Enquanto os apoiadores esperam pacientemente a entrega dos livros – eu entre eles –, quem não aproveitou pode adquirir aqui a versão em ebook do primeiro romance da série, no qual cinco jovens treinam para um ritual de passagem, o Turunã. O livro é publicação da Editora Moinhos.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Araruamas
Um dos mais expressivos cases de sucesso da plataforma de crowndfunding Cartarse, Araruama 2: O livro das raízes, romance de fantasia de Ian Fraser inspirado em culturas nativas brasileiras e mesoamericanas, bateu o bom desempenho do primeiro volume, publicado em 2017 com o apoio de mais de 700 pessoas, e reuniu nada menos que 982 apoiadores e superando a meta de R$25.000,00 em mais de 250%, com uma arrecadação total de R$63.931,00!
Um dos diferenciais do projeto é doar parte da arrecadação para o Instituto UKA - Casa dos Saberes Ancestrais, uma instituição sem fins lucrativos fundada e dirigida por indígenas brasileiros, abrindo uma discussão sobre a apropriação cultural que começa a se tornar importante no espaço da ficção fantástica brasileira.
Enquanto os apoiadores esperam pacientemente a entrega dos livros – eu entre eles –, quem não aproveitou pode adquirir aqui a versão em ebook do primeiro romance da série, no qual cinco jovens treinam para um ritual de passagem, o Turunã. O livro é publicação da Editora Moinhos.
Enquanto os apoiadores esperam pacientemente a entrega dos livros – eu entre eles –, quem não aproveitou pode adquirir aqui a versão em ebook do primeiro romance da série, no qual cinco jovens treinam para um ritual de passagem, o Turunã. O livro é publicação da Editora Moinhos.
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segunda-feira, 9 de julho de 2018
Noite dentro da noite
Noite dentro da noite, Joca Reiners Terron. 464 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.
Há relações evidentes entre a ficção fantástica e o Surrealismo como proposta para o discurso artístico. O atrito entre o que é e o que não é, o real e o imaginário, o desperto e o onírico é o que constrói as narrativas, formando a substância do que poderia ser. Se o Surrealismo plástico lançou mão da combinação de imagens incompatíveis, a ficção fantástica cria interferências na realidade usando o sobrenatural, o metafísico e o absurdo, costurando bem seus contornos e disfarçando com retoques do que se convencionou chamar de "suspensão da incredibilidade". Conforme o conjunto, damos-lhe a classificação de fantasia, ficção científica ou horror.
No início do período pulp, ou seja, anos 1930, os três gêneros conviviam misturados e só separaram conforme os interesses comerciais predominaram no meio editorial dos EUA. Mas os autores não vinculados ao modelo anglo-americano continuaram a trabalhar a ficção fantástica sem sectarização, e esse tipo de tratamento, ainda que muito suavizado pelas propostas modernistas, também teve representantes na literatura brasileira. É dessa forma que podemos entender a literatura que Joca Reiners Terron traz à luz em Noite dentro da noite, vultoso romance publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras, que foi razoavelmente comentado quando de seu lançamento, mas com pouca ou nenhuma repercussão dentro do fandom brasileiro de fc&f, o que é muito imerecido. Isso porque Terron nos apresenta um trabalho denso, repleto de perturbações e literariamente sofisticado, que se estabelece tanto na tradição do fantástico latino-americano quanto na literatura brasileira recente.
O romance conta a história de um jovem que, devido a um acidente, perde toda a memória. Pouco depois, vê-se levado abruptamente para uma terra estranha – a região do Pantanal mato grossense, na fronteira com o Paraguai –, onde vai passar a adolescência como um pária, perseguido barbaramente pelos colegas na escola e convicto de que sua mãe – a quem se refere como a Rata – e o pai, um gerente de banco severo e distante, não são seus pais verdadeiros. Mas as tragédias não se esgotam aí. Sua vida vai se misturar com a de personagens míticos e históricos, como o tradutor Curt Meyer-Clason – narrador de boa parte do que lemos –, o marinheiro e cientista nazista Kurt Meier – que, apesar do nome, não é a mesma pessoa –, o assassino imortal El Cazador Blanco, um submarino fantasma do Chaco paraguaio, uma entidade vegetal referida pelo impronunciável nome de Pyhareryepypepyhare – ou a flor-vampiro –, Elisabeth Nietzsche e seu marido Bernhard Förster – que realmente fundaram uma vila anti-semita no Paraguai, em 1887 – e uma infinidade de membros da família Reiners, personagens torturados, sempre à sombra da histórica nevasca que destruiu a economia do estado do Paraná em 1975. Até a a escritora Hilda Hilst faz uma pontinha.
A história ainda passa pela Segunda Grande Guerra, pela ditadura militar, pela guerrilha do Araguaia, e chega até o período da abertura política, incluindo um atentado a bomba num comício na Candelária, no Rio de Janeiro, que mata um promissor candidato a presidência da República que, alguns poderão dizer, faz deste um legítimo romance de história alternativa.
Terron também mistura referências autobiográficas com a mais transgressora ficção, sem poupar o leitor nas passagens de violência e horror explícitos, delírios de pesadelo regados a fortes doses de fenobarbital, longos passeios de carro por estradas de terra e uma narrativa não linear que salta como uma máquina do tempo enlouquecida, avançando e recuando sem aviso prévio, com histórias dentro de história num efeito rocambolesco que amplia ainda mais a inadequação melancólica do protagonista.
Não é possível dizer que Noite dentro da noite seja um livro de ficção fantástica. Também não é possível dizer taxativamente que não é. Talvez seja o mais bem acabado exemplo de surrealismo literário já cometido em Terra Brasilis. Isso fica para o leitor decidir.
Desorientados é como saímos desta leitura complexa e angustiante, que remete à Roberto Bolaño e David Foster Wallace. Não sei quanto aos demais leitores mas, por associação, arrisco dizer que é um livro muito bom e que uma leitura é recomendável. Provavelmente, mais de uma.
Há relações evidentes entre a ficção fantástica e o Surrealismo como proposta para o discurso artístico. O atrito entre o que é e o que não é, o real e o imaginário, o desperto e o onírico é o que constrói as narrativas, formando a substância do que poderia ser. Se o Surrealismo plástico lançou mão da combinação de imagens incompatíveis, a ficção fantástica cria interferências na realidade usando o sobrenatural, o metafísico e o absurdo, costurando bem seus contornos e disfarçando com retoques do que se convencionou chamar de "suspensão da incredibilidade". Conforme o conjunto, damos-lhe a classificação de fantasia, ficção científica ou horror.
No início do período pulp, ou seja, anos 1930, os três gêneros conviviam misturados e só separaram conforme os interesses comerciais predominaram no meio editorial dos EUA. Mas os autores não vinculados ao modelo anglo-americano continuaram a trabalhar a ficção fantástica sem sectarização, e esse tipo de tratamento, ainda que muito suavizado pelas propostas modernistas, também teve representantes na literatura brasileira. É dessa forma que podemos entender a literatura que Joca Reiners Terron traz à luz em Noite dentro da noite, vultoso romance publicado em 2017 pela editora Companhia das Letras, que foi razoavelmente comentado quando de seu lançamento, mas com pouca ou nenhuma repercussão dentro do fandom brasileiro de fc&f, o que é muito imerecido. Isso porque Terron nos apresenta um trabalho denso, repleto de perturbações e literariamente sofisticado, que se estabelece tanto na tradição do fantástico latino-americano quanto na literatura brasileira recente.
O romance conta a história de um jovem que, devido a um acidente, perde toda a memória. Pouco depois, vê-se levado abruptamente para uma terra estranha – a região do Pantanal mato grossense, na fronteira com o Paraguai –, onde vai passar a adolescência como um pária, perseguido barbaramente pelos colegas na escola e convicto de que sua mãe – a quem se refere como a Rata – e o pai, um gerente de banco severo e distante, não são seus pais verdadeiros. Mas as tragédias não se esgotam aí. Sua vida vai se misturar com a de personagens míticos e históricos, como o tradutor Curt Meyer-Clason – narrador de boa parte do que lemos –, o marinheiro e cientista nazista Kurt Meier – que, apesar do nome, não é a mesma pessoa –, o assassino imortal El Cazador Blanco, um submarino fantasma do Chaco paraguaio, uma entidade vegetal referida pelo impronunciável nome de Pyhareryepypepyhare – ou a flor-vampiro –, Elisabeth Nietzsche e seu marido Bernhard Förster – que realmente fundaram uma vila anti-semita no Paraguai, em 1887 – e uma infinidade de membros da família Reiners, personagens torturados, sempre à sombra da histórica nevasca que destruiu a economia do estado do Paraná em 1975. Até a a escritora Hilda Hilst faz uma pontinha.
A história ainda passa pela Segunda Grande Guerra, pela ditadura militar, pela guerrilha do Araguaia, e chega até o período da abertura política, incluindo um atentado a bomba num comício na Candelária, no Rio de Janeiro, que mata um promissor candidato a presidência da República que, alguns poderão dizer, faz deste um legítimo romance de história alternativa.
Terron também mistura referências autobiográficas com a mais transgressora ficção, sem poupar o leitor nas passagens de violência e horror explícitos, delírios de pesadelo regados a fortes doses de fenobarbital, longos passeios de carro por estradas de terra e uma narrativa não linear que salta como uma máquina do tempo enlouquecida, avançando e recuando sem aviso prévio, com histórias dentro de história num efeito rocambolesco que amplia ainda mais a inadequação melancólica do protagonista.
Não é possível dizer que Noite dentro da noite seja um livro de ficção fantástica. Também não é possível dizer taxativamente que não é. Talvez seja o mais bem acabado exemplo de surrealismo literário já cometido em Terra Brasilis. Isso fica para o leitor decidir.
Desorientados é como saímos desta leitura complexa e angustiante, que remete à Roberto Bolaño e David Foster Wallace. Não sei quanto aos demais leitores mas, por associação, arrisco dizer que é um livro muito bom e que uma leitura é recomendável. Provavelmente, mais de uma.
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domingo, 24 de junho de 2018
Almanaque: Os lançamentos da fcf&h em 2017
Como faço há muitos anos, em 2017 também acompanhei as publicações de livros de fantasia, ficção científica e horror no Brasil, em sequência ao trabalho iniciado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa pesquisa, além do levantamento estatístico muito interessante, gerou o já disponível Almanaque da Arte Fantástica Brasileira - Lançamentos 2017, que traz a relação integral dos lançamentos da literatura de gênero no país naquele ano, em duas listas principais – de autores nacionais e estrangeiros –, subdivididas em lançamentos e relançamentos nos formatos romances, coletâneas, novelizações, livro de arte e não ficção, nos três gêneros da ficção fantástica. Para quem acompanha estes estudos, a edição apresenta novos dados sobre a evolução do mercado e sobre as tendências do ponto de vista editorial. A lista não é absoluta e, tal como a verdade, sempre alguma coisa escapa. Mas como isso também é uma constante, acredito que as conclusões são confiáveis.
Apesar do campo estar vivendo um momento de aparente otimismo, a situação revelada pelos números não é muito animadora quando comparada ao passado recente. Confirmando a tendência, 2017 mostra queda na atividade editorial em relação à 2016, especialmente no que se refere a edição de autores nacionais. Considerando-se os números totais, isto é, lançamentos e relançamentos de autores brasileiros em todos os formatos e gêneros, foram 252 títulos (235 inéditos) em 2017, contra 321 (295 inéditos) em 2016.
Entre os livros de autores estrangeiros, a situação se manteve estável, com a publicação de 348 títulos (326 inéditos) contra 339 (219 inéditos) em 2016. Mas é bom que se diga que grande parte da responsabilidade por esse desempenho é da coleção de ebooks do Perry Rhodan, publicada pela editora SSPG que há alguns anos lança regularmente uma média de sete títulos inéditos por mês.
Ainda assim, somando brasileiros e estrangeiros, em 2017 foram 600 títulos contra os 660 em 2016, uma retração significativa portanto. A não ser para aqueles que desprezam a produção nacional em favor do material traduzido, não há muito o que comemorar.
Na tabela ao lado, podemos ver a evolução dos números ao longo do tempo a partir de 2011 e observar a tendência de queda que vem se confirmando nos números parciais de 2018. Na medida em que os investimentos de editoras e autores não se transformam em lucro, estes migram para outras atividades, permanecendo no meio apenas os fãs diletantes. Era de se esperar que isso acontecesse depois da bolha de 2012. Mas ainda temos números generosos se comparados aos paupérrimos cenários vividos nos anos 1980 e 1990.
Quem quiser, pode repetir esses estudo a partir das listas anteriores, disponíveis na plataforma Issuu.
Estão lá as listas de 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 a 2016, mas por conta das alterações que a plataforma impôs aos usuários, não é mais possível baixar os ebooks diretamente. Mas existem alternativas indiretas como, por exemplo, o Issuu Publication Downloader, aqui. Aproveite.
Apesar do campo estar vivendo um momento de aparente otimismo, a situação revelada pelos números não é muito animadora quando comparada ao passado recente. Confirmando a tendência, 2017 mostra queda na atividade editorial em relação à 2016, especialmente no que se refere a edição de autores nacionais. Considerando-se os números totais, isto é, lançamentos e relançamentos de autores brasileiros em todos os formatos e gêneros, foram 252 títulos (235 inéditos) em 2017, contra 321 (295 inéditos) em 2016.
Entre os livros de autores estrangeiros, a situação se manteve estável, com a publicação de 348 títulos (326 inéditos) contra 339 (219 inéditos) em 2016. Mas é bom que se diga que grande parte da responsabilidade por esse desempenho é da coleção de ebooks do Perry Rhodan, publicada pela editora SSPG que há alguns anos lança regularmente uma média de sete títulos inéditos por mês.
Ainda assim, somando brasileiros e estrangeiros, em 2017 foram 600 títulos contra os 660 em 2016, uma retração significativa portanto. A não ser para aqueles que desprezam a produção nacional em favor do material traduzido, não há muito o que comemorar.
Na tabela ao lado, podemos ver a evolução dos números ao longo do tempo a partir de 2011 e observar a tendência de queda que vem se confirmando nos números parciais de 2018. Na medida em que os investimentos de editoras e autores não se transformam em lucro, estes migram para outras atividades, permanecendo no meio apenas os fãs diletantes. Era de se esperar que isso acontecesse depois da bolha de 2012. Mas ainda temos números generosos se comparados aos paupérrimos cenários vividos nos anos 1980 e 1990.
Quem quiser, pode repetir esses estudo a partir das listas anteriores, disponíveis na plataforma Issuu.
Estão lá as listas de 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 a 2016, mas por conta das alterações que a plataforma impôs aos usuários, não é mais possível baixar os ebooks diretamente. Mas existem alternativas indiretas como, por exemplo, o Issuu Publication Downloader, aqui. Aproveite.
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sexta-feira, 1 de junho de 2018
A floresta sombria
A floresta sombria (黑暗森林; The dark forest), Cixin Liu. 472 páginas. Tradução de Leonardo Alves. Editora Companhia das Letras, selo Suma, São Paulo, 2017.
“Primeiro: a principal necessidade de uma civilização é a sobrevivência. Segundo: a civilização cresce e se expande continuamente, mas a matéria total do universo permanece constante.”
Estas são as premissas que definem A floresta sombria, segundo volume da série Remembrance of Earth's past, do escritor chinês Cixin Liu, cujo primeiro volume, O problema dos três corpos, ganhou o prêmio Hugo em 2015 quando de sua tradução para o inglês, além de ter sido indicado para o Prêmio Nebula. A resenha a esse primeiro volume pode ser lida aqui.
Dividida em três partes, “Barreiras”, “O feitiço” e “A floresta sombria”, esta continuação trata do que acontece à Terra quando a frota alienígena trissolar inicia sua viagem de invasão que, mesmo a dez por cento da velocidade da luz, vai durar quatrocentos anos devido a grande distância entre os planetas.
O projeto de invasão, apresentado já no romance anterior, é administrado a partir de Trissolaria – um planeta que orbita um sistema estelar trinário em que as condições de sobrevivência são caóticas – através de sondas quânticas chamadas sófons, que se ligam à mente de certos humanos e permitem a comunicação instantânea com os alienígenas, algo similar ao ansível proposto pela escritora americana Ursula K. Le Guin em alguns de seus romances. A ação dos sófons também gera na humanidade um bloqueio mental que impede o avanço da ciência terrestre, de forma que não seja possível defender-se da invasão, ainda que ela só vá acontecer em quatro séculos. O futuro conflito, chamado de Guerra do Fim do Mundo, deixa a humanidade em polvorosa e, embora seja algo distante, causa grande comoção porque tudo leva a crer que o homem será inevitavelmente exterminado pelos trissolarianos.
Para enfrentar o problema, a ONU cria um programa de longo prazo chamado Projeto Barreiras, e escolhe quatro homens especiais para desenvolverem, em segredo absoluto, estratégias que possam fazer frente a força trissolar. Os planos não podem ser discutidos com ninguém, pois os sófons trissolares poderiam descobri-los. Os quatro homens, que se tornam personalidades mundiais com plenos poderes para fazer o que fosse necessário para viabilizar suas estratégias, são: Frederick Tyler, ex-secretário de defesa dos EUA, o ex-presidente venezuelano Manuel Rey Diaz, o neurocientista inglês e prêmio Nobel Bill Hines, e o escritor chinês Luo Ji.
Desde o início, Lou Ji resiste a sua indicação, por não se considerar a altura de um projeto de tal magnitude, mas a forte pressão da ONU o obriga e ele finge concordar. Enquanto as demais barreiras promovem planos de altos impacto e custo, que buscam o desenvolvimento de superbombas, frotas de espaçonaves, máquinas de reprogramação mental, criogenia e outras tecnologias que, apesar de extrapoladas, são apenas avanços de conceitos científicos já existentes – pois as novas descobertas estão retidas pelo bloqueio sófon –, Lou Ji usa os poderes de seu estatuto para encontrar a mulher de seus sonhos e com ela viver um idílio pastoral num paraíso retirado. A falta de resultados palpáveis de Lou Ji irrita seus superiores que decidem congelar sua esposa perfeita e a filha que com ela teve, para serem descongeladas somente no futuro, e obrigá-lo a trabalhar a força de chantagem.
Mas os trissolarianos também não ficam inertes. Além de despacharem uma pequena frota de sondas não tripuladas que chegarão à Terra duzentos anos mais cedo, implementam o programa Destruidores de Barreiras, que seleciona humanos ligados a sófons para descobrir os planos das barreiras e anulá-los. Aos três figurões, os seus destruidores têm a missão de desmoralizar, no que são plenamente bem sucedidos, mas a Luo Ji, cujos planos são aparentemente indecifráveis, é decretada a pena de morte. Sua única providência acaba sendo enviar, para uma estrela distante, uma mensagem que ele chamou de "feitiço". Logo depois de disparar seu feitiço, Luo Ji contrai uma doença mortal desconhecida, aparentemente criada pelos trissolarianos para esse fim, e é congelado para ser despertado somente quando uma cura fosse descoberta.
Duzentos anos depois, às vésperas da chegada da primeira sonda trissolariana, Lou Ji é curado e descongelado apenas para ser destituído de seu cargo de barreira. Ele encontra uma Terra muito diferente daquela que deixou no passado, com a sociedade vivendo em cidades subterrâneas autônomas, governada pela força de defesa espacial e absolutamente confiante de que vencerá a Guerra do Fim do Mundo. A chegada da sonda parece reforçar suas certezas, pois trata-se de um veículo tão belo e elegante que só pode ser um presente de paz. Mas o que virá a seguir é o horror da absoluta estupidez humana. Sem qualquer esperança, resta à humanidade lançar-se à orgia dionisíaca ou esperar que o desprezado e ridicularizado feitiço de Luo Ji cause enfim algum resultado.
A floresta sombria é um romance massivo, denso, de personagens vívidos e situações dramáticas intensas. Do ponto de vista formal, é tão ou mais elaborado que o volume anterior, e apresenta uma história mais evidentemente vestida de ficção científica, sem tantos elementos regionais chineses quanto visto em O problema dos três corpos. Também percebe-se a grande habilidade do autor em manter todas as costuras do enredo muito bem alinhavadas, com os eventos conclusivos dialogando diretamente com as conceitos apresentados nas primeiras páginas do romance, numa legítima hard fiction de dimensão cósmica desnorteante, ainda que as extrapolações futuristas do terço final revelem um panorama difícil de aceitar depois de seiscentas páginas de uma história em tudo contemporânea. Mas Liu não perde a mão, pois o foco segue sendo nos personagens. Curioso, neste aspecto, o fato que o único personagem do primeiro volume que se manteve neste foi o detetive Da Chi, que parece assim ser o avatar do autor na história. Também é importante observar que Liu apresenta, em meio ao romance, diversos conceitos filosóficos muito interessantes, que por si só justificam a sua leitura.
A edição da Editora Companhia das Letras em seu selo Suma – antes chamado Suma das Letras – é caprichada, com ótima tradução de Leonardo Alves e uma revisão muito boa, com poucos deslizes. Promete publicar no Brasil ainda em 2018 a terceira e última parte da série, Death's end, originalmente publicada em 2010 e traduzida para o inglês em 2016.
Eis aqui uma trilogia que vale a pena acompanhar.
“Primeiro: a principal necessidade de uma civilização é a sobrevivência. Segundo: a civilização cresce e se expande continuamente, mas a matéria total do universo permanece constante.”
Estas são as premissas que definem A floresta sombria, segundo volume da série Remembrance of Earth's past, do escritor chinês Cixin Liu, cujo primeiro volume, O problema dos três corpos, ganhou o prêmio Hugo em 2015 quando de sua tradução para o inglês, além de ter sido indicado para o Prêmio Nebula. A resenha a esse primeiro volume pode ser lida aqui.
Dividida em três partes, “Barreiras”, “O feitiço” e “A floresta sombria”, esta continuação trata do que acontece à Terra quando a frota alienígena trissolar inicia sua viagem de invasão que, mesmo a dez por cento da velocidade da luz, vai durar quatrocentos anos devido a grande distância entre os planetas.
O projeto de invasão, apresentado já no romance anterior, é administrado a partir de Trissolaria – um planeta que orbita um sistema estelar trinário em que as condições de sobrevivência são caóticas – através de sondas quânticas chamadas sófons, que se ligam à mente de certos humanos e permitem a comunicação instantânea com os alienígenas, algo similar ao ansível proposto pela escritora americana Ursula K. Le Guin em alguns de seus romances. A ação dos sófons também gera na humanidade um bloqueio mental que impede o avanço da ciência terrestre, de forma que não seja possível defender-se da invasão, ainda que ela só vá acontecer em quatro séculos. O futuro conflito, chamado de Guerra do Fim do Mundo, deixa a humanidade em polvorosa e, embora seja algo distante, causa grande comoção porque tudo leva a crer que o homem será inevitavelmente exterminado pelos trissolarianos.
Para enfrentar o problema, a ONU cria um programa de longo prazo chamado Projeto Barreiras, e escolhe quatro homens especiais para desenvolverem, em segredo absoluto, estratégias que possam fazer frente a força trissolar. Os planos não podem ser discutidos com ninguém, pois os sófons trissolares poderiam descobri-los. Os quatro homens, que se tornam personalidades mundiais com plenos poderes para fazer o que fosse necessário para viabilizar suas estratégias, são: Frederick Tyler, ex-secretário de defesa dos EUA, o ex-presidente venezuelano Manuel Rey Diaz, o neurocientista inglês e prêmio Nobel Bill Hines, e o escritor chinês Luo Ji.
Desde o início, Lou Ji resiste a sua indicação, por não se considerar a altura de um projeto de tal magnitude, mas a forte pressão da ONU o obriga e ele finge concordar. Enquanto as demais barreiras promovem planos de altos impacto e custo, que buscam o desenvolvimento de superbombas, frotas de espaçonaves, máquinas de reprogramação mental, criogenia e outras tecnologias que, apesar de extrapoladas, são apenas avanços de conceitos científicos já existentes – pois as novas descobertas estão retidas pelo bloqueio sófon –, Lou Ji usa os poderes de seu estatuto para encontrar a mulher de seus sonhos e com ela viver um idílio pastoral num paraíso retirado. A falta de resultados palpáveis de Lou Ji irrita seus superiores que decidem congelar sua esposa perfeita e a filha que com ela teve, para serem descongeladas somente no futuro, e obrigá-lo a trabalhar a força de chantagem.
Mas os trissolarianos também não ficam inertes. Além de despacharem uma pequena frota de sondas não tripuladas que chegarão à Terra duzentos anos mais cedo, implementam o programa Destruidores de Barreiras, que seleciona humanos ligados a sófons para descobrir os planos das barreiras e anulá-los. Aos três figurões, os seus destruidores têm a missão de desmoralizar, no que são plenamente bem sucedidos, mas a Luo Ji, cujos planos são aparentemente indecifráveis, é decretada a pena de morte. Sua única providência acaba sendo enviar, para uma estrela distante, uma mensagem que ele chamou de "feitiço". Logo depois de disparar seu feitiço, Luo Ji contrai uma doença mortal desconhecida, aparentemente criada pelos trissolarianos para esse fim, e é congelado para ser despertado somente quando uma cura fosse descoberta.
Duzentos anos depois, às vésperas da chegada da primeira sonda trissolariana, Lou Ji é curado e descongelado apenas para ser destituído de seu cargo de barreira. Ele encontra uma Terra muito diferente daquela que deixou no passado, com a sociedade vivendo em cidades subterrâneas autônomas, governada pela força de defesa espacial e absolutamente confiante de que vencerá a Guerra do Fim do Mundo. A chegada da sonda parece reforçar suas certezas, pois trata-se de um veículo tão belo e elegante que só pode ser um presente de paz. Mas o que virá a seguir é o horror da absoluta estupidez humana. Sem qualquer esperança, resta à humanidade lançar-se à orgia dionisíaca ou esperar que o desprezado e ridicularizado feitiço de Luo Ji cause enfim algum resultado.
A floresta sombria é um romance massivo, denso, de personagens vívidos e situações dramáticas intensas. Do ponto de vista formal, é tão ou mais elaborado que o volume anterior, e apresenta uma história mais evidentemente vestida de ficção científica, sem tantos elementos regionais chineses quanto visto em O problema dos três corpos. Também percebe-se a grande habilidade do autor em manter todas as costuras do enredo muito bem alinhavadas, com os eventos conclusivos dialogando diretamente com as conceitos apresentados nas primeiras páginas do romance, numa legítima hard fiction de dimensão cósmica desnorteante, ainda que as extrapolações futuristas do terço final revelem um panorama difícil de aceitar depois de seiscentas páginas de uma história em tudo contemporânea. Mas Liu não perde a mão, pois o foco segue sendo nos personagens. Curioso, neste aspecto, o fato que o único personagem do primeiro volume que se manteve neste foi o detetive Da Chi, que parece assim ser o avatar do autor na história. Também é importante observar que Liu apresenta, em meio ao romance, diversos conceitos filosóficos muito interessantes, que por si só justificam a sua leitura.
A edição da Editora Companhia das Letras em seu selo Suma – antes chamado Suma das Letras – é caprichada, com ótima tradução de Leonardo Alves e uma revisão muito boa, com poucos deslizes. Promete publicar no Brasil ainda em 2018 a terceira e última parte da série, Death's end, originalmente publicada em 2010 e traduzida para o inglês em 2016.
Eis aqui uma trilogia que vale a pena acompanhar.
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sábado, 12 de maio de 2018
Os vencedores do I Prêmio LeBlanc
A Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro-ECO/UFRJ e a Universidade Veiga de Almeida-UVA anunciaram, em cerimônia oficial realizada no Rio de Janeiro no último dia 11 de maio, os vencedores do I Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica para lançamentos em 2017, promoção ligada à Semana Internacional de Quadrinhos-SIQ.
Diz o texto de divulgação: "André Le Blanc foi um artista haitiano com passagens no Brasil e nos Estados Unidos, cuja obra aqui lhe fez merecedor da Ordem do Cruzeiro do Sul. Além de ter trabalhado com concept design de animação, Le Blanc foi o responsável pelas mais icônicas ilustrações da obra infantil de Monteiro Lobato e um dos nomes mais importantes entre os ilustradores que adaptaram clássicos da literatura brasileira para quadrinhos na revista Edição Maravilhosa, da extinta editora Ebal. O prêmio Le Blanc é uma homenagem a esse grande artista, brasileiro de coração".O prêmio foi apurado em consulta popular pela internet. São estes os vencedores:
Literatura
- Romance: Guanabara Real: Alcova da morte, Enéias Tavares, Nikelen Witter, Andre Zanki Cordenonsi, Avec;- Antologia: Mitografias, Vol. I: Mitos modernos, Leonardo Henrique Tremeschin, Andriolli Costa e Lucas Rafael Ferraz, orgs., independente;
- Romance estrangeiro: Jardins da Lua, Steven Erikson, Arqueiro;
- Antologia estrangeira: Mulheres perigosas, George R. R. Martin, org., LeYa/Omelete
Animação
- Série: Irmão do Jorel, Juliano Enrico, Copa Studio;
- Longa: Historietas assombradas (para crianças malcriadas), Victor Hugo Borges, dir., Copa Studio;
- Curta: Trevas à parte, Maurício Maia, dir., Estúdio Escola de Animação;
- Animação publicitária: Abertura Novo mundo; Luciana Jordão/Leonardo Fleuri, dir., Koi Factory.
Histórias em Quadrinhos
- Comercial: A infância do Brasil, José Aguiar, Avec;
- Independente: Necromorfus, Gabriel Arrais e Rafael Vasconcellos Leite;
- Série: Linha do trem, Raphael Salimena;
- Estrangeira: Alena; Kim W. Andersson, Avec.
A grande vencedora foi, sem dúvida, a editora Avec, que emplacou três prêmios em duas categorias. Parabéns aos vencedores.
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quarta-feira, 21 de março de 2018
A biblioteca de Alexandria
A escritora brasiliense Gorgiana Calimeris é conhecida no fandom nacional de fc&f pela ficção curta vista em antologias, pelo ativismo nas redes sociais e por muitos ebooks publicados, sempre com um pé no fantástico. Seu romance mais recente é A biblioteca de Alexandria: A andarilha das estrelas, fantasia rasgada com referências à cultura pop, autopublicada em 2017.
Diz o texto de divulgação "Angelique Duncan trabalha em uma livraria no Conic e está prestes a se formar na faculdade. Está satisfeita com sua vida desde que conseguiu vencer seu maior desafio: a depressão. Tudo muda quando se depara com um homem desconhecido sangrando no subsolo da livraria. Ela acha que está sob efeitos de drogas porque o sujeito se parece com John Constantine dos quadrinhos da DC que, na verdade, se chama Alexandros Kalinictos, que é um mago e os magos protegem Guardiões, que são uma espécie de bibliotecários do conhecimento oculto de civilizações diversas, e Andarilhos, que podem caminhar pelas bibliotecas. O maior problema é que, embora Andarilhos e Guardiões não possam ler os livros, Angelique tem acesso ao conhecimento e sua vida está em risco!"
O livro tem 325 páginas, custa apenas R$1,99 e está disponível aqui para leitores Kindle.
Diz o texto de divulgação "Angelique Duncan trabalha em uma livraria no Conic e está prestes a se formar na faculdade. Está satisfeita com sua vida desde que conseguiu vencer seu maior desafio: a depressão. Tudo muda quando se depara com um homem desconhecido sangrando no subsolo da livraria. Ela acha que está sob efeitos de drogas porque o sujeito se parece com John Constantine dos quadrinhos da DC que, na verdade, se chama Alexandros Kalinictos, que é um mago e os magos protegem Guardiões, que são uma espécie de bibliotecários do conhecimento oculto de civilizações diversas, e Andarilhos, que podem caminhar pelas bibliotecas. O maior problema é que, embora Andarilhos e Guardiões não possam ler os livros, Angelique tem acesso ao conhecimento e sua vida está em risco!"
O livro tem 325 páginas, custa apenas R$1,99 e está disponível aqui para leitores Kindle.
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Ninguém nasce herói
Ninguém nasce herói, Eric Novello. 378 páginas, Editora Companhia das Letras, selo Seguinte, São Paulo, 2017.
A chegada de autores brasileiros ligados ao fandom de literatura fantástica ao catálogo da prestigiosa editora Companhia das Letras é um fato aguardado desde que a editora inaugurou selos exclusivos para a ficção de gênero. Não que autores do fandom já não tivessem conseguido, pois textos de fantasia e horror já não são novidade há muito tempo, não só na Companhia da Letras, mas também em outras grandes editoras nacionais. A questão era: quem seria o grande felizardo que finalmente colocaria a ficção científica nacional nas livrarias pela editora? Tanto que, não é de hoje, circula entre os fãs do gênero a máxima "a fc nacional só decola quando o gênero encontrar o seu André Vianco" (em referência ao best-seller dos romances de horror). Então, o anúncio que Ninguém nasce herói, romance do jovem tradutor carioca Eric Novello, estava na programação do selo Seguinte da Companhia das Letras respondeu a essa expectativa.
Como autor, Novello está associado à Terceira Onda da fc brasileira, geração surgida após o advento da internet. Seu primeiro livro foi Histórias da noite carioca (2004, Lamparina), mas ganhou notoriedade na editora Draco – reconhecida pela dedicação à produção nacional de fc –, pela qual publicou os romances Neon azul (2010) e A sombra no sol (2012). Novello também é autor de Exorcismos, amores e uma dose de blues, romance de fantasia publicado em 2014 pelo selo Gutenberg da editora Autêntica.
A sinopse de Ninguém nasce herói é uma distopia na qual a população brasileira é oprimida por um governo integralista, depois que um religioso intolerante, chamado de "O Escolhido", chega à Presidência da República. A violência se instala na sociedade sob o jugo de uma brigada paramilitar – a Guarda Branca – que passa a patrulhar as ruas atacando aqueles de quem não gosta, como é o caso do protagonista, apelidado de Chuvisco, jovem tradutor recém-formado que considera a distribuição de livros nas ruas de São Paulo como uma forma de resistência civil. Para isso, conta com a ajuda de alguns amigos que com ele formam uma espécie de aparelho subversivo do bem, embora, no fim das contas, sejam apenas jovens que querem viver e se divertir. A maior parte do tempo, os garotos – cujas famílias estão ausentes – estão em alguma balada ou brigando, por vezes as duas coisas simultaneamente. Chuvisco é propenso a surtos psicóticos – catarses criativas como ele mesmo os chama –, sempre que fica muito alterado. Durante as tais catarses, tem delírios despertos que mesclam fantasia e realidade: ora ele se vê como um super-herói hipertecnológico, ora tem encontros com entidades purpurantes que só existem em sua imaginação. De briga em briga, as relações entre Chuvisco e seus amigos, que parecem nunca ter sido realmente muito sólidas, vão deteriorando, o que nesse ambiente de violência só pode levar à tragédia. Também há uma discussão discreta sobre sexualidade contextualizada na ampla diversidade de gênero dos personagens.
Há alguma imprecisão quanto a natureza religiosa desse Brasil de exceção criado por Novello. Em alguns momentos, parece que O Escolhido é um tipo evangélico neopentecostal mas, quando focalizado mais de perto, já no final do livro, revela ser católico, o que me levou a pensar nesse contexto como uma fabulação da ditadura militar que assolou o país entre 1964 e 1985, o que faria muito sentido.
É inevitável comparar a aventura urbana de Chuvisco e sua turma com aquela que o escritor chileno Roberto Bolaño desenvolve em O espírito da ficção científica, que não é fc, apesar do nome, publicado pela Companhia das Letras em 2017. Outro trabalho com o qual também se pode montar algum diálogo é "A grande virada de Vitinho", visto na coletânea 17 histórias alternativas, cômicas e futuristas, de Ataíde Tartari (Virtual Books, 2013), autor da Segunda Onda da fc brasileira que, no caso, adotou uma abordagem realista. Fica claro o motivo da opção de Bolaño e Tartari por fugirem da fantasia. Geralmente, a fabulação amplia contrastes e permite trabalhar temas espinhosos com maior agudeza sem cair na caricatura mas, em Ninguém nasce herói, acabou por esmaecer o drama contado ali, que teria ficado mais impactante se estivesse ancorado na realidade, como, por exemplo, nos anos de chumbo da ditadura militar.
Mas, independente disso, pelo menos já podemos festejar que a fc brasileira chegou enfim ao grande mercado. Se é o prenúncio de uma onda de best-sellers do gênero, como já aconteceu com o horror e a fantasia, ainda não dá para dizer. Vamos ver o que 2018 nos reserva.
A chegada de autores brasileiros ligados ao fandom de literatura fantástica ao catálogo da prestigiosa editora Companhia das Letras é um fato aguardado desde que a editora inaugurou selos exclusivos para a ficção de gênero. Não que autores do fandom já não tivessem conseguido, pois textos de fantasia e horror já não são novidade há muito tempo, não só na Companhia da Letras, mas também em outras grandes editoras nacionais. A questão era: quem seria o grande felizardo que finalmente colocaria a ficção científica nacional nas livrarias pela editora? Tanto que, não é de hoje, circula entre os fãs do gênero a máxima "a fc nacional só decola quando o gênero encontrar o seu André Vianco" (em referência ao best-seller dos romances de horror). Então, o anúncio que Ninguém nasce herói, romance do jovem tradutor carioca Eric Novello, estava na programação do selo Seguinte da Companhia das Letras respondeu a essa expectativa. Como autor, Novello está associado à Terceira Onda da fc brasileira, geração surgida após o advento da internet. Seu primeiro livro foi Histórias da noite carioca (2004, Lamparina), mas ganhou notoriedade na editora Draco – reconhecida pela dedicação à produção nacional de fc –, pela qual publicou os romances Neon azul (2010) e A sombra no sol (2012). Novello também é autor de Exorcismos, amores e uma dose de blues, romance de fantasia publicado em 2014 pelo selo Gutenberg da editora Autêntica.
A sinopse de Ninguém nasce herói é uma distopia na qual a população brasileira é oprimida por um governo integralista, depois que um religioso intolerante, chamado de "O Escolhido", chega à Presidência da República. A violência se instala na sociedade sob o jugo de uma brigada paramilitar – a Guarda Branca – que passa a patrulhar as ruas atacando aqueles de quem não gosta, como é o caso do protagonista, apelidado de Chuvisco, jovem tradutor recém-formado que considera a distribuição de livros nas ruas de São Paulo como uma forma de resistência civil. Para isso, conta com a ajuda de alguns amigos que com ele formam uma espécie de aparelho subversivo do bem, embora, no fim das contas, sejam apenas jovens que querem viver e se divertir. A maior parte do tempo, os garotos – cujas famílias estão ausentes – estão em alguma balada ou brigando, por vezes as duas coisas simultaneamente. Chuvisco é propenso a surtos psicóticos – catarses criativas como ele mesmo os chama –, sempre que fica muito alterado. Durante as tais catarses, tem delírios despertos que mesclam fantasia e realidade: ora ele se vê como um super-herói hipertecnológico, ora tem encontros com entidades purpurantes que só existem em sua imaginação. De briga em briga, as relações entre Chuvisco e seus amigos, que parecem nunca ter sido realmente muito sólidas, vão deteriorando, o que nesse ambiente de violência só pode levar à tragédia. Também há uma discussão discreta sobre sexualidade contextualizada na ampla diversidade de gênero dos personagens.
Há alguma imprecisão quanto a natureza religiosa desse Brasil de exceção criado por Novello. Em alguns momentos, parece que O Escolhido é um tipo evangélico neopentecostal mas, quando focalizado mais de perto, já no final do livro, revela ser católico, o que me levou a pensar nesse contexto como uma fabulação da ditadura militar que assolou o país entre 1964 e 1985, o que faria muito sentido.
É inevitável comparar a aventura urbana de Chuvisco e sua turma com aquela que o escritor chileno Roberto Bolaño desenvolve em O espírito da ficção científica, que não é fc, apesar do nome, publicado pela Companhia das Letras em 2017. Outro trabalho com o qual também se pode montar algum diálogo é "A grande virada de Vitinho", visto na coletânea 17 histórias alternativas, cômicas e futuristas, de Ataíde Tartari (Virtual Books, 2013), autor da Segunda Onda da fc brasileira que, no caso, adotou uma abordagem realista. Fica claro o motivo da opção de Bolaño e Tartari por fugirem da fantasia. Geralmente, a fabulação amplia contrastes e permite trabalhar temas espinhosos com maior agudeza sem cair na caricatura mas, em Ninguém nasce herói, acabou por esmaecer o drama contado ali, que teria ficado mais impactante se estivesse ancorado na realidade, como, por exemplo, nos anos de chumbo da ditadura militar.
Mas, independente disso, pelo menos já podemos festejar que a fc brasileira chegou enfim ao grande mercado. Se é o prenúncio de uma onda de best-sellers do gênero, como já aconteceu com o horror e a fantasia, ainda não dá para dizer. Vamos ver o que 2018 nos reserva.
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
Deuses renascidos
Deuses renascidos: Livro 2 dos arquivos Têmis (Waking gods), Sylvain Neuvel, 392 páginas. Tradução de Mateus Duque Erthal. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.
No primeiro volume da série Arquivos Têmis, Gigantes adormecidos, publicado em 2016 pela Companhia das Letras e comentado aqui, vimos como um colosso de metal em forma de mulher foi montado a partir de partes pré-fabricadas enterradas há milênios em diversas regiões distantes da Terra. Reunidas por um departamento secreto do governo norte-americano a montagem foi supervisionada pela acadêmica Rose Franklin, uma especialista no artefato que em sua infância havia achado uma das mãos da gigante. Uma vez montada, a máquina revelou ser algo de origem extraterrestre, cuja pilotagem exigia duas pessoas com habilidades e genética especiais, além de características físicas um tanto perturbadoras. As dificuldades na anatomia, bem como em compreender a linguagem e os controles da máquina, resultaram na operacionalidade parcial do artefato que, mesmo assim, se tornou a mais poderosa arma de guerra do planeta, capaz de sozinha destruir um exército bem armado antes de sequer ser arranhada. Sua simples existência lança a humanidade num dilema, pois quem detiver o controle do robô gigante, mandará no mundo. O problema é que as pessoas por trás do robô, incluindo seus esforçados pilotos, são pessoas cheias de defeitos e paixões, e tudo nem sempre sai como se espera. Quando Rose morre num acidente, parece que as coisas podem perder completamente o controle, mas ocorre o impensável: Rose retorna ressuscitada, mas numa "versão reiniciada" que não entende muito bem tudo o que está acontecendo. Quem a ressuscitou, como e por que são alguns dos mistérios que vamos tentar entender na leitura de Deuses renascidos.
Mas a história da robô – que ganhou o simpático nome de Têmis – e do apaixonado casal que o comanda, a piloto militar Kara Resnick e o linguista Vincent Couture, não se resume às paranoias de Rose. Acontece que apareceu um segundo robô na Terra, surgido do nada em pleno centro de Londres, um monstro ainda maior que Têmis, desta vez na forma masculina. Ninguém sabe de onde veio nem se há alguém dentro dele, pois desde que apareceu não se moveu um só milímetro. A organização que controla Têmis decide levá-la até o monstro que parece ter vindo do mesmo lugar que ela, mas o exército britânico decide não esperar e, de olho na possibilidade de ter seu próprio robô, empreende um ataque ao gigante antes que Têmis tenha a chance de confrontá-lo. O resultado é catastrófico: ao sentir-se ameaçado, o robô entra em ação e simplesmente pulveriza as forças de ataque, atingindo uma grande área habitada da cidade no processo. O confronto dos dois monstros de metal é inevitável, e tudo parece indicar que Têmis não terá a menor chance. Para complicar, Kara descobre que a cientista psicopata Alyssa Papantoniou, que a submeteu a experiências dolorosas no primeiro romance, obteve sucesso ao fecundar um óvulo retirado dela, e em algum lugar na América, ela tem uma filha que está agora com dez anos e corre o risco de ser sequestrada por espiões de países interessados em deter uma possível piloto para a Têmis. E como tragédia pouca é bobagem, surgem outros treze robôs similares nas mais populosas cidades mundo, e cada um deles passa a atacá-las com um gás mortal que devasta as populações em segundos. Mesmo com Têmis completamente operacional já seria praticamente impossível enfrentar tantos adversários mas, justamente nessa hora, Têmis desaparece dos radares e tudo leva a crer que é chegado o fim da humanidade. Há uma saída, contudo, porque os alienígenas não querem de fato destruir a humanidade. Mas, para obter o direito de sobreviver, será necessário entender a psicologia alienígena e dar-lhes a única resposta adequada possível.
É nesse cenário apocalíptico que se desenrola a sequência da aventura de ficção científica escrita pelo canadense Sylvain Neuvel, que está subdividida em quatro partes: "Parentes e amigos", "Tudo em família", "Unha e carne" e "Parente próximo". O autor sustenta o mesmo modelo narrativo adotado no primeiro volume, contando a história através de memorandos, artigos de jornal, transcrições de entrevistas, relatórios de missões e outros documentos que, tal como uma colagem, montam aos bocadinhos a imagem final dessa tragédia de proporções planetárias. Cada documento tem seu próprio espaço e tempo, com personagens surgindo e desaparecendo, de forma que nem mesmo os nossos queridos protagonistas estão completamente fora de perigo, e o autor tem ampla liberdade para ser muito cruel.
Como estamos no segundo volume de uma prometida série de três e embora algumas coisas até sejam definidas, mais uma vez não há uma conclusão satisfatória ao enredo. O terceiro e último volume, Only human, está anunciado no perfil do autor no Twitter para sair nos EUA em maio próximo, e deve chegar ao Brasil ainda em 2018. Enquanto isso, leia Deuses renascidos. E também Gigantes adormecidos, se ainda não o fez.
No primeiro volume da série Arquivos Têmis, Gigantes adormecidos, publicado em 2016 pela Companhia das Letras e comentado aqui, vimos como um colosso de metal em forma de mulher foi montado a partir de partes pré-fabricadas enterradas há milênios em diversas regiões distantes da Terra. Reunidas por um departamento secreto do governo norte-americano a montagem foi supervisionada pela acadêmica Rose Franklin, uma especialista no artefato que em sua infância havia achado uma das mãos da gigante. Uma vez montada, a máquina revelou ser algo de origem extraterrestre, cuja pilotagem exigia duas pessoas com habilidades e genética especiais, além de características físicas um tanto perturbadoras. As dificuldades na anatomia, bem como em compreender a linguagem e os controles da máquina, resultaram na operacionalidade parcial do artefato que, mesmo assim, se tornou a mais poderosa arma de guerra do planeta, capaz de sozinha destruir um exército bem armado antes de sequer ser arranhada. Sua simples existência lança a humanidade num dilema, pois quem detiver o controle do robô gigante, mandará no mundo. O problema é que as pessoas por trás do robô, incluindo seus esforçados pilotos, são pessoas cheias de defeitos e paixões, e tudo nem sempre sai como se espera. Quando Rose morre num acidente, parece que as coisas podem perder completamente o controle, mas ocorre o impensável: Rose retorna ressuscitada, mas numa "versão reiniciada" que não entende muito bem tudo o que está acontecendo. Quem a ressuscitou, como e por que são alguns dos mistérios que vamos tentar entender na leitura de Deuses renascidos.Mas a história da robô – que ganhou o simpático nome de Têmis – e do apaixonado casal que o comanda, a piloto militar Kara Resnick e o linguista Vincent Couture, não se resume às paranoias de Rose. Acontece que apareceu um segundo robô na Terra, surgido do nada em pleno centro de Londres, um monstro ainda maior que Têmis, desta vez na forma masculina. Ninguém sabe de onde veio nem se há alguém dentro dele, pois desde que apareceu não se moveu um só milímetro. A organização que controla Têmis decide levá-la até o monstro que parece ter vindo do mesmo lugar que ela, mas o exército britânico decide não esperar e, de olho na possibilidade de ter seu próprio robô, empreende um ataque ao gigante antes que Têmis tenha a chance de confrontá-lo. O resultado é catastrófico: ao sentir-se ameaçado, o robô entra em ação e simplesmente pulveriza as forças de ataque, atingindo uma grande área habitada da cidade no processo. O confronto dos dois monstros de metal é inevitável, e tudo parece indicar que Têmis não terá a menor chance. Para complicar, Kara descobre que a cientista psicopata Alyssa Papantoniou, que a submeteu a experiências dolorosas no primeiro romance, obteve sucesso ao fecundar um óvulo retirado dela, e em algum lugar na América, ela tem uma filha que está agora com dez anos e corre o risco de ser sequestrada por espiões de países interessados em deter uma possível piloto para a Têmis. E como tragédia pouca é bobagem, surgem outros treze robôs similares nas mais populosas cidades mundo, e cada um deles passa a atacá-las com um gás mortal que devasta as populações em segundos. Mesmo com Têmis completamente operacional já seria praticamente impossível enfrentar tantos adversários mas, justamente nessa hora, Têmis desaparece dos radares e tudo leva a crer que é chegado o fim da humanidade. Há uma saída, contudo, porque os alienígenas não querem de fato destruir a humanidade. Mas, para obter o direito de sobreviver, será necessário entender a psicologia alienígena e dar-lhes a única resposta adequada possível.
É nesse cenário apocalíptico que se desenrola a sequência da aventura de ficção científica escrita pelo canadense Sylvain Neuvel, que está subdividida em quatro partes: "Parentes e amigos", "Tudo em família", "Unha e carne" e "Parente próximo". O autor sustenta o mesmo modelo narrativo adotado no primeiro volume, contando a história através de memorandos, artigos de jornal, transcrições de entrevistas, relatórios de missões e outros documentos que, tal como uma colagem, montam aos bocadinhos a imagem final dessa tragédia de proporções planetárias. Cada documento tem seu próprio espaço e tempo, com personagens surgindo e desaparecendo, de forma que nem mesmo os nossos queridos protagonistas estão completamente fora de perigo, e o autor tem ampla liberdade para ser muito cruel.
Como estamos no segundo volume de uma prometida série de três e embora algumas coisas até sejam definidas, mais uma vez não há uma conclusão satisfatória ao enredo. O terceiro e último volume, Only human, está anunciado no perfil do autor no Twitter para sair nos EUA em maio próximo, e deve chegar ao Brasil ainda em 2018. Enquanto isso, leia Deuses renascidos. E também Gigantes adormecidos, se ainda não o fez.
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
O livro do juízo final
O livro do juízo final (Doomsday book), Connie Willis, 573 páginas, tradução de Braulio Tavares. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.
Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.
Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora americana Connie Willis, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willys não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willis tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willis desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willis demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willis faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.
Um dos mais explosivos temas de debate sobre ficção científica no Brasil do século 21 é a representatividade das mulheres no gênero. Mas isso não é de hoje. Desde os primeiros eventos do gênero no país, ainda nos anos 1980, já se trata do assunto, com painéis formados exclusivamente por escritoras e a produção de antologias feministas. A diferença entre o antes e o agora é que a vontade de criar uma discussão quantitativa parece ser mais importante que as obras em si. E assim, tudo aquilo de que realmente vale a pena falar fica para segundo plano. E isso é muito injusto com as autoras que tanto contribuíram para o amadurecimento do gênero, tanto no Brasil quanto no mundo.Um dos muitos títulos recorrentes nessa discussão recente é O livro do juízo final, da escritora americana Connie Willis, publicado em 1992 mas que só chegou ao Brasil em 2017, com tradução de Braulio Tavares para o selo Suma das Letras, da editora Companhia das Letras, primeiro de uma série sobre as aventuras dos historiadores de Oxford.
Contudo, Willys não é uma novidade, mas uma saudosa conhecida dos leitores do gênero no Brasil. Isso porque, durante os poucos anos que a revista Isaac Asimov Magazine teve edição brasileira pela editora Record, nos anos 1990, a autora foi bastante publicada e muito bem avaliada pelos leitores. Esperava-se, a época, que a própria editora lançasse romances dos autores vistos ali, mas isso praticamente não aconteceu, com exceção de Charles Sheffield, outro ótimo e frequente autor da IAM que teve os livros Maré de verão e Divergência traduzidos pela Record. Com o pranteado fim da revista, em sua edição 24, muitos desses excelentes autores, que estavam na linha de frente da fc mundial do final no século, acabaram esquecidos e só agora voltam a pauta.
Willis tem uma fc emotiva e introspectiva, e essas características estão presentes em O livro do juízo final, que conta com personagens muito bem elaborados, envolvimentos profundos e sem pieguismo, e uma narrativa naturalista que deixa tudo muito crível, por mais absurdo que seja. Lembro-me vividamente da novela "O último dos winnenbagos", na qual um casal de idosos viaja por estradas americanas futuristas em um anacrônico motorhome.
O título O livro do juízo final é algo enganoso. Enquanto eu carregava o livro por aí, durante a leitura, muita gente se espantava e acreditava que se tratasse de um livro religioso e escatológico. O fim do mundo é um tema que apavora a maior parte das pessoas mas, ainda que seja um título muito bom e adequado, não anuncia perfeitamente o que o texto traz.
A história acompanha a viagem de Kivrin Engle, estudante da universidade de Oxford – provavelmente uma doutoranda ou algo do gênero – à idade média, mais exatamente ao ano de 1320, a partir de uma tecnologia de viagens no tempo que parece bastante comum em 2050, época em que parte da história se passa. O livro começa já nos preparativos finais da viagem, que não é consenso entre os doutores ligados ao departamento de História da universidade. Sr. Dunworthy, uma espécie de mentor de Kivrin, discorda do método apressado do departamento Medieval que está adiante da missão e tenta suspender a viagem por todos os meios, mas é voto vencido. Willis desfralda aqui o ambiente conflituoso que caracteriza o campo acadêmico em que os doutores lutam por espaço para suas teorias, sem medir as consequências de seus atos. Esse é o tema favorito da fc desde Frankenstein e aqui segue mais ou menos o mesmo caminho. Porque, é claro, alguma coisa vai dar muito errado.
Pouco depois da máquina ser acionada, uma virose altamente contagiosa surge na Londres futurista e o foco parece ser justamente o laboratório do qual Kivrin partiu. Enquanto os cientistas e técnicos ligados a missão adoecem um após o outro, com febres altas e delírios, Kivrin segue sua incursão ignorando o que acontece em seu tempo. Porém, como ela também havia contraído a doença, isso vai trazer uma série de imprevistos à missão e pode mesmo levá-la ao completo desastre. Sua esperança – que ela na verdade não tem conhecimento – é a fidelidade canina de Dunworthy, o único que parece realmente interessado em resgatar Kivrin de sua missão desafortunada. Porque a doença não permitiu que todos os parâmetros de segurança fossem implementados e, a cada hora que passa, as chances de trazer Kivrin de volta ficam ainda piores.
Temos então, duas narrativas paralelas: uma em 2050, quando Dunworthy move céus e terra para resgatar Kivrin de uma tragédia da qual ele não duvida um só minuto, e outra em 1320, em que a pesquisadora convive numa paupérrima aldeia medieval igualmente assolada por uma virose ainda mais mortal.
Willis demonstra habilidade narrativa, tecendo uma trama muito bem ajustada que peca apenas em um aspecto: não previu o impacto da telefonia móvel nessa sociedade do futuro. Afinal, numa época em que se pode viajar com segurança pelo tempo ao ponto de ser rotina na maioria das instituições, era de se imaginar que a sociedade contasse com meios de comunicação um pouco melhores que a telefonia com fio. Talvez, em 1992, ainda não fosse possível antever o fenômeno, mesmo nos EUA, então é necessário, para o bom aproveitamento da história, que o leitor releve esse detalhe, mesmo que não seja assim tão pequeno.
Tirando esse obstáculo do caminho, trata-se de uma história de personagens apaixonantes com os quais sofreremos emocional e fisicamente, instalados nas duas épocas de forma muito bem estruturada. É possível visualizar tanto o campus de Oxford e seus arredores, como toda a geografia e arquitetura da vila medieval, sem que se perceba como Willis faz isso, uma habilidade dominada por poucos. Só por isso, mais a saudade da autora que pode ser enfim aplacada em nós, já vale a leitura. Mas há muito mais o que se aproveitar. Altamente recomendável.
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sábado, 3 de fevereiro de 2018
FCF&H brasileira essencial em 2017
Como tenho feitos nos últimos anos, relacionarei a seguir os títulos
de livros de autores brasileiros de fantasia, ficção científica e terror
que se destacaram entre os lançamentos de 2017. Cabe, antes de iniciar,
dar alguns esclarecimentos sobre o método empregado.
Em primeiro lugar, a lista segue padrões pessoais de relevância, ou seja, trata-se de um recorte pessoal e absolutamente arbitrário. Dentro dessa premissa inicial, optei por evitar sequências, uma vez que toda sequência está necessariamente vinculada a uma publicação de um ano anterior, mas algumas vezes isso é incontornável. Também desconsidero republicações e reedições porque obviamente não são inéditas. E finalmente, só me interessam aqui os autores que escrevem em português e publicam no Brasil. Ou seja, livros publicados fora do país, mesmo que de autores brasileiros, assim como livros de autores estrangeiros traduzidos aqui não entram nesta lista. Confesso que senti vontade de não considerar os ebooks mas, devido a significância de alguns títulos, essa premissa não foi observada. Não há hierarquia de preferência e os títulos estão apresentados em ordem alfabética dentro de sua classificação.
Iniciando pelos romances e, dentro deles, pelo gênero fantasia, destaco cinco títulos. Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás
(Companhia das Letras), de Reginaldo Prandi, é uma obra superlativa e
surpreende que o autor não tenha sido percebido há mais tempo. Conta a
história da alma desmemoriada de uma menina que busca por recuperar sua
história no mundo dos orixás para, dessa forma, ter a oportunidade de
reviver. O que mais impressiona é a clareza do autor em apresentar o
panteão africano - a mitologia mais viva do mundo moderno - e
contextualizar a doutrina do candomblé.
Raphael Draccon sempre fará parte das listas de essenciais quando tiver um novo livro publicado, e ele sempre tem. Trata-se de um dos maiores vendedores de livros de fantasia no Brasil, que conta com uma legião de admiradores. Ainda não parece ter alcançado a estatura da influência de André Vianco - outro nome sempre presente nestas listas -, mas também é bastante respeitado pelos seus pares e leitores. Em O coletor de espíritos (Rocco), um psicólogo retorna ao seu antigo vilarejo para enfrentar os fantasmas da juventude.
Ordem vermelha: Os filhos da degradação, de Felipe Castilho (Intrínseca), foi lançado com pompa e circunstância na última edição da Comic Con Experience, em São Paulo, numa campanha de marketing nunca antes vista na literatura fantástica brasileira. Trata-se de uma fantasia medieval maniqueísta que usa e abusa do consagrado modelo tolkeniano, em que um grupo de paladinos enfrentam a potestade maligna de uma cidadela.
Sherlock e os aventureiros, de André Cordenonsi (Avec), é uma história na linha "juventude de Sherlock Holmes", um tipo de fanfic muito praticado em todo mundo, que até já teve uma versão para o cinema nos anos 1980. Nesta história, o lendário detetive une-se a conhecidas personalidades de fato e de ficção para salvar o mundo de conspirações sinistras.
Cordenonsi também aparece, ao lado de Enéias Tavares e Nikelen Witter, no romance escrito a seis mãos Alcova da morte: Um caso da Agência de Detetives Guanabara Real (Avec), em que um grupo de investigadores – que são avatares dos próprios autores – se envolve numa aventura ao molde steampunk durante a inauguração da estátua do Corcovado. Alguns poderiam dizer que este título deveria estar entre os livros de fc, mas como a história extrapola bastante o gênero, fica melhor mesmo como fantasia.

E por falar em fc, a lista continua, agora nesse gênero, com Anacrônicos, de Luiz Bras (@Link), noveleta publicada em volume independente que conta como o fim do mundo chega através do surgimento inesperado de milhões de réplicas de todas as pessoas que já viveram, incapacitando a continuidade da vida como a conhecemos.
Dunya, o primeiro ebook desta relação, tem autoria de Tibor Moricz (em edição do próprio autor) é um romance de ficção espacial sobre um grupo de colonos num planeta inóspito habitado por uma raça hostil. Apesar de ser um enredo já bastante explorado, Moricz é um dos melhores autores da Terceira Onda da fc brasileira e seus textos sempre merecem a atenção dos leitores.
Extemporâneo é o novo romance de Alexey Dodsworth (Presságio), um dos nomes favoritos entre os votantes do Prêmio Argos, que já lhe tributaram comendas em 2015 e 2017. Neste romance, o protagonista salta, aparentemente sem controle, de uma realidade a outra, experimentando vidas de todos os tipos. O tema também não é original, mas é preciso reconhecer a importância de Dodsworth no cenário atual da fc brasileira.
Eric Novello, um dos autores da Terceira Onda mais elogiados pelos leitores, publicou em 2017 seu primeiro título pela prestigiosa editora Companhia das Letras. Trata-se do romance Ninguém nasce herói, jornada adolescente numa São Paulo alternativa dominada pelo ódio, intolerância e integralismo religioso.
Gerson Lodi-Ribeiro é um nome reconhecido dentro do fandom, ativo desde os anos 1980 tanto como autor como organizador de antologias. Seu romance Octopusgarden (Draco) também se passa no espaço sideral, em um planeta aquático habitados por octópodes que recebe a visita de uma nave com golfinhos inteligentes terrestres, e a interação das espécies não vai ser muito pacífica.

No gênero do horror, finalmente chegou ao mercado O mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo (Devir), uma história que une carros envenenados, boxe e demônios assolando Sumaré, pequena cidade do interior de São Paulo onde o autor passou toda a sua juventude, o que garante descrições naturalistas que contrastam vividamente com o sobrenatural.
Neve negra, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras) conta a história de um artista plástico que se depara com o insólito quando, depois de longa ausência, retorna sua residência na serra catarinense numa rara noite de nevasca.
Também pela Companhia das Letras, recebemos Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, relato perturbador que observa o Brasil a partir de um garoto que sofreu um acidente grave e tem de tomar medicamentos que nublam a percepção da realidade, ou talvez não.
André Vianco aparece aqui com o romance Penumbra (LeYa), que conta a história de uma menina que desperta numa dimensão sombria onde encontra uma velha senhora que será sua nêmesis e também sua única amiga.
Antônio Xerxenesky trouxe o romance As perguntas, publicado pela Companhia das Letras. Conta sobre uma especialista em ocultismo que se envolve na investigação de um crime que vai abalar sua confiança e convicções.
Quero lembrar agora alguns títulos entre antologias e coletâneas porque, além da produção de ficção curta ser tradição brasileira, é geralmente nas seletas que florescem novos autores. Dessa forma, destacarei quatro títulos em cada gênero.

Na fantasia, é necessário reconhecer o Dicionário de línguas imaginárias, de Olavo Amaral (Companhia das Letras), em que o autor reúne textos de sua própria autoria, todos de um viés metalinguístico que se desdobra nos diversos subgêneros especulativos, sempre tendo como base a comunicação ou a falta dela.
Giulia Moon, que também é uma personalidade obrigatória entre o essencial, aparece desta vez ao lado de Walter Tierno como organizadora da antologia Fantásticas: Contos de fantasia protagonizado por mulheres (Giz), que como diz o título, pretende dar maior presença feminina à literatura do gênero, proposta que por si só é digna de nota.
O já citado Tibor Moricz aparece mais uma vez nesta relação com a coletânea Filamentos iridescentes, autopublicada em forma de ebook, que reúne alguns de seus melhores trabalhos na ficção curta, algo que realmente faltava na bibliografia do autor.
A mais destaca autora no último prêmio Argos, Ana Lucia Merege organizou este ano mais uma antologia sobre contos de fantasia medieval, Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto (Draco) que, ao lado de Excalibur e Medieval, forma um amplo painel do subgênero no país.

O espaço das antologias de ficção científica foi dominado por Luiz Bras, que organizou três dos quatro títulos lembrados aqui. Foram os volumes gêmeos de Hiperconexões, realidade expandida: Sangue & titânio e Carbono e Silício (Patuá), que são seletas de poemas, algo extremamente raro dentro do gênero no Brasil. Brás também publicou a coletânea pessoal A última árvore (Livros-Fantasma), ebook que reúne sua ficção curta mais recente. Pela qualidade de suas coletâneas anteriores, esta certamente é leitura obrigatória.
A quarta coletânea do gênero tem o singelo título de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do País do Futuro, ebook de Sid Castro publicado pelo autor, um veterano da Segunda Onda da fc brasileira que apresenta agora uma seleta autoral com textos interessantes de diversas propostas.

No gênero do horror, destacam-se a coletânea Comboio de espectros, de Duda Falcão (Argonautas/Avec), autor que tem se estabelecido junto ao fandom a partir de trabalhos nesse gênero, especialmente contos, que seguem um estilo gótico clássico, com uma pitada de humor, negro é claro. Camila Fernandes, autora da Terceira Onda que estava ausente há algum tempo, retornou em 2017 com a coletânea Contos sombrios (Dandelion), num estilo mais intimista. Raphael Draccon, cujo romance já foi citado no início deste artigo, contribui também no horror, ao lado da esposa Carolina Munhóz e dos escritores Frini Georgakopoulos e Rafael Montes para compor a antologia Criaturas e criadores: Histórias para noites de terror (Record), com releituras de histórias clássicas do gênero. E, ainda, Crimes fantásticos, organizada por Cesar Alcázar e Duda Falcão (Argonautas), antologia que tem o mérito suplementar de recuperar a arte de R. F. Lucchetti, um dos grandes mestres do horror brasileiro.
Para fechar esta lista, três títulos de não ficção que são obrigatórios para aqueles que querem ter uma visão mais apurada da literatura fantástica no Brasil: A a Z: Dicas para escritores, do veterano da Segunda Onda, tradutor e acadêmico Fabio Fernandes, um ebook autoeditado com orientações divertidas para novos autores de gênero, mas que também são úteis para os leitores; A fantástica jornada do escritor no Brasil, reveladora pesquisa de Kátia Regina Souza (Metamorfose) apoiada em uma série de entrevistas com personalidades da ficção fantástica brasileira, e Fantástico e seus arredores: Figurações do insólito, compêndio acadêmico editado em forma de ebook pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, organizado por Maria Zilda da Cunha e Ligia Menna, com artigos sobre a literatura brasileira e sua relação com o fantástico.
Pinçamos aqui trinta títulos importantes publicados ao longo de 2017 (quinze romances, doze coletâneas e três não ficção) que devem ser observados com carinho tanto pelos leitores como pelos estudiosos dos gêneros fantásticos no Brasil. Como foi dito no início, por ser uma seleção arbitrária, decerto que permite recortes alternativos dentro da relação total de lançamentos no ano que, na última contagem, superou 180 títulos. Contudo, a lista integralizada não está pronta pois a pesquisa ainda não foi encerrada. Quando for publicada, será divulgada aqui e cada um poderá então fazer sua própria lista de essenciais.
Por hora, vocês vão ter que se contentar com a minha. Desculpem o mal jeito.
Em primeiro lugar, a lista segue padrões pessoais de relevância, ou seja, trata-se de um recorte pessoal e absolutamente arbitrário. Dentro dessa premissa inicial, optei por evitar sequências, uma vez que toda sequência está necessariamente vinculada a uma publicação de um ano anterior, mas algumas vezes isso é incontornável. Também desconsidero republicações e reedições porque obviamente não são inéditas. E finalmente, só me interessam aqui os autores que escrevem em português e publicam no Brasil. Ou seja, livros publicados fora do país, mesmo que de autores brasileiros, assim como livros de autores estrangeiros traduzidos aqui não entram nesta lista. Confesso que senti vontade de não considerar os ebooks mas, devido a significância de alguns títulos, essa premissa não foi observada. Não há hierarquia de preferência e os títulos estão apresentados em ordem alfabética dentro de sua classificação.
Iniciando pelos romances e, dentro deles, pelo gênero fantasia, destaco cinco títulos. Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás
(Companhia das Letras), de Reginaldo Prandi, é uma obra superlativa e
surpreende que o autor não tenha sido percebido há mais tempo. Conta a
história da alma desmemoriada de uma menina que busca por recuperar sua
história no mundo dos orixás para, dessa forma, ter a oportunidade de
reviver. O que mais impressiona é a clareza do autor em apresentar o
panteão africano - a mitologia mais viva do mundo moderno - e
contextualizar a doutrina do candomblé.Raphael Draccon sempre fará parte das listas de essenciais quando tiver um novo livro publicado, e ele sempre tem. Trata-se de um dos maiores vendedores de livros de fantasia no Brasil, que conta com uma legião de admiradores. Ainda não parece ter alcançado a estatura da influência de André Vianco - outro nome sempre presente nestas listas -, mas também é bastante respeitado pelos seus pares e leitores. Em O coletor de espíritos (Rocco), um psicólogo retorna ao seu antigo vilarejo para enfrentar os fantasmas da juventude.
Ordem vermelha: Os filhos da degradação, de Felipe Castilho (Intrínseca), foi lançado com pompa e circunstância na última edição da Comic Con Experience, em São Paulo, numa campanha de marketing nunca antes vista na literatura fantástica brasileira. Trata-se de uma fantasia medieval maniqueísta que usa e abusa do consagrado modelo tolkeniano, em que um grupo de paladinos enfrentam a potestade maligna de uma cidadela.
Sherlock e os aventureiros, de André Cordenonsi (Avec), é uma história na linha "juventude de Sherlock Holmes", um tipo de fanfic muito praticado em todo mundo, que até já teve uma versão para o cinema nos anos 1980. Nesta história, o lendário detetive une-se a conhecidas personalidades de fato e de ficção para salvar o mundo de conspirações sinistras.
Cordenonsi também aparece, ao lado de Enéias Tavares e Nikelen Witter, no romance escrito a seis mãos Alcova da morte: Um caso da Agência de Detetives Guanabara Real (Avec), em que um grupo de investigadores – que são avatares dos próprios autores – se envolve numa aventura ao molde steampunk durante a inauguração da estátua do Corcovado. Alguns poderiam dizer que este título deveria estar entre os livros de fc, mas como a história extrapola bastante o gênero, fica melhor mesmo como fantasia.
E por falar em fc, a lista continua, agora nesse gênero, com Anacrônicos, de Luiz Bras (@Link), noveleta publicada em volume independente que conta como o fim do mundo chega através do surgimento inesperado de milhões de réplicas de todas as pessoas que já viveram, incapacitando a continuidade da vida como a conhecemos.
Dunya, o primeiro ebook desta relação, tem autoria de Tibor Moricz (em edição do próprio autor) é um romance de ficção espacial sobre um grupo de colonos num planeta inóspito habitado por uma raça hostil. Apesar de ser um enredo já bastante explorado, Moricz é um dos melhores autores da Terceira Onda da fc brasileira e seus textos sempre merecem a atenção dos leitores.
Extemporâneo é o novo romance de Alexey Dodsworth (Presságio), um dos nomes favoritos entre os votantes do Prêmio Argos, que já lhe tributaram comendas em 2015 e 2017. Neste romance, o protagonista salta, aparentemente sem controle, de uma realidade a outra, experimentando vidas de todos os tipos. O tema também não é original, mas é preciso reconhecer a importância de Dodsworth no cenário atual da fc brasileira.
Eric Novello, um dos autores da Terceira Onda mais elogiados pelos leitores, publicou em 2017 seu primeiro título pela prestigiosa editora Companhia das Letras. Trata-se do romance Ninguém nasce herói, jornada adolescente numa São Paulo alternativa dominada pelo ódio, intolerância e integralismo religioso.
Gerson Lodi-Ribeiro é um nome reconhecido dentro do fandom, ativo desde os anos 1980 tanto como autor como organizador de antologias. Seu romance Octopusgarden (Draco) também se passa no espaço sideral, em um planeta aquático habitados por octópodes que recebe a visita de uma nave com golfinhos inteligentes terrestres, e a interação das espécies não vai ser muito pacífica.

No gênero do horror, finalmente chegou ao mercado O mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo (Devir), uma história que une carros envenenados, boxe e demônios assolando Sumaré, pequena cidade do interior de São Paulo onde o autor passou toda a sua juventude, o que garante descrições naturalistas que contrastam vividamente com o sobrenatural.
Neve negra, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras) conta a história de um artista plástico que se depara com o insólito quando, depois de longa ausência, retorna sua residência na serra catarinense numa rara noite de nevasca.
Também pela Companhia das Letras, recebemos Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, relato perturbador que observa o Brasil a partir de um garoto que sofreu um acidente grave e tem de tomar medicamentos que nublam a percepção da realidade, ou talvez não.
André Vianco aparece aqui com o romance Penumbra (LeYa), que conta a história de uma menina que desperta numa dimensão sombria onde encontra uma velha senhora que será sua nêmesis e também sua única amiga.
Antônio Xerxenesky trouxe o romance As perguntas, publicado pela Companhia das Letras. Conta sobre uma especialista em ocultismo que se envolve na investigação de um crime que vai abalar sua confiança e convicções.
Quero lembrar agora alguns títulos entre antologias e coletâneas porque, além da produção de ficção curta ser tradição brasileira, é geralmente nas seletas que florescem novos autores. Dessa forma, destacarei quatro títulos em cada gênero.
Na fantasia, é necessário reconhecer o Dicionário de línguas imaginárias, de Olavo Amaral (Companhia das Letras), em que o autor reúne textos de sua própria autoria, todos de um viés metalinguístico que se desdobra nos diversos subgêneros especulativos, sempre tendo como base a comunicação ou a falta dela.
Giulia Moon, que também é uma personalidade obrigatória entre o essencial, aparece desta vez ao lado de Walter Tierno como organizadora da antologia Fantásticas: Contos de fantasia protagonizado por mulheres (Giz), que como diz o título, pretende dar maior presença feminina à literatura do gênero, proposta que por si só é digna de nota.
O já citado Tibor Moricz aparece mais uma vez nesta relação com a coletânea Filamentos iridescentes, autopublicada em forma de ebook, que reúne alguns de seus melhores trabalhos na ficção curta, algo que realmente faltava na bibliografia do autor.
A mais destaca autora no último prêmio Argos, Ana Lucia Merege organizou este ano mais uma antologia sobre contos de fantasia medieval, Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto (Draco) que, ao lado de Excalibur e Medieval, forma um amplo painel do subgênero no país.

O espaço das antologias de ficção científica foi dominado por Luiz Bras, que organizou três dos quatro títulos lembrados aqui. Foram os volumes gêmeos de Hiperconexões, realidade expandida: Sangue & titânio e Carbono e Silício (Patuá), que são seletas de poemas, algo extremamente raro dentro do gênero no Brasil. Brás também publicou a coletânea pessoal A última árvore (Livros-Fantasma), ebook que reúne sua ficção curta mais recente. Pela qualidade de suas coletâneas anteriores, esta certamente é leitura obrigatória.
A quarta coletânea do gênero tem o singelo título de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do País do Futuro, ebook de Sid Castro publicado pelo autor, um veterano da Segunda Onda da fc brasileira que apresenta agora uma seleta autoral com textos interessantes de diversas propostas.

No gênero do horror, destacam-se a coletânea Comboio de espectros, de Duda Falcão (Argonautas/Avec), autor que tem se estabelecido junto ao fandom a partir de trabalhos nesse gênero, especialmente contos, que seguem um estilo gótico clássico, com uma pitada de humor, negro é claro. Camila Fernandes, autora da Terceira Onda que estava ausente há algum tempo, retornou em 2017 com a coletânea Contos sombrios (Dandelion), num estilo mais intimista. Raphael Draccon, cujo romance já foi citado no início deste artigo, contribui também no horror, ao lado da esposa Carolina Munhóz e dos escritores Frini Georgakopoulos e Rafael Montes para compor a antologia Criaturas e criadores: Histórias para noites de terror (Record), com releituras de histórias clássicas do gênero. E, ainda, Crimes fantásticos, organizada por Cesar Alcázar e Duda Falcão (Argonautas), antologia que tem o mérito suplementar de recuperar a arte de R. F. Lucchetti, um dos grandes mestres do horror brasileiro.
Para fechar esta lista, três títulos de não ficção que são obrigatórios para aqueles que querem ter uma visão mais apurada da literatura fantástica no Brasil: A a Z: Dicas para escritores, do veterano da Segunda Onda, tradutor e acadêmico Fabio Fernandes, um ebook autoeditado com orientações divertidas para novos autores de gênero, mas que também são úteis para os leitores; A fantástica jornada do escritor no Brasil, reveladora pesquisa de Kátia Regina Souza (Metamorfose) apoiada em uma série de entrevistas com personalidades da ficção fantástica brasileira, e Fantástico e seus arredores: Figurações do insólito, compêndio acadêmico editado em forma de ebook pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, organizado por Maria Zilda da Cunha e Ligia Menna, com artigos sobre a literatura brasileira e sua relação com o fantástico.
Pinçamos aqui trinta títulos importantes publicados ao longo de 2017 (quinze romances, doze coletâneas e três não ficção) que devem ser observados com carinho tanto pelos leitores como pelos estudiosos dos gêneros fantásticos no Brasil. Como foi dito no início, por ser uma seleção arbitrária, decerto que permite recortes alternativos dentro da relação total de lançamentos no ano que, na última contagem, superou 180 títulos. Contudo, a lista integralizada não está pronta pois a pesquisa ainda não foi encerrada. Quando for publicada, será divulgada aqui e cada um poderá então fazer sua própria lista de essenciais.
Por hora, vocês vão ter que se contentar com a minha. Desculpem o mal jeito.
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Resenha: Dicionário de línguas imaginárias
Dicionário de línguas imaginárias, Olavo Amaral. 128 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Alfaguara, São Paulo, 2017.
Ainda que seja conceito comum entre os críticos da literatura brasileira que ela seja uma arte estagnada, recorrente em seus temas, quase sempre ligados à marginália, à pobreza e à violência, repetindo personagens e tramas que tornam a leitura previsível – e isso pode ser mesmo verdade – sempre houve uma corrente que fluiu em outras direções. De Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Murilo Rubião a Ignácio de Loyola Brandão, de Monteiro Lobato a José J. Veiga, há dezenas de autores que escapam dessa análise superficial, que levam temas e tramas da literatura brasileira muito além da fronteira. Histórias de horror quase sempre, fantasia e ficção científica eventualmente, aparecem em todas as épocas, desde que foi permitido que os brasileiros publicassem o que escreviam.
Hoje temos um real movimento em busca desses horizontes, iniciado antes de tudo pelos leitores fãs de ficção científica que, na dificuldade de encontrar o que queriam, passaram a compor suas próprias histórias em fanzines, a princípio, e em blogues, mais recentemente. Esse movimento pré-fabricado nos anos 1960 e 1980, cresceu muito na era da internet e eclipsou aquele fluxo natural que continua lá, contudo.
Há quem diga que as obras de autores ligados ao realismo fantástico não são parte desse movimento. E não são mesmo. São autores mais incorporados ao mainstream, nunca identificados como "fãs", que emprestam para si a estética e os mecanismos de uma tradição latinoamericana que vem de muito mais longe. As histórias tem textura de weird fiction (referência à revista americana Weird Tales, publicada entre 1923 e 1954), em que os contornos da literatura de gênero não são claros e seus preciosos protocolos não são respeitados.
Este é o caso dos dez contos que formam esta coletânea de Olavo Amaral, portoalegrense nascido em 1979, médico, neurocientista, cineasta e autor premiado, que tem em sua bibliografia as coletâneas Estática (2006) e Correnteza e escombros (2012), também relacionadas ao fantástico e ambas disponíveis para leitura na internet.
Dicionário de línguas imaginárias é o primeiro livro do autor pela Companhia das Letras e guarda tributo à Jorge Luis Borges, especialmente por conta do tema. Mas, enquanto Borges tinha no livro o seu objeto de especulação, Amaral volta sua atenção para a oralidade, a língua, e assim sustenta a mesma metalinguagem borgeana.
O conto que abre a seleta é "Uok phlau", estruturado na forma de um artigo sobre o trabalho de campo de um antropólogo junto a tribo nativa dos yualapeng, em cuja língua não existe a noção de "ir" e "vir".
"Travessia" é uma história mais convencional, sobre quatro homens que não falam a mesma língua e, por algum motivo não explicitado, estão presos em um contêiner, e os desdobramentos do estresse, medo e preconceito que surgem entre eles.
"Mixtape" é uma história sincopada, de tons eróticos, sobre um homem obcecado por um vídeo pornográfico.
"Quarto a beira d'água" retoma o estilo fantástico ao contar a tragédia de um casal depois que surge uma poça de água no meio de seu quarto de dormir.
"Iceberg" é uma fantasia com laivos de ficção científica. Um antropólogo passa o inverno observando à distância uma tribo de homens primitivos que vivem próximos ao litoral. O relato não deixa claro o que realmente está acontecendo, mas vamos sentir o estranhamento quando chega o verão.
"Choeung ek" apresenta uma sociedade que tem no turismo uma grande atividade comercial. Ali, os viajantes são encaminhados às "atrações" locais, que contam uma história tétrica e antiga de violência e crueldade, tudo muito profissional, é claro. Mas há um passeio especial, exclusivo para os turistas mais curiosos.
"O ano em que nos tornamos ciborgues" é uma ficção científica distópica, sobre uma revolução proletária fracassada que dá lugar a uma sociedade de coalizão. Sobreviventes mutilados pelo conflito são submetidos a um tratamento a base de implantes, mas ainda há muito com que se revoltar.
Em "Esquecendo Valdéz", o autor se achega ao modelo borgeano ao contar a história de um homem que forjou um intelectual inexistente a partir da produção de um livro no qual baseou seu trabalho acadêmico.
"Última balsa" tem um que de A estrada, de Cormac McCarthy. Conta o drama de um homem e um menino autista tentando sobreviver em uma ilha deserta após um naufrágio.
"Estepe" mostra o drama de um homem que tem uma doença incurável que avança tanto mais rápido quanto ele fala. O jeito é parar de falar e, para isso, ele vai viver com uma tribo nômade nas congeladas estepes russas, que não por acaso é o povo que menos fala no mundo.
Um livro curioso e perturbador, que sustenta a tradição do realismo fantástico brasileiro e latinoamericano com qualidades inegáveis, ótimas ideias e texto fluente. Leitura altamente recomendável que mostra que, ao contrário do que se pensa, há inteligência fora do fandom.
Ainda que seja conceito comum entre os críticos da literatura brasileira que ela seja uma arte estagnada, recorrente em seus temas, quase sempre ligados à marginália, à pobreza e à violência, repetindo personagens e tramas que tornam a leitura previsível – e isso pode ser mesmo verdade – sempre houve uma corrente que fluiu em outras direções. De Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Murilo Rubião a Ignácio de Loyola Brandão, de Monteiro Lobato a José J. Veiga, há dezenas de autores que escapam dessa análise superficial, que levam temas e tramas da literatura brasileira muito além da fronteira. Histórias de horror quase sempre, fantasia e ficção científica eventualmente, aparecem em todas as épocas, desde que foi permitido que os brasileiros publicassem o que escreviam.
Hoje temos um real movimento em busca desses horizontes, iniciado antes de tudo pelos leitores fãs de ficção científica que, na dificuldade de encontrar o que queriam, passaram a compor suas próprias histórias em fanzines, a princípio, e em blogues, mais recentemente. Esse movimento pré-fabricado nos anos 1960 e 1980, cresceu muito na era da internet e eclipsou aquele fluxo natural que continua lá, contudo.
Há quem diga que as obras de autores ligados ao realismo fantástico não são parte desse movimento. E não são mesmo. São autores mais incorporados ao mainstream, nunca identificados como "fãs", que emprestam para si a estética e os mecanismos de uma tradição latinoamericana que vem de muito mais longe. As histórias tem textura de weird fiction (referência à revista americana Weird Tales, publicada entre 1923 e 1954), em que os contornos da literatura de gênero não são claros e seus preciosos protocolos não são respeitados.
Este é o caso dos dez contos que formam esta coletânea de Olavo Amaral, portoalegrense nascido em 1979, médico, neurocientista, cineasta e autor premiado, que tem em sua bibliografia as coletâneas Estática (2006) e Correnteza e escombros (2012), também relacionadas ao fantástico e ambas disponíveis para leitura na internet.
Dicionário de línguas imaginárias é o primeiro livro do autor pela Companhia das Letras e guarda tributo à Jorge Luis Borges, especialmente por conta do tema. Mas, enquanto Borges tinha no livro o seu objeto de especulação, Amaral volta sua atenção para a oralidade, a língua, e assim sustenta a mesma metalinguagem borgeana.
O conto que abre a seleta é "Uok phlau", estruturado na forma de um artigo sobre o trabalho de campo de um antropólogo junto a tribo nativa dos yualapeng, em cuja língua não existe a noção de "ir" e "vir".
"Travessia" é uma história mais convencional, sobre quatro homens que não falam a mesma língua e, por algum motivo não explicitado, estão presos em um contêiner, e os desdobramentos do estresse, medo e preconceito que surgem entre eles.
"Mixtape" é uma história sincopada, de tons eróticos, sobre um homem obcecado por um vídeo pornográfico.
"Quarto a beira d'água" retoma o estilo fantástico ao contar a tragédia de um casal depois que surge uma poça de água no meio de seu quarto de dormir.
"Iceberg" é uma fantasia com laivos de ficção científica. Um antropólogo passa o inverno observando à distância uma tribo de homens primitivos que vivem próximos ao litoral. O relato não deixa claro o que realmente está acontecendo, mas vamos sentir o estranhamento quando chega o verão.
"Choeung ek" apresenta uma sociedade que tem no turismo uma grande atividade comercial. Ali, os viajantes são encaminhados às "atrações" locais, que contam uma história tétrica e antiga de violência e crueldade, tudo muito profissional, é claro. Mas há um passeio especial, exclusivo para os turistas mais curiosos.
"O ano em que nos tornamos ciborgues" é uma ficção científica distópica, sobre uma revolução proletária fracassada que dá lugar a uma sociedade de coalizão. Sobreviventes mutilados pelo conflito são submetidos a um tratamento a base de implantes, mas ainda há muito com que se revoltar.
Em "Esquecendo Valdéz", o autor se achega ao modelo borgeano ao contar a história de um homem que forjou um intelectual inexistente a partir da produção de um livro no qual baseou seu trabalho acadêmico.
"Última balsa" tem um que de A estrada, de Cormac McCarthy. Conta o drama de um homem e um menino autista tentando sobreviver em uma ilha deserta após um naufrágio.
"Estepe" mostra o drama de um homem que tem uma doença incurável que avança tanto mais rápido quanto ele fala. O jeito é parar de falar e, para isso, ele vai viver com uma tribo nômade nas congeladas estepes russas, que não por acaso é o povo que menos fala no mundo.
Um livro curioso e perturbador, que sustenta a tradição do realismo fantástico brasileiro e latinoamericano com qualidades inegáveis, ótimas ideias e texto fluente. Leitura altamente recomendável que mostra que, ao contrário do que se pensa, há inteligência fora do fandom.
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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás
Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás, Reginaldo Prandi. Ilustrações de Rimon Guimarães, 200 páginas. Selo Seguinte, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2017.
Tratar de mitologia africana não é novidade no ambiente da ficção fantástica brasileira, embora não seja também uma recorrência. De fato, há ainda uma grande defasagem entre as mitologias fundadoras de nossa cultura e as mitologias de matriz estrangeira quando falamos de ficção brasileira. A esmagadora maioria dos autores brasileiros sente-se pouco confortável com a cultura nativa até porque não a conhece: vive num ambiente aculturado, em que os valores estrangeiros, geralmente europeus, predominam. Por isso, é muito comum encontrarmos autores brasileiros no campo do fantástico trabalhando com mitologias grega, nórdica, japonesa e até nativas da região da América do Norte. É o que vemos no cinema, na tv, nos quadrinhos e na literatura dominante do gênero que, não por acaso, vêm exatamente do mercado anglo-americano que explora todas elas. Em alguns momentos, no ambiente dos autores, até se construiram discursos pró-nativos, de matizes modernistas, mas sempre houve uma forte corrente contrária que a acusava de ser patrulheira e pregar uma ficção estereotipada.
O que tem permitido o crescimento de obras literárias com temas africanistas no ambiente da ficção fantástica brasileira, além da laicização do mercado e da "explosão cambriana" na diversidade cultural, foi a cultura do "faça você mesmo" e, principalmente, a popularização dos processos editoriais. Hoje, diferentemente de todos os outros tempos, publica quem quiser e o que quiser. Com as facilidades editoriais, seja no acesso à impressão por demanda ou no crescimento da atividade literária no espaço virtual, os editores comerciais perderam boa parte do poder de determinar o que pode ou não ser publicado. Ainda há, é claro, um nó górdio na distribuição de livros reais, dominado por uma máfia voraz, mas há quem diga que as livrarias também já têm seus dias contados.
Ao longos dos últimos vinte anos, mais ou menos, formou-se um grande grupo de autores e leitores muito interessados em novidades, integrado pelo avanço da internet. Num primeiro momento, enquanto as grandes editoras ainda insistiam em ignorar esse grupo, os autores fizeram circular fanzines e livros independentes que ajudaram a crescer uma massa de leitores ao ponto de formar um mercado potencial. Timidamente, autores ligados ao fandom começaram a aparecer nas livrarias e cada vez mais deles percebem que a ficção fantástica tem méritos suficientes para romper preconceitos.
Enfim, depois de muita luta, podemos dizer que as comportas abriram e a ficção fantástica não está mais restrita a um fandom especializado. Autores experientes, inclusive do mainstream, parecem entender as vantagens de trabalhar dentro da ficção especulativa, avançando especialmente no fantasia, que tem sido o gênero de melhor aceitação comercial.
Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás é um exemplo disso. Romance de autoria do sociólogo Reginaldo Prandi, autor paulista e estudioso da mitologia africana que escreveu o importante Mitologia dos orixás (2000, Companhia das Letras) e diversos outros volumes sobre cultura afro-brasileira, elabora uma fabulação singela que, de forma bastante didática, mostra como se fundamenta a religiosidade africana. Aimó não é seu primeiro romance no tema: Ifá, o adivinho (2002, Companhia das Letras), por exemplo, foi premiado em 2003 como Melhor Livro Reconto da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Acompanhamos a jornada de Aimó, menina sem memória que, aos prantos, vaga pelo Orum, o mundo dos orixás. São tantas suas lágrimas que acabam por despertar Olorum, o maior dos orixás, que, sensibilizado pelo sofrimento de Aimó, encarrega Ifá e Exu para que apresentem à menina todas as orixás para que ela possa escolher uma delas como sua mãe espiritual e então reencarnar no Aiê, o mundo dos homens, e restaurar sua linhagem. Aimó inicia assim uma peregrinação por Orum, testemunhando, a partir das narrações de Ifá, as principais histórias de cada uma das orixás femininas e, no processo, também dos orixás masculinos. As narrativas de Ifá, sempre apresentadas em uma fonte diferenciada do estilo principal do texto, também expõem ao leitor as características doutrinárias do Candomblé, religião africana que deu origem às seitas praticadas no Brasil.
As ilustrações de Rimon Guimarães, de um estilo primitivista elegante, ajudam a construir o imaginário do Orum. Cada capítulo é introduzido por um dos signos do oráculo de Ifá (o jogo de búzios), detalhados num anexo no final do volume. Também aparecem em anexos: notas do autor, um glossário com termos das línguas nagô e iorubá citados no livro, e uma relação explicativa sobre cada um dos orixás.
O romance de Prandi, como integrante do selo juvenil da Companhia das Letras, tem o objetivo de levar ao leitor jovem algum conhecimento sobre esta que é a mais viva das mitologias modernas, extremamente influente na cultura brasileira. Contudo faz muito mais do que isso: traz também ao leitor experiente da literatura fantástica um das mais expressivas e esclarecedoras explicações sobre o Candomblé, seus fundamentos e seus personagens, integrando-os com naturalidade ao imaginário coletivo, sem proselitismos. Ao lado de O palácio de Ifê (2000, L&PM) e A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), ambos da escritora gaúcha Simone Saueressig, Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás forma uma tríade da melhor ficção fantástica sobre orixás já apresentadas ao leitor brasileiro, leituras obrigatórias principalmente a autores que pretendem navegar por águas tão pouco conhecidas.
Tratar de mitologia africana não é novidade no ambiente da ficção fantástica brasileira, embora não seja também uma recorrência. De fato, há ainda uma grande defasagem entre as mitologias fundadoras de nossa cultura e as mitologias de matriz estrangeira quando falamos de ficção brasileira. A esmagadora maioria dos autores brasileiros sente-se pouco confortável com a cultura nativa até porque não a conhece: vive num ambiente aculturado, em que os valores estrangeiros, geralmente europeus, predominam. Por isso, é muito comum encontrarmos autores brasileiros no campo do fantástico trabalhando com mitologias grega, nórdica, japonesa e até nativas da região da América do Norte. É o que vemos no cinema, na tv, nos quadrinhos e na literatura dominante do gênero que, não por acaso, vêm exatamente do mercado anglo-americano que explora todas elas. Em alguns momentos, no ambiente dos autores, até se construiram discursos pró-nativos, de matizes modernistas, mas sempre houve uma forte corrente contrária que a acusava de ser patrulheira e pregar uma ficção estereotipada. O que tem permitido o crescimento de obras literárias com temas africanistas no ambiente da ficção fantástica brasileira, além da laicização do mercado e da "explosão cambriana" na diversidade cultural, foi a cultura do "faça você mesmo" e, principalmente, a popularização dos processos editoriais. Hoje, diferentemente de todos os outros tempos, publica quem quiser e o que quiser. Com as facilidades editoriais, seja no acesso à impressão por demanda ou no crescimento da atividade literária no espaço virtual, os editores comerciais perderam boa parte do poder de determinar o que pode ou não ser publicado. Ainda há, é claro, um nó górdio na distribuição de livros reais, dominado por uma máfia voraz, mas há quem diga que as livrarias também já têm seus dias contados.
Ao longos dos últimos vinte anos, mais ou menos, formou-se um grande grupo de autores e leitores muito interessados em novidades, integrado pelo avanço da internet. Num primeiro momento, enquanto as grandes editoras ainda insistiam em ignorar esse grupo, os autores fizeram circular fanzines e livros independentes que ajudaram a crescer uma massa de leitores ao ponto de formar um mercado potencial. Timidamente, autores ligados ao fandom começaram a aparecer nas livrarias e cada vez mais deles percebem que a ficção fantástica tem méritos suficientes para romper preconceitos.
Enfim, depois de muita luta, podemos dizer que as comportas abriram e a ficção fantástica não está mais restrita a um fandom especializado. Autores experientes, inclusive do mainstream, parecem entender as vantagens de trabalhar dentro da ficção especulativa, avançando especialmente no fantasia, que tem sido o gênero de melhor aceitação comercial.
Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás é um exemplo disso. Romance de autoria do sociólogo Reginaldo Prandi, autor paulista e estudioso da mitologia africana que escreveu o importante Mitologia dos orixás (2000, Companhia das Letras) e diversos outros volumes sobre cultura afro-brasileira, elabora uma fabulação singela que, de forma bastante didática, mostra como se fundamenta a religiosidade africana. Aimó não é seu primeiro romance no tema: Ifá, o adivinho (2002, Companhia das Letras), por exemplo, foi premiado em 2003 como Melhor Livro Reconto da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Acompanhamos a jornada de Aimó, menina sem memória que, aos prantos, vaga pelo Orum, o mundo dos orixás. São tantas suas lágrimas que acabam por despertar Olorum, o maior dos orixás, que, sensibilizado pelo sofrimento de Aimó, encarrega Ifá e Exu para que apresentem à menina todas as orixás para que ela possa escolher uma delas como sua mãe espiritual e então reencarnar no Aiê, o mundo dos homens, e restaurar sua linhagem. Aimó inicia assim uma peregrinação por Orum, testemunhando, a partir das narrações de Ifá, as principais histórias de cada uma das orixás femininas e, no processo, também dos orixás masculinos. As narrativas de Ifá, sempre apresentadas em uma fonte diferenciada do estilo principal do texto, também expõem ao leitor as características doutrinárias do Candomblé, religião africana que deu origem às seitas praticadas no Brasil.
As ilustrações de Rimon Guimarães, de um estilo primitivista elegante, ajudam a construir o imaginário do Orum. Cada capítulo é introduzido por um dos signos do oráculo de Ifá (o jogo de búzios), detalhados num anexo no final do volume. Também aparecem em anexos: notas do autor, um glossário com termos das línguas nagô e iorubá citados no livro, e uma relação explicativa sobre cada um dos orixás.
O romance de Prandi, como integrante do selo juvenil da Companhia das Letras, tem o objetivo de levar ao leitor jovem algum conhecimento sobre esta que é a mais viva das mitologias modernas, extremamente influente na cultura brasileira. Contudo faz muito mais do que isso: traz também ao leitor experiente da literatura fantástica um das mais expressivas e esclarecedoras explicações sobre o Candomblé, seus fundamentos e seus personagens, integrando-os com naturalidade ao imaginário coletivo, sem proselitismos. Ao lado de O palácio de Ifê (2000, L&PM) e A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), ambos da escritora gaúcha Simone Saueressig, Aimó: uma viagem pelo mundo dos orixás forma uma tríade da melhor ficção fantástica sobre orixás já apresentadas ao leitor brasileiro, leituras obrigatórias principalmente a autores que pretendem navegar por águas tão pouco conhecidas.
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domingo, 7 de janeiro de 2018
Realidades cabulosas
O saite de entretenimento Leitor Cabuloso, que tem como um de seus objetivos publicar contos inéditos de ficção de gênero, investe em uma nova aventura inaugurando o selo editorial Cabuloso Livros com a antologia Realidades cabulosas, organizada por Lucas Rafael Ferraz e Rodrigo Rahamti,
O livro reúne em 241 páginas dezenove contos publicados no saite ao longo de 2017, que trafegam em diversos gêneros, indo do realismo ao surreal – passando pela ficção científica, fantasia policial e terror – na pena dos escritores Adriana Rodrigues, Bruno Martins Soares, Daniel dos Santos Soares, Evelyn E. Postali, Fábio Fernandes, J. M. Beraldo, João Paulo Effting, Joe de Lima, Luís H. Beber, Luis Henrique da Cunha, Magdiel Araujo, Matheus Salfir, Michel Peres, Priscilla Matsumoto, Priscilla Rúbia, Rafael Peregrino, e Sonia R. R. Rodrigues, bem como dos organizadores, que não se furtaram a incluir seus próprios escritos na seleta.
O ebook está disponível nos formatos epub, mobi e pdf, e pode ser baixado gratuitamente aqui. A versão impressa pode ser adquirida no saite Clube de Autores.
O livro reúne em 241 páginas dezenove contos publicados no saite ao longo de 2017, que trafegam em diversos gêneros, indo do realismo ao surreal – passando pela ficção científica, fantasia policial e terror – na pena dos escritores Adriana Rodrigues, Bruno Martins Soares, Daniel dos Santos Soares, Evelyn E. Postali, Fábio Fernandes, J. M. Beraldo, João Paulo Effting, Joe de Lima, Luís H. Beber, Luis Henrique da Cunha, Magdiel Araujo, Matheus Salfir, Michel Peres, Priscilla Matsumoto, Priscilla Rúbia, Rafael Peregrino, e Sonia R. R. Rodrigues, bem como dos organizadores, que não se furtaram a incluir seus próprios escritos na seleta.
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Memórias pós-humanas de Quincas Borba
O escritor Sid Castro, veterano da segunda onda da ficção científica brasileira, lançou pela plataforma de autopublicação da Amazon, uma coletânea com o singelo nome de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do país do futuro, pelo selo autoral Imagem & Ação.
O volume tem 202 páginas e traz seis contos e noveletas de ficção científica. Diz o autor: "São distopias sociais e tecnológicas, superumanos e alienígenas, batalhas interplanetárias, viagens no tempo e no espaço e outras dimensões do Universo. Tudo sob o olhar antropofágico do chamado 'País do Futuro', de Machado de Assis a Iemanjá, vikings indígenas, um Brasil teocrático e robôs lutando por seus direitos".
O volume está a venda aqui para leitores Kindle, disponível gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited.
O volume tem 202 páginas e traz seis contos e noveletas de ficção científica. Diz o autor: "São distopias sociais e tecnológicas, superumanos e alienígenas, batalhas interplanetárias, viagens no tempo e no espaço e outras dimensões do Universo. Tudo sob o olhar antropofágico do chamado 'País do Futuro', de Machado de Assis a Iemanjá, vikings indígenas, um Brasil teocrático e robôs lutando por seus direitos".
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
De A a Z: Dicas para escritores
Fábio Fernandes é um nome conhecido entre os leitores de ficção fantástica no Brasil. Tradutor e escritor, diga se de passagem um dos melhores do gênero no país, com textos publicados tanto no Brasil como no estrangeiro, Fernandes estudou com Neil Gaiman e Samuel Delany na Clarion West Writers Workshop de Seattle, é professor da PUC de São Paulo e desenvolve um importante trabalho de pesquisa sobre as mídias sociais.
De A a Z: Dicas para escritores é um breve compêndio alfabético no qual Fernandes reuniu um pequeno mas valioso lote de conselhos úteis para escritores, inclusive os experientes, uma vez que ninguém está livre de adquirir cacoetes indesejáveis.
Algumas letras têm mais de um verbete, que pode ser tão inspirador quanto "Bunda", "Gaveta", "Síndrome da folha em branco" ou "Zona de conforto", tornando a leitura uma experiência divertida, apesar de rápida: dá para ler tudo em pouco mais de meia hora.
A edição em ebook é uma opção do autor, entusiasta do formato desde a sua criação, no final do século. Tanto que seu primeiro livro, a coletânea Interface com o vampiro, publicada em 2000, foi um dos primeiros ebooks profissionais no país, editado pela extinta editora Writers.
De A a Z: Dicas para escritores está disponível para dispositivos Kindle e pode ser adquirido aqui. Mas prepare-se para ter questionadas algumas certezas sobre a arte da escrita.
De A a Z: Dicas para escritores é um breve compêndio alfabético no qual Fernandes reuniu um pequeno mas valioso lote de conselhos úteis para escritores, inclusive os experientes, uma vez que ninguém está livre de adquirir cacoetes indesejáveis.
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A edição em ebook é uma opção do autor, entusiasta do formato desde a sua criação, no final do século. Tanto que seu primeiro livro, a coletânea Interface com o vampiro, publicada em 2000, foi um dos primeiros ebooks profissionais no país, editado pela extinta editora Writers.
De A a Z: Dicas para escritores está disponível para dispositivos Kindle e pode ser adquirido aqui. Mas prepare-se para ter questionadas algumas certezas sobre a arte da escrita.
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Megalon 72
Depois de lançar sua última edição em 2004, o fanzine de ficção científica e horror Megalon volta à cena com uma edição totalmente dedicada ao escritor britânico Arthur C. Clarke, um dos grandes mestres da ficção científica, cujo centenário de nascimento se comemora no próximo dia 16 de dezembro.
Quem conhece o Megalon sabe que as pesquisas que publica são muito bem produzidas, com profundidade sem paralelo no país.
A edição tem 60 páginas com uma extensa pesquisa bibliográfica sobre a obra do autor: sua ficção longa e curta, os livros de não-ficção e divulgação científica, e também os muitos trabalhos publicados sobre a sua obra.
A edição impressa pode ser adquirida com o editor pelo email marcellobranco@ig.com.br, mas uma versão em pdf está disponível gratuitamente aqui.
Quem conhece o Megalon sabe que as pesquisas que publica são muito bem produzidas, com profundidade sem paralelo no país.
A edição tem 60 páginas com uma extensa pesquisa bibliográfica sobre a obra do autor: sua ficção longa e curta, os livros de não-ficção e divulgação científica, e também os muitos trabalhos publicados sobre a sua obra.
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Argos 2017
O Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC divulgou os títulos dos livros finalistas da edição 2017 do Prêmio Argos, que aponta, na opinião de seus membros, os melhores trabalhos nacionais publicados no Brasil em 2016 nas categorias Romance, Conto e Antologia. São eles:
Melhor romance
A Bandeira do Elefante e da Arara, Christopher Kastensmidt, Devir Livraria
O caminho do Louco, Alex Mandarino, Editora Avec
O esplendor, Alexey Dodsworth, Editora Draco
A fonte âmbar, Ana Lúcia Merege, Editora Draco
O último refúgio, João Beraldo, Editora Draco
Melhor conto
"Amor, uma arqueologia", Fabio Fernandes (Trasgo 11)
"Auto-retrato de uma natureza morta", Octavio Aragão (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)
"O domo, o roubo e a guia", Roberta Spindler (Dinossauros, Editora Draco)
"O grande livro do fogo", Ana Lúcia Merege (Medieval: Contos de uma era fantástica, Editora Draco)
"A noviça escarlate", Luiz Felipe Vasques (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)
Melhor antologia ou coletânea
Crônicas da guerra dos muitos mundos, Volume 1, Rita Maria Felix da Silva, org.
Dinossauros, Gerson Lodi-Ribeiro, org., Editora Draco
Estranha Bahia, Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, orgs., Editora EX!
Medieval: Contos de uma era fantástica, Ana Lucia Merege e Eduardo Kasse, orgs., Editora Draco
Mistérios do mal, Carlos Orsi, Editora Draco
A novidade desta edição é a volta dos prêmios em dinheiro para os vencedores, como acontecia nas primeiras edições do Argos, além dos tradicionais troféus.
Os vencedores das serão revelados na cerimônia de premiação, no dia 16 de dezembro de 2017, das 13 às 18h, no Auditório da Sala A-206 da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca (Rua Ibituruna, 108, Rio de Janeiro). Também será entregue um prêmio especial póstumo ao editor Douglas Quinta Reis, recentemente falecido.
Parabéns a todos.
Melhor romance
A Bandeira do Elefante e da Arara, Christopher Kastensmidt, Devir Livraria
O caminho do Louco, Alex Mandarino, Editora Avec
O esplendor, Alexey Dodsworth, Editora Draco
A fonte âmbar, Ana Lúcia Merege, Editora Draco
O último refúgio, João Beraldo, Editora Draco
Melhor conto
"Amor, uma arqueologia", Fabio Fernandes (Trasgo 11)
"Auto-retrato de uma natureza morta", Octavio Aragão (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)
"O domo, o roubo e a guia", Roberta Spindler (Dinossauros, Editora Draco)
"O grande livro do fogo", Ana Lúcia Merege (Medieval: Contos de uma era fantástica, Editora Draco)
"A noviça escarlate", Luiz Felipe Vasques (Crônica da guerra dos muitos mundos, Volume 1)
Melhor antologia ou coletânea
Crônicas da guerra dos muitos mundos, Volume 1, Rita Maria Felix da Silva, org.
Dinossauros, Gerson Lodi-Ribeiro, org., Editora Draco
Estranha Bahia, Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares, orgs., Editora EX!
Medieval: Contos de uma era fantástica, Ana Lucia Merege e Eduardo Kasse, orgs., Editora Draco
Mistérios do mal, Carlos Orsi, Editora Draco
A novidade desta edição é a volta dos prêmios em dinheiro para os vencedores, como acontecia nas primeiras edições do Argos, além dos tradicionais troféus.
Os vencedores das serão revelados na cerimônia de premiação, no dia 16 de dezembro de 2017, das 13 às 18h, no Auditório da Sala A-206 da Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca (Rua Ibituruna, 108, Rio de Janeiro). Também será entregue um prêmio especial póstumo ao editor Douglas Quinta Reis, recentemente falecido.
Parabéns a todos.
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
O castelo dos homens mecânicos
Está disponível a aventura de ficção científica O castelo dos homens mecânicos, quarta parte da série Liga Mundial, que já conta com os volumes O fantasma do apito, O clube da Luluzinha e O olho mortal.
Dessa vez, as estudantes Fátima, Andréia e Carol, acompanhadas da detetive vidente Irina, seguem num dirigível rumo ao castelo do vilão Conde Bruxelas, nos Alpes, para o que pode vir a ser um confronto definitivo.
Escrita por Miguel Carqueija e Melanie Evarino, a novela tem prefácios de Cesar Silva e Chico Martellini, e um posfácio de Ronald Rahal.
O arquivo, em formato de texto, pode ser baixado gratuitamente aqui.
Dessa vez, as estudantes Fátima, Andréia e Carol, acompanhadas da detetive vidente Irina, seguem num dirigível rumo ao castelo do vilão Conde Bruxelas, nos Alpes, para o que pode vir a ser um confronto definitivo.
Escrita por Miguel Carqueija e Melanie Evarino, a novela tem prefácios de Cesar Silva e Chico Martellini, e um posfácio de Ronald Rahal.
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Mitografias
Está circulando a antologia Mitografias, Volume 1: Mitos modernos, seleta de contos de fantasia organizada por Andriolli Costa, editor do blogue O Colecionador de Sacis, Leonardo Tremeschin, criador do saite Mitografias e do podcast Papo Lendário, e Lucas Rafael Ferraz, do podcast Sobrescrever e da revista Trasgo.
São 14 contos que revisitam mitologias do mundo todo nos dias de hoje, com textos de Alessandra Barcelar, Ana Lúcia Merege, Andriolli Costa, Bruno Leandro, Cassiano Rodka, Isa Prospero, Janayna Bianchi, Leonardo Tremeschin, Lucas Ferraz, Michel Peres, Paulo Teixeira, Rodrigo Rahmati, Romeu Martins e Saulo Moraes. A capa foi criada pelo ilustrador Mikael Quites.
O volume é gratuito e está disponível aqui nas extensões pdf, epub e mobi.
São 14 contos que revisitam mitologias do mundo todo nos dias de hoje, com textos de Alessandra Barcelar, Ana Lúcia Merege, Andriolli Costa, Bruno Leandro, Cassiano Rodka, Isa Prospero, Janayna Bianchi, Leonardo Tremeschin, Lucas Ferraz, Michel Peres, Paulo Teixeira, Rodrigo Rahmati, Romeu Martins e Saulo Moraes. A capa foi criada pelo ilustrador Mikael Quites.
O volume é gratuito e está disponível aqui nas extensões pdf, epub e mobi.
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domingo, 5 de novembro de 2017
Resenha: O bazar dos sonhos ruins
O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.
Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.
Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras. Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.
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