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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Finalistas do Argos 2015

O Clube de Leitores de Ficção Científica-CLFC divulgou os finalistas do prêmio Argos para os melhores da literatura fantástica brasileira em 2014. São estes:

Melhor Romance ou História Longa:
- A lição de anatomia do temível Dr. Louison, Enéias Tavares. Editora Casa da Palavra, selo Fantasy.
- A torre acima do véu, Roberta Spindler. Giz Editorial.
- As máscaras do pavor, R. F. Lucchetti. Editora Devaneio.
- As mil mortes de César, Max Mallmann. Editora Rocco.
- Dezoito de Escorpião, Alexey Dodsworth. Editora Novo Século.
- Padrão 20: A ameaça do espaço-tempo, Simone Saueressig. Editora Besouro Box.
- Rani e o sino da divisão, Jim Anotsu. Editora Gutenberg.
- Tempos de sangue: Guerras eternas, Eduardo Massami Kasse. Editora Draco.
Melhor Antologia ou Coletânea:
- Boys love: Histórias de amor sem preconceito, Tanko Chan, org. Editora Draco.
- Futebol: Histórias fantásticas de glórias, paixão e vitórias, Marco Rigobelli, org. Editora Draco.
- Pequena coleção de grandes horrores, Luiz Bras. Editora Circuito.
- Vaporpunk: Novos documentos de uma pitoresca era steampunk, Fábio Fernandes & Romeu Martins, orgs. Editora Draco.
Melhor Conto ou História Curta:
- Clitoridectomia, Carlos Orsi. Editora Draco.
- "Estranhas no paraíso", Jorge Calife. Somnium, CLFC.
- "Finalidades e destinos de acervos ocultos", Ricardo França. Somnium, CLFC.
- "Meus pais, os pterodáctilos", Cirilo S. Lemos. Vaporpunk, Editora Draco.
- "Notícias de Marte", Sid Castro. Vaporpunk, Editora Draco.
- "O alferes de ferro", Fábio Fernandes. Vaporpunk, Editora Draco.
- O céu de Lilly, Fábio M. Barreto. Edição do autor.

O escritor e jornalista Jorge Luiz Calife será homenageado com um prêmio especial pelo conjunto de sua obra, que inclui diversos romances e coletâneas de ficção científica.
Os indicados foram selecionados através de votação direta dos membros do clube. O resultado final já é conhecido, mas será revelado somente no dia 29 de novembro durante a Jedicon-RJ, no Planetário da Gávea, na cidade do Rio de Janeiro.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Dezoito de Escorpião

No último sábado de outubro, no encontro mensal de autores e leitores de ficção científica realizado na livraria Terra Média, no bairro Cambuci, em São Paulo, tive o prazer de conhecer o simpático Alexey Dodsworth que, apesar do nome - autêntico - é brasileiro, mestre em Filosofia pela USP e estudante de Astronomia. Alexey está em pleno trabalho de divulgação de Dezoito de Escorpião, romance de ficção científica que marca sua estreia na literatura. Publicado em 2014 pela editora Novo Século na coleção Talentos da Literatura Brasileira, o livro tem 350 páginas e fala sobre a busca de vida inteligente fora da Terra, mais exatamente na décima oitava estrela da constelação de Escorpião, que pode ter em sua órbita um planeta semelhante à Terra.
Diz o texto da contracapa: "Analisar sistemas estelares pode ser bem arriscado. Dezoito de Escorpião, identificada como uma estrela gêmea do nosso Sol, é uma descoberta astronômica sem precedentes. Contudo, tal revelação põe em risco o maior segredo da Terra: Muhipu, uma comunidade secreta no coração da selva, protegida por tribos indígenas ancestrais, guardando experiências para além do conhecimento comum: a tentativa de contato com super inteligências cósmicas".
Alexey contou sobre sua experiência em escrever, publicar e vender o livro, que está sendo bem aceito nas livrarias, certamente por conta da bela capa assinada por Monalisa Morato, mas principalmente, porque os leitores e os livreiros acreditam que se trata de um livro de autor estrangeiro, confessou o autor que se diverte com isso.
O volume está nas livrarias, mas pode ser obtido diretamente na editora, aqui.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Solarium 3

Solarium 3, Frodo Oliveira, org. 220 páginas, capa de Natalia Caruso. Editora Multifoco, selo Anthology, Rio de Janeiro, 2014.

Em 2009, Frodo Oliveira organizou para a Editora Multifoco o primeiro volume da coleção Solarium, uma antologia de contos de ficção científica com 25 textos de autores novos e algumas boas revelações. Desde então, essa parceria rendeu duas sequências, a mais recente delas publicada em 2014, que é referência desta resenha.
Solarium 3 mantém a proposta de apresentar autores novos no panorama da fc brasileira. O próprio organizador assina um dos 29 textos presentes na edição, que também tem Aldo Costas, Anderson Dias Cardoso, Andrei Miterhofer Cutini, Bruno Eleres, Cesar Bravo, Cristiano Gonçalves, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, David Machado Santos Filho, Demetrios Miculis, Edgard Santos, Eduardo Alvares, Emerson D. E. Pimenta, Fabiana Guaranho, Fabio Baptista, Fernando Aires, Giovane Santos, Gutemberg Fernandes, Helil Neves, Ítalo Poscai, Jowilton Amaral da Costa, Lucas Félix, Marcelo Sant'Anna, B. B. Jenitez, Patrick Brock, Ricardo Guilherme dos Santos, Sheila Schildt e Thiago Lucarini.
Não seria produtivo comentar conto a conto aqui, pois a maior parte é amadora e carece de um desenvolvimento mais apurado mas, como sempre acontece em antologias desse tipo, alguns textos se destacam e merecem ser observados mais detidamente.
"Olhos de Cronos", de Andrei Miterhofer Cutini, é uma ucronia sobre um homem ferido e sem memória que desperta nos arredores de um povoado arruinado pela guerra e habitado por aleijados e moribundos assolados por ladrões de órgãos. Em seus bolsos, alguns itens estranhos que vão se revelar as chaves da salvação do seu mundo. Fica patente a influência da obra de Philip K. Dick, especialmente do conto "O pagamento" (em Realidades adaptadas, Philip K. Dick, Aleph, 2012), mas Cutini demonstra habilidade na condução do enredo, sem replicar os maneirismos do autor americano.
"Contato secreto: Operação Forget", de Cristiano Gonçalves, é uma bem elaborada ficção ufológica na linha do seriado de televisão Arquivo X. Militar desmemoriado desperta no hospital depois de participar de uma ação secreta que o deixou em coma por alguns dias. Disposto a entender o que se passou, inicia uma investigação que irá levá-lo a uma evidente conspiração governamental.
"O agricultor", de David Machado Santos Filho, vai a um futuro no qual comer carne se tornou um crime. A engenharia genética desenvolveu, então, uma nova espécie de vegetais híbridos que replicam tecidos comestíveis para substituir a proteína animal na mesa dos consumidores. Entre simulacros de aves, boi, porco e até mesmo leite e ovos, a próxima aposta do agricultor é um novo tipo de carne que pode se tornar um grande negócio no futuro. Humor negro absurdista apresentado em detalhes instigantes e um desfecho surpresa bem construído – coisa rara –, este bom texto critica os extremos da moda do veganismo.
"Ogum S. A.", de Patrick Brock, é uma divertida space opera apresentada em forma de diário de um pouco honesto empreendedor do ramo dos transportes interplanetários, que relata os dramas e alegrias, sucessos e fracassos de sua vida atribulada. Um dos melhores textos do volume que, junto ao conto comentado no parágrafo anterior, usa de um protagonista sem caráter, típico da literatura brasileira, para especular sobre a nossa cultura e atitudes frente a vida.
"Só", de Ricardo Guilherme dos Santos - autor cujos préstimos fez chegar às mãos este volume – também investe numa space opera na qual a inteligência artificial de uma espaçonave de gerações relata a história dramática do povo que a construiu e usou através dos séculos, em sua viagem em direção à eternidade. A personalização de espaçonaves e computadores, que é um dos temas recorrentes da ficção científica, tem aqui um exemplo de contornos poéticos que obteria resultados mais expressivos se o autor tivesse elaborado uma voz própria para a sua I.A., uma linguagem de máquina, digamos assim – perseguida por William Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial, totalmente perdida na tradução brasileira, diga-se de passagem –, que daria ao texto um aspecto literário mais expressivo. Exemplo de construção de vozes próprias bem sucedidas na fc&f brasileira estão no conto "Meu nome é Go", de André Carneiro, publicado na coletânea A máquina de Hyerônimus e outras histórias (UFSCar, 1997), e nos textos da série A saga de Tajarê, de Roberto de Sousa Causo, vistos em A sombra dos homens (Devir, 2004), mas como não são especificamente vozes de máquinas, este é aparentemente um desafio ainda por realizar na fc brasileira.
Há potencial nos demais textos apresentados na antologia, que renderiam ótimas peças se tivessem uma orientação técnica especializada, mas é preciso ter em mente que, tal como suas edições anteriores, Solarium 3 é uma antologia de autores novos, muitos deles estreantes. A proposta da seleção não é publicar o melhor da fc nacional, mas abrir espaço ao exercício do gênero no país, uma missão legítima e digna que seria feita por revistas e fanzines, se eles existissem neste momento. Encarado como um periódico literário, Solarium 3 não decepciona e, como tal, é uma iniciativa que deve ser valorizada.
Solarim 3 – bem como os demais volumes da série – pode ser encontrado no saite da Editora Multifoco, aqui.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Essencial 2014 - Autores estrangeiros

No que se refere a livros de autores estrangeiros, a fantasia ainda é o gênero mais publicado, mas 2014 fica marcado pelo crescimento significativo dos títulos de ficção científica, enquanto a fantasia e o horror estiveram mais ou menos estáveis em relação a 2013. Esse crescimento particular da fc se reveste de importância ainda maior por conta da representatividade dos títulos publicados.
Na fantasia, o destaque vai para Elric de Melniboné: A traição ao imperador (Elric of Melniboné), do escritor britânico Michael Moorcock, publicado no Brasil pela Editora Évora no selo Generale. Trata-se do resgate oportuno de uma obra importante da fantasia mundial, originalmente publicada em 1972, de um dos mais expressivos autores do gênero, que andava esquecido pelas editoras brasileiras: o único livro do autor publicado aqui até então era A espada diabólica (Stormbringer), oitavo e último livro da mesma série, traduzido pela Francisco Alves nos anos 1970. Elric segue a linha da fantasia heróica que fez grande sucesso com Conan, de Robert E. Howard, embora os personagens sejam diametralmente opostos.
Contudo, as similaridades entre os dois universos são tantas que, nos quadrinhos, Elric chegou a contracenar com o bárbaro cimério. Stormbringer, a espada viva de Elric, é provavelmente a mais conhecida arma da literatura fantástica, ao lado de Excalibur. Também vale registrar a publicação de Discworld: Pequenos deuses (Small gods), de Terry Pratchett (1948-2015), pela Editora Bertrand Brasil, 13º volume dessa série de romances cômicos que é bastante conhecida dos leitores brasileiros.
Como já foi dito, 2014 foi o ano do ressurgimento ficção científica no Brasil, e a relação de livros essenciais é grande, a começar do megarromance Graça infinita (Infinite jest), de David Foster Wallace (1962-2008), publicado pela Companhia das Letras, ficção científica de contornos políticos e sociais considerada pela crítica como "o último grande romance do século 20" (ele é de 1996). Sua leitura é uma verdadeira maratona de mais de mil páginas, sem contar as 136 páginas do apêndice de notas, que é uma atração em si.
Graça infinita se insere na estética pós-moderna New Weird, assim como A cidade e a cidade (The city & the city), de China Miéville, que também chegou ao Brasil em 2014 pela Editora Boitempo, outro título reconhecido tanto pela crítica mainstream quanto pela especializada.
Battle royale, de Koushun Takami, pela Globo Livros, é outra publicação surpreendente. Primeiro porque é um dos raros exemplos da ficção científica japonesa traduzida no Brasil, segundo porque trata-se de um trabalho razoavelmente recente (o livro é de 1999) e extremamente violento, ao ponto de ter se tornado polêmico no país de origem. Apesar do brutalismo ser um estilo popular entre os autores brasileiros, o nível da violência em Battle royale extrapola todos os limites dos protocolos do gênero. Apesar disso – ou talvez por isso mesmo –, o romance fez uma bem sucedida carreira, com adaptações para os quadrinhos e para o cinema.
Mais ao gosto do leitor ocidental, a editora Intrínseca trouxe ao país, com tradução de Braulio Tavares, o romance Aniquilação (Annihilation), de Jeff VanderMeer, autor da moderna fc norte americana, publicado aqui meses antes de ganhar o prestigioso Prêmio Nebula. Trata-se do primeiro volume da trilogia Comando Sul, cuja segunda parte, Autoridade (Authority), já foi publicada em 2015 pela mesma editora. A história, repleta de mistérios, remete ao clássico Stalker, dos escritores russos Arkadi e Boris Strugastski, e é igualmente perturbadora.
Também surpreendeu a publicação de O círculo (The circle), de Dave Eggers pela Companhia das Letras, ficção científica na fronteira do mainstream, que discute com incômodo vigor a presença cada vez maior da vigilância tecnológica na sociedade moderna, sugerindo que os extremos denunciados por George Orwell em 1984 talvez não estejam tão longe de se tornarem realidade, se é que já não estão bem diante dos nossos narizes.
Dois clássicos inéditos no país marcaram presença nas livrarias em 2014: A nebulosa de Andrômeda (Andromeda nebula), livro de 1957 do escritor russo Ivan Efremov (1908-1972), pela pequena editora Polo Books, e a coletânea O salmão da dúvida (The salmon of doubt), trabalho póstumo e inacabado do britânico Douglas Adams (1952-2001), pela Arqueiro.
Para quem conhece estes autores, não há necessidade de maiores explicações: são leituras mais que obrigatórias.
No campo do horror, os destaques são pesos pesados: Doutor Sono (Doctor Sleep), de Stephen King – sequência ao clássico absoluto O iluminado (The shinning) –, pela Suma das Letras, e Outros reinos (Other kingdoms), um dos últimos trabalhos do sempre relevante Richard Matheson (1926-2013), pela Civilização Brasileira.
Este ano, um fato incomum revelou que há uma grande tempestade ao longe que pode mudar radicalmente o panorama da publicação de fc&f no Brasil. Nada menos que três editoras publicaram, simultaneamente, a coletânea The king in yellow, de Robert W. Chambers (1865-1933), influente clássico da literatura gótica publicado em 1895.
Pela Intrínseca e pela Clock Tower, o volume levou o nome de O rei de amarelo, e pela Arte & Letra, O sí­mbolo amarelo e outros contos. Isso aconteceu porque a obra de Chambers entrou em domínio público e as atentas editoras logo aproveitaram a oportunidade. Curioso é que todos os editores tenham escolhido justamente o mesmo título, sendo que Chambers, que foi um autor produtivo, tem muito mais para ser aproveitado. O fato é que todos estão esperando ansiosamente pelos grandes títulos estrangeiros caiam em domínio público, enquanto clássicos da ficção especulativa nacional seguem esquecidos. Decerto que há alguma lição para ser aprendida nisso tudo.

sábado, 22 de agosto de 2015

Essencial 2014 - Autores brasileiros

Até 2013, a fc&f no Brasil foi acompanhada de pertinho pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa missão está agora disseminada num grande número de iniciativas de fãs e acadêmicos, de forma que há muitas interpretações e análises circulando, especialmente na internet. Contudo, minha análise pessoal ainda pode ter algum valor para aqueles que gostam de discutir os lançamentos mais expressivos da literatura especulativa no Brasil. Assim sendo, vou exercitar aqui a minha opinião baseada na lista do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2014 - Lançamentos, recentemente publicado aqui.
Começando pelos autores brasileiros, o gênero da fantasia segue firme e forte como o preferido de autores, editores e leitores, tomando pelo menos metade dos lançamentos de ficção fantástica. É claro que caberia discutir os limites de cada gênero e até mesmo questionar se um determinado título faz parte ou não do rol das obras especulativas – há muitas definições e algumas delas são diametralmente opostas – mas tomo a liberdade de usar a minha: se não é claramente fc ou terror, é fantasia. E entram na definição as histórias de realismo mágico e fantástico.
Dessa forma, destaco, na fantasia, os livros A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado pela Companhia das Letras, e Os sóis da América, de Simone Saueressig, publicado pela autora em quatro volumes ao longo de 2013 e 2014. Ambas são autoras experientes no gênero, com diversos títulos publicados por grandes editoras. Socorro investiu num romance regionalista moderno que trata de costumes e tradições bem brasileiras, enquanto Simone fez um romance de alta fantasia em um continente americano povoado por seres mitológicos inspirados nas culturas de diversos povos, entre os quais os brasileiros, embora estes não sejam predominantes.
Também destaco o segundo volume da coletânea Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz para a editora Patuá. Trata-se de uma proposta que, se não é de toda original, é bastante rara: uma seleta de poemas de ficção científica de diversos autores, todos explorando o tema do pós-humanismo. O primeiro volume foi publicado em 2013, pela editora Terracota.

Na ficção científica, Luiz Bras também sustentou uma boa posição com Distrito Federal, publicado pela Patuá, romance que o autor prefere chamar de rapsódia, uma fantasia tecnológica sobre a corrupção e suas consequências.
Também vale destacar A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares, publicação da LeYa Brasil/Casa da Palavra.
O romance foi vencedor da primeira edição do Prêmio Fantasy e inaugurou a coleção Brasiliana Steampunk.
Trata-se de uma ficção alternativa que reúne, numa mesma aventura, diversos personagens da literatura fantástica brasileira.
Entre as coletâneas, é impossível não voltar a Luiz Bras e sua Pequena coleção de grandes horrores, pela editora Circuito, um conjunto de narrativas muito curtas que brincam com ícones da cultura pop e dialogam com várias obras do gênero.

No horror, vale a pena buscar por As máscaras do pavor, do veterano escritor e roteirista R. F. Lucchetti, uma das maiores personalidades do gênero no país, muito conhecido por suas parcerias como o ilustrador Nico Rosso, nos quadrinhos, e com José Mojica Marins, no cinema. O romance é o primeiro de uma coleção do autor – conhecido como o homem dos mil livros – numa parceria das editoras Devaneio e Corvo.
Entre as coletâneas, vale registrar Flores mortais, de Giulia Moon, pela Giz Editorial e Sete monstros brasileiros, de Braulio Tavares, pela Casa da Palavra. A primeira reúne contos com as vampiras criadas pela autora, que é uma das melhores escritoras da Terceira Onda da ficção fantástica brasileira. A segunda é mais uma contribuição valiosa do experiente escritor paraibano Braulio Tavares, desta feita navegando no ainda pouco explorado panteão de criaturas assustadoras da mitologia nacional. 
Boa parte dos títulos citados neste artigo dispõe de resenhas neste blogue, é só buscar no índice de tags.
No próximo post, apontarei os títulos essenciais em 2014 da fc&f estrangeira traduzidos no Brasil.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Anuário 2014 - Lançamentos

Mas o Anuário não acabou?
Como publicação comercial sim, mas continuo a fazer os estudos que antecediam cada edição, para não perder de vista o panorama da fc&f no Brasil que, enfim, foi o que me fez começar  a fazê-lo. Para entender como o gênero caminha e visualizar suas tendências, continua necessário acompanhar o mercado nacional, daí, as listas não pararam. Apesar do Anuário 2014 não estar na pauta de publicações, as listas continuam úteis para quem, como eu, gosta de seguir de perto a evolução editorial do gênero no país.
Dessa forma, está disponível aqui para leitura e download gratuitos, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2014 - Lançamentos, com uma ampla lista de livros de fantasia, ficção científica e horror publicados no Brasil ao longo do referido ano. Trata-se de uma relação certamente incompleta, visto que é fruto de uma pesquisa algo liberal. Não estão listados, por exemplo, muitos dos lançamentos das editoras por demanda, que inflacionaram bastante algumas das relações de anos anteriores, mas cujos saites são difíceis de navegar e pesquisar.
A edição registra 692 títulos, entre inéditos e relançamentos nacionais e estrangeiros, números que confirmam o crescimento do mercado em relação a 2013, com a redução na quantidade de publicações de autores brasileiros compensada pelo crescimento na edição de livros de autores estrangeiros, como se pode ver no quadro comparativo abaixo:
Observa-se também o acentuado crescimento da publicação de ficção científica de autores estrangeiros, que parece revelar que o gênero pode, enfim, ter rompido com o círculo vicioso de preconceito dos editores pelo gênero, embora isso ainda não tenha reflexo entre a edição de autores brasileiros.
Muito mais pode ser concluído a partir do estudo desta edição, bem como das anteriores, que podem igualmente acessadas nos links abaixo:
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2013 - Lançamentos
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2012 - Lançamentos
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2011 - Lançamentos

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Especulando sobre o cinema brasileiro

Uma coisa sobre a qual trato pouco aqui é cinema. Apesar de ser uma arte muito popular e manter amplo diálogo com a ficção especulativa, como podemos comprovar pelas superproduções internacionais de maior audiência entre os brasileiros, são raros os casos de fc&f no cinema nacional. Tirando José Mojica Marins e Ivan Cardoso, os cineastas locais não se mostram entusiasmados com o gênero. Sem dúvida que há alguma produção, especialmente no âmbito dos curta metragens e das animações, mas nos longas o panorama segue o mesmo visual árido que Fausto Cunha afirmou ser o da ficção científica na literatura brasileira no ensaio "Um planeta quase desabitado", prefácio à edição brasileira de No mundo da ficção científica, de L. David Allen.
Alguns pesquisadores têm feito levantamentos interessantes sobre o assunto, como o escritor João Batista Melo no livro Lanterna mágica (Civilização Brasileira, 2011) e o professor Alfredo Suppia, da Universidade de Federal de Juiz de Fora, que publicou no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2011 (Devir, 2012) um artigo detalhando essa relação conflituosa. Ainda assim, é preciso ser criativo para reunir alguma filmografia, aproveitando histórias de realismo mágico e absurdismo que nem sempre são reconhecidas como ficção especulativa. Mas parece que as coisas estão mudando. Em 2014, estrearam pelo menos quatro longas metragens cujos argumentos focam efetivamente o gênero fantástico.
Branco sai, preto fica, de Adirley Queirós, lança mão da ficção científica para denunciar o apartheid social que impera na capital do país. Nele, um viajante de 2073, vindo numa máquina do tempo montada em um contêiner, chega ao nosso tempo para investigar um incidente de violência no qual um homem – Marquim, o protagonista – perdeu uma das pernas. O futuro de onde ele vem mostra uma Brasília sofisticada e poderosa,  ilhada por favelas, na qual só se pode entrar com passaportes. O filme foi vencedor do Festival de Brasília.
O amuleto, de Jeferson De, investe num drama de terror para contar uma história de mistério e violência numa floresta assombrada por fantasmas de bruxas.
A narrativa segue o padrão das histórias de psicopatas sobrenaturais como Sexta-feira treze e A hora do pesadelo, com jovens sendo mortos de formas bizarras. Apesar de um elenco formado por celebridades globais e do prestígio do diretor, que também filmou Bróder e Carolina, o filme foi esculhambado pela crítica. Mas quem é que liga para isso?
Outro filme de horror que estreou em 2014 foi Isolados, de Tomas Portella, no qual um casal enfrenta o sobrenatural num casarão isolado na região serrana do Rio de Janeiro, onde já aconteceram casos de violência. Trata-se de uma releitura de um dos temas mais recorrentes do gênero, o das casas assombradas, que tem recebido muita atenção dos realizadores do gênero. A ideia remete, é claro, a clássicos como A casa da noite eterna, The evil dead e Horror em Amityville mas, sendo Portella um diretor que tem no currículo filmes como Meu nome não é Johnny e Qualquer gato viralata, dá para esperar coisas um tantinho diferentes.
Enfim, mas não necessariamente completando a lista que deve ter mais filmes perdidos em meio a produção independente, O menino no espelho, de Guilherme Fiúza Zenha, fantasia inspirada numa história de Fernando Sabino, sobre um menino que ganha um duplo de si mesmo quando este sai do espelho. É o título mais enfronhado na tradição do cinema brasileiro para crianças, que utiliza a fantasia de forma mais frequente, como visto em Castelo Ratimbum, O menino maluquinho e Os Xeretas, entre outros. Mas, mesmo assim, é importante que um filme como este tenha vindo complementar a grade dos subgêneros da ficção fantástica num mesmo ano. Tomara que não tenha sido apenas uma coincidência e que a fc&f tenha vindo para ficar também no cinema nacional.

sábado, 8 de agosto de 2015

Graça infinita

Graça infinita (Infinite jest), David Foster Wallace. Tradução de Caetano W. Galindo. 1136 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Leitores de ficção científica são muito desconfiados. Traumatizados por décadas de críticas nada favoráveis a suas histórias preferidas, aprenderam a desconfiar de toda e qualquer opinião, especialmente quando vem do mainstream e ainda mais quando é unânime. Os leitores de fc têm na ponta da língua uma ampla coleção de frases feitas usadas pelos críticos, entre as quais se destaca a máxima "Se é bom, certamente não é ficção científica". O trauma é tão intenso que, quando a crítica é favorável, a desconfiança é ainda maior. Porque, afinal, quem nunca entendeu absolutamente nada de fc certamente deve estar enganado. Fica valendo outro velho jargão: "Não li e não gostei" e o preconceito pela crítica acaba por tornar os fãs de fc igualmente preconceituosos. Deve ser por isso que Graça infinita, obra monumental do escritor novaiorquino David Foster Wallace (1962-2008) extremamente bem avaliada pela crítica, não despertou entusiasmo no meio dos fãs de fc quando de sua publicação no Brasil, ainda em 2014 pela Editora Companhia das Letras. O que é uma enorme e inaceitável injustiça porque, neste caso, as boas palavras da crítica em relação ao livro estão cobertas de razão. E o livro é mesmo ficção científica sem nenhuma sombra de dúvida. Mais do que isso: é muito provável que seja o melhor livro de fc já escrito. Mas aí já é o meu entusiasmo pessoal falando.
Graça infinita é um romance massivo de cerca de 600 mil palavras, publicado originalmente em 1996 nos EUA, considerado pela crítica americana como o último grande romance do século 20. Em termos de extensão, não é nenhuma novidade. Há dezenas de livros que têm essa dimensão e alguns são até maiores. Portanto, não é o tamanho do livro que conta aqui, embora ele seja ótimo também por isso. O que torna Graça infinita memorável é que se trata de uma literatura de alta octanagem, repleta de todo tipo de gadgets que a literatura pós-moderna já ousou aproveitar: citações, experiências formais, discursos descontrutivistas, solilóquios em fluxo de pensamento, linguagem não convencional, sexo, drogas, rock'n'roll e violência próprias da cultura popular deste início de século. Mas não só isso.
Há uma história em Graça infinita. Só não dá para saber com muita certeza quem é o protagonista porque a narrativa é de tal forma fragmentada e são tantos os personagens que algumas vezes parece que estamos lendo, de fato, uma coletânea de contos decapitados, passados todos no mesmo universo. Digo decapitados porque a maior parte dessas histórias não tem início e muitas delas também não têm fim.
De forma geral, o livro acompanha a vida dos três irmãos da família Incandenza: Orin, Hal e Mario. Orin, o mais velho, é  atleta profissional, jogador de futebol americano com sérios problemas para dormir. Hal é um gênio viciado em maconha que estuda no ATE, colégio voltado à formação de jogadores de tênis de alto desempenho; e o caçula, Mario, é um adolescente mentalmente deficiente e com um defeito congênito (sua cabeça é desproporcional ao corpo). O pai, James Incandenza – chamado pelos filhos de "Sipróprio" –, também ele um gênio da tecnologia ótica, fundador do ETA e cineasta experimental com uma extensa filmografia, suicidou-se alguns anos antes, mas sua herança maldita ecoa fortemente na vida dos filhos e da esposa, que os meninos chamam de "Mães". A família Incandenza vive em Boston, num futuro impreciso no qual a contagem dos anos é patrocinada por grandes corporações (no caso, estamos em AFGD que, por extenso, significa Ano da Fralda Geriátrica Depend) e os países da América do Norte foram politicamente unificados na Organização das Nações da América do Norte – Onan, para os íntimos – que passa por uma situação de instabilidade política com diversas comunidades terroristas lutando pela separação, como os violentos grupos canadenses Assassinos Cadeirantes e Frente de Libertação de Quebec, entre outros. Os grupos disputam a posse de uma arma chamada por eles de O Entretenimento, que nada mais é que uma das diversas versões de Graça infinita, filme produzido por James Incandenza que tem um nível de mesmerização tão potente que leva seus expectadores à morte. Cópias remetidas anonimamente já causaram baixas em cargos importantes do governo e uma exibição em rede do filme – essa sociedade futura é tão viciada em audiovisuais quanto a nossa – pode ser o ato que permitirá resultados efetivos na luta separatista. A curiosa apresentação gráfica do livro, que não tem nada escrito em sua capa, remete justamente ao cartucho de O Entretenimento.
Wallace elabora o cenário desse futuro com uma riqueza de detalhes que beira a de uma enciclopédia e torna o improvável extremamente convincente. Para coroar o capricho do autor, o livro contém um caderno de mais de 130 páginas, em corpo reduzido, com notas tão bem elaboradas que são peças literárias em si, como por exemplo o verbete que detalha a filmografia de James Incandenza, divertidíssima para quem aprecia boa ficção científica.
A obra de Wallace – que se suicidou em 2008 – dialoga com as de outros dois autores associados à literatura pós-moderna: Thomas Pynchon e China Miéville, que também trafegam pela ficção científica e o experimentalismo formal. A diferença entre eles é que Graça Infinita não é uma obra hermética e cifrada. Apesar das ousadas propostas formais e estilísticas, o texto é claro e acessível, focado em dramas explicitamente humanos: não é necessário ser um iniciado em fc ou em literatura pós-moderna para entender o que o autor diz. Talvez seja isso que tenha deixado os fãs de fc tão aborrecidos... azar deles.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sagas 5: Revolução

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heróica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A Batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Distrito Federal

Luiz Bras estreou no restrito ambiente da ficção especulativa literária há menos de dez anos, mas já faz parte dos grandes nomes do gênero no país. Fica fácil entender o por quê quando descobrimos que Bras é clone de Nelson de Oliveira, importante escritor mainstream que se retirou da lida para algum refúgio paradisíaco, para curtir os mimos proporcionados pelos milhões de dólares de seu bem merecido patrimônio. Bras herdou de Oliveira a habilidade com as palavras, que tem aplicado no exercício da ficção especulativa, a qual está empenhado em entender e interagir.
Entre os muitos títulos do autor estão as bem avaliadas coletâneas de contos Paraíso líquido (2010), Máquina Macunaíma (2013) e Pequena coleção de grandes horrores (2014), os romances Sozinho no deserto extremo (2012), Sonho, sombras e super-heróis (2011) e Babel Hotel (2009), a não ficção Muitas peles (2011) e uma porção de antologias, como autor selecionado, como organizador ou ambos.
Um dos traços de Bras é sua busca constante por uma voz particular, que se aproveita de um estilo maduro com traços pós-modernos e poesia concretista abusando de aliterações e pleonasmos, além de propostas narrativas que fogem do padrão convencional sem perder de vista os elementos especulativos, geralmente da ficção científica mas também da fantasia e do horror, com um diálogo próximo ao do estilo que se convencionou chamar de cyberpunk, com o qual o autor parece se identificar. Outra característica de Brás é sua facilidade para lidar com temas nacionais de todos os matizes, desde elementos folclóricos até a política nacional. E é exatamente este o caso de Distrito Federal, romance que o autor nomeou como "rapsódia tupinipunk", que revela muito sobre a forma como o autor a compôs.
Trata-se de um texto experimental, com pendão inegavelmente poético, que retoma ideias testadas em dois contos homônimos vistos em suas antologias anteriores. A história é um vitral formado por pequenas narrativas focadas nas ações e solilóquios de um curupira – o último de sua espécie – que, enlouquecido com a destruição das matas brasileiras, toma o corpo de um jovem humano e passa a assassinar, com requintes de artística crueldade, a população corrupta da capital do país: deputados, senadores, ministros, governadores, prefeitos, secretários, banqueiros, tesoureiros, políticos de forma geral pois, para o curupira, a corrupção fede terrivelmente.
As ações deste improvável anjo vingador, que sempre escapa de qualquer tentativa de captura, faz surgir um exército de imitadores que matam da mesma forma que ele. Há algum conflito quando o curupira encontra, por acaso, o último saci, que também tomou o corpo de alguém e está matando, mas como são inimigos naturais, acabam não se entendendo.
Na medida em que o curupira e o saci promovem sua cruzada sangrenta, a realidade vai sendo sobreposta pela de um popular jogo eletrônico online, justamente chamado de Distrito Federal, que mistura política,  mitologia e muita violência. O surgimento de uma criança especial, que não é nem menino nem menina, exacerba ainda mais os acontecimentos, o que pode levar ao fim da humanidade sobre o planeta.
A leitura do texto é fácil e ligeira, com abundância de frases muito curtas, mas a narrativa fragmentária não dificulta o entendimento do enredo, embora este seja algo secundário na obra. A experiência estética literária é bem mais importante aqui, por isso é recomendável que o leitor esteja aberto à ela.
Distrito Federal é uma publicação da editora paulista Patuá, cujo lema "livros são amuletos" combina perfeitamente com este romance, que tem 280 páginas em papel polem e acabamento luxuoso, encadernado com capas duras e ilustrado por Teo Adorno – outro clone que Nelson de Oliveira deixou para trás.
Uma última observação que se pode fazer sobre Distrito Federal está expressa, de forma clara e absoluta, na última página do volume: "...reunião de ciência & religião, passado, presente & futuro, cultura popular & alta cultura..."; é a receita de Luiz Brás para resolver o histórico impasse entre a ficção de gênero e o mainstream, que tem buscado desde a sua estreia. Desta forma, Distrito Federal é a proposta mais bem acabada do autor para a ficção de gênero brasileira. Resta saber se o fandom e o mainstream, monstros ferozes, cheios de tentáculos e presas afiadas, vão entender isso. Se não entenderem, azar deles. Luiz Bras entendeu muito bem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O peculiar

A Terra Velha, também conhecida como o mundo das fadas, liga-se ao mundo dos homens por portais que surgem eventual e naturalmente. Nesses episódios, homens desatentos os atravessam para ficar para sempre presos nas florestas selvagens da magia, ou fadas vêm parar aqui, onde definham por causa da magia fraca. Mas, em raríssimas vezes, surgem portais grandes o suficiente para que muitas fadas atravessem para o nosso mundo. É quando as coisas realmente ruins acontecem. Foi o que ocorreu em Bath, uma pequena aldeia próxima de Londres, na noite de 23 de setembro de algum ano no século 19. Todos os aldeões desapareceram misteriosamente e uma horda fadas selvagens começaram a causar todo tipo de problemas nos arredores. O exército interveio e uma guerra feroz aconteceu. No início, foi um massacre, mas aos poucos os homens aprenderam a subjugar as fadas e acabaram por vencê-las. Com o fim do conflito, que ficou conhecido como Guerra Sorridente, o mundo mudou. As fadas se tornaram um recurso valioso entre os homens, como fonte alternativa à tecnologia, embora esta ainda predomine na maior parte do mundo. Máquinas movidas a carvão e magia são coisas corriqueiras. Na virada do século, homens e fadas desfrutam de uma convivência quase pacífica, embora estas ainda estejam, em sua maior parte, escravizadas ou segregadas em guetos insalubres. As fadas até são toleradas, ao ponto de terem representantes no Parlamento, mas uma categoria delas é odiada pela sociedade, tanto humana quanto mágica: os peculiares, popularmente chamados de medonhos. Filhos da união entre fadas e homens, sem ser nem homens nem fadas, os peculiares são odiados e perseguidos até a morte. Por isso, ninguém ligou quando corpos ocos de peculiares jovens começaram a surgir boiando no Tâmisa.
Na periferia favelada de Bath, no Beco do Velho Corvo, os irmãos peculiares Bartholomew e Hattie Kettle moram com sua mãe humana. Seu lema de vida é "não seja notado e não será enforcado". Por isso, vivem escondidos no barraco que chamam de casa, fora das vistas de todos. Mas como a curiosidade também é um traço forte nas crianças peculiares, Barth vê quando uma linda e elegante dama num vestido cor de ameixa leva embora um de seus poucos amigos, peculiar como ele, entregue pela própria mãe a troco de alguma coisa. Mas a bisbilhotice de Barth não passou despercebida.
Em Londres, o despreocupado Sr. Jelliby segue com sua vida confortável como representante no Parlamento. Sobreviver às tediosas reuniões políticas é o principal desafio de sua vida, sendo que passa o restante de seu tempo em festas, espetáculos e bons restaurantes da metrópole. Mas o destino tem outros planos para ele e as coisas começam a acontecer muito rápido quando é obrigado, muito a contragosto, a comparecer a uma reunião social protocolar na residência do Lorde Chanceler John Wednesday Lickerish, a mais bem posicionada fada do império. Quando mais um peculiar é encontrado no Tamisa, um turbilhão de acontecimentos sinistros colocará o Sr. Jelliby ao lado do jovem Bartholomew, empurrando-os literalmente em direção ao fim do mundo.
O peculiar (The peculiar) é o romance de estreia do jovem escritor americano Stefan Bachmann, publicado em 2012 pela Harper Collins quando tinha apenas 19 anos, sendo elogiado por autores como Rick Riordan e Christopher Paolini. Bachmann nasceu em 1993, no Colorado, e vive atualmente em Zurique, na Suiça, onde estuda música, tendo composto uma trilha sonora para o livro, disponível em ThePeculiarBook. A edição brasileira veio em 2014 pelo selo Galera Junior da editora Record, com tradução de Viviane Diniz.
O romance impressiona pela concisão e boas ideias, dialogando com obras vultosas como o premiado Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke. Há um toque steampunk secundário na trama, embora seja um elemento útil em vários momentos. Também há méritos do autor na habilidade em reconstruir o ambiente britânico, algo que nem todo americano consegue tão naturalmente.
Bachmann escreveu uma sequência, The whatnot, publicado em 2013 e já anunciado pela Record com o título de Não-sei-o-quê, cujo capítulo inicial está disponível para leitura aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A casa assombrada

O apelo sinistro que um casarão antigo evoca no espírito humano é irresistível e os muitos fenômenos naturais que ocorrem nesse tipo de construção, como ruídos geralmente causados pela acomodação do madeirame, pelo vento assoviando nas frestas e por animais abrigados em suas paredes, e visões causadas pelo reconhecimento de padrões em seus detalhes barrocos, contribuem ainda mais para criar uma aura de mistério e assombro. Não é de admirar, portanto, que algumas das mais assustadores histórias de horror têm em construções assombradas os seus principais protagonistas: A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson, A casa sobre o abismo, de William H. Hodgson, A casa das bruxas, de H. P. Lovecraft, O iluminado, de Stephen King, e O castelo de Otranto, de Horace Walpole, são apenas alguns exemplos que demonstram ser este um dos mais bem explorados filões do gênero.
O bem sucedido escritor irlandês John Boyne, que fez enorme sucesso com o premiado drama O menino do pijama listrado – também adaptado para o cinema – decidiu enveredar por esse auspicioso território em A casa assombrada (This house is haunted), romance ao estilo gótico que homenageia esse modelo narrativo, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras com tradução de Henrique de Breia e Szolnoky.
A história conta como Eliza Caine, jovem londrina de meados do século 19, responde a um anúncio de jornal para o emprego de governanta em Gaudlin Hall, propriedade na área rural da Inglaterra, depois que, com a morte do pai, fica sem recursos de subsistência na capital. O trabalho parece adequado a ela, que tem experiência como professora de crianças, tarefa que será sua principal função nesse emprego. Contudo, muitos mistérios cercam o trabalho, a começar do momento em que Eliza desembarca do trem na pequena estação de Norfolk. A falta de informações sobre suas responsabilidades no trabalho, a ausência de seus empregadores, o estado de decadência do casarão e a estranheza das duas crianças das quais terá de cuidar, Isabella e Eustace, tornam as primeiras horas de Eliza em Gaudlin Hall numa espécie de pesadelo surreal, que não melhora em nada quando, ao deitar para sua primeira noite de sono, sente duas mãos agarrarem suas pernas sob os cobertores.
Contudo, Eliza é uma mulher decidida e resolve enfrentar toda e qualquer adversidade para cuidar das duas crianças inocentes colocadas sob sua responsabilidade. Sua busca por informações na área urbana do condado revela ser ainda mais perturbadora, pois as pessoas a hostilizam de forma evidente. A única fonte confiável de informação parece ser o advogado encarregado de administrar a propriedade, mas ele também a evita e, mesmo quando confrontado diretamente, foge do assunto. Mesmo com tantas dificuldades, agravadas por acidentes graves e bizarros que ocorrem constantemente com ela no interior do casarão, Eliza investiga a história que se esconde atrás das paredes de Gaudlin Hall, que envolve a morte de várias governantas que a antecederam no emprego, e conclui que há um fantasma na casa. Pior, há pelo menos dois.
Embora a história se passe em 1869, o texto de Boyne é moderno e não tenta emular o estilo das antigas narrativas góticas da época, o que tira parte do romantismo que geralmente envolve o gênero. Além do mais, Boyne não é um autor de horror e as poucas tentativas para assustar o leitor são leves e discretas. Cenas de suspense, nas quais um autor especializado no gênero faria o leitor se retorcer em agonia, são rápidas e derivativas, parecendo que o autor ficou com dó dos leitores e decidiu poupá-los de detalhes sórdidos. Um pouco desse efeito é causado pela narrativa em primeira pessoa, com a própria Eliza contando a história. Sendo uma mulher cética e pragmática, não dá muita importância ao sobrenatural e enfrenta os fenômenos como se fossem situações corriqueiras, ainda que mortais.
Ou seja, A casa assombrada acaba por não ser um livro de horror, mas sim um drama familiar de raízes naturalistas com um leve pendão para o espiritismo. Por sorte, o autor evitou habilmente não fazer o romance soar proselitista ou doutrinário, sendo assim uma leitura agradável e positivista, que pode ser lido sem problemas mesmo por leitores que não gostam de histórias de terror. Os fãs de Boyne estão seguros.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

E se?

Havia uma querela entre Isaac Asimov e Arthur C. Clarke quanto a quem escrevia melhor. Ambos tinham formação científica acadêmica, eram romancistas bem sucedidos e também ótimos autores de livros de divulgação científica. Depois de muito debate, chegaram a um acordo: Clarke era melhor romancista e o segundo melhor divulgador científico, e Asimov o melhor em ciências e o segundo melhor romancista. Apesar desse consenso particular, continuaram a fazer ambas as coisas de forma perfeita por toda a vida. Além da excelente ficção, os livros científicos de Asimov e Clarke são ótimos de ler, mesmo para quem não entende absolutamente nada de ciência, pois são claros, simples e empolgantes.
Por isso, não é pouco dizer que desde Asimov e Clarke eu não me divertia tanto com um livro científico quanto com E se? Respostas científicas para perguntas absurdas (Want if? Serious scientific answers to absurd hypotetical questions), de Randall Munroe, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Erico Assis.
Munroe é norte americano, formado em Física e já trabalhou na Nasa como construtor de robôs, mas ficou famoso como autor da tira xkcd, publicada na internet desde 2005. As histórias são feitas com personagens de palitinhos muito expressivos e abordam ciência, tecnologia, amor e humor, é claro. Seguidores apaixonados começaram a enviar perguntas de todos os tipos para Munroe, que resolveu levar isso a sério. Para respondê-las, criou o saite What if?, que também tornou-se popular e foi a base de onde se compilou o conteúdo do livro em questão.
As respostas de Munroe são detalhadas e cientificamente embasadas, ainda que as perguntas sejam absurdas. Ele desenvolve longas considerações a partir de questões como "E se todas as pessoas do mundo ficassem bem juntas e pulassem ao mesmo tempo?", ou "De que altura você teria que soltar um bife para que ele chegasse cozido ao chão?", ou ainda "Se um asteroide bem pequeno fosse superdenso, seria possível morar nele como o Pequeno Príncipe?". Não há dúvida que são perguntas que podem ter ocorrido a muita gente e algumas respostas honestas certamente vão nos fazer dormir melhor. Mas as respostas mais inspiradas do livro podem até ter resultado contrário, mesmo a partir de perguntas bem menos angustiantes, como: "E se você tentasse rebater uma bola de beisebol arremessada a 90% da velocidade da luz?", "E se você reunisse um mol de toupeiras no mesmo lugar?" ou "Quanto tempo levaria para secar os oceanos se um portal para o espaço surgisse na depressão submarina mais profunda?" As respostas são sofisticadas e muito educativas, e podem inspirar ótimas ideias.
Ao todo são 57 perguntas respondidas nas 328 páginas do livro. Contudo, há perguntas que são de tal forma insanas que nem mesmo Munroe foi capaz de responder. Elas fazem parte das seções "Perguntas bizarras e preocupantes", espalhadas em oito capítulos ao longo do livro. Nitroglicerina pura.
O volume é profusamente ilustrado com os mesmos personagens de palitinhos do xkcd, e dão um show. Sem eles, a diversão não seria a mesma.
Se você gosta de ciência e não tem medo de dar uma olhada nos segredos do universo, este é o seu livro. Mas acho importante reproduzir aqui o aviso que o autor faz estampar na primeira página:
"Não tente fazer nada disso em casa. O autor deste livro desenha quadrinhos para a internet e não é especialista nem em saúde nem em segurança. Ele gosta de ver coisas pegando fogo e explodindo – ou seja, é provável que não esteja pensando no seu bem-estar. A editora e o autor não se responsabilizam por quaisquer efeitos adversos que resultem, direta ou indiretamente, de informações contidas nesta obra".
Pensando bem, eu também não me responsabilizo. Leia por sua conta e ris(c)o.

sábado, 27 de dezembro de 2014

André Carneiro (1922-2014)

É sempre difícil dizer adeus a um amigo e, mais ainda, quando esse amigo é mestre justamente no tipo de arte que escolhemos para estudar e amar.
André Carneiro é, sem dúvida nenhuma, o mais importante nome brasileiro no que se refere à ficção científica. Autor de textos sofisticados e perturbadores, de abordagens raras e estilo sempre inovador, Carneiro não evitava temas polêmicos, pelo contrário, os perseguia com afinco. Tanto em prosa, na qual é o autor mais lembrado pelos leitores dentro e fora do País – especialmente pela novela "A escuridão" –, mas também em verso, sendo um dos poucos poetas brasileiros que não teve receio de versejar ficção científica. Carneiro também se destacou na elaboração de estudos sobre o gênero, com seu obrigatório ensaio Introdução ao estudo da 'science fiction', publicado em 1967 que, ainda hoje, é importante fonte de referência acadêmica.
André Granja Carneiro nasceu 9 de maio de 1922 em Atibaia, cidade do interior paulista. Formou-se em jornalismo e foi fundador do importante jornal literário Tentativa, publicado entre 1949 e 1951, um dos mais completos registros do grupo de poetas que ficou conhecido como Geração 45, do qual o próprio Carneiro faz parte.
Seu primeiro livro foi a antologia poética Ângulo & face, publicada em 1949. O envolvimento com a literatura especulativa iniciou-se na Antologia brasileira de ficção científica, organizada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea em 1961, com o conto "O começo do fim". No mesmo ano teve publicado, pelo mesmo editor, o conto "A organização do Dr. Labuzze", na antologia Histórias do acontecerá. Seu primeiro livro solo no gênero viria a ser Diário da nave perdida, coletânea publicada em 1963 pela editora Edart, na qual aparece pela primeira vez o famoso conto "A escuridão". Também a sua segunda coletânea, O homem que adivinhava, foi publicada pela Edart, em 1966.
Carneiro participou ativamente do lendário Simpósio de Ficção Científica, realizado no Rio de Janeiro em 1969, no qual cumpriu a função de chair-man a convite de José Sanz, organizador geral do evento.
Por iniciativa do tradutor e agente literário Leo Barrow que "A escuridão" foi publicado no mercado norte-americano, assim como mais de duas dezenas de outros textos. A primeira publicação em inglês de "The darkness" foi na antologia Best SF 1972, organizada por Harry Harrison e Brian Aldiss. Mais tarde, este o outros textos de Carneiro seriam publicados em diversas outras línguas, tornando-se a obra da fc brasileira mais conhecida no exterior.
Carneiro tinha muitos interesses além da literatura. Foi artista plástico, fotógrafo, cineasta e dedicou muita atenção a arte do hipnotismo, assunto sobre o qual também escreveu diversos livros. Sendo um intelectual em plena atividade, foi perseguido pelas forças militares do golpe de 1964. Carneiro gostava de contar sobre a sala secreta que tinha em sua chácara, de sua participação em grupos de guerrilha e da operação que roubou o famoso "cofre do Adhemar". Apesar da militância, nunca foi preso, mas as experiências que viveu serviram de combustível poderoso para sua ficção.
Uma das temas mais recorrentes da obra de André Carneiro é o feminismo e a revolução sexual. Muitos de seus trabalhos curtos tratam desse tema em maior ou menor grau, mas foi na ficção longa que Carneiro ousou mais, em seus romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991).
Por causa de problemas de saúde, Carneiro transferiu-se para Curitiba em 1999, para ficar próximo a seus filhos, Maurício e Henrique. Mesmo assim, continuou ativo, realizando diversas oficinas literárias e contribuindo para a formação de um núcleo de autores de fc&f na capital paranaense. Um problema progressivo nos olhos dificultou ainda mais a vida de André Carneiro mas, mesmo com menos de dez por cento da visão, continuou a escrever contos e poemas. São dessa fase a coletânea de contos Confissões do inexplicável e a coletânea poética Quânticos da incerteza, ambas de 2007. Seu último livro publicado foi André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas (2009), mas o autor deixou prontas pelo menos uma coletânea de contos inéditos e uma coletânea de crônicas que, talvez, ainda sejam, editadas.
André Carneiro nos deixou no dia 4 de novembro de 2014, aos 92 anos, vitimado por problemas cardiorrespiratórios. Seu corpo foi cremado e as cinzas depositadas ao pé de uma árvore.

Os livros do mestre
Ângulo & face. São Paulo: Edart, 1949. Poesia.
Diário da nave perdida. São Paulo: Edart, 1963. Contos.
Espaçopleno. São Paulo: Clube de Poesia, 1963. Poesia.
O homem que adivinhava. São Paulo: Edart, 1966. Contos.
O mundo misterioso do hipnotismo. São Paulo: Edart, 1963. Não-ficção.
Introdução ao estudo da 'science fiction'. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1967. Não-ficção.
Manual de hipnose. São Paulo: Editora Resenha Universitária, 1978. Não-ficção.
Piscina livre. São Paulo: Editora Moderna, 1980. Romance.
Pássaros florescem. São Paulo: Editora Scipione, 1988. Poesia.
Amorquia. São Paulo: Editora Aleph, 1991. Romance.
A máquina de Hyerônimus e outras histórias. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1997. Contos.
Sem memória. São Bernardo do Campo: Edições Hiperespaço, 2005.
Confissões do inexplicável. São Paulo: Editora Devir, 2007. Contos.
Quânticos da incerteza. Atibaia: Redijo, 2007. Poesia.
André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas. São Paulo: Pantemporâneo, 2009.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Finalistas do Argos 2014

O Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil-CLFC acaba de divulgar os finalistas do prêmio Argos 2014, referente aos melhores de 2013 na opinião de seus associados. O prêmio é identificado por um troféu – ilustrado por Sid Castro – cujo objetivo é incentivar a leitura e a escrita de literatura fantástica em língua portuguesa. São sete os finalistas anunciados nas categorias de Melhor Romance e Melhor Conto.
São eles:

Melhor Romance
Filhos do Éden: Anjos da morte, Eduardo Spohr, Ed. Verus;
Filhos do fim do mundo, Fábio M. Barreto, Ed. Fantasy;
Glória sombria, Roberto de Sousa Causo, Ed. Devir;
Homens e monstros: A guerra fria vitoriana, Flávio Medeiros Jr., Ed. Draco;
O espadachim de carvão, Affonso Solano, Ed. Casa da Palavra;
O homem fragmentado, Tibor Moricz, Ed. Terracota;
Reis de todos os mundos possíveis, Octávio Aragão, Ed. Draco.
Melhor conto
"A copa dos mitos", Christopher Kastensmidt, Brasil Fantástico, Ed. Draco;
"A sacola da escolha", Maria Helena Bandeira, Brasil Fantástico, Ed. Draco;
"Lenda urbana", A. Z.Cordenonsi, Somnium, CLFC;
"Momento decisivo", Luiz Felipe Vasques & Daniel Bezerra, Excalibur, Ed. Draco;
"Soylent Green is people!", Carlos Orsi, Solarpunk, Ed. Draco;
"Viragem", Octávio Aragão, Caçadores de bruxas, Ed. Buriti.

O escritor texano Christopher Kastensmidt, que vive em Porto Alegre há alguns anos, é o primeiro autor estrangeiro a aparecer na lista, e Maria Helena Bandeira, única mulher citada entre os finalistas, a primeira a ser indicada postumanente: a autora faleceu em 2013.
O escritor paulistano André Vianco, autor de alguns dos mais bem sucedidos bestsellers recentes, receberá um prêmio Argos especial por sua contribuição ao gênero.
As votações já estão encerradas, mas o vencedor será conhecido somente no próximo dia 18 de outubro, durante o Jedicon RJ, no Planetário da Gávea, na cidade do Rio de Janeiro.