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domingo, 1 de setembro de 2019

Os vencedores do argos 2019

No dia 13 de julho, durante a Flip em Paraty, o Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC realizou a cerimônia de entrega da edição 2019 do Prêmio Argos, que apontou, na opinião de seus membros, os melhores trabalhos nacionais publicados no Brasil em 2018 (para todos os finalistas, leia aqui).
Na categoria Romance, o vencedor foi A mão que pune: 1890, de Octavio Aragão, publicado pela Editora Caligari. Na categoria Conto, venceu "Sombras no coração", de Marcelo Galvão, publicado na coletânea Lovecraftiano vol. 1, edição de autor. E na categoria antologia, a escolhida foi Fractais tropicais, organizada por Nelson de Oliveira para a Editora SESI-SP.
Parabéns ao vencedores!

terça-feira, 21 de maio de 2019

Vencedores do prêmio LeBlanc 2019

No dia 9 de maio aconteceu a entrega da segunda edição do Prêmio Le Blanc para os melhores trabalhos de 2018 nas categorias literatura fantástica, quadrinhos, animação e jogos. A entrega aconteceu durante a Semana Internacional de Quadrinhos (SIQ) na Escola de Comunicação da UFRJ. Eis os vencedores:

Romance nacional: 
Vencedor: Auto da maga Josefa, Paola Lima Siviero, Editora Dame Blanche.
Finalistas: Araruama: O livro das raízes, Ian Fraser (Moinhos); Vera Cruz: sonhos e pesadelos, Gabriel Billy (Avec).
Antologia nacional: 
Vencedor: Fractais tropicais, Nelson de Oliveira, org., Sesi-SP Editora.
Finalistas: Aqui quem fala é da Terra, André Caniato e Jana Bianchi, orgs. (Plutão); Narrativas do medo II,  Vitor Abdal, org. (CopaBooks).
Romance traduzido:
Vencedor: Despertar, Octavia Butler, Editora Morro Branco.
Finalistas: Fogo e sangue, George R. R. Martin (Suma); Hex, Thomas Olde Hevelt (DarkSide); Outsider, Stephen King (Suma).
Antologia traduzida: 
Vencedor: Crônicas de espada e feitiçaria, Gardner Dozois, Editora LeYa Brasil.
Finalistas: Conan, o Bárbaro, livro 2, Robert E. Howard (Pipoca & Nanquim); Edgar Allan Poe Vol. 2 (DarkSide); Sonhos elétricos, Philip K. Dick (Aleph).
Quadrinho independente nacional:
Vencedor: The guardian: Em busca da luz, Gustavo Piacentin. 
Finalistas: Lama, Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo. Rio Negro 2, Ikarow Waxwings.
Quadrinho nacional: 
Vencedor: Bartolomeu, Victor Moura, Editora Caligari.
Finalistas: Delirium tremens, Raphael Fernandes (Draco); Justiça sideral: Recomeços, Deyvison Manes e Netho Diaz (Avec).
Quadrinho traduzido:
Vencedor: Mort Cinder, Alberto Breccia, Editora Figura.
Finalistas: Paraíso perdido, John Milton e Pablo Auladell (DarkSide); Um pedaço de madeira e aço, Christophe Chabouté (Pipoca & Nanquim)
Série de tiras nacional: 
Vencedor: Mar menino, Paulo Moreira.
Finalistas: Pocketscomics, Renato Lima; Tê Rex: Spoilerfobia, Marcel Ibaldo; Um sábado qualquer, Carlos Ruas.
Animação nacional:
Vencedor: Superdrags, Combo Estúdio.
Finalistas: Biduzidos (Copa Studio/Mauricio de Sousa Produções); Irmão do Jorel (Copa Studio/Cartoon Network Brasil)
Animação longa: 
Vencedor: Tito e os pássaros, Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar & Andre Catoto Dias. (unanimidade)
Animação nacional curta:
Vencedor: Gravidade, Amir Admoni.
Finalistas: Lé com Cré, Cassandra Reis; Por um som orgânico, Fábio Purper Machado; O homem na caixa, direção Ale Borges, Alvaro Furloni e Guilherme Gehr; Trip & Treasure, Estúdio Escola de Animação/Baluarte Cultura e Copa Studio.
Animação publicitária: 
Vencedor: "A queda", Zombie Studio/Hospital do Amor.
Finalistas: "Aquarela", DAVID São Paulo/Faber Castell; "Defenda-se", Centro Marista de Defesa da Infância; "Deus salve o rei", Direção Alexandre Romano, Flavio Mac/Rede Globo; "Você faz acontecer", Zombie Studio/Bradesco.
Jogo nacional mobile:
Vencedor: Dandara, Raw Fury.
Finalistas: Let’s zeppelin, Gazeus Games; Until dead think to surviv, Monomyto Game Studio.
Jogo nacional console:
Vencedor: Sword Legacy: Omen, Firecast Studio; Fableware: Narrative Design.
Finalistas: Akane, Ludic Studios; Dandara, Raw Fury.

O Prêmio Le Blanc é uma promoção da Escola de Comunicação da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA).
Parabéns aos vencedores!

sábado, 30 de março de 2019

Prêmio Le Blanc 2019

Está rolando a votação da segunda edição do Prêmio Le Blanc, promovido pela Universidade Veiga de Almeida em associação com a Escola de Comunicação da UFRJ.
A ação pretende apontar os melhores trabalhos de 2018 nas categorias Literatura Fantástica, Animação, Histórias em Quadrinhos e Games.
A primeira fase da apuração acontece através de uma votação popular pela  internet. Para participar basta clicar na categoria e informar o nome e o email. Não há lista de indicados, a votação é livre e sem qualquer restrição. As únicas regras são: só valem obras publicadas em 2018 e será contabilizado apenas um voto por email em cada categoria.
Os votos serão recolhidos até o dia 14 de abril e os nomes mais votados serão analisados por uma comissão que determinará os vencedores.
O resultado será divulgado no dia 9 de maio de 2019 durante a Semana Internacional de Quadrinhos-SIQ que acontece de 7 a 10 maio na cidade do Rio de Janeiro.

terça-feira, 12 de março de 2019

Prêmio Aliens 2018

O canal Livro Voador Não Identificado, editado por Letícia de Pinho da Silva, organizou e divulgou, há poucas semanas, o resultado da edição 2018 do seu prêmio Aliens para os melhores da literatura de gênero, numa ação realizada entre leitores da plataforma digital Wattpad.
São mais de vinte categorias que, além dos modelos recorrentes da literatura de gênero – policial, terror, fantasia e distopia (também conhecida como ficção científica) –, contemplam o erótico, o dramático e a ficção em geral, embora eu não tenha entendido bem o que isso significa, uma vez que o prêmio também há uma categoria para melhor livro do ano. Há ainda categorias para antologias, ebooks, histórias em quadrinhos, contos publicados como títulos independentes e no próprio Wattpad, além de categorias para melhores autores, capas, vilões e demais protagonistas.
Com tantas categorias em um ambiente tão restrito, foi inevitável repetir o vício de prêmios similares do fandom: recorrência de títulos e o predomínio de uma editora em detrimento de um universo que é muito mais variado, o que revela a segmentação e a impermeabilidade que existe entre os segmentos do fandom e prejudica a representatividade dessas promoções.
A editora afirmou que recebeu cerca de 2000 votos e em sua fanpage apresentou uma série de belos gráficos com alguns dados da promoção. Ainda que não seja uma estatística muito transparente, é bem mais do que os similares fazem e merece congratulações pelo esforço.
A premiação foi divulgada num programa exibido em 11/02/2019, que pode ser conferido aqui.
São estes os vencedores:
Livro
1- Teu pecado, Wellington Budim, Editora Constelação
2- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
3- 2084: Mundos cyberpunks, Lidia Zuin, org., Editora Lendari
Ficção 
1- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
2- 2084: Mundos cyberpunks, Lidia Zuin, org., Editora Lendari
3- Creepy pastas: lendas da internet, Glau Kemp, org., Editora Lendari
Antologia
1- 2084: Mundos cyberpunks, Lidia Zuin, org., Editora Lendari
2- Creepy pastas: lendas da internet, Glau Kemp, org., EditoraLendari
3- Daemonum sigilum: As crônicas da Goécia, Raul Dias, org., Editora Hope
Fantasia
1- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
2- Declínio do reino, Lucas Hargreaves, Editora Sinna
3- Guardiões de sonhos: As portas dos pesadelos, Walter Niyama, Editora Coerência
Terror
1- Creepy pastas: lendas da internet, Glau Kemp, org., Editora Lendari
2- O riso da morte, Débora de Mello, do autor
3- O mistério de Max Owen, Ariel Gomes, do autor
Distopia
1- A missão, Stefani P. Paludo, Editora Hope
2- A ponte, Carol Peace, Editora Lendari
3- O dom da lágrima, Thomas Oden, do autor
Policial
1- Teu pecado, Wellington Budim, Editora Constelação
2- Inferno no Ártico, Claudia Lemes, do autor
3- A seita, Francinaldo Lacerda, Editora Lendoas
Drama
1- A missão, Stefani P. Paludo, Editora Hope
2- Pequena ajuda, Guinho Monteiro, Editora Sinna
3- Uma ilha no Atlântico, Day Fernandes, do autor
Hot
1- Impossível te esquecer, Laurih Dias, do autor/Diário secreto, Marcos Well, do autor
2- Garoto de sorte, Jadi Sand, do autor
3- A redenção, Janice Ghsleri, do autor
Ebook
1- Noite de festa, Mario Bentes, Editora Lendari
2- Suprema, Danilo Morales, do autor
3- Promessa, Ester Baldus, Editora Anjo
Conto de edição independente
1- O dom da amizade, Diego Canuto, do autor
2- A ponte, Carol Peace, Editora Lendari
3- Sencientes, Day Fernandes, do autor
Revelação do Wattpad
1- A liberdade que limita, Stefani P. Paludo
2- Inimigos mortais, J. C. Gray
3- Canções submersas, Lia Cavaliera
Quadrinhos
1- Manual para dias cinzentos, Guilherme Infante, Editora Pulp
2- Ângulo de vista, Rafael Fritzen, Editora Lendari
3- Tirinhas do Rex, Lucas Moreira, Editora Lendari
Capa
1- Teu pecado, Wellington Budim, Editora Constelação
2- Declínio do reino, Lucas Hargreaves, Editora Sinna
3- As sombras de Arkron, Diego Canuto, do autor
Autor
1- Paola Giometti
2- Stefani P. Paludo
3- Lucas Hergreaves
Autor revelação
1- Wellington Budim
2- Stefani P. Paludo
3- Carol Peace
Vilão
1- A missão, Stefani P. Paludo, Hope
2- Declínio do reino, Lucas Hargreaves, Editora Sinna
3- A liga dos corações puros: A chama, Cesar Dabus, Editora Chiado
Personagem principal
1- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
2- A missão, Stefani P. Paludo, Editora Hope
3- Filhos do fogo: Sangue de dragão, Denis Ibañez, Editora Luva
Personagens secundários
1- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
2- A missão, Stefani P. Paludo, Editora Hope
3- Declínio do reino, Lucas Hargreaves, Editora Sinna
Casal
1- Uma ilha no Atlântico, Day Fernandes, do autor
2- O mistério de Max Owen, Ariel Gomes, do autor
3- Declínio do reino, Lucas Hargreaves, Editora Sinna
Amizade
1- Drako e a elite dos dragões dourados, Paola Giometti, Editora Lendari
2- A missão, Srefani P. Paludo, Editora Hope
3- Uma ilha no Atlântico, Day Fernandes, do autor
Parabéns aos vencedores e ao canal Livro Voador Não Identificado, pela iniciativa.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O ciclo do Yig

Conforme anunciado aqui em abril de 2018, já está disponível O ciclo do Yig, coletânea de contos de H. P. Lovecraft que a editora independente Clock Tower viabilizou através de uma campanha de financiamento coletivo.
Com tradução de Daniel Iturvides Dutra, o volume tem 152 páginas e traz os textos inéditos no Brasil "A colina", "A maldição de Yig" e "Vindo dos éons" – que Lovecraft escreveu como autor-fantasma –, ilustrações exclusivas de Élson Félix, o artigo "Yig: o pai das serpentes e sua origem", assinado pelo tradutor, além de uma carta do cavalheiro de Providence à Zealia Bishop, escritora a quem foi creditada originalmente a autoria dos textos aqui publicados; somente em 1989 é que a real autoria de Lovecraft foi revelada. A edição é bem acabada, impressa em papel pólen e tem capa em cores com laminação brilhante. Uma peça de colecionador para os fãs do mestre do horror cósmico.
O livro já pode ser adquirido através do saite da editora, aqui.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Heróis de Novigrath

Heróis de Novigrath, Roberta Spindler. 296 páginas. São Paulo: Companhia das Letras, selo Suma, 2018.

Jogos que se confundem com a realidade formam um grupo tão grande na ficção fantástica recente que bem poderiam constituir um novo subgênero. Há histórias de jogadores que entram fisicamente no jogo, jogos que invadem a realidade, jogos reais ao estilo reality show quase sempre mortais, jogos que interagem com a realidade de formas mais ou menos sutis, e até jogos que parecem ser só jogos, mas na verdade são interfaces de realidade, mas só saberemos isso no momento propício.
Na ficção estrangeira, algumas dessas histórias tornaram-se grandes sucessos, como O jogo do exterminador de Orson Scott Card, Jogos vorazes de Suzanne Collins, Simulacron-3 de Daniel F. Galouye, Jumanji de Chris Van Allsburg, Jogador nº1 de Ernest Cline, e também no cinema, com Tron: Uma odisseia eletrônica, Zathura: Uma aventura espacial, Rollerball: Os gladiadores do futuroCorrida da morte: Ano 2000 e O último guerreiro das estrelas, entre outros. No Brasil o tema também já rendeu, como as séries 3% (Netflix)  e Supermax (Globo), e o excelente romance O jogo no tabuleiro, de Simone Saueressig, comentado aqui.
Então, da mesma forma que em outros subgêneros muito explorados, como a alta fantasia, a ucronia e a space opera, por exemplo, a  originalidade não é um aspecto tão importante também nessa área. Há muito que os fundamentos e protocolos desses modelos recorrentes na fcf já estão em domínio público, e ninguém vai reclamar se a ideia é mais ou menos parecida com essa ou aquela. Portanto, no meu modo de ver, não há nenhum problema quanto a isso em Heróis de Novigrath, segundo romance da escritora paraense Roberta Spindler, que estreou em 2014 com o romance de ficção científica A torre acima do véu (Editora Giz).
No livro, Heróis de Novigrath é um mundialmente popular jogo MMORPG – Massively Multiplayer Online Role-Playing Game –, encarado como esporte profissional com campeonatos disputadíssimos (tal como acontece na realidade com as franquias League of Legends e World of Warcraft).
Produzido pela megacorporação Noise Games, Heróis de Novigrath apresenta um cenário de guerra medieval na qual digladiam personagens mágicos de duas castas opostas: os Defensores de Lumnia e os Filhos de Asgorth. Como fica logo evidente, os primeiros representam o bem, e os outros, o mal. Devido a extrema devoção de seus usuários, o universo do jogo adquiriu existência numa realidade paralela, mas os Filhos de Asgorth não estão satisfeitos com essa condição e cobiçam a materialidade do mundo dos homens. Para atingir seu intento, absorvem a energia dos jogadores online e, com esse aporte de poder, predominam em seu universo sobre os Defensores de Lumnia. Estes, por sua vez, para frustrar os planos malignos de seus adversários, enviam à Terra um de seus campeões, o guerreiro Yeng Xiao, com a missão de selecionar uma equipe de cinco jogadores humanos com talentos especiais que possam impedir os Filhos de Asgorth de vencer o campeonato mundial do jogo pois, caso uma das equipes de Asgorth vença, a energia acumulada de bilhões de torcedores dessa casta do mal abrirá uma passagem através da qual as hordas invadirão a Terra, trazendo ao nosso mundo todos os horrores do jogo.
A história é contada a partir da visão de Pedro (codinome Epic), ex-jogador de Heróis de Novigrath, caído em desgraça depois de um escândalo num antigo campeonato sul-americano. Apesar de decadente, Pedro é escolhido por Xiao para ser o técnico da equipe de Lumnia, a Vira-Latas. Orientado pelo guerreiro virtual, Pedro convoca seus jogadores: o jovem fenômeno Cristiano (codinome Fúria, décimo no ranking brasileiro), a vestibulanda Samara (Titânia, igualmente bem ranqueada), a universitária Aline (NomNom) e os irmãos gêmeos Pietro e Adriano (Roxi e LordMetal, respectivamente).
O romance se divide em três partes principais. Na primeira, acompanhamos a montagem da equipe: os jovens se estranham e têm conflitos pessoais e coletivos que levam o técnico Pedro aos limites de sua curta paciência. A segunda parte mostra a campanha da Vira-Latas no Campeonato Brasileiro, quando os jogadores são testados em combate e têm de se entender ou morrer. A cada nível superado, os protagonistas amalgamam mais profundamente seus avatares no jogo, ao ponto de não só experimentarem uma interface totalmente imersiva durante as partidas, mas também manifestarem seus poderes fora do jogo, no mundo real, para se defenderem de entidades de Asgorth que os atacam. Na parte final, acompanhamos a Vira-Latas no campeonato mundial, na Coreia do Sul, quando terá de enfrentar sua nêmesis, a poderosa equipe dos Espartanos, dirigida por Yuri, o maior jogador de Novigrath que existe.
A autora é competente em retratar a evolução técnica e psicológica dos personagens que, de uma equipe desorganizada e insegura, torna-se uma máquina de combate bem azeitada. Há bons dramas humanos para temperar a narrativa e alguma ousadia, como a presença de um personagem homossexual entre os protagonistas, o que tem sido recorrente nos livros de fcf nacionais publicados pela Suma. Também foi uma boa sacada o uso de uma pletora de termos técnicos que deu autenticidade ao ambiente ficcional. Desconheço se o jargão é efetivamente usado pelos gamers na vida real; se não for, o trabalho de construí-lo é algo realmente admirável. A edição da Companhia das Letras/Suma é bem cuidada e praticamente não tem erros.
Não se deve esperar surpresas e viradas dramáticas, pois a história é simples, claramente maniqueista, linear e fechadinha, muito bem estabelecida como literatura de entretenimento infanto-juvenil, que se desenrola diante do leitor como um filme da sessão da tarde. Longe de ser um problema, este é justamente o maior mérito de Heróis de Novigrath, pois a contínua formação de leitores para o gênero é fundamental. Roberta Spindler vem assim se juntar a outros valentes autores de literatura fantástica infanto-juvenil, como Rosana Rios, Miguel Carqueija,  Helena Gomes, a já citada Simone Saueressig, entre outros. Esta literatura precisa ter lugar de destaque nas estantes das livrarias porque, sem os jovens leitores hoje, não haverá leitores adultos amanhã.
Mas nada impede que leitores maduros também se divirtam com Heróis de Novigrath. Eu gostei e recomendo.

Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção

Meu velho amigo, o escritor e roteirista Sid Castro, chamou minha atenção para o interessantíssimo romance Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção, de Fernando Fontana, escritor do interior de São Paulo, mais exatamente na região de Catanduva. Lançado em agosto de 2018, é o primeiro livro do autor, um drama policial e político num panorama de ficção científica ao estilo noir. Conta a história de um detetive de um Brasil alternativo no qual existem pessoas com superpoderes, mas não necessariamente super-heróis.
Diz a sinopse de divulgação: "Após um evento traumático, o detetive Lucca Carrara deixa o Departamento de Crimes Supranormais (DCS), e se transforma em um homem amargurado, com um passado questionável, vivendo em um país onde os assuntos do momento são o futebol, a corrupção e os super-heróis. Seus maiores amigos são o cigarro, a cerveja e o falecido escritor Charles Bukowski, com quem ocasionalmente conversa em seus delírios. Com a conta sempre no vermelho, e sem alternativa, ele aceita investigar um possível caso de adultério, envolvendo o Patriota, o maior e mais famoso super-herói do país, árduo defensor da moral e dos bons costumes, amado por muitos e protegido por um governo atolado em um mar de lama. Enquanto isso, no céu do país, as incrivelmente poderosas super-heroínas Justiça Escarlate e Miss Liberdade, mortais inimigas, lutam uma contra a outra em uma batalha que não parece ter fim, devastando quarteirões inteiros, e ignorando completamente os crimes que são cometidos ao seu redor. Um agente do Departamento de Crimes Supranormais procura por um vilão, que pode ser o principal responsável por uma terrível epidemia de estupidez que se alastra pela nação. Uma mulher invisível é ignorada. Um profeta lidera uma Cidade sem Nome. O mago mais poderoso do mundo transa com ele mesmo. É um mundo insano onde as leis da física foram abolidas. Em sua investigação, Carrara se envolverá em uma trama cada vez mais complexa e perigosa, colidindo com os interesses de homens poderosos, vilões que não vestem roupas coloridas e espalhafatosas, uma legião do mal com terno e gravata importados, capazes de qualquer coisa para manter a posição que conquistaram. Para enfrentá-los, contará com a ajuda de uma prostituta com super poderes, um indigente voador, um ex-super-herói com corpo blindado e do homem mais sortudo do mundo. Ainda assim, as chances estarão contra ele."
Os próximos projetos de Fontana são uma novela gráfica no mesmo universo do romance (com roteiro de Sid Castro e desenhos de Ivan Lima) e um novo romance que terá o instigante título Procura-se Elvis vivo ou morto, que conta como Elvis foi encontrado numa pequena cidade do interior paulista, cuja prefeita é a Morte.
Deus, o diabo e os super-heróis no país da corrupção tem 266 páginas e é uma publicação da editora Viseu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Enterre seus mortos

Enterre seus mortos, Ana Paula Maia, 134 páginas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Edgar Wilson tem um emprego peculiar: ele participa de uma equipe de trabalhadores que recolhe animais mortos das estradas e vicinais de uma região genérica no interior do país. Seu trabalho é dirigir a caminhonete da empresa ao local para onde os atendentes determinam, recolher as carcaças e levá-las para a sede da empresa, onde serão processadas num grande moedor para serem transformadas em adubo. Seu colega de trabalho é Tomás, um padre excomungado que, além de coletor de corpos, dá atendimento espiritual aos moribundos e nos acidentes que eventualmente atendem. A vida deles está longe de ser um mar de rosas: além do serviço medonho, cada um tem sua própria dor para carregar.
Mesmo assim, Edgar Wilson é um funcionário dedicado, que recolhe toda coisa morta que se lhe aparece pelo caminho. E é por causa desse hábito pouco saudável que se envolve numa complicada trama de assassinato e corrupção, ao encontrar o corpo de uma mulher enforcada no meio do mato.
Ninguém parece querer o defunto. Não há família procurando pela falecida, a polícia está sem condições de investigar a morte e o IML local não tem uma viatura para transportar o cadáver. Por achar uma indignidade deixar o corpo ser devorado pelos animais selvagens, Edgar Wilson decide guardá-lo no velho frízer sem uso no galpão da empresa, pelo menos até que a polícia possa vir buscá-lo. Mas os dias passam e nada das autoridades fazerem sua obrigação.
Para piorar ainda mais a situação, outro cadáver, desta vez de um homem, vem se juntar ao primeiro. Quando o frízer repentinamente para de funcionar, Edgar Wilson é intimado pela gerência da empresa a dar um destino aos dois corpos. Ainda incomodado com a possibilidade de não dar aos cadáveres um destino digno, Edgar e Tomás colocam os corpos no porta-malas de uma caravan e decidem levá-los eles mesmos para o IML da cidade. E é aí que os problemas realmente vão se complicar.
Esta é a história que a escritora Ana Paula Maia conta em seu sétimo romance Enterre seus mortos, publicado em 2018 pela Companhia das Letras. Nascida em Nova Iguaçu em 1977, Ana Paula estreou com o romance O habitante das falhas subterrâneas, publicado em 2003 pela Editora 7 Letras. Também é autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009), Carvão animal (2011) e Assim na terra como embaixo da terra (2017), entre outros romances que já ganharam edições na Alemanha, França, Itália, Estados Unidos, Espanha, Sérvia e Argentina. É, portanto, uma autora experiente, que domina bem as ferramentas narrativas. Seu estilo é brutalista e cruel, mas não chega a ser aterrorizante neste Enterre seus mortos, embora seja no terror que pareça mais adequadamente classificar este trabalho, embora a história tenha fortes aspectos de policial e até de faroeste.
Seguindo o conselho do mestre do horror Stephen King, na ausência do clima evidente de terror e de um monstro apavorante, Ana Paula evoca a escatologia e a morbidez com todo o requinte de seu arsenal, para causar nojo no leitor. Para obter resultados mais efetivos, associa as descrições de estripamentos e cheiros nauseantes aos alimentos que Edgar e Tomás consomem o tempo todo. Contudo, o efeito não é plenamente atingido e não incomoda a leitura, que progride com rapidez e leveza pois, de fato, Enterre seus mortos não é um romance, mas uma novela: é possível lê-la de cabo a rabo em pouco mais de duas horas.
Apesar do estilo naturalista, parece inadequado classificar a história como realista, devido a uma certa fabulação mais associada ao absurdismo e ao realismo fantástico. Isso porque, além da natureza improvável do trabalho de Edgar Wilson, e do fato das aves necrófagas serem insistentemente chamadas de abutres embora a história seja evidentemente passada no Brasil (o que temos aqui são urubus, que são de uma outra família), é um tanto bizarro que numa região onde nenhuma instituição funciona, na qual nem o IML nem a polícia cumprem suas obrigações fundamentais, um indivíduo de nuances marginais, fazendo uso irregular do equipamento de uma empresa privada que, contra todos os prognósticos, funciona com competência, faça sozinho e sem qualquer supervisão aquilo que é trabalho das autoridades. Numa perigosa leitura política, esse conceito legitima o discurso do neoliberalismo, que acusa o Estado de ser uma máquina funcional unicamente para promover corrupção, justifica a ação individual e condena toda a ação pública. Ainda bem que isso é apenas ficção e nunca aconteceria na vida real...
Quem tiver estômago fraco talvez não suporte bem a leitura de Enterre seus mortos, mas acredito que vale o esforço, pois o texto correto é fluido de Ana Paula Maia é muito bom e justifica plenamente a aventura. Para os especialistas, é um sopro de ar – ainda que não tão fresco, no caso – na recorrência de temas e estilos da nossa ficção fantástica.

sábado, 19 de janeiro de 2019

O elefante desaparece

O elefante desaparece (Zô no shômetzu), Haruki Murakami. 304 páginas. Traduzido do japonês por Lica Hashimoto. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Publicado originalmente em 2013 no Japão.

Uma vez perguntaram ao fantasista goiano José Veiga de onde ele tirava suas ideias fantásticas. Ele respondeu, um tanto contrariado, que o que escrevia não era fantasia, era a pura realidade. De igual modo, perguntaram ao então quadrinhista (hoje escritor) Lourenço Mutarelli como ele havia desenvolvido o estilo caricato de suas ilustrações. Muito espantado, ele respondeu que seu desenho era realista, pois desenhava as coisas exatamente como eram.
Estas duas histórias são perfeitas para ilustrar a sensação de ler os escritos de Haruki Murakami, com uma pequena mas importante diferença: tudo é perfeitamente real em sua ficção mas não parece certo, algo que não pode ser perfeitamente percebido, que nunca se apresenta mas causa uma contínua tensão de estranhamento, muitas vezes beirando o insuportável. Por isso, sua ficção não é de fácil leitura e ainda mais difícil de interpretar.
Murakami nasceu em Kyoto em 1949 e é um dos mais importantes autores japoneses vivos. Continua morando no seu país natal, próximo a Tóquio, e entre seus livros mais famosos estão Kafka à beira-mar, Crônica do pássaro de corda e a série 1Q84, considerada uma legítima história de ficção científica.
O elefante desaparece é uma coletânea de 17 contos que pode servir bem como entrada à obra de Murakami, tanto para o leitor que não gosta de fantasia, uma vez que os textos do autor são muito naturalistas, muitas vezes nas franjas da crônica urbana, como para o leitor experiente que cansou dos protocolos recorrentes da fantasia convencional. Muitas histórias tem um clima tão intimista que parecem confissões do autor. Apenas uma e outra flertam mais descaradamente com o fantástico, como veremos a seguir.
"O pássaro de corda e a mulher da terça-feira" é uma dessas quase crônicas. Um homem que perdeu o emprego há poucos dias é incumbido pela esposa de encontrar o gato fugido. Na modorra de uma tarde ensolarada, ele busca o animal pelo beco que une os quintais da vizinhança – é impossível não visualizar a típica arquitetura urbana japonesa nessa hora – e acaba tendo um encontro inesperado com uma vizinha.
"O segundo assalto à padaria" é uma pérola. Um casal, assolado por uma fome desproporcional durante a madrugada, decide roubar pães de uma padaria. Mas, pelo avançado da hora, os dois não encontram nenhuma aberta. Então resolvem assaltar uma lanchonete 24 horas.
"Mensagem do canguru" é narrado em forma de epístola, na qual o funcionário do serviço de atendimento ao cliente de uma loja de departamentos, impressionado pela qualidade do texto de uma carta de reclamação declara seu amor à cliente desconhecida. O nível de psicose do funcionário faz com que o conto soe como prelúdio a história de terror.
"Sobre uma garota 100% perfeita que encontrei em uma manhã ensolarada de abril", é outra quase crônica, na qual um homem se impressiona com uma garota que viu na rua, mas não consegue falar com ela.
"Sono" conta a história de uma dona de casa que, depois de um sonho perturbador, deixa de dormir e passa a ter uma vida paralela à noite, enquanto sua família dorme.
"A queda do Império Romano, Rebelião indígena de 1881, Hitler invade a Polônia, E o mundo dos vendavais", como o título já revela, é um texto fragmentário, formado pela junção de fatos que um homem encadeia num fluxo de pensamento a partir de situações cotidianas que funcionam como disparadores.
"Lederhosen" é um tanto mais convencional. Conta a história de uma senhora que empreende uma viagem à Europa e recebe do marido o pedido por uma autêntica lederhosen, vestimenta típica da Alemanha. A busca pela peça vai causar uma forte transformação na mulher.
"Queimar celeiros" é uma das melhores histórias do volume. Conta a história de um homem que confidencia ao amigo sua fixação por queimar celeiros abandonados, e o leva a também experimentar a sensação de incendiar as coisas.
"O pequeno monstro verde" é uma das histórias em que o fantástico se apresenta de forma mais evidente. Uma mulher, sozinha em casa, recebe em sua porta a visita de um monstrinho verde que emergiu das raízes de uma árvore, e ele pede sua mão em casamento. Mas ela não é uma boa mulher.
"Caso de família" é uma crônica sobre um casal de irmãos que moram juntos, mas são muito diferentes entre si. Ele é relaxado e libertino, ela uma donzela educada e casadora. O equilíbrio da relação é alterado quando ela parece com um pretendente.
"Homens da tv" é outra história em que a fantasia se destaca mais claramente. Um homem sonolento testemunha, durante a madrugada, a invasão de sua casa por um grupo de homenzinhos que instalam uma televisão em sua sala. Espantado demais para reagir, ele simplesmente deixa acontecer até que todos se retirem. Como se isso já não fosse suficientemente estranho, a tv não exibe nada além de ruído branco, e sua esposa, sempre tão detalhista, não percebe o aparelho interferindo na decoração. As coisas ficam ainda mais estranhas quando os homenzinhos aparecem também em seu local de trabalho e ninguém além dele parece se dar conta dos estranhos invasores.
"Lento barco para a China" é o relato de um homem maduro sobre como conheceu seus primeiros chineses, dentre os quais uma jovem pelo qual se apaixonou, mas de quem se perdeu numa situação infeliz.
A fantasia volta a se declarar em "O anão dançarino", um conto de fadas sombrio e de matiz político, em que o sonho com o tal anão torna-se um fardo difícil de carregar.
"O último gramado ao entardecer" é um relato singelo mas repleto de tensão, em que um homem rememora sua juventude quando, demissionário em um emprego de aparar gramados, vai atender seu último cliente.
"Silêncio" tem o jeitão de um conto de Stephen King e começa com a pergunta: "Você já deu um soco em alguém durante uma briga?" A partir dessa questão, um homem relata ao amigo uma dura experiência sobre bulling e violência na escola que decerto ecoa naqueles que passaram por situações dessa natureza.
O volume fecha com o conto que dá nome a coletânea, uma história de realismo mágico, sobre o desaparecimento inexplicável – ou quase – do velho elefante e seu tratador no zoológico da cidade.
O elefante desaparece não é um livro divertido e de forma alguma deve ser tomado como uma leitura de entretenimento. Trata-se de uma leitura intimista, muitas vezes dolorida, mas não deixa de ser prazerosa devido as cores e sabores do Japão moderno que, sem deixar de ser singular, em muitas coisas é como qualquer outro lugar. Murakami mostra que é um grande mestre em manipular as emoções, sem pieguismos e sem receitas de bolo. Apesar da distância e da ausência metalinguística, arrisco comparar a experiência em ler sua ficção curta com a leitura de Jorge Luiz Borges pela profundidade dramática e o vigor criativo e narrativo.
É possível ensinar alguém a escrever bem. Mas para escrever como Murakami, é preciso ser Murakami.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Fractais tropicais

Lançada ainda em 2018, mais exatamente no dia 19 de dezembro, pela editora SESI-SP, a antologia Fractais tropicais propõe ser um panorama representativo da aventura de produzir literatura de ficção científica no Brasil a partir do elencamento de seus principais textos na opinião do organizador, o também escritor Nelson de Oliveira. Conhecido como importante antologista das recentes gerações de escritores no Brasil nos livros Geração 90 e Geração Zero Zero, assim como por seus próprios trabalhos, como os premiados O filho do crucificado e Poeira: Demônios e maldições, entre outros, Oliveira também se tornou ele mesmo um autor de ficção científica, gênero que observa ser a alternativa mais favorável à crise de criatividade da literatura brasileira.
Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da fc nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das "Ondas" de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos do gênero. Dessa forma, o volume se divide em três partes correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de fc.
Dessa forma, o volume se inicia com a "Terceira Onda", formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah; Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Brás (heterônimo do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.
Na "Segunda Onda", também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou textos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.
Finalmente, a "Primeira Onda", com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronimo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.
Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais gêneros da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a fc continua sendo o Clube do Bolinha da literatura, fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos do gênero, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.
Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

A mão que pune

Depois de um prolongado hiato (seu último livro, Reis de todos os mundos possíveis, foi publicado em 2013 pela Draco), o professor e escritor carioca Octavio Aragão, que muitos conhecem como o pai do universo compartilhado Intempol, retornou em 2018 com o romance A mão que pune: 1890, pela Caligari, selo da Editora CJT, do Rio de Janeiro. Trata-se de uma ficção científica de contorno steampunk, que mistura ficção alternativa e história alternativa em uma aventura pulpesca movimentada no mesmo ambiente de seu primeiro romance, A mão que cria (Mercuryo, 2006).
Diz o texto da contracapa: "A missão de Angelo Agostini e sua gangue de párias imaginários serve de eixo a uma jornada insólita. Dos céus do Brasil às catacumbas de Paris. Do presidente Júlio Verne ao Imperador D. Pedro II. De Mary Shelley a Machado de Assis. Entre a história e a fantasia, há muitos enigmas em A mão que pune". A introdução é assinada por Christopher Kastensmidt.
O lançamento oficial aconteceu no dia 30 de novembro último, no Rio, e o livro impresso pode ser encomendado aqui.

Literatura fantástica tem nova editora

A Editora Sromero inaugurou seu catálogo em 2018 com dois livros dedicados à ficção fantástica. Homo tempus, romance do engenheiro e mestre em Política Econômica F. E. Jacob, é uma ucronia, ou seja, uma história de viagem no tempo. Diz o texto de divulgação: "O romance levanta diversos questionamentos enquanto acompanha-se o bibliotecário Wallace Vidal em uma fascinante viagem acidental para o futuro. Nela, ele encontra ninguém menos que os Neandertais: nossos extintos irmãos pré-históricos, uma outra espécie de ser humano de cérebro maior e mais fortes que nós, vivendo simultaneamente com nossos descendentes homo sapiens".
O romance foi lançado oficialmente em Brasília e São Paulo no início de dezembro, mas estão programados eventos em Porto Alegre (10/1, das 18 às 21h, Centro Cultural Érico Veríssimo, R. dos Andradas, 1223) e durante o Seminário Literário de Rio Pardo/RS (11/1, das 9 às 12h, Centro de Ensino Amiga, R. São João, 462), quando também será apresentada As borboletas no muro do cemitério, fantasia infanto juvenil bilíngue de Rogério Lima Goulart, sobre um estudante que faz amizade com as borboletas. Os autores participarão de mesas do evento e conversarão com os leitores presentes.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A revolução dos bichos

A revolução dos bichos (Animal farm), George Orwell, adaptado e ilustrado por Odyr a partir da tradução de Heitor Aquino Ferreira. 178 páginas. São Paulo: Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia., 2018.

Há alguns anos, a adaptação de obras literárias para os quadrinhos tornou-se uma verdadeira febre no mercado editorial  brasileiro. Todos os anos, dezenas de títulos dessa linha chegam às livrarias, de olho na lucrativa possibilidade de entrar para o listão do MEC, ou seja, convencer o governo federal que era importante colocar o título a disposição dos estudantes nas bibliotecas escolares do país.
O governo foi o maior comprador desse tipo de publicação até que a crise econômica, política e moral que assola o país desde meados de 2015 atingiu o mercado editorial como uma bomba atômica: a bolha furou e impérios começaram a desmoronar, tanto das editoras como das livrarias. Toda a produção editorial foi impactada pela recessão econômica e com a forte redução das compras do governo, as adaptações – bem como todos os demais modelos narrativos – rapidamente perderam o espaço do qual gozavam.
Hoje, são raras as iniciativas de adaptações, por isso é de se admirar que a editora Companhia das Letras tenha investido nesta adaptação da famosa novela de George Orwell, A revolução dos bichos, um dos maiores clássicos da literatura universal, um libelo contra o autoritarismo que tanto a direita quanto a esquerda reivindicam para o seu próprio arcabouço.
Orwell, batizado como Eric Arthur Blair (1903-1950), era cidadão britânico nascido na Índia e cedo se encantou com as lutas revolucionárias. Passou sua juventude no submundo europeu entre dificuldades e privações, engajou-se na militância comunista e chegou a lutar na revolução espanhola contra o ditador Francisco Franco. Sua desilusão com os rumos do comunismo na Rússia o tornou um feroz crítico da capacidade humana de degradar tudo o que toca, do qual A revolução dos bichos, publicado em 1945, é o exemplo mais agudo, ao lado de outro de seus clássicos, o denso e aterrorizante 1984, publicado três anos depois.
A história, dividida em dez capítulos, conta como os animais de uma fazenda britânica, insuflados pelas ideias libertárias de um velho porco, empreendem uma revolução contra o proprietário alcoólatra e assumem o controle do lugar. Esses animais, é claro, têm certas faculdades intelectuais e realmente conseguem assumir o trabalho, mas terão de enfrentar duras batalhas contra o proprietário expulso, que tenta retomar a propriedade com a ajuda de homens do vilarejo. De vitória em vitória, sempre com muita dificuldade, os animais se impõem, mas as coisas complicam quando surgem as primeiras divergências internas: os porcos, líderes da revolta, entram em conflito entre si e daí advém o que sempre acontece quando o poder torna-se um fim em si mesmo.
É interessante ver sendo esboçados nesta história os conceitos de duplipensar – que iriam atingir grau máximo em 1984 –, como na máxima: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros", que talvez seja uma das frases mais famosas da literatura mundial, ao lado das citações shakespearianas "Ser ou não ser, eis a questão" e "Há algo de podre no reino da Dinamarca". A revolução dos bichos, assim como 1984, foi um dos livros mais levados pelos cidadãos brasileiros às urnas na última eleição presidencial, e os motivos são bastante óbvios.
Além do valor indiscutível desta obra, que é leitura obrigatória para estudantes em muitos países do mundo, a edição ganha o reforço luxuoso da narrativa em quadrinhos de Odyr, experiente ilustrador gaúcho de Pelotas que, num belíssimo estilo expressionista em cores brilhantes torna a já poderosa experiência literária ainda mais intensa. O cenário rupestre e a aparente beatitude dos animais da fazenda, dos quais conhecemos bem a mansidão, ganham contornos dramáticos que beiram o insuportável. Talvez se víssemos homens matando-se uns aos outros não percebêssemos o mesmo nível de crueldade. Para quem não leu ainda o livro de Orwell, esta adaptação de Odyr é uma bela introdução, que realmente motiva o leitor a buscar pelo texto original, um efeito raro em outras adaptações.
Se há uma adaptação literária que deveria obrigatoriamente figurar nas bibliotecas escolares, com certeza é esta. Se vai chegar a isso, é um destino que, neste momento, é muito difícil prever. Afinal, discursos contra o autoritarismo não costumam ser muito populares em regimes autoritários. Tomara que eu esteja enganado...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Os trinta melhores contos de Gerson Avillez

Gerson Avillez é um novo autor de ficção fantástica que tem focado sua produção na grande rede. Ele agora decidiu reunir seus melhores trabalhos na coletânea Os 30 melhores contos, organizada por ele mesmo e disponibilizada no saite Recando das Letras. A maioria dos textos foi anteriormente publicada na internet, mas também há algum material inédito. Além desta coletânea, outros livros do autor estão disponíveis no mesmo link.

Mitografias, Volume 2: Mitos de origem

Está disponível o segundo volume da antologia Mitografias, subtitulado Mitos de origem, com uma  seleta de catorze contos de fantasia organizada por Andriolli Costa, Leonardo Tremeschin e Lucas Rafael Ferraz. A publicação vem recomendada pelo Prêmio LeBlanc, entregue há alguns meses ao primeiro volume da série publicado em 2017, disponível em formato impresso aqui.
Como o nome diz, a antologia pretende refletir a respeito de um tipo bem específico de mito, que é aquele que trata das origens do mundo e dos homens. Os corajosos mitonautas são A.J. Oliveira, Andriolli Costa, Anna Fagundes, Caio Henrique, H. Pueyo, Isa Prospero, Jana P. Bianchi, Leonardo Tremeschin, Lucas R. Ferraz, Rafael Faramiglio Faiani, Rafael Guimarães, Rodrigo Ortiz, Simone Saueressig e Tiago Rech.
O volume é gratuito e está disponível aqui nas extensões pdf, epub e mobi.

Argos 2018

No dia 1 de dezembro de 2018 aconteceu a premiação do Argos 2018 para os melhores romances, coletâneas e contos publicados em 2017 na opinião dos membros do Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC. A entrega dos troféus aconteceu no Instituto Pallas Athena, em São Paulo, e foi precedida por uma pequena programação de palestras com participação de Carlos Orsi, Lidia Zuin, Cristina Lasaitis, Edgar Smaniotto, Antonio Stanziani, Alexey Dodsworth, Raphael Fernandes, Priscilla Lhacer, Camila Fernandes, Cadu Fonseca, presidente da Associação Mensa Brasil e Clinton Davisson.
O prêmio é apurado através de consulta pela internet aos membros do clube. Uma semana antes do evento, a comissão organizadora divulgou uma lista com os cinco títulos mais votados em cada categoria, mas o vencedor só foi conhecido no dia da entrega dos troféus. São eles:
Romance
Vencedor: Octopusgarden, Gerson Lodi-Ribeiro, editora Draco.
Segundo lugar: Araruama: O livro das sementes, Ian Fraser, Editora Moinhos. Terceiro lugar: Guanabara Real: A alcova da morte, A. Z. Cordenonsi,‎ Enéias Tavares e Nikelen Witter, Editora Avec. Demais finalistas: Ninguém nasce herói, Erick Novello, Editora Companhia das Letras, selo Seguinte; Ordem Vermelha: Filhos da degradação, Felipe Castilho, Editora Intrínseca.
Coletânea
Vencedor: Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto, Ana Lúcia Merege, org., Editora Draco.
Segundo lugar: Contos sombrios, Camila Fernandes, Editora Dandelion. Terceiro lugar: Trasgo vol. 1, Rodrigo van Kampen, org., Editora Trasgo. Demais finalistas: Antologia Mitografias vol. 1: Mitos modernos, Leonardo Henrique, Andriolli Costa e Lucas Ferraz, orgs., Editora Mitografias; Comboio de espectros, Duda Falcão, editora Avec.
Conto
Vencedor: A última balada de Bernardo, Fábio M. Barreto, Editora SOS Hollywood.
Segundo lugar: "O desejo de ser como um rio", publicado na coletânea O desejo de ser como um rio e outras histórias, Claudia Dugim, edição de autor. Terceiro lugar: O ouro de Tartessos, Ana Lúcia Merege, Editora Draco. Demais finalistas: "Era uma vez no oeste bizarro", Marcelo A. Galvão, publicado na antologia Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto, editora Draco; "Droneboy", Michel Peres, publicado na revista Trasgo 14, Editora Trasgo.
Congratulações a todos os vencedores e finalistas.
Diferente das edições anteriores, o Argos 2018 não entregou um prêmio pelo conjunto da obra e, como sempre, não divulgou a pontuação total dos finalistas, que permitiria uma análise mais apurada do resultado. Mas circulou a informação não oficial que foram recebidos cerca de 70 votos no total. Também não foi divulgado se houve premiação monetária como ocorrido em 2017.
Nota-se nas últimas edições do Argos uma forte tendência em premiar as publicações da Editora Draco e os trabalhos de autores ligados ao CLFC, óbvio reflexo do regulamento do concurso que exige que o votante seja associado ao clube para participar. Apesar de qualquer pessoa poder se filiar, fica evidenciado um componente corporativo que, se não desqualifica os resultados,  pelo menos enfraquece sua representatividade quando observado a partir do ambiente externo ao clube, especialmente no momento tão rico e plural que a fc&f brasileira tem experimentado recentemente.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Interferências

Interferências (Crosstalk), Connie Willis, tradução de Viviane Diniz Lopes. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2018.

Conheci o texto de Connie Willis no periódico Isaac Asimov Magazine (carinhosamente chamada de IAM), publicação tradicional nos EUA que teve 25 edições no Brasil nos anos 1990, pela editora Record. Ao lado de monstros da ficção científica recente, como Charles Sheffield, Kim Stanley Robinson, James Tiptree Jr., Geoffrey Landis, Bruce Sterling, Judit Moffet, George R. R. Martin e Lucius Sheppard, entre outros, Connie Willis era autora frequente e seus textos sempre interessantes e contundentes, como a novela “O último dos Winnenbagos” – publicado na edição número 11 de abril de 1991 e ganhador dos prêmios Hugo e Nebula –, sobre um casal idoso em viagem nas estranhas estradas do uma América futurista. Willis é uma das autoras mais premiadas de sua geração, com nada menos que sete Nebulas e onze Hugos no currículo (e contando).
Connie Willis é, então, uma paixão do passado. Se alguém diz que há uma nova história dela no mercado, meu coração já começa a bater mais forte. Ler Willis hoje é como voltar no tempo e reviver a emoção de ler uma IAM inédita. Velhos tempos.
Interferências, romance de 2016 traduzido no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras no selo Suma, é o segundo romance de Connie Willis no Brasil. O anterior foi O livro do juízo final, publicado pela mesma editora em 2017 e resenhado aqui. Fiquei um pouco receoso de que Connie não tivesse acertado a mão em Interferências, pois ouvi opiniões que davam conta de que esta não seria uma história de ficção científica, a especialidade da autora. Mesmo assim, confiava que o talento literário de Willis não me decepcionaria. Eu estava certo e as opiniões, erradas, é claro.
A história acompanha a confusão que se torna a vida de Briddey Flanningan, jovem executiva de uma indústria de celulares que aceita o pedido de Trent, seu noivo e chefe na empresa, para realizarem com um importante cirurgião da moda o implante de um tipo de chip cerebral que permitirá ao casal compartilhar as emoções um do outro e, dessa forma, ter uma relação mais intensa e transparente. Muitos casais felizes atestam as vantagens do procedimento, que é um tipo de prova de amor nesse futuro próximo, sendo uma operação simples e corriqueira, sem riscos à saúde. Mas essa não é a opinião de um dos colegas de Briddey, o engenheiro de desenvolvimento C.B., mais conhecido nos corredores da empresa como “Corcunda de Notre Dame” devido ao seu aspecto desengonçado e anti-social, sempre isolado em sua oficina no subsolo. C.B. usa todos os seus piores argumentos para demover Briddey de sua decisão pelo implante, apela até para um discurso de terror explícito dando exemplos de cirurgias aparentemente simples que levaram os pacientes a óbito, mas a jovem está convencida do amor de Trent e briga com C.B., pois acredita ele está com ciúmes e tentando sabotar seu sonho de conto de fadas.
Depois de uma verdadeira operação de guerra para evitar as fofocas no trabalho e as invasivas mulheres de sua família irlandesa, Briddey e Trent internam-se secretamente no hospital para receber o implante. Tudo vai bem até que a anestesia passa e Briddey descobre que alguma coisa deu muito errado com a cirurgia: em vez de sentir as ondas de amor emanadas por Trent, começa a ouvir em sua mente a voz de C.B., com quem agora têm um vínculo telepático. E isso é muito mais que um inconveniente, pois o que Trent vai pensar quando souber que sua amada tem com o “Corcunda de Notre Dame” uma ligação mais íntima que com ele próprio? Mas isso é só o início dos problemas de Briddey, pois o seu dom telepático pode colocar em perigo não só a si, mas a toda sua família, que é disfuncional mas a qual ela ama sinceramente.
A história tem, em boa parte, o tom de uma comédia romântica, e em alguns momentos iniciais realmente lembra o enredo do longa-metragem Do que as mulheres gostam (What women want, 2000). Mas é só superficialmente, porque Interferências tem um panorama efetivamente de ficção científica, com muitas teorias voando por todos os lados, com direito a conspirações e cientistas malucos que tornam a narrativa uma verdadeira montanha-russa. O tom humorístico é delicioso e raro tanto no trabalho de Willis – que geralmente é dramático – quanto no gênero da ficção científica de modo geral. Uma peça literária valiosa portanto.
E as epígrafes que abrem cada capítulo são um charme à parte, transcrevendo frases inspiradoras de filmes, seriados de tv e livros como Graça infinita, Artemis Fowl, Alice no País das Maravilhas, O jardim secreto e outros, que fazem o delírio dos fãs de citações.
Por tudo isso, Interferências é um livro que pode ser lido com prazer tanto pelo leitor veterano, fã de ficção científica, como também pelo leitor não especializado no gênero, incluindo aquele que acredita não gostar dele. Porque, no fim das contas, Connie conseguiu com louvor fazer aquilo que muitos perseguem sem sucesso: escreveu uma ficção científica para quem não gosta de ficção científica. E isso é um feito e tanto.

A assombração da Casa da Colina

A assombração da Casa da Colina (The haunting of Hill House), Shirley Jackson, Tradução de Débora Landsberg. 240 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2018.

Muitas vezes, conhecemos um clássico não pela obra original, mas por suas inúmeras adaptações. Mas é claro que as adaptações, por não serem obrigatoriamente idênticas ao original, tomam liberdades, mudam contornos e até alteram completamente seu conteúdo. Na maior parte das vezes, as adaptações não fazem justiça ao original e as exceções são raras.
Não foi diferente com relação a este romance de Shirley Jackson (1916-1965), escritora norte-americana que viveu de maneira reclusa e morreu jovem, aos 48 anos, tendo escrito uma porção de contos e uns poucos livros, geralmente associados ao gênero do horror, dentre os quais seu quinto romance, A assombração da Casa da Colina (1959), é o mais destacado. Apesar disso, sua obra é muito respeitada, sendo frequentemente creditada como influência por autores como Richard Matheson (1926-2013), Stephen King e Neil Gaiman. Contudo, foi pouco publicada no Brasil; além deste, somente está disponível o romance Sempre vivemos no castelo (We have always lived in the castle, 1962), publicado pela editora Companhia da Letras em 2017. E isso é bastante sintomático. Jackson trabalha temas incômodos e delicados, entre os quais a condição da mulher na sociedade. Finalmente, a Companhia das Letras decidiu traduzir e publicar esses dois títulos em edições luxuosas de capas duras, a altura de seu significado.
Mas o teor feminista é apenas um dos muitos atributos de sua arte. Jackson é senhora de um estilo limpo e elegante, de descrições vívidas, personagens bem construídos e uma sensibilidade emocional que impacta o leitor.
A história é conhecida dos brasileiros nas adaptações cinematográficas Desafio do além (1963, Robert Wise) e A casa amaldiçoada (1999, Jan de Bont). O filme de Wise tem uma proposta mais cerebral, próxima à ficção científica e com um desfecho que tudo explica de forma mais ou menos satisfatória. O de Bont é um festival de efeitos especiais em que a história é o que menos importa. Nenhuma delas prepara o leitor para a experiência emocional que é mergulhar nas páginas da narrativa literária. A mais recente adaptação do romance é uma série exclusiva do servidor de streaming Netflix, que dizem ser bastante fiel ao romance, mas isso é algo que ainda preciso conferir.
Acompanhamos a história pelos olhos da jovem desempregada Eleanor, que se inscreve para um projeto de pesquisa acadêmica de um tal Montague, doutor em filosofia que pretende estudar uma casa incomum próxima a Hillsdale. Ela vê nisso a oportunidade de encontrar um rumo para sua vida, depois da longa doença e morte da mãe da qual cuidava, o que comprometeu as chances de uma carreira mais precoce. Ao ser selecionada, Eleanor empreende uma corajosa viagem dirigindo seu próprio automóvel, chega ao vilarejo em que se encontra a mansão e, numa breve parada para um café, percebe de imediato a animosidade dos habitantes locais com relação ao lugar. Quando avista a construção pela primeira vez, fica angustiada com a aparência externa da casa. E fica ainda mais alarmada com a recepção feroz que recebe dos empregados do lugar, um casal de zeladores muito rudes e intimidadores. Mas, ao adentrar a mansão, fica impressionada com o luxo das dependências, que beira ao extravagante. Apesar de tudo, a casa é aconchegante e confortável, mas de uma arquitetura que confunde os sentidos.
Suas preocupações reduzem-se com a chegada dos outros membros da equipe de pesquisas: Theodora, garota segura e expansiva com a qual Eleanor se identifica de imediato; Luke, jovem herdeiro da mansão que participa do grupo por insistência dos proprietários, e o próprio dr. Montague, que parece muito mais interessado em curtir o luxo da residência do que realmente realizar uma pesquisa séria.
Depois de alguns dias, período em que os jovens passam a se conhecer e dominar a confusa estrutura da casa, que tem peculiaridades como portas que se fecham sozinhas, armários que se auto-organizam e áreas em que a temperatura é radicalmente contrastante com o ambiente ao redor. Mas o mais assustador são os acontecimentos noturnos, que parecem ameaçar a vida dos hóspedes, mas que não deixam quaisquer rastros: a casa sempre se recompõe depois de cada evento, deixando em todos a impressão de que tudo não passou de alucinação.
As coisas complicam quando chegam dois novos hóspedes: a sra. Montague e seu motorista. Agora percebemos por que o dr. Montague não parecia tão interessado na pesquisa: a verdadeira pesquisadora é a sua autoritária esposa, uma mulher de personalidade forte e dominadora, que acredita piamente em espíritos desencarnados e quer fazer contato com eles para poder “libertá-los” de sua sina. O trabalho, enfim, começa. Mas a casa tem outros planos e Eleanor parece fazer parte deles. E quando uma casa escolhe alguém, é muito difícil negociar com ela.
A assombração da Casa da Colina é uma história apavorante, mas está longe de ser uma história de horror. Não há monstros, nem assassinos psicopatas. Não há perigos maiores do que aqueles que enfrentamos em qualquer outro lugar. O grande terror é mesmo a tensão psicológica de estar vinculado a uma situação da qual sabemos que precisamos nos afastar mas que, ao mesmo tempo, não queremos, por razões muitas vezes justificadas, mas que mesmo assim nos fazem mal. O destino da equipe de pesquisadores importa menos que o de Eleanor. A história que se conta aqui é a dela, e só a dela.
O final é surpreendente, sem ser um “final surpresa”, por contraditório que isso possa parecer. Talvez até escorra uma lágrima, mas não choramos por Eleanor. Choramos por nós mesmos, que ficamos na Casa da Colina.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Sacy-Pererê

Está disponível para download gratuito o ebook O Sacy-Pererê: Resultado de uma collab, coletânea de ilustrações organizadas por Andriolli Costa para o saite Colecionador de Sacis.
Diz o texto de divulgação: "Nestas páginas, ilustradores profissionais e amadores se debruçaram sobre o centenário livro lobatiano para dar forma aos depoimentos ali registrados. Acompanha cada arte um trecho que captura a riqueza daquele testemunho."
Participam da edição os ilustradores Alisson Alencar, Azrael de Aguiar, Cristiane Xavier, Daniel Batista, David Dornelles, Fernando PJ, Ícaro Maciel, Luiz Henrique, Marco Goes, Mikael Quites, Pedro Godoy, Rafael Serpentis, Vee Marques, e a capa é de Azrael de Aguiar. A edição tem 29 páginas e pode ser baixada aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

As melhores histórias brasileiras de horror

Este é um convite oficial para o lançamento do livro que ajudei a organizar, As melhores histórias brasileiras de horror, publicado pela Devir Livraria.
As melhores histórias brasileiras de horror tem a intenção de mostrar o quão rica e assustadora é esta trajetória, com uma seleção caprichada que vai de 1870 a 2014, ou seja, cobre 144 anos, quase toda a trajetória independente da vida nacional. Procuramos escolher histórias representativas, em especial as que abordam mais de perto a cultura brasileira, além de se destacar pela qualidade literária. Nesse sentido o conjunto dos autores selecionados é demonstrativo do interesse de parte dos melhores autores brasileiros, de diferentes épocas: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Afonso Arinos, João do Rio, Gastão Cruls, Thomaz Lopes, Tabajara Ruas, Braulio Tavares, Márcia Kupstas, Roberto de Sousa Causo, Júlio Emílio Braz, Carlos Orsi, M. Deabreu, Walter Martins e Gustavo Faraon.
Um mosaico do que a ficção de horror brasileira já fez de mais interessante em cada época, permitindo uma experiência de leitura rica e diversificada. Aparecerão temas como canibalismo, feitiçarias e misticismos, catalepsia, erotismo sobrenatural, fantasmas e assombrações, fim dos tempos, epidemia, rituais pagãos, pactos e possessões, paranoias e conspirações. Um variado leque para despertar a imaginação e deixar os sentidos alertas. Pois o horror poderá estar à espreita em cada linha, em cada página. E certamente em todas as histórias.
Ficaremos felizes com a sua presença.