, 19 de março de 2017

Mistério de Deus

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera finalmente acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance indicado ao Jabuti Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente de Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações. 
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil - 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Conexão Literatura 21

Está circulando o número 21 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 49 páginas e destaca na capa o trabalho da escritora Thati Machado, surgida na internet que chegou ao mercado com o livro Poder extra G. Também são entrevistados na edição os escritores Cleberson Kadett (Quando o céu é o limite), Igor Feijó (Artífices da vontade), Rogério Silva (O sino), Gilmar Milezzi (Requiescat in pace: Cronicas da Cidade dos Mortos) e do roteirista e diretor de cinema Janderson Rodrigues (Mordomo da morte).
A revista ainda traz contos de Fernando Moraes, Dione M. S. Rosa e Marcelo Garbine, crônicas de Misa Ferreira e Míriam Santiago e artigo de Pedroom Lane. A coluna "Conexão Nerd" divulga o novo projeto do editor na web, a série de vídeos Curiosidades e mistérios do mundo.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

Múltiplo 4 e 5

Em nova fase, agora virtual, Múltiplo, fanzine de quadrinhos editado por André Carim, lançou recentemente duas novas edições.
O número 4, de fevereiro de 2017, tem 80 páginas e traz um longo depoimento do mestre Júlio Shimamoto, entrevista com Alberto "Beralto" de Souza, quadrinhos de André Carim, Nei Rodrigues, Gazy Andraus, Alberto de Souza, Flavio Calazans e Clodoaldo Cruz, além de artigos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
O número 5, de março, tem 84 páginas e traz uma entrevista com o ilustrador Omar Viñole, quadrinhos de  Heitor Vasconcelos, Aurélio Gomes Filho, F. Salathiel Anacleto e Rita Maria Félix, André Carim e Nei Rodrigues, Flavio Calazans, Omar, Edgard Guimarães, Juliano Facchin e Clodoaldo Cruz, Bira, Spacca e Cristina, Beralto, Fábio Barbosa e Lafaiete Nascimento, Marcelo Saravá e Bira Dantas,  duas séries de depoimentos de personalidades dos quadrinhos, divulgação de fanzines e cartas dos leitores.
As capas das duas edições trazem desenhos de Laudo Ferreira e Omar Viñole.
A publicação pode ser baixada gratuitamente aqui. As edições anteriores também estão disponíveis.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Resenha: Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalobrasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos.  Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Ridrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.

QI 143

Está circulando o número 143 do fanzine Quadrinhos Independentes-QI, editado por Edgard Guimarães, dedicado ao estudo dos quadrinhos destacando a produção independente e os fanzines brasileiros.
A edição tem 32 páginas e traz a sequência do depoimento de José Ruy sobre o periódico português Tintin, artigo de Lio Guerra Bocorny sobre algumas experiências editoriais da Ebal nos anos 1960, e quadrinhos de Chagas Lima, Luiz Cláudio Lopes Faria, Eduardo Marcondes Guimarães e do editor. Completam a edição as colunas "Mantendo contato", "Fórum" e "Edições independentes" divulgando os lançamentos de fanzines do bimestre. A capa tem uma ilustração do editor, colorizada manualmente.
Junto à esta edição, os assinantes recebem Artigos sobre Histórias em Quadrinhos 5: Roy Rogers/Dale Evans, fascículo de 12 páginas com um estudo de autoria do colecionador português Carlos Gonçalves, com muitas e belas capas de edições raras desses populares personagens.
O QI é distribuído exclusivamente por assinatura, mas sua versão digital estará disponível em breve no saite da editora Marca de Fantasia, aqui. Algumas das edições anteriores recentes podem ser lá encontradas. Mais informações com o editor pelo email edgard@ita.br.

Anuário no Adorável Noite

O escritor Adriano Siqueira, autor de histórias de horror, editor do fanzine Adorável Noite e sempre muito ativo nas redes sociais, realizou por algum tempo uma série de entrevistas em vídeo com autores, editores e personalidades ligadas à ficção fantástica brasileira. Todas as 91 entrevistas estão agora disponíveis no canal Contos de Vampiros e Terror, aqui. Destaque para as entrevistas com Eduardo Spohr, Luiz Bras, Roberto de Sousa Causo, Amanda Reznor, Giulia Moon, Raphael Draccon, Rosana Rios, Helena Gomes, Max Mallmman, Nazareth Fonseca, e Regina Drummond, entre outros.
Até o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica mereceu a atenção de Lord Dri numa rápida conversa com o autor Cesar Silva (que pode ser vista aqui) gravada em 2010 na Livraria Martins Fontes Paulista, durante o lançamento da edição de 2009.

Trasgo: Ano 1

A revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen e totalmente dedicada à produção nacional, está empenhada num novo projeto: a publicação de uma edição em papel. Na verdade, trata-se de uma antologia, reunindo todos os contos publicados pela Trasgo em suas quatro primeiras edições, mais três contos inéditos.
Intitulada Trasgo: Ano 1, a antologia trará, em 376 páginas, 26 contos de ficção científica e fantasia, prefaciados por Roberto de Sousa Causo, que também participará com um conto na seleção. Além dele, estarão no livro Ademir Pascale, Albarus Andreos, Ana Lúcia Merege, Caroline Policarpo Veloso, Claudia Dugim, Claudio Parreira, Cristina Lasaitis, Érica Bombardi, Frederico de Oliveira Toscano, Gael Rodrigues, George Amaral, Gerson Lodi-Ribeiro, Hális Alves, Jessica Fernanda de Lima Borges, Jim Anotsu, Karen Alvares, Liége Báccaro Toledo, Marcelo Porto, Mary C. Muller, Melissa de Sá, Tiago Cordeiro, Victor Oliveira de Faria, Enrico Tuosto, Lucas Ferraz e o próprio organizador Rodrigo van Kampen.
Van Kampen está promovendo uma campanha no saite de financiamento coletivo Catarse para viabilização financeira do projeto, com as costumeiras recompensas que caracterizam o esquema. Participe aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Carnaval com Letras

No auge do verão 2017, a fc&f dá o ar de sua graça nos lançamentos na editora Companhia das Letras.
Do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) chega O espírito da ficção científica, um romance escrito em 1984 que estava inédito até hoje. Diz a divulgação: "conta a história de Remo Morán e Jan Schrella, dois jovens escritores obcecados por poesia e ficção científica. Enquanto o primeiro tenta incansavelmente encontrar seu espaço na literatura, o segundo passa os dias enviando cartas delirantes a seus autores favoritos de ficção científica". Não é um livro de fc, portanto, mas sobre autores de fc, metaficção que caracteriza a obra do autor.
Senhor D., do acadêmico do MIT Alan Lightman, é uma espécie de autobiografia de Deus: "Depois de uma longa existência no Vazio, o onipotente Senhor D. resolve experimentar e criar o tempo, o espaço e a matéria. Aos poucos, surgem também os astros celestes, as primeiras formas de vida e os seres pensantes. E com eles, os dilemas inesperados até mesmo para o Criador — que parecia ter tudo sob controle". Também é um livro que não é o que parece. Antes de ser uma fantasia, é de fato uma discussão filosófica sobre a ciência e a religião.
Pelo selo Seguinte, dedicado a ficção para jovens-adultos, chega A traidora do trono, da canadense Alwyn Hamilton.  Segundo volume da série iniciada em 2016 com A rebelde do deserto, trata-se de uma fantasia oriental com toques de faroeste: "Em meio às perigosas batalhas, Amani é traída e acaba se tornando prisioneira no palácio. Enquanto pensa em um jeito de escapar, tenta se aproximar do sultão para descobrir informações úteis para a causa rebelde. Contudo, quanto mais tempo passa ali, mais ela questiona se o governante é de fato o vilão que todos acreditam, e quem são os verdadeiros traidores do país".
Há alguns meses, uma moda tão avassaladora quanto passageira inundou as livrarias com livros para colorir sobre diversos temas. As editoras correram para aproveitar a onda mas a produção que atendesse aquela demanda impossibilitou que, logo de saída, surgissem produtos ligados às franquias.
Por isso é que, só agora quem gosta de pintar pode finalmente praticar seus dotes estéticos com A seleção para colorir, com ilustrações de Sandra Suy no popular universo criado por Kiera Cass. "Com vinte ilustrações de momentos emblemáticos dos cinco volumes da série, assim como vinte frases preferidas dos fãs, este é o livro ideal para quem está com saudades de A Seleção e quer passar um tempinho a mais nesse universo inesquecível".
Anna e o planeta, do escritor norueguês Jostein Gaarder (autor de O mundo de Sofia), mistura fantasia e viagens no tempo para contar a história muito curiosa: "Pouco antes de completar dezesseis anos, Anna começa a receber mensagens em seus sonhos. Preocupados, os pais resolvem levá-la a um psiquiatra, mas o médico não acha que exista algo errado. Na verdade, o excêntrico dr. Benjamin acredita que parte do que ela vê nos sonhos é real, como o agravo do aquecimento global e a consequente extinção de vários animais. Ele está certo, pois Anna está observando o mundo através dos olhos de Nova, sua bisneta que vive em 2082 e está prestes a fazer dezesseis anos".
Pelo selo Penguin Companhia, a coletânea O livro de Moriarty reúne todas as seis histórias (cinco contos e um romance) em que o detetive Sherlock Holmes enfrenta seu nêmesis: "O Napoleão do crime. É assim que Arthur Conan Doyle define o professor James Moriarty, arquirrival de Sherlock Holmes e um dos grandes vilões da literatura universal. Não há crime em Londres, do mais banal dos roubos ao mais terrível dos assassinatos, que não tenha sua mão". Um livro tanto para fãs como para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer este personagem singular.
Fechando esta série, o selo Suma das Letras apresenta A rainha de Tearling, de Erika Johansen, primeiro de uma trilogia que mistura distopia e fantasia medieval: "Quando a rainha Elyssa morre, a princesa Kelsea é levada para um esconderijo, onde é criada em uma cabana isolada, longe das confusões políticas e da história infeliz de Tearling, o reino que está destinada a governar. Dezenove anos depois, os membros remanescentes da Guarda da Rainha aparecem para levar a princesa de volta ao trono – mas o que Kelsea descobre ao chegar é que a fortaleza real está cercada de inimigos e nobres corruptos que adorariam vê-la morta. Mesmo sendo a rainha de direito e estando de posse da safira Tear – uma joia de imenso poder –, Kelsea nunca se sentiu mais insegura e despreparada para governar. Em seu desespero para conseguir justiça para um povo oprimido há décadas, ela desperta a fúria da Rainha Vermelha, uma poderosa feiticeira que comanda o reino vizinho, Mortmesne. Mas Kelsea é determinada e se torna cada dia mais experiente em navegar as políticas perigosas da corte.
Como ainda temos pela frente algumas semanas de calor, vamos aproveitar a maré enquanto esperamos pelas águas de março.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Resenha: Nova era

Mundo novo 3: Nova era (The revival), Chris Weitz. 216 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, Selo Seguinte. São Paulo, 2016.

Com este livro, originalmente publicado em 2016 nos EUA, chega ao fim a saga da tribo de adolescentes novaiorquinos que sobreviveu ao apocalipse depois que um vírus altamente agressivo dizimou toda a população adulta na América.
Nos volumes anteriores, Mundo novo (2014) e Nova ordem (2015), vimos como Jefferson, Donna, Petter, Crânio e seus amigos tentam, a todo custo, encontrar uma cura para a praga antes que todos cheguem a idade fatal. Para isso, abandonaram a segurança de sua aldeia protegida por barricadas e algumas armas, e lançaram-se numa jornada de esperança pela Nova York devastada e ocupada por adolescentes violentos, psicopatas, antropófagos, escravagistas e outros tipos igualmente perigosos. A cura foi enfim encontrada, mas ela era apenas o começo do verdadeiro problema que se desenrolava em outras partes do mundo. Na Europa e na Ásia, uma vacina foi produzida e os adultos sobreviveram, bem como toda a parafernália tecnológica a qual estamos acostumados. Mas o desaparecimento dos EUA no cenário mundial causou grandes mudanças no equilíbrio político do mundo e agora todos querem dominar o que sobrou de útil na América, o que significa "arsenal nuclear". A ideia dos governos estrangeiros, especialmente a Inglaterra, é esperar que todos morram na América para então agir com mais liberdade e segurança. Mas a cura de Jefferson os obriga a acelerar seus planos, ainda mais porque há grupos dissidentes que não querem que a nova ordem mundial seja construída sobre uma hegemonia britânica. Um desses grupos, conhecido como Reconstrução, se alia aos garotos na cruzada para salvar o que restou da América. Mas, enfim, as coisas não eram exatamente o que pareciam.
Neste terceiro e último volume, Jefferson e seus companheiros têm de lutar mais um pouco para salvar seus amigos. De volta a Nova York, o plano de Jefferson de unir as gangues em torno da cura fracassou. Traído pela Reconstrução, a "Bola de futebol" e o "Biscoito", os dispositivos de lançamento de mísseis nucleares encontrados no prédio da ONU onde haviam sido abandonados no auge da crise, acabam nas mãos da tribo de Uptown, um grupo belicoso e muito bem armado liderado por um psicopata chamado Evan. Caçado pelos garotos de Uptown, Jefferrson tem de fugir e encontrar algum apoio, e ele vem na pessoa de Donna que, finalmente, retorna à Nova York acompanhada de um comando militar britânico altamente equipado cuja missão é resgatar os dois equipamentos que estão com Evan. A chama do amor entre Jeff e Donna foi severamente afetada pelos eventos do volume anterior. Ainda há uma fagulha, mas nada pode prosperar enquanto o mundo estiver a beira do desastre nuclear total. Contudo, não é uma opção permitir que os dispositivos caiam nas mãos dos britânicos, nem os russos ou dos chineses, que também enviaram tropas para a ilha com o mesmo fim. A esperança repousa na tribo do Harlen, que Jefferson traiu no passado, e o reencontro entre eles pode ser imprevisível.
Weitz, que tem experiência como roteirista e diretor de cinema, desenvolve sua trama através de depoimentos e registros pessoais de personagens-chaves, de modo que, apesar na narrativa ser linear, o leitor obtém uma visão tridimensional do ambiente e das relações entre os diversos núcleos narrativos. O autor tem grande habilidade em modular as vozes dos personagens, mas a produção gráfica ajuda dando a cada um deles uma tipografia diferente, que combina com sua psicologia. E Weitz fez questão de dar personalidade variada a eles, adotando uma linha inclusiva que privilegia minorias e as trata com dignidade. Por exemplo, Petter, que é negro e homossexual, finalmente ganha neste volume seu próprio núcleo narrativo.
Também percebe-se que Weitz se esforçou por atualizar o ambiente, referindo-se a fatos e personalidades mais recentes, como Donald Trump, o Estado Islâmico, por exemplo, que não chegaram a ser citados nos volumes anteriores. Para uma leitura atual, por certo que tais citações acrescentam realismo, mas são elementos datados que podem envelhecer com o passar dos anos.
Apesar de toda a violência, Nova era é um livro para leitores jovens, de leitura fácil e sem grandes complexidades filosóficas, a não ser nas entrelinhas, pois o ambiente permite insights mais sofisticados aqui e ali.
Em toda grande história, vale mais a jornada do que a chegada, e não é diferente com a trilogia de Chris Weitz. Se é preciso um final, então que seja. Por mim, eu estaria muito disposto a seguir acompanhando as desventuras de Jeff e os sobreviventes de sua tribo nesse mundo desfigurado pela peste. Quem sabe, talvez não tenha sido mesmo o The end definitivo.

Juvenatrix 183

Está disponível a edição de fevereiro do fanzine eletrônico de horror e ficção científica Juvenatrix, editado por Renato Rosatti.
A edição tem 13 páginas e traz resenhas aos filmes As bonecas da morte (The psychopath, Inglaterra, 1966), A criatura da mão azul (Die blaue hand, Alemanha Ocidental, 1967), A cruz do diabo (La cruz del diablo, Espanha, 1975), O fantasma de Frankenstein (The ghost of Frankenstein, EUA, 1942), Fantasmas que ainda vagam (Ghosts that still walk, EUA, 1977), Latidos de pánico (Espanha, 1983), Sol (Brasil, 2017) e O uivo da bruxa (Cry of the banshee, Inglaterra, 1970). Divulgação de fanzines, livros, filmes e bandas independentes de rock extremo complementam a edição. A capa traz uma ilustração de Angelo Junior.
Para obter uma cópia, basta solicitar pelo email renatorosatti@yahoo.com.br.

Conexão Literatura 20

Está circulando o número 20 da revista eletrônica Conexão Literatura, editada por Ademir Pascale pela Fábrica de Ebooks.
A edição tem 52 páginas e destaca na sua capa o trabalho das escritoras Jaqueline e Micheline Ramos, mais conhecidas como Jack Michel, autoras do romance 1 anjo MacDermot, publicado pela editora Drago. Também são entrevistados na edição os escritores Adiel Machado (Selvageria urbana), Kathia Brienza (Não é com vinagre que se apanham moscas), Fernanda W. Borges (O reverso do destino), Filipe Santos (Luas de sangue), Caio Mirabelli (As consciências do universo) e o artista gráfico Denis Lenzi. A revista ainda traz um conto de Mauricio Campos e crônicas de Misa Ferreira, Dione Souto Rosa e Míriam Santiago. A coluna "Conexão Nerd" divulga o novo canal da revista no Youtube, que pode ser conferido aqui.
A revista é gratuita e pode ser baixada aqui. Edições anteriores também estão disponíveis.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Essenciais de 2016 - Autores brasileiros

Apesar da crise, 2016 foi um ano favorável para a ficção especulativa brasileira. Não na quantidade, que está em queda livre, mas pelo menos a qualidade do material publicado tem se sustentado, o que aumenta o desempenho médio da produção nacional.  Também observamos o esboço de um núcleo semi-profissionalizado no segmento, com a presença recorrente de determinados autores com novos livros nas livrarias, o surgimento de periódicos sérios, inclusive de natureza acadêmica. Ainda que não necessariamente proveitosos do ponto de vista financeiro,  é importante a conquista desses espaços, que acenam com um futuro alvissareiro a longo prazo, especialmente quando esta crise passar – e ela vai passar.
No que se refere a ficção nacional, os romances ocupam a linha de frente, com treze títulos inéditos e uma republicação importante. Como tem sido a tendência, o gênero da fantasia continua a ser o mais praticado e no qual os autores parecem se sentir mais a vontade. Dois contumazes best-sellers aparecem aqui, ambos pela Editora Rocco: André Vianco, com Dartana, pelo selo Fábrica 231, uma história dark fantasy no ambiente medieval, e Carolina Munhóz, com Por um toque de sorte, segundo volume da série Trindade Leprechaum, pelo selo Fantástica, uma história contemporânea que, assim como Vianco, se desenvolve em torno de mitologias europeias.
Flávia Muniz também é uma autora que podemos classificar como best-seller. Embora seu nome não seja tão lembrado quanto os dois autores acima citados, Flávia está em ação desde os anos 1980 e seu livro Os noturnos é muito bem sucedido comercialmente. A autora publicou em 2016 o romance O manto escarlate, pela editora SESI-SP, que também envereda pela dark fantasy medieval.
Entre os estreantes, há três ótimos destaques. Santiago Santos, autor do saite de microcontos Flash Fiction, publicou seu primeiro romance, Na eternidade sempre é domingo, pela editora Carlini & Cantato, romance fix-up formado por várias narrativas independentes em forma de relato de viagem pelos Andes boliviano e peruano.
Alex Mandarino publicou O caminho do Louco, primeira parte da série Guerras do Tarot, pela editora Avec, ágil aventura de fantasia urbana com toques de mistério. E Caio Alexandre Bezarrias, com Shimandur: A cidade da chuva, pela editora Devir Livraria, fantasia passada na metrópole paulistana assolada por uma chuva interminável.
Antes de passar adiante, convém destacar aqui um livro de estremo valor, que precisa estar nesta relação, apesar de ter autor, em tese, estrangeiro. Trata-se do texano Christopher Kastensmidt, americano radicado no Brasil que aqui tem desenvolvido sua carreira como escritor, privilegiando uma ficção de caráter brasilianista que poucos autores nacionais ombreiam. Depois de publicar vários contos em antologias, Kastensmidt lanço em 2016, pela Devir Livraria, o romance fix-up de fantasia A Bandeira do Elefante e da Arara, que compila todos os dez contos do ciclo das aventuras de Gerard e Oludara, um holandês e outro africano, enfrentando seres mitológicos ao longo de uma ampla peregrinação pelo território do Brasil colonial.
A ficção científica tem se recuperado nos últimos anos, depois de um período de estagnação em que pouco se publicou no gênero. Os representantes de 2016 também são pesos pesados do segmento: Alexey Dodsworth, que em 2015 foi reconhecido pelos fãs com o prêmio Argos, lançou O esplendor, pela editora Draco, história cósmica sobre um planeta de luz eterna que é agitado quando surge um menino que pode dormir e sonhar.
Mustafá Ali Kanso, que é também um nome reconhecido no fandom, publicou O mesmo Sol que rompe os céus, pela editora Fragmentos, com uma história sobre o encontro de dois personagens com experiências bizarras.
Luiz Brás – reconhecido em alguns círculos como o multipremiado Nelson de Oliveira – tem mantido uma forte produção de fc&f nos últimos anos e, em 2016, apresentou aos leitores Não chore, pela editora Patuá, uma ficção anarquista que discute o sistema prisional. Pela mesma editora, Oliveira republicou o esgotado Subsolo infinito, originalmente publicado em 2000, uma perturbadora fantasia urbana sobre a identidade.
O horror é um ambiente razoavelmente assentado no mercado, sempre com uma produção equilibrada e estável. Rosana Rios é uma dama da literatura especulativa nacional, com dezenas de títulos publicados ao longo de sua produtiva carreira iniciada em 1988. Em 2016, lançou Olhos de lobo, pela editora Farol Literário, com uma história que mistura licantropia e nazistas no Rio Grande do Sul.
Pedro Cesarino, reconhecido pesquisador acadêmico da cultura dos povos nativos, vencedor do Jabuti com sua tese de doutorado Oniska: Poética do xamanismo da Amazônia, estreou em 2016 na ficção com Rio acima, pela editora Companhia das Letras, que aproveita sua experiência no tema para contar uma história de terror nas selvas do Xingu, na linha Coração das trevas, de Joseph Conrad.
Também a Companhia das Letras publicou Jantar secreto, de Raphael Montes, uma história de terror urbano deste autor que tem sido muito comentado nos últimos anos por sua ficção de aspectos sombrios.
Coletâneas e antologias representam um papel importante no ambiente da fc&f nacional. Como há poucas revistas publicando ficção, esse modelo editorial, que reúne num mesmo livro textos curtos de diversos autores e estilos, tem sido a sustentação do exercício criativo e revelado muitos autores de qualidade, sem esquecer que é na ficção curta que os autores brasileiros geralmente têm os melhores resultados.
Como em quase tudo, 2016 testemunhou uma forte queda no número de antologias e coletâneas publicadas no país, mas ainda assim é preciso reconhecer o esforço dos editores em investir no formato.
Entre as coletâneas – livros que reúnem textos de um único autor –, o destaque vai para O teorema das letras, título póstumo de André Carneiro (1922-2014), o mais bem sucedido autor brasileiro de ficção científica, que traz cinco contos inéditos que representam a intensa criatividade de Carneiro, mesmo no fim da vida. 
No gênero do horror, o ótimo Carlos Orsi apresentou Mistérios do mal, pela editora Draco, que traz contos que unem mitologias e cosmologias típicas da weird fiction, amalgamadas a cenários e personagens brasileiros, como é característico em sua obra.
Também é no horror sobrenatural que se apresenta o escritor gaúcho Duda Falcão, com a coletânea Treze, pela editora Avec (publicada com data de 2015), não por acaso com treze contos ao estilo pulp fiction, com muito sangue, monstros, bruxas e demônios.
Entre as antologias – livros que publicam trabalhos de autores diferentes – os destaques da fantasia são Estranha Bahia, organizada Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares para a editora EX!, com sete contos cujo fio condutor é, como já diz o título, o estado da Bahia.
E também Medieval: Contos de uma era fantástica, organizada por Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse para a editora Draco, com nove textos de autores bem avaliados, todos obviamente num cenário medieval, uma espécie de segundo volume a antologia Excalibur, dos mesmos organizadores e editora, publicada em 2013.
A antologia essencial na ficção científica em 2016 é Dinossauros, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a editora Draco, um tema recorrente em antologias nacionais e estrangeiras, mas que traz 16 histórias inéditas de autores experientes e conhecidos no fandom.
Fechando esta seleção, a antologia Contos de terror, organizada por Camilo Prado para a editora Nephelibata, com 15 textos curtos, quase todos em domínio público, numa seleta de histórias tenebrosas de viés realista, por autores clássicos da literatura brasileira que pode surpreender os leitores menos avisados, num modelo que tem recebido razoável atenção dos antologistas nos últimos anos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Trasgo 13

Está disponível o primeiro número de 2017 da revista eletrônica de ficção fantástica Trasgo, editada por Rodrigo van Kampen, totalmente dedicada à produção nacional.
Em suas 130 páginas, traz textos de ficção científica, fantasia e terror escritos por Elisa Rovai, Fernanda Castro, Maira M. Moura, Jéssica Borges, José Abrão e Noan Moraes, que também são entrevistados na edição, assim como o ilustrador Jânio Garcia, que assina a capa e muitas outras ilustrações exibidas na seção "Galeria".
Trasgo pode ser lida e baixada gratuitamente aqui, nos formatos epub, mobi e pdf. Edições anteriores também estão disponíveis. A revista aceita submissões e os trabalhos publicados são remunerados.

Teslapunk

Depois de um longo processo de seleção, a editora Madrepérola, de Londrina, acaba de publicar o primeiro livro nacional de ficção científica em 2017: a antologia Teslapunk: Contos de realidades alternadas, organizada por Marcelo Coelho com dez contos que exploram, através da lente do fantástico, o impacto da energia elétrica na sociedade.
Diz o texto de divulgação: "O teslapunk é assim nomeado graças ao cientista e inventor Nikola Tesla, um homem que revolucionou a história do mundo nos idos do século 18. Em seus contos, nos perderemos entre subestações, esquivaremos de arcos voltaicos e encontraremos nosso precursor, o próprio Nikola Tesla em carne, osso e impulsos elétricos".
Os textos que compõe a antologia são assinados Adnelson Campos, Alex Giacomin Rebonato, Bruno Lopes Curiel, Diego Navarro, Eduardo Yoshikazu Nishitani, Gabriel Guandalini, Gregório Bernardino Matoso, Jean Thallis, Leandro Zerbinatti de Oliveira e Lucas M. Carvalho.
Teslapunk tem 126 páginas e pode ser baixada gratuitamente no saite da Madrepérola, aqui.

Inquérito dos sacis

O projeto Colecionador de Sacis, do jornalista e pesquisador Andriolli Costa – que mantém um blogue muito interessante dedicado ao mito brasileiro – aproveitou os cem anos do "Inquérito sobre o saci", uma pesquisa popular realizada em 1917 por Monteiro Lobato nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo, para produzir e publicar uma revista eletrônica inteiramente dedicada a mapear o saci em todas as suas versões, seja no folclore, na literatura, nas artes e no imaginário do brasileiro.
A revista tem 83 páginas e conta com artigos, causos, poemas e contos de um grande time: Ana Paula Aparecida Oliveira, André Lima Carvalho, David Dornelles, Douglas Rainho, Egidio Trambaiolli Neto, Elizeu Batista Thomé, Elói Bocheco, Gastão Ferreira, Gláucia Santos Garcia, Itaércio Rocha, Jorge Alexandre, Lucas Baldo Fraga, Margareth Assis Marinho, Neide da Cunha Pinto, Olívio Jekupé, Ronaldo Clipper, Sérgio Bernardo, Tânia Souza, Victoria Baubier e Wallace Gomes. Também investe na pesquisa imagética com fotos de Douglas Colombelli, Gustavo Beuttenmuller, Jessika Andras, Leo Dias de los Muertos e Maurício da Fonte Filho, e ilustrações de Adriano Batista, Alice Bessoni, Altemar Domingos, Anderson Awvas, Anderson Barbosa Ferreira, Bruno Lima, Fabio Dino, Fábio Vido, Fábio Meireles, Felipe Minas, Geraldo Borges, Giorgio Galli, Ícaro Maciel, Joe Santos, João P. Gomes de Freitas, José Luiz Ohi, Mikael Quites, Mil Araújo, Monteiro Lobato, Odoberto Lino, Rafa Louzada, Rafael Pen, Rodrigo Rosa, Romont Willy, Stuart Marcelo, Talez Silva, Thiago Cruz (Ossostortos), Ursula Dorada (SulaMoon), Vilson Gonçalves, Waldeir Brito, Webby Junior e William Chamorro, que também assina a ilustração da capa.
Diz Andriolli, o editor: "Nossa missão, nestes 100 anos de Inquérito, é mostrar como o saci ainda vive no dia a dia do brasileiro, mas em novas formas. O saci que some com o dedal da costureira e trança a crina dos cavalos é o mesmo que dá nó no fone de ouvido que fica no bolso. O mesmo que faz cair o 4G do celular. O Saci não ficou na roça. Passeia entre nós. Não está restrito ao dia do folclore nas escolas, nem às discussões contra Halloween que povoam as redes sociais. Saci não é discurso, é mito vivo".
A edição é gratuita e pode ser baixada no blogue, aqui. Tão divertida quanto o seu próprio lema: “Sacis de todo o mundo, uni-vos! Nada tendes a perder a não ser a outra perna!”.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Múltiplo 3

Com o advento da internet no Brasil em meados dos anos 1990, os fanzines em papel foram se acabando até quase desaparecem do cenário nacional. Contudo, depois de alguns anos na berlinda, passaram a representar a criatividade plástica e a resistência cultural que não estavam sendo igualmente prestigiadas por seus sucessores eletrônicos. Estava, assim, aberta a via para o retorno dos antigos fanzines, que têm ressurgido aqui e ali, não raro no formato impresso, recuperando para as novas gerações títulos que pareciam fadados ao esquecimento.
Múltiplo, fanzine de quadrinhos editado por André Carim, de bons momentos nos anos 1990, retornou em 2016 e acaba de lançar seu terceiro número.
A edição tem 72 páginas e destaca, em entrevista exclusiva, o trabalho de Edgar Franco, quadrinhista muito conhecido no ambiente da fc&f por suas ilustrações psicodélicas de viés pós humanista, que também aparece com uma hq. Traz ainda trabalhos de Nei Rodrigues, Clodoaldo Cruz, Carlos Henry, Omar Viñole, Thina Curtis, Lafaite Nascimento, Flavio Calazans, Rafael Viana, Ed Oliver e do próprio editor. A capa traz uma ilustração de Nei Lima.
A publicação pode ser baixada gratuitamente aqui. As duas edições anteriores também estão disponíveis no blogue do fanzine, aqui.

Tempos Fantásticos

Quando a ideia é boa, não demora muito para alguém realizar. Há anos venho planejando a publicação de um jornal de fc&f que serviria de plataforma material para o Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, mas problemas insolúveis com a projeto comercial empacaram sua efetiva realização. Por isso, fiquei muito animado quando descobri que alguém mais corajoso do que eu meteu a cara e produziu um jornal na mesma proposta.
Trata-se de Tempos Fantásticos, editado por Angelo Dias, que em tudo lembra um jornal tradicional, mas somente com notícias e artigos sobre ficção especulativa.
O jornal foi lançado como um projeto de financiamento coletivo pela Apoia.se, em forma de assinaturas muito acessíveis, que pode ser consultado aqui, onde a primeira edição, de apenas duas páginas, pode ser baixada gratuitamente. Alguns assinantes podem inclusive optar por receber exemplares em papel, o que é muito legal nestes tempos de decadência da imprensa escrita. Todo o sucesso do mundo à iniciativa!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha: A Bandeira do Elefante e da Arara

A Bandeira do Elefante e da Arara (The elephant and macaw banner), Christopher Kastensmidt. 330 páginas. Tradução de Roberto de Sousa Causo & Christopher Kastensmidt. Editora Devir Livraria, São Paulo, 2016.

Este é mais um dos casos incomuns em que não é possível definir com precisão se estamos diante de uma obra nacional ou estrangeira. Isso porque ambas as origens concorrem neste romance. O autor, Christopher Kastensmidt, é texano e está radicado no Brasil desde 2001. Sua origem norte-americana não é nenhum segredo, mas é preciso que ele o diga para que a gente descubra, porque fala português com fluência perfeita, sem esquecer que compôs praticamente toda sua obra literária em solo tupiniquim. Por outro lado, o texto foi originalmente redigido em inglês e precisou ser traduzido, trabalho brilhantemente desenvolvido pelo escritor Roberto de Sousa Causo, com a supervisão do próprio autor. Isso porque Kastensmidt não se sente suficientemente a vontade com o português para escrever diretamente na Flor do Lácio, que é considerada por muitos linguistas como um dos idiomas mais difíceis do planeta. Mas a pendenga não para aí: o tema do romance não poderia ser mais brasileiro, pois toda a história se passa nas selvas de um Brasil colonial mítico, em que seres fantásticos têm existência real e palpável, para desespero dos colonos portugueses.
O modelo não é inédito, autores nativos já se aventuram por esse tema espinhoso com ótimos resultados, como Ivanir Calado (A mãe do sonho) Simone Saueressig (aurum Domini: O ouro das missões), Felipe Castilho (Ouro, fogo e magabytes), Tabajara Ruas (O fascínio), e o já citado Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens). Contudo, essa não é a regra. Entre os autores brasileiros de fantasia e ficção científica, ainda domina o preconceito em relação a nossa própria cultura e história, bem como dificuldades com a pesquisa, e a insegurança em desrespeitar a tradição folclórica, o que até se justifica em alguns casos. Talvez tenha sido justamente por não ser brasileiro e não compartilhar dessas amarras, que o autor de A Bandeira do Elefante e da Arara ousou embrenhar nesse ambiente difícil.
O resultado é favorável: não há nada a reprovar em A Bandeira do Elefante e da Arara. A história é movimentada e com muita ação, os personagens são redondos e sem cacoetes, os seres mitológicos são fiéis aos originais e há um tratamento responsável e respeitoso com relação a todos os protagonistas e suas origens, sem preconceitos ou estereótipos.
O romance é o que se chama, nos EUA, de fix-up, ou seja, a reunião de textos independentes que formam um todo coerente. Tanto é que os três primeiros capítulos de A Bandeira do Elefante e da Arara, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", "A batalha temerária contra o capelobo" e "O desconveniente casamento de Oludara e Arani" tiveram anteriormente, de fato, edições independentes na coleção Duplo Fantasia Heroica, publicada pela mesma Devir Livraria, e já comentados aqui.
Kastensmidt explora com habilidade a construção do ambiente selvagem brasileiro. A abertura de cada capitulo apresenta um animal típico de nossa fauna, que também é lembrado no final. Para um brasileiro pode parecer pouco relevante, mas imagino a sensação que as descrições precisas e coloridas causam nos leitores estrangeiros, que nunca viram animais como esses. Não é por acaso que o primeiro capítulo, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", foi indicado ao prestigioso Prêmio Nebula em 2011.
Nas primeiras histórias, somos apresentados aos protagonistas, Gerad e Oludara, bem como ao seu nêmesis, o bandeirante Antônio Dias Caldas, que vai aparecer em diversos momentos da trama.   Acompanhamos como o aventureiro holandês Gerad conhece o príncipe africano escravizado Oludara e, juntos, fundam a sua bandeira de dois homens, o primeiro encontro com o Saci Pererê, a feroz luta contra o Capelobo, o confronto com o Curupira e seu gigantesco porco do mato, além da tribo dos Tupinambás, a segunda casa dos protagonistas, onde Oludara conhece, se apaixona e casa com a nativa Arani.
Em seguida, temos outras sete noveletas, cujos títulos, além de toda pompa e circunstância, são por si bastante reveladores: "O impropício retorno de Antônio Dias Caldas", "Uma série inconcebível de capturas e calamidades", "Uma tumultuosa convergência de desajustados, monstros e franceses", "A ameaçante aparição da Mula sem Cabeça", "O doloroso nascimento de Tainá", "Um caso audacioso em Olinda" e o impactante "O catastrófico final das façanhas brasileiras de Gerard e Oludara", que fecha o romance com um grande clímax onde não falta destruição, lutas e surpresas que vão colocar em cheque a boa relação entre os heróis. Nessas histórias, vamos também conhecer versões assustadoras dos mitos brasileiros, que não deixam de fora nem mesmo a Cuca e o beligerante Pai do Mato; mas percebe-se que ficaram muitos outros monstros de reserva para o futuro. Por certo que Kastensmidt não contou tudo de propósito. Além das adaptações para os quadrinhos – cujo primeiro volume foi publicado pela Devir Livraria em 2014 –, aguarda-se para breve um jogo de tabuleiro no universo do livro que, tudo indica, ser fato inédito no Brasil. Além de escritor, Kastensmidt é especialista em jogos e o protótipo já está em fase de testes. Mais informações sobre isso podem ser obtidas no saite oficial do romance, aqui.
E, como não podia deixar de ser, A Bandeira do Elefante e da Arara já chamou a atenção de editores pelo mundo. Recentemente, a editora espanhola Sportula licenciou a série para o espanhol, sendo este o sétimo idioma que a Bandeira vai falar: ela já tem traduções para chinês, tcheco, romeno e holandês, além do inglês e o português, é claro.
Por tudo isso é que A Bandeira do Elefante e da Arara é um livro obrigatório não só para os que gostam de boas aventuras, mas também para que autores e editores descubram que não há nada de errado com a mitologia brasileira. Assim como os nomes dos personagens em português, que ainda é tabu para alguns autores brasileiros, a cultura, os cenários, a história e a mitologia nacionais são ambientes ricos e interessantes, que devem e precisam ser melhor aproveitados.
Longa vida a A Bandeira do Elefante e da Arara!